Capítulo 9 – Desconstrução

2121: Resiliência

Capítulo 9 – Desconstrução

 

– Sentiu saudades, sobrinha? Eu senti. Mas não irei matar as saudades hoje, quem sabe outro dia.

Theo se debateu o quanto pode, sua voz não saia, seu lado esquerdo estava parcialmente paralisado, não tinha forças, nem saída. Tentou buscar o botão que chamava atendimento, mas Elias segurou seu pulso com força.

– Está pensando que aqui tem botão azul? Esqueça, sua única chance de continuar viva é sendo uma boa garotinha, e me deixar fazer tudo que vim fazer.

Theo continuou se debatendo, em pânico. Elias usava roupas verdes de enfermagem, havia previamente adulterado as câmeras que podiam capturá-lo.

– Escute, vai ser rápido, só quero coletar seu sangue e sua medula óssea, por enquanto isso vai me bastar, mas eu volto outro dia para te buscar, você é uma garota preciosa. – Elias continuava segurando firmemente seu pulso.

– Posso te soltar? Colabore comigo e deixo você em paz em alguns minutos, eu prometo.

Theo balançou a cabeça, em positivo, sua mão tremia.

Elias colheu duas ampolas de sangue de seu braço, guardando cuidadosamente numa pequena maleta.

– Isso vai doer um pouco, mas você estará melhor amanhã. Consegue se virar? Preciso que fique de lado.

Theo virou-se com esforço, Elias tirou seu cobertor, baixando seu short e sua calcinha.

– Vou fazer uma punção na sua bacia, e remover um pouco de sua medula do interior do osso. – Elias preparava o local na lateral do seu corpo, um pouco abaixo da cintura. – Você vai ficar bem, não se preocupe, não lhe fará falta.

Theo se retraiu com a dor da grande agulha que lhe foi penetrada, até o interior do osso. Acoplou posteriormente uma seringa no encaixe do aparato da agulha, sugando lentamente um líquido viscoso avermelhado. Tentou gritar, mas não saia palavra alguma.

– É o suficiente. – Elias guardou também o conteúdo recolhido na maleta, a fechando. – Se eu fosse você, não contaria para ninguém que estive aqui, para sua própria segurança.

Theo voltou a posição inicial, Elias subiu sua calcinha, fazendo um gracejo malicioso.

– Se no nosso próximo encontro você estiver sem essa sonda urinária, acho que poderemos brincar um pouco. – Correu a mão por sua perna, subindo até seus seios.

Theo apenas respirava rápido, com um semblante de nojo e medo. Elias a cobriu, e saiu sorrateiramente, em silêncio, apagando a luz. Ela ficou ainda alguns minutos em choque, paralisada, não sabia o que fazer. Apertou o botão de emergência, quando a enfermeira chegou, fez o gesto com a mão que significa dor.

– Dor onde?

Theo descobriu-se, e mostrou a região onde havia sido perfurada.

– O que foi isso? – A enfermeira olhou de perto, sem entender. – Quem fez isso?

Ela saiu do quarto para chamar ajuda, quando voltou, encontrou Theo tendo uma convulsão.

Quando Sam chegou de manhã, lhe deu bom dia e um beijo na testa, mas Theo continuou dormindo. Sam logo começou a pintar ao seu lado, despreocupadamente. Assustou-se com a entrada afobada de Letícia no quarto.

– O que aconteceu com Theo? – Letícia a indagou, se aproximando da cama.

– Como assim? Ela está dormindo.

– Não, ela teve uma convulsão de madrugada, e apareceu com um furo na coxa.

– O que?? – Sam levantou-se abruptamente do sofá, descobrindo o cobertor de Theo. – Onde?

– Aqui. – Letícia mostrou o hematoma com a marca do furo no centro.

– Por que a furaram aqui? Eu não fui avisada desse procedimento. – Sam dizia irritada.

– Não sei, ninguém sabe de nada.

– Ninguém? Como ninguém? Que bagunça é esse hospital?

– Não foi ninguém do hospital, a princípio, eu li no prontuário que ela pediu ajuda de madrugada, disse que estava com dor e apontou esse furo, depois teve a convulsão.

– Ela teve uma convulsão?

– Você não sabia? – Letícia também estava agitada.

– Não, achei que estava dormindo. Temos que descobrir o que aconteceu, como pode essa menina aparecer com um furo no corpo assim do nada? E algo causou a convulsão, ela pode estar com alguma infecção!

– Fique aí, eu vou verificar, ok?

Uma hora depois, e nada de Letícia voltar. Sam andava pelo quarto, baratinada. Percebeu Theo de olhos abertos.

– Theo? Você está aí?

Theo balançou a cabeça negativamente.

– Me entende?

– Theo assentiu.

– O que aconteceu? O que aconteceu essa madrugada? – Sam tentava se controlar, para não a agitar.

Theo apenas moveu a cabeça para o lado, estava grogue por conta da convulsão.

– Amor, apenas responda sim ou não. Teve alguém estranho ou suspeita essa madrugada no seu quarto?

Theo ergueu o polegar.

– Essa pessoa estranha fez algo no seu quadril?

Ergueu novamente o polegar.

– Era alguém que trabalha aqui?

Theo negou.

– Era alguém que você conhece? Conseguiu identificar?

Theo concordou.

– Espera.

Sam colocou a tela sob sua mão, para que ela escrevesse.

Com dificuldade, Theo escreveu letra a letra.

“Elias”

Sam tomou um susto quando entendeu o que estava escrito, cobrindo a boca com espanto.

– Elias esteve aqui? Tem certeza?

Theo assentiu.

– Ele injetou algo em você?

Negativa.

– Por que ele te furou? Para te torturar?

Outra negativa. Theo estava sonolenta, os olhos queriam se fechar.

– Ok, descanse, Letícia já está verificando isso, vamos ver as imagens de vigilância e redobrar a segurança, fique tranquila, vou cuidar disso agora.

Theo procurou a mão de Sam, a segurando.

– Quer que eu fique?

Theo concordou.

– Eu ficarei, durma um pouco, eu prometo ficar o tempo todo aqui do seu lado, combinado?

Letícia retornou pouco depois, não trazia novidades.

– As câmeras foram desligadas, ninguém sabe o que aconteceu, só sabem que alguém coletou sangue e medula óssea.

– Medula?

– Sim, da crista ilíaca, na bacia. Quem faria uma maldade dessas? Isso dói pra caramba, geralmente é feito com anestesia geral ou epidural.

– Elias. – Sam ergueu a tela, mostrando o nome escrito.

– Você acha que foi ele?

– Theo me disse. Ela acordou ainda meio dopada, mas escreveu o nome dele na tela. Ele pode ter feito outras coisas com ela, temos que examiná-la.

– Ela já foi examinada, aparentemente foram apenas essas duas coisas, e o susto que essa menina deve ter levado. Mas por que raios esse louco quer sangue e medula de Theo?

– Lembra aquilo que eu falei sobre Theo ser um clone? Tem a ver com isso, mas é complexo demais para te explicar agora, e é melhor você nem entrar nisso, porque Elias é capaz de tudo, não quero envolver outras pessoas.

– Ok, ok, esse mistério de novo. – Letícia exasperou, e se atirou no sofá.

Sam continuava sentada na cadeira ao lado do leito, segurando a mão de Theo.

– Eu não quero sair daqui hoje, você pode me ajudar?

– Claro, vou tentar achar alguém para me substituir no plantão.

– Vou pedir para Claire aumentar a segurança. – Sam corria seus dedos pela testa e cabelos de Theo, a fitando. – E vou conversar com Doutor Franco, ele precisa fazer a cirurgia para que Theo recupere a voz.

***

Três dias após o incidente com Elias, e Theo voltava de uma nova neuro cirurgia, era esperada uma melhora não apenas na fala, mas também na mobilidade do lado esquerdo.

Letícia e Sam aguardavam que Theo acordasse, estavam espojadas no sofá cinza.

– O que você acha que será que primeira coisa que Theo vai falar? – Letícia perguntou, tentando espantar o sono.

– Fome? Café? Bife?

– É possível. Ou dor, ela ainda está com dor no local da punção que Elias fez.

– Nem me fale nesse homem. – Sam bufou. – Theo fica estranha quando toco nesse assunto, mas acho que ele a molestou, ou a ameaçou de algo.

– Pelas coisas que você me falou, eu não duvido. Sempre achei que esse tio Elias era um nojento, você precisava ver a forma como ele olhava para Theo.

– Ele frequentava a casa dela?

– Geralmente nas festas de família.

Theo acordou, se mexendo lentamente na cama.

– Bom dia, mocinha. – Letícia a cumprimentou, as duas se aproximaram do leito.

– É boa noite, Lê. – Sam a corrigiu.

– Nossa, é mesmo, eu nem percebi que havia anoitecido.

– Theo? Está aí?

A única reação de Theo foi franzir o cenho, parecia incomodada.

– Está com alguma dor?

– É a perna?

Theo apenas se mexia incomodada quando alguém falava algo.

– Tem algo estranho acontecendo. – Sam se dava conta.

– Ela está se irritando com nossa voz, venha aqui. – Letícia levou Sam para fora do quarto.

– O que você acha que aconteceu? – Sam perguntou, com preocupação.

– Talvez seja ainda efeito dos anestésicos, mas parece que algo deu errado.

– Precisamos falar com Doutor Franco. – Sam sacou o comunicador e tentou falar com o médico, mas não foi atendida, mandou uma mensagem.

– Nada?

– Vamos esperar ele responder. Se Deus quiser isso é apenas algo passageiro, daqui a pouco tudo volta ao normal.

O médico respondeu de madrugada, dizendo que iria ao hospital pela manhã. Quando chegou, ele a examinou, e suas feições não pareciam felizes com o resultado.

– Venham ao meu consultório. – O médico de cabelos grisalhos desgrenhados convocou.

As duas sentaram-se apreensivamente nas cadeiras em frente à mesa do médico, que conferia alguns exames em sua tela.

– Os nanobots agiram de forma desordenada, ainda não sabemos o que aconteceu. – Finalmente ele disse.

– Então não houve melhora?

– Na verdade houve uma piora, ela não consegue processar o meio externo, por isso fica agitada quando falam ao seu redor, ela ouve, mas não entende.

Sam correu a mão pelos cabelos, desapontada.

– Como isso pode ser possível? – Letícia se exaltava. – Vocês passaram dias e dias planejando essa cirurgia, e programando os nanobots, como pode dar tudo errado?

– Os engenheiros geneticistas estão verificando. – Doutor Franco dizia calmamente. – Confesso que nunca havia testemunhado tamanho problema com os nanobots.

– Espera… – Sam se dava conta de algo. – Os nanobots são programados baseados em que? No DNA de Theo?

– Sim.

– Deve ser isso. – Sam sacudia a cabeça. – O DNA dela é diferente.

– Como assim?

– Doutor, essa sala é um ambiente seguro?

– É sim, não há vigilância eletrônica aqui dentro. Mas o que você quer dizer com diferente?

– Não me pergunte como, mas Theo é um clone imperfeito, seu DNA é uma bagunça.

– Clone? A clonagem humana ainda é proibida na Nova Capital.

– Você sabe de quem ela é filha, não sabe?

– Isso explica várias coisas, Doutor Franco, inclusive o problema da imunidade e da coagulação. – Letícia completou.

– Digamos que isto seja verdade, onde está a original? O código original seria de grande ajuda, poderíamos programar os nanobots conhecendo o genoma original.

– Está morta. – Letícia respondeu desapontada.

– Mas eu sei onde estão os restos mortais.

– Onde?

– Lê, você iria comigo até lá? É em outro estado.

– Claro. Se for para consertar esse estrago, vou até a China plantando bananeiras.

Sam despediu-se de Theo no início da tarde, sem falar nada, para não a incomodar. Lhe deu apenas um longo beijo na testa, Theo seguia alheia ao mundo.

Duas horas depois, Sam e Letícia pousavam num luxuoso helicóptero da Archer na Ilha das Peças, com todas as credenciais e senhas necessárias para acessar aquela fatídica sala dos horrores. Era inevitável para Sam relembrar aquela noite de aventuras e revelações, a última antes do tiro.

– Letícia, acho que não tenho como preparar você suficientemente para o que você verá aqui dentro, é perturbador, o que eu vi aqui me assombra até hoje.

– Então você já esteve aqui?

– Eu e Theo, mas não posso me alongar nesse assunto. Além dos restos mortais numa gaveta, você verá cinco tubos com os clones de Theo, então prepare-se.

Entraram na sala fria sob os olhares dos seguranças, mal fecharam as portas e Letícia exclamou um grito assustado.

– Eu avisei que era perturbador. – Sam evitava olhar diretamente para os clones.

– Meu Deus… Estão todas vivas?

– Sim, e estou esperando Theo ter condições de conversar para decidirmos o que fazer com essas irmãzinhas.

Letícia andava pela sala, olhando cilindro por cilindro, boquiaberta.

– Você acha que elas sobreviveriam fora dos tubos?

– Acho que não, elas são mais defeituosas que Theo. – Sam respondeu.

– Você consegue se imaginar cercada por seis Theos? – Letícia riu.

– Acho que me apaixonaria por todas. – Sam também riu, quebrando o clima inicialmente tenso.

– Ok, vamos ao que viemos fazer, estou incomodada com esse monte de Theos nuas ao meu redor, onde fica a gaveta?

Sam foi até o final da sala, abrindo a gaveta que parecia um cofre. Ambas removeram o conteúdo que estava dentro de uma caixa acrílica. Guardaram em uma maleta térmica rapidamente, estavam desconfortáveis manuseando aquele pequeno cadáver.

– Tem algo mais aqui. – Letícia percebeu.

– É uma flash, deve ter informações importantes aqui dentro. – Sam abriu uma caixinha onde havia um pequeno chip.

– Vamos levar também, talvez tenha informações sobre o genoma original e sobre a clonagem.

– Ãhn, ok. – Sam guardou no bolso.

– Sam, você pode me responder uma coisa? – Letícia a fitava, pensativa.

– Não prometo responder.

– Por que isso tudo? – Ela correu a mão pelo ar, se referia aos clones.

– Ganância, Lê. Pura ganância do senhor Benjamin Archer.

– Uma pena você não ter conhecido seu sogro, era um amor de pessoa.

– Sério?

– Claro que não, Ben era um babaca egoísta. Vamos sair dessa sala, está me dando calafrios.

Enquanto voavam de volta para San Paolo, Sam resolveu verificar o conteúdo da flash com seu comunicador.

– Está criptografado. – Letícia percebeu.

– Espera, fiz alguns amigos no setor de TI da Archer. – Sam digitou algumas coisas no comunicador. – Pronto, agora é só esperar.

Onze minutos depois.

– Pronto, está decodificado. – Sam começava a ler as informações. – Eu sabia, eu sabia!

– O que?

– Todas as 14 crianças nasceram por cesariana no dia 17 de abril de 2098.

– Faz todo sentido.

– O que faz sentido?

– Você nunca desconfiou de nada? Faz muito mais sentido Theo ser ariana, ela não tem nada de peixes, ela tem toda aquela impulsividade e tal.

– Podemos voltar ao que realmente importa, ou quer conversar sobre astrologia?

– Prossiga.

– Imogen foi a barriga número 13, tem um parêntese ao lado de seu nome, “neutralizada”, tem o nome das outras mães aqui, e quatro delas também tem essa observação ao lado. – Sam ia narrando.

– Você acha que neutralizada quer dizer…

– Sim, queima de arquivo. – Sam disse de forma séria.

– Então restam nove mães vivas, você quer tentar localizá-las?

– Não vejo utilidade no momento, vamos focar nessa questão do genoma, acho que já temos tudo que eles precisam para uma nova cirurgia.

– Mas talvez essas mulheres corram risco. – Letícia disse.

– Eu sei, e acho que Benjamin matou Imogen por conta disso, talvez ela estivesse ameaçando contar o que sabia sobre esse projeto.

– Hum.

Chegaram a noitinha em San Paolo, entregaram tudo ao setor responsável no hospital, Sam foi para casa, e Letícia para um plantão.

A nova cirurgia seria em quatro dias, no sábado à noite Letícia e Daniela visitaram a mansão de vidro, as três se reuniram ao redor da piscina, onde bebiam e conversavam descontraidamente.

– Como você aguenta morar com esse porco chauvinista? – Daniela indagou Sam, estavam nas espreguiçadeiras.

– Não é tão ruim assim, Mike é boa companhia na maior parte do tempo.

– Eu não consigo acreditar nisso, mas tudo bem, você namorou com ele por oito anos, deve estar anestesiada para tanto preconceito e machismo.

– Porque já fui como ele, então sei como a mente dele funciona. – Sam explicava.

– Você ainda tem muita coisa conservadora aí dentro, Samantha. Já tive vontade de te pegar pelos ombros e te sacudir algumas vezes. – Letícia brincou.

– É porque está arraigado aqui dentro, mas aos poucos estou desconstruindo.

– Desconstruindo? Essa é uma ótima palavra, foi Theo que te ensinou?

– Foi sim, ela foi o catalisador dessa minha evolução.

Um silêncio reflexivo tomou conta por alguns segundos, Letícia voltou a falar.

– E se não der certo de novo?

– Será apenas uma batalha perdida, e já perdemos tantas outras batalhas. – Sam respondeu, fitando a água calma na piscina.

– Se esse quadro não for revertido, Theo estará cega, muda, e tecnicamente surda, seria uma situação delicada.

Sam sentiu um nó esmagando sua garganta, e não conseguiu responder.

– Essa noite sonhei que estava assistindo um dos jogos de basquete de Theo. – Daniela disse.

– Ela não era uma das melhores do time, mas quando estava inspirada… Ninguém segurava. – Letícia comentou.

– Não mesmo, ela saia derrubando todo mundo que se metesse na sua frente. – Daniela riu, perceberam o semblante triste de Sam.

Letícia saiu de sua espreguiçadeira, e deitou-se ao lado de Sam.

– Venha cá, você está precisando de um abraço e um pouco de cafuné. – Letícia trouxe Sam para seu colo, afundando seus dedos em seus cabelos, carinhosamente.

Longos minutos depois, Sam voltou a falar.

– Está tudo errado, não está? – Sam disse, com a voz baixa.

– Sim, tudo de cabeça para baixo, Theo caprichou na reviravolta.

– Não foi culpa dela.

– Agora seria um bom momento para você contar por que ela tentou se matar.

Sam suspirou pesadamente, decidindo o que fazer.

– Ok, eu volto já.

Sam saiu da área da piscina, entrando em casa. Retornou com um papel em mãos, entregando à Letícia.

– Mas tem sangue nesse papel.

– Tem sim, é a carta de despedida de Theo. Acho que você vai ter uma ideia do que aconteceu lendo isso. Leia os dois lados.

Letícia leu tudo atenciosamente, Daniela aproximou-se, sentando ao lado. Ao final, Letícia estava boquiaberta.

– Foi por você. – Letícia concluía.

– Ela não queria morrer, ela não queria ir embora, vocês não imaginam o quanto essa menina chorou antes de fazer isso, mas eu não sabia dos seus planos, era uma despedida.

Daniela terminava de ler.

– Caramba, ela te ama mesmo.

– É recíproco, Dani.

– Amor, se seu coração estiver prestes a parar, vou te ligar numa tomada, ok? – Daniela brincou com Letícia.

– Ótimo, não aguentaria carregar essa culpa, não.

– Pelo menos ela sobreviveu, e você também. Dos males o menor, o resto é nanobots e fisioterapia. – Daniela finalizou.

Sam arranjou pijamas para todas, acabaram dormindo na enorme cama de Theo, após algumas horas conversando, até serem vencidas pelo sono.

Desavisado, Mike abriu a porta do quarto de Sam no dia seguinte, assustando-se com a presença delas. Sam era a única acordada, estava no banheiro.

– Que baixaria é essa? – Exclamou, acordando as duas ao mesmo tempo.

– Não te ensinaram a bater na porta, não? – Letícia resmungou.

– Eu posso entrar no quarto de Sam quando eu quiser.

– Não pode, não. – Sam vociferou ao sair do banheiro. – Agora deixe de ser mal-educado e nos deixe a sós, você está constrangendo as meninas.

– Meninas? – Mike riu irônico.

– Saia, Mike, faça essa gentileza, deixe de ser desagradável. – Sam pediu.

– Você ainda não conhece meu lado desagradável. – Rosnou e saiu.

***

O dia da quinta cirurgia chegou, Theo havia voltado para o quarto no início da noite. Na manhã seguinte Doutor Franco aguardava que ela acordasse, ao lado de Sam e Letícia.

– Deixem as expectativas baixas, é melhor assim. – Ele as orientava.

– Eu já nem rezo mais para que ela volte a falar, se ela voltar ao estado que estava antes daquela cirurgia, já estará ótimo. – Sam disse.

Minutos depois Theo mexeu-se na cama, abrindo os olhos.

– Opa, alguém acordou. – Todos levantaram.

– Bom dia, recruta. – Sam tomou sua mão, a cumprimentando, mas não houve resposta.

– Theo? Sou eu, seu adorado médico, consegue me ouvir?

Theo continuava com um olhar vazio, que mudava lentamente de foco de vez em quando.

– Amor, se me ouve aperte minha mão.

Nada aconteceu.

– Ela não está aqui, mas talvez acabe voltando em breve. – Letícia disse, com decepção.

– Theo, olhe na direção da minha voz. – Doutor Franco tentava.

– Não deu certo… – Sam constatava, com um suspiro triste.

– Theodora, você está aí? É bom começar a falar, estou achando você muito quieta. – Letícia brincou.

Não havia reação alguma, nem sequer desconforto.

– Não desanime, continuaremos tentando. – O médico afastou-se da cama. – Vou falar com minha equipe, começaremos a desenvolver novas soluções ainda hoje.

– Mas que droga… – Sam atirou-se no sofá.

– É só mais uma batalha, lembra? Ganharemos outras. – Letícia a confortava.

– Retornarei à tarde, irei fazer alguns testes e examiná-la de forma mais minuciosa. – O médico despediu-se abandonando o quarto.

Letícia também foi embora logo depois, estava atrasada para o plantão das oito.

Sam ficou alguns minutos com o rosto enfiado nas mãos, desolada, sentia a situação regredindo cada vez mais.

– Bom dia, oficial.

 

Desconstrução: s.f.: base da transformação humana, quebrando paradigmas, desconstruindo dogmas, e questionando regras sociais para que possamos ir para o próximo estágio de uma liberdade que desconhecemos.

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comentários

10 thoughts on “Capítulo 9 – Desconstrução

  1. Argh! Mike é insuportável, esperando para que a mão de alguém escorregue e acerte um soco acidental em seu rosto, assim como alguns pontapés também. Sabe como é, coisas da vida, acontece.

    Que bom que Theo voltou a falar! Pelo menos eu espero que tenha sido ela.
    Bjos, Cris. Até o próximo cap!

  2. Ahhhhhhhhh que capítulo incrível!!!! É muita ansiedade pra uma pessoa só, quero logo o capítulo 10, Theo está voltando e eu quero ver logo ela enxotando o Mike de uma vez por todas, pois esse cara é extremamente desagradável.

  3. Eitaaaaaaaaaaaaa………………………..ai meu coração!
    Concordo com a Ana e a Fernanda:”tantos clones dando bobeira por aí…”
    Ô Crisssssssssssssssssssss…………………….. 😉

  4. A Theo melhorou. Será que o uso do DNA fará com que ela volte a enxergar?
    O Mike ainda não mostrou o lado desagradável? E a Sam está esperando o que,antes que ele mostre? Acontecer alguma coisa com a Theo,por culpa dele?

  5. Ok. Nao era sonho.
    Louca pro Mike mostrar o tal lado “desagradavel”.. Assim Samantha se toca logo e manda pastar. AMO o casal Leticia e Daniela..

  6. Caraca, foi a Theo que cumprimentou a Sam certo? Quantas emoções para apenas um capítulo! Já não aguento mais ver a Theo sofrer. Foram tantas provações e ela está firme. Sou fã dessa garota! Aliás, será que esses clones todos não poderiam doar uma nova mão e novas córneas para a nossa guerreira?

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