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A Lince e a Raposa

capa
Ficha dos Personagens

Trilha Sonora

 

Esta história começou a ser escrita em agosto/2012, e foi finalizada em março/2014, está na fase de revisão.

Se quiser continuar lendo, peça por aqui ou por e-mail que eu envio o resto.
Sinopse:

Num Estados Unidos devastado pela 3ª guerra, Anna é uma híbrida solitária cumprindo suas missões mercenárias. Jennifer é uma bem humorada humana, tentando defender sua vila dos Titans.

Um acaso acaba unindo-as e surge então uma dupla vivendo grandes aventuras e desafios pelas noites, mas a convivência faz surgir sentimentos e revelando segredos, que podem alterar suas vidas drasticamente.

Boa leitura!

 

 

         Capítulo 1 – Invasão

 

O velho despertador gritava, era oito da manhã. Jennifer apertou o botão soneca sem sequer abrir os olhos. Um minuto depois levantou de sobressalto: não iria trabalhar, havia um destino mais nobre naquela manhã. Vestiu-se rapidamente com sua jaqueta jeans preferida, camisa xadrez azul e cinza, calçou as botas, tropeçou no tapete, pegou qualquer coisa na geladeira e partiu para o alto do seu bairro.

Ao meio-dia as máquinas chegaram à vila de Arlington, na cidade de Bridgeport, no sul de Connecticut. Eram dois engenhos mecânicos enormes. Um deles, ostentando um grande pêndulo, posicionou-se em frente a um conjunto de pequenos prédios cinzentos e visivelmente deteriorados pelo tempo.

Era início de setembro, uma brisa fria soprava e o céu nublado deixava o clima daquela terça-feira ainda mais carregado. Três carros chegaram algum tempo depois, estacionaram quase que em sincronia, atrás das máquinas. Alguns homens saíram do carro e começaram a caminhar em direção às edificações julgadas condenadas.

Eram moradias simples, mas em perfeitas condições de uso, aproximadamente doze famílias habitavam o conjunto, e assim como a maioria dos moradores na vila, estavam em situação irregular no local.

Quando ouviram as máquinas chegando, mais moradores saíram, se juntaram à Jennifer e ao pequeno grupo que estava reunido protestando ao lado de um dos edifícios, onde morava Peter e sua esposa Lisa.

Os homens que haviam descido dos carros eram de uma raça bastante semelhante à dos humanos: os Titans. Eles haviam se revelado ao mundo há apenas cem anos, embora tenham vivido de forma sutil entre membros de todas as classes da sociedade ao longo dos séculos sem serem detectados. Apenas a robustez de seus corpos denunciava aos mais atentos. Eles eram superiores aos humanos em força, agilidade e explosão muscular, o que lhes permitia vencer grandes distâncias sem muito esforço.          Possuíam o poder de regeneração e cura um pouco mais acelerada, entretanto a característica mais invejada pelos humanos, sem dúvidas, era a elevada expectativa de vida, com o envelhecimento num ritmo duas vezes mais lento.

Os Titans que haviam chegado eram homens grandes e corpulentos, trajavam paletós sem gravatas, e camisas com os primeiros botões abertos, tinham certo ar de arrogância.

Os moradores que estavam reunidos já esperavam a chegada dos Titans, e das máquinas. Eles haviam sido notificados que aquela região seria desapropriada, os prédios seriam demolidos, sem negociação ou diálogo. Tudo agora era de propriedade do grupo miliciano que comandava a região. Eles traziam a notificação e a escritura, atestando serem os mandatários daquela área, a intenção era construir ali uma sede nova, um quartel general de onde poderiam coordenar suas ações.

Com os papéis em mãos, se aproximaram caminhando calmamente, olhando ao redor, apenas cautelosos. Alguns seguranças faziam a escolta, logo atrás.

O grupo que fazia oposição a demolição era formado por moradores da vila, que foram defender o direito destes moradores de permanecerem em suas casas. Realmente não possuíam as escrituras, mas os documentos apresentados pelos Titans não pareciam oficiais, e seus argumentos eram inválidos.

Jennifer, como uma espécie de líder comunitária, logo tomou a frente e se posicionou de forma imponente barrando a passagem da milícia. Logo atrás estava sua melhor amiga Becca, com sua fisionomia de adolescente e cabelos longos com franja, Bob, um magricela de cabelo marrom desarrumado e óculos, além de Sam e Lindsay, que eram irmãs.

Depois da grande guerra, que perdurou por cinco anos, a população dos Estados Unidos foi reduzida a um décimo, haviam cidades inteiras devastadas por bombas. Outras, como Bridgeport, haviam sobrevivido ao bombardeio. Era uma época de escassez de recursos básicos e muitos jovens moravam sozinhos após ficarem órfãos. Jennifer fazia parte desta estatística, morava sozinha num pequeno quarto e sala num prédio cor de tijolo no fim da rua, na parte baixa da vila. Tinha vinte e dois anos e vivia de pequenos serviços no porto. Nesta manhã ela estava determinada a impedir que aquele prédio fosse ao chão, havia se tornado a líder local naturalmente.

“Não encontramos nenhum registro de propriedade destas terras, seu ofício não lhes dá o direito de ir derrubando as casas alheias.” Jennifer falou alto, com segurança, não era de grande estatura, tinha pouco menos de 1,70cm, mas se portava com vigor e parecia falar com autoridade. Tinha um ar invocado, olhos castanhos e pequenos que conservavam um ar inocente, prendia seu longo cabelo castanho claro levemente ondulado num rabo de cavalo, ficando algumas mechas soltas, teimando em cair sobre seu rosto. Suas bochechas ficavam rosadas com facilidade, combinando com seus lábios de certa forma volumosos, os belos lábios herdados de sua mãe.

“Olha mocinha não viemos negociar, sugiro que saiam do local para que ninguém se machuque.” O chefão fez um gesto com a mão chamando uma pessoa atrás dele, falou algo no ouvido e logo em seguida os motoristas das máquinas receberam autorização para avançarem.

O pequeno grupo de Titans então recuou enquanto as máquinas avançavam, seguiram para os carros e alguns se recostaram, olhando as máquinas começarem o trabalho. Os moradores dos prédios saíram da frente do maquinário, mas os manifestantes resolveram ficar e tentar evitar a destruição a qualquer custo.

Jennifer chamou Bob e subiram em uma das máquinas, os outros foram para frente do outro monstro de ferro. Antes que ela conseguisse entrar na cabine, sentiu alguém a puxando violentamente pela cintura. Num movimento rápido ela se desvencilhou dos braços do segurança e correu em direção à outra máquina, mas novamente antes de alcançar seu objetivo, foi detida por um brutamonte, que a derrubou no chão com truculência e prendeu suas mãos às costas, com amarras plásticas.

Debateu-se o quanto pode, mas foi prensada ao chão por um segundo segurança que lhe empurrou as costas com o joelho. Ainda no chão ela ergueu a cabeça e viu seus amigos também sendo algemados com amarras. Sentiu a terra gelada abaixo do seu corpo, uma raiva visceral percorria suas veias naquele instante, queria poder se desvencilhar e soltar seus colegas.

Permaneceu assim por mais alguns minutos, então um pequeno e velho ônibus amarelo chegou ao local, e assim que ele abriu as portas, ela deduziu qual seria o destino de todos: seriam levados pelos Titans, e numa época onde as leis já não eram respeitadas, sabia que podia esperar pelo pior.

Alguns grupos de Titans possuíam sedes que eram verdadeiros quartéis, as leis que respeitavam era a que eles próprios haviam criado, um regimento interno, apesar de ainda responderem às leis humanas e estarem passíveis das penalizações que elas poderiam ser impostas a todos os cidadãos.

Um a um Jennifer viu todos serem levados pelos braços para dentro do ônibus, enquanto os representantes Titans apenas observavam. O que parecia ser o chefe deles se mantinha no celular, sem se abalar com a situação e com a violência que havia presenciado.

Havia chegado a vez de Jennifer ser levada, após prenderem também suas mãos com as amarras plásticas transparentes, brutalmente o segurança a arrastou para o ônibus, e a jogou no banco de trás. Após se certificar que todos já estavam no interior, ele desceu e bateu na porta do ônibus, avisando para o motorista que já podia fechar e partir.

O ônibus seguiu pela estrada até chegar à rodovia, que cortava a cidade passando por áreas destruídas, plantações e algumas poucas casas.

Jennifer levantou e sentou-se no banco, todos estavam sentados próximos a ela, assustados, além de algemados também com amarras, se entreolhavam e olhavam para Jennifer, como se esperando alguma solução, um ato salvador.

“Não fizemos nada tão grave, será que estão nos levando para as prisões clandestinas? Ouvi falar que eles tem verdadeiros calabouços subterrâneos…” Lisa falou temerosa.

“Agora estamos ferrados…” Sam balançou a cabeça. O silêncio se instaurou por um momento.

“Nós vamos sair daqui, vamos pensar em algo.” Jennifer irrompeu o silêncio, olhando para os lados, mas como se olhasse para o nada, procurando ideias.

O motorista do pequeno ônibus, que um dia havia sido um comboio escolar, era um senhor de cabelos grisalhos, magro, não era um Titan. Apenas um dos seguranças havia seguido junto com o ônibus, ele permanecia ao lado do motorista, apoiando o pé esquerdo na tampa do motor, olhava de soslaio de vez em quando para trás, e seguia conversando com o condutor.

Alguns minutos se passaram enquanto Jennifer bolava um plano para fugirem das mãos dos Titans. Então se inclinou na direção dos amigos e começou a falar baixo e calmamente:

“Estamos em maior número, temos que usar esta vantagem, eu tenho um plano, mas para isso todos precisam estar seguros do que vamos fazer, não teremos uma segunda chance.”

“E qual é o plano?” Indagou Bob.

“O ônibus é pequeno, então chegaremos nós dois lá na frente de supetão, ao mesmo tempo. Não olhem agora, mas eu guardo um punhal dentro da minha bota, eu vou usá-lo contra o grandalhão, preciso que vocês dois me ajudem com ele, vocês meninas vão pra cima do motorista, e tentem assumir o volante quando neutralizarmos o segurança.”

“Mas… você vai matar o segurança?”

“Becca, é ele ou nós, mas não, não pretendo matá-lo, ao menos espero não precisar.”

“Ok, você vai dar o sinal para atacarmos não é?” Sam pergunta, assustada.

“Sim. Virem-se pra frente, sentem-se normalmente, disfarcem. Vou avisar quando for a hora. Eu vou na frente, Bob e Peter em seguida, depois vocês garotas seguem atrás do Peter.

Jennifer estudou o comportamento do segurança, tirou o punhal atrás do banco e cortou suas amarras, discretamente cortou dos companheiros também. Esperou o segurança se virar para trás, para vigiá-los, como estava fazendo de tempos em tempos, assim que voltou a olhar para frente, deu o sinal.

“Agora!” Falou baixinho, gesticulando para frente.

Jennifer correu para frente, ergueu o punhal firmemente e tentou feri-lo na perna, mas ele reagiu e não deixou outra opção a não ser acertá-lo em algum lugar mais crítico. Desvencilhou dos braços do segurança e cravou-lhe no abdome, os rapazes o derrubaram, mas ele acabou caindo pra cima do motorista, que perdeu o controle do ônibus. Sem controle, o ônibus seguiu acelerado até sair da estrada, e num declive capotou, girando uma vez ao redor do seu próprio eixo.

Com o ônibus já parado, Jennifer levantou-se com dificuldade, afastando alguns cacos dos vidros, e se certificou que o segurança não era mais uma ameaça, estava desacordado.

“Vamos pessoal, todo mundo saindo pelas janelas quebradas! Eu termino com esses idiotas aqui.”

Enquanto os outros saiam do ônibus, Jennifer pegou a arma do segurança, recuperou o punhal cravado em seu abdome, guardou novamente na bota e com as amarras que retirou do seu bolso o amarrou por precaução. Após prender também o motorista ao volante, fixou a pistola em seu cós e abandonou o local rapidamente.

“E agora, vamos pra onde? Não tem nada aqui, não vejo nenhuma casa!” Desesperou-se Lindsay.

“Eu não faço ideia qual lado é o melhor para seguirmos, estamos no meio do nada pelo visto…” Peter falou olhando em volta, tinha um pequeno corte na cabeça.

“Vocês estão bem? Alguém se machucou?” Questionou Jennifer.

Viu que todos estavam estáticos, em choque,

“Parem de se preocupar com onde nós estamos por enquanto! Quero que vocês procurem por algum ferimento, preciso ter certeza que todos estão bem antes de seguirmos.” Continuou.

Alguns hematomas, pequenos arranhões e cortes puderam ser vistos na maioria.

“Acho que quebrei meu braço…” Lisa mostrou o braço, com um semblante dolorido.

“Vamos achar algo para imobilizar, logo estaremos em casa e tudo vai ficar bem.” Tranquilizou seu marido Peter.

“Não podemos voltar pra casa agora Peter, os Titans daqui a pouco estarão nos procurando… Vamos nessa direção.” Jennifer apontou para frente, nem para um lado nem para outro da estrada.

“O que tem pra lá?”

“A praia. Seguiremos na direção do litoral, sempre tem casas por lá e podemos achar alguma não habitada para ficarmos até a poeira baixar. E vamos imobilizar seu braço assim que possível, tudo bem Lisa?”

Lisa acenou positivamente com a cabeça.

 

No mundo inteiro, principalmente na América, haviam muitas casas destruídas ou inabitadas, após os inúmeros ataques do chamado Eixo do mal, alcunha dada por George Bush ao conjunto de países contrários aos Estados Unidos e seus aliados. Esse conglomerado era liderado por alguns países do oriente médio e asiáticos, alguns deles com programas nucleares avançados.

Os ataques e bombardeios, que inicialmente eram perpetrados a distância, passaram a acontecer em solo americano e na maior parte dos países europeus, atingindo em menor proporção os países da África, América Central e do Sul. Os danos foram imensuráveis para ambos os lados, os governos foram se enfraquecendo, comunicação e tecnologia se tornaram cada vez mais precários, os maiores alvos foram as indústrias, torres de comunicação e bases militares, em todos os continentes. As temidas bombas atômicas fizeram os maiores estragos.

Na atual conjuntura, o governo convencional agora é chamado de “governo dos humanos” pelos Titans, que não se sentiam mais representados por estes governantes e suas leis. Passados pouco mais de dois anos após o fim da guerra, as prioridades de reconstrução nos tempos atuais eram para prover serviços básicos como água, energia e alimentação.

 

O grupo de sete pessoas seguia campo adentro, em direção ao litoral, após caminhar alguns minutos por um campo que parecia já ter sido uma plantação, eles avistaram uma grande casa, escura, próxima à praia, uns dois metros acima do nível do mar. A propriedade era rodeada por uma cerca de grades de ferro, escurecidas pelo tempo. A medida que se aproximavam, procuravam por algum sinal de moradores, a casa parecia antiga, mas possuía todas as portas e janelas, que era um sinal que não estava abandonada.

“Vamos entrar? Será que alguém mora aí?” Perguntou Becca.

“Saberemos em alguns segundos…” Jennifer sacou a arma, abriu a porta da frente devagar, cautelosa, espiou para dentro com a arma em riste. Abriu a porta lentamente, olhou em todas as direções até se certificar que não havia ninguém por ali.

“Hey pessoal! Vamos entrar, mas fiquem alertas.” Preveniu.

A casa tinha uma sala ampla logo na entrada, com sofás e lareira, iluminada por grandes janelões nas laterais, do outro lado havia uma escada, uma porta e dois pilares cinza, largos. Parecia habitada, porém ninguém foi visto ou percebido naquele momento.

Jennifer andou a passos lentos na direção das escadas, olhando para os lados. Aproximava-se de uma das pilastras, quando foi surpreendida por alguém que a segurou pelo punho, travando seu braço que empunhava a arma. Ao mesmo tempo recebia uma forte gravata por trás, não conseguiu identificar quem a detivera.

“Solte a arma.” Ordenou a pessoa que a imobilizava, falando diretamente no seu ouvido. Deram alguns passos lentos para frente, na direção da claridade e dos outros membros do grupo, levava junto Jennifer. Neste momento já tinha a atenção de todos, que olhavam assustados aquela mulher com Jennifer em seu poder.

“Já soltei ok? Já soltei!” Jennifer abriu a não, esticando os dedos, largando assim a arma no chão.

“Só estamos procurando abrigo, não queremos fazer mal a ninguém!” Bradou Becca, amedrontada. O restante do grupo olhava perplexo.

“É… verdade… pode me… soltar.” Jennifer falava com dificuldade, puxando com as duas mãos o braço que a sufocava, numa tentativa de livrar-se deles. Já havia percebido que era uma mulher que a segurava, tentava sair daquela situação desfavorável, mas sem sucesso.

“Não temos outras armas, nos reviste se quiser… Não somos pilhadores nem bandidos!” Bob, assim como os demais, permanecia próximo a porta de entrada, acuado.

Num gesto brusco, a mulher soltou Jennifer, que virou-se rapidamente. Deu alguns passos trépidos para trás, com as mãos no pescoço, buscando ar.

Conseguiu enfim ver a pessoa que a havia imobilizado, aparentava ser uma Titan ou uma híbrida, o cruzamento de pais humanos e Titans. Era uma mulher alta, cabelos lisos castanhos escuros na altura dos ombros, olhos azuis tristes com um quê de mistério, semblante permanentemente sério, rosto esguio.

Ela abaixou-se rapidamente, mantendo o olhar neles, pegou a arma caída no chão e apontou para o grupo.

“O que vocês querem aqui?” Falou de forma calma, porém ríspida. Sua voz tinha um timbre suave, baixo, e ao mesmo tempo doce.

“Nós estamos perdidos… Na verdade precisamos nos esconder, ou fugir talvez… quando vimos sua casa, foi a única que avistamos por aqui. Por favor, abaixe a arma, realmente parecemos ameaças?” Jennifer tentava abrandar a situação.

Ela hesitou um pouco, mas acabou baixando a arma. Aproximou-se, olhando para todos, e percebeu que não pareciam de fato ameaças nem bandidos.

“Estão fugindo de quem?” Perguntou voltando o olhar para Jennifer.

“Irritamos alguns Titans, eles nos levavam para algum lugar pela rodovia quando conseguimos fugir deles. Acho que um deles ficou ferido ou acabou morrendo… E aqui estamos, procurando algum lugar seguro.” Ela respondeu.

“Vocês mataram um Titan? Sabem que isso não vai ficar assim barato. Eles virão atrás de vocês, não tem a menor compaixão com os humanos que os perturbam.”

“Você é uma deles?”

“Titan? Não, sou uma híbrida, estou neutra na batalha de vocês.”

“Mas não pode nos ajudar? Pelo menos nos dê alguma orientação do que fazer, você os conhece melhor que nós.”

“Ficar aqui seria suicídio…”

“Por quê?”

“Vocês realmente não sabem o que acontece com quem comete alguma infração grave com eles? Vão mandar gárgulas para eliminá-los!”

“Achava que isso era uma lenda…”

“Acredite, assim que descobrirem o que vocês fizeram, mandarão os gárgulas…” Olhou por cima contando quantos eram.

“Vocês estão em sete, eles provavelmente mandarão três. Conheço o regimento das milícias de Titans. Eles não respeitam as leis humanas, mas mesmo assim temem a justiça de vocês, por isso usam gárgulas para o trabalho sujo.”

“Fugir é nossa única opção então?”

“Se eu abrigá-los, ficarão encurralados aqui dentro, não terão chances contra três gárgulas ao mesmo tempo, mas talvez se fugirem, eles não os alcancem, e se alcançarem, talvez seja um por vez.”

“E quem nos garante que é isso mesmo que vai acontecer?” – Peter parecia indignado. “Ela pode estar falando isso só pra livrar-se de nós!”

Anna caminhou rápido na direção de Peter.

“Escute garoto, você não está em posição de fazer escolhas.” – Fez uma pausa e continuou num tom mais piedoso. “Não, não estou tentando me livrar de vocês, apesar de ser o mais sensato a fazer nesse momento…”

“Desculpe… estamos desesperados, sei que invadimos sua casa e…” Jennifer falou como se pedindo desculpas por Peter, se aproximando dela.

A mulher com ar misterioso e olhar forte, observou todos, com certa impaciência, e voltou a se dirigir a Jennifer.

“Tem um trilho de trem, a uns dois quilômetros a oeste daqui, costuma passar um comboio de carga no início da tarde, seguindo para o nordeste. Vocês podem caminhar até lá e subir em algum vagão, pelo menos estarão se distanciando. É a melhor chance no momento…”

“O caminho é pela mata? Basta seguirmos numa linha reta para o oeste que encontraremos os trilhos? Tem alguma trilha até lá?” Questionou Jennifer, preocupada e confusa. Ela se agarrava ao único fio de esperança que parecia surgir naquele momento, enquanto sua interlocutora a olhava, como se procurando a melhor decisão.

“Ok… eu levo vocês lá, senão é bem provável que se percam e… bom, eu vou pegar meu casaco, enquanto isso peguem qualquer coisa lá na cozinha, vão precisar de provisão, a viagem de vocês vai ser longa.”

Ela subiu as escadas e voltou terminando de vestir um casaco preto, que ia até a altura dos joelhos. Calça, suéter de poliéster e botas pretas completavam a sobriedade do seu visual. Jennifer se postava na porta, vigiando a entrada, enquanto os outros ainda estavam na cozinha.

“Desculpe-me pela invasão, e por abusar da sua bondade…” Falou Jennifer, quando ela se aproximou.

Anna a observou por um instante, era apenas uma garota qualquer à porta da sua casa, mas era suficiente intrigante para ter toda sua atenção.

“Não é má vontade minha em não abrigar vocês aqui. Seria uma carnificina, acredite, e não tenho um carro para levá-los para longe.” Ela também se recostou no batente da porta. “Tome, vai precisar dela.” Falou devolvendo-lhe a arma.

Jennifer pegou a arma e sorriu de leve. “Acho que nem sei usar…”

“Já está destravada, basta puxar essa parte aqui de cima para trás, está vendo?”

“É… parece fácil, pelo menos com você manuseando… a propósito, meu nome é Jennifer, prazer.” Falou esticando a mão, num tom amistoso.

“Anna.” Hesitou um pouco e correspondeu ao aperto de mão, olhando Jennifer nos olhos.

E foi assim que sua guarda começou a baixar.

Os outros retornaram da cozinha guardando os alimentos em uma sacola com alças longas. Jennifer voltou a guardar a arma no cós da calça. Saíram pela vegetação baixa, caminhando a passos rápidos, enquanto improvisavam uma tala no braço de Lisa.

Já passava das duas da tarde quando chegaram até os trilhos, tentavam enxergar no horizonte algum sinal da locomotiva. De repente Anna gesticulou para que não se movessem, olhando para o alto, atenta.

“Um gárgula, estão vendo? Lá daquele lado, está vindo na nossa direção, permaneçam próximos uns dos outros!” Ordenou Anna, tirando dois punhais do casaco, empunhando um em cada mão.

“Meu Deus e agora! Como vamos matar isso?!” Lisa se desesperava.

Os gárgulas eram uma raça humanoide usada pelos Titans como seus animais de caça. Eram comumente chamados de dragões dos ares por serem alados e possuíam pele rochosa cinzenta como grandes lagartos de pedra. Podiam usar suas asas para planar ou voar, mas a utilização mais mortal era como lanças afiadas durante seus ataques.

O gárgula se aproximou do grupo num voo lento, circular, até finalmente posar em terra firme. Jennifer sacou a arma e disparou seguidamente contra a criatura, que parecia não se ferir gravemente com as balas.

“Jennifer não adianta! Vá para junto dos outros!” Anna o rodeava em posição de ataque, tentou uma aproximação repentina para desferir um golpe, mas o gárgula a arremessou para trás, com a asa, como num tapa, abrindo-lhe um corte no supercílio.

O gárgula então começa a caminhar na direção do grupo, Jennifer vendo a cena se adiantou e se colocou entre a criatura e seus amigos, agora com seu punhal ensanguentado nas mãos, já que não havia mais balas na pistola.

“Volte para a porra do lugar de onde você saiu, seu miserável!” Jennifer o encarava, ele havia parado seu movimento com a investida dela. “Eu vou enfiar isso aqui no seu coração!”

Ele aproximou-se e num gesto rápido, a segurou pelo pescoço, e a ergueu do chão, com uma mão apenas.

“Solta ela! Solta ela!” Gritou Becca, que permanecia abraçada com os outros, assistindo tudo em pânico.

E então a arremessou também, a fazendo cair longe, de costas. Anna aproveitou a distração, se aproximou por trás e com a mão esquerda cravou sua adaga no pescoço do gárgula, que soltou um ganido estridente, após cambalear com as mãos no pescoço, caiu inerte. Anna se aproximou devagar olhando atentamente, mexeu no corpo com um pé para se certificar que estava morto, abaixou-se e retirou sua faca, guardando novamente dentro do casaco.

“Morreu?!” Becca se aproximou olhando receosa o corpo no chão. Anna assentiu com a cabeça.

“Você está bem?” Anna se aproximou de Jennifer, a tocando no braço.

“Acho que sim, estou viva então já estou no lucro…”

Todos continuavam olhando incrédulos a criatura que jazia no chão, Anna voltou a perscrutar os céus.

“Como pode não ter morrido com meus trezentos tiros?” Questionou Jennifer, exagerando.

“Você já viu como é a pele dele? Balas não perfuram essa carapaça, não essas balas comuns.” Explicava Anna, pacientemente.

“Mas adagas sim?”

“Não é questão de tipo de arma, eles possuem uma região vulnerável, onde a pele é menos espessa: o pescoço. Então se você atinge a coluna vertebral dele, seja com uma adaga cravada a fundo, ou um tiro certeiro, tem grandes chances de acabar com ele.”

“Agora que você me diz isso…”

Anna não respondeu, apenas a olhou, levantando as duas sobrancelhas rapidamente.

“Vamos esperar o trem de carga, e torcer para não aparecer outro desses tão cedo.” Anna orientou.

Depois de uns trinta minutos o barulho do trem se aproximando pode enfim ser ouvido. Todos se levantaram do chão onde estavam sentados, ao lado dos trilhos.

“Vamos para trás daquelas árvores, para que não nos vejam e deduzam o real objetivo de ter um grupo de pessoas observando um trem passando.” Jennifer apontou para algumas árvores baixas, com poucas folhas.

Ela virou-se e viu Anna parada ao seu lado, percebendo que Jennifer a encarava, a correspondeu, parecendo indecisa. Sentindo que Jennifer esperava uma resposta sobre o que ela faria a seguir, se os deixaria ali ou seguiria a viagem com eles, Anna começou a falar, com um semblante piedoso.

“Garota você até que me pareceu bem valente, mas acho que não vai ser suficiente diante de mais dois gárgulas…”

“Você vai conosco??” Assemelhava-se mais com um pedido desesperado de Jennifer do que com uma pergunta.

“E eu tenho opção? Não vou conseguir colocar minha cabeça no travesseiro a noite sabendo que provavelmente vocês estarão… sei lá… mortos…”

“Ou pior, morando no Canadá.” Jennifer completou, sorrindo tentando quebrar a tensão que pairava no ar.

Quando o trem passou, todos esperaram os vagões do final do comboio, e subiram um a um, ajudados pelos que já haviam conseguido subir. Os vagões da frente levavam contêineres metálicos, enquanto que os vagões do fundo eram de madeira com frestas.

O vagão onde todos já se acomodavam estava carregando de sacas de açúcar, formando pilhas de aproximadamente um metro de altura. Todos resolveram subir nas pilhas e se recostar nas paredes. Eles pareciam assustados e cansados. Anna procurou a maior fresta e observou o céu por alguns instantes, repetia o gesto de tempos em tempos. Sempre que voltava, sentava ao lado de Jennifer, que estava próximo a parede do fundo, segurando as pernas, com os joelhos junto ao rosto.

“Tudo limpo por enquanto?” Jennifer desenterrou o rosto dos joelhos, e perguntou, virando-se para ela.

“Por enquanto…” Anna respondeu inquieta. Abriu o casaco, certificou-se que suas adagas estavam lá.

“Você machucou a testa.”

“O que?” Anna virou-se na direção dela.

“Tem um corte aí no seu supercílio, não tem?” Falou passando a mão de leve em cima do corte.

Anna levou a mão ao rosto, olhou a palma da sua mão, que manchou-se de sangue.

“Não foi nada.” Respondeu sisudamente.

“Os híbridos também se curam mais rápido, como os Titans?”

“Alguns…”

“É o seu caso?”

“Sim.” Respondeu em seco.

“Muito mais rápido que os humanos?” Jennifer insistia no assunto.

“Mais ou menos… mais rápidos que os humanos, mas não tão rápidos quanto um Titan.”

Anna percebeu que era quase inevitável fugir da curiosidade de Jennifer, espojou-se, procurando uma posição mais confortável no patamar de sacas. Alguns minutos de silêncio se instauraram, e Jennifer voltou a falar, olhando pensativa para frente agora.

“Tinha um híbrido na minha turma na escola, acho que nos primeiros anos… não lembro. Enfim, acho que foi o único que tive contato direto, vocês não gostam muito de se misturar né?” Falava enquanto mexia em suas pulseirinhas multicoloridas que levava no pulso direito.

“Não sei… é o mais conveniente eu acho.” Anna titubeou na resposta.

“Nunca fui muito com a cara dos Titans, mas sempre achei interessante os híbridos. Vocês podem andar nos dois lados, tem características de ambos e…”

“Em nenhum dos lados.” Anna a interrompeu rispidamente.

“Como assim?”

“Vivemos a margem da sociedade, seja a dos humanos ou a dos Titans, nenhum deles nos veem como seu semelhante, e então acabamos não sendo nem uma coisa nem outra.”

“É… eu nunca tinha enxergado por esse lado…”

Novamente ficaram em silêncio, pensativas.

“Qual o plano?” Virou-se para Anna.

“Dos híbridos?”

“Não, para hoje. Vamos seguir até o final da linha, esperando pelos gárgulas?”

“Tem algum plano melhor?”

Jennifer balançou a cabeça devagar, negativamente. Anna levantou e foi olhar pela greta.

“Oh não… Lá vem outro…” Anna murmurou. Jennifer levantou-se rapidamente, e foi olhar pela abertura também. Ainda estava distante, mas vinha na direção deles, num voo alto.

“Não tenho mais balas, mas ainda tenho meu punhal, você tem os seus, vamos ficar a postos.”

Anna não respondeu, continuava olhando fixamente para o céu. Todos perceberam o que estava acontecendo e levantaram-se também, questionando o que já pareciam saber.

“Eu vou tentar levá-lo para outro lugar, para que não ataquem vocês. Vou chamar a atenção dele de cima de algum vagão mais a frente, vocês permaneçam aqui, sem maiores movimentações.” Anna explicava, didaticamente.

“Eu também vou!” Jennifer olhou fixamente para Anna, com tanta certeza no tom da voz que ela não teria como impedi-la.

“Tá bom, mas apenas me ajude a despistá-lo, entendeu?”

“Ok, ok, mas vamos logo, ele está se aproximando bem rápido!” Jennifer saiu em disparada à porta de correr, que ficava na lateral do vagão. Saindo havia uma escada de marinheiro, que levava ao topo do comboio. Subiram e pularam ao vagão da frente, se esforçando para manter o equilíbrio. Não havia muito vento, mas o sacolejo do trem poderia ser traiçoeiro.

Então o temido ser alado deu seu último voo rasante, chegando até elas.

“Atrás de mim Jennifer! Vá para trás!” Vociferou.

Anna já empunhava suas duas adagas, em posição de ataque, sem tirar os olhos do seu alvo e com uma coragem inabalável, andando devagar de um lado para outro, como um boxeador procurando o momento certo de encaixar seu melhor golpe.

Ela fez o primeiro ataque, pela esquerda, mas a criatura se desvencilhou, deixando o golpe passar no vazio, e aproveitando o movimento para segurar seu braço esquerdo.

Tentou um golpe com a direita, mas ele também a segurou pelo punho, ainda no alto. Ela estava agora sem defesas, com as duas mãos presas. Ele a encarou, com um semblante raivoso, e começou a forçá-la para baixo e para trás, Anna resistiu o quanto pode, fazendo força na direção contrária e lutando para se manter de pé, mas lentamente abaixava-se, curvando os joelhos, até cair finalmente de costas. Jennifer se aproximava desesperada, ensaiava alguma reação, mas recuava.

O gárgula começou a bater seguidamente a mão esquerda dela contra o teto do vagão, as costas da sua mão já sangravam com o atrito com a madeira. Depois de algumas tentativas, ela acabou soltando a adaga. Jennifer decidiu que era hora de entrar em ação e correu na direção deles, mas com um golpe rápido ele soltou um dos punhos de Anna, e derrubou Jennifer também, atingindo-a na altura do peito com um golpe fortíssimo.

Anna aproveitou seu braço solto e a momentânea distração dele para erguer-se de pé novamente, passou a adaga que restou da mão direita para a esquerda, e o golpeou no braço forçando a criatura a soltar sua outra mão, enquanto Jennifer ainda atordoada e caída no chão, arrastava-se de costas. A criatura começou a caminhar na direção de Anna, que dava passos para trás no mesmo ritmo que ele avançava. Ela desesperadamente tentou desferir golpes na altura do pescoço, mas a lâmina passou apenas próxima a sua garganta.

Ele então se aproximou num sobressalto, e a segurou pelo pescoço com ambas as mãos. Certo do domínio de sua presa, o gárgula encarou Anna apertando cada vez mais seu pescoço, foi quando ouviu-se o barulho de uma grande asa de morcego abrindo-se. A criatura armara suas asas expondo extremidades pontiagudas prontas para o ataque. Ela continuava presa, com dificuldade para respirar, debatendo-se e tentando soltar as mãos dele do seu pescoço. O pânico tomou conta de sua mente quando percebeu o que estaria prestes a acontecer, ninguém é páreo para um ataque tão letal.

Num golpe rápido, numa espécie de voleio lateral, Jennifer com sua adaga em punho a fincou no pescoço da besta, o máximo que conseguiu. Instantaneamente, ganindo, o gárgula soltou Anna. Arrancou a adaga de seu pescoço e cravou em Jennifer abaixo do ombro direito, fazendo-a cair de costas. Após seu último reflexo, ele caiu ao chão, com as mãos no pescoço, sangrando e debatendo-se, até finalmente não mais mover-se.

Anna olhava o ser sucumbindo no chão, pasmada. Após certificar-se que já não era mais uma ameaça, correu para socorrer Jennifer. Ainda caída, Jennifer apoiava-se no chão com os cotovelos. Com os olhos arregalados olhou então para Anna, que correspondeu o olhar, como se assentisse que o perigo havia terminado. Jennifer sentou-se, e arrancou a faca do seu ombro com dificuldade, franzindo o cenho, com uma expressão de dor.

“Você está bem?!” Anna abaixou-se ao seu lado, e colocou a mão em cima do ferimento, uma abertura na jaqueta, que começava a tingir-se de vermelho.

“Sei lá! Mas essa coisa está morta não está? Chuta ele para ter certeza!”

“Tá morto, fica tranquila.” Anna voltou ao gárgula, e o chutou para fora do vagão, fazendo com que o corpo rolasse pela terra que ficava para trás, levantando poeira.

Anna ajudou Jennifer a levantar-se, e a conduziu até a extremidade do vagão.

“Anda, vamos voltar para o vagão, eles devem estar apavorados.”

“Eles apavorados?? Eu estou apavorada!” Jennifer guardou seu punhal de volta em sua bota, emparelhou-se com Anna na beira do vagão.

“Uma pessoa apavorada não consegue matar um gárgula.” Anna falou olhando para Jennifer. “Vamos, pule, vou logo atrás.” Anna passou seu braço na cintura de Jennifer e a ajudou a pular para o outro vagão, um pulo duplo com facilidade.

Voltaram de encontro aos outros, que estavam de pé, reunidos próximos a porta do vagão. Jennifer entrou eufórica.

“Esse já era pessoal!” Comemorava.

“Mataram aquele bicho?” Bob perguntou olhando para Anna.

Anna, que passou por eles e já se sentava lentamente num monte de sacas, percebeu que a pergunta era direcionada à ela, ergueu a cabeça e apontou para Jennifer.

“Eu não, a heroína aqui é ela. Jennifer matou aquela coisa sozinha.” Falou orgulhosa.

A atenção então se voltou a Jennifer e todos entusiasmados a questionavam como havia matado o gárgula.

“Na verdade Anna fez o serviço pesado, eu só cravei uma faca no pescoço do filho da mãe, ele ainda teve tempo de se vingar na mesma moeda, aquele desgraçado…” Jennifer contava, por fim apontando para o ferimento abaixo do ombro, onde já havia um círculo escarlate. Becca se aproximou e olhou de perto o local onde Jennifer agora pressionava sua mão esquerda.

“Você levou uma facada aí?” Perguntou assustada.

“Foi o presentinho de despedida dele…” Jennifer respondeu com ironia.

“Que horror! Quer que eu dê uma olhada nisso?”

“Agora não… Deve haver um terceiro enviado para nos perturbar, vamos fazer vigília, é questão de tempo para aquela besta do inferno rondar nosso vagão, não é

Jennifer falou olhando para Anna, como um questionamento. Anna apenas assentiu com a cabeça.

Voltaram então para a rotina de levantar e ir olhar os ares, de tempos em tempos. Já passava das cinco da tarde e a apreensão aumentava a medida que o tempo passava. Novamente Jennifer sentava ao lado de Anna, conversavam e revezavam a vigília entre as frestas e a porta.

“Está muito ruim?” Anna olhou para o ombro de Jennifer.

“Agora que o sangue esfriou começou a doer, mas pressinto novas aventuras em breve, então estou tentando não dar muita atenção para isso agora. É como dizem, o que os olhos não veem, o coração não sente. Estou evitando olhar…”

“Mas se você estiver perdendo sangue com esse corte, pode te deixar em apuros em breve, muito em breve.” Anna parecia preocupada, percebeu que Jennifer estava assustada, e um pouco mais pálida que o normal.

“Uma coisa de cada vez. Vamos colocar nosso terceiro amiguinho para dormir, depois eu vejo isso.” Voltaram a ficar em silêncio por alguns segundos.

“Ok, mas depois vou dar uma olhada nessa ferida.”

“Se fosse em você, já estaria cicatrizando?” Jennifer perguntou, instigada por sua curiosidade natural.

“Não.” Respondeu rapidamente, mas depois continuou: “Também não é assim milagroso.” Anna procurava as palavras olhando para o chão. Ela não estava acostumada a ser questionada sobre quem era, isso era algo que sempre a deixava desconfortável. Mas estava achando estranho não se sentir desta forma com as perguntas de Jennifer, no fundo sentia algo até confortável em conversar com aquela garota tão cheia de energia e perguntas.

Anna morava sozinha naquele casarão já há algum tempo, desde que seu pai havia morrido. Seu irmão Andrew, que era alguns anos mais novo que ela, havia saído de casa, simplesmente colocou uma mochila nas costas e disse que ia desbravar o mundo, e nunca mais voltara.

“Digamos que as defesas do meu organismo sejam mais rápidas e eficazes que as suas. Eu, a essa altura, já teria parado de sangrar, e provavelmente eu não teria infecção.”

“Mas eu terei infecção?”

“Sim. Quer dizer… não! Talvez… mas não estou dizendo que você terá uma infecção agora, pelo menos espero que não. Não tenha ok? Daria muito trabalho para nós.”

“Ok…vou fazer o possível… E seus pais, quem é Titan e quem é humano?”

“Jennifer acho que é sua vez de olhar lá fora.” Anna encerrou a conversa, abaixando sua cortina e dando como encerrado o espetáculo.

Anna perdeu primeiro sua mãe, uma bela Titan de longos cabelos castanhos escuros, num acidente de carro, há quase vinte anos atrás. Seu pai, humano, morreu num ataque cardíaco fulminante, tempos depois. Anna havia passado toda a guerra sozinha, se protegendo como podia no seu casarão a beira da praia. Havia perdido a conta de quantos invasores havia colocado para correr, ou eliminado. Aparentava trinta anos, mas por conta de parte da sua genética Titan, sua idade real era maior.

“É… minha vez.” Jennifer levantou-se, apoiando-se no ombro de Anna, e foi verificar os céus. Semicerrou os olhos, e teve então certeza que lá vinha o terceiro e último gárgula. Virou-se rapidamente na direção de Anna.

“Ferrou.” Sussurrou, com seu linguajar despojado. Anna entendeu a mensagem e prontamente levantou-se. Os outros perceberam e levantaram também.

“Quer que eu vá com você Jenny?” Perguntou Becca.

“Anna não vai deixar. Não é Anna?” Jennifer olhou para Anna sacudindo de forma rápida e discreta a cabeça negativamente, franzindo a testa, como se pedindo para Anna corroborar com sua afirmação e não deixá-la acompanhar.

“É muito perigoso Becca, fique aqui cuidando da porta.” Anna confirmou.

Jennifer se aproximou de Anna, e falou de forma pontual, fazendo o planejamento da próxima aventura.

“O segundo vagão depois desse, está com menos madeira nas paredes, ou seja, tem frestas maiores.”

“Bem observado. E?”

“Acompanhe meu raciocínio: é perigoso para nós lutarmos em cima do vagão, acho que deu para perceber né? Podemos nos desequilibrar ou ele pode nos jogar lá de cima facilmente. Acho mais seguro enfrentarmos dentro, por isso a dois vagões daqui é o lugar ideal, temos maior visão do que acontece do lado de fora, poderíamos esperá-lo lá dentro.”

Anna parecia hesitar. Jennifer continuou:

“Vamos atraí-lo para aquele vagão, e esperar lá dentro, com facas em punho …e faremos picadinho dele!” Insistia.

“Ok, mas novamente você fica na minha retaguarda, me deixe atacá-lo, entendido?”

“Totalmente.” Jennifer fez um sinal com o braço apontando a porta, gentilmente. “Primeiro os mais velhos” Sorriu.

Subiram no vagão e olharam ao mesmo tempo para o gárgula no céu, que veio rapidamente ao seu encontro, assim que as avistou.

“Corra para o vagão que você falou!” Ordenou Anna. Jennifer não entendeu a ordem, porque Anna continuava parada olhando para o alto, mas mesmo assim obedeceu e correu em direção ao segundo vagão à frente.

Jennifer correu sem olhar para trás, entrou no vagão e foi logo para a parede dos fundos, foi olhar pela fresta tentando enxergar se Anna estava vindo também. Mas não a enxergou. Achou então que Anna havia ficado lá em cima, e decidido lutar sozinha.             Depois de alguns segundos ela enfim viu Anna correndo desesperadamente, despontando para cima do seu vagão.

“Anna! Corra! Venha para dentro!”

Mas antes que finalizasse a frase uma imagem aterrorizante se seguiu: Anna desistiu de pular, virou-se para trás com a adaga em punho, e Jennifer viu o gárgula num voo rasante cravar as duas lanças de suas asas nos ombros de Anna, a erguendo bruscamente e então a carregando, como um falcão num mergulho rasante para pegar sua presa no solo.

Jennifer ficou paralisada, em pé no meio do vagão, imaginando que o pior havia acontecido. Sustentava os olhos arregalados e a boca semi aberta, sem acreditar na cena que havia acabado de assistir.

“Meu… Deus… Ferrou tudo.” Falava para si, incrédula.

Um estrondo no teto do vagão a tirou daquele estado anérgico. Olhou para cima e então correu para a porta, subiu rapidamente a escada, parou nos últimos degraus e deu uma boa olhada para todos os lados, olhou para cima, mas não viu nada nem ninguém, continuava sem saber o que havia acontecido, eles simplesmente haviam sumido.

De repente Jennifer tomou um susto, Anna apareceu de súbito na lateral da escada, agarrando-se ao corrimão da mesma, quase sem fôlego.

“Santo Cristo mulher! Você está viva?!” Jennifer explodiu, num misto de surpresa e alegria.

“O que você acha?” Anna respondeu, erguendo a mão num gesto de impaciência.

Jennifer apenas sorriu.

“Podemos entrar?” Anna continuou. Seu rosto tinha arranhões na testa e abaixo do olho.

Jennifer entrou no vagão, e assim que Anna entrou, sem titubear deu um abraço nela, aliviada. Anna tinha por volta de 1,80cm, mesmo Jennifer sendo menor,  encaixaram-se perfeitamente. A exultante humana passou seus braços por baixo dos braços dela, e a segurou firme com as mãos espalmadas em suas costas. Anna parecia não entender direito a situação, mas acabou erguendo suas mãos e retribuindo o abraço, meio confusa. Então Jennifer a soltou, olhou ainda assustada para ela, não acreditando que tivesse se safado daquela enrascada. Com uma mão tateou os ombros dela, havia no casaco as marcas das entradas das lanças do gárgula, e então esbravejou:

“Puta que o pariu você quase me matou de susto! Por alguns instantes eu achei que você tinha morrido!”

Anna ainda levou alguns segundos para se recompor, e então mudou totalmente suas feições, passando de séria e surpresa, para uma mais descontraída.

“Bom, desculpe, não foi minha intenção preocupá-la, mas eu estava ocupada tentando matar aquela coisa, não deu tempo de avisar que eu estava viva.”

“E conseguiu matar?”

“Estou aqui, não estou? Ele já era.”

“Eu vi quando ele pendurou você com as asas e te carregou! Eu pensei ‘pronto, levou embora e vai fazer picadinho dela!’ Como você conseguiu?”

“Fiz o mesmo que você, cravei minha lâmina no pescoço dele.”

“No ar??”

“Sim, no ar. Eu sabia que provavelmente não desceria dali viva se não fizesse algo radical, então… tive que arriscar.”

“E o que aconteceu?”

“Caímos.”

“Eu escutei o barulho… céus, vocês lutaram no ar? Eu vou contar esse dia para meus netos e eles não vão acreditar em uma só palavra…”

“E então… vamos voltar para o vagão?” Anna colocou as mãos nos seus ferimentos nos ombros, sentia bastante dor mas tentava não transparecer.

Retornaram rapidamente para o vagão onde se encontrava o pessoal, Jennifer entrou na frente, comemorando.

“Acabou pessoal! O último gárgula virou lixo abandonado ao longo da via!”

“Também matou esse Jenny?” Perguntou Bob. Todos fizeram gestos positivos e pronunciaram palavras de alívio. Sam e Lindsay, as irmãs, se abraçaram.

“Não, não, esse foi nossa amiga aqui… e numa cena cinematográfica!” Jennifer falava efusivamente, colocando o braço em volta de Anna, como camaradas após um jogo vitorioso.

“Conta aí Jenny!” Becca incitava ainda mais a animação de Jennifer.

Anna então caminhou para um canto do vagão e sentou-se, exausta.

Jennifer continuava:

“Nossa, vocês tinham que ver, ela lutou com aquele bicho no ar! No ar! Foi assim: eu cheguei ao segundo vagão e nada dela vir, fui olhar pela fresta e vi finalmente ela se aproximando, mas então o gárgula levou ela embora, subiu com ela espetada pelas suas asas, como um peixe arpoado, ele a enganchou pelos ombros! E depois disso não vi mais nada, só pensei ‘pronto ferrou’. Mas então ouvi um barulhão em cima da minha cabeça e fui ver o que era, e ela apareceu, vivinha, tinha esfaqueado o bichão lá no ar ainda!”

“Sério Anna??” Bob virou-se para ela, questionando.

Anna apenas balançou a cabeça.

“Seríssimo!” Respondeu Jennifer, continuando a história, com empolgação.

“Então acabou? Estamos livres?” Perguntou Becca.

“Estamos! Não estamos Anna?” Jennifer virou-se para Anna, pedindo a confirmação.

“Acredito que sim… Vamos planejar nosso retorno.” Anna respondeu, sem animação. Fez um semblante de dor, continuava levando as mãos aos ferimentos.

E a excitação de Jennifer deu lugar a um ar de preocupação, ela caminhou na direção de Anna e ajoelhou-se ao seu lado, perguntando se poderia dar uma olhada nos seus machucados. Anna tratou logo de tranquilizá-la.

“Vou ficar bem, não se preocupe. Lembra que eu falei como seria se seu ferimento fosse a mim? Daqui a pouco já nem estarei mais sangrando.”

“Tomara… E não terá a infecção que eu já devo estar desenvolvendo neste instante.”

Anna apenas sorriu de leve, rapidamente. Bob, Becca e Peter também se aproximaram das duas, e logo questionaram o que fariam a seguir.

“Eu… não sei. Vamos pular do trem?” Perguntou Jennifer, receosa.

“Vamos, mas não assim no meio do nada. Vamos esperar a próxima cidade, ou vilarejo. E então pulamos. A essa hora não deve ter comboios voltando, acho mais seguro procurarmos algum lugar para passarmos a noite, e então voltamos no primeiro trem que for na direção de Bridgeport.” Anna falou olhando para o chão a sua frente, pensativa.

Todos pareciam agora pensar em cada passo que dariam a seguir, como se estivessem mentalizando a continuação da aventura proposta por Anna.

“É isso aí gente, vamos ficar na porta até avistar algum vilarejo, e então saltamos. Nós temos alguma provisão que pegamos na casa da nossa amiga Anna, nos viraremos com isso até amanhã.” Jennifer ratificava os planos dela.

“Acho que precisamos de água…” Falou Becca.

“Quando chegarmos procuraremos água, se tiver algum comércio no local, compramos algumas garrafas, tenho uns trocados no bolso.”

Jennifer caminhou até a porta e passou a observar atentamente a paisagem a sua frente.

A esta altura tanto Anna quanto Jennifer estavam num estado de surpresa uma com a outra. Jennifer admirava sua coragem e bravura, e o zelo altruísta que tinha por ela e por seus amigos. Anna era uma desconhecida que teve sua casa invadida, e estava ali arriscando sua vida por eles, os defendendo, e inclusive havia se ferido seriamente, mas permanecia ali forte como uma rocha.

Mesmo numa circunstância emergencial como aquela, Jennifer estava ávida por saber mais sobre Anna, quais seus truques, o que fazia, o que já tinha feito. Havia despertado um interesse do tamanho daquele trem, ou maior!

Da mesma forma também havia a curiosidade de Anna. Ali sentada no chão do vagão, pensando no próximo passo, mas não conseguindo evitar olhar para Jennifer de quando em quando, como se entendesse melhor quem era aquela garota, apenas observando. Como havia aprendido a ser tão independente e destemida? Qual a história da sua vida?

Todos se sentaram próximos a Anna, como se a proximidade recompensasse os esforços dela, e a agradecesse por não ter os abandonado ainda à beira da linha férrea, ou ainda que não tivesse simplesmente os expulsado de sua casa, o que teria sido mais que admissível.

Algum tempo depois Jennifer veio correndo, em saltos, para próximo do grupo, avisando que haviam avistado o que parecia ser casas e uma estação de trem.      Levantaram-se e tomaram posição. Quando o trem se aproximou da vila pularam um a um, num descampado com vegetação rasteira.

Caminharam até uma antiga estação ferroviária, parcialmente destruída, mas ainda com alguns guichês de pé. A luz do dia diminuía, a temperatura começava a cair e o céu agora rosado, com algumas nuvens, passava a ter a iluminação especial da lua por trás das massas cinzas arredondadas. Tentavam adivinhar em qual cidade ou vila estavam.

A estação era uma plataforma alta, com paredes amarelas, a um metro do chão. Anna avistou um armazém do outro lado, e pediu que alguém a acompanhasse, para comprarem água. Jennifer prontamente se voluntariou, mas Anna a vetou.

“Você? Melhor não…” Anna respondeu, franzindo a testa como um ‘sinto muito’.

“Você chamaria a atenção, com essa jaqueta suja de sangue…” Continuou.

Becca prontificou-se então.

“Eu vou com você. Esperem aqui embaixo do lado da plataforma.”           Sentaram-se no chão, encostados na parede da estação. Anna e Becca voltaram em poucos minutos, trazendo quatro garrafas de água e um pacote de biscoitos.

“Opa teremos até sobremesa?” Brincou Bob.

Anna pareceu não ouvir, olhava para os lados, como se procurando algo.

“Vamos naquela direção, estão vendo? Tem algumas casas, parecem abandonadas, se acharmos alguma com teto e paredes suficientes podemos passar a noite.”

Anna pediu que se levantassem e começaram a caminhada na direção de um conjunto de casas, cinzas, ocres, parcialmente destruídas. Ficavam a uns quinhentos metros da estrada de ferro.

“Se tudo der certo, amanhã no início da tarde já estaremos em nossas casinhas…” Comentou Becca.

“Será?” Perguntou Jennifer.

“Perguntamos no armazém quando passava o próximo trem em direção ao sul, e a moça respondeu que entre oito e nove da manhã passa um trem de carga. É nossa carona de volta!” Animou-se Becca.

Caminhavam com passos rápidos, na pressa de encontrar seu próximo ponto de parada. Almejavam um pouco de sossego, dentro do possível numa casa abandonada, e longe de seus lares.

De vez em quando Jennifer levava a mão ao ombro ferido, parecia cada vez mais doer e incomodá-la. Enquanto Anna se esforçava para ignorar seus próprios ferimentos. Permanecia com olhar atento, porte altivo, e seu costumeiro ar destemido.

Chegaram até as casas, a rua de chão batido parecia uma rua fantasma, com casas inabitadas e o mato crescendo. As primeiras casas estavam totalmente destruídas, até que encontraram uma casa com pelo menos dois cômodos intactos e ainda coberta pelo telhado.

Adentraram devagar, estudando cada detalhe da habitação. O melhor cômodo de pé parecia ter sido um dia a sala de estar da casa. O chão de madeira não muito empoeirado, e com algumas roupas velhas largadas, denunciava que outros hóspedes temporários haviam passado por ali não muito tempo atrás.

A porta do outro lado da sala estava fechada com tábuas pregadas, bem como as duas janelas da parede contrária a lareira. “Que bom, proteção para o frio!” Pensou Jennifer.

O interior da casa tinha as paredes brancas, porém sujas, e com manchas escuras. Por um momento Jennifer sentiu-se intrigada ao pensar que aquela já havia sido a casa de alguém, de alguma família. Questionava se alguém havia morrido ali, durante a guerra, ou se tiveram tempo de fugir do bombardeio.

“E então, vamos acender essa lareira?” Perguntou Bob.

“Acho que pode chamar atenção desnecessária…” Jennifer receou.

“Vai esfriar a noite, podemos acender a lareira e ficamos de vigília para nossa segurança. Vai esfriar bastante.” Respondeu Anna.

“Ok, vamos lá fora procurar madeira que possa ser usada como lenha!” Bob chamou para o acompanharem.

As meninas que ficaram dentro da casa começaram então a preparar sanduíches com pães e salame que haviam pegado na casa de Anna. Distribuíram também a água, uma garrafa para cada par.

Um a um, voltavam para a casa, trazendo o que haviam encontrado para manter o fogo durante a noite, gravetos, pedaços de madeira de escombros. Uma pilha foi se formando ao lado da lareira. Jennifer voltou esfuziante trazendo um pedaço de tronco que havia encontrado.

“Esse vai queimar a noite toda!” Vibrava. “Viu Bob, duvido achar um tronco melhor que este!”

Enquanto isso Anna pegou alguns gravetos e punha-se a esculpi-los, pontudos, como pequenas lanças, para que cada um tivesse algum tipo de defesa durante a noite. Depois saiu a procura de algo que pudesse ser usado como ignição para o fogo, alguma palha talvez.

Naqueles tempos a segurança era um dos maiores problemas pós-guerra. Com a polícia enfraquecida, a população parou de confiar na segurança pública, abrindo espaço para grupos de segurança privada e milícias. O maior temor de todos não era que assaltantes ou outros nômades invadissem sua casa durante a noite, tinham medo que milícias de Titans os abordassem com violência, pelo simples prazer de cometer aqueles atos, já que vagavam em grupos durante a noite, seguindo suas próprias leis, e não hesitavam em bater ou atirar em quem cruzasse o caminho deles. E se vissem uma híbrida ajudando um grupo de humanos, não perdoariam.

Já passava das oito da noite quando finalmente o fogo tomou vigor na pequena lareira. O clarão das chamas iluminava os semblantes de todos, destacando o vermelho dos rostos dos que haviam carregado a lenha. Pareciam cansados, mas animados com o surgimento de grandes chamas. Bob e Jennifer, abaixados, ainda se aproximavam e colocavam mais alguns gravetos estrategicamente, como se estivessem num jogo de pega varetas.

Enquanto isso Anna se agachou ao lado dos que estavam cuidando dos mantimentos, conversou ponderosamente, gesticulando com calma, ensinava a usar as lanças improvisadas, passando orientações sobre como se defender caso algo acontecesse a noite.

Todos já haviam se alimentado, ou ainda finalizavam seus pães, sentados junto à parede de frente à lareira. Jennifer continuava entretida com o fogo, agachada, colocando gravetos. Até que sua visão ficou turva, como se uma grande lanterna a cegasse. Sentiu as pernas fraquejando, desequilibrou-se, deu alguns passos sôfregos para trás e acabou caindo de costas.

Anna rapidamente levantou-se e foi acudi-la, ajoelhando-se ao seu lado. Viu que estava suando e parecia desnorteada. Abriu sua jaqueta jeans e confirmou o que suspeitara, a camisa por baixo estava com o lado direito completamente rubro de sangue, um rastro vermelho que sujava inclusive a borda da calça.

“Garota, você tem ideia do quanto já perdeu de sangue?!” Questionou preocupada.

“Isso foi uma pergunta retórica ou eu deveria saber a resposta?” Brincou Jennifer, mesmo quase desfalecendo e ardendo em febre.

Anna a arrastou devagar até a parede. Despiu-se de seu casaco negro, dobrou e colocou embaixo da cabeça de Jennifer, como travesseiro.

“O que aconteceu com ela??” Aproximou-se Becca, assombrada.

“Perdeu mais sangue do que podia, está com febre, deve ter infeccionado…” Respondeu Anna, ainda verificando a camisa encharcada dela.

“Ah… a tal infecção…” Jennifer sorriu novamente, olhando para Anna, que não retribuiu o riso.

“Ela vai ficar bem, não vai?”

“Eu vou tentar melhorar um pouco isso…” Desconversou.

“Becca, relaxa, tá tudo bem, foi só uma tontura. Amanhã à noite estarei jantando na sua casa.”

Anna pegou uma garrafa de água e a ajudou a tomar um gole. Ergueu um pouco a cabeça de Jennifer, pegou algo nos bolsos do seu casaco e voltou a deitá-la no embrulho macio.

“Alguém pode arranjar um lenço, um pedaço de pano, ou algo do tipo?”

Depois de livrar-se da camisa de flanela xadrez, Bob respondeu: “Aqui, aqui.” Entregando a Anna sua camiseta de algodão branca, sem mangas, que usava por baixo.

“Talvez eu não a devolva, tudo bem?” Anna perguntou.

“Fique a vontade.” Respondeu, apenas preocupado em ajudar.

Anna pegou a adaga de dentro da bota de Jennifer e cortou a camisa em três pedaços. Dobrou dois deles e ficou com um sobre sua perna.

“Posso abrir sua blusa?” Anna perguntou de forma afetuosa a Jennifer.

“Não vai nem oferecer uma bebida antes?” Jennifer respondeu baixinho.

Anna sorriu e então ergueu uma pequena garrafa de uísque, completando.

“Infelizmente não é para você beber. Prometo que lhe pago uma bebida qualquer dia desses. Essa aqui é para limpar seu ferimento.”

Anna abriu com cuidado sua blusa, expondo totalmente o lado direito, deu uma boa olhada no estrago, em seguida colocou a alça do seu sutiã para o lado.

Antes de despejar o conteúdo da garrafa, Anna fitou Jennifer, que não mais olhava seu próprio ferimento e sim retribuía o olhar.

“Vai doer.” Anna a alertou, gentilmente.

“Tudo bem, manda ver, confio em você.” Jennifer respondeu, fazendo uma fisionomia de valentia.

Anna titubeou de novo, e então ergueu um pouco a mão direita, que estava livre.

“Tome, pode apertar minha mão se quiser.”

Jennifer aceitou a oferta segurando sua mão. Anna derramou aos poucos o uísque sobre o ferimento, o sangue diluído em álcool escorria para os lados, empossando sobre seu corpo. Jennifer apertou sua mão, num longo piscar, depois franziu a testa, apertou os olhos, e mordeu o lábio inferior numa expressão de dor.

Momentos depois ao abrir os olhos se deparou com Anna que a olhava com um semblante apreensivo. Neste momento Jennifer pode ver de perto seus arranhões no rosto, pequenos cortes e vergões na testa do lado esquerdo, e um corte acima da maçã do rosto, próximo ao olho esquerdo. Notou o cabelo solto querendo pender para frente das orelhas, seus olhos que pareciam duas porções de um mar azul. Pela primeira vez podia ver todas as feições de Anna bem de perto.

“Tudo bem?” Perguntou Anna.

“Acabou?”

“Vou limpar agora. Consegue devolver minha mão? É que vou precisar dela.”

Anna então começou a passar um dos retalhos de pano da camisa de Bob ao redor do ferimento, e depois mais suavemente, por cima do corte. Depois desceu e foi limpando abaixo, próximo a cintura. Jennifer acompanhava os movimentos com um olhar baixo.

“Posso?” Perguntou Anna, olhando para a altura do peito.

“Claro, fique a vontade.”, respondeu Jennifer.

E então limpou o sangue por baixo do seu sutiã, com delicadeza.

“Onde você arranjou essa garrafa?” Jennifer questionou.

“Peguei emprestado no armazém do lado da estação, enquanto Becca entretia a vendedora.”

“Emprestado?”

“Pronto, vou improvisar um curativo, ok?” concluiu Anna, encerrando o assunto.

Jennifer apenas assentiu com a cabeça. Anna dobrou outro pedaço do pano, e colocou em cima da ferida. Pegou um pequeno rolo de fita adesiva, e começou a tirar pedaços e colar por cima da bandagem.

“Também pegou essa fita emprestada?” Perguntou jocosamente Jennifer.

“Ahan. Mas um dia eu volto lá e devolvo tudo.”

“Anna você é uma caixinha de surpresas…” Jennifer falou quase sussurrando, sonolenta.

Quando terminou o curativo, fechou sua blusa e a jaqueta. Olhou para Jennifer e viu que ela estava de olhos fechados.

“Jennifer? Jennifer não durma, não ainda.”

Ela abriu os olhos lentamente.

“Tente se manter acordada, você consegue? Mais tarde deixo você dormir, prometo. Você já comeu?”

Jennifer fez sinal negativo com a cabeça. Anna buscou comida, a ergueu um pouco, e ajudou a comer.

“Está com frio?”

“Uhum. Mas quem não está não é?”

“Sim… mas você está sentindo mais frio por causa da febre. Só não durma agora.”

“Ordens médicas?”

“Ordens médicas expressas.”

“E seus ferimentos? Foram piores que esse meu cortezinho no ombro. Você precisa cuidar deles também.”

“Eu vou ficar bem. Eles não estão mais sangrando.”

“Posso ver?”

Anna apenas olhou para Jennifer, então se levantou e dirigiu a palavra para todos:

“Pessoal a noite vai ser bem fria, tentem permanecer próximos a lareira, e não podemos deixar o fogo apagar.”

“Vamos manter vigília?” Interrompeu Bob.

“Sim, eu me ofereço para ficar de vigília inicialmente, mas podemos revezar,

em duplas. Todos de acordo?”

Todos concordaram, e logo formaram as duplas. Iniciaram uma discussão para formar a ordem da vigilância.

“Gente, se não se importarem, eu gostaria de fazer o primeiro turno, porque quero ficar de olho nela, monitorando a febre.” – Anna apontou para Jennifer com a cabeça. “Poderia ficar até meia-noite, ou uma da manhã.”

“Depois vocês podem revezar de duas em duas horas.” Continuou.

“E quem estiver acordado, também cuida do fogo. Tem bastante lenha ainda, mas se precisar, procuraremos mais.” Completou Becca.

“Becca tem razão, sem esse fogo vamos congelar. Fiquem próximos uns aos outros para se aquecer. Se preferirem durmam em duplas, para aproveitar o calor do corpo.” Anna sugeriu.

Anna escutou Jennifer falando algo, mas não entendeu. Aproximou-se dela, e abaixou-se.

“O que você falou?”

“Também quero fazer turno.”

“Mas você não está em condições de ficar de vigília…” Anna falou de forma tenra.

“Posso fazer o último turno, já estarei melhor.”

“Tá bom, vou pensar no assunto ok? Quem sabe nós duas fazemos o último período então.” Respondeu, já sentando ao seu lado.

A temperatura caia cada vez mais, todos conversaram mais um pouco sobre a ordem dos turnos, e então foram procurando as melhores posições para dormir, apoiando-se uns nos outros. Anna colocou seu casaco sobre Jennifer, cobrindo seus braços.

“Então amanhã levantamos acampamento e vamos para a beira dos trilhos esperar o trem, certo?” Perguntou Becca.

“Correto. Apagamos o fogo, e vamos para o outro lado dos trilhos, antes do armazém.” Anna falou, com sua forma séria costumeira de falar.

“Tomara que o trem pare na estação, daí fica mais fácil de subir…” Completou Peter.

“Que nada, já somos experts em trens, subimos no vagão mesmo em movimento!” Brincou Bob.

Anna olhou para o lado e viu Jennifer lutando para manter os olhos abertos. Virou-se em sua direção e colocou uma mecha do cabelo dela que estava sobre sua testa, para trás da orelha.

“Como se sente?”

“Desejando minha cama.” Jennifer tremia e batia seus dentes, com frio.

Anna virou-se, levantando e ficando de joelhos.

“Chegue um pouco para frente.” Pediu.

Jennifer desencostou da parede devagar, arrastou-se um pouco para frente. Anna entrou no espaço que se formou entre Jennifer e a parede, sentando-se atrás dela, com as duas pernas ao redor do seu corpo.

“Pode encostar-se em mim agora.” Anna pegou as mãos de Jennifer por baixo do casaco, as cruzou sobre seu peito, e a puxou delicadamente para trás, para próximo de si. Deixou seus braços lá, por cima dela, para aquecê-la.

“Ficou mais quentinho assim?” Perguntou baixinho, próximo do ouvido de Jennifer. Ela apenas balançou a cabeça, concordando.

“Pode dormir agora, vou ficar de olho em você.” Falou, colocando a mão em sua testa, checando a temperatura.

Todos dormiam. Anna permanecia alerta, olhando para a porta, para Jennifer, e às vezes para a janela na parede de trás. Sentia o corpo de Jennifer tendo tremores cada vez mais espaçados, acompanhou a temperatura dela caindo lentamente, e a respiração mais forte, denunciando que caíra no sono.

Antes de adormecer, Jennifer se deu conta do conforto de estar deitada não mais numa parede dura, mas no corpo aconchegante de Anna, seus pensamentos já se confundiam num estado de quase sono, mas sentia-se não só confortável e aquecida, mas também envolta, segura.

Anna podia ouvir apenas os ruídos da noite, que insistia em avançar lentamente. Alguns grilos e cigarras faziam a trilha sonora, as vezes o farfalhar das folhas das árvores, quando alguma brisa soprava. Pela porta pouca claridade invadia o recinto, o céu estava encoberto. As chamas da lareira projetavam sombras dançantes nas paredes e refletiam nuances amareladas nas feições das pessoas adormecidas.

Um pouco antes de uma da manhã, Anna chamou Bob e Becca para assumirem o turno.

Ajeitou-se como pode, e acomodou um pouco mais Jennifer em seu colo, deitando a de lado, passando um braço por sobre ela.

“É meu turno?” Balbuciou Jennifer, sem abrir os olhos.

“Não, pode continuar dormindo.” Anna sussurrou.

Bob estava agora sentado ao lado de Becca, passando seu braço pelos ombros dela, tentando aquecê-la. Esfregavam os olhos numa tentativa de afastar o sono, enquanto bocejavam.

Mesmo não estando mais de vigília, Anna continuava acordada. Preocupava-se menos com a porta e possíveis invasores agora, permitia se demorar observando Jennifer dormir, pacificamente, ela já não tremia mais. Passou os dedos nos cabelos um pouco bagunçados de Jennifer, preso num rabo de cavalo. Ela parecia mais corada agora, realçada pelo fogo. Tinha um rosto jovial, ‘parece uma menina dormindo depois de um dia de aventura’, concluiu Anna, que finalmente adormeceu.

Quando o sol começava a raiar, Anna despertou com um barulho no lado de fora. Sem alarde, permaneceu fitando a porta. Um barulho de passos se aproximava cada vez mais, ela continuava olhando fixamente para a porta.

Então um vulto surgiu, e ela de sobressalto sacou a adaga de Jennifer, que havia guardado ao seu lado. Mas a figura que surgiu na porta era Peter, carregando alguns gravetos. Suspirou com alívio, deixando a faca no chão ao seu lado, e tratando de dormir mais um pouco. Menos de uma hora depois já estavam todos acordados, ansiosos com a volta para casa.

Jennifer despertou já sem febre, e com boa disposição.

“Você dormiu desse jeito, assim sentada?” Perguntou para Anna, se virando para trás.

Peter respondeu antes que Anna falasse algo.

“Sim, até eu acordá-la cedinho, quando fui buscar mais madeira, te assustei não foi?”

“Um pouco… Devo dizer que você correu o risco de ver uma faca voando em sua direção…” Anna respondeu em tom descontraído.

Peter riu.

“Já vamos para os trilhos?” Perguntou Becca.

“Daqui a pouco…” Anna consultou o relógio no pulso de Jennifer, passava um quarto de hora depois das sete. “Antes de qualquer coisa, vamos apagar essa lareira.”

Seguiram logo depois para o local estipulado, esperaram em pé, todos estavam inquietos demais para sentar. O trem apareceu e já foi logo desacelerando para parar na estação, o que facilitou a subida. Anna subiu primeiro, num dos últimos vagões. Rompeu o cadeado da porta e ajudou todos a subirem. Havia sacas de tamanhos e conteúdos variados. Algumas bobinas de fio elétrico também formavam pilhas. Afastaram algumas sacas e se acomodaram para a viagem de quase quatro horas que viria a seguir.

A manhã começava clara, com poucas nuvens, e o sol morno trazia uma sensação que um dia mais tranquilo estava a caminho. Anna sentou-se mais no centro do vagão, encostada em uma pilha baixa de sacas escuras. Jennifer checou um a um seus amigos, se estavam todos bem, abaixou-se na frente de Lisa.

“O braço quebrado incomodou muito? Conseguiu dormir?” Perguntou solícita.

“Depois que Peter me aqueceu, a dor foi diminuindo. Consegui dormir sim.”

“Assim que chegarmos, vá ao hospital, ok?”

Jennifer levantou, olhou ao redor, confirmando que todos estavam devidamente acomodados. Olhando para trás percebeu que na verdade faltava uma pessoa para verificar. Anna foi pega de surpresa quando seus olhares se cruzaram através do vagão, discretamente, desviou o olhar. Jennifer caminhou então na sua direção, e fez menção de sentar-se ao seu lado.

“Está ocupado?” Perguntou, sorridente.

“Agora está.” Respondeu Anna.

Jennifer sentou, ficaram em silêncio por um instante. Então inclinou a cabeça para frente e olhou para o lado com o cenho franzido para Anna.

“Você não me acordou para meu turno, não foi?”

“Não.” Anna respondeu, com um leve risinho sarcástico.

Jennifer voltou a se recostar na pilha.

Anna continuou:

“Achei que você não se lembraria de nada hoje.”

“Tudo bem, pelo menos dormi mais que você. A propósito, você conseguiu dormir?”

“Acho que tirei um cochilo…”

Jennifer mexia numa lasca de madeira que soltava-se do chão a sua frente, tentando arrancar. Novamente ficaram em silêncio.

“O que você fez… por nós, por mim… foi incrível.”

“Fiz o que qualquer pessoa que se importa com os outros faria.” Anna respondeu, depois de alguns segundos em silêncio.

“Como estão suas perfurações nos ombros?”

“Sob controle.”

“Achava que hoje em dia não existisse mais pessoas assim.” – Jennifer parou de mexer no chão, se ajeitou, olhou para Anna, que ostentava um ar cansado e pensativo, olhando para baixo. “Obrigada por não desistir de nós… Por ter lutado por nós… E por cuidar de mim, me aquecido… mesmo empenando suas costas.” Finalizou com um sorriso.

Anna correspondeu o olhar por alguns segundos, então abriu seu casaco e tirou a adaga de Jennifer, entregando-a.

“Tome, precisei pegar emprestada durante a noite.”

“Fique. Você perdeu as suas ontem.”

“Não tem problema, tenho outras.”

Jennifer guardou em sua bota.

“Você coleciona?”

“Não, as fabrico.”

“Sério!?”

“Tenho uma oficina de forja em casa. Meu pai fabricava, e me ensinou a fazê-las.”

Jennifer animou-se com a abertura de Anna, e inclinou-se um pouco na direção dela, para continuar a conversa.

“Nossa que legal! E você faz todo tipo de facas ou somente adagas?”

“Basicamente adagas, pequenos punhais, espadas, aquelas estrelas, com pontas afiadas, sabe?”

“Sim! Estrelas ninjas são ótimas! É tudo para uso próprio?”

“Onde eu usaria centenas de facas? Eu as vendo.”

“Deve ser um bom negócio nos dias de hoje, não?”

“Já foi melhor.”

Jennifer voltou a se encostar nas sacas.

“E o que você faz quando não está forjando lâminas?” Tentava reacender a conversa.

“Coisas… sei lá.”

“Gosta de sair para fazer coisas no final de semana?”

“Raramente. Às vezes algum bar na Cidade Velha.”

“Eu prefiro os pubs do Centro. Não que você tenha perguntado.”

Anna desfez o semblante sério, deu uma boa olhada para Jennifer. Ajeitou a posição, subiu uma perna. Se deu conta da recuperação rápida que Jennifer teve, sentada ali do seu lado, com um olhar brilhante, parecia cheia de vida.

“Qual seu pub preferido?” Perguntou Anna, com um tom mais descontraído.

“Nós costumamos ir ao O’Reyes, um pub costa-riquenho.”

“Costa-riquenho??” Anna parecia incrédula.

“Sim, o dono é o Oscar. Libera uns chopes de vez em quando. E nunca nos expulsa!” Falou rindo. “Ele é um cara legal… Você curte chope, não?”

“Sim.”

“É canadense, mas é bom, acredite. Chope Bordeaux.”

Anna não conseguiu segurar o riso, olhou com surpresa para Jennifer.

“Jesus Cristo isso está errado em tantos níveis… Um pub costa-riquenho que vende chope canadense, chamado Bordeaux!”

“É… você falando assim, tudo junto, até que soa estranho. Não tinha me dado conta.”

“Sério?”

“Eu vou lá para beber, e não para fazer uma análise geopolítica do local.”

 

Com a guerra, as fronteiras entre os países aliados se esmaeceram. Por fim, os Estados Unidos, que sempre tiveram um controle de entrada de estrangeiros rigoroso, fazia um apelo para que pessoas de outros países migrassem para lá, já que sua população havia sido dizimada, e muitos americanos fugiram para países menos visados pelo eixo do mal.

Essa abertura resultou numa miscigenação em grande escala, além de um grande choque cultural. Apesar da sensação de insegurança e pouca credibilidade no governo, havia um pensamento uníssono de reconstrução em toda a América. O imigrante que /antes era visto com certo repúdio, agora era visto como os novos pilares da reedificação do país.

 

A paisagem bucólica não mudava muito no decorrer da viagem: campos que um dia já foram plantações, agora estavam abandonados. Algumas casas que viraram escombros, outras parcialmente destruídas, contrastavam com aquelas que ficaram de pé, e por serem habitadas, mantinham um bom aspecto.

Anna percebeu que o destino se aproximava, era quase meio-dia e as nuvens haviam ficado cada vez mais distantes, deixando o céu de anil se mostrar por completo.

“Onde pulamos?” Becca questionou, enquanto se levantava. Deu uma olhada pela porta.

“Pulem comigo. Tanto faz se pularem um pouco antes ou depois, a vila de vocês não ficará mais perto. Pelo menos assim eu oriento vocês até chegarem na minha casa. E de lá acredito que vocês conseguem achar a rodovia sozinhos.” Anna respondeu, terminando a frase como um questionamento para Jennifer.

“Ah sim, claro. Da sua casa sabemos continuar até nossas casas.”

Anna deu o sinal e todos pularam, em fila. Fizeram o mesmo caminho do dia anterior, entre a vegetação rasteira, chegando até a casa dela.

Chegaram até o terreno da casa, um a um foram agradecendo Anna, com um aperto de mão.

“Não precisam ir pelo campo para chegar a rodovia, peguem esse caminho aqui na frente da minha casa, vai dar na estrada.” Anna orientava, apontando para uma p/equena estrada de chão batido, que saia do seu portão de ferro.

“Você foi nossa heroína, você sabe disso, não sabe?” Bob segurava a mão de Anna, após cumprimentá-la.

“Seremos eternamente gratos pelo que fez por nós. Prometo que vou trazer um bolo aqui para você qualquer dia desses.” Becca emendou, rindo.

“Obrigada por tudo Anna…” Por fim, Jennifer se despedia de Anna. “Enfiamos você numa puta enrascada e mesmo assim você nos ajudou até o fim.”

“O que importa é que todos estão de volta, são e salvos. Vão para suas casas e pensem duas vezes antes de desafiarem Titans mal intencionados.” Anna terminou falando um pouco mais alto, para que todos ouvissem.

O grupo abriu a portão pesado que dava para a estradinha, e começou a caminhada de volta, que seria de quase quatro quilômetros. Não tinham pressa em seus passos.

Haviam caminhado apenas duzentos metros, quando Jennifer parou e olhou para trás.

“Vão andando, esqueci uma coisa lá, já volto.” E saiu correndo de volta a casa, Anna já havia entrado.

Jennifer entrou ofegante, viu Anna saindo da cozinha, com uma garrafa de água na mão.

“O que houve?’ Anna perguntou, surpreendida.

Novamente Jennifer deu um abraço urgente, quase sofrido, em Anna, como da vez que ela havia achado que o gárgula a matara.

“Obrigada…” Falou baixinho, ainda a prendendo com os dois braços à suas costas.

Quando se soltaram, Jennifer a encarou, ainda com uma expressão urgente.

“Vou ver você de novo?” Perguntou.

“Se você assim quiser, claro.” Anna respondeu, com uma voz branda. “Fiquei bastante curiosa para conhecer o pub costa-riquenho.”

“Fechado então. É o melhor chope canadense que você irá provar.”

“Onde na vila que você mora? Na parte baixa?”

“Sim, o último prédio cor de tijolo da rua principal.”

“Ok então, eu passo nesse sábado e te pego.”

“Mas você disse que não tem carro.”

“E não tenho.”

“Já sei, você tem um cavalo, não é? Cavalos e espadas.”

“É… digamos que sim.”

Jennifer saiu correndo, de volta aos seus amigos, e a partir daquele dia seu mundo nunca mais seria o mesmo.

 

 

         Capítulo 2 – Beatles

 

Além da dificuldade da prestação dos serviços básicos, eram tempos de precariedade na tecnologia. Centros tecnológicos, torres, backbones, a maior parte foi destruída no decorrer dos cinco anos de conflito. O pouco que restou, juntamente com o que foi reconstruído, oferecia serviços de telecomunicação e internet bastante debilitados, e caros. Linhas telefônicas já não existiam mais. Internet e celular custavam o mesmo de quando surgiram, apenas pessoas mais abastadas tinham acesso a estes serviços com qualidade.

 

/           Sábado chegou a passos lentos. No início daquela tarde Jennifer bateu na porta de Becca.

“E aí vizinha, vai no Oscar hoje a noite?” Jennifer perguntou, entrando no apartamento.

“Tenho planos sim. E você? Vamos rachar um taxi ou Bob vai passar aqui?” Becca se espojava no sofá, vendo TV.

Becca era uma pequena e bonita garota, da mesma idade de Jennifer. Haviam se conhecido ainda na infância, nas aulas de música que faziam. Queixo um pouco proeminente, cabelos lisos e longos, castanhos. Olhos pequenos, também castanhos, com uma luz esverdeada.

“Vou ficar te devendo essa, tenho carona.” Jennifer sentou numa cadeira próxima ao sofá.

“Alguém que eu conheça?”

“Ahan.”

“Sério? Alguma frequentadora do pub?”

“Não. Quer dizer, ainda não…”

“Alguém do porto?”

“Não.”

“Desembucha logo Jenny.”

“É surpresa.” Jennifer respondeu com um sorriso cínico.

“Para você não querer falar é porque deve ser alguma encrenca ou alguém que eu não vou com a cara.”

“Temo que a senhorita esteja equivocada.”

“Não vai se meter com garota problema de novo hein?”

“Fique tranquila, é só uma nova amiga que está a fim de conhecer o pub, não há interesses ilícitos de minha parte, nem da dela.”

“Sei, olha como estou acreditando em você.”

“Não, sério. É só uma nova amiga mesmo, sem segundas intenções.”

“A Alice vai. Da outra vez ela ficou perguntando por você a noite toda.”

Jennifer ficou em silêncio, vendo a TV.

“Ouviu o que eu disse? A Alice vai estar lá.”

“Ouvi sim. Ainda estou me decidindo se teremos mais algum round. Mas acho que não… Ela está entendendo nossas noites casuais de outra forma.”

“Ela está entendendo que vocês estão quase namorando, enquanto você está entendendo que ela é uma amiga com benefícios.”

“É… eu sei. Aí que mora o perigo. Conclusões precipitadas. As pessoas estão muito carentes hoje em dia, não acha?”

“Deve ser o pós guerra.”

“Todo mundo culpa a guerra por tudo, até quando chove dois dias seguidos, é culpa da guerra!”

Passaram mais algum tempo vendo TV, Jennifer estava tentando conter a euforia de rever Anna, depois da aventura que haviam passado, ficou a tarde inteira olhando no relógio, torcendo para os ponteiros voarem até a noite.

Por volta das dez horas Jennifer já estava pronta, ia a janela de dez em dez minutos, e voltava para frente da TV. “Ela não vem… Ela disse aquilo por educação…” Pensava.

Até que uma buzina foi ouvida, correu até a janela e viu uma moto preta esportiva parada embaixo do seu prédio, uma pessoa ainda com o capacete olhava para cima.

Desceu os dois andares de escadas e encontrou Anna, já sem o capacete, montada na moto. Deu uma boa olhada e sorriu.

“Você não tinha um cavalo?” Jennifer exclamou, olhando para a moto.

“Noventa cavalos, para ser mais exata.” Falou, entregando um capacete a Jennifer.

Jennifer sentiu-se estranhamente bem ao ver Anna, que mantinha um sorriso leve nos lábios. Parecia ainda mais encantadora de quando se conheceram, estava agora com uma jaqueta de couro preta, curta, com gola padre, e mantinha calça e botas pretas.

“Você sabe onde fica o pub?” Questionou Jennifer, enquanto colocava o capacete.

“Imagino onde seja. A propósito, você fica muito melhor sem aquele sangue todo.”

“Obrigada por perceber!”

Jennifer teve que segurar mais firme, com a arrancada forte que Anna deu com a motocicleta.

Adentraram devagar o pub, que tinha uma iluminação baixa e letreiros luminosos coloridos. Haviam quadros e pôsteres de cervejas irlandesas e inglesas nas paredes, uma grande bandeira irlandesa, contrapondo com algumas flâmulas coloridas com as cores vermelho, azul e branco, quem também são as cores da bandeira da Costa Rica. Jennifer procurava com a cabeça por seus colegas, os avistou sentados numa mesa retangular, com um banco acolchoado preso a parede.

Além de Becca, Bob era o outro componente daquela noite de aventura que viveram recentemente, e havia quatro outros amigos. Becca levantou-se quando as viu, sorriu balançando a cabeça e cumprimentou Anna. Ela notou que dois integrantes da mesa não a cumprimentaram, ao invés disso, cochicharam entre si. Já havia percebido alguns olhares tortos vindos de outras mesas também.

“Veja só, se não é nossa heroína preferida!” Exclamou Bob, quebrando o gelo.

Finalmente sentaram, e Jennifer a olhou de relance, não imaginara que aquela mulher destemida pudesse ficar tímida diante de uma socialização tão corriqueira. Percebeu então que talvez não fosse tão corriqueira assim para Anna, que talvez estivesse acostumada a enfrentar feras em locais inóspitos, mas não pessoas comuns num pub.

“Vou buscar uns chopes, já volto.” Jennifer dirigiu-se ao balcão do bar, e voltou sorridente com duas canecas nas mãos.

“Esse é o fantástico chope canadense que você mencionou?”

“O fantástico é por sua conta e risco. Vamos, experimente!” Falou Jennifer animada.

Deu um longo gole, e olhou séria para caneca.

“Nada mal!” Anna falou, virando-se para ela.

“Costuma ficar melhor depois do sétimo.”

“É seu número cabalístico?”

“Digamos que seja meu divisor de águas. Na verdade é quando fico mais extrovertida.”

“Mais?”

Quando Anna saiu para ir ao lavatório, Becca olhou com os olhos arregalados para Jennifer, com surpresa:

“Fala sério Jenny!”

“Que foi?”

“A híbrida eremita??”

“Que feio julgar as pessoas Becca…”

“Não estou julgando, só estou surpresa com sua convidada misteriosa, nunca passaria pela minha cabeça.”

“Ela foi tão legal com a gente, parece ser uma pessoa interessante. Por que não chamar pra tomar um chope?”

“Quem sou eu para discordar… Bom, você sabe… eles não gostam muito de humanos…”

“É, deu para ver como ela odeia nós humanos.” Debochou Jennifer.

A convivência entre humanos, Titans e híbridos não era pacífica, havia uma hostilidade velada entre todos. Mas principalmente os híbridos, por ser uma minoria e não pertencerem inteiramente a uma espécie, eram mal vistos e evitados.

Anna voltou à mesa, e Becca ficou em silêncio.

Aos poucos todos ficaram mais à vontade, e já animadas, a conversa fluía, na mesma velocidade dos canecos de chope que vinham à mesa. Anna já esquecia da discriminação que sua subespécie vivenciara, queria apenas consumir a presença de Jennifer, vorazmente.

“Adorei essa decoração, meio britânica, meio costa-riquenha, a mistura não ficou ruim.” Anna prosseguia no papo.

“E você estava com preconceito.”

“Não estava com preconceito, só achei esse monte de nacionalidades um pouco confuso. Eu vi um pequeno palco, confesso que estou um pouco receosa sobre que tipo de música é tocada ali.”

“Japonesa minimalista.”

Anna olhou assustada.

“Não, estou brincando… O melhor do britpop e britrock!”

“Ah bom… Que dias que tem apresentações?”

“Se dermos sorte, mais tarde veremos alguma bandinha. Acho que alguma cover dos Beatles.”

“Beatles? Quem bom, adoro Beatles. Tive a grande sorte de ir num show deles.”

Jennifer apenas riu, achando que era brincadeira. Mas percebeu que Anna não riu, arrematando a possível piada. Deu-se conta que era possível sim que ela tivesse ido ao show, porque os híbridos, assim como os Titans, envelheciam mais devagar. Seu semblante mudou instantaneamente para sério, na hora que se deu conta desse detalhe. Anna percebeu o que acontecera.

“Jennifer, quantos anos você acha que tenho?” Perguntou, a encarando, apoiando o queixo na mão. “Não seja educada, fale exatamente o que eu aparento para você.”

“Ok, é para ser sincera não é?”

“Por obséquio.”

“Trinta… tipo assim, mais ou menos. Ou uns vinte e nove… oito. Por aí.”

“Cinquenta e nove. Completos em maio.”

Jennifer só conseguiu olhar para ela, com um sorriso aberto.

“Eu me exercito…” Completou.

“Caramba…” E continuou rindo. “Então você foi mesmo ao show dos Beatles?”

“Em 1966. Meu pai era um fã incondicional, e eu ouvia os discos com ele. Eu tinha só treze anos, mas deu um jeito de me levar com ele. Meu pai foi um visionário: ele falou que não poderíamos perder porque seria a última turnê deles. E foi mesmo.”

“Mas com treze anos você aparentava ter quantos?”

“Acho que treze. Esse esquema do retardo dos sinais de envelhecimento e tal, só surge na puberdade.”

“Cara isso é incrível… e surreal.”

“Está me achando um ser de outro planeta, não está?”

“Não, claro que não. Só estou tipo assim, estupefata.” Jennifer ainda sorria, surpresa.

“Ok, sua vez de me contar algo que me surpreenda.”

“Ah não, vou ter que decepcionar você dessa vez…”

“Tá, não precisa me surpreender, basta ser algo interessante, que eu deveria saber.”

Jennifer tinha algo que se contasse, com certeza Anna ficaria ainda mais estupefata que ela ficara. Ou ela talvez não acreditasse. Ou saísse correndo. Claro que ela não arriscaria contar.

“Ok, vou falar. Eu consigo encostar minha língua no nariz.” Brincou.

“Ah é? Prove.”

“Você vai achar que estou me exibindo.”

“Sim, essa é a intenção, não é?”

“Tá bom, lá vai.”

Anna tentou ficar séria, sem muito sucesso. Jennifer também.

“Não, espera, rindo eu não consigo. Espera, deixa eu fazer cara de séria.”

E conseguiu então o feito.

“Viu só?”

“Vi sim. Incrível. Você poderia ganhar a vida com isso sabia?”

 

A noite voou sem que percebessem a passagem do tempo. Alguns amigos já haviam ido embora, mas Anna e Jennifer continuavam conversando com animação.

“Meninas, estou indo nessa. Jenny, amanhã vai ser na minha ou na sua casa?” Perguntou Becca, se levantando.

“Minha vez. E não esqueça a cerveja.”

Depois que Becca saiu, Anna deu um olhar para Jennifer com ar de curiosidade.

“O almoço. Geralmente almoçamos juntas aos domingos.”

“Ah sim, claro…”

“Às vezes eu tenho que trabalhar domingo, daí ela leva almoço para mim no porto.”

“E o que você faz no porto? Se não for indiscrição perguntar…”

“Não, tudo bem. Não tenho problemas em contar que faço programas.”

Anna ficou em silêncio, olhando incrédula para ela, sem ter a menor ideia do que falar.

“Caramba, você acreditou!” Jennifer explodiu numa risada.

“Você foi bem convincente.”

“E você tinha que ver a sua cara…”

“Então, o que você realmente faz lá?”

“Tecnicamente sou uma despachante aduaneira, mas pode me chamar de resolvedora de problemas portuários.”

“Faz intermediações entre quem chega, quem quer comprar, quem quer vender…”

“Basicamente isso.”

“Parece interessante.”

“É um tédio sem tamanho…”

“E você gostaria de fazer o que?”

“Sei lá, algo com mais ação, menos repetitivo. E menos burocrático.”

“Acho que te entendo.”

“Você também gostaria de fazer mais do que facas?”

“Eu já faço mais do que facas.”

“Sério? Conta aí.”

Anna analisou o panorama: já estava tarde, já haviam bebido bastante, e não se sentia segura o suficiente para contar do seu segundo trabalho ali, nem naquele momento.

“Fica para outro dia.”

“Ah fala sério, fala aí, prometo que mantenho segredo. Se você fizer programas não vou te julgar, palavra de lobinha.”

“Você está no sétimo chope mocinha, acho que não estou preparada psicologicamente para ver você na próxima fase.” Desconversou.

“Você contou os chopes. Você deve ser virginiana, não é?”

“Lembra que falei que fiz aniversário em maio?”

“Ah é mesmo. Perdão, minha memória falha depois da meia-noite. Touro?”

“Uhum.”

“Teimosa feito uma mula?”

“Não, sou uma pessoa prática.”

“Eu também sou prática. Praticamente não bebo.” Jennifer ria despretensiosamente.

“Ok, acho que você entrou no seu número cabalístico. Quer ir para casa?”

“Hum… Acho que quero. Estou recebendo chamados telepáticos da minha cama.”

Pagaram a conta e seguiram de moto para o prédio de Jennifer. Chegando lá Jennifer desceu da moto, tirou com dificuldade o capacete, devolvendo-o.

“Você vai ficar bem?” Anna perguntou, ainda na moto, tirando também o capacete.

“Ótima. Mas acho que amanhã Becca vai almoçar macarrão instantâneo…”

“Pobre coitada… Hey, você por acaso tem celular?”

“Tenho! Mas não funciona… Tenho um pombo correio, serve?”

“É tecnologia demais para minha cabeça, sinto muito.”

Ficaram em silêncio por alguns segundos, fixaram um olhar, meio afoito.

“Foi legal você ter vindo…” Jennifer falou, com uma voz mansa.

“Também gostei da nossa noite… e obrigada pelo convite.” Anna recolocou seu capacete.

“De nada. Disponha…”

Jennifer titubeou, e voltou a se aproximar da moto.

“Anna?”

“Sim?”

“Não suma não.”

“Não sumirei.”

“Promete?”

“Prometo.”

“Tá bom.”

“Sábado que vem vai ser minha vez de te levar a algum lugar, o que acha?”

“Perfeito.”

Anna olhou ainda por alguns segundos o sorriso franco que Jennifer sustentava.

“Boa noite Jennifer, fique bem.”

 

 

         Capítulo 3 – O quintal azul

 

Jennifer acordou com uma almofada atirada em sua direção, havia adormecido no sofá da sala, um sofá vermelho, desgastado pelo uso.

“Almoço que é bom nada né?”

Becca falou sentando-se no sofá menor, marrom, e ligando a TV. Jennifer levantou e sentou-se vagarosamente, sonolenta, coçando os olhos.

“Ainda é cedo, vou preparar alguma coisa.” Resmungou.

“Cedo para a janta talvez, já é quase uma da tarde. Por que não dormiu na cama? Não chegou até lá?”

“Sei lá, acho que fui ver TV e capotei.” Terminou a frase se espreguiçando no sofá.

“Não convidou a senhorita misteriosa para subir para um café ontem?”

“O quê? Ah não, claro que não. Sério, ela não é uma dessas garotas que trago aqui, já falei isso.”

“Então tá…” Becca levantou os ombros.

“Diga, o que você tá a fim de comer hoje?” Jennifer falou, saindo do sofá.

“Carboidratos. Estou almoçando queijo quente há quatro dias.”

“Espaguete de novo então.”

O apartamento onde Jennifer morava era pequeno, mas com janelas grandes. Além do seu quarto, havia uma sala com sofás e TV, conjugada com a cozinha. Era um pouco bagunçado, e os móveis não combinavam entre si. Nas paredes havia pendurado alguns pôsteres de filmes da década de sessenta e setenta, emoldurados.

“Becca você não vai acreditar em quantos anos Anna tem!” Jennifer começava a preparar o almoço.

“Não sei, uns trinta? Peraí, ela tem aquele lance da idade que os Titans tem?”

“Vai fazer sessenta ano que vem.”

“Esse povo é tão bizarro né? Parece que estão trapaceando o relógio biológico.”

“Eu acho legal. Você não gostaria de aparentar metade da sua idade?”

“Acho confuso demais. Imagine só, ela deve ter assistido alguns destes filmes que estão na sua parede, quando lançaram!”

“É… talvez. Às vezes também acho confuso.”

“Você vai vê-la de novo?”

“O quê?”

“Perguntei se você vai vê-la de novo.”

“Provavelmente.” Jennifer respondeu, mas a resposta que passou por sua cabeça era “Com certeza!”

“Se Alice tivesse ido ontem, ficaria uma fera.”

“Que besteira, por quê?”

“Você e Anna conversaram a noite toda.”

“No dia que alguma mulher disser o que eu posso ou não posso fazer, será a quarta guerra. Acredite. Quer café?”

“Achei que você estivesse fazendo o almoço.”

Jennifer virou-se na direção dela com uma xícara na mão e sorriu.

 

Uma longa semana arrastou-se como uma tartaruga despretensiosa. No porto as coisas estavam tranquilas. Pouco trabalho, poucos navios aportando.

Jennifer passou a segunda-feira imaginando onde Anna a levaria, caso ela realmente cumprisse a promessa que havia feito no sábado. “Provavelmente algum bar obscuro na cidade velha.” Imaginava se iria conhecer os amigos dela, imaginava se ela possuía algum.

Terminou a terça-feira sentada na beira de um cais, com as pernas balançado sobre as águas do mar escuro. Esperou o pôr-do-sol, apesar do vento cortante que soprava. Vestiu o capuz do moletom que usava por baixo da jaqueta jeans. Sentiu-se incomodada por não se lembrar da última vez que havia parado para assistir um crepúsculo. Era algo que gostava de fazer, despertava lembranças dos piqueniques que fazia com seus pais no parque da cidade, o parque nem existia mais.

Tirou a quarta-feira para ajudar seus vizinhos que tiveram que desocupar o prédio recém demolido pela milícia Titan, episódio este que quase custou sua vida. Jennifer estava frustrada por não ter conseguido evitar que as máquinas derrubassem suas casas, podia ter recrutado outras pessoas para engrossar o coro, ou então ter feito barricadas. Mas o sentimento era dúbio quando pensava que toda aquela aventura, trem, gárgulas, Anna… nada teria acontecido se não houvesse daquela demolição.

Havia transformado um contêiner em seu escritório, e levado o jeito bagunçado da sua casa para seu local de trabalho. Passou um bom tempo da quinta-feira despojada na cadeira, ouvindo música com as pernas em cima da mesa de trabalho.

No final da sexta-feira, saiu para correr, como fazia diariamente. Ia até onde um dia já havia sido sua casa, a três quilômetros do seu lar atual. Naquela sexta correu no final da tarde, com o sol baixando atrás de si. Mas mudou o percurso, pegou a rodovia e seguiu o mesmo caminho que o ônibus amarelo havia tomado na semana passada.

Enquanto corria, tentava recordar-se do que havia acontecido dentro do veículo. “Meu Deus, foi tão rápido…” Passou pelo ponto onde havia tomado a decisão de reagir e abordar o segurança e o motorista. Chegou ao local onde o ônibus havia saído da estrada. Parou e pôs se a observar, ofegante. Ainda eram visíveis no asfalto duas marcas escuras de pneus. E ela sabia para onde essas marcas apontavam.

Levou a mão à testa, protegendo os olhos do sol que se esgueirava. Permaneceu olhando para o horizonte por alguns instantes. Percebeu que a casa de Anna não podia ser avistada dali. Teve um impulso momentâneo de ir até lá, mas desistiu, não parecia uma boa ideia aparecer sem avisar. Virou-se, voltou a correr, de volta para casa. Pensou em como não havia sido muito inteligente quando teve o ímpeto de ir até a casa dela, pelo matagal, e não pela estrada que dava acesso, riu de si mesma.

 

Jennifer acordou cedo no sábado, contra sua vontade. Tinha um compromisso logo no início da manhã no porto, com um novo cliente. Passou a tarde limpando o apartamento, preguiçosamente. No início da noite Becca apareceu, a convidando para ir num bar em outra cidade.

“Hoje não vai dar, mas semana que vem pode contar comigo.”

“Não tá a fim de sair hoje?”

Jennifer demorou um pouco para responder, terminava de arrumar a cozinha.

“Não… é que já tenho um compromisso.”

“Ah é? Casual, romântico ou chato?” Becca sorriu.

Jennifer não respondeu de imediato, quando se virou para responder, Becca interrompeu, como se tivesse acabado de ter uma ideia.

“Não vai me dizer…” Sorriu surpresa. “Você vai sair com a híbrida de novo??”

“Não é legal você ficar chamando ela assim, ela tem nome.”

“Tá bom… é que ela parece tão… entediante, com cara de poucos amigos.”

“Quem sabe você mude de opinião. Gostaria de inseri-la no nosso círculo de amizades.”

“Mas ela é uma híbrida Jenny, não vai ser bem vista, você sabe disso…”

“Bom, eu não tenho preconceito com ninguém.”

“Você que sabe… Vou lá me arrumar para a noitada. Hoje promete, disseram que vai ter tequileiro. Ou tequileira, como você preferir.” Terminou com um sorriso malicioso.

 

Jennifer se aprontou logo em seguida, no melhor estilo jeans e camiseta. Ficou alguns minutos frente ao espelho decidindo se prendia ou soltava o cabelo. Resolveu prender. “É melhor na hora de pôr o capacete.” Pensava.

Ao ouvir a buzina, nem foi verificar se realmente era Anna, vestiu rapidamente uma jaqueta de couro marrom e desceu as escadas.

“Boa noite garota.” Anna a cumprimentou graciosamente, entregando seu capacete.

“E então, qual nosso destino?”

“Um lugar com uma boa vista.”

Seguiram pelo lado oposto da rodovia, até o que parecia ser um pequeno povoado junto ao mar. A guerra parecia não ter chegado até lá, as casas eram pequenas e simples, mas harmônicas, charmosas, intocadas. Pararam na frente de um bar rústico, com redes de pesca penduradas em toras de madeira. Desceram da moto, mas não retiraram os capacetes, logo perceberam que estava fechado.

“Que pena, parecia um bom bar, podemos voltar outro dia…” Jennifer amenizava o desapontamento de Anna.

“Suba, vou te levar em outro lugar que também tem uma bela vista, e com certeza estará aberto.” Anna gesticulou com a cabeça, para que montasse na moto.

Fizeram o caminho de volta e então Jennifer se deu conta de onde estavam indo. Entraram no caminho que adentrava na casa de Anna.

“Sua casa. Melhor vista impossível!” Jennifer exclamou, ao pararem a moto, na frente da casa.

“É o melhor que posso proporcionar hoje. Só tenho cerveja americana, você bebe?”

“A nacionalidade para mim é o de menos.” Brincou.

Anna percebeu a dificuldade que Jennifer estava tendo para soltar a tira do capacete e foi ajudá-la. Sem intenção, tocou de leve na mão dela.

“Seus dedos estão arranhados.” Notou Jennifer.

“Sim. Trabalho braçal.”

“Qual, aquele trabalho ultra secreto?”

Anna não respondeu, e finalmente tirou o capacete de Jennifer.

“Venha, me ajude aqui na cozinha.”

Do lado da casa havia uma pequena escada de madeira que dava acesso à praia. Ao lado da escada, um banco antigo, de ferro curvado. Sentaram-se nele, colocaram algumas latas de cerveja no chão, sob o banco.

“Eu acordaria de bem com a vida todos os dias se tivesse esta vista do meu quarto.”

“Você acaba se acostumando.”

“Mas nunca deixa de apreciar, não é mesmo?”

“Impossível ignorar essa imensidão azul no meu quintal.”

“No verão deve ser uma delícia fazer festas aqui.”

“Deve. Mas não que aconteça…”

Continuavam olhando nostalgicamente para o mar, bebendo suas cervejas. A noite não estava fria, apenas uma leve brisa vinha de vez em quando do mar, que estava calmo. Anna olhou de lado, com um ar pesaroso.

“Sinto pelo passeio frustrado de hoje… Estive naquele bar há pouco tempo, tinha certeza que estaria aberto.”

“Não duvido que seja um bar interessante, mas vou ser sincera com você: não tenho do que reclamar. Tenho ótima cerveja, paisagem e companhia. O que mais preciso?”

Ouvir isso deixou Anna mais à vontade. Permitiu-se olhar sem pressa para Jennifer, sentada ao seu lado, entretida pelas ondulações do mar.

“Como está seu ombro?” A questionou.

“Furado. Mas já melhor do que semana passada. E os seus ombros?”

“Começando a cicatrizar. Foi ao médico?”

“Não. Não precisei. Você fez um bom trabalho.” Jennifer refletiu.

“Você teve sorte, poderia ter sido mais para baixo, ou poderia ter piorado bastante naquela noite. E nem teríamos para onde te levar…”

“Tive sorte de ter chegado viva em casa. Na verdade todos nós tivemos sorte em invadir a casa da última pessoa solícita da face da terra. Claro que não pensei isso quando você me deu um mata leão e trancou minha respiração. Mas eu entendo… deveríamos ter tocado a campainha primeiro.”

Ficaram em silêncio, por um instante.

“Eu estava na oficina, que fica anexa a casa. Criei uma passagem dela para a cozinha. Quando ouvi um barulho fui averiguar. Vi você entrando, na frente de todos, me posicionei atrás da pilastra e fiquei esperando você passar por mim.”

“E aí deu o bote.”

“Certeiro. Não foi?”

“Certeiro. Não sei como os outros não saíram correndo em pânico. Acho que congelaram de medo.”

“Eles são seus amigos há muito tempo?”

“Mais ou menos. São meus vizinhos. Apenas a Becca é amiga de longa data.”

“Ela parece gostar bastante de você.”

“Espero que sim, é a minha melhor amiga.” Rebateu Jennifer.

“Como se conheceram?”

“Na aula de música, éramos crianças… Eu insistia para que meu pai me ensinasse a tocar algum instrumento. De preferência violão. Mas na cidade só tinha aula de piano. Então ele me colocou na aula de piano.”

“Quantos anos você tinha?”

“Uns oito ou nove.”

“E aprendeu a tocar?”

“O suficiente para tocar músicas natalinas na casa da minha avó.”

“Tem um piano na minha sala, você viu?”

“Vi sim.”

Anna apenas olhou para Jennifer, que enfim se deu conta do convite implícito.

“Não, de jeito nenhum, faz séculos que não toco, já devo ter esquecido tudo que aprendi.”

“No Natal quem sabe?”

“Quem sabe…”

Anna pegou mais duas latas de cerveja e abriu, entregando uma para Jennifer.

“E seus pais, onde estão agora?” Indagou Anna.

“Já se foram. Durante a guerra.”

“Sinto muito… desculpe falar disso.”

“Não, não se desculpe, já não tenho problemas com esse assunto. Aconteceu com tanta gente, não é?”

“Sua casa foi bombardeada?”

“Foi incendiada na verdade. Mas isso foi tempos depois. Eles estavam na universidade trabalhando, e jogaram um bom número de bombas. Bom, você já deve ter visto como ficou lá, não sobrou muita coisa.”

“Você perdeu sua mãe e seu pai no mesmo dia?”

“Sim…”

“Nossa… Sinto mesmo por você… Quantos anos você tinha?” Anna lançou um olhar doloroso para Jennifer.

“Quase quinze.”

“E o que você fez? Não foi morar com algum parente? Tem irmãos?”

“Não… Me virei. Não tenho parentes na cidade.”

“Se virou com apenas quinze anos? Como conseguiu?”

“Já ouviu falar que a necessidade é a mãe da invenção?” Lançou um sorriso torto para Anna.

Permaneceram caladas por alguns minutos, ambas observavam o mar serenamente.

“E você tem irmãos?” Perguntou Jennifer.

“Tenho, um irmão, Andrew, o caçula.”

“Mas não mora com você.”

“Não. Eu não sei o paradeiro dele.”

“Sumiu na guerra?”

“Foi. Mas sumiu por vontade própria. Hoje em dia não faço ideia de onde ele esteja, nem se está vivo…”

“Ele nunca mandou notícias?”

“No começo sim, mandava cartas, dos lugares onde estava. Sempre um lugar diferente. Mas não recebo nada há mais de cinco anos.”

“Talvez ele tenha desistido de enviar notícias por não ter notícias de você, já que ele estava sempre em lugares diferentes.”

“Essa é a teoria que eu quero acreditar. Mas não é a mais provável…”

“Quem sabe um dia ele apareça na sua porta. Ou então você descubra onde ele enfim resolveu morar. Talvez esteja casado, com filhos… Já pensou? Você titia.”

Anna apenas sorriu de leve. Continuaram bebendo noite adentro, enquanto a conversa deslizava de forma suave, leve.

“Acho que ainda não encontrei minha vocação.” Desabafava Jennifer. “Quando era pequena achava que seria cantora ou tocaria em alguma banda. Teve um tempo que eu queria ser atriz, mas ao mesmo tempo queria ser detetive.”

“Uma atriz detetive talvez?”

“Seria uma combinação interessante não acha?”

“Combinar profissões é sempre interessante.”

“Como você faz…”

“Sim, como faço. Mas não é uma profissão, é apenas uma prestação aleatória de serviço à sociedade.”

“Seu segundo ofício?”

“Sim.” Anna titubeou um pouco antes de continuar no assunto. “É algo esporádico.”

“Mas pelo jeito que você fala, deve ser mais divertido que seu primeiro ofício, na forja.”

“É mais perigoso.”

“Quase tudo que é divertido é perigoso, não é?”

“Quase tudo… São serviços arriscados, é isso que eu faço.”

“De qual tipo? Limpar vidraças de arranha-céus?”

“Não. Mas isso seria divertido também.” Rebateu Anna.

“Você é matadora de aluguel?”

Anna riu.

“Agora você está um pouco mais quente.”

“Estamos brincando de quente ou frio? Adoro!”

Anna olhou fixamente para Jennifer, e continuou.

“Eu tenho um amigo que me repassa algumas missões. Geralmente serviços noturnos. Como pode imaginar, não são coisas lícitas.”

“Está começando a ficar interessante. Que tipo de coisas?”

Anna se despojou no banco, se inclinado para trás, antes de continuar.

“Às vezes é apenas alguma conversa mais séria com alguém, para obter informações para terceiros. Às vezes preciso pegar de volta alguma coisa que foi furtada. Ou então sabotar alguma ação criminosa, dar alguns sustos, evitar alguma injustiça.”

“E às vezes as coisas esquentam.”

“Sim. Alguns casos mais complicados envolvem resgate de algum refém, ou silenciar alguém…”

“Você mata essas pessoas??”

“Não. Eu evito esse tipo de serviço.”

“Mas já matou, suponho.”

“Não é meu objetivo.”

“Nossa, deve ser uma adrenalina e tanto não?”

“É perigoso, cansativo, e pode ficar violento. Uma boa aventura às vezes. Mas nem sempre sai conforme o planejado.”

“Me leva junto, qualquer dia desses?        “

“Claro que não.” Respondeu rispidamente.

“Quando aparecer alguma missão mais leve, me leva vai. Prometo não atrapalhar. Fico na sua retaguarda.”

“Jennifer, é realmente perigoso, não é diversão.” Anna olhava séria.

“Eu sei que não, eu vou e ajudo você, te dou cobertura, sei lá, alguma coisa do tipo. Me leva vai.”

“Não.”

“Tá, não precisa decidir agora, pense sobre o assunto.”

“Não tenho o que pensar, sério.”

“Já matou outros gárgulas?” Ignorou Jennifer.

“Já… Alguns.”

“E Titans?”

“Somente Titans. Eu só aceito missões contra Titans que pertencem a milícias ou que prestam algum serviço a eles.”

“Por quê?”

“É minha condição.” Desconversou.

“Nunca fez nada contra humanos? Nem híbridos?”

“Não. Milícias de Titans são a escória da sociedade, não acha?”

“De certa forma… São sim. Eu gostaria de dar uma boa surra naqueles Titans que derrubaram o prédio dos meus amigos.”

“Quem sabe um dia eles caiam na minha lista…”

“Daí você TEM que me levar ok?”

“Você parece com sono.” Anna respondeu, alguns minutos depois.

“Precisei acordar cedo hoje, um saco.”

“Levo você em casa. Quer ir?”

“Por mim ficaria aqui até o sol nascer, mas o sono está pegando mesmo…”

“Vamos, vou lá pegar os capacetes.”

 

 

         Capítulo 4 – A primeira missão a gente nunca esquece

 

A semana havia passado de forma lenta novamente. Sexta-feira chegou e Jennifer não parecia animada em atender o convite de Becca, para sair e beber. Quando Anna a deixara em casa no sábado que passou, não havia prometido nem mencionado nenhum outro compromisso com ela.

Durante a semana havia dedicado várias horas relembrando a conversa que havia tido naquela noite junto ao mar, se algo que dissera poderia ter causado algum incômodo.

“Amanhã, amanhã vamos ao O’Reyes e prometo beber todas com você.” Respondeu para Becca, quando esta bateu a sua porta no início da noite, a convidando.

Vestiu seu velho moletom cinza que usava para dormir, e pôs-se embaixo do edredom, no sofá, para ver TV. Era quase meia-noite, Jennifer iniciava um cochilo, quando foi acordada com o som de uma buzina, vindo lá de baixo.

Jogou o edredom de lado, que voou do sofá, e correu para a janela. O coração bateu acelerado, de susto, e surpresa. Enxergou Anna, com o capacete em punho, olhando para cima. Calça e botas pretas como de costume, casaco de couro curto, com uma blusa cinza por baixo, e um lenço preto no pescoço. Lá do alto, seus cabelos pareciam negros como aquela noite.

Gesticulou com o dedo indicador, pedindo um minuto. Prendeu o cabelo, vestiu-se rapidamente com sua calça e jaqueta jeans, moletom verde com capuz por baixo, tênis alto colorido, e desceu.

Jennifer chega ofegante, e Anna lança um sorriso culpado.

“Te acordei?”

“E quem se importa?” Sorriu Jennifer.

“Vamos, coloque e suba.” Anna lhe entregou o capacete.

“E eu poderia saber onde vamos?”

“Te conto quando chegarmos.”

Seguiram pela rodovia até a cidade vizinha. Entraram numa rua cheia de galpões e pequenas fábricas, algumas aparentemente desocupadas. Anna parou a moto ao lado de um galpão vazio, o telhado de zinco havia despencado.

“Chegamos?? O que tem nesse galpão fantasma?” Questionou Jennifer, enquanto descia da moto e dava uma boa olhada ao redor.

“Aqui nada, apenas um bom esconderijo para a moto.”

“Não vai me dizer que… estamos numa missão??” Falou eufórica.

“Você não me pediu para te levar? Aqui estamos. E deixe o capacete em cima do banco.”

“Porra, você me trouxe mesmo!”

“Tem certeza que quer continuar? Você pode esperar aqui se não estiver segura o suficiente.”

“Tá brincando? Nunca estive tão pronta! Qual é nossa missão secreta?”

“Recuperar um objeto, de uma milícia.”

“Roubado?”

“Sim… dependendo do ponto de vista…”

“Qual é o objeto?”

“Uma mala, de pequeno porte, preta.”

“O que tem dentro?”

“Oitenta mil. Dinheiro de extorsão, que para mim é a mesma coisa que dinheiro roubado.”

“E como você tem certeza que esse dinheiro ainda estará dentro desta mala? Pode ter ido para um cofre. Ou fizeram algum pagamento…”

Caminhavam cuidadosamente por trás dos galpões, Anna observava atentamente.

“São as outras possibilidades.”

“E se isso tiver acontecido?”

“Vamos embora sem o dinheiro. Nem sempre é possível concluir uma missão.”

“Realmente você é uma mulher prática…”

“Shhhh… Tome, guarde essa arma com você.” Sussurrou Anna, entregando uma pistola para Jennifer. Colocou as duas mãos nos ombros dela, para fazer o último sermão.

“Mas só use em caso de emergência, real emergência.” – Frisou. “É aqui que entramos. Escute: você vai ficar atrás de mim o tempo todo, entendeu? Não é na frente, do lado, nem mais ou menos do lado, é atrás de mim. Pelo tamanho do lugar deve ter no máximo um ou dois seguranças tomando conta. Talvez alguns cachorros. A tesouraria fica nos fundos. Entramos silenciosamente, procuramos a mala apenas nesta sala, e se não encontrarmos em cinco minutos, saímos. Pelo mesmo lugar. Alguma dúvida?”

“Se aparecer alguém?”

“Deixe comigo. Eu neutralizo. Você, apenas fique…”

“Fico atrás de você, ok, entendido.”

Anna manteve o contato visual, hesitante.

“Não quer me esperar na moto mesmo?”

“Não.” Respondeu Jennifer com convicção.

“Não vou me arrepender por ter trazido você?”

“Também não.”

“Veja, se eu levantar a mão direita, você para imediatamente, fica imóvel, estática. Se eu apontar para algum lugar, significa que quero sua vigilância focada naquele local. Entendido?”

“Totalmente. Algo mais?”

“Quando eu disser corre, você corre. Corre pra valer, mais que o Forrest Gump, está claro?”

“Claro como água.”

Anna abriu um cadeado e adentraram o galpão, uma construção de médio porte, feita de blocos de concreto, sem pintura. Guardou a chave mixa que havia utilizado e começou a caminhar, empunhando uma adaga. Seguiram passo a passo por um corredor estreito, cercado de divisórias brancas e três portas pelas laterais do caminho, até chegarem numa porta aberta no fim do corredor, que dava para um espaço amplo, no cerne do prédio.

Neste espaço havia pouca iluminação, parecia um labirinto de pallets e caixas de madeiras. Anna checou todo o local, até onde sua visão alcançava, e gesticulou para que Jennifer a seguisse. Contornaram vagarosamente as caixas, abaixadas, e atravessaram o salão. Do outro lado havia duas portas, novamente em divisórias de madeira branca. Escolheram a porta da direita, Anna girou a maçaneta e percebeu que não estava trancada. Logo, imaginou, que se a outra porta estivesse fechada com chave, teria mais chances de ser a tesouraria. E foi o que aconteceu, Anna arrombou silenciosamente a fechadura da segunda porta, o ambiente também estava escuro, com poucos raios de claridade natural atravessando as persianas, como dedos finos e compridos de luz.

Após dois ou três minutos procurando pela mala, Jennifer forçou a porta de um armário de aço, e encontrou o objeto procurado, fazendo um pouco de ruído.

“Achei!” Sussurrou Jennifer, feliz.

“Shhhh…” Anna apenas indicou a porta, com a cabeça.

Anna saiu na frente, Jennifer seguia atrás, o mais próximo possível dela, e carregava a pequena bagagem, agarrando com as duas mãos contra o peito. Foram atravessando lentamente o labirinto no caminho de volta, cautelosas.

Devido a escuridão, algumas caixas pareciam apenas sombras. Anna apontou para o lado oposto de onde estavam, para que Jennifer ficasse alerta. Chegaram até o final do espaço amplo, Anna parou ao lado da porta aberta, inclinou a cabeça e deu uma olhadela para o corredor afunilado que teriam que atravessar. Podia ver três portas fechadas ao longo do corredor, todas elas com uma abertura em vidro no alto, passariam na frente destas portas.

Caminharam pela frente da primeira porta fechada, abaixando-se por causa da janela de vidro. Quando estavam passando pela segunda porta, uma luz se acende na terceira porta, vindo do interior da sala a que dava acesso. Jennifer, assustada, exprime um palavrão curto e abafado, que faz com que Anna se vire rapidamente, colocando a mão em sua boca, demandando silêncio.

Com a mão ainda tapando a boca de Jennifer, Anna se vira e observa atentamente a porta acesa, e sussurra:

“Passe na frente da porta, eu fico e pego ele de surpresa, por trás.”

“Mmumumm mmum”;

Jennifer grunhiu algo indecifrável, então Anna a soltou.

“Passo me abaixando?” Enfim conseguiu falar.

“Não, de pé, para que ele o veja.”

“Eu vou ser a isca?”

“Apenas vá.”

Jennifer caminhou lentamente pela frente da porta, e ficou aguardando próximo à saída. Alguns segundos depois a porta se abre e um segurança sai, com uma arma nas mãos, se virando na direção de Jennifer. Era um homem de meia idade, alto e magro, com os cabelos grisalhos nas laterais, e barba por fazer. Anna o agarra por trás, aplicando uma gravata. Ele luta tentando se desvencilhar, mas vai ficando sem ar, e cai sufocado, por fim.

“Você o matou??” Jennifer se aproxima, aterrorizada, apontando a arma para o homem caído no chão.

“Só está desacordado. E guarde a arma. Vamos sair logo, esse desmaio não vai durar muito tempo.”

Seguiram de moto até a casa de Jennifer. Se agarrava firmemente à cintura de Anna, a adrenalina a fazia tremer.

Ela desceu e entregou a valise, depois prendeu seu capacete na lateral da moto.

“Foi como esperava? Parece um pouco assustada.” Perguntou Anna.

“Foi moleza. Minhas mãos tremendo é apenas ilusão de ótica.”

“Vai querer ir novamente ou foi risco demais para você?”

“Quero ir em todas! Sério, eu prometo que não faço barulho.”

“É arriscado garota, não é só aventura. Mas prometo pensar a respeito… Vai ficar bem?”

“Vou. Mas sei que não vou dormir tão cedo… com toda essa adrenalina circulando no meu corpo. Já sei! Sobe comigo, ficamos lá conversando até meu sono vir. Que acha?”

Anna demorou para responder.

“Tá bom, te faço um pouco de companhia. Mas se você não dormir até o sol nascer, eu desisto ok?”

“Se você cantar algo quem sabe eu durma mais rápido.” Respondeu rindo, já subindo as escadas.

Chegaram até a porta do seu apartamento.

“Só cuidado para não fazer barulho, pode acordar meu marido e meus quatro filhos.” Disse Jennifer, enquanto colocava a chave na fechadura. Anna apenas olhou atônita para ela.

Jennifer abriu a porta, retribuiu o olhar e explodiu numa risada.

“Moro sozinha, pode fazer barulho se quiser. Entre, fique à vontade.” Completou, rindo.

Anna quase riu.

“Pode não parecer, mas estou rindo muito. Por dentro.”

“Mas você precisava ter visto a sua cara assustada…” Jennifer se encaminhou a cozinha. “Quer beber o quê?”

“Somente água mesmo.” Respondeu, sentando no sofá, olhando ao redor.

Voltou à sala, entregou um copo à Anna. Então ligou a TV e sentou-se no sofá também, ao lado dela.

“Bem-vinda ao meu cafofo! Não chega aos pés de sua mansão, mas dá para o gasto.”

“É bem aconchegante. Gostei da decoração.” Falou apontando para os pôsteres de filmes emoldurados nas paredes.

“Legal né? Nem parece que começou como uma solução para esconder as manchas de infiltração…”

“Mora aqui há muito tempo?”

“Uns cinco anos. Becca me chamou para vir para cá, ela mora aqui na porta da frente.”

“Deve ser bom ter vizinhos.”

“Você nunca teve não é?”

“Nunca.”

“Não se sente só naquela casa imensa?”

Jennifer se via novamente instigada em saber mais sobre Anna, era inevitável. Tudo que Anna falava, Jennifer absorvia como informações preciosas, como gotas da sua existência. Não era um desejo consciente, mas era como se desvendar aquela mulher misteriosa e tão serena fosse seu novo objetivo de vida. Talvez ela visse em Anna uma fuga da mediocridade que sua vida havia se tornado. Ou talvez apenas se sentisse uma pessoa melhor ao seu lado.

“É como o mar no meu quintal, já me acostumei.”

“Mas não há nada que possa ser feito com o mar, porém viver sozinha é uma escolha.”

“Exatamente, é uma escolha.”

Jennifer entendeu o que ela quis dizer, mas não compreendia o porquê. Quem escolhe viver só?

“E essas missões, qual é o lance? É pela grana ou para animar suas noites?”

“Tem bons pubs na cidade para animar as noites, não acha? E a grana não é lá grande coisa. A propósito, estou devendo sua parte do trabalho de hoje.”

“Não, sem sombra de dúvidas estou nessa somente pela aventura. Compre cervejas para nós com minha parte. Por falar nisso, você quer uma cerveja?”

“Estou bem com a água.”

Jennifer tentou prestar atenção no filme que passava, mas logo quebrou o silêncio.

“Qual a missão mais chata que você já se meteu?”

“Geralmente as de monitoramento podem ser um pouco entediantes.”

“Observa o que?”

“Pessoas. Movimentação. Movimentação de pessoas. Ou a ausência delas.”

“E a mais perigosa?”

Anna refletiu um pouco, antes de responder, hesitante.

“Já me meti em alguns apuros…”

Mas Jennifer não se contentaria com sua resposta vaga.

“Já se feriu?”

“Inúmeras vezes.”

“Gravemente?”

“Não. Próximo disso, talvez.”

“Já levou tiro?”

“Alguns… Mas nenhum certeiro.”

“Já matou humanos?”

“Espero que não.”

“Já levou outras pessoas com você?”

“Não, você foi a primeira. Inclusive… sinta-se lisonjeada.”

Jennifer sorriu como uma criança que fez algo errado mas não se arrepende.

“Sério? Que honra!”

“Que desatino, isso sim…”

“Não fale assim, deu tudo certo, não deu?”

Anna a olhou de relance.

“Às vezes dá errado.”

“Mas é melhor ter alguém para ajudar, e fazer companhia, não acha?”

“Deixa pensar… Ãhn… Não.” Retrucou Anna.

“Mas imagina só, você sozinha, contra vários brutamontes…”

“A noite enfraquece os homens.” Interrompeu Anna.

“Eu sei dirigir motos.”

“Bom para você.”

“Já dirigi uma parecida com a sua.”

“Você tem idade para isso?”

Jennifer abriu a boca, indignada.

“Quantos anos você acha que eu tenho?”

“Oito? Nove?”

Jennifer balançou a cabeça para os lados, sorrindo.

“Tenho vinte e dois.”

“E mentalmente?”

“Me recuso a continuar nesse assunto.” Disse, com convicção.

Jennifer virou-se, ajeitou uma almofada e deitou no sofá, passando as pernas por cima das pernas de Anna.

“Posso?” Indagou Jennifer, antes de abaixar as pernas nela.

“Claro, sinta-se em casa.” Brincou. Ajeitou-se no sofá também, desconfortável.

“Já vi esse filme, ela tem câncer, e morre no final.” Falou Jennifer já sonolenta, com dificuldade em manter os olhos abertos.

“Hum… Obrigada pelo spoiler.”

Pouco a pouco o sono foi vencendo a determinação de Jennifer em continuar acordada, queria aproveitar a agradável visita, mas enfim adormeceu.

Anna não conseguiu simplesmente ir embora. A observou dormir por alguns minutos. Viu-se velando seu sono, examinando cada traço da sua fisionomia. Lembrou de uma frase que havia lido certa vez, ‘não se pode odiar ninguém que você tenha visto dormindo.’ Imaginou que realmente seria impossível odiar aquele ser que a encantara. Mas então percebeu que estava perdendo o domínio sobre suas ações. Tantas regras quebradas em tão pouco tempo. Se irritou consigo mesma. Sequer havia repousado suas mãos sobre as pernas de Jennifer, por receio. Percebeu que havia se desacostumado a conviver com outras pessoas. Não sabia mais distinguir o que era demonstração de afeto, do que seria apenas um gesto automático, corriqueiro.

Repousou suas mãos nas pernas de Jennifer, mas apenas para erguê-las, cautelosamente. Levantou-se do sofá, pegou um cobertor xadrez azul que estava no outro sofá e a cobriu.

“Boa noite garota…” Anna sussurrou, lançando um olhar afetuoso.

 

 

         Capítulo 5 – A lince e a raposa

 

Passavam alguns minutos das três da manhã, de uma madrugada de quarta-feira. Era final de setembro e a temperatura estava amena. O céu, completamente claro e estrelado.

Anna subiu rapidamente as escadas do prédio de Jennifer e bateu com energia à porta. Uma Jennifer sonolenta e confusa abriu a porta, sem atinar sobre o que estava acontecendo.

“Quer ir numa missão?”

“Tipo… agora?”

“Já.” Respondeu, com vigor.

“Claro, não tinha nada melhor para fazer mesmo… Entre, vou me trocar.”

“Você disse que queria ir numa missão novamente. Achei que você se interessaria por essa. Envolve um gárgula.”

“Gárgula? Fez certo em me chamar.” Falou alto, de dentro de seu quarto.

“Mas você sabe que nesse caso todo tempo é precioso.”

Jennifer vestiu-se rapidamente. Caminhou para a porta, parou em sua frente, olhando para Anna.

“Vamos chutar a bunda de um gárgula!” Sorriu maliciosamente.

Andaram na moto alguns quilômetros rumo ao interior da cidade, chegando num pequeno sítio, rodeado por inúmeros pinheiros, parecendo uma floresta negra. No local, dois homens, aparentando serem agricultores, as aguardavam impacientes, de pé, em frente a uma pequena casa de dois pavimentos, branca, envelhecida. Pareciam aliviados em vê-las.

“Carl Smith, é algum de vocês?” Anna perguntou.

“Sou eu, e esse é meu irmão Brian. Foi Max que mandou vocês, não foi?”

“Foi sim. Me digam, tem quanto tempo desde o ocorrido?”

“Então você sabe o que aconteceu?”

“Vagamente. Mas o que me interessa é saber quanto tempo possivelmente ainda temos.”

“Não sei exatamente, acho que era umas duas da manhã quando atirei naquele desgraçado. Eles estavam roubando minha casa! O que eu poderia fazer?” O homem de barba arruivada, que agora era um alvo para os Titans, parecia desesperado.

“Péssima decisão. Você deixou um fugir, esse foi seu erro.” Anna respondeu, friamente.

Jennifer, apesar de já ter enfrentado gárgulas, parecia preocupada. Olhava o céu, e olhava ao redor.

“Vamos entrar, temos duas espingardas lá dentro.” Um dos homens falou, já virando-se na direção da casa.

“Não. Vamos para algum lugar aberto. Peguem as armas lá dentro e seguiremos para o descampado mais próximo.”

Voltaram cada um empunhando uma carabina de dois canos, antigas.

“Vamos para o rio, lá tem uma clareira.” Um deles orientou, já caminhando na direção do riacho.

“Pode ser. Venha Jennifer. Não saia de perto de mim, entendeu? Tome, fique com essa adaga.” Anna não estava usando casaco, por isso era visível o colete-coldre que usava por cima da blusa preta. Eram amarras de couro, como de investigadores da polícia, porém ao invés de pistolas, ela carregava duas adagas.

Jennifer apenas assentiu positivamente com a cabeça.

“Você já fez isso antes, não fez? Digo, matar esses animais.” Indagou o ruivo.

“Já sim, já matamos gárgulas antes.” Jennifer se adiantou respondendo, enquanto caminhavam entre as árvores, altas e juntas.

Anna apenas olhou rapidamente para ela, sorriu de leve, com o canto da boca, achava graça da empolgação de sua parceira, que poderia soar como ingenuidade. Chegaram até um rio de águas claras e pouca correnteza. A lua pincelava alguns riscos prateados nas águas calmas. Havia uma espécie de praia entre as árvores e o rio, naquele ponto, um delta de areia.

“O plano é simples: assim que ele tocar o chão vocês se afastam, e deixem o trabalho pesado comigo. Se forem atirar, atirem no pescoço dele. Na dúvida, não atirem, apenas se protejam. Está claro?”

“Ele vai vir para cima de mim?? E se ele vier?” Carl perguntou, assustado.

“Fuja. Se sentirem medo, fujam, corram para a sua casa. Vamos dar um jeito aqui.”

Jennifer já sentia que existia de fato uma parceria ali. “Deixe com a gente.” Pensava confiante.

Por volta das quatro e meia da madrugada, finalmente a criatura foi vista, planando lentamente, rodeando, como um abutre cortejando sua presa. Anna e Jennifer ficaram em posição, aguardando.

“Atrás de mim Jennifer, essa é nossa regra número um, combinado?” Anna abriu o braço, colocando Jennifer para trás dela.

“E se a coisa ficar feia para nós?” Jennifer se aproximou do ouvido de Anna, e perguntou baixinho.

“Você corre.” Anna lançou um olhar severo.

Assim que o gárgula chegou ao chão, um dos homens efetuou um disparo na direção dele, porém o tiro passou mais próximo de Anna do que do animal, pode ouvir o zunido da bala.

“Chega de tiros!” Bradou Anna furiosa para eles, que estavam próximos das árvores, acossados.

Esse gárgula parecia ser um pouco maior que os anteriores, Anna e a criatura travaram uma batalha de golpes no vazio e investidas bloqueadas. Jennifer tentou um único golpe, mas teve sua adaga arrancada das mãos, voando para longe. Parecia uma luta coreografada, com exaustivas investidas por parte de Anna, que tomava algumas pancadas aleatórias. Então chegou o momento crítico, quando ele armou suas asas, como já era esperado. As pontas, torneando lanças.

Deu um passo para trás e abriu suas asas escuras, pareciam feitas de pele de crocodilo. Com as asas no ar, virou-se para os dois camponeses que assistiam toda a luta, e exprimiu um ganido alto, agudo. Eles não titubearam em fugir. Correram mais depressa que suas pernas podiam suportar, apavorados com a investida daquele demônio. Jennifer também não havia encontrado ainda uma oportunidade de lutar, e era uma mera espectadora naquela dança aterrorizante, andando de um lado para outro.

Anna aproveitou para investir um golpe na altura do pescoço dele, mas teve sua mão bloqueada, e sua lâmina caiu no rio. Jennifer prontamente posicionou-se atenta na margem, olhava para dentro da água, procurando pelo punhal. Vasculhava através da água cristalina o leito arenoso do rio, no local onde havia visto a adaga afundando.

Alguns instantes depois Jennifer se aproximou de Anna e lhe entregou de volta sua arma, ainda molhada. O gárgula num golpe rápido, de baixo para cima, arremessou Jennifer para trás, atirando-a no rio. Anna já munida de sua adaga, a cravou na jugular com todas as suas forças, e liberando um grito de raiva.

Anna sequer se certificou da morte da criatura, correu na direção de Jennifer, que assistiu o desfecho ainda dentro do rio.

“Você está bem?? Precisa de ajuda?” Perguntou Anna, preocupada.

“Só estou molhada, relaxa.” Jennifer saía lentamente da água, aliviada.

Chegou à margem e foi na direção do corpo jazido no chão, olhando de perto.

“Mais um bicho abatido!” Vibrou Jennifer.

“Finalmente… já estava ficando sem ideias.” Retrucou Anna.

“Missão cumprida então?”

“Você não está com frio?” Perguntou Anna.

“Acredite, a água está uma delícia.”

“Como você conseguiu pegar meu punhal?” Anna falou, o guardando em seu coldre.

“Simplesmente o apanhei.”

“No rio? Mas você não estava sequer molhada quando me entregou.”

“É que… estava bem próximo da margem.” Respondeu Jennifer, hesitante.

“Não parecia ter caído próximo a margem.” Insistia Anna.

Jennifer ignorou a controvérsia, olhou para o céu e pode ver o sol surgindo, num amanhecer vagaroso, rosado. Virou-se na direção do rio e começou a tirar suas roupas molhadas.

“O que você vai fazer??” Perguntou Anna, sem entender os planos dela.

Apenas de sutiã e calcinha, pulou nas águas convidativas, num local que formava um poção. A aurora surgiu trazendo um dia agradável de início de outono, quase uma despedida do verão.

Anna não podia fazer nada além de acompanhar Jennifer nadando despretensiosa de um lado para outro.

“Venha, pule também, eu não mentiria para você sobre o quão agradável está a água.” Convidou Jennifer.

“Não… obrigada. Prefiro continuar seca e aquecida.”

“Não seja ranzinza, já que estamos aqui vamos aproveitar essa oportunidade. Olha esse sol lindão nascendo aqui atrás. Você está perdendo!”

“Estou muito bem aqui, obrigada.”

“Ande, deixe seus rígidos protocolos de lado por um momento…” – Falou com deboche. “Não tem ninguém vendo.” Jennifer gesticulava do meio do rio, a chamando.

Anna balançou a cabeça negativamente.

“Venha mulher! Prometo não olhar. Vou virar para o outro lado ok? Avise-me quando tiver entrado.” Continuava.

Sem acreditar no que estava prestes a fazer, Anna hesitou um pouco parando as mãos na barra da blusa, antes de tirá-la. Mas continuou o movimento, tirando o restante da roupa, permanecendo apenas com suas peças íntimas, como Jennifer.

Entrou devagar na água, caminhando na direção de Jennifer, parando atrás dela.

“Pronto, satisfeita?”

“Eu que pergunto!” Respondeu Jennifer, virando-se com um sorriso aberto. Estava se esbaldando com a oportunidade de ver Anna naquela situação descontraída, a vontade – e sem roupas. Espalmou a água, espirrando na direção dela. Saiu nadando de costas. Anna deu alguns mergulhos, parou, olhando ao redor. Tentou se recordar da última vez que havia feito algo parecido. Até mesmo o mar em frente à sua casa, não a tinha há muito tempo.

“Formamos uma dupla e tanto, não acha?”

“O quê?”

“Eu e você, formamos uma dupla dinâmica, como Batman e Robin.”

Ficaram em silêncio por um instante.

“Ou Dom Quixote e Sancho Pança.” Emendou Anna.

“Ou Tom e Jerry.”

“Sherlock Holmes e Watson.” Rebateu Anna.

“Bonnie e Clyde.”

“Asterix e Obelix.” Anna olhou para Jennifer, a desafiando a citar mais alguma dupla.

“Lennon e McCartney!”

“Você é uma garota bem insistente sabia?”

“E você só percebeu agora?” Afastava-se lentamente, fazendo movimentos com os braços para trás, displicentemente.  Mas voltou a se aproximar de Anna.

“Anna?”

“Sim?”

“Obrigada por me trazer. E dar um pouco de emoção à minha vidinha monótona.”

“Não se anime, ainda estou decidindo se tudo isso é uma boa ideia.” Retrucou, a encarando.

Jennifer finalmente saiu para a margem, jogando água novamente em Anna.

Anna saiu logo em seguida, viu que Jennifer começava a vestir suas roupas encharcadas, uma blusa cinza, com mangas vermelhas, e a interrompeu.

“Pegue, vista minha blusa.” Falou entregando sua blusa preta também de mangas compridas.

“E você, vai colocar a minha camiseta molhada? Não seria muito justo…”

“Eu costumo usar uma camiseta por baixo.” Virou-se e pegou uma regata branca no chão.

“Caramba! Que linda!” Jennifer exclamou.

Anna virou-se assustada, com a testa franzida.

“O que foi??”

“Sua tatuagem.”

Jennifer se aproximou.

“O que é?”

“Ah… É um lince.”

“Deixa eu ver.” Jennifer a virou de costas, segurando-a pela cintura. Observou de perto o desenho, era uma grande lince estilizada, em traços tribais negros, subindo suas costas alvas, ocupando boa parte da região.

“Caramba… é perfeita.” Jennifer falava, enquanto percorria os traços com os dedos.

Anna tentava disfarçar o arrepio que aqueles toques estavam causando, e a interrompeu vestindo a camiseta.

“Faz muito tempo que estou criando coragem para fazer uma também. Mas vai ser na perna. A primeira delas. Quero umas cinco tatuagens ao todo.” Jennifer devaneava.

Antes que Jennifer vestisse o suéter, Anna reparou que ela usava um cordão prateado, com uma medalha redonda. Na medalha, alguns símbolos arredondados, e uma forma de uma raposa por trás dos símbolos. Achou familiar.

“Esse seu cordão, tem algum significado?” Perguntou intrigada.

“O pingente? Acho que não. Não que eu saiba. Vai dizer que você também fabrica medalhas?” Respondeu sorrindo.

“Não… Não fabrico não.”

“Meu avô que me deu, nem lembro quando, mas eu deveria ser bem pequena.”

“É um belo presente…”

Terminaram de vestir-se e caminharam de volta para a moto, onde seguiram para casa. Jennifer podia sentir o corpo molhado e frio de Anna, enquanto na garupa da moto.

“Boa noite Jennifer. Ou bom dia, sei lá.” Anna falou, a deixando na frente do seu prédio.

“Espere, deixe eu prender o capacete aqui. Ah, sábado é o aniversário de Bob, ele vai dar uma festa na casa dele, nada grandioso. Você vem?”

“Talvez. Vou consultar minha agenda…” Zombou.

“Tá marcado para as oito, mas eu vou mais cedo para ajudar na arrumação. A casa dele é no fim da rua, número 280. Não chegue tarde.”

“Nem sei ainda se vou.”

“Claro que vai… Hey!”

“O que foi?”

“Eu poderia usar arco e flecha na próxima missão, o que acha?”

“Vá dormir, Jennifer.”

“Ok.”

 

 

         Capítulo 6 – Teste-me

 

Becca parou de encher o balão, e virou-se para Jennifer, que vestia um casaco de lã vermelha, com botões pretos.

“Não acredito que você chamou a híbrida.”

“Eu pedi para convidar, algum problema?” Interrompeu Bob, com seus óculos de aro grosso, chegando à sala.

“Por mim nenhum. Mas vai ser estranho ter uma híbrida entre nós. E não sejam hipócritas, vocês sabem que isso não é comum, isso já aconteceu antes.”

“Isso o que Becca?” Perguntou Jennifer, já sem paciência.

“Você sabe… Humanos… Com híbridos. Não é comum se misturarem. Acho que cada um tem sua turma, ela deveria procurar a dela.”

“Não vou nem responder…” Murmurou Jennifer.

O trio estava na sala da casa de Bob, enchendo e pendurando balões, ajudando na decoração. Começava a anoitecer. Jennifer ficou incomodada com as declarações de Becca e foi cuidar dos preparativos na cozinha.

“O que você acha que está rolando?” Perguntou Becca a Bob, baixinho.

“Não sei, ela não comentou nada comigo. Mas Jenny parece feliz, e eu acho que a razão dessa felicidade é Anna, então se está fazendo bem à ela, que continue assim. Eu gosto da Anna e você também deveria ser eternamente grata a ela, se não fosse a híbrida, como você se refere, teríamos virado comida de gárgula.” Ponderou Bob.

“Não tenho nada contra Anna, apenas temo por Jenny. Já estão falando dela à bocas pequenas. Não quero vê-la sofrendo preconceito por estar andando com uma híbrida, você sabe como é.”

“E o que você está fazendo, o que é? Não é preconceito?”

“Não tem nada a ver, eu apenas me preocupo com ela.”

Jennifer voltou à sala e a conversa cessou. Aos poucos os convidados foram chegando para a festa. A casa de Bob era uma das maiores do bairro, herança de seus pais. Tinha o estilo padrão das casas de subúrbio americanas, com as paredes revestidas de papel de parede em temas florais. Havia mesas com bebidas e comidas em dois ambientes, por volta das nove horas quase todos já haviam chegado à festa.

Bob, com seus cabelos castanhos arrepiados recostou-se na parede, onde Jennifer já se prostava, segurando um copo vazio.

“Anna não vem?”

“Não sei, ela não confirmou. Às vezes ela precisa trabalhar a noite.”

“E o que ela faz a noite?”

“Salva o mundo.” Riram.

“Seu copo está vazio, e isso é proibido aqui hoje. Vou lá buscar mais cerveja para você.” Tomou seu copo e saiu.

De repente Alice surge pela porta ampla.

“Gata não vou poder ficar contigo agora, porque trouxe alguns amigos e… sabe como é… preciso dar atenção à eles, mas nos falamos no final da noite, ok? Temos alguns… assuntos para colocar em dia.” Alice sussurrou maliciosamente no ouvido de Jennifer, enquanto passava pela sala, com dois copos na mão. Jennifer apenas sorriu e concordou, balançando a cabeça.

Jennifer estava de pé, com outros amigos, próximos a uma parede na entrada da sala, e de uma das mesas. Olhava o relógio insistentemente, e olhava ao redor, esperando por Anna.

Joshua, que estava no pub no dia em que Anna visitara, retomou a conversa, olhando para Jennifer. Ele era loiro, com uma franja que teimava em colocar para trás, tinha algumas sardas e mantinha sempre um sorriso soberbo nos lábios.

“E então Jenny, aquela sua amiguinha híbrida não vem?”

“Você deve estar falando da Anna. Bom, não sei. Ela é bem ocupada…” Jennifer respondeu secamente.

“Não trouxe seu animalzinho de estimação hoje?” Continuou Alex, que também estava naquela noite.

“Vou fazer de conta que não ouvi isso, Alex.”

“O que é isso Jenny, virou defensora dos fracos e oprimidos agora?”

“Sério, vamos parar por aqui ok? Bob, não tem nenhuma louça para o Alex lavar lá na sua pia não?” Todos riram.

Bob chegava, trazendo o copo de Jennifer, mas ela percebeu seu olhar preocupado, como se algo estivesse errado.

“O que foi? Aconteceu algo?” Jennifer questionou Bob, se aproximando dele.

“Acho que sim, acho melhor você ir falar com Anna.”

“Anna? Mas ela não chegou ainda. Nem sei se vem…”

“Ela chegou sim, mas antes de entrar aqui na sala parou e voltou para a varanda. E a cara dela não era das melhores.”

“Que merda, ela ouviu tudo!” Jennifer exclamou, com aflição.

“Ouviu o quê?”

Jennifer saiu sem responder Bob, e avistou Anna na varanda, de pé, apoiada no parapeito de madeira. Seu longo casaco negro esvoaçava com o vento que soprava. Um cachecol cinza e botas pretas completavam o visual. Jennifer se aproximou devagar.

“Criando coragem para entrar?” Perguntou Jennifer, encostando também na grade da varanda, ao lado de Anna. Estava cheia de dedos, não sabia o que Anna havia de fato ouvido lá dentro.

Anna virou-se surpresa com sua presença:

“Digamos que sim…” Respondeu, lançando um olhar doloroso para Jennifer.

“Você os ouviu, não foi?”

Anna apenas assentiu com a cabeça.

“Desculpe… Aqueles dois são uns idiotas…”

“Não se desculpe.” – Interrompeu Anna. “As coisas sempre foram assim Jennifer, eu só havia esquecido.” Falou chateada. Voltou a olhar para a rua.

“São só alguns imbecis, basta ignorá-los.” Jennifer a olhava de soslaio.

“Quase todos pensam assim. A diferença é que alguns externalizam o que pensam.”

“Pois são todos uns filhos da mãe de mente pequena.” – Falou num tom sério. “Eu estou com você hoje à noite, e eu tenho muito orgulho da minha companhia. Eu não vejo Titans, híbridos, humanos… Eu vejo somente a Anna, e eu gosto do que vejo.”

Anna a olhou carinhosamente, e sorriu.

“Escute.” – Jennifer continuou. “Não vou obrigar você a entrar num lugar que você não se sente confortável. Se você não quiser entrar, juro, vou entender. Mas eu adoraria que você entrasse, e ficasse ao meu lado, Bob também ficaria feliz.” Jennifer falava. Anna continuava hesitante.

Sem obter uma resposta, Jennifer pegou a mão de Anna, que estava posta no parapeito, e a conduziu para dentro, sem largá-la.

“Vamos, eu protejo você.” Sorriu ao falar.

Jennifer chegou à sala onde estava anteriormente, trazendo Anna pela mão. Ela cumprimentou todos cordialmente, até mesmo Joshua e Alex.

“Demorou, mas chegou!” Falou Jennifer, apresentando Anna, que felicitou Bob pelo seu aniversário. Tirou algo do bolso e entregou-lhe.

“Nossa, agora estou devidamente armado! Como você adivinhou que adoro falcões??” Bob desembrulhou e avistou seu presente, uma adaga, com um falcão gravado no cabo.

“Ela que faz essas facas! E sobre o falcão, eu comentei algo com ela, assim… por cima. E pelo visto ela tem ótima memória.” Jennifer respondeu por ela.

A festa continuou sem maiores problemas, Anna foi ficando cada vez mais a vontade. A certa altura da noite, Alice passou pela sala e aproximou-se de Jennifer.

“Daqui a pouco retorno aqui, e teremos uma conversinha…” Sussurrou Alice.         Ao sair da sala, lançou um olhar intimidador para Anna, Jennifer apenas ignorou.

O ambiente onde estavam tornou-se uma pista de dança, alguns convidados divertiam-se ao ritmo da música, observados por Anna e Jennifer.

“Adoro essa música. Vem dançar?” Convidou Jennifer, animada.

“Madonna? Também gosto… mas não me arriscaria dançar.”

“Não dança?”

“Já faz algum tempo que não pratico.” Desviava-se Anna.

“Você já dançou alguma vez, Anna?” Jennifer ria.

“Eu estive nos anos setenta. Foi uma boa década, bem dançante…”

“Tá bom, desisto. Mas eu vou lá. Sabe onde me encontrar…”

Jennifer foi para a pista improvisada, que na verdade era um grande tapete. Juntou-se a Becca e Bob que dançavam animadamente. Jennifer entrou logo no espírito da coisa e dançava e cantava como se não houvesse amanhã. De tempos em tempos olhava para Anna, como um chamado para a pista, mas ela apenas sinalizava com um leve sorriso. E não conseguia tirar os olhos dela.

O DJ da festa emendou outra da Madonna e Jennifer virou-se de vez para Anna, cantando afetadamente a letra para ela, e gesticulando.

 

            Quando o mundo começa a deixar você para baixo

            E nada parece dar certo

            E o barulho da multidão enlouquecida

            Faz você se sentir como estivesse ficando maluco

            Há um brilho de uma luz distante

            Te chamando para sair dessa

            Para sentir o vento no seu rosto e na sua pele

            E é aqui que começo a minha história

 

Jennifer voltou a sentar-se ao lado de Anna, trazendo mais dois copos. Antes que falasse alguma coisa, Becca chegou, já um pouco alcoolizada, e sentou-se ao seu lado, entre ela e Anna, que afastou-se um pouco, dando espaço para Becca.

“Você viu quem está na outra sala?”

“Várias pessoas?” Respondeu jocosamente Jennifer.

“Não… Rachel, lembra dela?”

“Hum… não me recordo não. Cuidado para não queimar meu filme na frente das visitas.” Jennifer falou sorrindo, apontando com a cabeça para Anna.

“Ela é prima da Helen…” Arrematou Becca, num tom sério.

Automaticamente o semblante de Jennifer alterou-se, ficou séria, perturbada. Anna percebeu a mudança de humor.

“Lembro sim. Não sabia que Bob a conhecia.” Respondeu cabisbaixa.

“Foi ela que apresentou Helen para você, não lembra?” Becca insistia.

“Não Becca, não me lembro.” Falou, com um pouco de impaciência.

Jennifer mudou de posição no sofá, parecia incomodada.

“Ok, saquei. Desculpe ter trazido esse assunto. Não tá mais aqui quem falou.” Falou, se retirando.

Anna olhava discretamente para Jennifer.

“Tudo bem?” Perguntou, solícita.

“Tudo.”

“Algum desses dois copos é para mim?”

“Ah sim, desculpe, tome.” Jennifer entregou um dos canecos a Anna.

“Tem cert…”

“Quer ir embora?” Jennifer a interrompeu, quase como uma súplica.

“Você quer ir?”

“Gostaria. Me dá uma carona?”

“Claro. Quer ir agora?”

Jennifer apenas gesticulou positivamente, com um semblante triste.

Despediram-se apenas de Bob, e seguiram rumo à casa de Jennifer. Subiram na moto e dessa vez Jennifer, que sempre tinha um grande zelo ao se segurar em Anna na garupa dela, a abraçou firme, como se não houvesse mais nenhuma reserva, deu vazão à sua vontade naquele momento.

Anna percebeu que era mais do que apenas alguém na sua garupa prendendo-se a ela. Estranhou, olhou para trás, verificando se Jennifer estava bem. Então pousou sua mão esquerda nas mãos dela, e com o polegar fez um leve carinho nas mãos de Jennifer, que se cruzavam na sua frente.

Jennifer continuou na mesma posição durante a viagem. Sentiu-se amparada, como na noite na casa abandonada, em que Anna a aqueceu, mantendo-a recostada em seu corpo. Poderia prolongar aquele momento eternamente. A eremita era Anna, mas era ela quem se sentia só.

Logo chegaram ao prédio de Jennifer. Prendeu sem pressa o capacete à moto, Anna apenas acompanhava seus movimentos, com um olhar preocupado.

“Posso ficar um pouco com você se você quiser…” Se dispôs Anna.

Ao terminar de ouvir a frase, foi como se Jennifer acordasse de um transe, olhou pensativa por alguns segundos para Anna, como se analisando todas as possibilidades.

“Acho que quero ficar sozinha mesmo… Mas obrigada minha cara heroína, te devo mais uma.” Jennifer foi na direção dela, deu um beijo no rosto, e um abraço de despedida.

“De nada…” Anna respondeu, antes de soltá-la.

“Valeu por ter vindo, tenho certeza que Bob ficou feliz em te ver.” Jennifer falou, com um sorriso pequeno.

“Tomara que não tenha sido somente Bob…”

Anna pegou Jennifer de surpresa.

“Pode ter certeza que não.”

“Tá certo… Boa noite então.”

“Boa noite, Anna… E se aparecer alguma missão bem cabeluda essa semana, não esqueça de me chamar viu?”

“Está a fim de viver perigosamente mesmo não é?”

“Sempre.”

 

 

Naquela tarde de uma quinta-feira fria e nublada, Jennifer ouviu o ruído já conhecido do motor da moto de Anna, fazendo-a levantar da cadeira, curiosa. Foi até a porta de seu quase escritório, no porto, e visualizou sua nova amiga guardando o capacete. O vento do mar agitava seus cabelos.

“Não me diga que veio me buscar para uma missão vespertina?” Disse ela, ainda recostada na porta.

“Quase isso. Vim convidar para ir a um serviço hoje à noite.”

“E você instalou algum GPS em mim? Como me achou?”

“Você se assustaria em quão famosa é você aqui no local.”

“Como assim?”

“Assim que cheguei aqui, perguntei a um grupo de trabalhadores se conheciam alguma Jennifer, e todos disseram que sim. E me deram as coordenadas para chegar a seu container.”

“Você deve ter dado sorte.”

“Ah, e mandaram lembranças a você.”

“Não tem muitas mulheres por aqui…” Falou enrubescida.

Anna se aproximou da porta, parando em sua frente, Jennifer a interrompeu.

“Você não vai querer conhecer esta bagunça.” Disse Jennifer sem jeito.

Anna olhou de relance, por cima do braço dela.

“Já vi o suficiente…”

“Vem, vamos ao cantinho da reflexão.” Fechou a porta e saiu andando, puxando Anna pelo braço.

“Cantinho da reflexão?”

“Não achei um nome melhor. É um píer que foi condenado, está abandonado.”

“Um píer condenado? Sério?”

“Um barco bateu nele uma vez, mas não chegou a derrubar. Mas não parece que vá desabar num futuro próximo, é seguro.”

Caminharam até o final do velho píer de madeira, que formava um T, com um dos lados inclinado. Sentaram-se na extremidade do outro lado, com as pernas balançando sobre o mar calmo e verde amarronzado, lado a lado.

“Essa é alguma missão especial, com direito a pré-convite?” Jennifer exclamou, olhando timidamente para Anna.

“Não, é um serviço normal, meio chato para ser mais exata. Mas como estava passando por perto resolvi te fazer uma visita rápida. Não quero atrapalhar seu trabalho.”

“Sinceramente? Você está me fazendo um favor me tirando daquele cubículo…” Sacudia as pernas como se pedalasse sobre o mar.

“Então… é um serviço um pouco entediante hoje. Vigília. Talvez a noite inteira, e sem garantia que haverá alguma ação.”

“Pode ser a missão mais chata do mundo, mas estarei sempre dentro.”

Anna pensou um instante antes de falar.

“Não imagino o que faria se algo ruim acontecesse com você numa dessas missões…”

“Eu me viro. Não se preocupe.”

Sem querer, sua perna roçou na perna de Anna num dos movimentos. Jennifer não sabia o que fazer com a sensação que estava vivenciando. Só sabia que era uma das melhores sensações do mundo, estar ali, tão próxima de Anna. Ficou sem jeito, parou de mexer as pernas por um instante.

“Passa lá em casa que horas?” Disfarçou.

A conversa prosseguiu por mais alguns minutos. Findada, Anna deixou Jennifer em casa, com a promessa que a buscaria por volta da meia-noite.

“Durma antes de ir, a noite pode ser longa.” Advertiu Anna, antes de ir embora.

 

Pouco antes da meia-noite, a já conhecia buzina foi ouvida, Jennifer subiu animada na garupa da moto e dirigiram-se ao local de trabalho daquela noite: uma empresa, uma pequena fábrica, numa área industrial no entorno da cidade.

Anna deixou a moto ao lado do portão de madeira, que dava acesso ao pátio de um galpão abandonado.

“Vamos vigiar este galpão velho?” Perguntou Jennifer, surpresa, olhando para a construção que tinha uma péssima aparência.

“Não. Mas ficaremos lá em cima, de olho na empresa ao lado.” Respondeu, tirando o capacete. Jennifer também tirava o seu, quando Anna a interrompeu.

“Deixe-o em cima do banco. Para o caso de sairmos apressadas.”

“Ok… Sabe, tenho até certo receio em arranhar esse capacete, parece tão novinho…”

“E é.” Anna a retrucou, com naturalidade.

“É novo? Como assim?”

“Você acha mesmo que eu tinha um capacete reserva? Comprei quando soube que iria levar você ao pub.”

“Então ele é meu capacete? Posso colar adesivos?” Jennifer falou, empolgada. Subiam as escadas escuras, em direção ao andar de cima do galpão, que um dia fora um almoxarifado.

“Não.”

“Só uns dois ou três adesivos.”

“Não.”

“Tá, somente um. Eu tenho até um adesivo guardado para colar em capacete, para o dia que /eu tiver um.”

“Mas você nem tem moto.”

“Eu sei, mas vai que um dia eu tenho capacete? Esse é tipo meu, não é? Um só vai…”

Anna andou pela sala abandonada, averiguando o espaço. Havia uma janela com vidraças quebradas, que descia do teto ao chão. Foi o local escolhido para ser o ponto de observação.

“Vê lá embaixo? É nessa construção que vamos manter nossos olhares hoje à noite.” Apontou Anna. Arrastou uma viga de madeira para frente da janela, para servir de banco. Jennifer ainda perambulava pela sala, observando as estantes de aço, quase vazias, tocando nas caixas e papéis.

“Pode sentar-se aqui quando cansar de andar pela sala.” Balbuciou Anna, enquanto sentava na viga, numa das laterais da janela, ficando parcialmente atrás da parede.

“O que esperamos?” Jennifer sentou-se na madeira ao chão, na outra quina da janela.

“Um ataque de Titans. Correu um boato que eles atacariam hoje à noite, talvez queiram incendiar.”

“Por quê?”

“Não sei as razões… Provavelmente algum boicote. Ou desavença com os proprietários.”

“Que sã/o humanos?”

“Sim.” Respondeu sacando uma pistola do seu costumaz coldre, que usava no corpo, por baixo do casaco preto de couro. Desta vez trazia apenas uma adaga, e a arma do outro lado.

“E o que faremos se avistarmos algo?”

“Você vai ficar bem escondida atrás desta parede. E quieta. Eu vou tentar retardá-los, enquanto chamo uma equipe de segurança particular.”

“Retardá-los com essa pistola de nada?”

“O máximo que eu conseguir acertar.”

Ficaram em silêncio por alguns minutos. Anna certificava-se de ter trazido pentes de munição adicionais, checava a arma. Jennifer recostou-se na parede, observava atentamente todos os movimentos de sua parceira.

“Foi legal você ter ido ao porto hoje. Não costumo receber visitas.” Jennifer quebrou o silêncio.

“Espero não ter atrapalhado.”

“Você? Difícil. E tive um bom pretexto para sair um pouco daquele cafofo.”

“E você trabalha lá por quê? Gosta do porto?”

“Odeio. Mas é o que tenho no momento…”

“Não é um lugar perigoso para garotinhas do seu tamanho?”

“Com o tempo você aprende o que pode e o que não pode fazer por lá…”

“Já te aconteceu alguma coisa?”

Jennifer pensou por um momento. Titubeou.

“Não…”

“Mas é bom se cuidar.”

Ficaram em silêncio. Olhavam para a estrada que dava acesso a empresa, em busca de alguma movimentação suspeita.

“E então, posso colar o adesivo no capacete? É pequeno.”

Anna guardou a pistola de volta no coldre, calmamente. Olhou de forma séria para Jennifer.

“Jennifer, você já teve namorado?” Perguntou, de forma consistente. Suspirou antes de falar.

“Não. Por que a pergunta?” Franzia as sobrancelhas.

“Porque não consigo acreditar que alguma pessoa na face da terra aguente essa sua teimosia por muito tempo.”

“Pois você engana-se ao pensar desta forma.” Respondeu jocosamente.

“Como?”

“Na verdade você fez a pergunta errada…”

Anna esperava a complementação do raciocínio.

“Nunca tive namorados. Mas já tive namoradas. Várias. E nenhuma me achou teimosa.” Continuou.

“Tinham deficiência auditiva?”

Jennifer apenas deu um sorriso desdenhoso.

“É… Talvez as mulheres sejam mais pacientes que os homens…” Anna divagava.

“E outras coisas também…”

“Você… Nunca ficou com homens?” Anna havia caído na armadilha da curiosidade.

“Sim, inúmeras vezes. Pode ser uma boa diversão.”

“Somente diversão então.”

“Nada além de diversão.” Finalizou Jennifer.

“E são quantas no momento?”

“Fixa, nenhuma. Somente alguns casos aleatórios.”

“Aquela garota, na festa de Bob, é um deles?”

“Qual?”

“A que sussurrou algumas vezes no seu ouvido.”

Jennifer ficou surpresa por Anna ter notado. Ajeitou-se, mudou de posição. Colocou uma perna de cada lado da viga, ficando de frente para Anna.

“É uma amiga.” Sorriu.

Anna apenas balançou a cabeça, devagar. Jennifer resolveu contra atacar.

“E você, naquela mansão imensa, não tem algum príncipe encantado… ou lobo mau?”

“No momento é somente eu e Patricia.”

“Patricia??” Perguntou Jennifer, intrigada.

“Minha moto. Desculpe, nunca fiz uma apresentação formal entre você e Paty não é?”

“Não. Todas essas vezes que andei em cima dela, sem nem saber seu nome, que falta de consideração…”

Anna esquecia em alguns momentos que estavam numa missão vigilante, perdia seu olhar.

“Zero namorados no momento então?” Jennifer deixou cair a cabeça na parede.

“Zero.”

“Nem namoradas?”

“Também não.”

Por um instante apenas trocaram um olhar e um sorriso, pequeno mas significativo.

“Melhor assim não é? Eu também… Já faz algum tempo que não sei o que é compromisso…” Jennifer tagarelava.

“Já fui noiva.” Anna falou sem alterar o tom.

“Sério? E o que aconteceu?”

“Não casamos.”

“É… Isso eu já tinha deduzido.”

“Eu percebi que ele não era o cara que eu queria passar o resto da minha vida…”

“Que romântico.”

“Ele não achou nada romântico…”

“E faz muito tempo?”

“Bastante. Espero que você não tenha esquecido quantos anos eu tenho.”

“Esqueci. De propósito. Prefiro ver você como uma adolescente de quinze anos.”

“Mas eu não aparento ter quinze anos.”

“Não, mas às vezes você é tão ranzinza quanto uma adolescente de quinze anos.”

“Ok… Placar empatado então?”

“Agora sim.” Sorriu Jennifer.

Anna voltou a olhar para os arredores.

“Foram muitos?” Jennifer retomou a conversa.

“O quê?”

“Namorados.”

“Não. Provavelmente menos que o número de namoradas que você teve.”

“Você acredita em tudo que ouve mesmo, hein?” Jennifer sorriu.

“Não. Mas costumo acreditar no que você fala. Ainda não sei o porquê…”

“Eu também tenho esse terrível problema.”

“Acredita em tudo que eu falo?” Anna perguntou curiosa.

“Sim.”

“Você não perceberia se eu mentisse?”

“Não sei. Teste-me. Conte algo duvidoso, e eu vou te dizer se acho que é verdade ou não.”

“Hum… Ok. Deixa eu pensar…” Anna novamente esqueceu a vigília, estava absorta pela conversa.

“Não consigo pensar em nada duvidoso sobre mim.” Anna emendou.

“Tá bom, então eu te pergunto e você responde sim ou não.”

“Pode ser.” Titubeou um pouco antes de concordar.

“Já matou um humano?”

“Sim.”

“Essa foi fácil, é verdadeira.”

“Acertou. Mas foi por engano. Por que fácil?”

“Porque você é uma máquina mortífera.” Jennifer falava sorrindo.

“Tá, próxima pergunta…”

“Você usa calcinha?”

“Não uso. Como você percebeu?”

“Rá! Você tá mentindo, eu vi você de roupas íntimas naquele riacho, e você estava /de calcinha. Que memória curta você tem Anna…”

“Próxima.” Respondeu incisiva.

“Hum… Naquele dia que invadimos sua casa, qual foi a primeira coisa que você pensou?”

“Mas essa não é uma pergunta de sim ou não.”

“Foi você quem fez as regras?”

“Tá bom… Eu achei que eram pilhadores e eu estava pronta para chutar a bunda de todos vocês para fora da minha casa.”

“É… Acho que você tá falando a verdade.”

“E estou mesmo.”

“Viu, eu acerto todas. Mais uma?”

“Mande.”

Jennifer olhou fixamente para Anna, procurando por uma pergunta de cunho pessoal.

“Já beijou uma mulher?” Jennifer falou com um ar desafiador.

“Sim.”

“É mentira.” Fulminou Jennifer.

“Acho que você cantou a vitória antes da hora…”

“Então é verdade??” Jennifer exclamou incrédula.

“Alguns casos passageiros, nada sério.”

“Só experimentando, sei…”

“Isso. Nada além de uma noite.”

Jennifer apenas sorriu com um pouco de deboche.

A descontração de Anna se converteu num semblante preocupado. Havia avistado uma van branca se aproximando do portão da empresa.

“Saia da frente da janela! Se esconda!” Ordenou Anna. Jennifer se escondeu atrás da parede, mas olhou de relance para a ação logo abaixo. Havia uns cem metros separando a empresa vigiada do local de observação delas.

Anna pegou um celular do bolso e alertou a empresa de segurança, que estava de sobreaviso. Sacou a arma e ficou em posição de tiro. A porta da van abriu-se e brutamontes Titans começaram a sair do veículo. Um a um, Anna acompanhava atentamente e contava mentalmente.

“São doze, Jennifer.”

“Doze Titans contra nós??” Jennifer arregalou os olhos.

“Dois armados.”

“E agora?”

“Estão entrando.” Anna mantinha a arma apontada na direção deles.

“O que vai fazer??” Jennifer olhava assustada para Anna.

Anna então começou a atirar nos primeiros que adentravam as dependências da fábrica. Isso acabou chamando a atenção deles para a origem dos disparos: a janela no galpão abandonado. Ergueram as armas e apontaram na direção delas. Começaram a atirar, e logo em seguida foram caminhando em sua direção.

“Jennifer?”

“Sim?”

Anna então virou-se, olhou para Jennifer apreensivamente, colocou as mãos nos ombros dela.

“Corre.”

Pegou Jennifer pelo punho e praticamente arrastou-a escadas abaixo.

Correram até a moto, ouvindo o zunido dos disparos feitos na direção delas. Os poucos metros até o portão pareceram quilômetros. Pularam na motocicleta e Anna saiu acelerando na rotação máxima. Jennifer agarrava-se como podia em Anna para não cair. Andaram em alta velocidade até um entroncamento, que dava acesso à rodovia. Anna parou no acostamento, e saiu da moto tirando o capacete rapidamente.

“Está tudo bem com você??” Anna perguntou ainda assustada.

“Sim, estou inteira ainda.” – Falou retirando o capacete também. “E você?”

Anna sacudiu a cabeça positivamente.

Depois de alguns segundos se encarando, com a respiração acelerada, riram.

“Você sabe que estou rindo de nervosa né?” Brincou Jennifer.

“Não pediu por aventura? Acabei de te dar uma boa dose!”

“Caramba que porra foi essa! Se eles fossem mais rápidos, teriam nos alcançado na moto ainda!” Jennifer estava quase cuspindo o coração.

“E agora? Temos que voltar lá??” Continuou.

“Agora… Agora não é mais conosco. Nem sempre as coisas saem conforme planejado. Se você vai continuar me acompanhando, é bom se acostumar com isso…”

“Você não esperava tanta gente, não é?”

“Eu esperava um carro, quatro ou cinco pessoas no máximo.”

“Da próxima vez vamos levar uma metralhadora.”

“Ande, suba aí.”

Chegaram ao prédio onde Jennifer morava, já passava das três da manhã.

“Obrigada pela aventura…” Despedia-se Jennifer.

“Da próxima vez poderíamos fazer algo mais leve, pode ser?” Anna sugeria algum encontro.

“Claro, passe aqui em casa e vamos sair pra beber. Quando você quiser.”

“Fechado.”

Jennifer se aproximou e deu um abraço para despedir-se. Como sempre pegando Anna de surpresa. Abraçaram-se afetuosamente. Afastaram-se, Jennifer seguiu para seu prédio. Anna estava prestes a colocar o capacete quando percebeu que havia sangue na sua mão direita, olhou assustada sem entender. Olhou então para todo seu corpo, procurando algum ferimento.

“Jennifer?”

“Sim?” Jennifer parou, fez uma meia-volta, próxima aos degraus que davam acesso a seu prédio. Viu então Anna mostrando a palma da mão ensanguentada, erguida.

“Meu Deus, você se feriu??” Jennifer correu na direção dela, que descia da moto.

“Esse sangue não é meu.”

“Não é seu… É meu??” Jennifer começou a se tatear, quando passou a mão por cima de seu casaco de brim preto, sentiu onde estava úmido. Anna se aproximou, levantou sua roupa, e viu um ferimento a bala, do lado, próximo às costelas.

“Você foi atingida de raspão. Como não havia percebido até agora?”

“Não sei, acho que foi a adrenalina, ainda estou com o coração disparado. Que merda!”

“Vamos subir, eu faço um curativo.”

Já no apartamento, Jennifer parou no meio da sala, tirou a jaqueta e levantou a blusa para ver novamente o pequeno rasgo na lateral de seu corpo, incrédula. A bala havia feito um corte não muito profundo, mas sangrava demasiadamente.

“Você tem material para o curativo?” Questionou Anna, parada a sua frente, já olhando para os lados.

“Sim… Que engraçado, agora que eu sei que ele existe, está doendo. Talvez eu só descobrisse quando fosse tomar banho…”

“Não vá desmaiar. Onde está o material?”

“Na segunda gaveta do criado mudo, ao lado da cama. Já sei, vou tomar um banho para limpar essa bagunça, vai ficar mais fácil pra fazer o curativo.”

“Ok, não demore.”

Com Jennifer no banho, Anna saiu em busca do material de primeiros socorros, conforme orientado. Agachou ao lado da cama. Viu uma pequena cômoda marrom com três gavetas. Mas ao abrir a segunda gaveta avistou apenas frascos de remédios, a maioria eram de antidepressivos e remédios para dormir Alguns frascos vazios, outros pela metade. Fechou rapidamente a gaveta, abriu a terceira e enfim achou uma pequena bolsa branca com uma cruz vermelha desenhada.

“Achou?” Gritou do banheiro.

“Achei sim.”

Jennifer saiu do banheiro de roupão marrom, segurando uma pequena toalha por dentro, em cima do ferimento.

“Você tem ideia do que tira mancha de sangue das roupas?” Falou Jennifer, entrando na sala, Anna esperava sentada no sofá.

“Amônia. Venha, sente-se aqui.”

Jennifer sentou-se, de frente para a TV. Abriu o roupão e deixou a parte machucada a mostra.

“Não esqueça que já começou a doer, pegue leve.” Alertou.

“Deixe de frescura… No dia que torturarem você com ferro quente, você vai saber realmente o que é dor.”

“Delicadeza mandou lembranças viu?”

Jennifer mantinha uma mão segurando o roupão, tendo o cuidado de não deixar abrir demais e mostrar os seios, mas era inevitável ficar com a calcinha a mostra.

“Você parece tensa, já pode relaxar.” Anna murmurou, enquanto cortava pedaços de esparadrapos.

“Não é todo dia que você ouve balas passando a centímetros da sua cabeça… acho que só vou conseguir relaxar daqui uns dois dias…”

O que Jennifer não confessou é que sua tensão não era causada pela situação de risco que havia acabado de vivenciar. Os dedos ágeis de Anna trabalhando na sua pele eram muito mais devastadores.

“Relaxe. Já fiz isso em você, lembra?” Anna tentava distraí-la.

“Com fita adesiva e um pedaço da camisa de Bob.”

“Se essa bala tivesse passado um centímetro para dentro, você estaria num centro cirúrgico agora.”

Anna limpou o corte com água oxigenada, Jennifer se contorceu por reflexo. Finalizou aplicando uma bandagem grande, colando pedaços de esparadrapo. Quando terminou, levantou os olhos e viu Jennifer a olhando.

“Está tudo bem?”

Jennifer balançou a cabeça, de mansinho.

“Tome um bom analgésico. E troque o curativo duas vezes por dia.”

“Por quantos dias?”

“Até você se encher do curativo.”

Anna guardou o restante do material, Jennifer olhou alguns segundos para o curativo um pouco exagerado, e fechou o roupão.

“Finalizamos por hoje então?” Perguntou Anna, já de pé.

“Já vai?”

“Bom, era minha intenção. A não ser que você tenha mais algum ferimento que não tenha percebido.”

“Nós vamos ao pub sábado, vem comigo?”

“Sábado não estarei na cidade.”

“Por quê?”

“Por que sairei da cidade oras.”

“Vai para onde?”

“Mas como você é curiosa! Não vou falar.”

“Algum agito na cidade vizinha?”

“Não.”

“É uma missão ultra secreta?”

“Não vou falar.”

“Se fosse, você me contaria né?”

“Não… sei.”

“É uma missão! Que tipo de missão é?”

“Não é uma missão.”

“É um compromisso profissional?”

“Sim, mas não é uma missão.”

“É sobre as adagas que você fabrica então. Vai comprar material?”

“Não, vou fazer uma entrega de um pedido.”

“Viu, nem precisei de um ferro quente.” Jennifer comemorou com um sorriso sarcástico.

“É, talvez você esteja precisando de um ferro quente…”

Jennifer riu mais.

“Não se esqueça de passar aqui na próxima missão.”

“Você está oficialmente afastada das missões, por tempo indeterminado.” Respondeu Anna, incisiva.

“Por que??”

“Talvez porque você tenha levado um tiro hoje?”

“Foi de raspão.”

“Tchau Jennifer.” Falou abrindo a porta.

“Hey, foi de raspão!” Jennifer insistia, enquanto Anna saia.

“Boa noite, fique bem.” Despediu-se, saindo.

 

 

         Capítulo 7 – Vamos à igreja

 

Becca aproximou-se com um sorriso malicioso, e entregou a Jennifer uma caneca de chope.

“Você viu quem chegou?” Ela disse.

“Alice… Percebi sim. Está lá do outro lado.”

Jennifer e seus amigos estavam de pé, bebendo, próximos ao local que em dias movimentados, se transformava numa pista de dança, no escuro pub de Oscar.

“Ela não viu você ainda…”

“Acabou de ver.”

“Alice vindo para cá em 3… 2…”

“Pronto, está vindo.” Emendou Jennifer. Que estava de cabelos soltos, um casaco de veludo preto, calças jeans e All Star vermelho.

“Até que enfim te achei Jenny!” Alice se aproximou segurando um copo, e a abraçou fortemente.

“E por acaso andou me procurando nos lugares certos?” Brincou Jennifer, tomando um grande gole de chope.

“Não te vi mais depois de falar contigo na festa de Bob.”

“Eu fui embora um pouco mais cedo.”

“O que aconteceu?”

“Nada, só estava indisposta.”

Becca permanecia ao lado, acompanhando a conversa.

Uma banda havia começado a tocar há alguns minutos, alguns já arriscavam uns movimentos no espaço em frente ao palco.

“Quer dançar?” Perguntou Alice.

“Pode ser. Mas por aqui mesmo… Não quero ir lá para frente.”

Alice começou a dançar na frente de Jennifer, que começava a se animar com seus passos. Ela então puxou Jennifer para perto de si, envolvendo seu braço um pouco acima da cintura. Jennifer fez uma expressão de dor, curvando-se para o lado.

“O que foi?” Perguntou Alice, surpresa.

“Eu machuquei… bati numa quina.”

“Foi sério?”

“Não, não… Acidentes domésticos.”

Alice não perdeu tempo e logo partiu para cima de Jennifer, que correspondeu. Entrelaçaram os braços e não demorou mais que três músicas para que um longo beijo surgisse. No início contida, logo Jennifer correspondeu ao ardor de Alice, intercalando beijos volumosos com alguns goles da bebida em sua mão.

Depois de algumas músicas, quando Alice foi ao banheiro, Becca aproveitou para questionar sobre o machucado.

“O que foi isso?” Becca falou, tocando no local ferido.

“Uma batida, numa quina de um armário lá em casa.” Respondeu, se desvencilhando da mão de Becca.

“E por que tem um curativo??”

“É que assim… quando bateu, sabe… acabei me cortando. Nem lembro direito como foi… mas bati na quina… e… cortou. Um pouco. Entendeu?”

“Jenny, você sabe que é péssima mentirosa. Já conversamos sobre isso.”

Jennifer hesitou um pouco antes de continuar a conversa, sabia que era praticamente impossível enrolar Becca, e teria que falar a verdade. Ou pelo menos parte dela.

“Vem cá.” Jennifer puxou Becca para um canto menos movimentado do salão.

“Prometemos que sempre falaríamos a verdade uma à outra, e agora você está escondendo algo de mim.” Reclamou Becca.

“É que envolve terceiros… não diz respeito só a mim.”

“É Anna, não é? Você mudou depois que a conheceu… Eu…”

Jenny a interrompeu.

“Sim, tem a ver com ela. Mas não a julgue…”

Becca permaneceu em silêncio a olhando, esperando a explicação, com sua feição de adolescente típica americana.

“Tá bom… Mas por favor, não conte a ninguém ok?”

“Você sabe que eu não faria isso.” Becca respondeu com a cara fechada.

“Nós saímos anteontem, e acabei me machucando. Mas não foi nada, acredite. Foi de leve.”

“Não vai me dizer… que ela é adepta desses… como é o nome? …sadomaso…”

“Não! Claro que não!” – A interrompeu novamente. “Não foi isso…” – Jennifer franziu as sobrancelhas. “Não tá rolando nada entre nós, já te falei isso.”

“Ainda não.” Becca retrucou.

“Não vai rolar. Somos de mundos diferentes, só estamos nos curtindo um pouco, aproveitando a companhia uma da outra.”

“Mas você não sente nada por ela? Você fica com os olhos brilhantes quando ela está por perto, todo mundo percebeu.”

“Não vou mentir para você… Alguma coisa nela me atraiu. Não sabia ao certo o que eu estava sentindo, mas me dei conta que não vai acontecer, isso não vai a lugar algum. Então já não penso nisso. Só estou aproveitando a amizade, e é bom estar com ela, não sei explicar exatamente o que sinto… É mágico! Mas não vai ter algo mais.”

“E da parte dela?”

“Ela é um enigma… Mas também acho que desse mato não sai coelho não… E também não sou a praia dela, entendeu?” Jennifer sustentava agora um semblante entristecido, quase decepcionado.

“Eu acredito… E acho que ela não se sente bem em estar com você em público.”

“É… Talvez… É estranho para ela.”

“Tá, mas e o machucado?” Becca falou, levantando a blusa de Jennifer, vendo o curativo.

“Hey!”

“Ela te machucou por acidente?”

“Não, não… Não foi ela. Foi um incidente bobo. Saímos quinta-feira, numa parada aí…”

“Não me enrola senhorita Jennifer Stuart.”

“A Anna faz uns serviços adicionais a noite… Não, não é o que você está pensando.”

“E o que é?”

“Tem a ver com segurança privada… Repassam alguns serviços, e geralmente é a noite. E eu fui junto neste, as coisas não correram exatamente como esperado… E acabei levando esse tiro de raspão.”

“Tiro??” Becca arregalou os olhos.

“É… mas foi bem de raspão. E de longe. Os caras estavam longe de nós. Tivemos que dar no pé antes da hora, foi besteira… nada para ninguém se preocupar ok?”

“E você já saiu com ela em outros serviços desse tipo?

“Já… três vezes.”

Becca balançou a cabeça, em desaprovação.

“Não sei o que são esses serviços, mas pelo visto é algo perigoso. Não se envolva nisso Jenny, por favor…”

“Não é tão perigoso assim, foi um erro de cálculo apenas.”

“Ela é treinada, experiente, já deve fazer isso há anos, ou décadas! Você… nem sabe destrinchar um frango!”

“A faca era ruim, o frango estava congelado, eu te falei que não ia dar certo.”

“Tá Jenny, o que estou tentando falar é que ela sabe se safar numa boa, enquanto você… num descuido você pum! …Levou um tiro, uma facada, ou sei lá o que, e daí como fica?”

“Eu prometo que vou escolher bem meus próximos passos, tudo bem? E ela disse que estou temporariamente fora das missões…”

“Um pouco de juízo na cabeça daquela híbrida aventureira, que bom!”

“Estou me divertindo Becca… Como há muito tempo não me divertia.”

Becca viu Alice voltando, procurando por elas.

“Só quero que você se cuide, tudo bem? Esse mundo não é seu, vá devagar. E Alice já está procurando por você.”

Jennifer virou-se, e encontrou o olhar curioso de loirinha.

“Vamos.”

A noite terminou no apartamento de Jennifer. Com Alice. Em sua cama.

Enquanto Jennifer passava uma madrugada de luxúria movida a álcool, Anna saia de casa em sua moto, com destino à uma cidade próxima, para entregar a encomenda de adagas e facas para um antigo cliente, da época do seu pai.

A estrada quase deserta, poucos faróis cruzando seu caminho, e apenas um pensamento povoando sua mente: Jennifer.

Enquanto isso, as mãos de Alice percorriam o corpo de Jennifer, enquanto lhe fazia sexo oral. Alice tocou involuntariamente no ferimento de Jennifer, que interrompeu seus pensamentos confusos e embriagados. Por um momento uma lucidez indesejada se fez presente. Lembrou da mão de Anna tocando sua pele, enquanto fazia o curativo. O pensamento a incomodava, distraiu-se completamente, esqueceu a existência de Alice, que até então desbravava entre suas pernas. Até ela se fazer lembrar.

“Tudo bem com você? Desculpe ter tocado seu machucado…” Perguntou Alice, ofegante.

Jennifer a encarou por alguns segundos, confusa.

“Ãhn… Tudo bem…” Sorriu em resposta.

 

 

Naquela tarde o vento soprava contrário à seu destino, enquanto corria podia senti-lo em seu rosto. Apesar do clima frio e com o sol já baixo, Jennifer exibia pequenas gotículas de suor na testa e em cima dos lábios. Seus cabelos castanhos quase claros, mesmo presos, esvoaçavam com suas passadas. Mudou a direção da sua rotineira corridinha vespertina de propósito: estava indo à casa de Anna.

Lá estava ela novamente, trajando seu adorado moletom verde com capuz do Lanterna Verde, às portas da casa um dia invadida por ela e seus amigos. Teve vontade de ir, e foi. Não teria uma boa desculpa para justificar a visita fora de hora. Desde a missão que terminou em quase tragédia, já se passavam duas semanas.

“Jennifer?? Aconteceu alguma coisa?” Anna falou, surpresa com a visita em sua oficina.

“Estava passando por aqui, resolvi te dar um oi.”

Jennifer realmente não tinha o dom da interpretação, era péssima mentirosa.

“Passando a pé? Para onde??”

“Você e seus detalhes… O que está fazendo? É uma espada? Não sabia que você também fazia espadas…”

“Qualquer coisa cortante…”

“É para algum cavaleiro? Ninja?”

“Parede.”

“Como assim?”

“É para decoração.”

“Ah tá…” Murmurou, sem empolgação.

“É… Eu também prefiro fazer objetos usáveis.” Anna levantou o olhar para Jennifer.

“Posso encomendar uma adaga com você?”

“Claro.”

“Vai fazer um preço bom para mim né?”

“Vou pensar no assunto. Algum detalhe em especial?”

“Não… Só para substituir a que eu levo na bota mesmo.”

“E o seu ferimento?”

“Melhor do que nunca. Nem vai ficar cicatriz.”

“Claro que vai…”

Jennifer se aproximou mais de Anna, que continuava trabalhando, usava um avental de couro marrom e óculos acrílicos protetores.

“No escuro essas faíscas devem ser lindas não é?”

Anna desligou a máquina, tirou os óculos e olhou para Jennifer.

“E podem te cegar.” Falou incisivamente.

“Desligou por minha causa? Pode continuar, não quero te atrapalhar não.”

“Tudo bem… Quer ir lá dentro beber algo?”

“Não. Na verdade já está escurecendo, preciso voltar.”

“Voltar como?”

“Correndo, do mesmo jeito que vim.”

“Quer que eu te leve de moto?”

“Não, não. Adoro correr.” Jennifer falou já caminhando na direção da porta.

“Ok… Boa corrida então.”

“Até qualquer dia desses.” Murmurou desanimada.

Anna titubeou um pouco, largou os óculos na bancada e deu uns passos à frente.

“Está livre domingo de manhã?”

“É uma missão?” Jennifer respondeu com os olhos brilhantes de excitação.

“Talvez.”

Jennifer sorriu.

“Que horas você passa lá?”

“Às oito.”

“Nossa que cedo… Conte comigo! Onde vamos?”

“Vamos à igreja.”

“Sério??”

“Pareço estar brincando?”

“Até ir à igreja deve ser divertido com você.” Vestiu o capuz, e começou a correr sem sair do lugar.”

“Até domingo então.”

 

 

Sábado a noitinha Becca, como de costume, entra sem bater no apartamento de Jennifer, que assiste TV com um balde de pipoca.

“Não vai se arrumar?” Ela pergunta.

“Para o quê?” Jennifer levanta, esfregando os olhos, e permanece sentada no sofá. Becca senta no sofá ao lado.

“Bob vai passar daqui quarenta minutos para nos pegar.”

“Pra ir no pub do Oscar?”

“Onde mais poderia ser?”

“Ah… Mas acho que não vou…”

“Não está a fim?” Becca olha de lado.

“Tenho que acordar cedo amanhã.”

“Em pleno domingo?”

“Vou a igreja, com Anna.”

“Você tá me zoando né?” Becca olha com um sorriso incrédulo.

“Algo me diz que não vamos assistir à missa… Acho que ela tem algum compromisso por lá.”

“É… Vai ver ela precisa matar o padre.”

“Como você é dramática.”

“Tá, de qualquer forma você pode sair com a gente hoje, volta mais cedo, pega um taxi, carona, sei lá…”

Jennifer apenas lança um olhar preguiçoso.

“Você que sabe. Hoje tem banda e tal… Mas se você prefere passar a semana trancada em casa…”

“Você já está pronta?”

“Já nasci pronta meu amor.”

“Ok… Vou lá me trocar. Mas eu volto para casa antes da meia-noite.”

“Se você está dizendo…”

 

 

 

Um sol aparece de tempos em tempos entre as nuvens, dando um ar melancólico à manhã de domingo. Anna estaciona sua moto pouco depois das oito, e dá uma buzinada, aguardando Jennifer. Mas nada acontece. Ela buzina novamente, agora olhando para a janela dela. Mas nem sinal da sua fiel escudeira. Outra buzinada, agora longa, e de repente Jennifer surge na janela, descabelada, fazendo um sinal pedindo três minutos para descer.

Alguns minutos depois, Jennifer desceu os degraus frontais de seu prédio, ainda se vestindo com sua jaqueta jeans. Anna a acompanha com os olhos, e vê surgindo detrás de Jennifer a figura de Alice, que se despede com um beijo nos lábios na sua ficante, deixando Jennifer sem jeito da mesma forma que Anna, que tenta disfarçar olhando para frente.

“Foi mal o atraso…” Jennifer se desculpa com Anna.

Anna apenas entrega o capacete a ela, sem falar nada, e saem para seu destino, não muito distante dali, num bairro calmo e campestre. Anna carregava uma pequena bolsa preta.

Deixaram a moto atrás de um prédio residencial abandonado, com quatro ou cinco andares. Jennifer parou ao pé do prédio, dando uma boa olhada.

“Isso não vai despencar não?”

Anna não respondeu, e foi logo se dirigindo a entrada dos fundos. Subiram pelas escadas escuras até o último andar, entrou num dos apartamentos vazios e caminhou até uma grande janela. Jennifer a seguiu.

“Você não estava brincando quando disse que iríamos a uma igreja…” Exclamou Jennifer, olhando pela janela.

Da janela era possível avistar uma igreja não muito grande, distante algumas dezenas de metros dali.

Acomodaram-se ao lado da janela e Anna sacou da bolsa duas partes de uma arma, que montadas formavam um fuzil de pequeno porte. Jennifer demonstrou surpresa com a arma.

“Não me diga que vai matar o padre?” Perguntou.

“Não.”

“Mas vai matar alguém?”

“Só vou dar um susto.”

“Com uma arma desse tamanho?”

“Não sou eu que escolho os sustos…”

“Entendi… só está seguindo o roteiro que foi passado.”

“Mais ou menos isso.”

“Chegamos a tempo?”

“Acredito que sim, a missa deve terminar as nove, vou pegá-lo na saída.”

“Temos vinte minutos. Me explica como fugiremos?”

“Sairemos pelo mesmo lugar de onde viemos. Claro que o mais rápido possível.”

“Sebo nas canelas!”

“Espero que ninguém leve um tiro hoje.” Anna parecia séria.

“Apenas o seu pobre alvo…” Jennifer não levou a crítica a sério. Anna permanecia com o semblante fechado.

“Pobre? Você sabe o que esse cara fez para chamá-lo de pobre?”

“Hey, foi brincadeira. Acordou do lado errado da cama hoje?”

Por Jennifer acreditar que Anna não nutria nenhum sentimento por ela, não se deu conta do real motivo do mau humor dela naquela manhã. Não era o atraso, era a presença de Alice.

“Já pedi desculpas pelo atraso…” Jennifer prosseguiu.

Anna percebeu então que estava dando sinais de irritação, tentou melhorar o clima.

“Apenas saiba que estamos fazendo uma boa ação, mesmo que seja numa igreja. Preferiria que fosse em outro lugar, mas o pedido foi desta forma…”

“Você gosta de igrejas?”

“Vazias.”

“Conheço algumas bem bonitas… No Canadá eu fui numa catedral linda, a catedral de Saint James, é estilo gótico, tem uns vitrais… Já foi ao Canadá?”

“Já.”

“Se bem que com essa guerra, talvez essa igreja nem exista mais né?”

“É possível sim.”

“Lembrei de você ontem à noite, lá no pub.”

“Ah é? Por que?”

“Porque Bob reclamou de ter um chope canadense num pub chileno. Foi você que me abriu os olhos para os disparates de nacionalidade de lá!”

“Hoje em dia essas coisas são bem compreensíveis. Essas misturas de nações e tal.” Anna respondeu, já com descontração.

“Eu nem iria ao pub ontem, eu sabia de nosso compromisso hoje cedo, mas acabei indo, sei lá, tava entediada… e Becca insistiu. Ok, eu iria mesmo se ela não insistisse, admito.”

“Pelo visto valeu a pena.”

“Foi normal, o de sempre.”

Por alguns instantes ficaram em silêncio, Anna observava Jennifer, enquanto esta olhava a igreja além da janela.

“É sua namorada?” Anna irrompeu o silêncio.

“Alice? Não… Nãão.” O segundo ‘não’ saiu com mais veemência.

Anna apenas assentiu com a cabeça.

“É uma amiga… colorida.” Jennifer continuou.

“E o que seria uma amiga colorida?”

“Você não sabe mesmo o que é amizade colorida?”

Anna apenas esperava a resposta.

“Tá… é uma amiga com benefícios. Hum… Também não sabe o que é né?”

“Tudo bem, já imagino o que seja…”

“Você até que pega rápido as coisas.” Jennifer falou sorrindo timidamente.

A conversa é interrompida pelo badalo do sino, anunciando o fim da missa. Anna toma posição e aponta o rifle na direção da porta da frente da igreja. No pátio frontal há uma estrutura de madeira, aparentemente temporária, e está enfeitada com bandeirolas coloridas.

“Jennifer, se esconda atrás da parede!”

Mas ela continuava espiando pela janela, algumas pessoas já começavam a sair.

“Você sabe como ele é? O alvo?”

“Só sei que é um baixinho, com cavanhaque e geralmente usa uma boina cinza.”

De repente um aglomerado de pessoas sai da igreja, e entre elas pode ser avistado o alvo, conforme descrito, com sua boina cinza.

“Ele tá no meio do pessoal, o que você vai fazer Anna?”

Anna procurava a melhor mira, mas o sujeito estava encoberto pelas pessoas que o rodeavam, inclusive por crianças.

“Não sei. E saia da janela!”

Ela saiu rapidamente, mas logo voltou a observar a situação delicada que se formava. Jennifer ficava mais preocupada a cada segundo, temendo que Anna não acertasse seu alvo, ou pior, acertasse algum inocente.

Foi então que uma parte da estrutura de madeira veio a baixo, e uma das finas vigas de madeira caiu exatamente entre o baixinho e o restante das pessoas, separando-o do grupo, expondo-o à mira de Anna. Esta não titubeou, e acertou-lhe um tiro no seu ombro esquerdo.

Ainda em êxtase pelo que acabara de fazer, olhou para o lado e viu Jennifer um tanto ofegante, com a mão na cabeça. Não entendeu nada.

“Você está bem?” Anna perguntou, um pouco confusa.

“Estou sim… Vamos logo! Já devem estar procurando de onde veio o tiro!”

Anna a pegou pelo punho e desceram rapidamente as escadas. Montaram na moto e voltaram para suas casas. Anna recusou o convite para almoçar com ela e Becca, mas prometeu fazer algo com elas no próximo final de semana.

E seguiu para sua casa, intrigada.

 

 

         Capítulo 8 – Uma o quê?

 

“Não vou beber hoje.” Disparou Jennifer.

“Algum motivo especial?” Becca rebateu.

“Não, nenhum.”

“Ah já sei… Ela vai, não é?”

“Anna? Vai. Mas não quero beber mesmo. Melhor não…”

“Não se garante?”

“Não é nada disso. Só não quero ficar bêbada… Quero curtir.”

Jennifer e Becca colocavam a mesa para almoçar. Era um início de tarde de sábado frio e cinzento.

“Por que você se importa tanto com Anna?” Jennifer pergunta, enquanto mexe com o garfo na comida em seu prato, incomodada.

“Por que não deveria me importar? Não é uma simples nova amiga, não acha?”

“Eu acho.”

“Sua mania de simplificar tudo. Acaba não vendo as nuances obscuras dessa amizade torta.” Falou com ênfase em cada palavra.

“Você teme que se torne algo mais que uma amizade torta? É esse seu medo?”

“Só temo por você.”

Jennifer não falou nada.

“Jenny, você já viu o que aconteceu quando um híbrido entrou na sua vida.”

“Foram as circunstâncias.”

“Ser híbrido é uma circunstância.”

“Acho que foi mais do que isso.”

“Não sei. Acho que nunca saberemos.”

E terminam o almoço em silêncio. Jennifer foi para seu pequeno apartamento no final da tarde. Um pouco depois das onze da noite Anna apareceu, e seguiram para o já conhecido pub de sempre.

Jennifer não cumpriu sua promessa, conversava animadamente com Anna entornando um chope atrás do outro, às vezes também falava com o restante da mesa, que estava particularmente cheia naquela noite.

Anna percebeu a animação demasiadamente alcoólica de Jennifer, e com zelo a advertiu que seria bom dar um tempo nos canecos.

“Vou pegar uma água mineral para você.” Falou levantando-se.

“Não quero…” Jennifer a segurou pela manga do casaco, puxando de volta à mesa, e derrubando um caneco de chope em seu próprio colo. Depois passou um braço em volta de sua amiga, dizendo que estava bem.

Becca percebia perfeitamente o que acontecia: Jennifer começava a dar vazão para seus sentimentos e desejos reprimidos há tantas semanas.

“Jenny, meu amor, vamos para casa? Bob vai nos levar, já está meio tarde.” Becca a convidou sorridente.

“Não. Só vou embora com Anna.”

Anna respondeu educadamente, tentando evitar um clima ruim.

“Tudo bem Becca, também estou cansada, já estou indo e deixo Jennifer em casa, sã e salva.”

“Você está em condições de ir numa garupa de moto, Bob Esponja?”

“Perfeitamente.” Respondeu Jennifer, com os olhos miúdos.

Anna assentiu com a cabeça.

“Eu vou devagar.” Falou baixinho pra Becca.

Pagaram a conta e seguiram de moto para casa. Como prometido, Anna andou com velocidade bastante reduzida.

“Que lesma você hoje hein? Logo você, que adora velocidade.” Jennifer dizia, enquanto subiam as escadas do seu prédio. Anna a carregava pelo braço, mas ela tropeçava em todos os degraus.

“Viu? Tropecei por sua causa. Acha que não sei subir a escada do meu próprio prédio?”

Anna apenas balançou a cabeça.

Chegaram até o quarto, Jennifer tirou o casaco e jogou-se na cama de bruços.

Anna parou na porta.

“Você vai dormir assim, toda molhada de cerveja?”

“Amanhã estarei seca.”

Anna foi até a cama e a ergueu de lá, pelo braço, com facilidade.

“Nossa, que garota forte!” Zombou Jennifer, enquanto cambaleava, agora de pé.

“Você sabe o caminho para o chuveiro, não sabe?”

“Quer refrescar minha memória?” Sorriu maliciosamente.

“Você tem duas opções: ou te coloco embaixo do chuveiro com roupa e tudo, ou você entra lá por sua vontade e pelo bem da sua dignidade, e toma um banho decente.”

Jennifer abriu mais os olhos e a encarou com o resto da sobriedade que lhe sobrava naquela noite.

“Na opção dois, você ainda estará aqui quando eu sair do banho?”

“Se você quiser, estarei.”

“Senta aí então.” Falou, se dirigindo ao banheiro, já tirando a camisa. Ou tentando tirá-la.

Anna apenas suspirou, achando graça da situação.

Poucos minutos depois Jennifer abriu a porta do banheiro, vestindo seu roupão marrom.

“Pronto, sou outra mulher! Agora posso deitar?”

“Vê cá, deixa eu te ajudar.” Anna falou a empurrando de volta para o banheiro.

“O que foi?”

“Seu cabelo, você não enxugou.”

“Não precisa.”

“Claro que precisa. Pense dessa forma: se você ficar doente não vai em nenhum serviço comigo.” Falava enquanto esfregava uma toalha na cabeça de Jennifer, que a olhava meio assustada.

“É, você tem um bom argumento. Minha mãe diria algo parecido.”

“Eu sei.”

Jennifer a encarava.

“Você não deveria fazer isso…”

“O que, enxugar seu cabelo?”

“Não… Ficar assim tão próximo de mim.”

“Por que, qual risco eu corro? Lembre-se que sou bem mais forte que você.”

“Não é justo…”

“O que não é justo?” Anna perguntou confusa.

Jennifer deu de ombros.

“Por que você é tão perfeita? E por que é tão legal comigo? E puta que o pariu, por que é assim… tão linda? Por que está aqui? Você não deveria estar aqui…”

Anna foi pega de surpresa e não respondeu.

“E ainda por cima eu fico torrando sua paciência…” Jennifer olhou para baixo.

Anna sustentava um olhar brilhante, mas confuso. Largou a toalha em cima do vaso.

“Estou aqui porque quero.” Respondeu com calma.

Jennifer voltou a olhar para ela.

“Posso abraçar você?” Jennifer pediu.

Anna deu um leve sorriso, e a abraçou. Foi correspondida carinhosamente.

“Eu não deveria estar falando essas coisas, não é?”

“Vem, vou te colocar na cama.” Anna soltou-se dela.

Anna a conduziu até sua cama, levantando o cobertor, e depois a cobrindo, até a altura do peito.

Jennifer a segurou pelo antebraço, com a mão direita, puxando-a para perto de si.

“Fique.” Sussurrou próximo ao ouvido de Anna.

Anna fechou os olhos, suspirou pesadamente, e abriu os olhos.

“Melhor não. Talvez agora você não saiba disso.”

“Eu sei que não deveria falar esse tipo de coisa, mas às vezes eu sinto uma vontade enorme de beijar você… eu sei, eu sei… problema meu não é?”

Anna hesitou, lhe entregou um beijo carinhoso na testa, e ergueu-se, a encarando.

“Durma.” Sussurrou.

E partiu para sua casa, não sem antes esmurrar a parede da escadaria.

 

“Podemos conversar?” Anna falou, a sua porta.

Havia se passado quase uma semana desde o porre que Jennifer lutava incessantemente para esquecer. Tantos porres em que ela mal se lembrava de ter chegado em casa, e justamente aquele, ela recordava de quase todos os detalhes.

“Agora?”

Jennifer foi pega totalmente de surpresa, achava que Anna nunca mais quisesse vê-la nem pintada de dourado em sua frente. Mas lá estava seu inegável objeto de desejo, parado na porta de seu apartamento, no início da noite daquela sexta-feira.

“Está ocupada? Desculpe, eu deveria ter avisado antes né?”

Respondeu educadamente. Jennifer ainda confusa, tentava decifrar o que significava aquela visita, e aquele semblante preocupado de Anna.

“Não… não, é só que… você me pegou de surpresa, mas estou livre sim. Entre.”

“Pode ser lá em casa?”

A essa altura Jennifer já estava quase suando frio, e a única coisa que se repetia em seu pensamento era “estou ferrada… estou muito ferrada.”

“Claro, espera eu me trocar?”

“Estarei lá embaixo, na moto.”

Correu para o quarto, tirou o pijama, ou o que usava como pijama, calça xadrez vermelha e um moletom velho, cinza, com alguns pequenos furos. Anna estava com uma calça jeans escura, uma jaqueta marrom e um cachecol preto. Jennifer vestiu seu jeans habitual e um casaco de nylon azul escuro.

“Ela vai me encher de bronca… Tenho certeza. Estraguei tudo. Será que posso fazer de conta que não lembro de nada? Ahan, logo você, a pior mentirosa do mundo… não vai colar…”

Jennifer falava sozinha em seu quarto, enquanto se vestia.

Seguiram para a já conhecida mansão com aspecto sombrio, não mais sombrio que o ânimo de Jennifer àquela altura. Adentraram a sala, que possuía um pé direito alto.

“Pode sentar… quer beber o quê? Tenho cerveja.”

“Você tem refrigerante?”

“Você? Refrigerante?” Anna deu um sorrisinho contido, mas Jennifer não viu. Voltou à sala com dois copos com refrigerante, sentou-se no sofá marrom de couro, que formava um L com o outro menor, onde Jennifer sentava, próximo a lareira acesa. A sala era iluminada apenas pela luz do fogo.

Jennifer olhava as adagas e espadas penduradas nas paredes acinzentadas, não havia as percebido no dia que invadiu aquele recinto com sua gangue.

“E então, produzindo muitas facas?” Jennifer tentava um assunto aleatório, e leve.

“Digamos que sim, as encomendas para o fim do ano já começaram a chegar.”

Jennifer iria tentar criar rodeios o máximo que conseguisse.

“De lojas?”

“Nessa época sim.”

“Naquele dia que visitamos você, não havia percebido essas lâminas todas nas paredes, são lindas.”

“Visitaram ou invadiram?”

“É modo de falar.”

Anna parecia um enigma normalmente, mas estava incrivelmente um mistério naquela noite, e não saber onde aquela conversa iria chegar estava deixando Jennifer em pânico.

“Entendo… Já jantou?” Anna tentou ser solícita.

“Não. Mas não estou com fome não. Obrigada. Quer dizer, nem sei se você estava me oferecendo janta, enfim, obrigada de qualquer forma.” Jennifer sentou de forma ereta no sofá, rígida, com as mãos nos joelhos.

“Jennifer você está bem?”

“Sim, claro, ótima, muito bem, não pareço muito bem?”

“Sinceramente?”

“Olha desculpa, sério, mil desculpas por semana passada, eu sei que você me trouxe aqui para puxar a minha orelha, mas já vou me adiantar, ok? Eu sei que passei dos limites e enchi teu saco, mas acredite, prometo não te amolar daquela forma nunca mais, você pode me jogar daqui de cima lá no mar, tudo bem, as piranhas irão me devorar, existe piranhas marítimas? Mas será merecido, você sempre foi super respeitosa comigo, e foi só eu beber um pouquinho e já fiz besteiras, mas eu não ia beber! Nããão, não, Becca está de prova, eu falei que não ia beber, mas acabei me afogando no caneco, literalmente… minha calça que o diga, você tinha que ver o cheiro de cerveja que ficou naquele banheiro no dia seguinte quando acordei, e na minha calça! Pensei em jogá-la no lixo… e eu tinha achado que mal tinha…”

“Jennifer, Jennifer!” Anna falou tentando interromper aquela verborragia.

“Sim?”

“Está tudo bem.” Anna falava pacificamente.

“Está?”

“Está.”

Jennifer relaxou a postura, pousando as costas no encosto do sofá.

“Então está tudo bem.”

“Você está suando?”

“Um pouco.”

“Quer ir lá fora tomar um ar? Acho que vai te fazer bem.”

“Uma brisa do mar, é tudo que preciso. Vamos.” Jennifer levantou-se e já foi em direção a porta.

Anna sentou-se no banco de ferro antigo, próximo ao paredão de pedra da praia, Jennifer sentou-se na beira, de lado, com uma perna balançando sobre a areia da praia, junto ao paredão e a outra erguida, em cima. Jennifer puxou o casaco com as duas mãos, fechando-o sobre o peito, quando uma corrente de ar frio passou por ela. Anna levantou a gola do casaco preto.

“Desculpe, não queria aterrorizar você.” Anna falou.

“Tudo bem, estou aterrorizada com o que você poderia estar pensando de mim… a semana inteira. Só coloquei um pouco para fora agora.”

“Não falo por minha causa, pois não foi incômodo algum ter cuidado de você sábado passado, mas falo por você, acho que você deveria parar no seu número cabalístico, sete chopes é uma boa quantidade.”

“Eu sei… Quanto mais eu pensava ‘não vou beber’, mais eu bebia, não faz sentido, não é?”

“Você parecia ansiosa. Eu te deixo ansiosa?”

Uma lua grande e amarela clareava a noite, Anna podia ver perfeitamente cada detalhe do semblante de Jennifer, que ora olhava apara o mar, ora olhava para frente.

“Às vezes… Mas não é culpa sua. Eu não estou acostumada a ter uma pessoa como você do meu lado.” Jennifer respondia naturalmente.

Agora olhava o rastro prateado que a lua refletia no mar negro.

“Uma híbrida? Você está acostumada a ter apenas humanos por perto, é isso que você quer dizer?”

“Não… mais ou menos… mas não me importo se no meu convívio tem humanos, híbridos, Titans…”

“Ou?”

“Como assim ou?”

Jennifer não entendia onde Anna queria chegar.

“Você não tem semelhantes por perto, não é?”

“Semelhantes? Eu e você estamos tendo a mesma conversa??”

“Sim, desculpe… estou deixando você mais confusa do que já estava.”

“Você quer dizer, garotas como eu, que gostam de outras…”

“Não, não é isso não.” Anna ruborizou.

“É o que então?”

Anna titubeou um pouco.

“Jennifer, você é uma Vulpi, não é?” Anna perguntou, num tom confidencial.

“Uma o quê???”

“Tudo bem, eu conheço um pouco sobre vocês, seu segredo está a salvo comigo.”

“Anna, o que tinha nesse refrigerante??”

“Já faz algum tempo que eu tinha uma desconfiança…”

“Desconfiança? De mim? Olhe, eu já te pedi desculpas, não precisa ficar jogando isso na minha cara ok?”

“Jennifer você está falando sério? Não sabe do que estou falando? Você não é uma Vulpi?”

“Mas que raios é isso??”

“A terceira espécie.”

“Alguns chamam os híbridos de terceira espécie, mas tecnicamente não são, não existe uma terceira espécie.”

“Existe, você sabe que existe.”

“Você tem assistido muito filme de ficção científica minha querida… Ou embarcou numa viagem alucinógena e nem me chamou.”

“Ok, você foi ensinada a não confiar em outra espécie, eu entendo.”

“Por que você cismou que eu sou isso aí que você tá falando?? O que é um… Vulpi?”

Anna a fitou por um instante, confusa, antes de prosseguir. Jennifer começava a achar que era alguma brincadeira dela.

“Eu fui percebendo alguns sinais… As características que os diferem dos outros, e você parece ter todas.”

“Ok, descreva quais são.” Resolveu entrar na ‘brincadeira’.

“Bom… os Vulpis geralmente são inteligentes… acima da média…”

Jennifer interrompeu com um riso abafado.

“…são líderes natos, um pouco teimosos…”

“Agora você está descrevendo um ariano com ascendente em touro.” Jennifer riu.

“…e movem objetos com a mente.”

O semblante de Jennifer desfigurou-se radicalmente neste momento, o sorriso se transformou numa interrogação, agora estava séria e assustada, olhando arregalada para Anna.

“Você move, não move?” Anna insistiu.

Jennifer deu um sorriso nervoso.

“Como você sabe?”

“Eu sou boa observadora.”

O coração de Jennifer estava disparado, sentia-se nua. Permanecia sentada na beira do paredão, mas agora totalmente virada para Anna, que continuava sentada no banco de ferro, inclinada para frente.

“Eu achava que tinha aprendido a disfarçar isso bem, com o tempo…”

“Não precisa mais disfarçar comigo, quero que saiba que fico feliz em ter uma Vulpi por perto.”

“Mas eu não sou isso aí! Eu só… movo coisas… mas sou uma simples humana!”

Agora era Anna que não entendia.

“Você não é…”

“Eu nem sei o que é isso Anna!”

Anna endireitou as sobrancelhas, que estavam franzidas, e colocou a mão sobre a boca, incrédula.

“O que foi?” Perguntou Jennifer assustada.

“Eu estava preparada para duas possíveis respostas esta noite, não estava preparada para esta terceira.”

“Como assim?”

“Ou você era Vulpi, ou não era… Sequer passou pela minha cabeça que você pudesse ser uma e não saber que é!”

“Ninguém nunca me falou nada disso.”

“Seus pais provavelmente tiveram alguma razão para não te contar, provavelmente iriam te contar, mas acabaram partindo antes disso, não imaginariam que morreriam no mesmo dia.”

“Meu Deus eu sou uma Vulpi?? Nem sei o que é, mas estou apavorada!”

“Não fique, isso é uma coisa boa, sua espécie é a mais sensata nesse planeta… Nossa… meu pai ficaria tão contente em te conhecer…”

“Por que? Ele não era humano??”

“Sim era, mas foi criado por uma família Vulpi, no Brasil, era adotado. Foi assim que eu e meu irmão ficamos sabendo sobre vocês, meu pai tinha uma estima enorme pela espécie, e pelos pais adotivos, sempre falava tão bem… passamos a ter este carinho também.”

Por um segundo aquele turbilhão que varria sua mente deu lugar àquelas palavras: ‘ela tem carinho por mim…’ Mas foi realmente por um segundo apenas, logo Jennifer voltou a ficar em pânico, sentia-se zonza. Virou-se de frente para o mar, com as duas pernas balançando sobre o paredão, que naquele local tinha pouco mais de um metro de altura.

“Jennifer? Tudo bem?”

“Sim, está tudo bem, só talvez eu desmaie.” Sentia a cabeça pesando, pulsante.

Anna saiu rapidamente do banco, desceu o paredão pela escada de madeira e ficou de pé na areia grossa, de frente para Jennifer, entre seus joelhos, apoiando suas mãos em suas coxas.

“Hey, olhe para mim, não precisa ter medo de nada, você continua sendo quem você sempre foi… Eu sei que é difícil de acreditar nisso assim, de uma vez… Nem eu estou assimilando ainda a ideia, mas aos poucos você vai entendendo quem você realmente é, e eu vou te ajudar, não sou uma da sua espécie, mas sei alguma coisa…”

“E como você tem tanta certeza que isso tudo é verdade? Isso tudo pode ser apenas lenda…            “

“Eu não tenho certeza de nada do que foi dito esta noite, mas acho que você deveria apostar nisso…”

Jennifer entrou num silêncio quase catatônico, olhava para o mar, além Anna, pensativa. Anna saiu da frente de Jennifer e encostou-se ao seu lado, no muro de pedras atrás de si.

“Desculpe… Eu achava que o único choque que você teria era por eu ter descoberto sobre você… Deveria ter sido mais sutil, me faltou tato.”

“Eu quero ter certeza, preciso ter certeza.” Jennifer respondeu determinada.

“Então precisa ir atrás de quem tem essa informação. Algum parente talvez?”

“Não tenho nenhum na cidade.”

“Tem tios, avós?”

“Tenho, ou tinha… Não sei, nunca mais tive contato com eles. Meus avós moravam aqui, mas se mudaram há muito tempo.”

“Hum… algo me diz que foram para bem longe daqui…”

“Canadá… Montreal.”

“Quer arriscar?”

“Como assim?” Jennifer virou-se na direção de Anna.

“Posso te levar lá, se quiser.”

“Eu e você, indo para Montreal… de moto?”

“Você já deve ter percebido que sou uma motorista responsável.” Anna tentava deixa-la mais relaxada.

Jennifer riu.

“É… digamos que sim.”

“Já fiz viagens maiores, sobre duas rodas.”

“Quantos quilômetros até Montreal?”

“Pouco mais de quinhentos.”

“E se não encontrarmos ninguém lá?”

“Continuaremos a procurar.”

Jennifer sustentava o olhar para Anna, não entendia o porquê de gestos benevolentes como estes, não nos dias de hoje, onde era cada um por si, ou cada um por sua espécie… Talvez ela se sentisse culpada, por ter jogado tamanha bomba em suas mãos, assim, numa noite que tendia ao quase constrangimento pelas suas atitudes da semana passada, mas que tomara um rumo tão surreal, e mudaria muito sua vida como ela conhecia há vinte e dois anos.

“Quando partimos?” Jennifer perguntou sorrindo.

 

 

         Capítulo 9 – Montreal

 

A viagem para Montreal atrasara por quase duas semanas por conta de uma desavença que Jennifer estava vivenciando em sua vila, contra uma milícia de Titans, para variar. Estes queriam cobrar uma taxa de todos os moradores, em troca de segurança noturna nas ruas da pequena vila. Claro que não passava de ameaças camufladas em serviços de vigilância privada.

Mas finalmente o dia chegou, despediu-se de Bob e Becca, e com uma mochila às costas, subiu confiante na garupa da moto de Anna naquela manhã de sexta-feira, rumo a Montreal. Rumo aos seus parentes. Rumo às suas origens. Anna levava uma pequena bolsa transpassada em seu ombro, pousando sobre o tanque da moto. Não poderia se demorar lá, tinha grande demanda de encomendas em sua forja. Três ou quatro dias, havia prometido a Jennifer.

“Parece que andei a cavalo por três dias a fio. Sem sela.” A viagem foi dolorosa, como esperado. Jennifer se esticava ao parar em frente a ponte que ela reconhecera.

“É esta ponte? Tem certeza?” Anna também se espreguiçava, após tirar o capacete negro.

“Me lembro perfeitamente da vista desta ponte, a partir do quintal de Vó Meredith. A casa ficava deste lado da margem, à esquerda, se percorrermos devagar tenho certeza que vou lembrar da casa. Se não foi demolida, é claro…”

O frio naquela parte do Canadá estava cortante, o tempo cinza, e uma brisa vindo do rio deixavam seus rostos vermelhos e gelados.

Anna conduzia a moto em baixa velocidade, acompanhando os olhares ávidos de Jennifer pelas casas da rua que costeava o rio.

“Aqui! Pare!” Quase gritou Jennifer.

Havia avistado uma casa típica de subúrbio, com as paredes de madeira branca, descascando. Na frente uma varanda sustentada por madeiras marrons. E um banco de madeira azul claro, de balanço.

Saltaram da moto e Jennifer bateu com vontade à porta, que tinha uma abertura de vidro. Não demorou para uma velhinha simpática, com cabelos gris, abrir a porta devagar, cautelosa.

“Vó Meredith??”

“Não pode ser…”

“Sim, sou eu vovó!”

Anna acompanhava a ação, atrás de Jennifer, estupefata.

“Mas disseram que você… e seus pais…”

“O quê?? Disseram que morri? Quem falou isso?”

“Alguém da assistência social da sua cidade… mas venha cá, me dê um abraço minha neta!” Meredith era uma senhora rechonchuda, com o cabelo grisalho preso num coque folgado. Um vestido claro, com pequenas flores, adornava seu quadril largo. Bochechas sobressalentes e rosadas, como de sua neta.

E abraçaram-se, ambas comovidas e com olhos cheios de lágrimas.

“Venha, entre, seu tio vai ficar tão feliz em vê-la…”

“Tio Ethan?”

“Sim!”

“E o vovô…”

Meredith apenas balançou a cabeça negativamente.

“Ah…” Jennifer entendeu.

Já era quase seis da tarde e à noite começava a surgir, Meredith percebeu então que havia mais alguém com Jennifer.

“Esta é minha amiga, Anna. Anna esta é minha vó!”

Cumprimentaram-se e sentaram-se nos velhos sofás da sala de estar, que também era a sala de TV, e tinha uma decoração típica das casas mais antigas, quadros com molduras escuras e grossas, tapetes de franja, móveis antigos. Ethan só chegaria um pouco mais tarde.

“Vimos os nomes de seus pais numa lista de vítimas da sua cidade. Nos disseram que todos haviam morrido num ataque à sua casa, pensamos em ir até a cidade para ter mais informações, ou quem sabe conseguirmos fazer um funeral, mas a informação que tivemos é que não haviam corpos, então desistimos.”

“Não, não… O ataque foi à universidade, onde meus pais trabalhavam, não foi na casa. Deram informações equivocadas à vocês.” Jennifer falou desoladamente.

“É compreensível minha neta, naquela época a confusão imperava, mas o importante é que você está viva, e olhe só, como está bonita! É tão parecida com sua mãe… Óh Olivia ficaria tão orgulhosa de uma filha linda como você… Foi embora tão cedo coitadinha…”

Ficaram em silêncio por alguns instantes. Anna apenas acompanhava a conversa, sentada numa poltrona um pouco afastada. Sabia que aquele momento era importante para sua fiel escudeira, deixaria Jennifer o mais à vontade possível.

Então Ethan chegou.

“Titio!” Vibrou Jennifer, ao abraça-lo, que respondeu pouco depois ao abraço, confuso e assustado.

“Como assim, o pequeno castor está vivo?” Ethan falou, com um sorriso enorme.

“Ah não acredito que você lembra desse apelido besta!”

Anna repetiu o apelido baixinho, rindo.

“Mas você não estava…”

“Não, foi um grande mal entendido, estou vivinha da silva!”

Após colocarem a conversa em dia, Meredith as acompanhou até um quarto de visitas, que tinha algumas pilhas de caixas nos cantos. Duas camas de solteiro e um pequeno guarda-roupas completavam a decoração.

“Pequeno castor?” Anna sorria, deixando a sua minúscula bolsa de viagem em cima da cama.

“Eu tinha os dentes para fora, mas já consertei. Ou ainda pareço um castor por acaso?”

“Ok, só achei bem… fofo.”

Jennifer jogou um travesseiro nela.

Após o jantar, todos se reuniram novamente na sala de estar, Anna percebia a impaciência de Jennifer em tirar toda a história a limpo, ela falava nisso a semana inteira. Antes de seguir até a poltrona afastada, passou na frente de Jennifer e sussurrou algo em seu ouvido.

“Vá devagar. Tenha calma.” Disse.

Mas ela não seguiu suas orientações.

“Vó.” Falou se inclinando para frente. “O que eu sou?”

“Como assim, minha neta?”

“Vocês também… vocês também são… Vulpis?”

Meredith e Ethan se entreolharam. E depois olharam para Anna.

“Ah não, esqueçam Anna, ela sabe de tudo, na verdade foi ela que levantou essa possibilidade, e de qualquer forma, ela é de confiança. Apenas me digam a verdade.”

Ethan tomou frente.

“Então você soube agora, não foi?”

“Sim, ninguém me contou, como iria saber? Então é verdade? Sou isso mesmo?”

“Somos sim, minha querida. Você também é.” Meredith confirmou o que Jennifer tanto aguardava ouvir.

“E por que ninguém me disse nada? Tem alguma idade padrão para contar aos desavisados? Esqueceram a minha vez?”

“Não sei exatamente quando seus pais iriam conversar com você, não há uma idade padrão, mas tenho certeza que a guerra atrapalhou os planos.”

“Então não sou humana… Sou uma Vulpi. Isso é tão estranho falado assim, em voz alta.” A própria Jennifer se assustava com o que falara.

“Não se assuste, somos iguais à todos, não somos? Só precisamos manter tudo isso em segredo, um dia quem sabe nossa espécie virá à tona, mas enquanto isso, é algo que guardamos entre nós, como uma irmandade.”

“O que significa, Vulpi? Tem algum significado?”

Ethan apontou para a altura do peito de Jennifer.

“Seu cordão, você ainda o tem?”

Jennifer tirou a medalha para fora da blusa, e olhou curiosa.

“Isso tem a ver, não tem?”

“O que tem desenhado, por baixo do brasão?”

“Uma… raposa?”

“Isso. Raposas em romeno é vulpi.

“Romeno?”

“Os primeiros líderes Vulpis surgiram lá, mas isso tem centenas de anos… Depois as lideranças se concentraram na Escócia.”

Foi como se Jennifer tivesse levado um susto.

“Escócia! A terra do meu pai!”

“Sim, não é à toa seu pai ser o que é.. ou o que foi… e ser escocês.”

Agora Jennifer franzia o cenho, sem entender.

“O que meu pai era? Pessoal, sem mistério por favor.”

Mas novamente Ethan e Meredith se entreolharam, hesitantes. Jennifer esperava por algo cabuloso.

“Seu pai é descendente dos líderes Vulpis. Temos uma hierarquia, uma espécie de nobreza. Os nobres são os que nos lideram e governam. São os líderes dos clãs.”

“Clã, raposas, nobres, acho que vou ter uma síncope com tantos termos novos…” Jennifer não perdera o senso de humor no meio daquela situação toda.

“Seu avô paterno é o líder do clã do sul da Escócia, seu pai, por ser o primogênito, seria seu substituto natural.”

“Meu avô… está vivo??”

“Não sabemos, já tem alguns anos que não temos notícias deles.” Meredith falou pesarosa.

“Mas agora, com o pequeno castor de volta…” Ethan continuou.

“O que tem eu?”

“Você é a primogênita do seu pai, não é?”

“Filha única, para ser mais exata.” Jennifer respondeu, taxativa.

“Então você é a herdeira direta do legado do seu avô…”

“Não, não deve ser assim que funciona.” Jennifer ria, nervosa.

Mas ninguém riu naquela sala.

“Se seu avô já faleceu, provavelmente sua tia assumiu o posto, a irmã de seu pai. Como era mesmo o nome dela?” Meredith a acalmou.

“Tia Melanie…” Jennifer lembrava-se da última vez que fora até a Escócia, e viu as duas irmãs de seu pai, além de seus avós. Ela tinha quase doze anos na época.

Jennifer precisou de alguns minutos para assimilar aquilo tudo. Não bastava ser Vulpi, era uma Vulpi nobre. Mas que raios aquilo significaria?

“Preciso tomar um ar.” Começou a suar frio. Saiu rapidamente da sala, e foi até o quintal. Sentou-se nos degraus que davam acesso ao pátio gramado, onde havia uma carcaça branca e enferrujada de automóvel, e um tanque de concreto. Os fundos davam para o rio.

Menos de um minuto depois, percebeu Anna sentando-se ao seu lado. E ninguém falou nada. Ficaram alguns minutos ali, apenas lado a lado, dividindo aquele degrau frio, de ombros colados. Olhando vez ou outra para o céu parcialmente nublado, Um pequeno punhado de estrelas eram visíveis por entre as nuvens.

Anna tirou seu cachecol de lã cinza e enrolou no pescoço de Jennifer, que tremia.

“Desse jeito você será o pequeno castor congelado.” Anna tentava iniciar um diálogo.

“Isso foi quase engraçado.” Respondeu com um sorrisinho no canto da boca.

“Então essa é a vista que você tinha da ponte. É uma bela vista.” Anna levantou as sobrancelhas.

“É tão diferente agora…”

“O que mudou?”

“Eu. Eu acho…”

“Foi demais para uma noite?”

“Estou bem… só preciso de um tempo para colocar as ideias em ordem.”

Anna a olhava, analisando se ela estava realmente bem. Uniu e levantou a gola do seu próprio casaco. Passou a olhar para frente também. Mas já sentia que Jennifer baixaria as defesas logo. Apenas esperou.

“Sabe… O que tiver que acontecer, tudo bem, que venha. O que me assusta é perder o controle da minha vida, até alguns dias atrás eu sabia tudo que estava acontecendo e era tudo tão previsível… Não que seja legal ter uma vida previsível, mas era tudo tão simples…”

“É como se você não se conhecesse mais?”

“Eu nem sei direito quem eu sou… acreditei em tantas coisas… e agora parece que vivi uma mentira. Se eu estiver sendo melodramática demais me avise.”

Anna riu.

“Hoje você pode.”

“É… acho que novos tempos estão vindo.”

Anna assentiu com a cabeça. Olhou para o lado e percebeu que os seus olhos já enchiam de lágrimas, tentava segurar. Virou-se na direção de Jennifer e a puxou para próximo de si, um braço a trouxe para junto do seu próprio corpo, o outro trouxe sua cabeça para baixo do seu queixo. Jennifer se deixou levar, e aninhou-se nela. Tão quente e confortável, como naquela noite fria na casa abandonada.

“Você não está só… não esqueça disso.”

Mesmo naquele frio, Jennifer sentia a mão quente de Anna em seu rosto, e se seus pensamentos pareciam confusos antes, agora eles haviam entrado num liquidificador ligado. Se antes ela tentava organizar a pilha de novas informações que havia recebido, agora era como se estivesse num mar e seus pensamentos eram como papéis sendo recolhidos da superfície, e Anna era como uma onda que vinha e bagunçava tudo ainda mais.

“Você nunca contou para ninguém sobre esse seu… dom, de mover as coisas?”

“Não.”

“Nem para seus pais?”

“Só para eles.”

“E?”

“Tentaram fazer eu acreditar que aquilo era algo comum, que outras pessoas também faziam aquilo, mas seria melhor eu não contar para ninguém. Se eu quisesse conversar sobre isso, que o fizesse somente com eles.”

“E nunca teve vontade de contar para mais alguém?”

“Quando era pequena sim, mas depois, sei lá, depois dos dez anos fiquei com medo de assustar as pessoas contando.”

“E então guardou isso para você até agora.”

“Sim, não queria correr o risco de ser a nova Carrie – a estranha…”

Ambas sorriram.

“Anda, vamos entrar antes que nos tornemos esculturas de gelo no quintal da sua vó.” Anna começou a levantar-se.

“Daí seria outro filme…”

“Qual?”

“O Iluminado.”

 

Aquela longa sexta-feira terminou com as duas viajantes capotando em suas respectivas camas. No dia seguinte o outro tio de Jennifer, Christian, apareceu para almoçar com a família, juntamente de sua esposa e suas duas filhas, de dezesseis e dezoito anos, todos moravam num bairro próximo.

O restante do dia foi regado à conversas e recordações, com direito a álbuns de fotos e boas memórias.

No domingo Jennifer e Anna saíram para passear pela cidade.

“Aqui, esse parque.” Jennifer apontou, ainda de cima da moto. Chegaram à uma praça cheia de árvores, com bancos aparentemente novos, e alguns balanços e escorregadores.

“Mas não era assim, tinha mais árvores, mais… tá faltando alguma coisa.”

Atravessaram a pé pelas árvores e deram de cara com uma quadra esportiva de concreto, Jennifer puxava Anna pela mão.

“O lago. Aqui tinha um lago. Era isso que estava faltando.”

“Que deveria congelar nesta época do ano, não?” Anna comentou, agora lado a lado com Jennifer, olhando para a quadra, onde alguns adolescentes jogavam basquete.

“Sim… caí vários tombos deslizando no gelo. Pobre lago…”

“Venha.” Jennifer novamente saiu arrastando Anna pela mão.

“Quantos anos você tinha quando seus avós vieram para cá?” Caminhavam entre algumas árvores.

“Acho que oito. Desde então todo ano vínhamos para cá, para passar o Natal.”

“Até quando?”

“Quando a guerra começou.”

Caminharam até um local com árvores esparsas, parecia abandonado.

“Aqui era cheio de grandes mesas e bancos de madeira, as famílias vinham fazer piqueniques durante o dia. E durante a noite…”

“Eu imagino.” Anna interrompeu.

“Aqui, ou mais ali, bom não lembro, estava escuro… mas foi aqui que dei meu primeiro beijo!”

“Ah entendi a empolgação…”

“Eu parecia empolgada? São seus olhos.”

Anna sorriu e balançou a cabeça.

“Menino ou menina?”

“Tanto faz, desde que venha com saúde.”

“Você entendeu.”

“Menina.” – E sorriu maliciosamente. “Venha, tem outros lugares que você vai gostar de conhecer.”

Na segunda-feira Anna conversou com Jennifer a respeito de sua partida, que seria no dia seguinte.

“Tudo bem se você quiser ficar… mesmo.” Anna arrumava sua bolsa, guardando seus pertences.

“Eu vou logo, daqui alguns dias… Vou aproveitar um pouquinho estar no meio dos meus familiares.”

“Claro, aproveite, tire uns dias para vocês. Se quiser eu venho te buscar.”

“Imagina, rodar isso tudo de novo, só para me dar uma carona.”

“Não me importaria. Tome.” Anna entregou um aparelho de celular na mão de Jennifer.

“De quem é?”

“Agora é seu. Comprei ontem, enquanto você passeava com suas primas.”

“Não, isso deve ter custado uma grana, fique.”

“Você não sabe que é feio recusar presente?”

“De que?”

“Sei lá, Natal antecipado? Quando quiser voltar, me ligue. Ou mande uma mensagem. Meu número já está gravado na agenda.”

“Se sentir saudades também posso mandar mensagens?” Falou com ironia.

Anna apenas levantou os olhos, com um sorriso de reprovação, enquanto fechava o zíper da bolsa.

No dia seguinte tomaram café cedo, juntamente do restante da família. Anna despediu-se deles e foi para a moto, Jennifer a acompanhou.

“Prendo meu capacete no banco?”

“Hum… Não, melhor ficar com você.” Anna vestia suas luvas de couro. Era final de novembro e a viagem de volta seria bem gelada. Ainda mais por não ter sua parceira à sua cintura, como um bicho preguiça preso à árvore.

Jennifer largou o capacete no chão e a abraçou, e assim como todos os outros abraços, pegou Anna de surpresa.

Anna então montou em sua moto e colocou o capacete.

“Você vai ficar bem?” Falou, ainda de viseira aberta.

Jennifer deu um sorriso torto e balançou a cabeça.

“Me avise quando chegar em casa… não faça nada que eu não faria, não se aventure demais nem banque a mulher maravilha. E… obrigada, obrigada por tudo…” Jennifer tentava disfarçar sua voz embargada.

“Aviso sim. Não se preocupe comigo, aproveite estes dias… e volte tranquila. Mas volte.”

Jennifer encarava aqueles olhos azuis com uma dor que lhe dilacerava por dentro. Ela sentia que não ficaria apenas uns dias por lá, mas não tinha coragem de contar à Anna. Quando não pode mais segurar as lágrimas, virou o rosto, esfregou as costas das mãos nos olhos. Anna titubeou um instante, já havia colocado a chave na ignição, mas num gesto rápido pulou da motocicleta e retirou seu capacete, caminhou na direção de Jennifer e a abraçou, a envolvendo calorosamente.

“Vai ficar tudo bem, meu anjo…”

Jennifer a abraçou ainda mais forte. E depois a soltou.

“Não quero te prender mais… não quero que dirija a noite.” Respondeu baixinho.

E Anna partiu de volta para Bridgeport, deixando um pedacinho de si para trás.

 

 

Os primeiros dias em Montreal foram repletos de longas conversas com sua avó e seu tio Ethan. Jennifer estava experimentando viver em família novamente, desde seus quinze anos vivia por si, privada precocemente de um lar com seus parentes próximos, e estava adorando reviver isto.

Enquanto isso, Anna trabalhava em tempo integral em sua forja. E entregando as encomendas. Voltou a executar suas missões noturnas, mas sentia falta de algo, não era a mesma coisa se aventurar em lugares insólitos sem Jennifer.

Costumavam trocar mensagens de texto uma ou duas vezes por dia. Em algumas noites mais tranquilas, Anna ligava, mesmo sabendo que a ligação teria má qualidade.

No final de semana seguinte, Jennifer aceitou o convite para sair com sua prima de dezoito anos, Carly. Foram a um bar local, um ambiente alternativo, porém muito mais descolado que o pub de Oscar. Lá conheceu Susan, uma bela e jovem filha de franceses, que estudava com Carly, e assim como elas, era uma Vulpi também. Rolou uma química instantânea e Jennifer logo percebeu as intenções da garota com sotaque deliciosamente diferente.

Alguns drinks depois Jennifer precisou ir ao banheiro e foi seguida discretamente pela francesinha. Mas não foi com muita surpresa que foi empurrada para dentro de uma das cabines. Alguns minutos de lascividade se seguiram, mas logo Jennifer a interrompeu, estava preocupada em deixar sua prima em maus lençóis. Voltaram a mesa como se nada tivesse acontecido, trocaram telefones e marcaram de ser ver durante a semana.

E assim ela colecionou mais uma amizade colorida a seu currículo, lembrou do dia que falou sobre isso com Anna, na missão da igreja. “Se ela estivesse aqui hoje saberia o que é uma amizade colorida na prática…” Riu sozinha.

Na quarta à noite, foi até a praça arborizada que havia levado Anna para conhecer, encontraria suas primas lá. A área iluminada do local se tornava um ponto de encontro dos jovens da cidade a noite. Sua cabeça continuava a mil por hora, nem havia lembrado da possibilidade de Susan estar lá.

“Quem?” Respondeu displicentemente para Carly.

“Você ficou um tempão conversando com ela no bar sábado, não lembra?”

“Ah sim, Susan, a francesa, claro.”

“Na escola ela não parava de perguntar se você viria hoje…”

“Deve ser porque prometi emprestar meu pen drive com MP3s.” Disfarçou.

Susan chegou e Jennifer sentiu-se um pouco constrangida por lembrar do que fizera na semana anterior, ficando com uma amiga de sua prima, mal tinham feito dezoito anos.

“Sabia que você viria…” Sussurrou Susan.

“E eu não fazia ideia que você viria.” Teve vontade de responder.

“Pelo visto toda a população abaixo de trinta frequenta essa praça a noite.” Foi a resposta que ela realmente deu.

O grupo de amigos passou a noite se dividindo entre vinho barato, cervejas, bate papo e skates.

“Você veio para Montreal de moto, não foi?”

“Sim, mas vim na garupa. Anna veio pilotando.”

“Carly me contou sobre sua amiga, é verdade que ela é uma híbrida?”

“É sim, mas só me lembro disso quando me perguntam.” Respondeu incomodada.

Ficaram em silêncio por um instante.

“Jenny, quer vir comigo comprar mais cerveja? Não vendem bebida alcoólica para menores de vinte e um anos por aqui, preciso de sua maioridade, empresta?” Sorriu maliciosamente.

Claro que foi apenas uma desculpa, e assim que saíram da vista do pessoal, elas se atracaram próximo às arvores. Novamente Jennifer teve uma epifania de responsabilidade e interrompeu aquele momento adolescente, voltando ao convívio de suas primas, ajeitando as roupas.

Logo depois voltou para casa de sua avó, prometendo a si mesma não mais ceder às investidas da francesa.

“Para quem estou mentindo… A carne é fraca…” Pensou ao fechar a porta de seu quarto.

Na sexta-feira acordou com o alerta de recebimento de uma mensagem de texto, correu para ler, esperando ser um ‘bom dia’ de Anna, mas era um convite de Susan.

“Meus pais vão visitar minha avó hoje, só retornam no domingo, por acaso você quer aquelas aulas de guitarra hoje à noite? Casa azul, no final da rua da Carly.”

 

Aquela sexta-feira foi de intenso trabalho para Anna, trabalhara na sua forja o dia inteiro. Desligou a máquina e olhou para um velho relógio de parede, passava das onze da noite. Enquanto tirava as luvas e o avental de couro, deu uma olhada no calendário afixado abaixo do relógio, faziam dez dias desde que voltara do Canadá.

E desde então Jennifer não havia falado em nenhum momento sobre sua volta aos Estados Unidos, nem uma menção sobre alguma data futura, algum planejamento, nada. Isso afligia cada dia mais Anna.

Subiu, tomou um banho demorado e caminhou até sua cama, viu seu celular em cima do criado mudo, pensou em ligar. O que Jennifer estaria fazendo numa sexta à noite? Provavelmente saiu com suas primas, concluiu. Deitou-se, fechou os olhos e suspirou de cansaço. Mas minutos depois levantou-se de sobressalto, olhou novamente para o aparelho pousado ali do seu lado, hesitou, e então seguiu até a varanda com ele nas mãos.

Fechou os vidros da sacada, para evitar o barulho do vento.

“Vou ligar… Mas não vou perguntar quando ela pretende voltar, seria muito invasivo de minha parte, e talvez ela se sentisse mais pressionada… vou ligar e apenas dizer que estou sentindo sua falta, que as missões sem alguém tropeçando e resmungando do meu lado não é a mesma coisa. Isso… Estou sentindo sua falta pirralha, só isso, sem pressão.” Pensava com seus botões.

Discou o número de Jennifer, chamou uma vez, duas, várias vezes. “Deve ter esquecido o celular em casa…” Imaginou.

Então o telefone atende, uma voz sonolenta responde do outro lado.

“Alô?”

“Jennifer?”

“Não… É Susan.” Respondeu baixinho, uma voz com forte sotaque.

“Ãhn… Posso falar com Jennifer?” Anna pergunta, confusa.

“Ela está dormindo… Quem está falando?”

“Você pode por gentileza dar o recado a ela dizendo que Anna ligou?”

“Anna? Olha só Anna, quem tá falando é a namorada dela, faça um favor para nós, não ligue mais, nem mande mensagens, Jennifer está tentando tocar a vida dela aqui e você deveria fazer o mesmo com a sua aí.” E desligou.

Anna ficou ainda alguns segundos com o telefone mudo junto ao ouvido, assimilando o que acabara de escutar.

Susan caminhou até a cama onde Jennifer dormia profundamente, nua. E deitou-se ao seu lado.

 

—- história removida pela autora —-

Caso queira ler o restante, é só pedir que mando 😉

Opa! Cadê as histórias?

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comentários

Comments (103)

  1. Gabriela Gomes

    Olá. Gostei bastante da sua história.poderia, por favor, me mandar a continuação.

    Reply
  2. Daiane

    Olá,poderia me enviar a continuação por favor? =)

    Reply
  3. Livia Guerra

    Boa tarde Cristiane, 1° quero te dar os parabéns por voce escrever de forma tao inebriante. Suas estórias são maravilhosas. Fiquei na metade do capítulo 9 da lince e a raposa, você poderia me enviar por email? livia.guerra@hotmail.com desde ja agradeço muito. Bjoooo

    Reply
  4. Laura

    Sei q to sendo mt direta, mas…me manda a continuação pff.

    Reply
    1. Schwinden (Post author)

      Laura, enviei por email 😉

      Reply
  5. Ana Cláudia Almeida

    Estou acompanhando A Lince e a Raposa, e Amigos de aluguel. Teria como mandar o link da continuação?

    Reply
    1. Schwinden (Post author)

      oi ana, mandei por email, bjos!

      Reply
  6. Thays Perillo

    Oi! Por favor, gostaria de continuar a leitura! thaysperillo@gmail.com
    Obrigada!

    Reply
  7. Mairlle Perreira

    To adorando a historia mas quero a continuacao please mairlle22@gmail.com

    Reply
  8. Cristiane Schwinden

    Oi Branca, te mandei por email, bjos!

    Reply
  9. Cristiane Schwinden

    Andressa Santos <3

    Reply
  10. Bia

    Também quero os links!!! Por favoooor!!!
    Você escreve bem demais, não pare nunca!

    Reply
  11. Angélica Queiroz Souza

    Oi. eu ja li a Lince e a Raposa pelo abcles, mas essa historia é daquelas que a gente vai ler de vez enquando. É muito boa. apesar que sou suspeita de falar porque virei fãzona da Cristiane e acho que tudo que ela escrever eu irei ler.
    Queria comprar o livro com a hisória da Lince e a raposa e amigos de aluguel também. Você tem disponivel pra venda Cristiane?

    Reply
  12. Sol Motta

    Parei no 23, que maldade, me passa a senha, quero terminar *—-*

    Reply
    1. Schwinden (Post author)

      senhas enviadas, sol!

      Reply
  13. Maria Lua

    Oiiii Escritora poderia me mandar o restante da estória por favor… estou adorando… como apreciando sua escrita… bj

    Reply
  14. Schwinden (Post author)

    Olá! Te mandei por email. bjos!

    Reply
  15. Schwinden (Post author)

    Ola! Te mandei por email, bjos!

    Reply
  16. Manu

    Amei.Gostaria de ler continuação da Lince e dos Amigos.Por favor,envia os links pra mim.

    Reply
    1. Schwinden (Post author)

      Olá! Te mandei por email, bjos!

      Reply
  17. ingred

    Ah, por favor manda a continuação, essa história é a melhor :3

    Reply
    1. Schwinden (Post author)

      Oie! te mandei por email, bjinhos!

      Reply
  18. Camila

    Boa Noite!
    Poderia me mandar a continuação por e-mail? Gostaria de continuar a leitura.
    Grata.

    Reply
    1. Schwinden (Post author)

      Oi Camila, te mandei por email. Bjos!

      Reply
  19. Cristiane Schwinden

    Oi Jane, te mandei por email, recebeu?
    Muito obrigada pelos generosos elogios 🙂
    Bjos

    Reply
  20. Mara

    Boa tarde Cristiane Schwinden,
    Bom, comecei ler a publicação “A Lince e a raposa” e achei muito interessante, você conseguiu instigar a minha curiosidade. Então, gostaria de terminar a leitura, pois estou interessada em saber o desenrolar e o desfecho da história, se puder me enviar um link ou arquivo da mesma, agradeço muito. Bom sua trama e escrita é muito boa, pois é a primeira que leio de sua autoria. Espero ler outras publicações, como já conferi neste blog.
    A uma versão em livro de suas histórias? Se sim, por qual editora? pois gostaria de adquirir o livro.
    Parabéns pelo trabalho, realmente é muito bom.
    Segue contato para envio: mara.lucia1989@bol.com.br
    Aguardo resposta e desde já agradeço.
    Ass: Mara.

    Reply
    1. Schwinden (Post author)

      Oie Mara!
      Te mandei os links, espero ter ganho uma leitora pra sempre! rs
      Bjos

      Reply
  21. ly

    Olá Cris! Já tinha visto varias x no site abcles mas passava em branco. Hj resolvi ler e cara, é bom d+. POR FAVOR preciso terminar, fikei apaixonada pela trama bem feita q vc fz..Alias, parabéns. Espero ansiosamente a sua resposta.

    Reply
    1. Schwinden (Post author)

      Mandei por email ok? Bjos!

      Reply
  22. Jane Coelho Rocha

    oi deixei um endereço de e-mail para poder reler suas historias a lince e raposa e amigos de aluguel mas ainda não recebi, continuo aguardando ..parabéns suas histórias são uma raridade de ser ver mo abcles..muito muito bem elaboradas..bjs oops endereço de email ; tocantinense_39@hotmail.com

    Reply
  23. Cristiane Schwinden

    Olá Lorrah! Te mandei por mensagem no Facebook, ok? Bjos e obrigada!

    Reply
  24. Lorrah Alves

    Oi, adorei a história e quero muito poder continuar a ler ainda mais por ser um romance diferente(futurista) que me cativou muito. Beijos e obrigada desde já

    Reply
  25. Adriana

    Olá, queria continuar a leitura, tu pode me mandar por via
    Email??

    Grata!

    Reply
    1. Schwinden (Post author)

      Oi Adriana, mandei por email, bjos!

      Reply
  26. Glau

    Olá comecei a ler Lince e a Raposa gosta ria de terminar de ler, como faz?
    Parabéns pela criatividade,bjs

    Reply
    1. Schwinden (Post author)

      Oi Glau, mandei por email. Bjinhos!

      Reply
  27. Bruna

    Boa tarde!!
    Amei sua história e gostaria de continuar lendo 🙂
    Aguardando ansiosamente …

    Reply
    1. Schwinden (Post author)

      oie, enviei por email, bjos!

      Reply
    2. Schwinden (Post author)

      Seu email voltou, acho que estava errado, tem como me passar o correto?

      Reply
  28. Cristiane Schwinden

    Oie Amanda, obrigada por me ler 😉
    Te mandei os links pelo Facebook. Bjinhos

    Reply
  29. Amanda Oliveira

    Boa noite!!! Adorei a história já li, e gostaria de volta a ler pode me enviar. Prabéns a história é perfeita, envolvente, emocionante e claro romântica!

    Reply
  30. Larissa

    Cadê a continuação? 🙁
    Poderia mandar por e-mail? Queria muito continuar a leitura.

    Reply
    1. Schwinden (Post author)

      Enviado por email, bjos!

      Reply
  31. Najara

    Boa noite! Gostaria de continuar lendo o romance, se puderes me enviar a continuação, ficaria muito agradecida.

    Reply
    1. Schwinden (Post author)

      Oi Najara, te mandei por email. Bjos!

      Reply
  32. Steffany

    Manda por e mail? por favor? 🙁

    Reply
    1. Schwinden (Post author)

      Oie, te mandei ontem, recebeu? Bjos

      Reply
  33. Leticia

    Adorei a estoria poderia me manda completa?

    Reply
    1. Schwinden (Post author)

      Enviada por email, bjos!

      Reply
  34. Carol

    Fiquei super feliz tanto em saber que você pretende publicar o livro, quanto em saber que pretende escrever uma segunda e uma terceira parte *-*
    Aguardo anciosamente por ambos os acontecimentos, pode ter certeza que comprarei a série inteira.

    Abraços

    Reply
  35. Tainá

    Ei cris, já li a história a um bom tempo pelo abcles e gostaria de ler novamente, pode me mandar a história completa? Agradeço desde já. :))

    Reply
    1. Schwinden (Post author)

      Oi Tainá, te mandei por email, beijos!

      Reply
  36. Carol

    Cristiane, o livro de A Lince e a Raposa foi publicado? Se sim, onde encontro pra comprar?

    Reply
    1. Carol

      Mais uma coisa, você pretende escrever uma continuação? Tipo, A Lince e a Raposa 2? *-* Porque ainda ficou muita história pra contar e eu gostaria muito que tivesse mais \o/

      Reply
      1. Schwinden (Post author)

        Oi Carol!
        Ainda não publiquei A Lince, ele é minha prioridade para correr atrás de publicação, espero que saia esse ano, e eu possa oferecer a um preço legal.
        Sobre uma continuação, está em meus planos sim, se chamará A Revolução Vulpi e pretendo começar a escrevê-lo em novembro. Tem bastante coisa para contar mesmo… rs. Estou pensando inclusive numa terceira parte.
        Obrigada por me ler, bjinhos.

        Reply
  37. KarolG

    Oie! Boa noite!
    Gostaria de continuar lendo essa incrível história pfv! ^^

    P. S. Quanto custa o Livro? Rsrs

    Reply
    1. Schwinden (Post author)

      Oi Karol! Te mandei os links por email.
      Sobre o livro, ainda não publiquei oficialmente, pretendo correr atrás disso em agosto.
      Obrigada pela leitura!
      Bjos

      Reply
  38. Danielle Pamela

    Hey,gostaria de continuar lendo o restante. Obrigada.

    Reply
  39. Danielle

    Hey, boa noite. Eu gostaria de continuar relendo a tua obra.

    Reply
    1. Schwinden (Post author)

      oi danielle, mandei por email, beijos!

      Reply
  40. Sarah

    Oii! Gostei mto da história e gostaria de continuar lendo, podes me mandar por email? Agradeço desde já

    Reply
    1. Schwinden (Post author)

      oi Sarah, te mandei por email, bjos!

      Reply
  41. kaoz

    Oi , gostei da história gostaria de receber o resto para terminar de ler por favor.
    Abraço.

    Reply
    1. Schwinden (Post author)

      oie! mandei por email. bjos!

      Reply
  42. Ivone

    Estou relendo A lince e a Raposa, gostaria muito de reler a continuação. Por favor me mande por email. Obrigado

    Reply
    1. Schwinden (Post author)

      oie, mandei por email, beijos!

      Reply
  43. dayane souza

    Ola, gostaria de ler o resto da história. Obrigado.

    Reply
    1. Schwinden (Post author)

      mandei por email, beijinhos!

      Reply
  44. Cristiane Schwinden

    oi Andrea, te mandei pelo Facebook. Beijos!

    Reply
  45. Andrea Coelho

    Boa Noite, gostaria de receber o restante, por

    Reply
  46. Karol

    oi pudia mandar o restante da historia obg bjs 😀

    Reply
    1. Schwinden (Post author)

      Enviado por email 😉

      Reply
  47. Juli

    Olá poderia me enviar o resto da história gostaria de continuar lendo . Obrigada

    Reply
    1. Schwinden (Post author)

      Olá Juli! Mandei por email, beijos!

      Reply
  48. Debora

    Gostaria me mandasse o link.

    Reply
    1. Schwinden (Post author)

      Oi Debora! Mandei por email, bjos!

      Reply
  49. andrea

    Ola gostaria de continua a ler sua historia.

    Reply
    1. Schwinden (Post author)

      olá Andrea!
      Te mandei por email, qualquer problema me avisa.
      Beijos e obrigada 😉

      Reply
  50. Tatiane

    Ola Cris!!!
    Naum é mais possivel ter acesso a estoria completa?? Gostaria mto de continuar a leitura!!

    Bjo
    Tati

    Reply
    1. Schwinden (Post author)

      Olá Tati!
      Eu retirei do ar, mas te mandei o link com a senha por e-mail.
      Beijos!

      Reply
  51. Zoraide Guizzardi

    AAi, preciso continuar lendo, rsrs. Obrigada

    Reply
    1. zoraide

      Podem, por favor, me mandar o link da história completa? Obrigada

      Reply
      1. Schwinden (Post author)

        Conseguiu acessar o link que te mandei?

        Reply
  52. Ana

    Bom dia, está acompanhando sua sua história no abcles, gostei muito e adoraria continuar lendo poderia me enviar por e-mail?
    Obrigada.

    Reply
    1. Schwinden (Post author)

      Olá Ana!
      Conseguiu acessar os links corrigidos?
      Beijos!

      Reply
  53. Arilene

    estou amando o romance..por favor envie pra mim para q eu continuar a leitura.

    Reply
    1. Schwinden (Post author)

      Oi Arilene!
      Conseguiu acessar os links?
      Abraços!

      Reply
  54. Débora

    Oi…gostaria de continuar lendo o restante da historia lince e a raposa… Poderia por gentileza me enviar por email
    … Obrigada 😉

    Reply
    1. Schwinden (Post author)

      Links enviados!
      brigada por me ler, bjos!

      Reply
  55. Rosimeire

    Fiquei muito triste por ter tirado sua história
    do ar,pois amei demais seu conto e quero terminar de ler, por isso gostaria muito, muito mesmo que enviasse para o meu email. Ficarei imensamente feliz e agradecida se puder fazê-lo pra mim.

    Reply
    1. Schwinden (Post author)

      Oie Rosi!
      Conseguiu acessar os links que te mandei?
      Beijos!

      Reply
  56. Victoria

    Olá Christiane, acompanhava sua história e gostaria de le-la novamente.

    Grata

    Reply
    1. Schwinden (Post author)

      Tudo ok com os links enviados?

      Reply
  57. Juliana

    Olá, sou eu de novo…se puderes me envie por e-mail está também…estou aguardando sua próximas publicações ansiosamente…abraço

    Reply
    1. Schwinden (Post author)

      Conseguiu acessar os links? Te mandei agora por email os links corrigidos. Abraços!

      Reply
  58. Lexi

    A historia foi removida. Queria tanto continuar a leitura.

    Reply
    1. Schwinden (Post author)

      Oie Lexi!
      Sim, removi para evitar reproduções, mas posso te mandar a história por e-mail, se quiser.
      Abraços!

      Reply
      1. Lilic

        Você removeu de fato por precaução ou já tinha gente copiando sua história sem autorização? o.O

        Reply
        1. Schwinden (Post author)

          Oi Lili!
          Amigos de Aluguel foi utilizada em outro site sem minha autorização, achei melhor evitar esse tipo de coisa tirando do ar aqui e no AbcLes, vou começar em breve a correr atrás de editora para publicar as 2 histórias.
          Bjão!

          Reply
          1. Lilic

            Estou triste em saber que teve problemas com isso. É realmente uma pena. Por outro lado estou feliz em saber que você tem planos de publicar as histórias. Saiba que desejo toda a sorte do mundo!

            Seguindo o raciocínio, isso quer dizer também que você não vai publicar a 2121 aqui no blog e nem no abcles, né?

            Reply
            1. Schwinden (Post author)

              Pois é, achei que nunca me incomodaria com isso, achei mais prudente tirar do ar.
              Mas se alguém quiser reler, eu mando a história por email.
              Sobre o 2121, sinceramente ainda não decidi se vou postar online, talvez eu poste em modo privado, mandando o link para quem quiser ler, mas sem deixar “aberto” para o público em geral. Ainda tô na metade, vou pensar em algo… rs
              Obrigada pelo apoio!
              Bjão!

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  59. Lai

    Que bom,reler o último capítulo,bem delicioso…QUEROOO A TINUACAO!!Bota algoooo aí,necessito ler de verdade,face n ta adiantando mt pra meu nervosismo rsrsrs..mais spoilerrr ,spoiler,spoiler!!!

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    1. Schwinden (Post author)

      olha, um comentário de 2013 não respondido!
      pronto, agora tá respondido.
      pra não passar em branco, vou deixar um spoiler da continuação da lince: começa com uma morte.

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