#PHpoemaday

PH Poem a Day – Dia 15 – O café

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Dia 15 – O café

Que acelerada essa menina, ela sempre reclamava

A pressa, dos ritmos era o seu mais lento

Avoada, esbaforida, ouvia duas ou três palavras

Viver na correria era seu intento

 

Corre pra casa, sua namorada chamava

Que essa noite você será alento

Mas na saída, um cafezinho preto a esperava

Queimou dedos e língua, estragou o evento

Published: dezembro 16, 2014 | Comments: 0

PH Poem a Day – Dia 14 – A clavícula

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Dia 14 – A clavícula

O forninho caiu, quebrando a clavícula de Juliana. Geovana já chamou o Xamu.
Ninguém sai.

Published: dezembro 13, 2014 | Comments: 0

PH Poem a Day – Dia 13 – O marinheiro

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Dia 13 – O marinheiro

A grande nau cortava ondas ferozes numa tarde de mar tempestuoso, embalando marinheiros italianos que se aproximavam de casa, após meses de navegação no mar aberto. Os porões vazios, os bolsos cheios, e apenas almejavam deitar em suas camas com suas esposas.

– Estamos próximos da Ilha de Capri! Protejam seus ouvidos! – O honrado capitão alertou à todos, do alto da popa.

Mudaram sua rota para chegarem mais rápido em sua terra natal, mas desta forma passariam próximo aos rochedos da temível ilha conhecida pelas histórias de sereias, seres sedutores com cantos irresistíveis, que atraiam e matavam marinheiros que por ali passavam.

– E o senhor Capitão, por que não cobrirás seus ouvidos? – Perguntou um tripulante, já preparando os tampões para suas orelhas. – Pedirás que o amarrem ao mastro, como Homero fez em sua odisseia?

O sábio capitão desceu os degraus que o colocavam acima do convés, aproximou-se e disse em tom confessional:

– Não preciso, sou imune ao canto das sereias.

– Nenhum homem na terra ou nos mares resiste àquela sinfonia feminina e mortal, senhor. – O jovem tripulante respondeu.

– Garoto, coloque seus tampões e tome seu lugar, elas não me seduzem, sejam sereias ou mulheres de fato.

O jovem obedeceu suas ordens, mesmo contrariado e sem compreender o capitão, que caminhou de forma altiva até a proa, prostrando de pé, observando atentamente as pedras com sua luneta.

O barco movia-se lentamente, todos já estavam preparados para os cantos que não seriam ouvidos, mas também esperavam atentamente a imagem das belas mulheres, metade escamas, metade pele.

O capitão franziu as sobrancelhas, fitava boquiaberto às pedras à sua frente, o canto já podia ser ouvido.

– Raios! Raios! – Ele bradava, após atirar a luneta ao chão, com desespero. – Me tragam os tampões de ouvido! Rápido!

Mas era tarde demais, o capitão atirou-se ao mar, nadando na direção dos rochedos, onde tritões emitiam seu canto sedutor.

Published: dezembro 13, 2014 | Comments: 0

PH Poem a Day – Dia 12 – O som ao redor

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Dia 12 – O som ao redor

É difícil ser monstro nos dias de hoje. A concorrência com os humanos é desleal, estão mais violentos do que nunca, assustam muito mais do que nós.

Antigamente as criancinhas se assustavam a noite e corriam para o quarto dos pais, gritando que eu estava embaixo da cama, ou no armário. Agora gritam dizendo que tem ladrão em casa.

Eu não quero roubar nada, apenas apavorar esses protótipos humanos que chamam de crianças. Acabo assustando adultos às vezes também, por diversão. Sabe aquele barulho apavorante que você houve no quarto, que parece vir de baixo da cama, justamente quando está tudo escuro? Sou eu te sacaneando. Ou algum colega meu se divertindo.

Adoro ver pés para fora da cama, sempre dou um jeito de correr minhas unhas compridas por eles, os humanos acordam num salto, com a certeza que tem um inseto ou algo pior no quarto.

Com crianças eu prefiro o jogo do armário infernal, fico lá dentro por horas, até a criança chegar ao limite do medo, e começo a grunhir sons quase demoníacos, ruídos de pessoas sofrendo, lamúrias, todo tipo de som que destrua os nervos mirins.

Funcionou, não funcionou?

Published: dezembro 12, 2014 | Comments: 0

PH Poem a Day – Dia 11 – A fantasia

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Me segure como se eu fosse um peixe em fuga, me puxe como se eu estivesse resistindo, como se pesasse uma tonelada. Mas me empurre de volta, me derrube na cama com as mãos espalmadas em meu peito.

Eu te permito ir até onde a palavra de segurança permita, porque eu sei que você obedece. É a única ordem que minha domme obedece. Sunstone. E você vira estátua, me solta, desprende, desafivela, desenterra.

Ah se eu soubesse o que você sente quando tudo acaba, quando as cordas caem, o couro jaz ao lado da cama, o látex me despe e os ruídos abafados cessam. Quando restam apenas dois corpos nus, com marcas deveras prazerosas, os pulsos ainda vermelhos, o vermelho ainda pulsante.

Eu era sua, a sua dominada, a sub. Mas enquanto você dormia em meu peito eu sussurrei, sem me dar conta. “Minha Ally.” Eu já estava apaixonada, mergulhada num novo mundo, mas tão antigo para mim, tão almejado e desejado. Espera aí! Mas Ally é uma mulher!

Outro problema para lidar.

Você continuava me jogando de bruços na cama de argolas como numa atuação roteirizada, usando seu repertório de fantasias e acessórios. O mais estranho guarda-roupas de halloween já visto! Algum desavisado diria.

Mas eu queria mais, queria mais que seu couro, eu queria sua carne, seu coração e seu amor. Você zombaria de mim se eu dissesse que de todo esse espetáculo carmesim, é o seu beijo o golpe mais forte que aplicas?

(inspirado pela HQ Sunstone, do Stjepan Sejic – shiniez.deviantart.com)

Published: dezembro 12, 2014 | Comments: 3

PH Poem a Day – Dia 10 – O eclipse

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Published: dezembro 12, 2014 | Comments: 0

PH Poem a Day – Dia 9 – A loucura

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Dia 9 – A loucura

Eu precisava chegar à algum lugar, tinha pressa, mas sequer sabia para onde ir. Ok, eu não me importava para onde estava indo.

E assim fui, pela floresta tão gigante, não, pela floresta tão pequenina, espera, pela floresta tão… Um jardim?

Um gato com sorriso reto e rabo inquieto me disse que qualquer caminho me levaria ao lugar algum que eu procurava.

Tudo bem um gato falante, mas… Um gato que sorri?

São todos loucos aqui, já estou me acostumando.

Ah não… Mais loucos à vista? Um homem com chapéu grande e espalhafatoso e uma lebre requintada.

Posso tomar chá com vocês? Perguntei. E o coelho me disse que não havia chá. Havia sim!

Joguei o relógio do chapeleiro dentro de uma xícara, para provar que haviam xícaras com chá.

Foi então que o coelho segurou meus braços contra minhas costas, o homem com chapéu engraçado segurou minhas pernas, e quando percebi, estava dentro do meu quarto novamente. Odeio esse hospício.

Published: dezembro 11, 2014 | Comments: 0

PH Poem a Day – Dia 8 – A montanha e o rio

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Dia 8 – A montanha e o rio

No caminho do novo rio havia uma montanha. Havia uma montanha no caminho do novo rio.

– O que faremos agora? – Perguntou o engenheiro ao empreiteiro.

– Dinamize.

– Dinamize?

– Dinamite.

Published: dezembro 11, 2014 | Comments: 0

PH Poem a Day – Dia 7 – As margaridas

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Dia 7 – As margaridas

Bom dia amor

Acorda, te trago flores. Rosas? Não margaridas, duas, eu e você

É um belo dia, o mais florido do ano, porque é o nosso dia. O dia das margaridas que se encontraram

O sétimo, que é do mês doze, e agora somamos oito. Oito anos, e duas margaridas

Dizem que os crisântemos são resistentes, as tulipas aguentam o rígido do frio, orquídeas então? As maiores representantes da dicotomia força e delicadeza. Mas nós sabemos que as margaridas vencem tudo, eu e você contra o mundo (e contra as probabilidades)

As flores são para comemorar aquele dia, aquele, o dia que as margaridas se encontraram

Já falei do amor das margaridas? Eu e você, eu por você, te amo

(em homenagem aos oito anos de vida ao lado da minha margarida, Lorena. (e levemente inspirado na música “bom dia” do los hermanos)).

Published: dezembro 7, 2014 | Comments: 4

PH Poem A Day – Dia 6 – O cabelo

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Dia 6 – O cabelo

 

– Rapunzel! Jogue suas louras tranças! – O esbelto príncipe bradava abaixo da torre, com sua roupa pomposa de mangas fofas.

Mas nada aconteceu.

– Rapunzel, meu amor, jogue suas tranças!

Apenas o estridular dos grilos pode ser ouvido.

– Rapunzel?

E nada.

– Zezel?

– Quiquié seu chato? – Rapunzel surgiu na janela no alto da torre, com ares de impaciência, ajeitando seus óculos.

– Jogue suas longas madeixas com fios dourados e de doce encanto!

– Nem inventa, hoje tenho que terminar um paper para o mestrado, estou com cólicas, meu Whey terminou, não é um dia bom. Vá para casa.

– Mas minha preciosa, eu vim te salvar!

– Você entende de vanguardas artísticas e paradigmas contemporâneos na arte? Não, então não tem como me salvar.

– Mas eu subo aí todas as noites, você é minha…

– Amiguinho, já te pedi desculpas por aquela bruxa ter te cegado, já derramei minhas lágrimas em você e você voltou a enxergar. Tá querendo mais o quê? Vai beber com seus amigos, tenha vida própria.

– Mas você me pertence agora, sou seu príncipe, jogue logo estas tranças!

– Pertence? Simone de Beauvoir mandou lembranças. Beijinhos e da próxima vez arranje uma escada.

Published: dezembro 7, 2014 | Comments: 2

PH Poem A Day – Dia 5 – O sabiá

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Dia 5 – O sabiá

Ele não falhava: sempre na hora do café da manhã e à noite, o sabiá aparecia na janela da casa de Noelle e Edcarlos, já se tornara praticamente o terceiro membro da família Medeiros.

Noelle só o percebia quando começava seu canto desengonçado, mas que lhe agradava. Edcarlos sempre o percebia.

– Por que esse passarinho escolheu justamente nossa casa, com tantas outras na vizinhança? – Edcarlos questionou, enquanto passava lentamente margarina em sua torrada, fitando a janela.

– Sei lá, vai ver ele gosta das árvores do nosso quintal, ou fez ninho no mamoeiro. Me passa a caixa de suco.

– Ele mora na mangueira.

A noite era a mesma coisa, o pássaro de peito laranja aparecia na janela do cômodo onde o casal estivesse, parecia querer dar seu espetáculo para alguma plateia. Nem sempre cantava, às vezes apenas ficava ali, de um lado para o outro, movendo a cabeça de forma engraçada.

Voava e retornava minutos depois, talvez fosse para outras casas, outras árvores, a pracinha do bairro, mas nunca deixava de fazer suas visitas àquela casa.

– Não, não, ele só voa daqui para as árvores do nosso quintal. – Edcarlos comentou, ao terminar a janta.

– Sorte nossa, que temos um passarinho bonitinho nos fazendo companhia por vontade própria. – Noelle entregava os pratos para Edcarlos, que os levava à pia.

Numa noite em que foram dormir mais cedo, o sabiá estava de prontidão na janela do quarto, ora cantarolava, ora dava seus passinhos pelo batente.

– Ele está me olhando. – Edcarlos reclamou.

– Pelo amor de Deus, deixa esse passarinho em paz e continua fazendo o que você parou.

– Ãhn?

– Sexo, Edcarlos.

O casal voltou à sua atividade libidinosa e Edcarlos finalmente ignorou o sabiá em sua janela.

Em seguida, o pássaro voou de volta para a mangueira, onde passava suas noites.

O sabiá entrou no pequeno buraco no tronco da árvore, num espaço oco. Colocou seus óculos, puxou a cadeira para perto da escrivaninha, e acendeu um cigarro.

Pigarreou antes de começar a datilografar em sua máquina de escrever:

“Capítulo 28 – A vida sexual dos Medeiros”

Published: dezembro 5, 2014 | Comments: 0

PH Poem a Day – Dia 4 – O verão

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Dia 4 – O verão

Eu não queria matar. Não posso dizer que nunca tive esse ímpeto antes, quem nunca? Mas as ordens são claras, não é uma voz humana, sequer é uma voz dessa dimensão, são as instruções do altíssimo poder das trevas.

Essa madrugada as coisas saíram do trilhos, essa arma Bulldog 44 não foi uma boa escolha, como posso ter precisão com algo assim, e num momento tão importante? Amanhã saberei pelos jornais sangrentos se eles morreram, principalmente aquele jornaleco de Manhattan, que pensa estar um passo a minha frente. Nem a polícia está perto de mim, porque Sam me protege, me faz promessas, além de me orientar.

O todo poderoso da escuridão se manifesta de formas diversas, é um teste. Tentei ignorar aquele cachorro, como pode um animal ser o veículo de uma entidade tão grandiosa como Sam? Mas assim Sam escolheu, e assim eu sigo as ordens de continuar atirando nestes seres insignificantes, que ameaçam os planos maiores de dele.

Não estou contando, não sei quantas almas já mandei para eles, alguns teimam em sobreviver – maldita Bulldog 44 – outros demoram a abandonar seus corpos. Eu não quero fazer isso, mas não irei parar até que a morte derrube esse saco de papel das minhas mãos, em definitivo.

No nosso grupo dizem que sou um iluminado por conseguir me comunicar com Sam, invejam meu dom de ouvir o instrumento animal. Eu não me invejo.

A guerra do Vietnã acabou há pouco, as pessoas nunca estiveram com seu ego e senso de liberdade tão aguçados como agora, estão nas ruas. Nova Iorque arde em chamas invisíveis, esse ritmo alucinado que chamam de punk os enlouquecem um pouco mais, e eu tenho meus alvos desatentos e pretensiosos nas ruas, nas madrugadas. Se acham imortais até o momento da minha colheita, da colheita de suas almas pecadoras e corrompidas.

Mandarei um carta amanhã, direi meu nome aos jornalistas carniceiros de plantão, e à polícia incompetente. Saberão de quem sou filho, e que este é o verão dele, o verão de Sam.

(baseado na história real do serial killer David Berkowitz, que ficou conhecido como “O filho de Sam”.)

Published: dezembro 4, 2014 | Comments: 0

PH Poem a Day – Dia 3 – O esquecimento

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Dia 3 – O esquecimento

Rosemeire era uma católica fervorosa, dessas de promover novenas até para santo que não existia ainda. Havia acabado de desencarnar, bater as botas, passar dessa para uma melhor.  Pelo menos era o que ela esperava ao morrer, chegar ao tão almejado (e prometido) paraíso.

– E onde está Deus? – Ela foi logo perguntando ao guardião, ansiosa.

– Qual deles?

– Como assim?

– São tantos… Mas me acompanhe, venha conhecer mais um pouco do mundo inferior.

– Inferior?? Você quer dizer inferno?

– Sim e não, aqui tem vários lugares com várias denominações, são vários infernos.

– Eu me recuso a prosseguir, eu fui uma senhora religiosa e honrada, paguei o dízimo, comprava rifa de bolo, frango assado, fazia a liturgia, varria a igreja quando aquela abestada da Cida não fazia na minha frente. Eu tive uma vida de lisura, exijo ser levada ao céu!

– Quem sabe você vá para os Campos Elíseos, poderá passar algumas centenas de anos por lá, antes de retornar ao mundo dos vivos.

– Que droga de campos do Eliso são esses? Não vi isso na bíblia.

– Campos Elísios. Se você tem uma alma virtuosa como diz, tenho certeza que terá este agradável lugar como destino. Lá reina a beleza natural, o gorjeio dos pássaros são como canções, e à sombra das árvores frondosas poderás degustar das saborosas frutas dos pomares.

– Hum. Soa como o céu. Deve ser o céu. Padre Firmino pode ter se confundido quando me deu a extrema unção, dizendo que eu iria diretamente para o céu, deve ter errado os nomes. Também, pudera. – Deu de ombros. – Aquele padre caduco, não sei como não o mandaram para um asilo ainda.

O guardião a olhou de lado, apenas balançando a cabeça numa leve assimilação do que dizia Rosemeire. Continuou a conduzindo pela mão, o caminho era simples, tinha um leve nevoeiro e árvores estranhas, um rio com águas melodiosas acompanhava a estrada rústica.

– Mas considere a possibilidade de ter como destino final o Tártaro. – O guardião fez a ressalva.

– É o céu? Não, não deve ser. Mocinho, você não sabe com quem está falando, não é mesmo? Me leve logo para esse tal de campos do Eliso, eu dediquei meus 72 anos ao serviço à Deus, ou aos deuses, como você falou. Sabe quantas vezes fui nomeada presidente do grupo de mães católicas da paróquia? Treze vezes, treze! Padre Firmino sempre escolhia a mim para guardar e repor o vinho do altar, ele sabia que podia confiar, porque se deixasse na mão da Maroca não duvido que ela bebesse tudo às escondidas, aquela beberrona.

– Senhora…

– Menino, você por acaso é coroinha ou noviço? E eu não gostei dessa história de voltar ao mundo dos vivos, sempre me disseram que eu ficaria para sempre ao lado de Deus pai, e é por aqui que vou ficar. Como você anda devagar! Vou reclamar para seu superior, é algum santo? Deve ser um desses santos chinfrins, que não mandam em nada, nem tem dia comemorativo, festa, nada. Se tiver que andar muito para chegar nesse campo me avise, porque tenho varizes e…

– Senhora, por gentileza, venha até a margem do rio. – Ele disse com impaciência.

– E agora?

– Beba um pouco dessa água.

– Que rio é esse? E se a água for suja? Tiver coliformes fecais?

– É limpo, garanto, todos bebem dessa água, se chama Rio Lete.

E Rosemeire bebeu das águas do rio do esquecimento.

Published: dezembro 3, 2014 | Comments: 2

PH Poem A Day – Dia 2 – A memória

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Dia 2 – A Memória

– Acessando memória de João Epaminondas Silva, aguarde enquanto a conexão é estabelecida.

(alerta: não desconecte o cabo do seu cérebro)

– Listando pastas de memórias, divididas por intensidade.

– Você selecionou a pasta ‘Amores’, pontuada com intensidade 10.

– Listando subpastas, ordenadas por data de inclusão (da mais antiga para a mais recente).

– Selecione a pasta desejada:

– Marina, – Dolores, – Sandra, – Almudena, – Francisca.

– Pasta ‘Francisca’ selecionada, escolha a ação.

– Deseja excluir a pasta ‘Francisca’ e todo seu conteúdo sentimental e lembranças?

(alerta: talvez você a perdoe algum dia. Pense bem.)

– Pasta excluída com sucesso.

– Limpar a lixeira.

– Tem certeza que deseja limpar a lixeira? Esta ação é definitiva.

– Lixeira esvaziada com sucesso.

– Criar nova subpasta em ‘Amores’.

– Pasta ‘Rubens’ criada com sucesso.

Published: dezembro 2, 2014 | Comments: 2

PH Poem A Day – Dia 1 – O começo

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Hoje começa o PH Poem a Day de dezembro, que está de volta com novos temas. E é claro que irei participar.

Acaba um maratona literária, começa um desafio literário, e assim eu emendo o PH Poem A Day após finalizar (e vencer) o NaNoWriMo.

Quem quiser conhecer mais sobre esse projeto fofíssimo da Vanessa Chanice, visite o blog  www.vanessachanice.com

É bem provável que eu não consiga participar todos os dias, mas pelo menos o tema de hoje tá na mão:

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Dia 1 – O começo

E Joanice, que amava Homero, jogou com pesar a última flor branca, que repousou torta em cima do caixão.

 

 

No trajeto igreja-cemitério derrubaram no chão a bandeira do Flamengo, que cobria o simples caixão marrom. Homero morrera pensando em suas duas paixões: o rubro negro e Filomena, a bela dos cabelos cor de girassol desbotado.

 

 

A cerimônia foi rápida, um culto rezado pelo diácono do bairro, e na igreja não mais que 30 pessoas despediam-se de Homero, que partira precocemente de maneira tão abrupta e acidental.

– Pobre Homero, que desgosto teria em saber que Filomena sequer veio em seu velório. – Murmurou seu primo Evair.

– Desgosto maior seria se ele visse essa sua camisa do Vasco. – Joanice espezinhou.

 

 

No hospital tentaram reanimar o corpo inerte de Homero, mas a pancada na cabeça fora fatal. Um escorregão. Uma queda. Uma pedra no lugar errado e na hora errada havia selado seu trágico destino.

– Não. – Corrigiu Joanice. – Uma flor no lugar errado, para a pessoa errada.

 

 

Quem encontrou Homero caído, com um filete de sangue esvaindo de sua testa, fora o cachorro de Dona Mariquinha, que invadiu o jardim florido do quintal dele. Os latidos atraíram a atenção dos transeuntes, que acreditaram poder salvar a vida daquele homem desacordado, o levando rapidamente para o hospital.

 

 

– Hoje será o começo de uma nova fase! Joanice, quero que me ajude a escolher as mais belas rosas do meu jardim!

– Ah meu querido Homero, como és delicado e atencioso! – Joanice respondeu, com garbo.

– Pronto, uma flor rubra e uma flor negra, porque ela é flamenguista como eu. Hoje pedirei Filomena em namoro. – Homero falou radiante, ao cortar delicadamente as rosas.

– Filomena?? – Joanice bradou, possessa e surpresa.

– Joanice, o que estás fazendo com esta pedra na mão? – Homero perguntou, assustado, após colher duas rosas em seu jardim.

 

(Nada melhor que escrever um texto sobre “o começo” começando do final, não é mesmo?)

Published: dezembro 1, 2014 | Comments: 5

Dia 6 – Azul – Poem a Day

Ok, o desafio #PHPoemADay foi em junho, mas não pude continuar participando por falta de tempo, então nada melhor que neste hiatus de escrita de grandes histórias, que eu retome tardiamente aos micro contos, seguindo a temática de cada dia.

O tema do dia 6 era Azul, obviamente logo comecei a escrever algo referente ao filme “Azul é a cor mais quente”, mas não gostei do resultado e abandonei o texto naquela época, deixei para depois. O depois foi ontem, e o novo texto não tem absolutamente nada a ver com o filme (nem com a graphic novel).

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Dia 6 – Azul

A vida não é uma prisão. – Arrematou a psicóloga, ao final da sessão.

Elisiana não concordara, mas não teve vontade de retrucar e defender seu ponto de vista. Pegou sua mochila no sofá e saiu, tentando enfiar a alça esquerda no braço direito, sem sucesso.

Era assim que ela definia sua breve biografia, uma sucessão de tentativas e erros, mais erros que qualquer outra coisa, uma frustração crônica.

Ao longo dos seus vinte anos, não conseguia se recordar de algum momento em que se encontrara, sempre sentiu-se deslocada, diferente. O sonho de criança, de ser veterinária, era agora abandonado, ao trancar a faculdade. Não era o que queria.

A auto estima já baixa, despencava sempre com os términos de namoro, nestes dias evitava o espelho, odiava seu corpo, se achava desproporcional, as costas largas demais, a boca pequena demais, desejava não habitar aquele corpo.

Parou em frente ao elevador, apertou o botão e aguardou. Leu outra vez no celular a mensagem que seu ex namorado havia enviado ontem.

Pare de me ligar.

Ele terminara o namoro no mês passado, também por mensagem de celular. Ela ainda o amava, mas ele amava apenas sua nova moto. Ontem Elisiana desejou ser aquela moto, ligou para ele para falar que havia visto o capacete que ele tanto queria numa loja. Ele não atendeu, e mandou aquela mensagem final.

As portas do elevador se abriram. Plim. Se fecharam. Plim. A psicóloga nunca iria entender que prisão era qualquer outra coisa que não estar confinado entre quatro paredes, ela não entrou no elevador, mas sentia-se aprisionada.

Chamou novamente o elevador, entrou e apertou o botão do 18º andar, com a mesma naturalidade de quem aperta o T de térreo. Saiu, olhou em volta, subiu dois lances de escadas, e foi até o terraço daquele prédio antigo, largando a mochila no caminho.

Como escapar de uma prisão sem paredes nem grades?

Perguntou-se enquanto se equilibrava no parapeito largo e enegrecido pelo tempo. Não olhava para baixo, olhava fixamente para cima, e via apenas azul.

Com o corpo ereto, abriu os braços e se atirou, a adrenalina da queda não permitiu que ela sentisse a dor de duas asas saindo de dentro de suas costas, rasgando sua pele. Lá pela altura do quinto andar Elisiana bateu as asas apenas uma vez, e seu corpo planou para frente. Bateu novamente, mais uma, duas, três vezes, e agora já voava por cima da cidade e seus arranha-céus.

 

Published: agosto 31, 2014 | Comments: 0

Poem a Day – Dia 22 – Cotidiano

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Eu sei que algumas pessoas frequentam este blog, um blog tão inconstante. Eu sei. E eu aprecio isso, agradeço as visitas.

Estou sofrendo do mal de não escrever, porque o tempo me é raro nestes dias juninos. Por quê? Porque assumi uma nobre tarefa, sou voluntária na Copa do Mundo, aqui, na Arena Fonte Nova, em Salvador. A arena das goleadas.

Apenas esta experiência, que chega à metade agora, seria o suficiente para escrever resenhas interessantíssimas. Conheci e lido com pessoas igualmente interessantes, tem sido dias surreais de algo nunca antes desempenhado por minha simplória pessoa. Vai dizer que você já fez uma checagem de tribuna de imprensa em companhia de uma colega da Letônia?

Nana e eu conversamos com um funcionário indiano, que perguntou se os voluntários já eram amigos antes da Copa, porque ele nos achou muito unidos e felizes. Não, nos conhecemos dia 6, na arena, acredite.

Por conta da falta de tempo (já que continuo trabalhando, mesmo sendo voluntária), não pude continuar participando do desafio literário #PHPoemADay. Mas hoje reservei um tempo para participar. E aqui está meu texto, um bobo e confessional diálogo entre mim e minha consciência.

Só voltarei a escrever substancialmente em agosto, porque estarei viajando pela Califórnia em Julho.

 

Dia 22 – Cotidiano

– Eu não sou uma pessoa séria.

– O que isso quer dizer? – Perguntou minha consciência.

– Que é difícil ser uma pessoa não séria hoje em dia.

– Por quê?

– Já leu Rilke? Rilke era solitário e não sério, como eu.

– Sim. Em qual trecho você está pensando? – Minha consciência especulava, entornando um copo vermelho.

– Um texto bobinho, mas complexo.

– Fala logo!

– “Mas é difícil a nossa incubência, quase tudo o que é sério é difícil, e tudo é sério.”

– Tudo?

– Quase tudo. Quase todos. É um saco não ser sério. Nem ser levado a sério quando o sou.

– Com que frequência isso acontece?

– Ser sério?

– Não, não. Não ser sério.

– Todos os dias, o tempo todo. Por isso chamo de cotidiano do hoje, o cotidiano da não seriedade que é minha vida.

Minha consciência ficou em silêncio por alguns segundos, assimilando.

– E quando você não está sendo sério, onde você está?

– Ah… Longe, tão longe. Outros países, outras realidades, vidas tomadas de empréstimo, vidas ficcionais.

– Parece interessante. E por que lamentas não ser sério?

– As pessoas acham ruim. Elas não entendem onde estou, mesmo estando no mesmo plano que elas, e mesmo estando feliz por estar ao lado delas.

Minha consciência coçou o queixo, me fitando.

– Você está doente. – Ela decretou.

– Estou?

– Está. E não tem cura. Desculpe ser a portadora da má notícia.

– É grave? – Perguntei.

– Grave, até onde sei, é um estado de saúde física. Seu diagnóstico é literal.

– Literal?

– Literário. Você sofre do mal de ser um escritor.

Published: junho 23, 2014 | Comments: 1

Poem a day – Dia 4 – Minha paixão

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Dia 4 – Minha paixão*

Ela é minha dubiedade preferida, me mostra ora paz e concordância, ora alvoroço e argumento. Me tira da zona de conforto quando se faz necessário, me conforta quando é imprescindível.

Te amo o tempo todo, e também não te amo, como se isso fosse possível, quando o amor invencível precisa respirar, como se o fogo que arde sem parar tivesse uma metade de frio. Mas é preciso, tudo tem os dois lados, absolutamente tudo, até mesmo a vida tem seu outro lado, o escuro, o que a torna ainda mais aprazível.

Foi mulher maravilha, bailarina e andou sobre as pequenas rodas, é profissional racional e poeta, nada para ela foi preto no branco, nada foi definido e indefinido. Ela olha além, vive se equilibrando em linhas tênues, encobre seu lado ingênuo e benevolente com a firmeza em seus atos.

Te amo e não te amo porque sei que é para sempre, quando é para sempre o amor nunca acaba, se reinventa, muda de forma a cada degrau, para não deixar de te amar nunca.

Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.

* Inspirado no soneto XLIV de Pablo Neruda

Published: junho 4, 2014 | Comments: 4

Poem a day – Dia 3 – Espelho

Espelho

Todas as noites ela vinha se olhar no espelho, havia se tornado um hábito quase religioso, apenas a hora que mudava, uns minutos antes hoje, porque fazia frio, uns a mais no verão, porque ela gostava de aproveitar os dias quentes ao máximo.

De perto ela não parecia tão bela, seu reflexo naquele espelho enorme era muito mais garboso e encantador, diziam que muitos foram os que se apaixonaram por sua imagem refletida, poucos loucos se interessavam por ela em si, querendo a ver de perto, como ela realmente era. Mas ela nunca se chateara com isso, continuava deixando que os amantes e artistas admirassem seu reflexo longilíneo.

Naquele reino abrangente e infinito, ela era a única que se deixava ser vista com facilidade, o rei a proibira de mostrar-se durante o dia, ah mas isso apenas a desafiava a aparecer noite após noite para seus súditos, podia sempre ser vista com uma de suas quatro vestimentas tão distintas, cosidas especialmente para seu corpo rechonchudo.

– O rei deitara-se. – Ela percebeu.

E lá corria a lua para a janela, exibir-se do alto para seus minúsculos espectadores, a admirar-se refletida com seus adornos prateados na imensidão do mar escuro.

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Published: junho 3, 2014 | Comments: 2

Poem a day – Dia 2 – Céu de hoje

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O céu de hoje

Quando criança ouvia os adultos falando “fulano vai ver o sol nascer quadrado”, quando alguém ia preso. Engraçado, estou aqui há quase dois anos e nunca vi o sol nascer quadrado. Mas o vejo se pondo quadrado todos os dias.

Um pouco de humor carcerário sempre cai bem, principalmente hoje, um dia diferente, de céu claro. Estive a procurar alguma nuvem e não enxerguei nenhuma, nem umazinha nesse tapete azul royal sobre nossas cabeças.

Mantenho as duas mãos segurando as barras enferrujadas, me apoio na ponta do pés, eu quero continuar observando esta paisagem celeste que não se altera, me sinto especial, todos me tratam bem, mesmo sendo um joão ninguém, mesmo tendo cometido um crime hediondo.

Meu almoço chegou cedo, está ali, em cima da minha cama com colchão de palha, as batatas assadas ainda fumegam. O bife é marrom e grande, parece apetitoso, eu pedi, eles trouxeram. Mas não tenho fome, não tenho nada. Tive medo até ontem, mas hoje me sinto especial, e não sinto coisa alguma, olhar para o alto, para o céu, o paraíso acima de nós, tem me conformado.

A janela é pequena, bem no alto, tem quatro barras na vertical e três na horizontal. Mas nunca me atrapalharam, continuo perscrutando o céu de hoje, porque amanhã não haverá mais céu azul. Não haverá céu de amanhã.

Hoje ao meio-dia eu serei enforcado em praça pública. Meu crime? Matei o amor. E seu amante.

O céu de hoje é meu último.

Published: junho 2, 2014 | Comments: 6