Descobertas – Nyna Simões

Descobertas – A culpa é sempre das outras

Autora: Nyna Simões

Editora: Hoo

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Culpe menos, ame mais

2016-09-07-13-43-52Eu me dei conta do quanto esse livro é fisgante quando me peguei abrindo e lendo durante uma aula, enquanto aguardava algo acontecer na sala. Sabe aquele velho truque do “só mais um pouquinho”, que faz você continuar lendo? Esse livro tem esse efeito.

Você é arremessado sem dó nem piedade num dia turbulento da vida de um casal desgastado, a caminho de um camping, o que de cara nos evidencia que foi uma péssima ideia, e que não vai acabar nada bem.

A história foca num curto período de tempo na vida do casal Ana e Julia, duas comunicólogas com problemas de comunicação. Juntas há 8 anos, assistem o casamento se desmanchando numa viagem de carnaval. Após o infeliz feriado, Ana tenta juntar as partes quebradas de si mesma, e as respostas perfeitas que tivera durante sua vida já não satisfazem mais as novas perguntas.

Narrado em primeira pessoa, por uma protagonista elétrica, impaciente e cabeça dura, você acaba se sentindo num programa tipo Casos de Família, é uma avalanche de barracos e pitís (caso pití tenha plural). Aos poucos os estragos causados pelo ciúmes e tomadas de decisões infelizes vão criando uma bola de neve de confusão, foram vários ‘facepalms’ auto aplicados enquanto eu lia e me desesperava.

Quando a poeira baixa, começa de fato a história em si, pelo menos na minha opinião. O livro dá um salto extraordinário em qualidade, e é justamente nos trechos sérios e introspectivos que as pérolas se escondem. Depois de tanto barraco, o que restou para a protagonista Ana? Essa busca pelo entendimento de onde sua vida foi parar, e em como chegou a este ponto, é o que move a segunda parte, e move muito bem, te fisga mais do que nunca. “Só mais um pouquinho.” E quando percebo estou quase passando do meu ponto de ônibus porque não consegui fechar o livro.

Nyna fez um trabalho competente e curto nesta obra. De linguagem rápida, a história tem o fôlego necessário para contar em fluxo contínuo um momento decisivo na vida de uma mulher quase balzaquiana, sem maiores backgrounds ou pontas soltas. Direto e delicioso.

 

Você pode adquirir o seu Descobertas pelo site da Editora Hoo: www.hooeditora.com.br/produto/descobertas

Lis Selwyn – Entre Páginas

12888761_694358347372522_7127536901349872596_oSe eu tivesse que escolher um lugar onde eu passaria o resto da minha vida trancafiada, provavelmente escolheria o cenário deste livro, um sebo de livros, na charmosa Dublin.

A autora parece ter se divertido escrevendo essa história, foi a sensação que tive ao chegar ao final, senti que Lis teve horas de puro prazer o desenvolvendo.

Um romance leve, que tem como fio condutor um mistério investigativo, quase uma caça ao tesouro de cunho familiar. Na trama, Lucy é uma jovem universitária de poucos amigos, órfã, que vive com a avó, o único elo de família que lhe restou. Após a morte do velho dono do sebo, o qual ela visitava com frequência, a garota resolve investigar o que de fato aconteceu, com a ajuda da policial ruiva Lyra, uma simpática fã de camisas de rock, que traz para a vida da menina órfã mais do que os fatos ocultos sobre sua família, traz a descoberta do amor.

Despretensioso e curto, Entre Páginas cumpre sua missão de entreter e presentear com detalhes celtas da bela Irlanda, talvez deixe a desejar um pouquinho na falta de reviravoltas, mas não o ofusca de forma alguma, é uma excelente pedida para uma tarde chuvosa, ou uma manhã ensolarada de domingo, ou qualquer dia em que você precisar de um livro que deixe um sorriso nos lábios.

Maiores informações: www.facebook.com/livroentrepaginas

Para comprar: www.metanoiaeditora.com

Mesa 27: resenha

2016-06-15 15.57.17

Mesa 27 – Adriana Nicolodi

Cuidado, pode conter spoilers

Por uma destas sortes do destino caiu em minhas mãos um raro exemplar do livro Mesa 27, da autora gaúcha Adriana Nicolodi, já que sua última edição encontra-se esgotada há algum tempo.

Me assustei com o tamanho, 431 páginas, mas ao folhear percebi que era culpa da diagramação, ele não é tão grande assim, ele é do tamanho certo.

Mesa 27 é um livro de leitura rápida e dinâmica, sem esbarrar em expressões complicadas nem parágrafos difíceis, tudo nele é de fácil absorção, um romance incrivelmente leve. Sem perceber, você já está lado a lado com Nina suspirando pela doutora Allegra, torcendo com todas as forças para que a médica retribua um pouco desse sentimento tão intenso que a chef brasileira nutre por ela, uma paixão com pitadas de obsessão, mas bem-intencionada.

Percebe-se que a autora dedicou-se com afinco à criação dessa história, é bem estruturada, houve bastante pesquisa, e nota-se o cuidado com a escrita e escolha das palavras.

Nina é uma jovem chef brasileira morando em Montreal, onde tenta reconstruir sua vida longe da ex-namorada Clara, que a traiu no Brasil. O arco de Clara é deveras interessante, pois ela nos é apresentada como uma megera, mas no decorrer da história enxergamos que ela é gente como a gente, que comete erros, mas sem maldade no coração.

Ajudada em tempo integral por Shelly, Nina inicia seu cerco à doutora Allegra, uma italiana que mora em Toronto, cirurgiã cardíaca das celebridades. Cerco talvez seja uma palavra um tanto exagerada, mas Nina é persistente, e tem uma amiga igualmente dedicada a ajudá-la na missão.

Outro ponto positivo é o jeito sutil e cuidadoso com que a médica nos é apresentada no decorrer da história. Até boa parte do livro a enxergamos como uma mulher inatingível, uma muralha, extremamente bem-sucedida e bem resolvida. Quando Allegra entra na história de forma ativa, aos poucos descobrimos que ela tem as mesmas inseguranças e medos que Nina tem, que nós temos.

Mas nem tudo são flores, e o livro que ao meu ver ia tão bem, tão bem escrito e de leitura gostosa, torna-se fel. Terminei com a sensação de ter passado toda a leitura degustando docinhos de chocolate, e no final mordi um poste de concreto.

Mesa 27 precisa ganhar uma terceira edição logo, é um belo exemplar de literatura lésbica de qualidade, de uma autora competente e que sabe o que está fazendo. Que venha mais livros gostosos da Adriana.

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Esse livro não está à venda em nenhum lugar no momento, mas você pode concorrê-lo no sorteio do Lettera, dia 02/07. Saiba como concorrer: projetolettera.com.br/viewpage.php?page=promocoes

O Suave (e assustador) Tom do Abismo – Diedra Roiz

2015-09-27 03.47.50

Quando tive finalmente em mãos o novo livro da Diedra Roiz, “O Suave Tom do Abismo”, assim todo negro, inclusive a área externa das páginas, eu já imaginava que algo angustiante e denso estaria ali dentro. Li dois capítulos, no dia seguinte mais dois. Deitei na cama numa tarde fria e chuvosa de sábado, enrolada em cobertores, e resolvi ler mais dois. Li todos.

Quando fechei o livro ia dar 4 da madrugada, então me dei conta o quanto havia me absorvido naquelas 263 páginas claustrofóbicas, ainda impressionada com tanta escuridão que tinha sentido nas últimas horas, naquelas linhas sem sol.

Tentando não dar maiores spoilers, a história se passa numa era de breu total, sem luz alguma, a não ser das velas e lamparinas. Alexandra é uma mulher mortalmente ferida pela vida, uma humilde caçadora reservada e que se dá muito bem na escuridão, se guiando por instintos. Sophia é uma fina dama que sofre um revés trágico às vésperas do casamento arranjado, usando a oportunidade para fugir de sua vida pomposa e medíocre. E ela odeia a escuridão.

Sophia, agora sob a identidade de Alicia, passa a viver com a família de Alexandra, formada por pessoas iletradas e também marcadas pela desgraça e vergonha que Álex representa para eles, apesar de amarem a parente.

Sinceramente, eu não sei o que mais me angustiou. As cenas se desenrolarem quase sempre sob a ausência total de luz, o qual eu morro de medo, ou a vigília constante na vida de Alexandra, para que ela não sucumba a desgraça novamente.

Mas eu sei exatamente o que me fisgou: a dualidade na escrita da Diedra, na maior parte do tempo tão poética e delicada, intercalando com narrativas duras e selvagens. Além de uma crítica social ferrenha, onde talvez mais eu tenha me identificado, na crítica subjetiva à disparidade social e à igreja. A hipocrisia patriarcal e religiosa chega a doer nos ossos. Junte à toda essa castração de liberdade uma tensão sexual proibida permeando todas as páginas, e você tem uma primeira parte de trilogia desesperadamente cativante.

As 4 da madrugada, depois dessa viagem negra, só me restou apagar as luzes e tentar dormir, numa escuridão agora (mais) angustiante.

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