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Capítulo 64 – Lívido

Capítulo 64 – Lívido

 

Sam acordou na enfermaria no meio da manhã da quarta-feira, apenas um cobertor a aquecia, o ambiente não estava gelado mas sentia uns calafrios ocasionais, seu corpo ainda estava debilitado de todo o frio enfrentado e das privações sofridas.

Definitivamente, Sam não aguentava mais sentir frio.

Algum efeito sedativo ainda agia em seu corpo, tirou devagar os braços para fora do cobertor, fez uma rápida observação do local onde estava. Além de seu leito, havia apenas as hastes com frascos de soro e medicação gotejando em sua veia, e três biombos de lona verde a cercando. Vestia uma bata verde água, que não ajudava em nada a combater o frio.

Apesar de ainda sentir dores, frio, e uma sensação ruim por todo o corpo, estava aliviada por ter sobrevivido, seu pensamento estava focado no julgamento no dia seguinte. Até que se deu conta de algo: não sentia sua perna esquerda.

Olhou para baixo e não viu o volume de sua perna sob o cobertor, o levantou e constatou que sua perna mecânica não estava mais em seu corpo, haviam cumprido a ordem do juiz.

– No último dia… Me tiraram a perna justamente no último dia. – Fitava com tristeza a ausência abaixo do joelho.

Cobriu-se novamente, recostou a cabeça com sonolência e desânimo. Pensou na reação de Theo ao vê-la sem a perna no tribunal, tentou imaginar formas de conseguir uma nova prótese quando saísse dali. Se saísse dali.

Quando ouviu passos, tratou logo de chamar quem quer que fosse que estava andando por ali, estava afoita por informações e por sua alta. Um homem de não mais que quarenta anos, calvo e de jaleco branco, apareceu em seu cubículo, com um tablet em mãos.

– Bom dia, Samantha, sou o Doutor Iuri Volkov. – O médico cumprimentou de forma cordial. – Como se sente depois de tanto frio?

– Está tudo bem comigo? Eu sairei de alta hoje, certo? Meu julgamento é amanhã, e além disso tiraram a minha…

– Sim, você terá alta hoje. – O médico interrompeu sua verborragia ansiosa.

– Por que tiraram minha perna?

– Tivemos que cumprir a ordem do Coronel Phillips, infelizmente.

– Eu sabia…

– A boa notícia é que eu fiz um pedido ao General Turner e ele conseguiu uma liminar com o juiz autorizando que nossa equipe forneça uma prótese temporária.

– Quando?

– Devem trazer hoje à tarde, não é nada tão avançado quando o que você tinha, essa é removível, mas vai te ajudar a se locomover até você conseguir uma melhor.

Sam ostentou um sorriso, algo que não fazia há dias.

– Meu resgate daquele lugar onde eu estava, quem…

– Foi ordem direta do General Turner. E hoje cedo ele afastou o Coronel Phillips da vice diretoria por trinta dias.

– Deus seja louvado… – Disse num sopro.

– Como se sente?

– Cansada.

– Resgatamos você na hora certa, mais uma ou duas horas naquele frio e já era. Você teve uma parada cardíaca rápida quando veio para cá, mas agora está muito bem.

– Quase me mataram…

– Vou pedir para trazerem seu café da manhã, posso te ajudar em algo agora?

– Estou com sede. E frio também, tem como conseguir outro cobertor?

– Vou pedir água para você. E os cobertores são controlados, então infelizmente não posso te dar outro.

– Por que todos os lugares aqui dentro são tão frios?

– Já te disseram que você está na Sibéria? – O médico brincou. – Aqui é uma prisão controlada por militares, eles não estão muito preocupados com o conforto das internas. Mas vou tentar arranjar um cobertor em outra seção.

– O senhor é um anjo.

O médico apenas sorriu timidamente.

– Desculpe, não quis ser desrespeitosa com o senhor. Mas é tão difícil encontrar alguém nessa prisão disposto a ajudar…

Doutor Volkov puxou uma cadeira do cubículo ao lado, sentando ao lado do leito.

– Eu estou acompanhando seu caso pela imprensa, Samantha.

– Está?

– Não temos boas novelas na Rússia. – O médico riu. – Estou na torcida para que você saia deste lugar e volte para casa com sua namorada, torço muito por ela também.

– Obrigada. – Sam lhe respondeu com um sorriso cansado.

– A luta de vocês está me dando forças para sair deste continente com meu namorado, para tentarmos uma vida mais tranquila na Nova Capital. Sua garota, Theo, ela é valente.

Sam voltou a abrir um sorriso com a informação.

– Aqui não é um bom lugar para nós. – Sam respondeu.

– Não é, aqui minha união de dezoito anos não é aceita, não é nada. Temos que fingir para todos, trabalho, família, sociedade…

– Eu espero encontrá-los na Nova Capital em breve.

***

Sam recolocou uma prótese, removível, onde parte da extensão era uma haste metálica cilíndrica. O processo de remoção acabou danificando alguns circuitos, ela precisaria trocar de prótese em breve. Teve alta à noitinha, logo após jantar na enfermaria.

Theo tomava um café com Letícia no local onde trabalhara, estavam mais aliviadas, mas a tensão da chegada do julgamento pairava de forma densa no ar. Virginia e Stefan já haviam retornado para Novosibirsk, estavam no apartamento. Nas próximas horas receberiam em casa Michelle, Daniela e Lindsay, que viriam para o julgamento.

– Então o julgamento será aqui, em Novo? Por que? – Letícia perguntou.

– A comarca que julga os casos militares é aqui. – Theo respondeu mexendo seu café lentamente, olhando através da vidraça.

– Você está preocupada com o pessoal que vai chegar hoje? Em como vai alocá-los?

– Hum? – Theo a olhou.

– Não vai caber todo mundo nesse apartamento pequeno, já se deu conta disso?

– Na verdade… – Theo respirou fundo. – Não havia pensado nisso.

– Essa tensão é do que?

– Não sei… Mike e Claire podem tentar alguma coisa hoje. Os poderosos de Nova Capital também podem querer frustrar esse julgamento, podem fazer algo de ruim com Sam, ou comigo.

– Por isso que você não tira os olhos da rua?

– Sim. Estou ficando paranoica? Pode ser honesta. – Theo bebeu alguns goles de café.

– É uma paranoia que eu compreendo.

– Eu deveria estar organizando onde enfiar todo mundo essa noite e amanhã, não é? Sou uma péssima anfitriã.

– Não, deixe comigo. Já conversei com Dani, nós podemos ficar num hotel. Colocaremos sua cunhada no sofá cama da sala, e Michelle fica no hotel que costuma ficar. Ou então eu continuo dormindo com você, na sua cama, e Dani dorme no hotel ou algum canto.

– Prefiro você comigo, se importa? Dani se importaria?

– Não, não teria problema algum. Eu também prefiro ficar por perto.

– E amanhã? Amanhã Sam estará aqui.

Letícia sorriu com o otimismo de sua amiga.

– Amanhã o pessoal se resolve, você não é mãe deles. Lindsay pode muito bem ir para um hotel, nós também.

– Será que vem mais algum parente da Samantha? O pai dela me dá calafrios…

– Que Sam não me ouça, mas espero que esse homem não apareça.

Letícia percebeu que Theo olhava adiante e sorria, Dimitri havia entrado no café, e se dirigiu à mesa delas.

– Lê, quero te apresentar o meu herói. – Theo disse após abraçá-lo.

***

– Olha só quem vem ali, a primeira sobrevivente do jardim de inverno! –  Sophia cumprimentou Sam, que se aproximava devagar e mancando da mesa do refeitório onde terminavam a janta.

– Essa foi por pouco. – Sam disse e sentou-se ao lado de Nira, que a abraçou.

– Soubemos que seu sogro foi afastado da vice direção por causa disso. – Sophia falou.

– Ex-sogro. E eu espero que ele nunca mais volte, ele quase me matou. – Sam dizia com a voz morna, ainda estava abatida por conta dos últimos dias.

– É sua última noite aqui, está ansiosa? – Nira perguntou.

– Tiraram sua perna? – Yulia perguntou também.

– Tiraram, pelo menos estou com uma prótese provisória, aquele médico da enfermaria é muito gentil.

– Doutor Volkov? Sou apaixonada por ele! – Yulia disse.

– Sim, esse mesmo. Nira, ainda estou meio zonza pela quantidade de remédios que tomei, mas estou tentando não entrar em pânico com esse julgamento amanhã, tenho medo que tudo dê errado, que o promotor me faça perguntas que eu não responda bem. Na verdade estou morrendo de medo de ser condenada, de ouvir o juiz proferindo ‘culpada’ no final de tudo, e ter que voltar para cá.

– E ter que olhar para nossas caras de novo. – Yulia brincou.

– Esse não é o problema. – Sam sorriu. – Sentirei falta de vocês, mas não desse lugar, muito menos de todas as privações. Bom, isso se eu realmente sair daqui…

– Você vai, seu lugar não é aqui, você não é uma criminosa. – Sophia disse.

– A cada minuto que passa fico mais nervosa. – Sam dizia esfregando os dedos sobre o colo.

– Existe a possibilidade sim de você ser condenada, mas que tal pensar no que vai acontecer se você for inocentada? – Nira incentivou.

– Ter minha liberdade de volta, ter minha vida de volta… – Sam abriu um sorriso. – Sair de lá com Theo, dormir numa cama quentinha com ela.

– Duvido que vocês durmam! – Nira brincou.

– É bom saber que consegui salvar sua pele. – Svetlana se aproximou por trás, dando um beijo no rosto de Sam.

– Svet. – Sam olhou para trás. – Salvou?

Svetlana sentou ao seu lado.

– Ela não sabe? – A mafiosa perguntou às suas amigas.

– Não. Sam, foi Svetlana que avisou seus amigos que você estava no jardim de inverno. – Sophia explicou.

– Foi? Como conseguiu?

– Eu pedi para meu advogado procurar o seu advogado, aquele das gravatas coloridas. Eu não poderia deixar você morrer congelada lá.

Sam virou-se na direção de sua colega de cela, e a abraçou.

– Então você realmente salvou minha pele. – Sam disse enquanto a abraçava.

– Eu te devia uma.

– Devia?

– É, sabe, nosso começo não foi dos melhores. Eu te devo desculpas pela forma como te tratei, eu forcei a barra, não deveria ter te obrigado a nada.

– Que bom que agora você compreende isso, espero que não faça com ninguém mais.

– Vacilei, o poder subiu à cabeça. Não quero que você saia daqui amanhã achando que sou algum monstro. Eu peço desculpas a você e à sua namorada.

– Bom, ela não sabe, nem quero que saiba, ela não merece passar por isso.

– Eu também não contaria, mas lá fora a vida é outra, siga sua consciência.

– É… Eu sei… – Sam refletia com preocupação, fitando a mesa. – Lá fora é diferente, não sei o que esses quatro meses fizeram comigo e com meu relacionamento…

– Vocês continuarão de onde pararam.

– Não sei, esse tempo todo afastadas… Ela pode ter se dado conta que vive melhor sem mim, ou que merece alguém melhor.

– Sua autoestima está horrível, hein?

– Não é o meu forte…

***

O dia 16 de abril chegou, logo cedo toda a comitiva seguiu debaixo de uma nevasca para o tribunal no Centro da cidade. Alguns minutos antes de iniciar a sessão, Stefan e Virginia receberam autorização para falar com a ré numa sala reservada. Os outros se acomodaram nas cadeiras já dentro do grande salão de audiências.

Havia uma divisória de vidro entre o público e a parte alta do plenário, onde ficava o juiz, os advogados e os promotores. Os móveis eram em sua maior parte de aço, inclusive o púlpito do magistrado.

Theo esfregava os pulsos e olhava atentamente na direção da porta por onde acreditava ser a entrada dos protagonistas do julgamento. Estavam sentados na quarta fileira, e tinha de um lado Michelle, do outro Letícia.

– Por que você trouxe dois casacos? – Michelle perguntou, ao ver dois casacos dobrados em seu colo.

– Um é para Sam, está nevando lá fora.

Michelle lhe sorriu, dando tapinhas em sua perna.

– Você pensou em tudo.

– Agora eu faço anotações, não confio na minha memória. – Theo respondeu lhe mostrando quatro pedaços de papéis com anotações.

– Por que não anota no comunicador?

– Porque eu o perco às vezes.

– Esse julgamento vai terminar hoje? – Lindsay perguntou.

– Não sei, Stefan acredita que sim. – Theo respondeu.

– Não acredito que esse bolha está aqui. – Letícia apontou duas fileiras adiante.

– Mike irá depor. – Michelle disse.

– A favor de Sam?

– Não, contra.

– Isso porque ele diz que a ama, não é? – Letícia debochou.

– E ao lado dele está o demônio pai. – Theo resmungou. – Coronel Phillips.

– É esse?

– É, esse desgraçado que quase matou Sam de frio. Entre outras coisas.

O juiz foi o primeiro a entrar, acompanhado de algum funcionário. Nos minutos seguintes todos já haviam entrado, Sam entrou ao lado de Stefan, seguiu devagar e mancando até um banco em frente à parede de vidro, procurando rostos conhecidos na plateia.

Encontrou o semblante tenso e curioso de sua namorada, mas não pode sustentar o olhar por muito tempo, a voz ressonante do juiz chamou a atenção de todos, pedindo silêncio e atenção.

– Ela está com o rosto ferido, e mancando. – Theo disse preocupada. – Bateram nela.

– Talvez seja ainda consequências do frio intenso que ela passou. – Letícia a acalmou.

– Ela precisa ir embora comigo hoje, não pode voltar para aquele lugar, olha o que estão fazendo, ela está tão abatida, e estão batendo nela.

O juiz pediu silêncio novamente e se pôs a falar. Após cumprir o protocolo inicial e verificar que todos estavam presentes, o promotor passou longos minutos apresentando aos jurados os motivos que pelos quais Sam deveria ser condenada, dedicando mais tempo na acusação do massacre de civis na Zona Morta, o crime de guerra. Por fim, pediu pena máxima para todos os crimes, somando 75 anos.

Em seguida Stefan fez a defesa. Para a acusação de deserção da corporação, alegou sua busca pela sobrevivência, pois se nada fosse feito, apenas aguardaria no quartel sua morte com data certa, já que seu pedido de desligamento fora negado. O furto de equipamentos biomecânicos do exército foi colocado em cheque com a alegação de que tudo que lhe fora implantado não teve sua autorização prévia, e não havia nenhum contrato ou acordo afirmando que aqueles componentes, perna, coração, sistema neural, implantes, nada havia sido oficialmente cedido em caráter de empréstimo ou coisa que o valha.

Sam prestava atenção nas palavras de Stefan, que estava de pé ao seu lado no banco. A frente deles havia uma mesa comprida, onde Virginia constantemente organizava papéis eletrônicos e não eletrônicos. A defesa do crime de guerra foi mais longa e eloquente, havia a preocupação em provar que Sam não seria capaz de matar inocentes por vontade própria, ou sabendo do que se tratava a missão. O foco seria o caráter da ex-soldado, algo que se mostrou uma decisão acertada, pois havia ficado evidente que a promotoria tentaria provar que Sam seria capaz de tais atrocidades, sua índole seria bombardeada.

No meio da manhã as testemunhas começaram a ser ouvidas. As de acusação viriam primeiro, em seguida as de defesa, que consistiria apenas em Maritza, Ralph, um outro ex-soldado Borg contemporâneo de quartel dela, e por fim, Theo.

Mike foi o penúltimo a testemunhar e ser interrogado, por parte da acusação. Antes dele, quatro soldados do mesmo pelotão que Sam trabalhou na Zona Morta deram depoimentos rasos a respeito da personalidade e atitudes dela. Um deles havia participado da missão que terminou em massacre, e afirmou com veemência que Sam estava ciente de suas ações e seu papel estratégico. O promotor aproveitou o ensejo da testemunha para mostrar provas, imagens e dados técnicos que comprovariam o envolvimento de Sam nas mortes.

Eram boas provas circunstanciais, porém cabiam contestação, o que Stefan fez quando lhe foi dada a oportunidade de interrogar a testemunha. O advogado, que tinha uma sólida e ágil assessoria de Virginia, tentava derrubar todos os dados apresentados e desacreditar o depoimento dos soldados.

Infelizmente o promotor também era um bom advogado, e a batalha estava cada vez mais acalorada e árdua. Theo já se revirava em sua cadeira com desconforto e ansiedade, recusava os sedativos que Letícia tentava lhe empurrar.

– Lê, não quero tomar isso. Eles me deixam lerda, me dão lapsos. – Sussurrou para a amiga.

– Tome o mais fraco.

– Não quero, estou bem.

– Está quase surtando, vai acabar se estabacando no chão de tanto que se mexe.

– Não vou, não.

– Então aguente firme.

Sam deu uma olhadela para trás, na direção de Theo.

– Ela olhou de novo. – Theo comentou com um sorrisinho satisfeito.

Sam estava num estado apreensivo extremo, não conseguia relaxar seu corpo nem por um minuto. Mas sempre que olhava para trás e via Theo, sentia uma efêmera felicidade dentro de si. Mexia na gola da camisa branca de tempos em tempos, num gesto nervoso. Por cima da camisa vestia um casaco negro e leve, com um corte semelhante ao tailleur, porém mais informal. Traje levado e entregue pelo advogado, que foi escolhido com colaboração de todos, queriam passar uma imagem séria, porém despojada, de Sam aos jurados.

Stefan finalizava a série de perguntas ao interrogado da vez: Mike. Sempre sorridente e bem arrumado com uma jaqueta oliva que lembrava as jaquetas militares, ele respondia ao advogado fugindo pela tangente.

– Você não estava na missão em que acusam Sam de ter matado civis, como pode ter certeza de que ela sabia o que estava fazendo?

– O comandante daquela missão era um grande amigo meu, ele me contou o que houve, contou que o massacre aconteceu por causa de alguns soldados que desobedeceram as ordens e agiram por vontade própria. Estes soldados abriram fogo de forma impiedosa, mesmo sabendo que naquela vila haviam civis, que haviam crianças! – Dramatizou.

– Você não acha pouco ético fazer estas alegações, sabendo que este comandante não tem como falar por si, porque está morto?

– Ele ficaria feliz em saber que estou trazendo a verdade à tona.

Stefan se controlava para não perder o controle com ele, para não se exaltar e perder a razão ali. Precisava manter suas perguntas num tom ríspido e acusatório, sem titubear. Respirou fundo fitando o semblante debochado do ex-major.

– Por que você está fazendo isso? Por que você está sentado nesta cadeira fazendo alegações com tanto fervor contra a ré? Perdão, contra Samantha, sua ex-noiva, sua ex-companheira, alguém que você não cansa se bradar aos quatro ventos que ama, que a quer de volta como sua esposa. Por que você quer prejudicar a mulher que você supostamente ama?

Pela primeira vez Mike ficou sem reação instantânea, hesitou antes de começar a responder. Olhou de forma carinhosa para Sam, que também o encarava.

– Eu a amo. Meu dever como cidadão da comunidade europeia fala mais alto que meu amor por ela, justiça precisa ser feita. Ela sabe que eu a amo, meu depoimento não arranhará nosso amor.

– Eu vou vomitar. – Theo cochichou para Letícia.

– Vai mesmo?

– Não, estava sendo irônica.

– Não se abale.

– Eu não sabia que poderia caber tanto ódio por alguém dentro de mim.

Stefan fez a pergunta final.

– E se ela for condenada?

– Eu a visitarei todas as semanas, eu lutarei para conseguir um abrandamento de pena e que ela saia em condicional após pagar pelos erros que cometeu. O tempo na prisão fará com que ela repense as atitudes equivocadas de sua vida, não tenho dúvidas de que Samantha sairá de lá comigo, para uma relação saudável e normal, abençoada por Deus e por nossos familiares.

Nem Stefan, nem o restante do grupo, sabiam que na verdade Mike tinha planos de tirá-la de dentro da prisão, fazer a reprogramação bioquímica, e levá-la para Kent, com a cobertura do seu pai e dos amigos militares.

– Lynn, você acredita que esse homem é a melhor coisa que pode acontecer para sua irmã? – Theo perguntou para sua cunhada, que estava na cadeira à sua frente.

– Não, eu não confio mais nele. Eu gostaria que Sam conhecesse um bom homem e tivesse uma união sagrada com ele.

– Bom, eu não. – Theo respondeu em tom zombeteiro.

– Mas para falar a verdade quero que ela fique com você, depois de tudo isso não seria justo separá-las.

Theo sorriu para ela.

– Ela é feliz com você. – Lindsay arrematou.

O juiz encerrou o testemunho de Mike e pediu um intervalo de uma hora para o almoço. Passava das duas da tarde.

Theo e seus amigos saíram do grande salão e reuniram-se próximo a porta, já no corredor.

– Eles irão fornecer almoço para nós? – Lindsay perguntou.

– Não, mas Fibi já está cuidando disso. – Michelle respondeu.

– Tem um lugar aqui em frente, podemos todos irmos para lá? – Fibi convidou.

– Ótimo, só temos uma hora, vamos lá. – Theo disse e seguiu o grupo pelo corredor.

– Theo! – Virginia surgiu no corredor, a chamando.

– O que foi?

– Quer vir até nossa sala? Até três pessoas podem ficar lá, queremos conversar sobre a manutenção de nossa estratégia.

– Quero sim. Pessoal, sigam Fibi e se alimentem.

Theo acompanhou Virginia até uma sala com uma mesa larga e estantes ao redor. Stefan estava em seu interior, debruçado sobre papéis.

– Onde ela está? – Theo perguntou ao entrar na sala.

– Numa cela. Fique tranquila, ela está bem, receberá uma refeição.

– Ela não parecia muito bem, seu rosto está machucado.

– Sam me contou que recebeu uns chutes quando a jogaram naquela cela aberta, mas está bem de saúde.

– Por que ela está mancando?

– Tiraram sua perna mecânica.

– Tiraram?? – Theo perguntou estarrecida.

– Infelizmente sim, Coronel Phillips mandou cumprir a determinação preliminar do juiz. Ela está usando uma prótese temporária, depois cuidamos disso, ok? Agora temos que focar no restante do processo, eu estou preocupado com alguns detalhes e quero repassar duas perguntas que farei a você quando testemunhar.

– Sim, vamos rever isso, vamos rever tudo que for necessário. – Theo disse sentando numa das cadeiras giratórias.

– Daqui a pouco vão nos trazer almoço. – Virginia disse com a mão em seu ombro.

– Essa é a primeira boa notícia do dia. – Theo brincou.

A porta se abriu e os três olharam na direção do homem que entrava. Era o barrigudo e simpático General Turner, que tanto havia os ajudado durante estes meses na Sibéria.

Virginia e Stefan lhe cumprimentaram de forma calorosa e receptiva, mas Theo retesou-se totalmente em sua cadeira quando o viu, seu semblante estava lívido e transtornado.

 

Lívido: Adj. Extremamente pálido: tez lívida. Pálido, branco, plúmbeo, cinzento.

 

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