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Capítulo 63 – Ablação

Capítulo 63 – Ablação

 

Letícia e Theo chegaram a Novosibirsk por volta das duas horas daquela madrugada de domingo para segunda, os dois advogados haviam ficado em Krasno para a última visita profissional antes do julgamento.

– Lê, esse último remédio que você me deu está me dando alguma reação adversa. – Theo disse se atirando no sofá da sala, largando a muleta.

– O que você está sentindo? – A médica largou sua bolsa na poltrona e se pôs à frente de sua amiga.

– Uns arrepios ruins, sabe? Como se eu estivesse com uma sensação ruim, mas sem saber o motivo.

– Talvez eu tenha dado uma dosagem muito alta, mas você me disse que não tinha nenhuma alergia a medicamentos.

– Que eu saiba não, mas vai ver eu desenvolvi alergia depois de velha.

Letícia sentou ao seu lado, tomando sua mão.

– Eu acho que ainda é resquício de hoje à tarde, aquela conversa com Sam foi pesada, mexeu com você.

– É… Talvez. Meu peito está doendo, uma angústia entranha, sei lá.

– Você precisa de uma boa noite de sono, mas vou ficar de olho em você.

***

Por volta das cinco da madrugada daquela segunda-feira Sam acordou, a cabeça latejava e sentia um frio que parecia vir de dentro de seus ossos. Estava de bruços no chão gelado daquela cela incomum, virou-se para cima e pode ver o céu negro acima de sua cabeça.

Passou os dedos pelos lábios e abaixo do olho, onde haviam ferimentos e sangue. Lembrou dos chutes de Sirkis, lembrou de suas últimas palavras. Aquela era sua nova cela e o frio que fazia ali não a deixaria viva por muito tempo. Por sorte não nevava naquele momento, e não haviam lhe tirado seu casaco negro, mas a sensação de frio era implacável.

Sentou, arrastou-se até a parede, onde se recostou com um gemido.

– Eles não podem estar falando sério… Eu não posso ficar aqui. – Sam disse para si mesma enquanto olhava ao redor, para as pedras sujas e enegrecidas, o chão em situação parecida, paredes cruas que tinham no mínimo quatro metros de altura.

Subiu a gola do casaco e fechou o zíper completamente, tentando aquecer o pescoço. Ali dentro não deveria estar fazendo uma temperatura positiva. Queria acreditar que era algo temporário, alguma lição ou castigo, que em breve a tirariam dali. Era difícil manter-se tranquila com a possibilidade de ter sido abandonada naquela cela aberta.

Por volta das sete horas, ouviu um barulho na porta, e por uma abertura estreita junto ao chão viu entrar uma bandeja. Correu até lá e bateu na porta, pedindo socorro. Escutou o barulho das rodas do carrinho de comida se distanciando.

Abaixou-se ao lado da bandeja e comeu o pedaço de carne processada com uma fatia de pão. Na caneca havia água, bebeu apenas metade, não sabia quando teria mais.

Apesar do sol, ali dentro o frio era avassalador, porém agora deveria estar fazendo uns cinco graus. Por algumas vezes tentou se exercitar, na vã esperança que aquilo diminuísse um pouco a sensação de congelamento do seu corpo.

A impaciência aumentava a medida que as horas passavam, pela localização do sol sabia que era o meio da tarde, próximo do horário em que sempre tinha a visita dos seus advogados. Ninguém a buscou.

***

– Theo? Está me ouvindo? – Stefan dizia em seu comunicador. – Ela está na solitária, não nos deixaram falar com ela.

– Mas é direito dela! Ela tem direito a falar com vocês às segundas!

– Quando elas vão para a solitária perdem todos os direitos.

– Mas o que ela fez?

– Não sei, não me disseram de jeito nenhum.

– Tem algo errado aí, Stef. Tem algo errado.

– Também estou com essa sensação, mas não sei o que fazer.

– Você vai ficar por aí hoje?

– Sim, ficaremos, vamos tentar falar com o General Turner, mas já nos informaram que ele não vem hoje, está viajando, parece que está na Zona Morta.

Theo bufou irritada do outro lado, estava almoçando tardiamente com Letícia, havia largado o trabalho no café.

– Vocês dariam as últimas instruções, essa era uma visita importante.

– Eu sei, mas de qualquer forma ela está bem orientada para o julgamento, já conversamos bastante.

– Vocês já tiraram todas as dúvidas dela?

– Sim, está tudo sob controle, treinamos os depoimentos e as respostas, ela está preparada, fique tranquila.

– Ok, mas tentem mais um pouco, a solitária vai balançar o psicológico dela.

– Nós vamos tentar novamente falar com alguém, e daqui vamos para o hotel. Não se preocupe, a solitária não é tão ruim assim, amanhã eles devem devolvê-la para a cela.

***

– Gustav, antes de ir preciso te pedir um favor. – Svetlana conversava com seu advogado sozinha numa sala.

– Pois não. – Respondeu o franzino advogado da máfia.

– Na verdade o favor é para uma amiga minha, ela está correndo risco de morte.

– Uma interna?

– Sim, Samantha. Uma das meninas que trabalha na limpeza no turno da noite disse ter visto quando os guardas a prenderam no jardim de inverno.

– E o que é isso?

– Um lugar sem teto, onde eles deixam as internas até morrerem de frio, é assim que eles se livram dos desafetos da prisão.

– Mas eu não posso fazer nada, não tenho poder para interferir nisso.

– Eu preciso que você fale com o advogado dela, acho que ele pode fazer algo, só sei que se chama Stefan, é americano, e usa gravatas bonitas.

– Como vou encontrá-lo se você não sabe nem o sobrenome?

– Sei lá, dê um jeito, você é amigo do meu pai, vocês conhecem um mundo de gente. Procure por esse cara e diga exatamente isto que te contei, diga que a jogaram ontem, por volta da meia-noite, e pelo que falam desse lugar, amanhã ela deve estar morta.

– Você está me metendo em fria?

– Quebre esse galho para mim, é só um recado, não vai sobrar para você.

– Só posso prometer que tentarei.

***

Stefan e Virginia se preparavam para dormir num quarto de hotel barato em Krasnoyarsk, próximo das onze da noite, quando receberam uma ligação da recepção do hotel, dizendo que havia um homem querendo falar com o senhor Stefan.

– O que ele quer? – Virginia questionou o recepcionista.

– Diz que é algo urgente referente a Samantha.

– Mande subir.

Após desligar o comunicador, Virginia instruiu que Stefan colocasse a pistola na parte de trás da calça.

O homem magro e de poucos cabelos entrou no quarto e começou a falar, segurando sua maleta.

– Eu estou apenas prestando um favor à minha cliente e não tenho absolutamente nada a ver com isso.

– Certo, e qual a informação que você tem? – Stefan questionou, ele e Virginia estavam de pé a sua frente.

Gustav repassou exatamente o que Svetlana havia lhe dito, deixando os dois atônitos.

– Temos que achar o General Turner, nem que tenhamos que ir a Zona Morta. – Virginia disse com preocupação para Stefan.

– Bom, eu dei meu recado, por gentileza não me mencionem para ninguém. E boa noite.

Ainda atordoado, Stefan agradeceu e despediu-se do advogado de Svetlana.

– Eu sabia que aquele mau caráter do Coronel Phillips ia aprontar alguma. – Stefan disse já procurando suas roupas na mala.

– Ele aproveitou que o diretor está viajando. – Virginia também trocava de roupas. – Precisamos correr contra o tempo.

Em poucos minutos a dupla já estava batendo nas portas da prisão, onde foram praticamente escorraçados. O General Turner não atendia as ligações nem respondia os recados, resolveram voltar ao hotel, onde Virginia entrou em contato com seu conhecido na ONU, mas sem contato com o General que sempre os ajudava, não havia muito o que fazer.

Vencidos pelo cansaço, dormiram já de madrugada, tentariam novamente no dia seguinte.

***

Sam estava encolhida num dos cantos da cela e tremia vertiginosamente, sua única refeição do dia havia sido aquele precário desjejum. Além de fome e sede, o frio só aumentava a medida que adentrava as horas da madrugada escura, a temperatura despencava à noite e a sensação de congelamento era desesperadora.

Assoprava com dificuldade suas mãos, na esperança de aquecê-las um pouco, as extremidades dos dedos já estavam arroxeadas, ela sabia que aquilo não era nada bom. Passou uma noite terrível em claro, desfaleceu pela manhã, com a chegada do sol.

Acordou por volta das oito com o barulho do metal da bandeja deslizando pelo chão de concreto. Reuniu suas forças e se pôs de pé, cambaleando até a porta, onde bateu com desespero.

– Hey! Tem alguém aí? Por favor, me tirem daqui!

– Não se acostumou com a nova cela? – Disse uma voz masculina em tom sádico, era um dos guardas da solitária, um homem de confiança do Coronel Phillips.

– Eu não posso continuar aqui! Pelo amor de Deus, fale com alguém, me tire daqui! – Sam se desesperava ainda mais ao bradar contra a porta de metal.

– Você não vai sair daqui com vida, querida.

Sam emudeceu, ingenuamente acreditava estar passando por algum castigo, entrou em pânico ao entender qual o objetivo daquilo tudo.

– Por que estão fazendo isso comigo? – Sam disse entre gaguejos.

– Alguém aqui não gosta de você.

– O General Turner sabe que estão fazendo isso?

– Não, ele está viajando. Mais alguma pergunta? Tenho outras coisas para fazer.

Sam olhou para o chão, para a bandeja com o pedaço de carne processada, pão e água.

– Por que estão me trazendo comida se vão me deixar morrer de frio aqui?

– Para que encontrem comida no seu estômago na autópsia, senão podem acusar a prisão de maus tratos, por privar você de comida.

Sam apoiou as mãos já arroxeadas na parede, caiu de joelhos, e foi invadida por uma tristeza em forma de choro.

– Meu julgamento é depois de amanhã… Depois de amanhã… Por favor, não me deixe morrer aqui, por favor…

Ouviu apenas o carro de comida saindo pelo corredor, com o barulho das rodas se afastando.

***

– Eu estou indo para a rodoviária, vou pegar um trollbus até aí. – Theo disse no comunicador, para Stefan. Era nove da manhã de terça-feira.

– Só vai gastar tempo e dinheiro, não tem nada que você possa fazer aqui que já não estejamos fazendo. Continue aí em Novo em contato com Michelle, nos mantendo informados dos avanços dela.

– E o amigo de Virginia na ONU?

– Ele ainda não conseguiu nada, mas tenho certeza que conseguiremos, disseram que talvez o General chegue de viagem hoje.

Theo fez um silêncio angustiante, tentando engolir o nó na garganta.

– Talvez a ajuda chegue tarde demais.

– Não pense nisso agora.

Theo bufou com desânimo, esfregando a testa. Estava no sofá da sala, ao lado de Letícia.

– Por que o pai de Mike mataria Sam? Isso iria contra os interesses do filho.

– Não precisa ser nenhum gênio para entender que o Coronel Phillips não quer Sam como nora de novo.

– É tão simples, deixe ela ir embora, eu garantiria que Sam nunca mais se tornaria nora desse homem.

– Esqueceu que Mike quer fazer a reprogramação nela?

– Nem por cima do meu cadáver.

***

Sam ia perdendo as forças na medida que as horas do dia passavam, temia a chegada de mais uma noite e talvez não resistir, temia não chegar viva até o nascer do sol do dia seguinte. Entre o terror da aproximação da noite e os espasmos causados pelo frio, que pareciam querer desligar sua mente, esqueceu de um outro inimigo, que chegou com tudo no final da tarde: a neve.

– Ah não… Meu Deus, neve não. – Sam exclamava olhando para o alto, vendo os flocos de neve caindo.

Tentou encolher-se ainda mais no canto da cela, mas era inútil. Em menos de uma hora toda sua roupa já estava encharcada pela neve, o espesso casaco negro e a calça azul clara. Cada minuto daquele pôr-do-sol aumentava o pânico dela.

Quando a noite de fato se instaurou, Sam apenas se esforçava para manter sua consciência, mesmo que uma confusão mental já estivesse dando as caras. Se tornava cada vez mais difícil a luta contra o frio, seu corpo estava desistindo, suas esperanças haviam sido levadas pela neve que continuava caindo.

– Pense em coisas boas… Pense em coisas quentinhas… – Murmurou para si, num esforço de manter-se acordada. – Mantenha a mente funcionando…

Já havia deixado seu corpo cair para o lado, onde estava deitada de forma encolhida, não havia forças para mover-se, suas articulações e músculos não respondiam.

A lembrança daqueles dias passados em Ilhabela povoaram sua mente, mais precisamente aquela tarde quente no deque em frente à casa, deitada numa larga espreguiçadeira. Desejou com todas suas últimas forças estar novamente ali, com Theo dormindo junto ao seu corpo, enquanto dividia-se entre um livro e a observação do mar. O momento em que largou o livro e se deu conta do quanto era afortunada por estar tão confortável, não apenas fisicamente. Não era apenas seu corpo que estava aquecido naquela tarde quente no litoral de San Paolo.

Este foi seu último pensamento antes de perder a batalha contra o frio.

***

Virginia e Stefan estavam de vigília em frente à casa do General Turner, dentro do carro alugado. Diziam que ele já havia desembarcado na cidade e que apareceria em sua residência a qualquer momento.

Um grande carro militar ofuscou a visão deles com a luz forte de seus faróis, parando no portão da casa dele. O homem barrigudo foi prontamente reconhecido ao descer do automóvel, fazendo a dupla sair do carro imediatamente e o abordando já dentro do quintal da casa.

– General! – Berrou Stefan. – Por favor, precisamos de sua ajuda!

– O que fazem aqui? – O militar disse, com feições enrugadas por conta da neve que caia em sua cabeça.

– O Coronel Phillips está prestes a matar Samantha, precisamos da sua intervenção com urgência. – Virginia, um pouco mais calma que Stefan, disse.

– Entrem logo! – O General entrou em sua casa, seguido por ambos.

– Obrigada por nos receber, estamos correndo contra o tempo e o senhor é nossa única esperança para evitar uma tragédia. – Virginia disse, sacudindo a neve dos ombros de Stefan.

– Me expliquem de forma ordenada o que de fato está acontecendo. – O General bonachão tirou seu sobretudo, pendurando num dos ganchos da parede.

– O que houve aqui, Paul? – Uma mulher de aproximadamente cinquenta e tantos anos os abordou.

– Está tudo bem, querida. Eles são advogados de uma interna, vieram com uma emergência. – Ele foi até a esposa e a abraçou após beijar sua testa.

– Fez boa viagem?

– Sim, estou exausto, mas correu tudo bem. Essas viagens para a Zona Morta são sempre cansativas.

Virginia e Stefan ficavam cada vez mais impacientes com a conversa entre o casal.

– General Turner… É realmente emergencial. – Stefan interrompeu.

– Querida, você pode me preparar algo para jantar? Daqui a pouco falo melhor com você. – O militar pediu gentilmente, e sua esposa seguiu para a cozinha.

– Talvez Sam já esteja morta, ela foi jogada no jardim de inverno no domingo à noite. – Stefan disparou de uma vez.

– Jardim de inverno? Aquilo está desativado.

– Pelo visto não, uma testemunha viu quando os guardas a jogaram nesta cela.

– O Coronel Phillips não ousaria fazer isso na minha ausência, tem algo errado nessa história. Ela deve estar numa solitária normal. – Ele disse com as mãos sobre a barriga.

– Não, não está, – Virginia disse. – Por favor, peça para que a tirem de lá, provavelmente a esta altura ela precisará de cuidados médicos, peça que façam de tudo para que ela não morra.

– O julgamento é depois de amanhã, General. – Stefan completou. – Ele não quer que ela chegue viva até lá.

– Se isso for verdade, é algo grave contra o Coronel. Esperem um instante.

Paul Turner tomou o comunicador do bolso do sobretudo e sentou-se num sofá, sob a observação aflita dos advogados. Fez uma ligação, aguardava ser atendido correndo a mão pelos cabelos grisalhos e ralos no alto de sua cabeça, os ajeitando para trás.

Não foi atendido. Fez outra ligação.

– Sirkis? Tem alguém no jardim de inverno?

– Não que eu saiba, senhor.

– Por acaso o Coronel Phillips deu alguma ordem com relação a interna Samantha…

– Cooper. – Stefan completou.

– Samantha Cooper? Onde a interna se encontra agora?

– Provavelmente em sua cela, senhor.

– Me informaram que ela está no jardim de inverno desde domingo. Se eu for até a prisão agora e encontrar esta mulher dentro do jardim de inverno, ou morta, sua cabeça será a primeira a rolar, você compreendeu, Sirkis?

– Plenamente, senhor.

– Chame o resgate médico agora e os mande buscar essa interna. Eu irei até a prisão daqui a pouco, e se essa mulher não estiver na enfermaria é você que vai acabar na enfermaria. Compreendeu, Sirkis?

– Sim, senhor.

– Vá, agora! Depois me entendo com o Coronel.

Desligou a ligação e voltou o olhar para os dois que o fitavam com apreensão.

– Ela está viva? – Stefan perguntou.

– Eu não sei. – O General respondeu. – Mas se não estiver, a vaga de vice-diretor da prisão estará disponível ainda hoje.

– O senhor vai para lá agora?

– Não, se for preciso irei mais tarde. Mas colocarei uma pessoa da minha confiança acompanhando o caso.

Novamente tomou o celular e fez uma ligação.

– Doutor Volkov? Me dê uma boa notícia, me diga que está de plantão hoje.

– Estou sim, as noites de terça sempre são minhas. Como estão as coisas na Zona Morta?

– Sem novidades, os quartéis estão numa calmaria. Mas já me encontro em Krasnoyarsk, e preciso de um favor.

– Pois não, General.

– Deve chegar a qualquer momento uma interna na enfermaria, o nome dela é Samantha Cooper e deve estar sendo resgatada do jardim de inverno neste momento.

– Mas aquilo não estava lacrado?

– Pelo visto alguém desobedeceu minhas ordens. Mas não é momento para averiguarmos isso, eu quero apenas que você cuide pessoalmente desta moça, e me ligue assim que tiver algum parecer. E por gentileza, não me ligue para dar más notícias, ouviu? – Brincou.

– Pode contar comigo, senhor.

Após desligar e largar o comunicador ao lado no sofá, o General percebeu que as feições de Stefan e Virginia traziam agora um traço de alívio, porém ainda pareciam tensos.

– Está resolvido, meus caros. – Turner falou.

– Nós queremos aguardar esse parecer do médico, podemos ficar aqui? – Stefan pediu, sua gravata já estava laceada ao máximo.

– Que acham de jantar comigo?

– Podemos?

– Fiquem à vontade, vou falar com minha esposa e tomar um banho.

Assim que o General deixou a sala, Stefan sacou rapidamente o comunicador do bolso do paletó ainda de pé na entrada do cômodo, e ligou para Theo.

– Theo? Estão resgatando Samantha neste momento.

– Que?

– Estamos na casa do General Turner, ele já resolveu tudo, acabou de mandar um equipe de resgate tirá-la de lá, e pediu para um médico de confiança cuidar dela.

– Do que estão falando?

– Theo, você está me ouvindo?

– Quem fala?

Stefan respirou fundo.

– Sou eu, Stefan. Está acontecendo alguma coisa com você?

Silêncio.

– Theo?

– O que houve? – Virginia perguntou.

– Acho que ela está no meio de um lapso.

– Stefan? – Theo o chamou do outro lado. – Stefan, é você?

– Claro que sou eu! – Disse com impaciência. – Letícia está com você?

Silêncio.

– Theo??

– Você quer falar com ela?

– Passe o comunicador para ela.

– Stef? O que está havendo aí? – Letícia disse.

– Theo está fora de si?

– Um pouco. O que aconteceu?

– Sam está sendo resgatada agora, o General Turner tomou as providências, ela está indo para a enfermaria.

– Que notícia boa, Meu Deus, que notícia maravilhosa… – Disse com um longo suspiro de alívio em seguida.

– Temos que torcer para que ela tenha resistido a todos esses dias e esse frio, está nevando.

– Então não sabem se ela está viva?

– Ainda não.

– Quando saberemos? Espera aí, Theo voltou ao normal, ela quer falar com você, está no viva voz.

– Theo, me compreende agora? Ou ainda está em outro planeta?

– Ouço, me desculpe. Eu peguei o final do que você disse. Então, ainda não sabem se ela está viva ou morta?

– Ainda não, mas tenhamos fé que ela resistiu e que será bem cuidada na enfermaria.

– Conseguiram falar com o General, então?

– Sim, estamos na casa dele, está resolvido.

– Eu amo vocês, eu amo o General Turner, eu devo tudo à vocês. – Theo dizia emocionada. – Eu sei que ela está viva, ela é teimosa demais para morrer praticamente na véspera do julgamento, Sam é valente, Sam é a pessoa mais valente que eu conheço.

– Nós também estamos esperançosos. O médico deve ligar daqui a pouco para o General, para informar como as coisas estão. Vamos jantar aqui, ele nos convidou.

– Vão jantar na casa do General?

– Sim, ele está sendo bastante solícito conosco.

– Eu preciso agradecer esse homem pessoalmente no dia do julgamento.

– Não se preocupe com isso, estamos tentando ser gratos, apesar de nosso pânico.

– Vocês podem pedir para o General ligar para o médico agora? Talvez ele já tenha notícias.

– Melhor não abusar da bondade dele, acredito que ele esteja no banho agora. Theo, eu te peço para tentar ficar mais tranquila agora, tudo já está encaminhado, eu prometo que ligo para você quando tiver mais notícias.

– Mais tranquila do que isso? Letícia me entupiu de calmantes, eu nem consigo falar direito.

– Nós pedimos para ela te entupir de calmantes.

– Eu não posso apagar.

– Duvido que você apague. Ok, a esposa do General está aqui nos chamando, até daqui a pouco.

– Estarei de prontidão.

– Podem me chamar de Galiana. – A sorridente mulher de cabelos negros presos num coque respondeu, os conduzindo para a sala de jantar.

Virginia e Stefan comeram tudo que lhes foi servido, estavam famintos. Mas não conseguiam disfarçar a ansiedade da espera da ligação do médico.

Findada a janta, sentaram-se no sofá da sala, onde o General verificava suas mensagens no comunicador.

– Já se passaram 42 minutos, o senhor poderia ligar para o médico? – Stefan não resistiu e pediu.

– Você cronometrou? – O militar brincou. – Ok, vou ver se já temos notícias.

O médico demorou a atender, e parecia um tanto esbaforido.

– E então, Doutor, ela estava viva?

– Sim, estamos com ela aqui na enfermaria, mas está dando um pouco de trabalho.

– Por que?

– Não estamos conseguindo subir a temperatura dela, tentamos algumas coisas e tudo que conseguimos foi uma parada cardíaca.

– Parada cardíaca? Mas ela sobreviveu?

– Parada cardíaca?? – Stefan repetiu com terror.

– Sobreviveu, foi coisa rápida, vamos continuar na luta aqui, eu ligo para você mais tarde.

Assim que ele desligou a ligação Virginia foi logo o indagando.

– Ela sobreviveu ou não??

– Sobreviveu, ao frio e à parada cardíaca, fiquem tranquilos.

– Ela vai ficar bem?

– Eu confio no trabalho do Doutor Volkov e sua equipe. Bom, acredito que minha missão esteja cumprida, certo? – O General disse num tom de despedida.

– Claro, o senhor salvou a vida da Samantha, nem sabemos como lhe agradecer. – Stefan disse.

– Acho que devemos ir, Stef. – Virginia captou a intenção do General.

– Claro, vamos. O senhor poderia entrar em contato conosco quando tiver alguma notícia sobre o estado dela? Se não for abusar da sua bondade.

– Fiquem tranquilos, ela vai ficar bem. Mas prometo informá-los do próximo boletim médico. Vejo vocês no tribunal.

***

Assim que chegaram ao hotel não muito longe dali, receberam uma mensagem de texto do General. “Tudo certo com sua cliente, estável e sedada, receberá alta amanhã.”

Prontamente a mensagem foi encaminhada para o restante dos interessados, Theo conseguiu dormir por seis horas consecutivas naquela noite.

 

Ablação: s.f.: Extração. Ato de tirar, de arrancar.

 

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