A Lince e a Raposa

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Sinopse:

Num Estados Unidos devastado pela 3ª guerra, Anna é uma híbrida solitária cumprindo suas missões mercenárias. Jennifer é uma bem humorada humana, tentando defender sua vila dos Titans.

Um acaso acaba unindo-as e surge então uma dupla vivendo grandes aventuras e desafios pelas noites, mas a convivência faz surgir sentimentos e revelando segredos, que podem alterar suas vidas drasticamente.

Boa leitura!

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Capítulo 1 – Invasão

Jennifer acordou de sobressalto após um pesadelo, consultou o relógio de pulso sobre o criado mudo e viu que estava atrasada, era quase oito da manhã. Não iria trabalhar no porto, havia um destino mais nobre naquela manhã. Coçou os olhos ainda sonolenta, prendeu os cabelos de qualquer jeito e seguiu para o banheiro. Vestiu-se rapidamente com sua jaqueta jeans preferida por cima da camisa xadrez azul e preta, calçou as botas, chutou um baldinho de comida japonesa no chão da sala do pequeno apartamento, pegou qualquer coisa na geladeira, e partiu para o alto do seu bairro.

Ao meio-dia as máquinas chegaram à sua rua residencial decadente na cidade de Bridgeport, no sul de Connecticut. Dois guindastes de demolição, um deles ostentando um grande pêndulo, posicionou-se em frente a um conjunto de pequenos prédios cinzentos e visivelmente deteriorados pelo tempo.

Era início de setembro, uma brisa fria soprava e o céu nublado deixava o clima daquela terça-feira ainda mais carregado. Três carros chegaram algum tempo depois, estacionaram quase em sincronia atrás das máquinas. Alguns homens saíram do carro e caminharam em direção às edificações julgadas condenadas.

Eram moradias simples, mas em perfeitas condições de uso, aproximadamente doze famílias habitavam o conjunto, e assim como a maioria dos moradores do bairro, estavam em situação irregular no local.

Quando ouviram as máquinas chegando mais moradores saíram, se juntaram à Jennifer e ao pequeno grupo que estava reunido protestando ao lado de um dos edifícios, onde morava Peter e sua esposa Lisa.

Os homens que haviam descido dos carros eram de uma raça bastante semelhante à dos humanos: os Titans. Eles haviam se revelado ao mundo há apenas cem anos, embora tenham vivido de forma sutil entre membros de todas as classes da sociedade ao longo dos séculos sem serem detectados. Eles eram superiores aos humanos em força, agilidade e explosão muscular, o que lhes permitia vencer grandes distâncias sem muito esforço. Possuíam o poder de regeneração e cura um pouco mais acelerada, entretanto a característica mais invejada pelos humanos, sem dúvidas, era a elevada expectativa de vida, com o envelhecimento num ritmo duas vezes mais lento.

Os Titans que haviam chegado eram homens grandes e corpulentos, trajavam paletós sem gravatas e camisas com os primeiros botões abertos, tinham certo ar de arrogância.

Os moradores que estavam reunidos já esperavam a chegada dos Titans e das máquinas. Eles haviam sido notificados que aquela região seria desapropriada, os prédios seriam demolidos, sem negociação ou diálogo. Tudo agora era de propriedade do grupo miliciano que comandava a região. Eles traziam a notificação e a escritura atestando serem os mandatários daquela área, a intenção era construir ali uma sede nova, um quartel general de onde poderiam coordenar suas ações.

Com os papéis em mãos, se aproximaram caminhando calmamente, olhando ao redor, apenas cautelosos. Alguns seguranças faziam a escolta, logo atrás.

O grupo que fazia oposição a demolição era formado por moradores do bairro, que foram defender o direito destes moradores de permanecerem em suas casas. Realmente não possuíam as escrituras, mas os documentos apresentados pelos Titans não pareciam oficiais.

Jennifer logo tomou a frente e posicionou-se de forma imponente, barrando a passagem da milícia. Logo atrás estava sua melhor amiga Becca, com sua fisionomia de adolescente e cabelos longos com franja, Bob, um magricela de cabelo marrom desarrumado e óculos, além de Sam e Lindsay, que eram irmãs.

Depois da grande guerra, que perdurou por cinco anos, a população dos Estados Unidos foi reduzida a um décimo, havia cidades inteiras devastadas por bombas e ataques. Outras, como Bridgeport, haviam sobrevivido ao bombardeio. Era uma época de escassez de recursos básicos e muitos jovens moravam sozinhos após ficarem órfãos.

Jennifer fazia parte desta estatística, morava sozinha num pequeno quarto e sala num prédio cor de tijolo no fim da rua, na parte baixa da vila. Tinha 22 anos e vivia de pequenos serviços no porto.

— Quem vocês pensam que são? Ninguém é dono destes prédios, nem vocês. Esse pessoal chegou primeiro, tanto lugar desabitado nesta cidade e vocês querem derrubar logo onde tem gente morando? — Jennifer falou alto, com segurança, não era de grande estatura, tinha pouco menos de 1,70cm, mas se portava com vigor e parecia falar com autoridade. Tinha um ar invocado, olhos castanhos e pequenos que conservavam um ar inocente, prendia seu longo cabelo castanho claro num rabo de cavalo, ficando algumas mechas soltas que teimavam em cair sobre seu rosto.

— Escute mocinha, não viemos negociar, sugiro que saiam do local para que ninguém se machuque. — O chefão fez um gesto com a mão chamando uma pessoa atrás dele, falou algo no ouvido e logo em seguida os motoristas das máquinas receberam autorização para avançarem.

O pequeno grupo de Titans recuou enquanto as máquinas avançavam, seguiram para os carros e alguns se recostaram, olhando as máquinas começarem o trabalho. Os moradores dos prédios saíram da frente do maquinário, mas os manifestantes resolveram ficar e tentar evitar a destruição a qualquer custo.

Jennifer chamou Bob e subiram em uma das máquinas, os outros foram para frente do outro monstro de ferro. Antes que ela conseguisse entrar na cabine, sentiu alguém a puxando violentamente pela cintura. Num movimento rápido ela se desvencilhou dos braços do segurança e correu em direção à outra máquina, mas novamente antes de alcançar seu objetivo, foi detida por um brutamonte, que a derrubou no chão com truculência e prendeu suas mãos às costas.

Debateu-se o quanto pode, mas foi prensada ao chão por um segundo segurança que lhe empurrou as costas com o joelho. Ainda no chão ela ergueu a cabeça e viu seus amigos sendo algemados com amarras. Sentiu a terra gelada abaixo do seu corpo, uma raiva visceral percorreu suas veias naquele instante.

Permaneceu assim por mais alguns minutos, um pequeno e velho ônibus amarelo chegou ao local, e assim que ele abriu as portas, ela deduziu qual seria o destino de todos: seriam levados pelos Titans, e numa época onde as leis já não eram respeitadas, sabia que podia esperar pelo pior.

Alguns grupos de Titans possuíam sedes que eram verdadeiros quartéis, as leis que respeitavam era a que eles próprios haviam criado, um regimento interno, apesar de ainda responderem às leis humanas e estarem passíveis das penalizações que elas poderiam ser impostas a todos os cidadãos.

Um a um Jennifer viu todos serem levados pelos braços para dentro do ônibus, enquanto os representantes Titans apenas observavam. O que parecia ser o chefe deles se mantinha no celular, sem se abalar com a situação e com a violência que havia presenciado.

Havia chegado a vez de Jennifer ser levada, ela teve também suas mãos presas com as amarras plásticas transparentes, fora brutalmente arrastada pelo segurança para o ônibus e a jogaram no banco de trás. Após se certificar que todos já estavam no interior, ele desceu e deu dois tapinhas na porta do ônibus, avisando para o motorista que já podia fechar e partir.

O ônibus seguiu pela rua até chegar à rodovia, que cortava a cidade passando por áreas destruídas, plantações e algumas poucas casas.

Jennifer levantou-se do corredor e sentou no banco, todos estavam sentados próximos a ela, assustados se entreolhavam e olhavam para Jennifer, como se esperando alguma solução, um ato salvador.

— Não fizemos nada de tão grave, será que estão nos levando para as prisões clandestinas? Ouvi falar que eles têm verdadeiros calabouços… — Lisa falou temerosa.

— Agora estamos ferrados… — Sam balançou a cabeça. O silêncio se instaurou por um momento.

— Nós vamos sair daqui, vamos pensar em algo. — Jennifer irrompeu o silêncio, olhando para os lados procurando ideias.

O motorista do pequeno ônibus, que um dia havia sido um comboio escolar, era um senhor de cabelos grisalhos, magro, não era um Titan. Apenas um dos seguranças havia seguido junto com o ônibus, ele permanecia ao lado do motorista, apoiando o pé esquerdo na tampa do motor, olhava de soslaio de vez em quando para trás e seguia conversando com o condutor.

Alguns minutos se passaram enquanto Jennifer bolava um plano para fugirem das mãos dos Titans. Se inclinou na direção dos amigos e falou em voz baixa, calmamente:

— Estamos em maior número, temos que usar esta vantagem, eu tenho um plano, mas para isso todos precisam estar seguros do que vamos fazer, não teremos uma segunda chance.

— E qual é o plano? — Indagou Bob.

—  Não olhem agora, mas eu guardo um punhal dentro da minha bota, eu vou usá-lo contra o grandalhão, preciso que vocês dois me ajudem com ele, vocês meninas vão pra cima do motorista e tentem assumir o volante quando neutralizarmos o segurança.

— Mas… Você vai matar o segurança?

— Becca, não faça perguntas difíceis.

— Ok, você vai dar o sinal para atacarmos, não é? — Sam perguntou, assustada.

— Sim. Virem-se para frente, sentem-se normalmente, disfarcem. Vou avisar quando for a hora. Eu vou na frente, Bob e Peter em seguida, depois vocês seguem atrás de Peter.

Jennifer estudou o comportamento do segurança, tirou o punhal atrás do banco e cortou suas amarras, discretamente cortou dos companheiros também. Esperou o segurança se virar para trás para vigiá-los, como estava fazendo de tempos em tempos, assim que voltou a olhar para frente, deu o sinal.

— Agora. — Falou baixinho, gesticulando para frente.

Jennifer correu para frente, ergueu o punhal firmemente e tentou feri-lo na perna, ele reagiu e não deixou outra opção a não ser acertá-lo em algum lugar mais crítico. Desvencilhou dos braços do segurança e cravou-lhe no abdome, os rapazes o derrubaram para cima do motorista, que perdeu o controle do ônibus. Desgovernado, o veículo seguiu acelerado até sair da estrada, capotando num declive e girando uma vez ao redor do seu próprio eixo.

Com o ônibus já parado, Jennifer levantou-se com dificuldade afastando alguns cacos dos vidros, se certificou que o segurança não era mais uma ameaça, estava desacordado. Seu grupo parecia atordoado, movendo-se lentamente, assimilando o que acontecera.

— Vão dormir aqui? Todo mundo saindo pelas janelas quebradas! Eu vou checar nossos amiguinhos.

Enquanto os outros saiam do ônibus, Jennifer pegou a arma do segurança e fixou em seu cós. Recuperou o punhal cravado e guardou novamente na bota, com as amarras que retirou do seu bolso o amarrou por precaução. Após prender também o motorista ao volante, abandonou o local rapidamente.

— E agora, vamos pra onde? Não tem nada aqui, não vejo nenhuma casa! — Desesperou-se Lindsay.

— Estamos no meio do nada… — Peter falou olhando em volta, tinha um pequeno corte na cabeça.

— Vocês estão bem? Alguém se machucou? — Questionou Jennifer.

Percebendo que todos estavam estáticos, em choque.

— Parem de se preocupar com onde nós estamos por enquanto. Quero que vocês procurem por algum ferimento, e então seguiremos.  Continuou.

Alguns hematomas, pequenos arranhões e cortes puderam ser vistos na maioria.

— Acho que quebrei meu braço… — Lisa mostrou o braço, com um semblante dolorido.

— Aguente firme, vamos achar algo para imobilizar, logo estaremos em casa e tudo vai ficar bem. — Tranquilizou seu marido, Peter.

— Peter, você bateu a cabeça? Não podemos voltar pra casa agora, os filhos da mãe estão lá, e já devem estar nos procurando. Vamos nessa direção. — Jennifer apontou para frente, nem para um lado nem para outro da estrada.

— O que tem pra lá?

— Não sei, mas tem a praia. Seguiremos na direção do litoral, sempre tem casas por lá e podemos achar alguma não habitada para ficarmos até a poeira baixar. E vamos imobilizar seu braço assim que possível, tá bom, Lisa?

Lisa acenou positivamente com a cabeça.

***

No mundo inteiro, principalmente na América, havia inúmeras casas destruídas ou inabitadas, após os ataques do chamado Eixo do mal, alcunha dada por George Bush ao conjunto de países contrários aos Estados Unidos e seus aliados. Esse conglomerado era liderado por alguns países do oriente médio e asiáticos, alguns deles com programas nucleares avançados.

Os ataques e bombardeios, que inicialmente eram perpetrados a distância, passaram a acontecer em solo americano e na maior parte dos países europeus, atingindo em menor proporção os países da África, América Central e do Sul. Os danos foram imensuráveis para ambos os lados, os governos foram se enfraquecendo, comunicação e tecnologia se tornaram cada vez mais precários, os maiores alvos foram as indústrias, torres de comunicação e bases militares, em todos os continentes. As temidas bombas atômicas fizeram os maiores estragos.

Na atual conjuntura, o governo convencional agora é chamado de governo dos humanos pelos Titans, que não se sentiam mais representados por estes governantes e suas leis. Passados pouco mais de dois anos após o fim da terceira guerra, as prioridades de reconstrução nos tempos atuais eram para prover serviços básicos como água, energia e alimentação. Eram tempos difíceis, mas de esperança.

***

O grupo de sete pessoas seguia campo adentro em direção ao litoral. Após caminhar alguns minutos por um campo que parecia já ter sido uma plantação, avistaram uma grande casa de dois andares, escura, próxima à praia, ficava uns dois metros acima do nível do mar. A propriedade era rodeada por uma cerca de grades de ferro, escurecidas pelo tempo. A medida que se aproximavam, procuravam por algum sinal de moradores, a casa parecia antiga, mas possuía todas as portas e janelas em bom estado, que era um sinal que não estava abandonada.

— Será que alguém mora aí? — Perguntou Becca.

— Saberemos em alguns segundos… — Jennifer sacou a arma, abriu a porta da frente devagar, cautelosa, espiou para dentro com a arma em riste. Lentamente olhou em todas as direções até se certificar que não havia ninguém por ali.

— Hey pessoal! Tudo limpo! Vamos entrar, mas fiquem alertas. — Preveniu.

A casa tinha uma sala ampla logo na entrada, com sofás e lareira, iluminada por grandes janelões no alto. Do outro lado havia uma escada, um corredor e dois pilares cinzas, largos. Parecia habitada, porém ninguém foi visto ou percebido naquele momento.

Jennifer andou a passos lentos na direção das escadas, olhando ao redor. Aproximava-se de uma das pilastras, quando foi surpreendida por alguém que a segurou pelo punho, travando seu braço que empunhava a arma. Logo recebeu uma forte gravata por trás, não conseguiu identificar quem a detivera.

— Solte a arma. — Ordenou a pessoa que a imobilizou, falando diretamente no seu ouvido. Deram alguns passos lentos para frente, na direção da claridade e dos outros membros do grupo. Neste momento já tinha a atenção de todos, que olhavam assustados aquela mulher com Jennifer em seu poder.

— Já… Soltei. Já soltei! — Jennifer abriu a mão esticando os dedos, largando assim a arma no chão.

— Só estamos procurando abrigo, não queremos fazer mal a ninguém! — Bradou Becca, amedrontada. O restante do grupo olhava perplexo.

— É… Verdade… Pode me… Soltar. — Jennifer falava com dificuldade, puxando com as duas mãos o braço que a sufocava, numa tentativa de livrar-se dele. Já havia percebido que era uma mulher que a segurava.

— Não temos outras armas, nos reviste se quiser… Não somos pilhadores, nem bandidos! — Bob, assim como os demais, permanecia próximo a porta de entrada, acuado.

Num gesto brusco a mulher soltou Jennifer, que virou-se rapidamente. Deu alguns passos trépidos para trás, com as mãos no pescoço, buscando ar.

Conseguiu enfim ver a pessoa que a havia imobilizado, aparentava ser uma Titan ou uma híbrida, o cruzamento de humanos e Titans. Era uma mulher alta, cabelos negros na altura dos ombros, olhos azuis gélidos e um semblante permanentemente sério.

Ela abaixou-se rapidamente, mantendo o olhar neles, recolheu a arma caída no chão e apontou para o grupo.

— O que vocês querem aqui? — Falou de forma calma, porém ríspida. Sua voz tinha um timbre suave, baixo.

— Nós estamos meio que perdidos… Na verdade precisamos nos esconder ou fugir. A sua casa foi a única que avistamos por aqui. — Jennifer franziu a testa. — Fala sério, abaixe essa arma, realmente parecemos ameaças?

Ela hesitou um pouco, mas acabou baixando a arma. Aproximou-se, olhando para todos, percebeu que não pareciam de fato ameaças, nem bandidos.

— Estão fugindo de quem? — Perguntou voltando o olhar para Jennifer.

— Irritamos alguns Titans, aqueles porcos milicianos. Eles nos levavam para algum lugar pela rodovia quando conseguimos fugir. Acho que matei um deles… E aqui estamos, procurando um lugar seguro. — Ela respondeu.

— Vocês mataram um miliciano? Sabem que isso não vai ficar assim barato. Eles virão atrás de vocês, não tem a menor compaixão com os humanos que os perturbam.

— Você é um deles?

— Titan? Não, sou uma híbrida, estou neutra na batalha de vocês.

— Mas não pode nos ajudar? Pelo menos nos dê alguma orientação do que fazer, você os conhece melhor que nós.

— Ficar aqui seria suicídio.

— Por quê?

— Vocês realmente não sabem o que acontece com quem comete alguma infração grave com eles? Vão mandar gárgulas para dar um jeito em vocês.

— Achava que isso era uma lenda…

— Acredite, assim que descobrirem o que vocês fizeram, mandarão as gárgulas… — Olhou por cima contando quantos eram.

— Vocês estão em sete, provavelmente mandarão dois ou três. Conheço o regimento das milícias de Titans. Eles não respeitam as leis humanas, mas mesmo assim temem a justiça de vocês, por isso usam gárgulas para o trabalho sujo.

— Fugir é nossa única opção então?

— Se eu abrigá-los ficarão encurralados aqui dentro, não terão chances contra três gárgulas ao mesmo tempo, mas talvez se fugirem eles não os alcancem, e se alcançarem, talvez seja um por vez.

— E quem nos garante que é isso mesmo que vai acontecer? — Peter parecia indignado. — Ela pode estar falando isso só para livrar-se de nós!

Ela caminhou rápido na direção de Peter.

— Escute garoto, você não está em posição de fazer escolhas. — Fez uma pausa e continuou num tom mais piedoso. — Não, não estou tentando me livrar de vocês, apesar de ser o mais sensato a fazer nesse momento.

— Desculpe… Estamos desesperados, sei que invadimos sua casa e… — Jennifer falou como se pedindo desculpas por Peter, se aproximando dela.

A mulher com ar misterioso e olhar forte observou todos com certa impaciência, e voltou a se dirigir a Jennifer.

— Tem um trilho de trem há uns dois quilômetros a oeste daqui, costuma passar um comboio de carga no início da tarde, seguindo para o nordeste. Vocês podem caminhar até lá e subir em algum vagão, pelo menos estarão se distanciando. É a melhor chance no momento.

— O caminho é pela mata? Basta seguirmos numa linha reta para o oeste que encontraremos os trilhos? Tem alguma trilha até lá? — Questionou Jennifer, preocupada e confusa. Ela se agarrava ao único fio de esperança que parecia surgir naquele momento, enquanto sua interlocutora a olhava como se procurando a melhor decisão.

— Ok… Eu os levo até lá, senão é bem provável que se percam e… Bom, eu vou pegar meu casaco.

Ela subiu as escadas e voltou terminando de vestir um casaco preto, que ia até a altura dos joelhos. Calça, suéter de poliéster e botas pretas completavam a sobriedade do seu visual. Jennifer se postava na porta, vigiando a entrada

— Desculpe pela invasão, e por abusar da sua bondade. — Disse Jennifer, quando ela se aproximou.

A observou por um instante, era apenas uma garota qualquer à porta da sua casa, mas era suficiente intrigante para ter toda sua atenção.

— Não é má vontade minha em não abrigar vocês aqui. Seria uma carnificina, acredite, e não tenho um carro para levá-los para longe. — Ela também se recostou no batente da porta. — Tome, vai precisar dela. — Falou devolvendo-lhe a arma.

Jennifer pegou a arma e sorriu de leve. — Acho que nem sei usar…

— Já está destravada, basta puxar essa parte aqui de cima para trás, está vendo?

— É… Parece fácil, o que não é uma coisa boa em se tratando de uma arma em minhas mãos. A propósito, meu nome é Jennifer, prazer. — Falou esticando a mão, num tom amistoso.

— Anna. — Hesitou um pouco e correspondeu ao aperto de mão, olhando Jennifer nos olhos.

E foi assim que sua guarda começou a baixar.

Jennifer voltou a guardar a arma no cós da calça. Saíram pela vegetação baixa, caminhando a passos rápidos, enquanto improvisavam uma tala no braço de Lisa.

Já passava das duas da tarde quando chegaram até os trilhos, tentavam enxergar no horizonte algum sinal da locomotiva. Anna gesticulou para que não se movessem, olhando para o alto, atenta.

— Uma gárgula, estão vendo? Lá daquele lado, está vindo na nossa direção, permaneçam próximos uns dos outros! — Ordenou Anna, tirando dois punhais do casaco, empunhando um em cada mão.

— Meu Deus, e agora? Como vamos matar isso? — Lisa se desesperava.

As gárgulas eram uma raça humanóide usada pelos Titans como seus animais de caça. Eram comumente chamados de dragões dos ares por serem alados e possuírem pele rochosa cinzenta como grandes lagartos de pedra. Podiam usar suas asas para planar ou voar, mas a utilização mais mortal era como lanças afiadas durante seus ataques.

A gárgula se aproximou do grupo num voo lento, circular, até finalmente pousar em terra firme. Jennifer sacou a arma e disparou repetidamente contra a criatura, que parecia não se ferir com as balas.

— Jennifer, não adianta! Vá para junto dos outros! — Anna o rodeava em posição de ataque, tentou uma aproximação repentina para desferir um golpe, mas a gárgula a arremessou para trás com a asa, como num tapa, abrindo-lhe um corte no supercílio.

A gárgula caminhou na direção do grupo. Ao ver a cena, Jennifer adiantou-se e se colocou entre a criatura e seus amigos, agora com seu punhal ensanguentado nas mãos, já que não havia mais balas na pistola.

— Volte para a porra do lugar de onde você saiu, seu miserável! — Jennifer a encarava, havia parado seu movimento com a investida dela. — Venha, eu vou enfiar isso aqui no seu coração!

A gárgula aproximou-se e rapidamente a segurou pelo pescoço, a erguendo do chão com uma mão apenas.

— Solta ela! Solta ela! — Gritou Becca, que permanecia abraçada com os outros, assistindo tudo em pânico.

A gárgula arremessou Jennifer, a fazendo cair longe, de costas. Anna aproveitou a distração para se aproximar por trás, cravando a adaga com a mão esquerda no pescoço de pedra da fera, que soltou um ganido estridente. Após cambalear com as mãos no ferimento, caiu inerte.

Anna se aproximou devagar, mexeu no corpo com um pé para se certificar que estava morto, abaixou-se e retirou sua faca, guardando novamente dentro do casaco.

— Morreu? — Becca olhou receosa o corpo no chão. Anna assentiu com a cabeça.

— Você está bem? — Anna se aproximou de Jennifer, a tocando no braço.

— Estou viva, o placar ainda está a nosso favor.

Todos continuavam olhando incrédulos a criatura que jazia no chão, Anna voltou a perscrutar os céus.

— Como pode não ter morrido com meus trezentos tiros? — Questionou Jennifer, exagerando.

— Você já viu como é a pele dela? Balas não perfuram essa carapaça, não essas balas comuns. — Explicava Anna, pacientemente.

— Mas adagas sim?

— Não é questão de tipo de arma, eles possuem uma região vulnerável, onde a pele é menos espessa: o pescoço. Então se você atinge a coluna vertebral dele, seja com uma adaga cravada a fundo ou um tiro certeiro, tem grandes chances de acabar com ele.

— Agora que você me diz isso…

— Vamos esperar o trem de carga, e torcer para não aparecer outro desses tão cedo. — Anna orientou.

Depois de aproximadamente trinta minutos o barulho do trem se aproximando pode enfim ser ouvido. Todos se levantaram do chão onde estavam sentados, ao lado dos trilhos.

— Vamos para trás daquelas árvores, para que não nos vejam e deduzam o real objetivo de ter um grupo de pessoas observando um trem passando. — Jennifer apontou para algumas árvores baixas, com poucas folhas.

Ela percebeu Anna parada ao seu lado, parecendo indecisa. Anna a encarou, sentindo que Jennifer esperava uma resposta sobre o que ela faria a seguir, se os deixaria ali ou seguiria a viagem com eles. Começou a falar, com um semblante piedoso.

— Garota, você até que me pareceu bem valente, mas acho que não vai ser suficiente diante de mais gárgulas…

— Você vai conosco?? — Assemelhava-se mais com um pedido desesperado de Jennifer do que com uma pergunta.

— E eu tenho opção? Não vou conseguir colocar minha cabeça no travesseiro a noite sabendo que provavelmente vocês estarão… Sei lá… Mortos.

— Ou morando no Canadá. — Jennifer completou, sorrindo tentando quebrar a tensão que pairava no ar.

Quando o trem passou, todos esperaram os vagões do final do comboio e subiram um a um, ajudados pelos que já haviam conseguido subir. Os vagões da frente levavam contêineres metálicos, enquanto que os do fundo eram de madeira.

O vagão onde todos já se acomodavam estava carregado de sacas de açúcar, formando pilhas de aproximadamente um metro de altura. Todos subiram nas pilhas e se recostaram nas paredes. Eles pareciam assustados e cansados. Anna procurou a maior fresta e observou o céu por alguns instantes, repetia o gesto de tempos em tempos. Sempre que voltava, sentava ao lado de Jennifer, que estava próximo a parede do fundo, segurando as pernas, com os joelhos junto ao rosto.

— Tudo limpo por enquanto? — Jennifer desenterrou o rosto dos joelhos e perguntou, virando-se para ela.

— Por enquanto… — Anna respondeu inquieta. Abriu o casaco, certificou-se que suas adagas estavam lá.

— Você machucou a testa.

— O que? — Anna virou-se na direção dela.

— Tem um corte aí no seu supercílio, não tem? — Falou passando a mão de leve em cima do corte.

Anna levou a mão ao rosto, olhou a palma da sua mão, que se manchou de sangue.

— Não foi nada. — Respondeu sisudamente.

— Os híbridos também se curam mais rápido, como os Titans?

— Alguns…

— É o seu caso?

— Sim. — Respondeu em seco.

— Muito mais rápido que os humanos? — Jennifer insistia no assunto.

— Mais ou menos… Mais rápidos que os humanos, mas não tão rápidos quanto um Titan.

Anna percebeu que era seria inevitável fugir da curiosidade de Jennifer, espojou-se, procurando uma posição mais confortável no patamar de sacas. Alguns minutos de silêncio se instauraram, Jennifer voltou a falar, olhando pensativa para frente agora.

— Tinha um híbrido na minha turma na escola, acho que nos primeiros anos… Não lembro. Enfim, acho que foi o único que tive contato direto, vocês não gostam muito de se misturar, né? — Falava enquanto mexia em suas pulseirinhas multicoloridas.

— Não sei… É o mais conveniente, eu acho. — Anna titubeou na resposta.

— Nunca fui muito com a cara dos Titans, mas sempre achei interessantes os híbridos. Vocês podem andar nos dois lados, tem características de ambos e…

— Em nenhum dos lados. — Anna a interrompeu rispidamente.

— Como assim?

— Vivemos a margem da sociedade, seja a dos humanos ou a dos Titans, nenhum deles nos veem como seu semelhante, e então acabamos não sendo nem uma coisa nem outra.

— É… Eu nunca havia enxergado por esse lado…

Novamente ficaram em silêncio, pensativas.

— Qual o plano? — Virou-se para Anna.

— Dos híbridos?

— Não, para hoje. Mas os híbridos têm algum plano de dominação mundial? — Jennifer perguntou com curiosidade.

— Claro que não. Sobre hoje, nós vamos seguir até o final da linha, esperando pelas gárgulas.

— Esperar?

— Tem algum plano melhor?

Jennifer balançou a cabeça devagar, negativamente. Anna levantou e foi olhar pela greta.

— Oh não… Lá vem outro… — Anna murmurou. Jennifer levantou-se rapidamente e foi olhar pela abertura também. Ainda estava distante, mas vinha na direção deles num voo alto.

— Não tenho mais balas, mas ainda tenho meu punhal, e agora já sei onde enfiá-los. Estou pronta.

Anna não respondeu, continuava olhando fixamente para o céu. Todos perceberam o que estava acontecendo e levantaram-se também.

— Eu vou tentar levá-lo para outro lugar, para que não ataquem vocês. Vou chamar a atenção dela de cima de algum vagão mais à frente, vocês permaneçam aqui, sem maiores movimentações. — Anna explicava, didaticamente.

— Eu também vou! — Jennifer olhou fixamente para Anna, com tanta certeza no tom da voz que ela não teria como impedi-la.

— Tá bom, mas apenas me ajude a despistá-lo, entendeu?

Saindo do vagão havia uma escada de marinheiro, que levava ao topo do comboio. Subiram e pularam ao vagão da frente, esforçando-se para manter o equilíbrio. Não havia muito vento, mas o sacolejo do trem era traiçoeiro.

Então o temido ser alado deu seu último voo rasante, chegando até elas.

— Atrás de mim, Jennifer! Vá para trás! — Vociferou.

Anna já empunhava suas duas adagas em posição de ataque, sem tirar os olhos do seu alvo e com determinação inabalável, movendo-se devagar de um lado para outro, como um boxeador procurando o momento certo de encaixar seu melhor golpe.

Ela fez o primeiro ataque, pela esquerda, mas a criatura se desvencilhou, deixando o golpe passar no vazio, aproveitando o movimento para segurar seu braço esquerdo.

Tentou um golpe com a direita, mas ela também a segurou pelo punho, ainda no alto. Ela estava agora sem defesas, com as duas mãos presas. A gárgula a encarou, com um semblante raivoso, e passou a forçá-la para baixo e para trás, Anna resistiu o quanto pode, forçando na direção contrária e lutando para se manter de pé, mas lentamente abaixou-se, curvando os joelhos, até cair finalmente de costas. Jennifer se aproximava desesperada, ensaiava alguma reação, mas recuava.

A gárgula bateu seguidamente a mão esquerda dela contra o teto do vagão, o dorso da sua mão já sangrava com o atrito da madeira, a fazendo por fim soltar a adaga. Jennifer decidiu que era hora de entrar em ação e correu na direção deles, com um movimento rápido a criatura soltou um dos punhos de Anna e derrubou Jennifer também, atingindo-a na altura do peito com um golpe forte.

Anna aproveitou seu braço solto e a momentânea distração da gárgula para erguer-se de pé novamente, passando a adaga que restou da mão direita para a esquerda, e a golpeou no braço forçando a criatura a soltar sua outra mão, enquanto Jennifer ainda atordoada e caída no chão, arrastava-se de costas. A criatura perseguiu lentamente Anna, que dava passos para trás no mesmo ritmo que ela avançava. Anna desesperadamente tentou desferir golpes na altura do pescoço, mas a lâmina passou apenas próxima à sua garganta.

Num sobressalto a criatura a segurou pelo pescoço com ambas as mãos. Certo do domínio de sua presa, a gárgula encarou Anna apertando cada vez mais, quando se ouviu o barulho de uma grande asa de morcego abrindo-se. A besta armara suas asas expondo extremidades pontiagudas prontas para o ataque. Anna continuava presa, com dificuldade para respirar, debatendo-se e tentando desprender as mãos dela do seu pescoço. Foi tomada pelo pânico quando percebeu o que estaria prestes a acontecer, ninguém é páreo para um ataque tão letal.

Num golpe desajeitado, Jennifer com sua adaga em punho a fincou no pescoço da gárgula, o máximo que conseguiu. Instantaneamente emitindo uivos, a criatura soltou Anna. Arrancou a adaga de seu pescoço e cravou em Jennifer abaixo do ombro direito, fazendo-a novamente cair de costas. Após seu último reflexo, ela desabou ao chão, com as mãos e dedos em forma de garras envolvendo o próprio pescoço, sangrando e debatendo-se, até finalmente não mais se mover.

Anna olhava o ser sucumbindo no chão, pasmada. Após certificar-se que já não era mais uma ameaça, correu para socorrer Jennifer, ainda caída, que se apoiava no chão com os cotovelos. Com os olhos arregalados fitou Anna, que correspondeu o olhar, assentindo que o perigo havia terminado. Jennifer sentou-se, e arrancou a faca do seu ombro com dificuldade e um berro de dor, franzindo o cenho.

— Você está bem?! — Anna abaixou-se ao seu lado e colocou a mão em cima do ferimento, uma abertura na jaqueta, que começava a tingir-se de vermelho.

— Sei lá! Mas essa coisa está morta não está? Chuta para ter certeza!

— Tá morto, fica tranquila. — Anna voltou à gárgula e a chutou para fora do vagão, fazendo com que o corpo rolasse pela terra que ficava para trás, levantando poeira.

Anna ajudou Jennifer a levantar-se e a conduziu até a extremidade do vagão.

— Anda, vamos voltar para o vagão, eles devem estar apavorados.

— Eles apavorados?? Eu estou apavorada! E furada! — Jennifer guardou seu punhal de volta em sua bota, emparelhou-se com Anna na beira do vagão.

— Uma pessoa apavorada não consegue matar uma gárgula. — Anna falou olhando para Jennifer. — Vamos, pule, vou logo atrás. — Anna passou seu braço na cintura de Jennifer e a ajudou a passar para o outro vagão, num pulo duplo com facilidade.

Voltaram de encontro aos outros, que estavam de pé reunidos próximos a porta do vagão. Jennifer entrou eufórica, mas com semblante de dor.

— Essa já era, pessoal! — Comemorava.

— O que aconteceu com você? E esse sangue? — Becca perguntou.

— Mataram aquele bicho do inferno? — Bob perguntou, olhando para Anna.

Anna passou por eles e já se sentava lentamente num monte de sacas, quando percebeu que a pergunta era direcionada a ela ergueu a cabeça e apontou para Jennifer.

— Eu não, a heroína aqui é ela. Jennifer matou aquela coisa sozinha. — Falou orgulhosa.

A atenção então se voltou a Jennifer e todos entusiasmados a questionavam como havia matado a gárgula.

— Na verdade Anna fez o serviço pesado, eu só cravei uma faca no pescoço daquela coisa, ela ainda teve tempo de se vingar na mesma moeda, aquele bicho desgraçado… — Jennifer contava, por fim apontando para o ferimento abaixo do ombro, onde já havia um círculo escarlate. Becca aproximou-se e olhou de perto o local onde Jennifer agora pressionava sua mão esquerda.

— Você levou uma facada aí? — Perguntou assustada.

— Foi o presentinho de despedida dela… — Jennifer respondeu com ironia. — Porra, isso tá doendo muito.

— Que horror! Quer que eu dê uma olhada nisso?

— Você tem um kit de primeiros socorros aí no bolso? – Jennifer deu um meio sorriso. — Vamos focar nessas bestas chatas, talvez ainda falte uma, vamos ficar de olho, é questão de tempo para aquela coisa infernal rondar nosso vagão, não é?

Jennifer falou olhando para Anna, como um questionamento. Anna apenas assentiu com a cabeça.

Voltaram então para a rotina de levantar e ir olhar os ares, de tempos em tempos. Já passava das cinco da tarde e a apreensão aumentava à medida que o tempo passava. Novamente Jennifer sentada ao lado de Anna, conversava e revezavam a vigília entre as frestas e a porta.

— Está muito ruim? — Anna olhou para o ombro de Jennifer.

— Essa porcaria está latejando. Mas pressinto novas aventuras em breve, então estou tentando não dar muita atenção para isso agora. É como dizem, o que os olhos não veem, o coração não sente. Estou evitando olhar… Não olhe também.

— Mas se você estiver perdendo sangue com esse corte, pode te deixar em apuros em breve, muito em breve. — Anna parecia preocupada, percebeu que Jennifer estava assustada e um pouco mais pálida que o normal.

— Uma coisa de cada vez. Vamos colocar nosso terceiro amiguinho para dormir, depois eu vejo isso. — Voltaram a ficar em silêncio por alguns segundos.

— Ok, mas depois vou dar uma olhada nessa ferida.

— Se fosse em você, já estaria cicatrizando? — Jennifer perguntou, instigada por sua curiosidade natural.

— Não. — Respondeu rapidamente, mas depois continuou:  — Também não é assim milagroso. — Anna procurava as palavras olhando para o chão. Ela não estava acostumada a ser questionada sobre quem era, isso era algo que sempre a deixava desconfortável. Mas estava achando estranho não se sentir desta forma com as perguntas de Jennifer, no fundo sentia algo até confortável em conversar com aquela garota tão cheia de energia e perguntas.

Anna morava sozinha naquele casarão já há algum tempo, desde que seu pai havia morrido. Seu irmão, Andrew, que era alguns anos mais novo, havia saído de casa durante a guerra. Simplesmente colocou uma mochila nas costas, disse que desbravaria o mundo e nunca mais voltou.

— Digamos que as defesas do meu organismo sejam mais rápidas e eficazes que as suas. Eu, a essa altura, já teria parado de sangrar, e provavelmente eu não teria infecção.

— Mas eu terei infecção??

— Sim. Quer dizer… Não! Talvez… Mas não estou dizendo que você terá uma infecção agora, pelo menos espero que não. Não tenha, ok? Daria muito trabalho para nós.

— Ok…Vou fazer o possível… E seus pais, quem é Titan, e quem é humano?

— Garota, acho que é sua vez de olhar lá fora. — Anna encerrou a conversa, abaixando sua cortina e dando como encerrado o espetáculo.

Anna perdeu primeiro sua mãe, uma bela Titan de cabelos longos e negros, num acidente de carro há quase vinte anos. Seu pai, humano, morreu num ataque cardíaco fulminante, tempos depois. Anna havia passado toda a guerra sozinha, se protegendo como podia no seu casarão a beira do oceano. Havia perdido a conta de quantos invasores colocara para correr ou eliminado. Aparentava trinta anos, mas por conta de parte da sua genética Titan, sua idade real era maior.

— É… Minha vez. — Jennifer levantou-se, apoiando-se no ombro de Anna, e foi verificar os céus. Semicerrou os olhos e teve então certeza que lá vinha a terceira e última gárgula. Virou-se rapidamente na direção de Anna.

— Ferrou. — Sussurrou, com seu linguajar despojado. Anna entendeu a mensagem e prontamente levantou-se. Os outros perceberam e levantaram também.

— Quer que eu vá com você, Jenny? — Perguntou Becca.

— Anna não vai deixar. Não é, Anna? — Jennifer olhou para Anna sacudindo de forma rápida e discreta a cabeça negativamente, franzindo a testa, como se pedindo para Anna corroborar com sua afirmação e não deixá-la acompanhar.

— É muito perigoso, Becca, fique aqui cuidando da porta. — Anna confirmou.

Jennifer se aproximou de Anna, falou de forma pontual, fazendo o planejamento da próxima aventura.

— O segundo vagão depois desse, está com menos madeira nas paredes, ou seja, tem frestas maiores.

— Bem observado. E?

— Acompanhe meu raciocínio: é perigoso para nós lutarmos em cima do vagão, acho que deu para perceber, né? Quase despenquei de lá umas cinco vezes… Acho mais seguro enfrentarmos dentro, por isso a dois vagões daqui seria o lugar ideal, temos maior visão do que acontece do lado de fora, poderíamos esperá-lo lá dentro.

Anna parecia hesitar. Jennifer continuou:

— Vamos atraí-lo para aquele vagão e esperar lá dentro, com facas em punho… E, bom, o final do filme você já sabe como é. — Insistia.

— Ok, mas novamente você fica na minha retaguarda, me deixe atacá-lo, entendido?

— Totalmente. — Jennifer fez um sinal com o braço apontando a porta, gentilmente. — Primeiro os mais velhos. —  Sorriu.

Subiram no vagão e olharam ao mesmo tempo para a gárgula no céu, que veio rapidamente ao seu encontro assim que as avistou.

— Corra para o vagão que você falou! — Ordenou Anna. Jennifer não entendeu a ordem, porque Anna continuava parada olhando para o alto, mas mesmo assim obedeceu e correu em direção ao segundo vagão à frente.

Jennifer disparou sem olhar para trás, entrou no vagão e foi logo para a parede dos fundos olhar pela fresta tentando enxergar se Anna estava vindo também. Mas não a enxergou. Percebeu que Anna havia ficado lá em cima e decidido lutar sozinha.

Depois de alguns segundos ela enfim viu Anna correndo desesperadamente, despontando em cima do seu vagão.

— Anna! Corra! Venha para dentro!

Mas antes que finalizasse a frase uma imagem aterrorizante se seguiu: Anna desistiu de pular, virou-se para trás com a adaga em punho, Jennifer viu a gárgula num voo rasante, como um falcão que mergulha para pegar sua presa em solo, agarrar Anna pelos ombros, erguendo-a bruscamente e então carregando-a.

A garota ficou paralisada em pé no meio do vagão, imaginando que o pior havia acontecido. Sustentava os olhos arregalados, sem acreditar na cena que havia acabado de assistir.

— Meu… Deus… Ferrou tudo. — Falava para si, incrédula.

Um estrondo no teto do vagão a tirou daquele estado anérgico. Olhou para cima e então correu para a porta, subiu rapidamente a escada, parou nos últimos degraus e deu uma boa olhada para todos os lados, olhou para cima, mas não viu nada nem ninguém, continuava sem saber o que havia acontecido, eles simplesmente haviam sumido.

Tomou um susto quando Anna apareceu de súbito na lateral da escada, agarrando-se ao corrimão da mesma, quase sem fôlego.

— Santo Cristo, mulher! Você está viva?! — Jennifer explodiu, num misto de surpresa e alegria.

— O que você acha? — Anna respondeu, erguendo a mão num gesto de impaciência.

Jennifer apenas sorriu.

— Podemos entrar? — Anna continuou. Seu rosto tinha arranhões na testa e abaixo do olho.

Jennifer entrou no vagão, assim que Anna entrou a abraçou aliviada. Ela era uma mulher alta e de postura ereta, e mesmo Jennifer sendo menor, encaixaram-se. A exultante humana passou seus braços por baixo dos braços dela e a segurou firme com as mãos espalmadas em suas costas. Anna parecia não entender direito a situação, mas acabou erguendo suas mãos e retribuindo o abraço, meio confusa.

Jennifer a soltou, lhe fitou ainda assustada, não acreditando que tivesse se safado daquela enrascada. Com uma mão tateou os ombros dela, havia no casaco as marcas das entradas das garras da gárgula, e então esbravejou:

— Puta que o pariu, você quase me matou de susto! Por alguns instantes eu achei que você tinha morrido!

Anna ainda levou alguns segundos para se recompor, mudou totalmente suas feições, passando de séria para uma mais descontraída.

— Bom, desculpe, não foi minha intenção preocupá-la, mas eu estava ocupada tentando matar aquela coisa, não deu tempo de avisar que eu estava viva.

— E conseguiu matar?

— Estou aqui, não estou? Ela já era.

— Eu vi quando ela prendeu você com as garras e te carregou! Eu pensei ‘pronto, levou embora e vai fazer um banquete com ela!’ Como você conseguiu?

— Fiz o mesmo que você, cravei minha lâmina no pescoço dela.

— No ar??

— Sim, no ar. Eu sabia que provavelmente não desceria dali viva se não fizesse algo radical, então… Tive que arriscar.

— E o que aconteceu?

— Caímos.

— Eu escutei o barulho… Céus, vocês lutaram no ar? Eu vou contar esse dia para meus netos e eles não vão acreditar em uma só palavra…

— E então… Vamos voltar para o vagão?

Retornaram rapidamente para o vagão onde se encontrava o restante do pessoal, Jennifer entrou na frente, comemorando.

— Acabou pessoal! A última gárgula virou lixo abandonado ao longo da via!

— Também matou esse, Jenny? — Perguntou Bob. Todos fizeram gestos positivos e pronunciaram palavras de alívio. Sam e Lindsay, as irmãs, se abraçaram.

— Não, não, foi nossa amiga aqui… E numa cena cinematográfica! — Jennifer falava efusivamente, colocando o braço em volta de Anna, como camaradas após um jogo vitorioso.

— Conta aí, Jenny! — Becca incitava ainda mais a animação de Jennifer.

Anna então caminhou para um canto do vagão e sentou-se, exausta.

Jennifer continuava:

— Nossa, vocês tinham que ver, ela lutou com aquele bicho no ar! No ar! Eu não vi, mas queria ter visto.

Contou toda a ação que acabara de presenciar, com seus palavrões e cheia de animação, todos ouviam atenciosos.

— Sério Anna?? — Bob virou-se para ela, questionando.

Anna apenas assentiu com a cabeça.

— Seríssimo! — Respondeu Jennifer, continuando a história.

— Então acabou? Estamos livres? — Perguntou Becca.

— Estamos! Não estamos, parceira? — Jennifer virou-se para Anna, pedindo a confirmação.

— Acredito que sim… Vamos planejar nosso retorno, estamos bem longe de casa. — Anna respondeu, sem animação.

E a excitação de Jennifer deu lugar a um ar de preocupação, ela caminhou na direção de Anna e ajoelhou-se ao seu lado, perguntando se poderia dar uma olhada nos seus ombros. Anna tratou logo de tranquilizá-la.

— Vou ficar bem, não se preocupe. Lembra que eu falei como seria se seu ferimento fosse a mim? São apenas alguns pequenos furos, nem devem estar mais sangrando.

— Tomara… E não terá a infecção que eu já devo estar desenvolvendo neste instante, pelo nível da dor que estou sentindo vai ser uma merda bem grande.

Bob, Becca e Peter também se aproximaram das duas, e logo questionaram o que fariam a seguir.

— Eu… Não sei. Vamos pular do trem? — Perguntou Jennifer, receosa.

— Vamos, mas não assim no meio do nada. Vamos esperar a próxima cidade ou vilarejo. Não vamos achar carona, e a essa hora não deve ter comboios voltando, penso ser mais seguro procurarmos algum lugar para passarmos a noite, voltamos no primeiro trem que for na direção de Bridgeport. — Anna falou olhando para o chão a sua frente, pensativa.

Todos pareciam agora pensar em cada passo que dariam a seguir, como se estivessem mentalizando a continuação da aventura proposta por Anna.

— É isso aí, pessoal, Anna manda. Vamos ficar na porta até avistar algum vilarejo e então saltamos. — Jennifer ratificou os planos dela.

— Acho que precisaremos de água… — Falou Becca.

— Quando chegarmos seja onde for, procuraremos água, se tiver algum comércio no local, compramos algumas coisas para comer também.

Jennifer caminhou até a porta com a mão sobre o ferimento, passou a observar atentamente a paisagem à sua frente.

A esta altura tanto Anna quanto Jennifer estavam num estado de curiosidade mútua. Jennifer admirava sua coragem e bravura, e o zelo altruísta que tinha por ela e por seus amigos. Anna era uma desconhecida que teve sua casa invadida, e estava ali arriscando sua vida por eles, os defendendo, inclusive havia se ferido, mas permanecia ali como uma fortaleza.

Mesmo numa circunstância emergencial como aquela, Jennifer estava ávida por saber mais sobre Anna. Havia despertado um interesse do tamanho daquele trem, ou maior!

Da mesma forma, também havia a curiosidade de Anna. Sentada no chão do vagão, pensando no próximo passo, mas não conseguindo evitar olhar para Jennifer de quando em quando, como se entendesse melhor quem era aquela garota apenas a observando. Como havia aprendido a ser tão independente e destemida? Qual a história da sua vida?

Todos sentaram próximos a Anna, como se a proximidade recompensasse os esforços dela e a agradecesse por não ter os abandonado ainda à beira da linha férrea, ou ainda que não tivesse simplesmente os expulsado de sua casa, o que teria sido plausível.

Algum tempo depois Jennifer surgiu correndo em saltos para próximo do grupo, avisando que havia avistado o que parecia ser casas e uma estação de trem. Levantaram-se e tomaram posição. Quando o trem se aproximou da vila pularam um a um, num descampado com vegetação rasteira.

Caminharam até uma antiga estação ferroviária de paredes amarelas, parcialmente destruída, mas ainda com alguns guichês de pé. A luz do dia diminuía, a temperatura começava a cair e o céu agora rosado, com algumas nuvens, passava a ter a iluminação especial da lua por trás das massas cinzas arredondadas. Tentavam adivinhar em qual cidade ou vila estavam.

A estação tinha uma plataforma alta, aproximadamente um metro do chão. Anna avistou um pequeno armazém do outro lado, e pediu que alguém a acompanhasse. Jennifer prontamente se voluntariou, mas Anna a vetou.

— Você? Melhor não… — Anna respondeu, franzindo a testa como um ‘sinto muito’.

— Você chamaria a atenção, com essa jaqueta suja de sangue… — Continuou.

Becca prontificou-se então.

— Eu vou com você. Esperem aqui embaixo, do lado da plataforma.

Sentaram-se no chão, recostados na parede da estação. Anna e Becca voltaram em poucos minutos, trazendo água e alguns suprimentos.

— E agora? Para qual lado? — Jennifer questionou.

Anna pareceu não ouvir, olhava para os lados, como se procurando algo.

— Estamos no meio do nada. Vamos naquela direção, estão vendo? Tem algumas casas e parecem abandonadas, se acharmos alguma com teto e paredes suficientes podemos passar a noite.

Anna pediu que se levantassem e começaram a caminhada na direção de um conjunto de casas cinzas e ocres, parcialmente destruídas. Ficavam a uns quinhentos metros da estrada de ferro.

— Se tudo der certo, amanhã à tarde já estaremos em nossas casinhas… — Comentou Becca.

— Aprecio seu otimismo, Becca. — Disse Jennifer.

— Perguntamos no armazém quando passava o próximo trem em direção ao sul, e a moça respondeu que entre oito e nove da manhã passa um trem de carga. É nossa carona de volta! — Animou-se Becca.

Caminhavam com passos rápidos, na pressa de encontrar um ponto de parada. Almejavam um pouco de sossego, dentro do possível numa casa abandonada, mesmo que longe de seus lares.

De vez em quando Jennifer levava a mão ao ombro ferido, parecia cada vez mais doer e incomodá-la.

Chegaram até as casas, a rua de chão batido parecia uma rua fantasma, com casas inabitadas e o mato crescendo. As primeiras casas estavam totalmente destruídas, até que encontraram uma casa com pelo menos dois cômodos intactos e ainda coberta pelo telhado.

Adentraram devagar, estudando cada detalhe da habitação. O melhor cômodo de pé parecia ter sido um dia a sala de estar da casa. O chão de madeira não muito empoeirado e com algumas roupas velhas largadas denunciava que outros hóspedes temporários haviam passado por ali não há muito tempo.

A porta do outro lado da sala estava fechada com tábuas pregadas, bem como as duas janelas da parede contrária a lareira. — Que bom, proteção para o frio! — Pensou Jennifer.

O interior da casa tinha as paredes brancas e sujas, com algumas manchas de mãos. Por um momento Jennifer sentiu-se intrigada ao pensar que aquela já havia sido a casa de alguém, de alguma família. Questionava se alguém havia morrido ali durante a guerra, ou se tiveram tempo de fugir do bombardeio.

— E então, vamos acender essa lareira? — Perguntou Bob.

— Acho que pode chamar atenção desnecessária… — Jennifer receou.

— Acendemos ou não? — Bob voltou a perguntar.

— Vai esfriar à noite, podemos acender a lareira e ficamos de vigília para nossa segurança. E vai esfriar bastante. — Respondeu Anna.

— Ok, vamos lá fora procurar madeira que possa ser usada como lenha! — Bob chamou para o acompanharem.

Os que ficaram dentro da casa começaram então a preparar sanduíches com pães e salame que haviam comprado. Distribuíram também a água, uma garrafa para cada par.

Um a um, voltavam para a casa, trazendo o que haviam encontrado para manter o fogo durante a noite, gravetos, pedaços de madeira de escombros. Uma pilha bagunçada foi se formando ao lado da lareira. Jennifer voltou esfuziante trazendo um pedaço de tronco que havia encontrado.

— Esse vai queimar a noite toda! — Vibrava. — Bob, duvido achar um tronco melhor que este!

— O que são essas larvas saindo da madeira? — Bob olhou com asco.

— Argh! — Jennifer atirou o tronco para fora da casa.

Enquanto isso Anna pegou alguns gravetos e punha-se a esculpi-los, pontudos, como pequenas lanças, para que cada um tivesse algum tipo de defesa durante a noite. Depois saiu a procura de algo que pudesse ser usado como ignição para o fogo, alguma palha talvez.

***

Naqueles tempos a segurança era um dos maiores problemas pós-guerra. Com a polícia enfraquecida, a população parou de confiar na segurança pública, abrindo espaço para grupos de segurança privada e milícias. O maior temor de todos não era que assaltantes ou outros nômades invadissem suas casas durante a noite, tinham medo que milícias de Titans os abordassem com violência, já que vagavam em grupos, seguindo suas próprias leis, e não hesitavam em bater ou atirar em quem cruzasse o caminho deles. Se vissem uma híbrida ajudando um grupo de humanos, não veriam com bons olhos.

***

Já passava das oito da noite quando finalmente o fogo tomou vigor na pequena lareira. O clarão das chamas iluminava os semblantes de todos, destacando o vermelho dos rostos dos que haviam carregado a lenha. Pareciam cansados, mas animados com o surgimento de grandes chamas. Bob e Jennifer, abaixados, ainda se aproximavam e colocavam mais alguns gravetos estrategicamente, como se estivessem num jogo de pega varetas.

Enquanto isso Anna se agachou ao lado dos outros, conversou ponderosamente, gesticulando com calma, ensinava a usar as lanças improvisadas, passando orientações sobre como se defender caso algo acontecesse à noite.

Todos já haviam se alimentado ou ainda finalizavam seus pães, sentados junto à parede em frente à lareira. Jennifer continuava entretida com o fogo, agachada, colocando gravetos. Até que sua visão ficou turva, como se uma grande lanterna a cegasse. Sentiu as pernas fraquejando, desequilibrou-se, deu alguns passos sôfregos para trás e acabou caindo de costas.

Anna rapidamente levantou-se e foi acudi-la, ajoelhando-se ao seu lado. Viu que estava suando e parecia desnorteada. Abriu sua jaqueta jeans e confirmou o que suspeitara, a camisa por baixo estava com o lado direito completamente rubro de sangue, um rastro vermelho que sujava inclusive o cós de sua calça.

— Garota, você tem ideia do quanto já perdeu de sangue?! — Questionou preocupada.

— Isso foi uma pergunta retórica ou eu deveria saber a resposta? — Brincou Jennifer, mesmo quase desfalecendo e ardendo em febre.

Anna a arrastou devagar até a parede. Despiu-se de seu casaco negro, dobrou e colocou embaixo da cabeça de Jennifer, como travesseiro.

— O que aconteceu com ela? — Aproximou-se Becca, assombrada.

— Perdeu um pouco de sangue, está com febre, deve ter infeccionado… — Respondeu Anna, ainda verificando a camisa encharcada dela.

— Ah… A tal infecção… — Jennifer sorriu novamente, olhando para Anna, que não retribuiu o riso.

— Ela vai ficar bem, não vai?

— Eu vou tentar melhorar um pouco isso… — Desconversou.

— Becca, relaxa, tá tudo bem, foi só uma tontura, não estou grávida. Amanhã à noite estarei jantando queijo quente na sua casa.

Anna buscou uma garrafa de água e a ajudou a tomar um gole. Ergueu um pouco a cabeça de Jennifer, pegou algo nos bolsos do seu casaco e voltou a deitá-la no embrulho macio.

— Alguém pode arranjar um lenço, um pedaço de pano, ou algo do tipo?

Depois de livrar-se da camisa de flanela cinza, Bob respondeu: — Aqui, aqui. — Entregando a Anna sua regata de algodão branca, que usava por baixo.

— Talvez eu não a devolva, tudo bem? — Anna perguntou.

— Fique à vontade. — Respondeu, apenas preocupado em ajudar.

Anna pegou a adaga de dentro da bota de Jennifer e cortou a camisa em três pedaços. Dobrou dois deles e ficou com um sobre sua perna.

— Posso abrir sua blusa? — Anna perguntou de forma gentil a Jennifer.

— Não vai nem oferecer uma bebida antes? — Jennifer respondeu baixinho.

Anna sorriu e então ergueu uma pequena garrafa de uísque, completando.

— Infelizmente não é para você beber. Prometo que lhe pago uma bebida qualquer dia desses. Essa aqui é para limpar seu ferimento.

Anna abriu com cuidado sua blusa, expondo totalmente o lado direito, deu uma boa olhada no estrago, em seguida colocou a alça do seu sutiã para o lado.

Antes de despejar o conteúdo da garrafa fitou Jennifer, que não mais olhava seu próprio ferimento e sim retribuía o olhar.

— Vai doer. — Anna a alertou.

— Tudo bem, manda ver, confio em você. — Jennifer respondeu, fazendo um semblante de valentia.

Anna hesitou de novo, ergueu um pouco a mão direita, que estava livre.

— Tome, pode apertar minha mão se quiser.

Jennifer aceitou a oferta segurando sua mão. Anna derramou aos poucos o uísque sobre o ferimento, o sangue diluído em álcool escorria para os lados, empossando sobre seu corpo. Jennifer apertou sua mão num longo piscar, mordendo o lábio inferior, com uma expressão severa de dor.

— Que mer… — Sussurrou.

Ao abrir os olhos se deparou com Anna, que a olhava com apreensão. Neste momento Jennifer pode ver de perto seus arranhões no rosto, pequenos cortes e arranhões na testa do lado esquerdo, e um corte acima da maçã do rosto, próximo ao olho esquerdo. Notou o cabelo solto querendo pender para frente das orelhas, seus olhos que pareciam duas porções de um mar azul. Pela primeira vez podia ver todas as feições de Anna bem de perto.

— Tudo bem? — Perguntou Anna.

— Acabou?

— Vou limpar agora. Consegue devolver minha mão? É que vou precisar dela.

Anna passava um dos retalhos de pano da camisa de Bob ao redor do ferimento, e depois mais suavemente, por cima do corte. Desceu e foi limpando abaixo, próximo a cintura. Jennifer acompanhava os movimentos com um olhar baixo.

— Posso? — Perguntou Anna, olhando para a altura do peito.

— Vá em frente, já me conformei em não ganhar um drinque seu essa noite. — Respondeu Jennifer.

E então limpou o sangue por baixo do seu sutiã, com delicadeza.

— Onde você arranjou essa garrafa? — Jennifer questionou.

— Peguei emprestado no armazém do lado da estação, enquanto Becca entretia a vendedora.

— Emprestado?

— Pronto, vou improvisar um curativo, ok? — concluiu Anna, encerrando o assunto.

Apenas assentiu com a cabeça. Anna dobrou outro pedaço do pano e colocou em cima da ferida. Pegou um pequeno rolo de fita adesiva, tirava pedaços e colava por cima da bandagem.

— Também pegou essa fita emprestada? — Perguntou jocosamente Jennifer.

— Ahan. Mas um dia eu volto lá e devolvo tudo.

— Faço questão de ir com você e ver a cara da atendente. — Jennifer falou quase sussurrando, sonolenta.

Quando terminou o curativo, fechou sua blusa e a jaqueta. Olhou para Jennifer e viu que ela estava de olhos fechados.

— Jennifer? Jennifer, não durma, não ainda.

Ela abriu os olhos lentamente.

— Tente se manter acordada, você consegue? Mais tarde deixo você dormir, prometo. Você já comeu?

Jennifer fez sinal negativo com a cabeça. Anna buscou comida, a ergueu um pouco e ajudou a comer.

— Está com frio?

— Uhum. Mas quem não está, não é?

— Sim… Mas você está sentindo mais frio por causa da febre. Só não durma agora.

— Ordens médicas?

— Ordens médicas expressas.

— E seus ferimentos? Eu tive apenas um cortezinho no ombro. Você precisa cuidar dos seus também.

— Eu vou ficar bem, não foi nada demais.

— Posso ver?

Anna apenas olhou para Jennifer, levantou-se e dirigiu a palavra para todos:

— Pessoal, a noite vai ser bem fria, tentem permanecer próximos à lareira, e não podemos deixar o fogo apagar.

— Vamos manter vigília? — Interrompeu Bob.

— Sim, eu me ofereço para ficar de vigília inicialmente, mas podemos revezar em duplas. Todos de acordo?

Todos concordaram e logo formaram as duplas. Iniciaram uma discussão para formar a ordem da vigilância.

— Se não se importarem, eu gostaria de fazer o primeiro turno, porque quero ficar de olho nela, monitorando a febre. — Anna apontou para Jennifer com a cabeça. — Poderia ficar até meia-noite ou uma da manhã.

— Depois vocês podem revezar de duas em duas horas. — Continuou.

— E quem estiver acordado também cuida do fogo. Tem bastante lenha ainda, mas se precisar, procuraremos mais. — Completou Becca.

— Becca tem razão, sem esse fogo vamos congelar. Fiquem próximos uns aos outros para se aquecer. Se preferirem durmam em duplas, para aproveitar o calor do corpo. — Anna sugeriu.

Anna escutou Jennifer falando algo, mas não entendeu. Aproximou-se dela, e abaixou-se.

— O que você falou?

— Também quero fazer turno.

— Mas você não está em condições de ficar de vigília… — Anna falou de forma gentil.

— Posso fazer o último turno, já estarei melhor.

— Tá bom, vou pensar no assunto, ok? Quem sabe nós duas fazemos o último período então. — Respondeu, já sentando ao seu lado.

A temperatura caia cada vez mais, todos conversaram mais um pouco sobre a ordem dos turnos, foram procurando as melhores posições para dormir, apoiando-se uns nos outros. Anna colocou seu casaco sobre Jennifer, cobrindo seus braços, a viu lutando para manter os olhos abertos. Virou-se em sua direção e colocou uma mecha do cabelo dela que estava sobre sua testa, para trás da orelha.

— Como se sente?

— Desejando minha cama com todas as forças do universo, talvez ela se materialize no meio dessa sala. — Jennifer tremia e batia seus dentes, com frio.

Anna levantou, ficando de joelhos.

— Chegue um pouco para frente. — Pediu.

Jennifer desencostou da parede devagar, arrastou-se um pouco para frente. Anna entrou no espaço que se formou entre ela e a parede, sentando-se atrás dela, com as duas pernas ao redor do seu corpo.

— Pode recostar em mim agora. — Anna pegou as mãos de Jennifer por baixo do casaco, as cruzou sobre seu peito, e a puxou delicadamente para trás, para próximo de si. Deixou seus braços lá, por cima dela, para aquecê-la.

— Ficou mais quentinho assim? — Perguntou baixinho, próximo do ouvido de Jennifer. Ela apenas balançou a cabeça, concordando.

— Ok, pode dormir agora, vou ficar de olho em você. — Falou, colocando a mão em sua testa, checando a temperatura.

Todos dormiam. Anna permanecia alerta, olhando para a porta, para Jennifer, e às vezes para a janela na parede de trás. Sentia o corpo de Jennifer tendo tremores cada vez mais espaçados, acompanhou a temperatura dela caindo lentamente e a respiração mais forte, denunciando que caíra no sono.

Antes de adormecer, Jennifer se deu conta do conforto de estar deitada não mais numa parede dura e fria, mas no corpo aconchegante de Anna, seus pensamentos já se confundiam num estado de quase sono, sentia-se não só confortável e aquecida, mas também envolta, segura.

Anna podia ouvir apenas os ruídos da noite, que avançava lentamente. Alguns grilos e cigarras faziam a trilha sonora, às vezes o farfalhar das folhas das árvores quando alguma brisa soprava. Pela porta pouca claridade invadia o recinto, o céu estava encoberto. As chamas da lareira projetavam sombras dançantes nas paredes e refletiam nuances amareladas nas feições das pessoas adormecidas.

Um pouco antes de uma da manhã, Anna chamou Bob e Becca para assumirem o turno.

Ajeitou-se como pode, acomodou um pouco mais Jennifer em seu colo, a deitando de lado, passando um braço sobre ela.

— É meu turno? — Balbuciou Jennifer, sem abrir os olhos.

— Não, pode continuar dormindo. — Anna sussurrou.

Bob estava agora sentado ao lado de Becca, passando seu braço pelos ombros dela, tentando aquecê-la. Esfregavam os olhos numa tentativa de afastar o sono, enquanto bocejavam.

Mesmo não estando mais de vigília, Anna continuava acordada. Preocupava-se menos com a porta e possíveis invasores agora, permitia se demorar observando Jennifer dormir pacificamente, ela já não tremia mais. Passou os dedos nos cabelos um pouco bagunçados de Jennifer, preso num rabo de cavalo. Ela já parecia mais corada, realçada pelo fogo. Tinha um rosto jovial, ‘lembra uma menina dormindo depois de um dia de aventura’, concluiu Anna, que finalmente adormeceu.

Quando o sol começava a raiar, Anna despertou com um barulho no lado de fora. Sem alarde, permaneceu fitando a porta. Um barulho de passos se aproximava cada vez mais, ela continuava olhando fixamente para a porta.

Um vulto surgiu, de sobressalto sacou a adaga de Jennifer, que havia guardado ao seu lado. Mas a figura que surgiu na porta era Peter, carregando alguns gravetos. Suspirou com alívio, deixando novamente a faca no chão, tratando de dormir mais um pouco. Menos de uma hora depois já estavam todos acordados, ansiosos com a volta para casa.

Jennifer despertou já sem febre e com boa disposição.

— Você dormiu desse jeito, assim sentada? — Perguntou para Anna, se virando para trás.

Peter respondeu antes que Anna falasse algo.

— Sim, até eu acordá-la cedinho, quando fui buscar mais madeira, te assustei não foi?

— Um pouco… Devo dizer que você correu o risco de ver uma faca voando em sua direção… — Anna respondeu em tom descontraído.

— Já vamos para os trilhos? — Perguntou Becca.

— Daqui a pouco… — Anna consultou o relógio no pulso de Jennifer, passava um quarto de hora depois das sete. — Antes de qualquer coisa, vamos apagar essa lareira.

Seguiram logo depois para o local estipulado, esperaram em pé, estavam inquietos demais para sentar. O trem apareceu e já foi logo desacelerando para parar na estação, o que facilitou a subida. Anna subiu primeiro, num dos últimos vagões. Rompeu o cadeado da porta e ajudou todos a subirem. Havia sacas de tamanhos e conteúdos variados. Algumas bobinas de fio elétrico também formavam pilhas. Afastaram algumas sacas e se acomodaram para a viagem de quase quatro horas que viria a seguir.

A manhã começava clara, com poucas nuvens, e o sol morno trazia a sensação de que um dia mais tranquilo estava a caminho. Anna sentou-se quase ao centro do vagão, encostada em uma pilha baixa de sacas escuras. Jennifer checou um a um seus amigos se estavam todos bem, abaixou-se na frente de Lisa.

— O braço quebrado incomodou muito? Conseguiu dormir? — Perguntou solícita.

— Depois que Peter me aqueceu a dor foi diminuindo. Consegui dormir sim.

— Assim que chegarmos, vá ao hospital, ok?

Jennifer levantou e olhou ao redor, confirmando que todos estavam devidamente acomodados. Olhando para trás percebeu que na verdade faltava uma pessoa para verificar. Anna foi pega de surpresa quando seus olhares se cruzaram através do vagão, sem jeito desviou o olhar. Jennifer caminhou na sua direção, fez menção de sentar-se ao seu lado.

— Está ocupado? — Perguntou, sorridente.

— Você vai me pagar um drinque? — Respondeu Anna.

Jennifer sorriu e sentou, ficaram em silêncio por um instante. Inclinou a cabeça para frente e olhou para o lado com o cenho franzido para Anna.

— Você não me acordou para meu turno, não foi?

— Não. — Anna respondeu, com um leve risinho sarcástico.

Jennifer voltou a se recostar na pilha.

Anna continuou:

— Achei que você não se lembraria de nada hoje.

Jennifer mexia numa lasca de madeira que soltava-se do chão à sua frente, tentando arrancar. Novamente ficaram em silêncio.

— O que você fez… Por nós, por mim… Foi incrível.

— Fiz o que qualquer pessoa que se importa com os outros faria. — Anna respondeu depois de alguns segundos em silêncio.

— Como estão seus ombros?

— Sob controle.

— Achava que hoje em dia não existisse mais pessoas assim. — Jennifer parou de mexer no chão, se ajeitou, olhou para Anna, que ostentava um ar cansado e pensativo, olhando para baixo. — Obrigada por não desistir de nós… Por ter lutado por nós… E por cuidar de mim, me aquecido… Mesmo que tenha te custado um bico de papagaio ou uma hérnia. — Finalizou com um sorriso.

Anna correspondeu o olhar por alguns segundos, abriu seu casaco e tirou a adaga de Jennifer, entregando-a.

— Tome, precisei pegar emprestada durante a noite.

— Fique. Você perdeu as suas ontem.

— Não tem problema, tenho outras.

Jennifer guardou em sua bota.

— Você coleciona?

— Não, as fabrico.

— Sério?

— Tenho uma oficina de forja em casa. Meu pai era cuteleiro e me ensinou a fazê-las.

Jennifer animou-se com a abertura de Anna, inclinou-se na direção dela para continuar a conversa.

— Caramba, que legal! E você faz todo tipo de facas ou somente adagas?

— Basicamente adagas, pequenos punhais, espadas, shuriken, aquelas estrelas com pontas afiadas, sabe?

— Sim! Estrelas ninjas são ótimas! É tudo para uso próprio?

— Onde eu usaria centenas de facas? Eu as vendo.

— Deve ser um bom negócio nos dias de hoje, não?

— Já foi melhor.

Jennifer voltou a se encostar nas sacas.

— E o que você faz quando não está forjando lâminas? — Tentava reacender a conversa.

— Coisas… Sei lá. Leio.

— Gosta de sair para fazer coisas no final de semana?

— Raramente. Às vezes algum bar na Cidade Velha.

— Eu prefiro os pubs do Centro. Não que você tenha perguntado.

Anna desfez o semblante sério, deu uma boa olhada para Jennifer. Ajeitou a posição, subiu uma perna. Se deu conta da recuperação rápida que Jennifer teve, sentada ali do seu lado com um olhar brilhante, parecia cheia de vida.

— Qual seu pub preferido? — Perguntou Anna, com um tom mais descontraído.

— Nós costumamos ir ao O’Reyes, um pub costa-riquenho.

— Costa-riquenho?? — Anna parecia incrédula.

— Sim, o dono é o Oscar. Libera uns chopes de vez em quando. E nunca nos expulsa! — Falou rindo. — Ele é um cara legal… Você curte chope, não?

— Sim.

— É canadense, mas é bom, acredite. O famoso chope Bordeaux.

Anna não conseguiu segurar o riso, olhou com surpresa para Jennifer.

— Jesus Cristo, isso está errado em tantos níveis… Um pub costa-riquenho que vende chope canadense, chamado Bordeaux!

— É… Você falando assim, tudo junto, até que soa estranho. Não tinha me dado conta.

— Sério?

— Eu vou lá para beber, e não para fazer uma análise geopolítica do local.

***

Com a guerra, as fronteiras entre os países aliados se esmaeceram. Por fim, os Estados Unidos, que sempre tiveram um controle rigoroso da entrada de estrangeiros, faziam um apelo para que pessoas de outros países migrassem para lá, já que sua população havia sido dizimada e muitos americanos fugiram para países menos visados pelo eixo do mal.

Essa abertura resultou numa miscigenação em grande escala, além de um grande choque cultural. Apesar da sensação de insegurança e pouca credibilidade no governo, havia um pensamento uníssono de reconstrução em toda a América. O imigrante que antes era visto com certo repúdio, agora era visto como os novos pilares da reedificação do país.

Mas o mundo parecia ainda assustado demais para reagir, as grandes nações se reerguiam num ritmo lento demais.

***

A paisagem bucólica não mudava muito no decorrer da viagem: campos que um dia já foram plantações, agora estavam abandonados. Algumas casas que viraram escombros, outras parcialmente destruídas, contrastavam com aquelas que ficaram de pé e, por serem habitadas, mantinham um bom aspecto.

Anna percebeu que o destino se aproximava, era meio-dia e as nuvens haviam ficado cada vez mais distantes, deixando o céu de anil se mostrar por completo.

— Onde pulamos? — Becca questionou, enquanto se levantava. Deu uma olhada pela porta.

— Pulem comigo. Tanto faz se pularem um pouco antes ou depois, a vila de vocês não ficará mais perto. Pelo menos assim eu oriento vocês até chegarem na minha casa. E de lá acredito que vocês conseguem achar a rodovia sozinhos, não conseguem? — Anna respondeu, terminando a frase como um questionamento para Jennifer.

— Ah sim, claro. Da sua casa sabemos continuar até nossas casas, meu sentido de localização interno é excelente.

Anna deu o sinal e todos pularam, em fila. Fizeram o mesmo caminho do dia anterior entre a vegetação rasteira, chegando até a casa dela.

Chegaram até o pátio frontal da casa, um a um foram agradecendo Anna, com um aperto de mão.

— Não precisam ir pelo campo para chegar a rodovia, peguem esse caminho aqui na frente da minha casa, vai dar na estrada. — Anna orientava, apontando para uma pequena estrada de chão batido, que saia do seu portão de ferro.

— Você foi nossa heroína, você sabe disso, não sabe? — Bob segurava a mão de Anna, após cumprimentá-la.

— Seremos eternamente gratos pelo que fez por nós. Prometo que vou trazer um bolo aqui para você qualquer dia desses. — Becca emendou, rindo.

— Bolo? Você não sabe fazer nem ovo cozido. — Jennifer rebateu.

— Jenny, estou tentando ser gentil, ok? — Becca disse e afastou-se para que Jennifer se despedisse também.

— Não sei fazer bolo, mas obrigada por tudo, Anna. — Por fim, Jennifer se despedia, lhe estendendo a mão. — Enfiamos você numa baita enrascada e mesmo assim você nos ajudou até o fim, vou indicar seu nome para o Nobel da Paz.

— O que importa é que todos estão de volta, são e salvos, com ou sem bolo. Voltem para suas casas e continuem alertas. Pensem duas vezes antes de desafiarem uma milícia de Titans. — Anna terminou falando um pouco mais alto, para que todos ouvissem.

O grupo abriu a portão alto e pesado que dava para a estradinha, iniciando a caminhada de volta, que seria de quase quatro quilômetros. Não tinham pressa em seus passos.

Haviam caminhado apenas duzentos metros, quando Jennifer parou e olhou para trás incomodada.

— Vão andando, esqueci uma coisa lá, já volto. — E saiu correndo de volta à casa, Anna já havia entrado.

Jennifer entrou ofegante, viu Anna saindo da cozinha com uma garrafa de água na mão.

— O que houve? — Anna perguntou, surpresa.

Novamente Jennifer deu um abraço urgente, quase sofrido, em Anna, como da vez que ela havia achado que a gárgula a matara.

— Obrigada… — Falou baixinho, ainda a prendendo com os braços às suas costas.

Quando se soltaram, Jennifer a encarou com uma expressão urgente.

— Vou ver você de novo? — Perguntou.

— Se você assim quiser, claro. — Anna respondeu, com uma voz branda. — Fiquei bastante curiosa para conhecer o pub costa-riquenho.

— Fechado então. É o melhor chope canadense que você irá provar.

— Onde na vila que você mora? Na parte baixa?

— Sim, o último prédio cor de tijolo da rua principal.

— Ok então, eu passo nesse sábado e te pego.

— Mas você disse que não tem carro.

— E não tenho.

— Já sei, você tem um cavalo, não é? Cavalos e espadas. — Jennifer imitou o gesto de cortar o ar com uma espada.

— É… Digamos que sim.

Jennifer saiu correndo de volta aos seus amigos. E a partir daquele dia seu mundo nunca mais seria o mesmo.

Capítulo 2 – Beatles

Tempos de falta de comunicação.

Além da dificuldade da prestação dos serviços básicos, eram tempos de precariedade na tecnologia. Centros tecnológicos, torres, backbones, a maior parte foi destruída no decorrer dos cinco anos de conflito. O pouco que restou, juntamente com o que foi reconstruído, oferecia serviços de telecomunicação e internet bastante debilitados e caros. Linhas telefônicas já não existiam mais. Internet e celular custavam o mesmo de quando surgiram, apenas pessoas mais abastadas tinham acesso a estes serviços com qualidade.

***

Sábado chegou a passos lentos. No início daquela tarde Jennifer bateu na porta de Becca.

— E aí vizinha, vai no Oscar hoje à noite? — Jennifer perguntou, entrando no apartamento.

— Tenho planos. E você? Vamos rachar um táxi ou Bob vai passar aqui? — Becca se espojava no sofá, vendo TV.

Becca era uma pequena garota da mesma idade de Jennifer. Haviam se conhecido ainda na infância, nas aulas de música que faziam. Queixo proeminente, cabelos longos e castanhos. Olhos pequenos, também castanhos, com uma luz esverdeada.

— Vou ficar te devendo essa, tenho carona. — Jennifer se atirou numa cadeira próxima ao sofá.

— Alguém que eu conheça?

— Ahan.

— Sério? Alguma frequentadora do pub?

— Não. Quer dizer, ainda não…

— Alguém do porto?

— Não.

— Desembucha logo, Jenny.

— É surpresa. — Jennifer respondeu com um sorriso cínico.

— Para você não querer falar é porque deve ser alguma encrenca ou alguém que eu não vou com a cara.

— Temo que a senhorita esteja equivocada.

— Não vai se meter com garota problema de novo, hein?

— Fique tranquila, é só uma nova amiga que está a fim de conhecer o pub, não há interesses ilícitos de minha parte, nem da dela.

— Sei, olha como estou acreditando em você.

— Não, sério. É só uma nova amiga mesmo, sem segundas intenções.

— Alice vai. Da outra vez ela ficou perguntando por você a noite toda.

Jennifer ficou em silêncio, vendo a TV.

— Ouviu o que eu disse? Alice vai estar lá.

— Ouvi sim. Ainda estou me decidindo se teremos mais algum round. Mas acho que não… Ela está entendendo nossas noites casuais de outra forma.

— Ela está entendendo que vocês estão quase namorando, enquanto você está entendendo que ela é uma amiga com benefícios.

— É… Eu sei. Aí que mora o perigo. Conclusões precipitadas. As pessoas estão muito carentes hoje em dia, não acha?

— Deve ser o pós-guerra.

— Todo mundo culpa a guerra por tudo, até quando chove dois dias seguidos, é culpa da guerra!

Passaram algum tempo vendo TV, Jennifer tentava conter a euforia de rever Anna depois da aventura que haviam passado. Foi uma tarde dividindo olhares entre a TV e o relógio, torcendo para os ponteiros voarem até a noite.

Por volta das dez horas Jennifer já estava pronta, ia a janela de dez em dez minutos e voltava para frente da TV. — Ela não vem… Ela disse aquilo por educação… — Pensava.

Até que uma buzina foi ouvida, correu à janela e viu uma moto preta esportiva parada embaixo do seu prédio, uma pessoa ainda com o capacete olhava para cima.

Desceu os dois andares de escadas e encontrou Anna, já sem o capacete, montada na moto. Deu uma boa olhada e sorriu.

— Você não tinha um cavalo? — Jennifer exclamou, olhando para a moto.

— Noventa cavalos, para ser mais exata. — Falou, entregando um capacete negro a Jennifer.

Jennifer sentiu-se estranhamente bem ao ver Anna, que mantinha um sorriso tímido nos lábios. Parecia ainda mais encantadora de quando se conheceram, estava agora com uma jaqueta de couro preta, e mantinha calça e botas pretas.

— Você sabe onde fica o pub? — Questionou Jennifer, enquanto colocava o capacete.

— Imagino onde seja. A propósito, você fica muito melhor sem aquele sangue todo.

— Obrigada por perceber. — Respondeu já montando na garupa.

Jennifer teve que segurar mais firme com a arrancada forte que Anna deu com a motocicleta.

Adentraram devagar o pub, que tinha uma iluminação baixa e letreiros luminosos coloridos. Haviam quadros e pôsteres de cervejas irlandesas e inglesas nas paredes, uma grande bandeira irlandesa, contrapondo com algumas flâmulas coloridas com a bandeira da Costa Rica. Jennifer procurava com a cabeça por seus colegas, os avistou sentados numa mesa retangular, com um banco acolchoado preso a parede.

Além de Becca, Bob era o outro componente daquela noite de aventura, e haviam quatro outros amigos. Becca levantou-se quando as viu, sorriu balançando a cabeça e cumprimentou Anna. Ela notou que um integrante da mesa não a cumprimentou, ao invés disso, cochichou com o colega. Ela já havia percebido alguns olhares tortos vindos de outras mesas também.

— Veja só, se não é nossa heroína preferida! — Exclamou Bob, quebrando o gelo.

— Estou começando a gostar dessa alcunha. — Anna respondeu timidamente.

Finalmente sentaram, Jennifer a olhou de relance, não imaginara que aquela mulher destemida pudesse ficar tímida diante de uma socialização tão corriqueira. Percebeu então que talvez não fosse tão corriqueira assim para Anna, que talvez estivesse acostumada a enfrentar feras em locais inóspitos, mas não pessoas comuns num pub.

— Vou buscar uns chopes, já volto. — Jennifer dirigiu-se ao balcão do bar, e voltou sorridente com duas canecas nas mãos.

— Esse é o fantástico chope canadense que você mencionou?

— O fantástico é por sua conta e risco. Vamos, experimente! — Falou Jennifer animada.

Deu um longo gole, e olhou séria para caneca.

— Nada mal! — Anna falou, virando-se para ela.

— Costuma ficar melhor depois do sétimo.

— É seu número cabalístico?

— Digamos que seja meu divisor de águas. Na verdade, é quando fico mais extrovertida.

— Mais?

Quando Anna saiu para ir ao lavatório, Becca olhou com os olhos arregalados para Jennifer, com surpresa:

— Fala sério, Jenny!

— Que foi?

— A híbrida eremita??

— Que feio julgar as pessoas, Becca…

— Não estou julgando, só estou surpresa com sua convidada misteriosa, nunca passaria pela minha cabeça.

— Ela foi tão legal com a gente, parece ser uma pessoa interessante. Por que não chamar para tomar um chope?

— Quem sou eu para discordar… Bom, você sabe… Você deveria se manter afastada de híbridos. Principalmente você.

— Mas eu gostei dela.

— Eles não gostam muito de humanos.

— É, deu para ver como ela odeia nós humanos. — Debochou Jennifer.

A convivência entre humanos, Titans e híbridos não era pacífica, havia uma hostilidade velada entre todos. Mas principalmente os híbridos, por ser uma minoria e não pertencerem inteiramente a uma espécie, eram malvistos e evitados.

Anna voltou à mesa, Becca ficou em silêncio.

Aos poucos todos ficaram mais à vontade, a conversa fluía na mesma velocidade dos canecos de chope que vinham à mesa. Anna já esquecia da discriminação que sua subespécie vivenciava, queria apenas consumir a presença de Jennifer, vorazmente.

— Adorei essa decoração, meio britânica, meio costa-riquenha, a mistura não ficou ruim. — Anna prosseguia no papo.

— E você estava com preconceito.

— Não estava com preconceito, só achei esse monte de nacionalidades um pouco confuso. Eu vi um pequeno palco, confesso que estou um pouco receosa sobre que tipo de música é tocada ali.

— Japonesa minimalista.

Anna olhou assustada.

— Não, estou brincando… O melhor do britpop e brit rock!

— Ah bom… Que dias que tem apresentações?

— Se dermos sorte, mais tarde veremos alguma bandinha. Acho que alguma cover dos Beatles.

— Beatles? Quem bom, adoro Beatles. Tive a grande sorte de ir num show deles.

Jennifer apenas riu, achando que era brincadeira. Mas percebeu que Anna não riu, arrematando a possível piada. Deu-se conta que era possível sim que ela tivesse ido ao show, porque os híbridos, assim como os Titans, envelheciam mais devagar. Seu semblante mudou instantaneamente para sério na hora que se deu conta desse detalhe. Anna percebeu o que acontecera.

— Jennifer, quantos anos você acha que tenho? — Perguntou, a encarando, apoiando o queixo na mão. — Não seja educada, fale exatamente o que eu aparento para você.

— Ok, é para ser sincera, não é?

— Por obséquio.

— Trinta… Tipo assim, mais ou menos. Ou uns vinte e nove… Oito. Por aí.

— Cinquenta e nove. Completos em maio.

Jennifer só conseguiu olhar para ela, com um sorriso aberto.

— Eu me exercito… — Completou.

— Caramba… — E continuou rindo. — Então você foi mesmo ao show dos Beatles?

— Em 1966. Meu pai era um fã incondicional, e eu ouvia os discos com ele. Eu tinha só treze anos, mas deu um jeito de me levar com ele. Meu pai foi um visionário: ele falou que não poderíamos perder porque seria a última turnê deles. E foi mesmo.

— Mas com treze anos você aparentava ter quantos?

— Acho que treze. Esse esquema do retardo dos sinais de envelhecimento e tal, só surge na puberdade.

— Cara, isso é incrível… E surreal.

— Está me achando um ser de outro planeta, não está?

— Não, claro que não. Só estou meio estupefata. — Jennifer ainda sorria, surpresa.

— Ok, sua vez de me contar algo que me surpreenda.

— Ah não, vou ter que decepcionar você dessa vez…

— Tá, não precisa me surpreender, basta ser algo interessante, que eu deveria saber.

Jennifer tinha algo que se contasse, com certeza Anna ficaria ainda mais estupefata que ela ficara. Ou ela talvez não acreditasse. Ou saísse correndo. Claro que ela não arriscaria contar.

— Ok, vou falar. Eu consigo encostar minha língua no nariz. — Brincou.

— Ah é? Prove.

— Você vai achar que estou me exibindo.

— Sim, essa é a intenção, não é?

— Tá bom, lá vai.

Anna tentou ficar séria, sem muito sucesso. Jennifer também.

— Não, espera, rindo eu não consigo. Espera, deixa eu fazer cara de séria.

E Jennifer conseguiu então o feito.

— Viu só?

— Vi sim. Incrível. Você poderia ganhar a vida com isso sabia?

A noite voou sem que percebessem a passagem do tempo. Alguns amigos já haviam ido embora, mas Anna e Jennifer continuavam conversando com animação.

— Meninas, estou indo nessa. Jenny, amanhã vai ser na minha ou na sua casa? — Perguntou Becca, se levantando.

— Minha vez. E não esqueça a cerveja.

Depois que Becca saiu, Anna deu um olhar para Jennifer com ar de curiosidade.

— O almoço. Geralmente almoçamos juntas aos domingos.

— Ah sim, claro…

— Às vezes eu tenho que trabalhar domingo, daí ela leva almoço para mim no porto.

— E o que você faz no porto? Se não for indiscrição perguntar…

— Não, tudo bem. Não tenho problemas em contar que faço programas.

Anna ficou em silêncio, olhando incrédula para ela, sem ter a menor ideia do que falar.

— Caramba, você acreditou! — Jennifer explodiu numa risada.

— Você foi bem convincente.

— E você tinha que ver a sua cara…

— Então, o que você realmente faz lá?

— Tecnicamente sou uma despachante aduaneira, mas pode me chamar de resolvedora de problemas portuários.

— Faz intermediações entre quem chega, quem quer comprar, quem quer vender…

— Basicamente isso.

— Parece interessante.

— É um tédio sem tamanho…

— E você gostaria de fazer o quê?

— Sei lá, algo com mais ação, menos repetitivo. E menos burocrático.

— Acho que te entendo.

— Você também gostaria de fazer mais do que facas?

— Eu já faço mais do que facas.

— Sério? Conta aí.

Anna analisou o panorama: já estava tarde, já haviam bebido bastante, e não se sentia segura o suficiente para contar do seu segundo trabalho ali, nem naquele momento.

— Fica para outro dia.

— Ah fala sério, fala aí, prometo que mantenho segredo. Se você fizer programas não vou te julgar, palavra de lobinha.

— Você está no sétimo chope, mocinha, acho que não estou preparada psicologicamente para ver você na próxima fase. — Desconversou.

— Você contou os chopes. Você deve ser virginiana, não é?

— Lembra que falei que fiz aniversário em maio?

— Ah é mesmo. Perdão, minha memória falha depois da meia-noite. Touro?

— Uhum.

— Teimosa feito uma mula?

— Não, sou uma pessoa prática.

— Eu também sou prática. Praticamente não bebo. — Jennifer ria despretensiosamente.

— Ok, acho que você entrou no seu número cabalístico. Quer ir para casa?

— Hum… Acho que quero. Estou recebendo chamados telepáticos da minha cama.

Pagaram a conta e seguiram de moto para o prédio de Jennifer. Chegando lá, Jennifer desceu da moto, tirou com dificuldade o capacete, devolvendo-o.

— Você vai ficar bem? — Anna perguntou ainda na moto, tirando também o capacete.

— Ótima. Mas acho que amanhã Becca vai almoçar macarrão instantâneo…

— Pobre coitada… Hey, você por acaso tem celular?

— Tenho! Mas não funciona… Tenho um pombo correio, serve?

— É tecnologia demais para minha cabeça, sinto muito.

Ficaram em silêncio por alguns segundos, fixaram um olhar, meio afoito.

— Foi legal você ter vindo… — Jennifer falou, com uma voz mansa.

— Também gostei da nossa noite… E obrigada pelo convite. — Anna recolocou seu capacete.

— De nada. Disponha…

Jennifer titubeou, e voltou a se aproximar da moto.

— Anna?

— Sim?

— Não suma, não.

— Não sumirei.

— Promete?

— Prometo.

— Tá bom.

— Sábado que vem vai ser minha vez de te levar a algum lugar, o que acha? —  Disse Anna.

— Perfeito.

Anna olhou ainda por alguns segundos o sorriso franco que Jennifer sustentava.

— Boa noite, Jennifer, fique bem.

Capítulo 3 – O quintal verde

Jennifer acordou com uma almofada atirada em sua direção, havia adormecido no sofá da sala, um sofá vermelho, desgastado pelo uso.

— Almoço que é bom nada, né?

Becca falou sentando-se no sofá menor, marrom com remendos negros, ligando a TV. Jennifer levantou e sentou-se vagarosamente, sonolenta, coçando os olhos.

— Ainda é cedo, vou preparar alguma coisa. — Resmungou.

— Cedo para a janta talvez, já é quase uma da tarde. Por que não dormiu na cama? Não chegou até lá?

— Sei lá, acho que fui ver TV e capotei. — Terminou a frase se espreguiçando no sofá.

— Não convidou a senhorita misteriosa para subir para um café ontem?

— O quê? Ah não, claro que não. Sério, ela não é uma dessas garotas que trago aqui, já falei isso, ela é só uma amiga.

— Então tá… — Becca levantou os ombros.

— Diga, o que você tá a fim de comer hoje? — Jennifer falou, saindo do sofá.

— Carboidratos. Estou almoçando queijo quente há quatro dias.

— Espaguete de novo então.

O apartamento onde Jennifer morava era pequeno e arejado, com janelas grandes. Além do seu quarto, havia uma sala com sofás e TV, conjugada com a cozinha. Era um pouco bagunçado, os móveis não combinavam entre si. Nas paredes havia pendurado alguns pôsteres de filmes da década de sessenta e setenta, emoldurados.

— Becca, você não vai acreditar em quantos anos Anna tem! — Jennifer começava a preparar o almoço.

— Não sei, uns trinta? Peraí, ela tem aquele lance da idade que os Titans têm?

— Vai fazer sessenta no ano que vem.

— Esse povo é tão bizarro, né? Parece que estão trapaceando o relógio biológico.

— Eu acho legal. Você não gostaria de aparentar metade da sua idade?

— Acho confuso demais. Imagine só, ela deve ter assistido alguns destes filmes que estão na sua parede, quando lançaram!

— É… Talvez. Às vezes também acho confuso.

— Você vai vê-la de novo?

— O quê?

— Perguntei se você vai vê-la de novo.

— Provavelmente. — Jennifer respondeu, mas a resposta que passou por sua cabeça foi ‘o quanto antes’.

— Se Alice tivesse ido ontem, ficaria uma fera.

— Que besteira, por quê?

— Você e Anna conversaram a noite toda.

— No dia que alguma mulher disser o que eu posso ou não posso fazer, será a quarta guerra. Acredite. Quer café?

— Achei que você estivesse fazendo o almoço.

Jennifer virou-se na direção dela com uma xícara na mão e sorriu.

***

Uma longa semana arrastou-se como uma tartaruga contemplativa. No porto as coisas estavam tranquilas. Pouco trabalho, poucos navios aportando.

Tirou a quarta-feira para ajudar seus vizinhos que tiveram que desocupar o prédio recém demolido pela milícia Titan, episódio este que quase custou sua vida. Jennifer estava frustrada por não ter conseguido evitar que as máquinas derrubassem suas casas, podia ter recrutado outras pessoas para engrossar o coro, ou então ter feito barricadas. Mas o sentimento era dúbio quando pensava que toda aquela aventura, trem, gárgulas, Anna… Nada teria acontecido se não houvesse daquela demolição.

No final da sexta-feira, saiu para correr, como fazia quase diariamente. Ia até onde um dia já havia sido sua casa, a três quilômetros do seu lar atual. Naquela sexta correu no final da tarde, com o sol baixando atrás de si. Mas mudou o percurso, pegou a rodovia e seguiu o mesmo caminho que o ônibus amarelo havia tomado na semana passada.

Enquanto corria, tentava recordar-se do que havia acontecido dentro do veículo. — Meu Deus, foi tão rápido… — Passou pelo ponto onde havia tomado a decisão de reagir e abordar o segurança e o motorista. Chegou ao local onde o ônibus havia saído da estrada. Parou e pôs se a observar, ofegante. Ainda eram visíveis no asfalto duas marcas escuras de pneus. E ela sabia para onde essas marcas apontavam.

Levou a mão à testa, protegendo os olhos do sol que se esgueirava. Permaneceu olhando para o horizonte por alguns instantes. Percebeu que a casa de Anna não podia ser avistada dali. Teve um impulso momentâneo de ir até lá, mas desistiu, não parecia uma boa ideia aparecer sem avisar. Virou-se, voltou a correr de volta para casa. Pensou em como não havia sido muito inteligente quando teve o ímpeto de ir até a casa dela pelo matagal, e não pela estrada que dava acesso, riu de si mesma.

Jennifer acordou cedo no sábado, contra sua vontade. Tinha um compromisso logo no início da manhã no porto, com um novo cliente. Passou a tarde limpando o apartamento, preguiçosamente. No início da noite Becca apareceu, a convidando para ir num bar em outra cidade.

— Hoje não vai dar, mas semana que vem pode contar comigo.

— Não tá a fim de sair hoje?

Jennifer demorou um pouco para responder, terminava de arrumar a cozinha.

— Não… É que já tenho um compromisso.

— Ah é? Casual, romântico ou chato? — Becca sorriu.

Jennifer não respondeu de imediato, quando se virou para responder, Becca interrompeu, como se tivesse acabado de ter uma ideia.

— Não vai me dizer… — Sorriu surpresa. — Você vai sair com a híbrida de novo??

— Não é legal você ficar a chamando assim, ela tem nome.

— Tá bom… É que ela parece tão… Entediante, com cara de poucos amigos.

— Quem sabe você mude de opinião. Gostaria de inseri-la no nosso círculo de amizades.

— Mas ela é uma híbrida, Jenny, não vai ser bem vista, você sabe disso…

— Bom, eu não tenho preconceito com ninguém.

— Você que sabe… Vou lá me arrumar para a noitada. Hoje promete, disseram que vai ter tequileiro. Ou tequileira, como você preferir. — Terminou com um sorriso malicioso.

Jennifer se aprontou logo em seguida, no melhor estilo jeans e camiseta. Ficou alguns minutos frente ao espelho decidindo se prendia ou soltava o cabelo. Resolveu prender. — É melhor na hora de pôr o capacete. — Pensava.

Ao ouvir a buzina, nem foi verificar se realmente era Anna, vestiu rapidamente uma jaqueta de couro marrom e desceu as escadas.

— Boa noite, garota. — Anna a cumprimentou graciosamente, entregando seu capacete.

— E então, qual nosso destino?

— Um lugar com uma boa vista.

Seguiram pelo lado oposto da rodovia, até o que aparentava ser um pequeno povoado junto ao mar. A guerra parecia não ter chegado até lá, as casas eram pequenas e simples, mas harmônicas, charmosas, intocadas. Pararam na frente de um bar rústico, com redes de pesca penduradas em toras de madeira. Desceram da moto, mas não retiraram os capacetes, logo perceberam que estava fechado.

— Que pena, parecia um bom bar, podemos voltar outro dia… — Jennifer amenizava o desapontamento de Anna.

— Suba, vou te levar em outro lugar que também tem uma bela vista, e com certeza estará aberto. — Anna gesticulou com a cabeça para que montasse na moto.

Fizeram o caminho de volta e então Jennifer se deu conta de onde estavam indo. Entraram no caminho que levava à casa de Anna.

— Sua casa. Melhor vista impossível! — Jennifer exclamou ao pararem a moto, na frente à construção sombria.

— É o melhor que posso proporcionar hoje. Só tenho cerveja americana, você bebe?

— A nacionalidade para mim é o de menos. — Brincou.

Anna percebeu a dificuldade que Jennifer estava tendo para soltar a tira do capacete e foi ajudá-la. Sem intenção, tocou de leve na mão dela.

— Seus dedos estão arranhados. — Notou Jennifer.

— Sim. Trabalho braçal.

— Qual, aquele trabalho ultrassecreto?

Anna não respondeu, e finalmente tirou o capacete de Jennifer.

— Venha, me ajude aqui na cozinha.

Do lado da casa havia uma pequena escada de madeira que dava acesso à praia. Ao lado da escada, um banco antigo de ferro curvado. Sentaram-se nele, colocaram algumas latas de cerveja no chão, sob o banco.

— Eu acordaria de bem com a vida todos os dias se tivesse esta vista do meu quarto.

— Você acaba se acostumando.

— Mas nunca deixa de apreciar, não é mesmo?

— Impossível ignorar essa imensidão verde no meu quintal.

— No verão deve ser uma delícia fazer festas aqui.

— Deve. Mas não que aconteça…

Continuavam olhando nostalgicamente para o mar, bebendo suas cervejas. A noite não estava fria, apenas uma leve brisa vinha de vez em quando do mar, que estava calmo. Anna olhou de lado, com um ar pesaroso.

— Sinto pelo passeio frustrado de hoje… Estive naquele bar há pouco tempo, tinha certeza que estaria aberto.

— Não duvido que seja um bar interessante, mas vou ser sincera com você: não tenho do que reclamar. Tenho ótima cerveja, paisagem e companhia. O que mais preciso?

Ouvir isso deixou Anna mais à vontade. Permitiu-se olhar sem pressa para Jennifer, sentada ao seu lado, entretida pelas ondulações do mar.

— Como está seu ombro? — A questionou.

— Furado. Mas já melhor do que semana passada. E os seus ombros?

— Cicatrizando. Foi ao médico?

— Não. Não precisei. Você fez um bom trabalho. — Jennifer refletiu.

— Você teve sorte, poderia ter sido mais para baixo, ou poderia ter piorado bastante naquela noite. E nem teríamos para onde te levar.

— Tive sorte de ter chegado viva em casa. Na verdade, todos nós tivemos sorte em invadir a casa da última pessoa solícita da face da terra. Claro que não pensei isso quando você me deu um mata leão e trancou minha respiração. Mas eu entendo… Deveríamos ter tocado a campainha primeiro.

Ficaram em silêncio por um instante.

— Eu estava na oficina, que fica anexa a casa. Criei uma passagem dela para a cozinha. Quando ouvi um barulho fui averiguar. Vi você entrando, na frente de todos, me posicionei atrás da pilastra e fiquei esperando você passar por mim.

— E aí deu o bote.

— Certeiro. Não foi?

— Certeiro. Não sei como os outros não saíram correndo em pânico. Acho que congelaram de medo.

— Eles são seus amigos há muito tempo?

— Mais ou menos. São meus vizinhos. Apenas Becca é amiga de longa data.

— Ela parece gostar bastante de você.

— Espero que sim, é a minha melhor amiga. — Rebateu Jennifer.

Anna pegou mais duas latas de cerveja e abriu, entregando uma para Jennifer.

— E seus pais, onde estão agora? — Indagou Anna.

— Já se foram. Durante a guerra.

— Sinto muito… Desculpe falar disso.

— Não, não se desculpe, já não tenho problemas com esse assunto. Aconteceu com tanta gente, não é?

— Sua casa foi bombardeada?

— Foi incendiada na verdade. Mas isso foi tempos depois. Eles estavam na universidade trabalhando, jogaram um bom número de bombas. Bom, você já deve ter visto como ficou lá, não sobrou muita coisa.

— Você perdeu sua mãe e seu pai no mesmo dia?

— Sim…

— Nossa… Sinto mesmo por você… Quantos anos você tinha? — Anna lançou um olhar doloroso para Jennifer.

— Quase quinze.

— E o que você fez? Não foi morar com algum parente? Tem irmãos?

— Não… Me virei. Não tenho parentes na cidade.

— Se virou com apenas quinze anos? Como conseguiu?

— Já ouviu falar que a necessidade é a mãe da invenção? — Lançou um sorriso torto para Anna.

Permaneceram caladas por alguns minutos, ambas observavam o mar serenamente.

— E você tem irmãos? — Perguntou Jennifer.

— Tenho um irmão, Andrew, o caçula.

— Mas não mora com você.

— Não. Eu não sei o paradeiro dele.

— Sumiu na guerra?

— Foi. Mas sumiu por vontade própria. Hoje em dia não faço ideia de onde ele esteja, nem se está vivo…

— Ele nunca mandou notícias?

— No começo sim, mandava cartas dos lugares onde estava. Sempre um lugar diferente. Mas não recebo nada há mais de cinco anos.

— Talvez ele tenha desistido de enviar notícias por não ter notícias de você, já que ele estava sempre em lugares diferentes.

— Essa é a teoria que eu quero acreditar. Mas não é a mais provável…

— Quem sabe um dia ele apareça na sua porta. Ou então você descubra onde ele enfim resolveu morar. Talvez esteja casado, com filhos… Já pensou? Você titia.

Anna apenas sorriu de leve. Continuaram bebendo noite adentro, enquanto a conversa deslizava de forma suave, leve.

— Acho que ainda não encontrei minha vocação. — Desabafava Jennifer. — Quando era pequena achava que seria cantora ou tocaria em alguma banda. Teve um tempo que eu queria ser atriz, mas ao mesmo tempo queria ser detetive.

— Uma atriz detetive talvez?

— Seria uma combinação interessante não acha?

— Combinar profissões é sempre interessante.

— Como você faz…

— Sim, como faço. Mas não é uma profissão, é apenas uma prestação aleatória de serviço à sociedade.

— Seu segundo ofício?

— Sim. — Anna hesitou um pouco antes de continuar no assunto. — É algo esporádico.

— Mas pelo jeito que você fala, deve ser mais divertido que seu primeiro ofício, na forja.

— É mais perigoso.

— Quase tudo que é divertido é perigoso, não é?

— Quase tudo… São serviços arriscados, é isso que eu faço.

— De qual tipo? Limpar vidraças de arranha-céus?

— Não. Mas isso seria divertido também. — Rebateu Anna.

— Você é matadora de aluguel?

Anna riu.

— Agora você está um pouco mais quente.

— Estamos brincando de quente ou frio? Adoro!

Anna olhou fixamente para Jennifer, e continuou.

— Eu tenho um amigo que me repassa algumas missões. Geralmente serviços noturnos. Como pode imaginar, não são coisas lícitas.

— Está começando a ficar interessante. Que tipo de coisas?

Anna se despojou no banco, se inclinado para trás, antes de continuar.

— Às vezes é apenas alguma conversa mais séria com alguém, para obter informações para terceiros. Às vezes preciso pegar de volta alguma coisa que foi furtada. Ou então sabotar alguma ação criminosa, dar alguns sustos, evitar alguma coisa.

— E às vezes as coisas esquentam.

— Sim. Alguns casos mais complicados envolvem resgate de algum refém, ou silenciar alguém…

— Você mata essas pessoas??

— Não. Eu evito esse tipo de serviço.

— Mas já matou, suponho.

— Não é meu objetivo.

— Nossa, deve ser uma adrenalina e tanto, não?

— É perigoso, cansativo, e pode ficar violento. Uma boa aventura às vezes. Mas nem sempre sai conforme o planejado.

— Me leva junto qualquer dia desses?

— Claro que não. — Respondeu rispidamente.

— Quando aparecer alguma missão mais leve, me leva vai. Prometo não atrapalhar. Fico na sua retaguarda.

— Jennifer, é realmente perigoso, não é diversão. — Anna olhava séria.

— Eu sei que não, eu vou e ajudo você, te dou cobertura, sei lá, alguma coisa do tipo. Me leva vai.

— Não.

— Tá, não precisa decidir agora, pense sobre o assunto.

— Não tenho o que pensar, sério.

— Já matou outras gárgulas? — Ignorou Jennifer.

— Já… Alguns.

— E Titans?

— Somente Titans. Eu só aceito missões contra Titans que pertencem a milícias ou que prestam algum serviço a eles.

— Por quê?

— É minha condição. — Desconversou.

— Nunca fez nada contra humanos? Nem híbridos?

— Não. Milícias de Titans são a escória da sociedade, não acha?

— De certa forma… São sim. Eu gostaria de dar uma boa surra naqueles Titans que derrubaram o prédio dos meus amigos.

— Quem sabe um dia eles caiam na minha lista…

— Daí você TEM que me levar ok?

— Prometo pensar no assunto.

Jennifer deu um sorrisinho vitorioso e espojou no banco, bocejando.

— Você parece com sono. — Anna respondeu, alguns minutos depois.

— Precisei acordar cedo hoje, um saco.

— Levo você em casa. Quer ir?

— Por mim ficaria aqui até o sol nascer, mas o sono está pegando.

— Vamos, vou lá pegar os capacetes.

Capítulo 4 – A primeira missão a gente nunca esquece

Sexta-feira chegou e Jennifer não parecia animada em atender o convite de Becca para sair e beber. Quando Anna a deixara em casa no sábado que passou, não havia prometido nem mencionado nenhum outro compromisso com ela.

Durante a semana havia dedicado várias horas relembrando a conversa que havia tido naquela noite junto ao mar, se algo que dissera poderia ter causado algum incômodo.

— Amanhã, amanhã vamos ao O’Reyes e prometo beber todas com você. — Respondeu para Becca, quando esta bateu à sua porta no início da noite, a convidando.

Vestiu seu velho moletom cinza que usava para dormir e pôs-se embaixo do edredom, no sofá, para ver TV. Era quase meia-noite, Jennifer iniciava um cochilo, quando foi acordada com o som de uma buzina vindo lá de baixo.

Jogou o edredom de lado, que voou do sofá, e correu para a janela. O coração bateu acelerado, de susto e surpresa. Enxergou Anna, com o capacete em punho, olhando para cima. Calça e botas pretas como de costume, casaco de couro curto, com uma blusa cinza por baixo, e um lenço preto no pescoço. Lá do alto, seus cabelos pareciam negros como aquela noite.

Gesticulou com o dedo indicador, pedindo um minuto. Prendeu o cabelo, vestiu-se rapidamente com sua calça e jaqueta jeans, moletom verde com capuz, tênis colorido.

Jennifer chegou ofegante e Anna lançou um sorriso culpado.

— Te acordei?

— E quem se importa? — Sorriu Jennifer.

— Vamos, coloque e suba. — Anna lhe entregou o capacete.

— E eu poderia saber onde vamos?

— Te conto quando chegarmos.

Seguiram pela rodovia até a cidade vizinha. Entraram numa rua cheia de galpões e pequenas fábricas, algumas aparentemente desocupadas. Anna parou a moto ao lado de um galpão vazio, o telhado de zinco havia despencado.

— Chegamos? O que tem nesse galpão fantasma? — Questionou Jennifer, enquanto descia da moto e dava uma boa olhada ao redor.

— Aqui nada, apenas um bom esconderijo para a moto.

— Não vai me dizer que… Estamos numa missão?? — Falou eufórica.

— Você não me pediu para te levar? Aqui estamos. E deixe o capacete em cima do banco.

— Porra, você me trouxe mesmo!

— Tem certeza que quer continuar? Você pode esperar aqui se não estiver segura o suficiente.

— Tá brincando? Nunca estive tão pronta! Qual é nossa missão secreta?

— Recuperar um objeto, de uma milícia.

— Roubado?

— Sim… Dependendo do ponto de vista…

— Qual é o objeto?

— Uma mala de pequeno porte, preta.

— O que tem dentro?

— Oitenta mil. Dinheiro de extorsão, que para mim é a mesma coisa que dinheiro roubado.

— E como você tem certeza que esse dinheiro ainda estará dentro desta mala? Pode ter ido para um cofre. Ou fizeram algum pagamento…

Caminhavam cuidadosamente por trás dos galpões, Anna observava atentamente.

— São as outras possibilidades.

— E se isso tiver acontecido?

— Vamos embora sem o dinheiro. Nem sempre é possível concluir uma missão.

— Realmente você é uma mulher prática.

— Shhhh… Tome, guarde essa arma com você. — Sussurrou Anna, entregando uma pistola para Jennifer. Colocou as duas mãos nos ombros dela, para fazer o último sermão.

— Mas só use em caso de emergência, real emergência. — Frisou. — É aqui que entramos. Escute: você vai ficar atrás de mim o tempo todo, entendeu? Não é na frente, do lado, nem mais ou menos do lado, é atrás de mim. Pelo tamanho do lugar deve ter no máximo um ou dois seguranças tomando conta. Talvez alguns cachorros. A tesouraria fica nos fundos. Entramos silenciosamente, procuramos a mala apenas nesta sala, e se não encontrarmos em cinco minutos, saímos. Pelo mesmo lugar. Alguma dúvida?

— Se aparecer alguém?

— Deixe comigo. Eu neutralizo. Você, apenas fique…

— Fico atrás de você, ok, entendido.

Anna manteve o contato visual, hesitante.

— Não quer me esperar na moto mesmo?

— Não. — Respondeu Jennifer com convicção.

— Não vou me arrepender por ter trazido você?

— Também não.

— Veja, se eu levantar a mão direita, você para imediatamente, fica imóvel, estática. Se eu apontar para algum lugar, significa que quero sua vigilância focada naquele local. Entendido?

— Totalmente. Algo mais?

— Quando eu disser corre, você corre. Corre pra valer, mais que o Forrest Gump, está claro?

— Claro como água.

Anna abriu um cadeado e adentraram o galpão, uma construção de médio porte, feita de blocos de concreto, sem pintura. Guardou a chave mixa que havia utilizado e começou a caminhar, empunhando uma adaga. Seguiram passo a passo por um corredor estreito, cercado de divisórias brancas e três portas pelas laterais do caminho, até chegarem numa porta aberta no fim do corredor, que dava para um espaço amplo, no cerne do prédio.

Neste espaço havia pouca iluminação, parecia um labirinto de pallets e caixas de madeiras. Anna checou todo o local até onde sua visão alcançava, e gesticulou para que Jennifer a seguisse. Contornaram vagarosamente as caixas, abaixadas, e atravessaram o salão. Do outro lado havia duas portas, novamente em divisórias de madeira branca. Escolheram a porta da direita, Anna girou a maçaneta e percebeu que não estava trancada. Logo, imaginou, que se a outra porta estivesse fechada com chave, teria mais chances de ser a tesouraria. E foi o que aconteceu, Anna arrombou silenciosamente a fechadura da segunda porta, o ambiente também estava escuro, com poucos raios de claridade natural atravessando as persianas, como dedos finos e compridos de luz.

Após dois ou três minutos procurando pela mala, Jennifer forçou a porta de um armário de aço e encontrou o objeto procurado, fazendo um pouco de ruído.

— Achei! — Sussurrou Jennifer, feliz.

— Shhhh… — Anna apenas indicou a porta, com a cabeça.

Anna saiu na frente, Jennifer seguia atrás, o mais próximo possível dela, e carregava a pequena bagagem, agarrando com as duas mãos contra o peito. Foram atravessando lentamente o labirinto no caminho de volta, cautelosas.

Devido a escuridão, algumas caixas pareciam apenas sombras. Anna apontou para o lado oposto de onde estavam, para que Jennifer ficasse alerta. Chegaram até o final do espaço amplo, Anna parou ao lado da porta aberta, inclinou a cabeça e deu uma olhadela para o corredor afunilado que teriam que atravessar. Podia ver três portas fechadas ao longo do corredor, todas elas com uma abertura em vidro no alto, passariam na frente destas portas.

Caminharam pela frente da primeira porta fechada, abaixando-se por causa da janela de vidro. Quando estavam passando pela segunda porta, uma luz se acendeu na terceira porta, vindo do interior da sala a que dava acesso. Jennifer, assustada, exprimiu um palavrão curto e abafado, que faz com que Anna se virasse rapidamente, colocando a mão em sua boca demandando silêncio.

Com a mão ainda tapando a boca de Jennifer, Anna se virou e observou atentamente a porta acesa.

— Passe na frente da porta, eu fico e pego ele de surpresa, por trás.

— Mmumumm mmm.

Jennifer grunhiu algo indecifrável, então Anna a soltou.

— Passo me abaixando? — Enfim conseguiu falar.

— Não, de pé, para que ele o veja.

— Eu vou ser a isca?

— Apenas vá.

Jennifer caminhou lentamente pela frente da porta e ficou aguardando próximo à saída. Alguns segundos depois a porta se abriu e um segurança saiu com uma arma nas mãos, se virando na direção de Jennifer. Era um homem de meia idade, alto e magro, com os cabelos grisalhos nas laterais. Anna o agarrou por trás, aplicando uma gravata. Ele lutou tentando se desvencilhar, mas foi ficando sem ar e caiu sufocado, por fim.

— Você o matou?? — Jennifer se aproximou, aterrorizada, apontando a arma para o homem caído no chão.

— Só está desacordado. E guarde a arma. Vamos sair logo, esse desmaio não vai durar muito tempo.

Seguiram de moto até a casa de Jennifer. Agarrada firmemente à cintura de Anna, tremia por causa da adrenalina.

Ela desceu e entregou a valise, depois prendeu seu capacete na lateral da moto.

— Foi como esperava? Parece um pouco assustada. — Perguntou Anna.

— Foi moleza. Minhas mãos tremendo é apenas ilusão de ótica.

— Vai querer ir novamente ou foi risco demais para você?

— Quero ir em todas! Sério, eu prometo que não faço barulho.

— É arriscado garota, não é só aventura. Mas prometo pensar a respeito… Vai ficar bem?

— Vou. Mas sei que não vou dormir tão cedo… Com toda essa adrenalina circulando no meu corpo. Já sei! Sobe comigo, ficamos lá conversando até meu sono vir. Que acha?

Anna demorou para responder.

— Tá bom, te faço um pouco de companhia. Mas se você não dormir até o sol nascer, eu desisto, ok?

— Se você cantar algo quem sabe eu durma mais rápido. — Respondeu rindo, já subindo as escadas.

Chegaram até a porta do seu apartamento.

— Só cuidado para não fazer barulho, pode acordar meu marido e meus filhos. — Disse Jennifer, enquanto colocava a chave na fechadura. Anna apenas olhou atônita para ela.

Jennifer abriu a porta, retribuiu o olhar e explodiu numa risada.

— Moro sozinha, pode fazer barulho se quiser. Entre, fique à vontade. — Completou, rindo.

Anna quase riu.

— Pode não parecer, mas estou rindo muito. Por dentro.

— Mas você precisava ter visto a sua cara assustada… — Jennifer se encaminhou a cozinha. — Quer beber o quê?

— Somente água mesmo. — Respondeu, sentando no sofá, olhando ao redor.

Voltou à sala, entregou um copo à Anna. Ligou a TV e sentou-se no sofá também, ao lado dela.

— Bem-vinda ao meu cafofo! Não chega aos pés de sua mansão, mas dá para o gasto.

— Gostei da decoração. — Falou apontando para os pôsteres de filmes emoldurados nas paredes.

— Legal né? Nem parece que começou como uma solução para esconder as manchas de infiltração…

— Mora aqui há muito tempo?

— Uns cinco anos. Becca me chamou para vir para cá, ela mora aqui na porta da frente.

— Deve ser bom ter vizinhos.

— Você nunca teve não é?

— Nunca.

— Não se sente só naquela casa imensa?

Jennifer se via novamente instigada em saber mais sobre Anna, era inevitável. Tudo que Anna falava, Jennifer absorvia como informações preciosas, como gotas da sua existência. Não era um desejo consciente, mas como se desvendar aquela mulher misteriosa e tão serena fosse seu novo objetivo de vida. Talvez ela visse em Anna uma fuga da mediocridade que sua vida havia se tornado.

— É como o mar no meu quintal, já me acostumei.

— Mas não há nada que possa ser feito com o mar, porém viver sozinha é uma escolha.

— Exatamente, é uma escolha.

Jennifer entendeu o que ela quis dizer, mas não compreendia o porquê. Quem escolhe viver só?

— E essas missões, qual é o lance? É pela grana ou para animar suas noites?

— Tem bons pubs na cidade para animar as noites, não acha? E a grana não é lá grande coisa. A propósito, estou devendo sua parte do trabalho de hoje.

— Não, sem sombra de dúvidas estou nessa somente pela aventura. Compre cervejas para nós com minha parte. Por falar nisso, você quer uma cerveja?

— Estou bem com a água.

Jennifer tentou prestar atenção no filme que passava, mas logo quebrou o silêncio.

— Qual a missão mais chata que você já se meteu?

— Geralmente as de monitoramento são um pouco entediantes.

— Observa o que?

— Pessoas. Movimentação. Movimentação de pessoas. Ou a ausência delas.

— E a mais perigosa?

Anna refletiu um pouco, antes de responder, hesitante.

— Já me meti em alguns apuros…

Mas Jennifer não se contentaria com sua resposta vaga.

— Já se feriu?

— Inúmeras vezes.

— Gravemente?

— Não. Próximo disso, talvez.

— Já levou tiro?

— Alguns… Mas nenhum certeiro.

— Já matou humanos?

— Espero que não.

— Já levou outras pessoas com você?

— Não, você foi a primeira. Inclusive… Sinta-se lisonjeada.

Jennifer sorriu como uma criança que fez algo errado mas não se arrepende.

— Sério? Que honra!

— Que desatino, isso sim…

— Não fale assim, deu tudo certo, não deu?

Anna a olhou de relance.

— Às vezes dá errado.

— Mas é melhor ter alguém para ajudar e fazer companhia, não acha?

— Deixa pensar… Ãhn… Não. — Retrucou Anna.

— Mas imagina só, você sozinha, contra vários brutamontes…

— A noite enfraquece os homens. — Interrompeu Anna.

— Eu sei dirigir motos.

— Bom para você.

— Já dirigi uma parecida com a sua.

— Você tem idade para isso?

Jennifer abriu a boca, indignada.

— Quantos anos você acha que eu tenho?

— Oito? Nove?

Jennifer balançou a cabeça para os lados, sorrindo.

— Tenho vinte e dois.

— E juízo de dez?

— Me recuso a continuar nesse assunto. — Disse, com convicção.

Jennifer virou-se, ajeitou uma almofada e deitou no sofá, passando as pernas por cima das pernas de Anna.

— Posso? — Indagou Jennifer, antes de abaixar as pernas nela.

— Claro, sinta-se em casa. — Brincou. Ajeitou-se no sofá também, desconfortável.

— Já vi esse filme, ela tem câncer e morre no final. — Falou Jennifer já sonolenta, com dificuldade em manter os olhos abertos.

— Hum… Obrigada pelo spoiler.

Pouco a pouco o sono foi vencendo a determinação de Jennifer em continuar acordada, queria aproveitar a agradável visita, mas enfim adormeceu.

Anna não conseguiu simplesmente ir embora. A observou dormir por alguns minutos. Viu-se velando seu sono, examinando cada traço da sua fisionomia. Lembrou de uma frase que havia lido certa vez, ‘não se pode odiar ninguém que você tenha visto dormindo.’ Imaginou que realmente seria impossível odiar aquele ser que a encantara. Mas então percebeu que estava perdendo o domínio sobre suas ações. Tantas regras quebradas em tão pouco tempo. Se irritou consigo mesma. Sequer havia repousado suas mãos sobre as pernas de Jennifer, por receio. Percebeu que havia se desacostumado a conviver com outras pessoas. Não sabia mais distinguir o que era demonstração de afeto, do que seria apenas um gesto automático, corriqueiro.

Repousou suas mãos nas pernas de Jennifer, mas apenas para erguê-las, cautelosamente. Levantou-se do sofá, pegou um cobertor azul que estava no outro sofá e a cobriu.

— Boa noite garota… — Anna sussurrou, lançando um olhar afetuoso.

Capítulo 5 – A lince e a raposa

Passavam alguns minutos das três horas de uma madrugada de quarta-feira. Era final de setembro e a temperatura estava amena. O céu, completamente claro e estrelado.

Anna subiu rapidamente as escadas do prédio de Jennifer e bateu com energia à porta. Uma Jennifer sonolenta e confusa abriu a porta, sem atinar sobre o que estava acontecendo.

— Quer ir numa missão?

— Tipo… Agora?

— Já. — Respondeu, com vigor.

— Claro, não tinha nada melhor para fazer mesmo… Entre, vou me trocar.

— Você disse que queria ir numa missão novamente. Achei que você se interessaria por essa. Envolve uma gárgula.

— Gárgula? Fez certo em me chamar. — Falou alto, de dentro de seu quarto.

— Mas você sabe que nesse caso todo tempo é precioso.

Jennifer vestiu-se rapidamente. Caminhou para a porta, parou em sua frente, olhando para Anna.

— Vamos chutar a bunda de uma gárgula! — Sorriu maliciosamente.

Andaram na moto alguns quilômetros rumo ao interior da cidade, chegando num pequeno sítio, rodeado por inúmeros pinheiros, parecendo uma floresta negra. No local, dois homens aparentando serem agricultores as aguardavam impacientes, de pé, em frente a uma pequena casa de dois pavimentos, branca, envelhecida. Pareciam aliviados em vê-las.

— Carl Smith, é algum de vocês? — Anna perguntou.

— Sou eu, e esse é meu irmão Brian. Foi Max que mandou vocês, não foi?

— Foi sim. Me digam, tem quanto tempo desde o ocorrido?

— Então você sabe o que aconteceu?

— Vagamente. Mas o que me interessa é saber quanto tempo possivelmente ainda temos.

— Não sei exatamente, acho que era umas duas da manhã quando atirei naquele desgraçado. Eles estavam roubando minha casa! O que eu poderia fazer? — O homem de barba arruivada, que agora era um alvo para os Titans, parecia desesperado.

— Péssima decisão. Você deixou um fugir, esse foi seu erro. — Anna respondeu, friamente.

Jennifer, apesar de já ter enfrentado gárgulas, parecia preocupada. Olhava o céu, e olhava ao redor.

— Vamos entrar, temos duas espingardas lá dentro. — Um dos homens falou, já virando na direção da casa.

— Não. Vamos para algum lugar aberto. Peguem as armas lá dentro e seguiremos para o descampado mais próximo.

Voltaram cada um empunhando uma carabina de dois canos, antigas.

— Vamos para o rio, lá tem uma clareira. — Um deles orientou, já caminhando na direção do riacho.

— Pode ser. Venha Jennifer. Não saia de perto de mim, entendeu? Tome, fique com essa adaga. — Anna não estava usando casaco, por isso era visível o colete-coldre que usava por cima da blusa preta. Eram amarras de couro, como de investigadores da polícia, porém ao invés de pistolas, ela carregava duas adagas.

Jennifer apenas assentiu positivamente com a cabeça.

— Você já fez isso antes, não fez? Digo, matar esses animais. — Indagou o ruivo.

— Já sim, já matamos gárgulas antes. — Jennifer se adiantou respondendo, enquanto caminhavam entre as árvores, altas e juntas.

Anna apenas olhou rapidamente para ela, sorriu de leve com o canto da boca, achava graça da empolgação de sua parceira, que poderia soar como ingenuidade. Chegaram até um rio de águas claras e pouca correnteza. A lua pincelava alguns riscos prateados nas águas calmas. Havia uma espécie de praia entre as árvores e o rio naquele ponto, um delta de areia.

— O plano é simples: assim que ela tocar o chão vocês se afastam e deixem o trabalho pesado comigo. Se forem atirar, atirem no pescoço dela. Na dúvida, não atirem, apenas se protejam. Está claro?

— Ele vai vir para cima de mim?? E se ela vier? — Carl perguntou, assustado.

— Fuja. Se sentirem medo, fujam, corram para a sua casa. Vamos dar um jeito aqui.

Jennifer já sentia que existia de fato uma parceria ali. — Deixe com a gente. — Pensava confiante.

Por volta das quatro e meia da madrugada finalmente a criatura foi vista, planando lentamente, rodeando, como um abutre cortejando sua presa. Anna e Jennifer ficaram em posição, aguardando.

— Atrás de mim, Jennifer, essa é nossa regra número um, combinado? — Anna abriu o braço, colocando Jennifer para trás dela.

— E se a coisa ficar feia para nós? — Jennifer se aproximou do ouvido de Anna, e perguntou baixinho.

— Você corre. — Anna lançou um olhar severo.

Assim que a gárgula chegou ao chão, um dos homens efetuou um disparo na direção dele, porém o tiro passou mais próximo de Anna do que do animal, a fazendo ouvir o zunido da bala.

— Chega de tiros! — Bradou Anna furiosa para eles, que estavam próximos das árvores, acossados.

Essa gárgula parecia ser um pouco maior que os anteriores, Anna e a criatura travaram uma batalha de golpes no vazio e investidas bloqueadas. Jennifer tentou um único golpe, mas teve sua adaga arrancada das mãos, voando para longe. Parecia uma luta coreografada, com exaustivas investidas por parte de Anna, que tomava algumas pancadas aleatórias. Então chegou o momento crítico, quando ele armou suas asas, como já era esperado. As pontas, torneando lanças.

Deu um passo para trás e abriu suas asas escuras, pareciam feitas de pele de crocodilo. Com as asas no ar, virou-se para os dois camponeses que assistiam toda a luta e emitiu um ganido alto, agudo. Eles não titubearam em fugir. Correram mais depressa que suas pernas podiam suportar, apavorados com a investida daquele demônio. Jennifer também não havia encontrado ainda uma oportunidade de lutar, era uma mera espectadora naquela dança aterrorizante, andando de um lado para outro.

Anna aproveitou para investir um golpe na altura do pescoço dela, mas teve sua mão bloqueada e sua lâmina caiu no rio. Jennifer prontamente posicionou-se atenta na margem, olhava para dentro da água, procurando pelo punhal. Vasculhava através da água cristalina o leito arenoso do rio, no local onde havia visto a adaga afundando.

Alguns instantes depois Jennifer se aproximou de Anna e lhe entregou de volta sua arma, ainda molhada. A gárgula num golpe rápido, de baixo para cima, arremessou Jennifer para trás, atirando-a no rio. Anna, já munida de sua adaga, a cravou na jugular com todas as suas forças, liberando um grito de raiva.

Anna sequer se certificou da morte da criatura, correu na direção de Jennifer, que assistiu o desfecho ainda dentro do rio.

— Você está bem?? Precisa de ajuda? — Perguntou Anna, preocupada.

— Só estou molhada, relaxa. — Jennifer saía lentamente da água, aliviada.

Chegou à margem e foi na direção do corpo jazido no chão, olhando de perto.

— Mais um bicho abatido! — Vibrou Jennifer.

— Finalmente… Já estava ficando sem ideias. — Retrucou Anna.

— Missão cumprida, então?

— Você não está com frio? — Perguntou Anna.

— Acredite, a água está uma delícia.

— Como você conseguiu pegar meu punhal? — Anna falou, o guardando em seu coldre.

— Simplesmente o apanhei.

— No rio? Mas você não estava sequer molhada quando me entregou.

— É que… Estava bem próximo da margem. — Respondeu Jennifer, hesitante.

— Não parecia ter caído próximo a margem. — Insistia Anna.

Jennifer ignorou a controvérsia, olhou para o céu e pode ver o sol surgindo, num amanhecer vagaroso, rosado. Virou-se na direção do rio e começou a tirar suas roupas molhadas.

— O que você vai fazer?? — Perguntou Anna, sem entender os planos dela.

Apenas de sutiã e calcinha, pulou nas águas convidativas, num local que formava um poção. A aurora surgiu trazendo um dia agradável de início de outono, quase uma despedida do verão.

Anna não podia fazer nada além de acompanhar Jennifer nadando despretensiosa de um lado para outro.

— Venha, pule também, eu não mentiria para você sobre o quão agradável está a água. — Convidou Jennifer.

— Não… Obrigada. Prefiro continuar seca e aquecida.

— Não seja ranzinza, já que estamos aqui vamos aproveitar essa oportunidade. Olha esse sol lindão nascendo aqui atrás. Você está perdendo!

— Estou muito bem aqui, obrigada.

— Ande, deixe seus rígidos protocolos de lado por um momento… — Falou com deboche. — Não tem ninguém vendo. — Jennifer gesticulava do meio do rio, a chamando.

Anna balançou a cabeça negativamente.

— Venha, mulher! Prometo não olhar. Vou virar para o outro lado, ok? Avise-me quando tiver entrado. — Continuava.

Sem acreditar no que estava prestes a fazer, Anna hesitou um pouco parando as mãos na barra da blusa, antes de tirá-la. Mas continuou o movimento, tirando o restante da roupa, permanecendo apenas com suas peças íntimas, como Jennifer.

Entrou devagar na água, caminhando na direção de Jennifer, parando atrás dela.

— Pronto, satisfeita?

— Eu que pergunto! — Respondeu Jennifer, virando-se com um sorriso aberto. Estava se esbaldando com a oportunidade de ver Anna naquela situação descontraída, a vontade e sem roupas. Espalmou a água, espirrando na direção dela. Saiu nadando de costas. Anna deu alguns mergulhos, parou, olhando ao redor. Tentou se recordar da última vez que havia feito algo parecido. Até mesmo o mar em frente à sua casa não a tinha há muito tempo.

— Formamos uma dupla e tanto, não acha?

— O quê?

— Eu e você, formamos uma dupla dinâmica, como Batman e Robin.

Ficaram em silêncio por um instante.

— Ou Dom Quixote e Sancho Pança. — Emendou Anna.

— Ou Tom e Jerry.

— Sherlock Holmes e Watson. — Rebateu Anna.

— Bonnie e Clyde.

— Asterix e Obelix. — Anna olhou para Jennifer, a desafiando a citar mais alguma dupla.

— Lennon e McCartney!

— Você é uma garota bem insistente sabia?

— E você só percebeu agora? — Afastava-se lentamente, fazendo movimentos com os braços para trás, displicentemente. Mas voltou a se aproximar de Anna.

— Anna?

— Sim?

— Obrigada por me trazer. E dar um pouco de emoção à minha vidinha monótona.

— Não se anime, ainda estou decidindo se tudo isso é uma boa ideia. — Retrucou, a encarando.

Jennifer finalmente saiu para a margem, jogando água novamente em Anna.

Anna saiu logo em seguida, viu que Jennifer começava a vestir suas roupas encharcadas, uma blusa cinza com mangas vermelhas, e a interrompeu.

— Pegue, vista minha blusa. — Falou entregando sua blusa preta também de mangas compridas.

— E você, vai colocar a minha camiseta molhada? Não seria muito justo…

— Eu costumo usar uma camiseta por baixo. — Virou-se e pegou uma regata branca no chão.

— Caramba! Que linda! — Jennifer exclamou.

Anna virou-se assustada, com a testa franzida.

— O que foi??

— Sua tatuagem.

Jennifer se aproximou.

— O que é?

— Ah… É um lince.

— Deixa eu ver. — Jennifer a virou de costas, segurando-a pela cintura. Observou de perto o desenho, era um grande lince estilizado em traços tribais negros, subindo suas costas alvas, ocupando boa parte da região.

— Caramba… É perfeita. — Jennifer falava, enquanto percorria os traços com os dedos.

Anna tentava disfarçar o arrepio que aqueles toques estavam causando, a interrompeu vestindo a camiseta.

— Faz muito tempo que estou criando coragem para fazer uma também. Mas vai ser na perna. A primeira delas. Quero umas cinco tatuagens ao todo. — Jennifer devaneava.

Antes que Jennifer vestisse o suéter, Anna reparou que ela usava um cordão prateado com uma medalha redonda. Na medalha, alguns símbolos arredondados, e uma forma de uma raposa por trás dos símbolos. Achou familiar.

— Esse seu cordão, tem algum significado? — Perguntou intrigada.

— O pingente? Acho que não. Não que eu saiba. Vai dizer que você também fabrica medalhas? — Respondeu sorrindo.

— Não… Não fabrico não.

— Meu avô que me deu, nem lembro quando, mas eu deveria ser bem pequena.

Terminaram de vestir-se e caminharam de volta para a moto, onde seguiram para casa. Jennifer podia sentir o corpo molhado e frio de Anna, enquanto na garupa da moto.

— Boa noite, Jennifer. Ou bom dia, sei lá. — Anna falou, a deixando na frente do seu prédio.

— Espere, deixe eu prender o capacete aqui. Ah, sábado é o aniversário de Bob, ele vai dar uma festa na casa dele, nada grandioso. Você vem?

— Talvez. Vou consultar minha agenda… — Zombou.

— Tá marcado para às oito, mas eu vou mais cedo para ajudar na arrumação. A casa dele é no fim da rua, número 280. Não chegue tarde.

— Nem sei ainda se vou.

— Claro que vai… Hey!

— O que foi?

— Eu poderia usar arco e flecha na próxima missão, o que acha?

— Vá dormir, Jennifer.

—- FIM DA AMOSTRA GRÁTIS —-

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