Escrita

Dados sobre a fácil e rápida tarefa de escrever uma história

“É fácil escrever um romance, qualquer pessoa pode sentar a bunda na frente de um computador e começar a teclar o que vier à cabeça.”

Muitas, milhares, trilhares, trocentas pessoas pensam dessa forma. Todas elas são leitoras.

Alguns dados utilizados foram retirados do meu site, o Lettera, outros foram de experiência própria e de colegas. Eu levo de 4 a 5 dias contínuos para produzir um capítulo (isso se o mundo parar de girar e eu conseguir escrever todos os dias, o que não acontece nem na época do NaNo, quanto mais em meses normais). Escrevo em média 18 dias por mês, numa média mensal de 22 mil palavras (se for um mês tranquilo). 2121, por exemplo, teve uma média de 4756 palavras por capítulo, bem acima da média do Lettera.

Se você é um leitor consciente, que sabe o quanto uma história leva tempo e dedicação, até chegar formatada, revisada, cheirosinha e bonitinha, na sua tela ou mãos, parabéns e obrigada, esse infográfico não é para você.

Mas se você acha que o autor leva o mesmo tempo para escrever que você leva para ler, engula esse infográfico abaixo:

Você sabia-

Published: janeiro 3, 2016 | Comments: 2

Como se prevenir de plágios

On-line Piracy Key

É chato, é bem chato quando um autor descobre que sua história está sendo copiada em outro site, sem sua autorização, e muitas vezes trocando nomes de personagens para despistar o plágio ou se adaptar à uma fanfic.

Várias autoras que conheço já passaram por essa situação, algumas até mais de uma vez. Eu tive uma dessas experiências (que eu saiba…), vi uma história se tornando fanfic do Fifth Harmony. Eu não sabia se chorava pelo plágio ou pelo fato de ser uma fanfic do Fifth Harmony, mas superei esse momento triste. Também já vi história minha virar PDF no 4shared, e isso também não é nada legal.

Se você escreve e publica na internet, você está correndo esse risco, não tem como evitar, mas podemos tomar alguns cuidados para evitar prejuízos financeiros (caso você tenha intenção de publicar sua história futuramente).

A resposta seria “não publique na internet”, então? Não, claro que não. Publicar na internet é a melhor forma de ganhar visibilidade e novos leitores, além da possibilidade de formar uma boa rede de contatos. Sem contar o feedback, que é maravilhoso.

Assim que você finalizar sua história, faça o registro de ISBN no site da Biblioteca Nacional (http://www.isbn.bn.br/website/solicitacao-de-numero-isbn), cada registro custa R$ 16,00. Mas para isso você precisa fazer o registro como editor autônomo, que custa R$ 235,00. Você pode também solicitar este serviço a alguém que já tenha registro no site, pagando um pouco mais (geralmente cobram de 40 a 50 reais por obra registrada).

Este registro não garante os direitos autorais da sua obra, até porque você não vai enviar sua história para o site em momento algum, o registro é apenas para o título da obra. Mas num possível processo contra o plagiador, esse registro conta bastante.

Uma forma ainda mais eficaz de provar que o texto é seu, é fazendo o registro/averbação diretamente num posto estadual da biblioteca nacional mais próxima da sua casa. Custa 20 reais por registro, e você precisa enviar o original impresso (seja pessoalmente ou por sedex para a sede no Rio). Esse processo é um tanto burocrático e lento, costuma levar 60 dias para sair o registro. Nesta página tem os endereços dos postos estaduais no Brasil: https://www.bn.br/servico/direitos-autorais/postos-estaduais

Como descobrir o plágio?

Contando com a sorte: se alguma boa alma reconhecer seu texto em outro lugar, e te procurar contando do plágio.

Procurando trechos no Google: Copie e cole algumas frases da sua história no Google, com aspas ao redor, e que seja um trecho onde nenhum nome é citado (porque alguns plagiadores trocam os nomes).

Como agir?

Em primeiro lugar procure o responsável pelo site onde o plágio aconteceu, solicite a exclusão do texto e expulsão do membro que fez a publicação. Eu recomendo também a abordagem ao plagiador, de forma cordial, porém rígida. Solicite a imediata exclusão e avise que se ocorrer novamente você tomará medidas legais.

Foi vítima de plágio?

Não desanime. Eu sei o quanto exige escrever um romance de centenas de páginas, e tudo que abrimos mão para ficar na frente do computador criando histórias, o tempo que poderia ser utilizado para lazer ou estar com entes queridos. Mas é só um pequeno percalço, tome as medidas necessárias e siga escrevendo, vale a pena.

Published: setembro 15, 2015 | Comments: 1

Para quem eu escrevo?

sonhoslucidos1_790

Escritores famosos soltaram frases de efeito do tipo “Escreva para você mesmo”, e por um momento ou dois eu acreditei neles.

Desculpe, não escrevo para mim, mas para quem tiver disposição e paciência para me ler. Para atingir pessoas. Para invadir vidas. Arrancar sorrisos. Despertar sentimentos, de várias naturezas. (Eu poderia escrever um post exclusivo sobre como já despertei raiva de leitores, mas fica para depois. Tá, vou apenas mencionar um capítulo chamado “Vermelho” da Lince e a Raposa, que rendeu uma chuva de comentários revoltados (com a vilã), e eu AMEI a reação dos leitores).

Eu escrevo para você, que frequenta meu blog. E para quem me conheceu no AbcLes. E para quem me conhece (oi, prazer, sou a Cris).

Para quem quer uma pequena fuga da realidade, quem deseja mergulhar num mundo fictício que nasceu de algum sonho maluco meu e se tornou um romance do mundo, de todos, porque minhas histórias também são suas.

Eu toco pessoas (no bom sentido) através da escrita. Duas, vinte, ou duzentas. Não importa, eu toco pessoas, eu faço a vida delas um pouquinho melhor, eu as distraio, as entretenho, e puta que o pariu, me sinto o Wolverine! Com mãos diferentes, mãos que deixam marcas nos outros. (Sim, eu estou encarando minhas mãos nesse momento).

A primeira crítica negativa pra valer surgiu quando coloquei um sexo polêmico no Amigos de Aluguel, uma menina me detonou e disse que estava desistindo de me ler (a Lai vai lembrar disso, eu fiquei passada e desabafei com ela), mas foi um teste interessante, minha primeira grande crítica negativa, e eu superei! Aprendi que não agradarei todos, mas venho agradando a maioria, e lhes fazendo bem. A sensação é incrível a cada reação positiva, é mais do que massagem no ego, é sentimento de dever cumprido. “Hoje eu fiz bem à alguém”.

Finalizo essa ode à escrita agradecendo à todos, todos que me leram, mesmo que apenas meus pequenos textos do Poem A Day, ou que leram meus romances de trocentas mil palavras, vocês dedicaram minutos, horas ou dias de suas vidas para ler algo que saiu da minha cabeça. Quer dizer, que saiu do meu coração, porque escrever (para mim) é amor puro, pleno, vem do coração.

2121 tá ficando pronto, e está tão lindo. É mais do que uma história de amor, é um tratado sobre aceitação e autoconhecimento, é sobre respeitar diferenças e entender que sua verdade não é absoluta. É sobre feminismo, sobre religião, sobre sexo, sobre prazer. É polêmico também. Tem cenas fortes, cenas densas e tensas. Tem flashbacks que reviram o estômago. Para quem um dia ler: abra sua mente antes de abrir o livro.

Sim, eu escrevo para você.

Published: janeiro 24, 2015 | Comments: 10

8 dicas para criar descrições

Descrição na medida certa. É o que almeja todo escritor que pretende colocar o leitor dentro da história, sem fazê-lo bocejar.

Trago minha tradução para este artigo sobre o assunto, o link para o original se encontra no final:

***

Quando for descrever, mais não necessariamente é melhor.

Quando for descrever, mais não necessariamente é melhor.

Seu personagem adentra uma sala, e você quer que seu público consiga ver cada detalhe, bem do jeito que está na sua cabeça. Leitores querem isso, certo? Você costuma ouvir as pessoas falando em como elas amam ler porque sentem como se estivessem dentro da história.

A tentação é de colocar seu personagem andando numa cena e notando todos os detalhes. As cortinas douradas. O telefone de discar. O cesto de lixo transbordando. O tapete felpudo. O sofá cor-de-rosa com um cadáver em cima.
Descrever é ótimo, mas grandes porções disso vão deixar sua história arrastada. Mesmo que você não esteja escrevendo uma trama acelerada, pausar para descrever cada novo detalhe cansará seu leitor.

Então como um escritor pode prover detalhes suficientes ao leitor, para fazê-lo sentir-se lá? Sem que ele sinta como se tivesse pressionado o botão de pausar da sua história?

  1. O fator POV do personagem. (POV: point of view, ponto de vista)

Quem é essa pessoa? É um homem ou uma mulher? Quais seus interesses?

Diferentes pessoas notam diferentes detalhes. Se um grupo caminhar na minha sala de estar, um pode notar os brinquedos dos gatos pelo chão, outro notaria a grande quantidade de filmes em cima do rack, e ainda um outro pode primeiramente perceber a grande TV.

Outra forma divertida de descrever é pensar através do ponto de vista das inseguranças do personagem. Vamos voltar à minha sala de estar. Um casal que acabou de sofrer a perda de um animal de estimação, pode primeiramente perceber os pratinhos dos meus gatos, os brinquedos, o bebedouro. Já uma pessoa que também tem gatos pode nem perceber estes itens, porque sua casa é similar.

  1. Comece com um ou dois detalhes únicos, ou uma impressão geral.

Quando você anda por uma sala, você não absorve todos os detalhes de uma vez. Ao invés disso, alguns detalhes irão saltar aos olhos. A cor das paredes, o grande piano, ou o tapete tão branco que você tem até medo de pisar nele.

Outra técnica que você pode usar (por si só ou com alguns detalhes específicos) é uma impressão geral. Lembro de um livro em que o personagem caminhava pela casa em que havia crescido e a descrevia como ‘acidentalmente retrô’. Com apenas estas duas palavras, minha imaginação conjecturou um monte de vasos e potes cor de abacate com flores laranja estampadas. O que nos leva à próxima sugestão:

  1. Não seja mandão.

Dê ao seu leitor um pouco de liberdade para imaginar as coisas do jeito que ele quiser. Talvez quando aquela autora descreveu a decoração da casa como acidentalmente retrô, ela estava pensando em um tapete dourado pendurado por hastes metálicas na parede. Mas isso precisa ser assim tão particular? A imagem em minha mente precisa ser igual à dela? Não.

Se você quer descrever um campo de flores, a sua variedade de flores não precisa necessariamente combinar com a do leitor. Leitores apreciam uma boa descrição, mas também adoram a liberdade de usar sua imaginação. (Nota: minha avó tem 88 anos e é uma leitora inveterada, uma vez ela me disse “Eu não gosto quando colocam a foto do homem nas capas dos livros. Eles são muito melhores dentro da minha mente.”)

  1. Não perca tempo com um monte de detalhes que não importam.

Se essa será a única vez que o leitor estará nesta locação, não o chateie com todos os detalhes de como este lugar é. A mesma coisa para os outros personagens. Não precisamos de quatro linhas sobre como a secretária se parece se ela nunca mais será vista após essa cena. Agora, se depois na história ela aparecer novamente, de forma substancial, então essas linhas descritivas serão úteis.

Quando você repassa um monte de detalhes sobre alguma coisa, você está dizendo ao leitor, “isto é importante, eu estou me dedicando em descrever para você por algum motivo.” Então tenha certeza que você só dará descrições detalhadas quando for importante.

 

  1. Use descrição para plantar o vaso.

A certa altura você diz numa cena que um personagem vai pegar um vaso e atirar na parede. Então o vaso precisa ser mencionado quando você descrever a sala.

Ou num momento da sua história a personagem será atirada num buraco mas irá escapar porque ela tem um pedaço de corda em sua bolsa. Então mais cedo naquele dia, eu sugiro que seu personagem tenha notado que sua bolsa estava uma bagunça. Chicletes antigos, caixas de fósforos, e inclusive a corda que ela usou para amarrar sua mala semana passada, quando a trava quebrou. Caso contrário ficará muito conveniente e artificial para seu leitor.

 

  1. Use a combinação de ação com substantivos específicos.

Não faça seu personagem apenas sentar num sofá. Ao invés disso, o faça se atirar numa chase vermelha de couro.

Não os faça apenas escalar uma cerca. Os faça pular por uma cerca branca de madeira.

Ou não os mande simplesmente correr pelos quintais da vizinhança. Faça-os atropelar os lírios premiados do Sr. Hemsworth.

Quando você emparelha ação com descrição, você é capaz de descrever um detalhe único do mundo da sua história sem ter que pausá-la.

 

  1. Use opiniões para fazer descrições importantes de cabelos/olhos e roupas.

Ao invés de dizer “Jenna usava uma camisa de gola alta marrom e jeans, os cabelos eram vermelhos e os brincos grandes.”

Você pode usar: “Jenna, como sempre, fazia sua própria moda peculiar, com um jeans escuro demais e aquela blusa marrom de gola alta estranha. Prendia os cabelos vermelhos num rabo de cavalo, quando seus olhos verdes encontraram com os meus através da sala.

 

  1. Se é seu primeiro rascunho, não fique obcecado em fazer a descrição perfeita.

Descrição é algo mais fácil de acertar durante a edição, então não se preocupe tanto em fazer descrições elaboradas e perfeitas enquanto monta sua obra, isso pode ser adicionado depois.

Link para o texto original, em inglês.

Published: janeiro 23, 2015 | Comments: 10

Receita de bolo para uma sinopse apetitosa (afinal o escritor quer que sua obra seja devorada, não é?)

enhanced-buzz-29547-1375383364-23

“Odiei sua sinopse, vou mastigar seu livro”

Não sou nenhuma profissional no assunto, nem expert em criação de sinopses, mas é uma tarefinha deveras importante na vida do escritor – vender seu peixe num resumo de no máximo 100 palavras – então vale a pena tirarmos um tempinho para nos aperfeiçoarmos.

Eu poderia começar com “como NÃO fazer uma sinopse”, talvez seja mais fácil. Como já disse, não sou expert nisso nem estudante da área, mas a quantidade de sinopses ruins que eu tenho visto é impressionante, a maioria destas pessoas realmente não faz ideia de como confeccionar este textículo, alguns colocam apenas trechos do livro, um diálogo, ou então uma ‘apresentação’ boba do protagonista (pior: em primeira pessoa. Please don’t do this…)

Na minha opinião a pior sinopse é aquela que vem cheia de spoilers.

“Fulgêncio era um garoto órfão e pobre, na escola ele finalmente conheceu o amor, na forma de Craseléia, a garota da sua vida. Cinco anos depois eles se casam, ele descobre que a esposa era um alienígena, ele morre de câncer.”

Amigo, não conte os acontecimentos importantes, muito menos os plot twists. E sinopse não é resumo, ok?

Outra coisa que me faz desistir de ler o livro: encontrar erros ortográficos ou gramaticais na sinopse. Eu saio correndo e não volto mais. Sua sinopse é seu livro em miniatura, se eu achar alguns erros na sinopse, imagina quantos encontrarei na história? Revise, trevise, quadrivise, e não divulgue sinopse meia boca, eu também cometo erros, mas vamos cuidar da sinopse, certo?

“Adroaldo e Carmesina casaram-se  por conta de uma gravidez indesejada, um dia eles foram morar na capital e conheceram Sandrarrosa num culto satânico, ela era mãe de Deusarina, uma garota de vinte anos que tentava ser atriz, e namorava Verdelino, um famoso cantor sertanejo, irmão de Marcianei, um psicopata.”

Quem é o protagonista? A história é sobre o quê? Você lembra o nome de metade dos que foram citados? Então nada de citar quinhentos personagens, cite apenas os realmente importantes.

Sinopses vagas… Passam a impressão que seu livro não vai falar nada que eu já não tenha visto na sessão da tarde.

“Uma empresária bem sucedida, porém solitária, conhece um homem misterioso que surge para mudar sua vida. Eles se apaixonam e vivem uma relação cheia de altos e baixos, que a fará lutar pela felicidade.” Boooooooring!

Agora as orientações: leia sinopses de boas obras, leia de forma atenciosa, o que te fisgou? O que te motivou a devorar este livro? Preste atenção na estrutura das boas sinopses.

O primeiro parágrafo deve ser forte, apresentando os protagonistas, o cenário, e o problema ou conflito. O segundo parágrafo mostra as possíveis mudanças ou viradas de plot, algo mais sobre o conflito ou até mesmo apresentar mais alguns personagens, em ordem de aparição no livro. No terceiro e último parágrafo devem ser mostradas as possibilidades para resolver o conflito principal. Particularmente eu gosto de finalizar a sinopse com uma pergunta, uma nuance do clímax, para instigar o leitor a procurar a resposta dentro da história. E quando finalizar, enxugue, tire tudo que não for claro ou não ajudar a fisgar o leitor.

Não conte demais, nem seja muito sucinto. Ah, e use voz ativa, na terceira pessoa. Quando terminar, se pergunte: Você ficou louco para ler esse livro?

Uma sinopse faz toda a diferença, vejam esta e tentem adivinhar de qual filme é:

“Sua esposa foi brutalmente assassinada por um assassino serial, o filho do casal é seriamente ferido.
Em uma reviravolta, o filho é sequestrado e o pai inicia uma busca frenética para encontrá-lo, e para isso conta com a ajuda de uma mulher com problemas mentais.”

bannerdory

Published: outubro 24, 2014 | Comments: 4

Glossário de siglas para escritores

eec66dab684deb6735d372221a5031fd

Foi no ano passado, eu havia acabado de entrar num grupo de escrita no Facebook, o ‘NaNo Brasil’, e reparei que muitos usavam o termo MC. Não achava possível que tantas pessoas falando sobre escrita e literatura fossem fãs de funk ou rap, ou que suas histórias girassem em torno de algum funkeiro famoso. Um pouquinho de pesquisa depois, descobri que MC era a abreviação de main character, ou protagonista, como preferirem.

Esta semana li uma dúvida parecida num outro grupo de escrita, o ‘Escritores ajudando escritores’, sobre as abreviações usualmente empregadas entre escritores, e foi daí que surgiu a ideia de fazer este post. Na verdade, farei dois: um sobre as siglas, outro sobre termos, depois.

Levantei as siglas abaixo, esta lista pode (e deve) crescer com o tempo, então sugestões são bem-vindas, acrescerei com as que me mandarem, inclusive correções, se eu acabar falando alguma asneira:

 

BR ou apenas Beta – Beta Reader, uma espécie de leitor crítico;

FC – Ficção científica;

LI – Love Interest, par romântico;

MC – Main Character, o protagonista, que pode se dividir em MMC (male main character) ou FMC (female main character);

MG – Middle Grade, categoria de literatura juvenil, público alvo entre 8 e 14 anos;

MS – Manuscrito;

NaNoWriMo ou NaNo – National Novel Writing Month, um desafio literário internacional, que ocorre sempre em novembro.

NF – Non-Fiction, não ficcção;

OTP – One True Pairing, casal perfeito, é comumente usado em seriados e filmes por fãs de algum casal ou dois personagens específicos;

PB – Picture Book, livro ilustrado geralmente para crianças;

POV – Point Of View, ponto de vista da narração;

SF/F – Science Fiction / Fantasy;

WIP – Work In Progress;

YA – Young Adult, categoria literária que tem como público alvo jovens entre 14 e 19 anos.

Published: setembro 11, 2014 | Comments: 2

20 regras de escrita por Stephen King

940598083fd9fd9b450027210fd3cc5f

Stephen King dispensa apresentações, o cara já vendeu 350 milhões de cópias de seus livros, e dezenas deles viraram filmes, é bem provável que você já tenha visto pelo menos um filme baseado em sua obra.

Traduzo livremente aqui as 20 regras para escrita ditadas por ele, mas como em qualquer lista de regras, elas podem ser quebradas e não necessariamente precisam ser levadas à risca, até porque quem mais entende do seu livro, é você mesmo.

  1. Primeiro escreva para si mesmo, e só depois se preocupe com o público.
    “Quando você escreve uma história, você está contando a si mesmo a história. Quando você reescrever, seu trabalho principal é tirar todas as coisas que não são a história. “
  2. Não use a voz passiva.
    “Escritores tímidos gostam de verbos passivos, pela mesma razão que os amantes tímidos gostam de parceiros passivos. Porque a voz passiva é segura. “
  3. Evite advérbios.
    “O advérbio não é seu amigo.”
    Esta frase resume bem:
    stephen_king_adverbs
  4. Evite advérbios, especialmente depois de “ele disse” e “ela disse”.
    Esqueceu o que é um advérbio? Eu dou uma refrescada na sua memória: www.soportugues.com.br.
    Fuja do “muito”, “bem” e “pouco”.
  5. Mas não seja obsessivo com a gramática perfeita.
    “O objetivo da ficção não é a plena correção gramatical, mas dar as boas-vinas ao leitor e, em seguida, contar uma história.”
  6. A magia está em você.
    “Estou convencido de que o medo é a raiz da escrita ruim.”
  7. Leia, leia, leia.
    “Se você não tem tempo para ler, você não tem tempo (ou as ferramentas) para escrever.”
  8. Não se preocupe em fazer outras pessoas felizes.
    “Se você pretende escrever da forma mais sincera possível, os seus dias como membro da sociedade bem educada estão contados.”
  9. Desligue a TV.
    “A TV – enquanto você trabalha ou em qualquer outra ocasião – realmente é a última coisa que um aspirante a escritor precisa”.
  10. Você tem três meses.
    “O primeiro rascunho de um livro, mesmo de uma longa história, não deve demorar mais de três meses, que é a duração de uma estação.”
  11. Há dois segredos para o sucesso.
    “Ser saudável e permanecer casado.”
  12. Escreva uma palavra de cada vez.
    “Mesmo se tratando de uma vinheta de uma única página, ou uma trilogia épica como ‘O Senhor dos Anéis”, o trabalho é realizado sempre uma palavra de cada vez. “
  13. Elimine distrações.
    “Não deve haver nenhum telefone no seu escritório, nem nenhuma TV ou videogames para você brincar.”
  14. Mantenha o seu próprio estilo.
    “Não se pode imitar a abordagem de um escritor para um determinado gênero, não importa o quão simples o que o escritor está fazendo possa parecer.”
  15. Cave.
    “As histórias são relíquias, que fazem parte de um mundo não descoberto pré-existente. O trabalho do escritor é usar as ferramentas em sua caixa de ferramentas para obter o máximo de cada coisa, de forma intacta. “
  16. Faça uma pausa.
    “Você vai se pegar lendo seu livro depois de seis semanas como para um estranho. A experiência é mais emocionante.”
  17. Deixe de fora as partes chatas e mate seus queridinhos.
    “(Mate seus queridos, mesmo se isto quebrar o coração do seu pequeno escritor egocêntrico, mate seus queridos.)”
  18. A pesquisa não deve ofuscar a história.
    “Lembre-se da palavra ‘fundo’. É aí que a pesquisa pertence: No plano de fundo, o máximo possível no fundo. “
  19. Você se torna um escritor simplesmente lendo e escrevendo.
    “Você aprende melhor lendo muito e escrevendo muito, e as lições mais valiosas de todas são as que você ensina a si mesmo.”
  20. Escrever é para ser feliz.
    “Escrever não é para ganhar dinheiro, ficar famoso, ter encontros, fazer sexo e amigos. A escrita é mágica, tanto quanto a água da vida como qualquer outra arte criativa. A água é livre. Então beba. “

 

Texto original aqui: www.openculture.com/2014/03/stephen-kings-top-20-rules-for-writers.html

Published: abril 14, 2014 | Comments: 2

Pelo bom uso da vírgula

Ou “como o uso errado da vírgula pode te transformar num assassino canibal”:

d32a2c8ae605f8238bcb4a2cc9ec68c7

 

Ok, tirando as brincadeiras, pontuação é um assunto sério em se tratando de escrita, uma vírgula mal colocada pode deixar todo um parágrafo dúbio, uma vírgula faltando pode tirar o ritmo da história, vírgulas merecem uma atenção especial.

Achei um chart em inglês sobre o uso da vírgula e vou fazer uma tradução livre aqui no blog, no final tem a imagem original. Lembrando que estas são apenas algumas dicas aleatórias, a aplicação da pontuação e das vírgulas é um assunto muito mais complexo que estas simples regrinhas.

– Regra 1: Use vírgulas para separar três ou mais palavras, frases ou orações escritos em série.
Ex.: O candidato prometeu impostos menores, proteger o meio ambiente, e reduzir o crime.
Perceba que antes do ‘e’ também se utilizou a vírgula, é a chamada oxford comma.

– Regra 2: Use vírgulas para separar orações independentes quando elas são unidas por qualquer uma dessas sete conjunções de coordenação: e, mas, para, ou, nem, por isso, ainda.
Ex.: Eu pintei a casa inteira, mas ele ainda está lixando as portas.

– Regra 3: Use vírgulas depois de frases introdutórias, ou palavras que venham antes da frase principal.
Ex.: Enquanto eu estava comendo, o gato arranhava a porta.

– Regra 4: Use um par de vírgulas no meio de uma sentença para separar frases e palavras que não são essenciais para o significado da sentença. Se essas palavras forem removidas, a sentença manterá o mesmo sentido e seu sentido básico.
Ex.: Eu estou, como você deve ter notado, bastante nervoso sobre isso.

– Regra 5: Use vírgulas para separar dois ou mais adjetivos que descrevem o mesmo substantivo, quando a palavra ‘e’ pode ser inseridoa entre eles.
Ex.: Ele é um forte, saudável garoto. (Ele é um forte e saudável garoto)

– Regra 6: Use vírgulas para separar aspectos geográficos e de endereçamento.
Ex.:  Eu morei em São Francisco, CA por 2 anos.

– Regra 7: Use vírgulas para separar uma citação direta do restante da sentença.
Ex.: Minha mãe perguntou, “quem quer sorvete?”  “eu quero”, ele respondeu.

– Regra 8: Use vírgulas quando for possível prevenir mal entendidos ou confusão.
Ex.: Para Steve, Lincoln foi o melhor presidente.

– Regra 9: Use vírgulas antes de envolver o nome ou título da pessoa endereçada.
Ex.: Você irá, Sam, fazer a cirurgia? Sim, doutor, eu irei.

– Regra 10: Use vírgulas para separar uma declaração de uma questão.
Ex.: Eu posso ir, não posso?

– Regra 11: Use a vírgula para separar partes contrastantes de uma sentença.
Ex.: Esse é meu dinheiro, não seu.

– Regra 12: Use a vírgula quando iniciar a sentença com palavras introdutórias, como ‘bem’, ‘sim’, ‘agora’.
Ex.: Sim, eu preciso daquele relatório.

– Regra 13: Use vírgulas para envolver palavras como ‘portanto’, ‘porém’, quando elas são utilizadas como interrupções.
Ex.: Eu ficaria feliz, portanto, em ser voluntária no meu time.

ef9b50d4c9237644ad4b6e39c9063a9d

 

Imagem bônus:

76565de314a7ac93ac5a9f5ccdf9331f

Published: março 22, 2014 | Comments: 2

Vem aí o Camp NaNoWriMo de abril

1064825_680508051987973_974785826_o

 

Se você está com saudades do NaNoWriMo (concurso literário que acontece sempre em novembro), esta é a oportunidade para matar a saudade de uma boa maratona e praticar a escrita sob pressão, que visa quantidade e não qualidade (e é ótima para aperfeiçoar suas técnicas e espantar a procrastinação).

Em abril teremos o Camp NaNo, ou o acampamento do NaNo, um mês inteirinho para nos dedicarmos à um novo projeto, ou terminar aquele que estava engavetado. A grande diferença para o NaNo oficial, é que o limite mínimo de palavras é você que impõe, não são as 50 mil palavras que novembro te exige, a única regra é que a meta esteja entre 10.000 e 999.000 palavras. É uma espécie de treinamento para o NaNo de verdade.

São formadas ‘barracas’ com 12 integrantes, que irão interagir durante o mês de abril, além de toda a comunidade quem também participa. Para se inscrever: campnanowrimo.org

A imagem desse post foi feita pela colega de NaNo Isabella, que tem esse blog legal: capitulofinal.wordpress.com

Published: março 7, 2014 | Comments: 4

A arte do uso do inciso nos diálogos

c03c65f0844ce0b7fae1e727a8abd0f2

Os diálogos numa narrativa são formados geralmente por duas partes: discurso e inciso.

O inciso também é conhecido como tag, verbos dicendi, sentiendi ou de elocução.

Exemplificando:

– Ele não está realmente sorrindo – Replicou Viv.

—————– (discurso) ———————- (inciso)

O inciso é um complemento por vezes necessário para situar de onde vem o discurso, e muito útil para inserir outros elementos no diálogo.

– Não sei. – Respondeu Helen, confusa.

No exemplo acima, o inciso teve a função de demonstrar algo mais do que apenas apontar o interlocutor, mostrou um estado de espírito.

Saber quando e como usar este artifício é uma arte, já vi alguns textos que pecavam pela ausência deles (o leitor acaba se perdendo no diálogo, não sabendo quem está falando o que), e textos que não faziam o uso de forma apropriada, chamando toda a atenção ao inciso, o que também não é o ideal.

Como o inciso é uma interferência do narrador, precisa-se do cuidado de não lembrar ao leitor o tempo todo que ele está diante de uma obra ficcional, narrada. O bom senso no uso faz com que o inciso seja apropriado, mas discreto.

– Só temos de passar St. Clement’s. – Disse Julia, enquanto andavam.

Nesse diálogo acima, o inciso apontou o interlocutor e uma ação.

O inciso mais comum e que deve ser livremente usado é o ‘disse’, mas é sempre bom variar, e se faltar criatividade, segue uma lista de alguns para rechear os diálogos com informações úteis, esclarecedoras e discretas.

– Disse – Respondeu – Perguntou – Falou – Insistiu – Contestou

– Interpelou – Atacou – Tornou – Observou – Interrompeu – Concluiu

– Concordou – Berrou – Ordenou – Pediu – Afirmou – Exclamou

– Proclamou – Replicou – Discordou – Protestou – Repetiu

– Ponderou – Prosseguiu – Bradou – Gritou – Desabafou – Acrescentou

– Sussurrou – Murmurou – Refletiu – Completou – Brincou – Constatou.

Mas lembre-se: o inciso precisa ser quase invisível, use com moderação e criatividade. Evite palavras complicadas ou difíceis, discrição é a chave para o bom funcionamento.

Os diálogos usados neste post foram retirados do livro “Ronda Noturna”, da Sarah Waters.

Uma lista generosa de incisos pode ser baixada neste site: www.atelierderedacao.com.br/index.php?action=downloads, é o penúltimo item na listagem.

Published: fevereiro 24, 2014 | Comments: 4

Definições de formatos de narrativas

ordering-f4-lg

Muita gente se confunde com as definições na hora de se referir à algum texto, inclusive escritores às vezes se perdem nestas classificações, como eu já me perdi.

Resolvi pesquisar sobre o assunto e fazer um resumo das classificações, utilizando principalmente a medição da extensão física. A maior fonte destes dados foi o blog da escritora portuguesa Sara Farinha, um excelente blog sobre escrita, que já li de cabo a rabo:

Miniconto – entre 100 e 1000 palavras: No miniconto a tarefa principal é sugerir, confiando na necessidade do leitor de preencher as elipses narrativas e entender, assim, a história subjacente.

Conto (short story) – até 7.500 palavras: História curta com poucos personagens, com uma ideia central que é desenvolvida ao longo da narrativa.

Novela (novella), entre 20.000 a 40.000 palavras: História de maior extensão que o conto, com mais personagens. A narrativa é rápida, com episódios que se sucedem em arcos curtos de história, que podem se conectar ou não a um arco maior, envolvendo as personagens principais.

Romance (novel) –  mais de 40.000 palavras: As 70.000 e 80.000 palavras são o tamanho mais seguro para publicação. É uma narrativa sobre um acontecimento ficcional no qual são representados aspectos da vida pessoal, familiar ou social de uma ou várias personagens, não necessariamente com a temática romântica. Gira em torno de vários conflitos, sendo um principal e os demais secundários, formando assim o enredo. Há grande preocupação com a psicologia das personagens, a verossimilhança e a coerência narrativa.

Fanfic – tamanho variável: São contos (ou romances) escrito por fãs, não necessariamente contando a mesma história dos animes, séries, mangás, livros, filmes ou histórias em quadrinho, mas que fazem referência ao assunto específico. Os autores das fic’s são chamados de Fictores.

Crônica – A crônica é um texto mais informal que trabalha aspectos da vida cotidiana, muitas vezes num tom muito “sutil”, o cronista faz uma espécie de denúncia contra os problemas sociais através do poder da linguagem.

Fábula – Geralmente composta por personagens representados na figura de animais, é de caráter pedagógico, pois transmite noções de cunho moral e ético. Quando são representadas por personagens inanimados, recebe o nome de Apólogo, mas a intenção é a mesma da fábula.

good-to-know_o_2194697

Após submeter minhas duas histórias à esta análise, temos a classificação delas: Amigos de Aluguel já chegou nas 80 mil palavras, A Lince e a Raposa está passando de 170 mil palavras, ambas são totalmente originais, então ambas são Romances. Mas podem chamar de história também.

Para ter um comparativo, cada livro da série Jogos Vorazes tem 100 mil palavras.

Post sobre o assunto, do blog da Sara Farinha: sarinhafarinha.wordpress.com/2012/07/13/recursos-do-escritor-os-diferentes-formatos-da-narrativa-literaria/

Published: fevereiro 18, 2014 | Comments: 2

Verbos de pensamento: elimine-os, agora.

c71ea8106eba56c851fbd504de1a7f95

 

Na época do NaNoWriMo, além de escrever feito uma louca, consegui ler alguns blogs de escrita que o pessoal do grupo no Facebook colocava como referência, e um dos textos que li foi uma matéria que o Chuck Palahniuk escreveu, falando sobre eliminar os verbos de pensamento (Thought verbs).

Esse cara por si só é uma grande referência na escrita, é dele o livro Clube da Luta, de onde surgiu o excelente filme.

Mas o mês foi corrido e eu esqueci desse texto, que acabei reencontrando hoje. Quis então traduzir para postar aqui, porém achei já lindamente traduzido no blog Labirinto Negro, irei colar algumas partes que considero mais relevantes do texto:

“Em seis segundos, você vai me odiar.

Em seis meses, você será um escritor melhor.

Desse ponto em diante, por pelo menos metade do ano, você está proibido de usar verbos “de pensamento”. Isso inclui: pensa, sabe, entende, acredita, quer, deseja, imagina, lembra, e muitos, muitos outros que tenho certeza que você adora usar.

A lista também deve incluir: Ama e Odeia, É e Tem. Vocês já saberão porquê.

Ao invés de colocar personagens que sabem alguma coisa, mostre os detalhes que permitem que o leitor os saiba. Ao invés de dizer que o personagem deseja algo, descreva esse algo ou alguém para que o leitor também o queira.

Ao invés de dizer: “Tommy sabia que Stacy gostava dele”, você terá de dizer: “Nos intervalos das aulas, Stacy sempre estava lá, inclinada contra o armário dele. Ela ria e o empurrava quando ele tentava abri-lo, deixando a marca de seus tênis no metal, mas deixando também o seu perfume suave quando passava. Quando ela ia, o armário ainda estava quente onde ela havia se inclinado, o aguardando chegar. E, a cada intervalo, lá estava ela novamente.”.

Resumindo, sem atalhos. Só especifique detalhes sensoriais: Cheiro, Sabor, Ação, Som e Sensação. Apenas isso.

Geralmente, escritores usam esses infames verbos nos começos de parágrafos, porque eles indicam a intenção do autor muito diretamente e, o que segue depois, só serve como ilustração:

“Brenda sabia que ela nunca iria conseguir cumprir aquele prazo. Atolada no trânsito há mais de oito ou nove ruas, com a bateria do celular descarregada, ela não poderia chegar a tempo. Os cachorros em casa com certeza precisariam passear ou teriam feito uma bagunça para ela limpar, e ela também tinha prometido regar as plantas do vizinho…”.

Você vê como aquele atalho ali corta a emoção do que vem a seguir? Então, não o faça. Em último caso, pegue esse atalho e o coloque depois de tudo mais, ou ainda, o troque por algo como, por exemplo “Brenda nunca cumpriria o prazo”. Algo que você, como autor, sabe, mas o personagem não.

Não diga a seu leitor que a Lisa odiava o Tom.

No lugar disso, faça como um advogado na corte – diga-o com detalhes. Apresente as evidências. Por exemplo:

“Durante a chamada, em apenas um breve segundo que o professor chamou o nome de Tom, Lisa sussurrou nada discretamente imbecil para que todos ao seu redor ouvissem, quando Tom nada mais fez do que responder um acanhado presente ao professor.”

Um dos erros mais frequentes de autores iniciantes é deixar seus personagens sozinhos. Você, escrevendo, talvez esteja sozinho. Lendo, talvez seu leitor esteja sozinho. Mas o seu personagem vai passar muito pouco tempo sozinho, porque um personagem sozinho começa a pensar, a ponderar, a se preocupar. Por exemplo:

“Esperando pelo ônibus, Mike começou a se preocupar com quanto tempo a viagem iria tomar…”.

E, desempacotando isso, nós temos: “O programa dizia que o ônibus viria ao meio dia, mas o relógio de Mark já constatava 11:57. Era possível ver até o fim da rua, até mesmo o shopping à distância, mas nenhum sinal de um ônibus. Sem dúvida, o motorista estava estacionado na curva no fim da rua, tirando uma soneca e roncando, e Mark ia se atrasar. Ou pior, ele estava bebendo e ele apareceria bêbado e ainda por cima iria cobrar Mark uma passagem só de ia para o que seria a viagem que poderia leva-lo a um hospital por um grave acidente…”

Um personagem solitário deve se perder em fantasia e em memórias, mas até mesmo aí você não pode usar os verbos de pensamento ou nenhum de seus relativos abstratos. Ah, e pode desistir também de usar verbos como lembrar e esquecer. Nada mais de transições como: “Lucia lembrou de como Nelson costumava acariciar os cabelos dela.”

Ao invés disso: “Nas épocas do colégio, Nelson costumava acariciar seus cabelos com as pontas de seus dedos, bem suavemente”.

Novamente, desempacote. Não tome atalhos.

Melhor ainda, ponha o seu personagem com outro em cena, e rápido. Coloque-os juntos e ponha a ação para acontecer. Deixe que as ações e as palavras deles mostrem seus verdadeiros pensamentos. Você, você só tem que ficar fora da cabeça deles.

E já que está evitando verbos de pensamento, evite também É ou Tem.

Por exemplo: “Ana tem olhos azuis” ou “Os olhos de Ana são azuis”.

Versus: “Ana tossiu e sacodiu a mão para afastar a fumaça de seus olhos azuis, antes de sorrir e prosseguir…”.

Não coloque frases sem graça e neutras como aquela primeira. Coloque seus detalhes sobre o que o personagem é ou tem durante suas ações e gestos, o que é muito mais natural. Do jeito mais básico possível, é assim que você vai mostrar a sua história. Não contá-la. Mostrá-la.

E acredite, depois que você aprender as glórias de desempacotar seus personagens, você vai detestar narrativas preguiçosas como “James sentou-se do lado do telefone, perguntando-se por que Amanda não ligou”.

Por favor. Por enquanto, me odeie o quanto você quiser, mas não use verbos de pensamento. Depois de seis meses, você pode voltar a usá-los como louco, se quiser, mas posso apostar em dinheiro que você não vai querer. (…)

Como dever de casa desse mês, pegue sua história ou o que quer que você esteja escrevendo no momento e circule todos os verbos de pensamento que você conseguir encontrar. Então, ache um jeito de tirá-lo de lá. Elimine-o. Mate-o desempacotando seus personagens e expondo o que eles realmente são.”

 

Texto completo: labirintonegro.wordpress.com/2014/02/06/escrevendo-desempacotando-um-exercicio-de-desenvolvimento/

Texto original em inglês: litreactor.com/essays/chuck-palahniuk/nuts-and-bolts-%E2%80%9Cthought%E2%80%9D-verbs

Published: fevereiro 13, 2014 | Comments: 3

Dicas aleatórias coletadas aelatoriamente

6d3d4c1c22b46b49b45b7d7ae00ffa01

Porque não basta ler e escrever, estudar é preciso, e tenho feito bastante disto nos últimos tempos.

Leio muitos blogs de escrita, livros, matérias que encontro no Pinterest, participo de grupos no Facebook e frequento sites do tema. Anoto algumas coisas (sim, no bom e velho papel, um caderno já meio encardido de tanto que o manuseio), e sempre tive a filosofia de compartilhar conhecimento adquirido.

Este blog não é apenas para organizar meu material, como citei anteriormente, é uma forma de espalhar o conteúdo de escrita que eu julgo interessante, vai que acaba ajudando alguém?

As dicas que vou citar abaixo são anotações aleatórias que fiz em meu caderno, estão livres para interpretação e nunca deverão ser levadas ao pé da letra.

Enjoy!

Mostre, não conte. E eu poderia (e irei) fazer um post apenas sobre esta dica, porque eu considero uma das mais valiosas na escrita. Hoje mesmo estava escrevendo mentalmente uma cena de Amigos de Aluguel e a frase era “Lina era um mistério.” Eu estava contando que Lina era uma pessoa misteriosa. Que coisa sem graça! Não ficaria melhor “A cada dia me convencia que deveria existir um curso de faculdade que ensinasse a arte de compreender Lina.”
Apenas para finalizar: Contar evoca pensamentos. Mostrar evoca emoções.

Mate seus queridos. Mas mate com ternura. Não me refiro apenas a morte matada ou morrida, mas às vezes a história pede por um revés, uma perda, e pode ser difícil se desprender de algo ou alguém, tente não se apegar demais a história, evite ser emotivo demais.

– Nunca conte tudo.

– Não explique demais.

– Vá logo ao que interessa, não enrole o leitor.

– Seja econômico com os adjetivos, mas não sovina.

– Use metáforas.

– Faça fichas dos personagens.

– Omita falas sem propósitos, introduções e despedidas.

– Use o silêncio como resposta às vezes.

– Termine uma cena com um corte.

– Tenha um bom antagonista (não necessariamente um vilão.)

– Tenha um arco dramático na sua história, a ação que cresce no decorrer da trama.

– Cada conflito deve ser mais significativo que o anterior.

– Seja bom com as vírgulas, ponto e vírgulas, e pontos, estude o assunto, mas seja bom no uso das pausas. Se tiver dúvida no uso, leia o parágrafo em voz alta.

– Estude, estude e estude.

Aproveito e deixo meu Pinterest: www.pinterest.com/crishtiane

Published: fevereiro 4, 2014 | Comments: 4

6 dicas para fisgar o leitor no primeiro capítulo

Finalmente este blog está se tornando o que ele diz ser, um blog sobre escrita. (ouço palmas)

Segue minha tradução livre de uma matéria do blog Get It Write Tonight que achei interessante compartilhar (mentira, eu fico com preguiça de anotar tudo e resolvo postar aqui como forma de arquivar para uso posterior):

1. Apresente seu protagonista o mais rápido possível:
Apresente seu personagem principal e conte ao leitor quem ele é sem sair listando tudo, tintin por tintin. Quanto mais rápido o leitor souber de algo, melhor. Tente fazer isto dentro dos quatro primeiros parágrafos, não seja lento e não entedie o leitor, senão ele começará a pular informações.

2. Levante uma questão o mais rápido possível (sim, tudo é ‘o mais rápido possível’, sua história tem que ser intrigante ok?):
Crie uma questão que é relevante para a trama. Não conte ao seu leitor o que seu protagonista comeu no café da manhã, as pessoas querem uma questão complexa que desperte sua curiosidade e as obrigue a avançar com a história. Qualquer coisa menor que isso e elas irão devolver seu livro para a prateleira. E então responda esta pergunta, mas logo em seguida crie outra questão, mas quem sabe você leve um tempo maior para responder.
Crie um efeito bola de neve de perguntas e respostas, jogue seu leitor ladeira abaixo de um jeito que ele não consiga mais largar seu livro.

3. Dedilhe as cordas do coração do leitor:
Brinque com uma emoção. Faça seu leitor sentir simpatia, ou raiva, ou felicidade, ou tristeza. Lhe dê satisfação emocional rapidamente. Por que ele deve se importar com seus personagens? Buffy Andrews diz: quatro palavras para um escritor “faça eu me importar.” Isso é verdade, o leitor deve se importar com os personagens e o que está acontecendo com eles.
Em seguida aprofunde essa caracterização para que os leitores se preocupem mais ainda com o avançar da história.

4. Aprofunde a caracterização:
É semelhante com a questão emocional, mas existe uma boa diferença. Envolver leitores emocionalmente os fazem sentir pelos personagens. A caracterização desenvolve esses personagens de uma forma tão verossímil quanto pessoas com quais nos relacionamos. Desenvolva seus personagens rapidamente e mostre aos leitores quem eles são no menor número de palavras possível.
“A brevidade é a alma da sagacidade.” Quanto mais rápido o leitor vê que esta é realmente uma pessoa real, fazendo coisas reais, em lugares reais, mais rápido eles vão entrar no mundo de sua história, e isso é exatamente o que você quer que aconteça. Transforme palavras em pessoas.

5. Dê ao seu protagonista um objetivo:
Mostre ao leitor que seu personagem quer algo. Fixe a ideia de que haverá uma jornada para um objetivo que vai governar o resto da história. O personagem principal PRECISA deste objetivo. E ele vai alimentar sua paixão para seguir nesta jornada. Seja qual for sua meta, ele vai passar por poucas e boas para alcançar. Mostre que seu personagem está sentindo falta de algo tão importante, que ele está disposto a fazer o que for preciso para conseguir.

6. Crie conflitos com esse objetivo:
Apenas certifique-se que isso não irá demorar muito, se possível crie este conflito no fim do primeiro capítulo, e siga este roteiro:
A) Tenha certeza que o conflito despertará esta pergunta ‘como o personagem irá superar o conflito?’. B) Tente dedilhar nas cordas do coração do leitor quando o conflito aparecer. Faça-o sentir raiva, alegria, tristeza ou simpatia. Tocar nas emoções é uma das técnicas mais fortes da narrativa. C) Quando o conflito aparecer, deixe claro que para superar o conflito a moral, escolhas e valores do personagem serão postos a prova. O personagem vai ser duramente pressionado até obter seu objetivo.

Claro que essas são apenas dicas, meras orientações. Assim como todo o conteúdo de escrita desse blog, nada deve ser levado ao pé da letra e tudo depende da narrativa em si e suas peculiaridades.

A matéria original pode ser lida aqui: salexmartin.webs.com/apps/blog/show/22839542-6-tips-to-hook-readers-in-the-first-chapter

Published: janeiro 29, 2014 | Comments: 1

5 artifícios úteis para ajudar na escrita

Li um texto no site Miss Literati que achei interessante para fazer uma tradução livre e postar aqui, é pequeno mas são coisinhas que enriquecem o texto. São 5 artifícios que devem estar presente na escrita de vez em quando, principalmente o item 4, que eu chamo de “use metáforas”:

  1. Simbolismo: Uso de objetos, personagens ou ações que representam ideias que são diferentes do significado literal do símbolo. Exemplo: cores podem representar emoções na literatura, vermelho para raiva ou amor, azul para paz ou tristeza, preto para morte, verde para esperança, etc. Ou então um espelho quebrado que representa ruptura ou azar.
  2. Pressuposição: O uso de palavras ou frases que dão ao leitor uma pista do que acontecerá na história, mas sem entregar o fim. Exemplo: escreva sobre sua vida – ela profetizou.
  3. Ironia: O uso de palavras para representar o completo oposto do significado real.  Exemplo: batizar um cachorro enorme de Fifi, usar respostas absurdas. (Tente o sarcasmo também, mas use com moderação)
  4. Imaginário: Quando um autor tenta descrever algo, comparando-o com outra coisa para representar objetos, ações e ideias. Exemplo: usar o reflexo da lua no mar para comparar com o brilho nos olhos. (Leia poesias para se aperfeiçoar nesta arte, eu tenho feito isto)
  5. Alusão: Mencionar uma pessoa, lugar ou coisa que aconteceu para ajudar o leitor a compreender melhor o texto. Exemplo: ela nunca ajudou ninguém, na escola a chamavam de tio Patinhas.

Texto original em inglês: www.missliterati.com/blog/5-Literary-Devices-You-Should-Have-in-Your-Novel

Published: janeiro 28, 2014 | Comments: 2

Citações de escritores sobre a escrita

2014-01-11 21.16.31

 

Meu colega Daniel (distantestrovoes.blogspot.com.br) postou no Facebook  20 citações de escritores sobre a arte de escrever e eu gostei de quase todas, e então respostarei algumas aqui, acrescentando outras do meu acervo:

– “O escritor é um homem que mais do que qualquer outro tem dificuldade para escrever.” – Thomas Mann (1875 – 1955);

– “Escrever é uma maneira de falar sem ser interrompido.” – Jules Renard (1864 – 1910);

– “Tantas pessoas que escrevem e tão poucas que lêem!” – André Gide (1869 – 1951);

– “Escrevemos porque não queremos morrer. É esta a razão profunda do ato de escrever.” – José Saramago (1922 – 2010);

– “Não se ‘faz’ uma frase. A frase nasce.” – Clarice Lispector (1920 – 1977);

– “Acabar um livro é como dar à luz uma criança e dar-lhe um tiro.” – Truman Capote (1924 – 1984);

– “Depois de se escrever um conto, deve-se cortar o início e o fim, pois é aí que nós, escritores, mais mentimos” – Anton Tchekhov (1860 – 1904);

– “Nenhum ferro pode penetrar no coração humano de maneira tão gélida como um ponto colocado no momento exato.” – Isaac Bábel (1894 – 1940);

– “Devemos escrever para nós mesmos, é assim que poderemos chegar aos outros.” – Eugène Ionesco (1912 – 1994);

– “Toda frase deve fazer uma de duas coisas – revelar o personagem ou avançar a ação.” – Kurt Vonnegut (1922 – 2007);

– “A escrita não é senão ritmo.” – Virginia Woolf (1882 – 1941);

– “Minha regra mais importante é uma que resume todas: se soa como escrita, eu reescrevo.” – Elmore Leonard (1925 – 2013).

Minha contribuição:

– “Eu acredito que a estrada para o inferno é pavimentada com advérbios” – Stephen King

– “Palavras por si só não têm o poder de impressionar a mente sem o horror requintado da sua realidade.” – Edgar Allan Poe

– “Você não pode culpar o escritor pelo que os personagens falam.” – Truman Capote.

– “Um livro é um sonho que você segura em suas mãos.” – Neil Gaiman

E para finalizar:

– “Escreva bêbado, edite sóbrio.” – Hemingway.

Lista original retirada do blog: mundodek.blogspot.com.br

e10c74fe0f9e89e5c72452131c8191e3

Published: janeiro 20, 2014 | Comments: 4

Roube como um artista

740da64e09f0d458ef2c34293a8c08c7

 

A frase genial e que me caiu como uma luva é do escritor Austin Kleon, e foi no blog de escrita The Golden Alley que eu encontrei um resumo das dicas dele:

1) Roube como um artista;

2) Não espere até saber quem você é para começar;

3) Escreva o livro que você quer ler;

4) Tenha projetos paralelos e hobbies;

5) Compartilhe seu trabalho;

6) Seja legal, o mundo é uma cidade pequena.

Eu, que sou péssima para lidar com elogios, agora sei o que responder quando disserem que gostaram da minha escrita, responderei “talvez eu seja uma boa ladra”.

Estou me aperfeiçoando na arte do roubo criativo. Sem imitação, transformando.

E só para reforçar a ideia, acessem e sigam o blog The Golden Alley, um projeto (em português) de 4 meninas que escrevem e gostam do que fazem:  thegoldenalley.tumblr.com

5d8b9f5476ed07738b52a627c946c8f4

 

Published: janeiro 19, 2014 | Comments: 0

10 regras para escrever ficção by Sarah Waters

Sarah-Waters-portrait-2

 

Quem me conhece um pouquinho mais a fundo sabe o quão sou apaixonada pela escritora inglesa Sarah Waters, é nela que eu miro quando escrevo.

O primeiro livro dela que li foi “The Night Watch” (“Ronda Noturna” no Brasil), a história de quatro personagens que se cruzam de alguma forma, no final da segunda guerra em Londres, e também no pós-guerra. Um livro sisudo, cortante, com um olhar angustiado da vida comum, sem heróis e sem glamour. Eu particularmente me apaixonei por ela aí, neste livro, tanto que assim que terminei a leitura comecei a ler de novo (até porque ele é dividido em três partes cronologicamente invertidas).

“She could have closed her eyes and, with a fingertip, touched the exact small
point on her breast at which the thread ran delicately into her heart and tugged at it.”

 

Depois li “Fingersmith” (“Na Ponta dos Dedos” no Brasil), e foi aí que a paixão se consolidou em amor, porque o livro é simplesmente genial. Os plot twists te fazem fechar o livro por alguns minutos e ficar de queixo caído assimilando o que você acabou de ler, incrédulo. A narrativa está um pouco diferente, mais romanceado. Sem tentar soar piegas mas já soando, há mais amor nesta obra.

“I had kissed her. I had lain upon her. I had touched her with a sliding hand. I had called her a pearl. She had been kinder to me than anyone save Mrs Sucksby; and she had made me love her, when I meant only to ruin her. She was about to be married, and was frightened to death. And soon no-one would love her, ever again.”

E agora estou lendo “Tipping the Velvet” (“Toque de Veludo” no Brasil), cheguei a metade e acredito que já posso dizer que é tão fabuloso quanto os dois previamente lidos, mas não os superam.

Para finalizar, Sarah Waters nos presenteou com 10 dicas para escritores novatos como eu:

1. Leia feito louco. Mas tente fazer isso analiticamente – o que pode ser difícil, porque, quanto melhor e mais convincente um romance é, menos consciente você estará de seus artifícios. Vale a pena tentar descobrir esses estratagemas, no entanto: eles podem vir a ser úteis em seu trabalho. Eu acho ver filmes instrutivo também. Quase todo arrasa-quarteirão moderno de Hollywood é desesperadoramente longo e desleixado. Tentar visualizar os filmes muito melhores que eles teriam sido com alguns poucos cortes radicais é um ótimo exercício na arte de contar histórias. O que me leva a…

2. Corte feito louco. Menos é mais. Muitas vezes, eu li manuscritos – incluindo os meus – onde eu cheguei ao início do, digamos, capítulo dois, e pensei: “Aqui é onde o romance deve de fato começar.” Uma enorme quantidade de informações sobre personagens e história de fundo pode ser transmitida através de pequenos detalhes. O apego emocional que você sente em uma cena ou um capítulo irá desaparecer à medida que você passar para outras histórias. Seja objetivo em relação a isso. Na verdade…

3. Trate a escrita como um trabalho. Seja disciplinado. Muitos escritores ficam um pouco obsessivos-compulsivos quanto a isso. Graham Greene famosamente escrevia 500 palavras por dia. Jean Plaidy conseguia 5.000 antes do almoço, e então passava a tarde respondendo cartas de fãs. O meu mínimo é de 1.000 palavras por dia – o que às vezes é fácil de conseguir, e é, por vezes, francamente, como cagar um tijolo, mas eu me obrigo a ficar em minha mesa até chegar lá, porque eu sei que fazendo isso eu estou avançando o livro para a frente. Aquelas mil palavras poderão muito bem ser lixo – muitas vezes elas são. Mas daí, é sempre mais fácil voltar às palavras-lixo em uma data posterior e torná-las melhores.

4. Escrever ficção não é “auto-expressão” ou “terapia”. Romances são para os leitores, e escrevê-los significa uma construção habilidosa, paciente, e altruísta dos efeitos. Eu penso em meus romances como sendo algo como parques de diversão: o meu trabalho é prender o leitor em seu carro no início do capítulo um, então fazê-los girar e correr através de cenas e surpresas, em uma rota cuidadosamente planejada, e a um ritmo finamente engendrado.

5. Respeite os seus personagens, mesmo os menores. Na arte, como na vida, todo mundo é o herói de sua própria história particular; vale a pena pensar sobre quais são as histórias de seus personagens secundários, mesmo que elas possam se cruzar apenas ligeiramente com a do seu protagonista. Ao mesmo tempo…

6. Não entulhe a narrativa. Personagens devem ser individualizados, mas funcionais – como figuras de uma pintura. Pense no Cristo Zombado, de Hieronymus Bosch, no qual um Jesus pacientemente sofredor está cercado de perto por quatro homens ameaçadores. Cada um dos personagens é único, e também cada um representa um tipo; e, coletivamente, eles formam uma narrativa que é tanto mais poderosa por ser tão firmemente e tão economicamente construída. Sobre um tema semelhante…

7. Não escreva em excesso. Evite as frases redundantes, os adjetivos que distraem, os advérbios desnecessários. Iniciantes, especialmente, parecem pensar que a ficção escrita precisa de um tipo especial de prosa florida, completamente diferente de qualquer outro tipo de linguagem que pode-se encontrar no dia-a-dia. Este é um equívoco sobre como os efeitos da ficção são produzidos, e pode ser dissipado ao se obedecer a Regra 1. Ler alguns dos trabalhos de Colm Tóibín ou Cormac McCarthy, por exemplo, é descobrir como um vocabulário deliberadamente limitado pode produzir um surpreendente ímpeto emocional.

8. Ritmo é crucial. Escrita refinada não é suficiente. Alunos de escrita podem ser ótimos em produzir uma única página de prosa bem-elaborada; o que às vezes lhes falta é a capacidade de levar o leitor em uma viagem, com todas as mudanças de terreno, velocidade e humor que envolvem uma longa jornada. Mais uma vez, eu acho que assistir filmes pode ajudar. A maioria dos romances vai querer se aproximar, se demorar, voltar, avançar, de formas muito cinematográficas.

9. Não entre em pânico. Na metade da escrita de um romance, eu tenho regularmente experimentado momentos de terror de gelar o intestino, conforme eu contemplo o lixo na tela diante de mim e vejo além dela, em rápida sucessão, as críticas ridicularizantes, a vergonha dos amigos, a carreira fracassada, a renda cada vez menor, a casa confiscada, o divórcio… Trabalhar obstinadamente no meio de crises como essas, no entanto, sempre me levou até lá, no final. Deixar a mesa por um tempo pode ajudar. Falar do problema em detalhes pode me ajudar a lembrar o que eu estava tentando alcançar antes de ter empacado. Ir para uma longa caminhada quase sempre me faz pensar sobre o meu manuscrito de uma forma ligeiramente nova. E, se tudo mais falhar, há a oração. São Francisco de Sales, o santo padroeiro dos escritores, muitas vezes me ajudou a sair de uma crise. Se você quiser espalhar a sua rede de forma mais ampla, pode tentar apelar para Calíope, a musa da poesia épica, também.

10. O talento trunfa sobre tudo. Se você é realmente um ótimo escritor, nenhuma dessas regras se aplica. Se James Baldwin tivesse sentido a necessidade de agitar um pouco o ritmo, ele poderia nunca ter alcançado a intensidade lírica prolongada de Giovanni. Sem a prosa “excessivamente escrita”, não teríamos nada da exuberância linguística de um Dickens ou uma Angela Carter. Se todos fossem econômicos com seus personagens, não haveria um Wolf Hall… Para o resto de nós, no entanto, as regras continuam importantes. E, fundamentalmente, só ao entender para o que elas são e como funcionam que você pode começar a experimentar em quebrá-las.

Fonte: http://dicasderoteiro.com/2011/09/14/dez-regras-para-escrever-ficcao-sarah-waters/

Original: http://www.theguardian.com/books/2010/feb/20/10-rules-for-writing-fiction-part-two

Published: janeiro 8, 2014 | Comments: 1