Capítulo 23 – Indelével

Capítulo 23 – Indelével

 

A dupla abriu uma porta de correr e desceu as escadas lentamente, atentos a qualquer ruído ou movimentação. Chegaram no andar de baixo, onde havia um pequeno corredor com uma porta no fundo, Sam sabia que o quarto dormitório ficava mais um andar abaixo, olhou intrigada para aquela porta que Theo não havia mencionado, mas continuou a descer. Abriram uma pesada porta de madeira acinzentada, e destamparam numa sala de paredes irregulares, grande e cheia de camas. Em cima das pequenas camas, havia garotas acuadas, sentadas de forma amedrontada, segurando suas pernas, todas lançando olhares assustados para Sam e o homem que a acompanhava.

Sam levou alguns segundos para assimilar a cena, tentou manter contato visual com todas, ergueu as mãos em sinal de apaziguamento.

– Meninas, nós viemos resgatá-las, ninguém vai lhes fazer mal.

– Você é da polícia? – Uma garota perguntou com terror na voz.

– Não, mas viemos ajudá-las, não tenham medo, já cuidamos dos seguranças, Elias não está aqui, vai ficar tudo bem, vamos levá-las para a Nova Capital em breve.

– Há algum segurança por aqui? – George perguntou, com arma em punho, ainda olhando para todos os lados com desconfiança.

– Não, eles ficam lá em cima.

– Stan, tudo em paz aí em cima? – Sam falou pelo rádio com o colega.

“Sim, mas precisamos removê-los para um hospital logo.”

– Levem para o carro e sigam para o hospital, eu e George cuidaremos das garotas. – Sam disse pelo rádio.

“Tudo sob controle aí embaixo?”

– Tudo limpo aqui, vou subir com as garotas.

George retornou do banheiro no final do quarto, onde verificara por seguranças, as meninas continuavam acuadas, sequer haviam deixado suas camas.

– Sam, vou deixar você conversar a sós com as meninas, subirei para ajudar na remoção dos feridos. – George comunicou em voz baixa, já na direção das escadas.

– Ok, obrigada, subiremos em instantes. – Sam disse e fez um aceno positivo com a cabeça.

Sam deu alguns passos inseguros para o centro do quarto, as reféns continuavam assustadas, pareciam não acreditar que estavam de fato sendo liberadas do cativeiro, ela queria ser prática e lidar com calma, mas não queria aparentar insensibilidade, já havia errado uma vez.

– Se vocês possuem pertences, peguem tudo e depois subam comigo, temos carros aqui perto que levarão vocês à um hospital, irão passar por alguns exames médicos, faz parte do protocolo.

– E depois?

– Levaremos vocês para um hotel, onde alguns policiais irão conversar com vocês, eu preciso de autorização para entrar na Nova Capital.

– A polícia é comprada por Elias. – Uma garota rebateu.

– Eu sei, mas será a polícia internacional que virá, a pedido de uma senadora, não precisa temer estes policiais.

Uma das garotas, alta e com um porte imponente, levantou-se da cama e prostrou-se frente a Sam.

– E quem são vocês? Se não são da polícia, por que estão nos ajudando? – Ela questionou num tom de incredulidade.

– Somos um grupo de pessoas que veio em missão para libertar vocês e pegar Elias, infelizmente ele não está aqui.

– Vocês são rivais dele, não são? E vão nos levar para algum buraco na Nova Capital. – A garota continuava duvidando das boas intenções.

– Pauline, pare com isso, eles vieram nos libertar! – Uma das meninas disse, aos prantos.

– Você é Pauline? – Sam perguntou segurando um sorrisinho.

– Sim, por que?

– A pessoa que está por trás desse resgate vai ficar feliz em saber que você está bem.

– E quem é?

– Ela pediu anonimato, mas é alguém que se preocupa com vocês.

– Por favor, nos tire daqui. – Uma garotinha, possivelmente a mais nova delas se aproximou de Sam, e implorou em lágrimas. – Eu quero ir para casa, eu quero ver minha mãe.

– Eu vou tirar vocês do Circus, vocês estarão em casa em breve. – Sam disse num tom tranquilo para a garota.

– Eu não quero mais fazer essas coisas… – A menina voltou a chorar.

– Acabou, essa vida acabou, você vai voltar para sua mãe.

A garota com ar juvenil e cabelos claros abraçou Sam, que não sabia direito como reagir.

– Quantos anos você tem, mocinha?

– Quinze. – A menina respondeu de forma abafada, entre soluços.

– Meu Deus… – Sam murmurou transtornada, o sangue frio da missão começava a dar lugar para um sangue quente lhe fervendo nas veias. Vinha à tona todo o ódio a Elias e ao que ele fez com Theo, e também com aquelas garotas. Tudo tão vívido agora, em todas as cores opacas daquele prostíbulo, os semblantes assustados das garotas que pareciam ter suas almas roubadas, o mesmo semblante que ela viu em Theo na noite em que a encontrou correndo por ruelas escuras, fugindo deste inferno.

– Eu quero ir embora…

– Qual seu nome? – Sam desprendeu-se da menina, e perguntou carinhosamente.

– Blanche.

– Blanche, eu vou levar você para sua casa, prometo. – Sam inclinou-se para baixo e lhe disse fitando seus olhos.

– Como vamos saber se você está dizendo a verdade? E se estiver nos levando para trabalhar em outro lugar? – Pauline disse em voz alta, iniciando um burburinho.

– Vocês terão que se arriscar. – Sam respondeu no mesmo tom, percebeu que elas silenciaram, e voltou a falar num tom amigável. – Confiem em nós, tem duas ONGs participando desse resgate, depois eu explico tudo com calma, e tiro todas as dúvidas.

– Vamos lá, vamos embora! – Uma garota disse sorrindo, enxugando o rosto.

– Pegaram suas coisas? Vamos subir então. – Sam disse, e seguiu para a porta cinza da escada.

Subiu três degraus e sentiu um golpe na cabeça, sem saber de onde surgira. Um homem corpulento, trajando o mesmo paletó negro dos seguranças voou para cima dela, rolaram escada abaixo, engalfinhando-se agora no piso de cimento do dormitório.

As garotas assistiam em pânico a luta que desenrolava no chão, as armas de ambos haviam rolado para longe, Sam parecia vencer a luta, seu oponente aparentava cansaço e seu rosto sangrava em vários lugares, estavam no embate de mãos limpas, ou nem tanto.

O segurança acertou um soco em cheio, lhe abrindo o supercílio e a desnorteando, ganhou tempo suficiente para sacar uma faca da bota e cravar na cintura de Sam, na lateral desprotegida pelo colete.

– Arrrrgh! – Sam urrou e saiu de perto dele, ainda com a faca em seu corpo.

Removeu a faca apesar da dor, e partiu para cima do homem traiçoeiro. O esfaqueou no baixo abdome, e novamente rolaram no chão. Mas a luta desta vez foi encerrada por um tiro, o estampido paralisou Sam, que estava abaixo do segurança.

Lentamente, o corpo grande e pesado dele caiu sobre Sam, percebendo que ele havia sido baleado, mas ainda não sabia como.

– Desgraçado… – Um murmúrio raivoso fez Sam olhar para o lado e enxergar de onde viera o tiro.

Pauline ainda segurava a arma com ambas as mãos, e mantinha um olhar irado na direção do segurança. Sam o empurrou, saindo do domínio do corpo inerte, ele já estava morto.

– Obrigada, Pauline. – Sam agradeceu com a voz trêmula, ainda se recompondo.

– Você se machucou. – Blanche se aproximou, pousando a mão abaixo do corte na lateral do corpo de Sam.

– Não foi nada. – Sam respondeu com ares doloridos, desmentindo o que acabara de dizer.

– Já foi tarde, esse nojento… – Uma das meninas disse ao se aproximar do corpo no chão.

– Acreditam em mim agora? – Sam perguntou a todas, recuperando o fôlego, e cobrindo o corte na cintura.

– Qual seu nome? – Perguntaram, todas já estavam de pé.

– Samantha, podem me chamar de Sam. E então, vocês vêm comigo?

Ouviu-se um burburinho, um incentivo àquelas que ainda estavam receosas.

– Você precisa de um hospital, Sam. – Pauline também se aproximou, olhando a blusa dela cada vez mais molhada de sangue.

– Foi um corte de nada. Escutem, nós vamos subir, mas fiquem alertas, talvez tenha mais algum desses ratos na espreita, e eu só…

Um barulho ao lado fez Sam cessar o discurso, chamando sua atenção.

– Tem alguém ali. – Sam deu alguns passos receosos na direção de uma porta de duas folhas que ficava ao lado.

– Eu também escutei. – Uma das meninas disse.

– E quem está ali? – Sam virou-se para as garotas, as questionando.

– Não sei. – Responderam.

– Que lugar é esse? – Sam apontou para a porta.

– A cozinha.

– Vocês viram alguém entrar na cozinha?

– Não, estávamos dormindo.

– Tem algum rato aqui dentro, e deve ser dos grandes. – Sam disse para si própria, ergueu o punho e chamou seu colega militar no rádio.

– George? Me ouve?

“Estou aqui em cima.”

– Um segurança me atacou, mas estou bem, porém preciso de sua ajuda aqui embaixo, tem mais um rato na cozinha, e talvez seja o maior deles.

“Elias?”

– Acho que sim, por favor desça.

“Estou indo.”

Assim que George chegou, Sam o conduziu para a frente da porta larga da cozinha.

– Me dê cobertura, vou entrar. – Sam disse, arregaçando as mangas de sua blusa vermelha.

– Não, eu vou na frente, me siga.

Ele abriu a porta devagar, Sam aguardava de forma tensa logo atrás, querendo correr para o interior daquele cômodo. Estava escuro, mas a abertura da porta permitiu a entrada de um pouco de luz. A dupla andou devagar ao redor da mesa comprida de madeira onde as meninas faziam suas refeições, sem avistar nada importante.

– Pode ter sido um rato de verdade. – George sussurrou para Sam que estava agora ao seu lado.

– É, acho que foi algum rato, ou alguma panela que despencou no armário. – Sam disse em voz alta, apontando na direção de uma cortina.

George entendeu o sinal, e ambos caminharam pé após pé na direção da cortina escura, que parecia guardar alguma despensa por detrás. Sam puxou a cortina para o lado com violência, e avistaram atrás de uma caixa uma mulher de aparentes cinquenta anos e fortes olheiras, abaixada de forma defensiva.

– Não se mova, senhora. – George ordenou, apontando a arma para ela.

– Não atire! – Ela implorou.

– Onde está Elias? – Sam perguntou, também apontando uma arma.

– Não sei.

– Onde está Elias?? – Insistiu aos berros.

– Ele não está aqui, está viajando, é tudo que sei. – A mulher de cabelos castanhos encaracolados respondia com as mãos erguidas de pavor.

– Onde ele mora?

– Eu não faço ideia, ele nunca disse isso para ninguém.

– Como eu faço para encontrá-lo?

– Não sei, moça, eu não sei.

Sam marchou na direção dela, e a ergueu por um braço, de forma violenta.

– Eu sei quem é você, Marli, não é? – Sam a indagou enquanto a segurava pelo colarinho.

– S-sim.

– Para onde Elias foi?

– Não sei, ele não me conta essas coisas.

– Onde ele está?? – Sam insistiu.

– Ele só disse que faria uma viagem para o Brasil para resolver problemas de família.

– San Paolo? – Sam sentiu um arrepio congelante na espinha.

– Acho que sim.

– Droga… – Sam a soltou, e passou a mão pelo cabelo nervosamente.

– Theo está em perigo, George. – Sam sussurrou.

– Deixe comigo, eu vou falar agora com o chefe de segurança da casa e pedir que reforcem a equipe e redobrem a atenção.

– Ok, e também ordene para que não deixem Theo sair de casa.

– E o que fazemos com essa mulher, algemamos no palco com os outros?

– Não, isso é comigo, quero conversar um pouco com ela.

George saiu da cozinha, e Sam saiu logo atrás, conduzindo Marli com as mãos algemadas para trás.

– Meninas, acompanhem George lá para cima, eu subirei daqui a pouco.

– E essa sua facada? – Pauline perguntou ao se aproximar.

– Neste momento minha raiva é maior que qualquer dor. – Sam a confidenciou. – Suba, eu não encontrei Elias mas achei a aprendiz dele.

– Espero que você mate essa vaca. – Pauline disse e subiu, Sam ainda a olhou um tanto assustada.

Com o grande cômodo vazio, Sam caminhou com Marli em seu poder até o centro do quarto.

– Qual era a cama de Theo?

– Quem?

– Theo, uma das meninas que você ajudou a transformar a vida num inferno.

– Ah, a sobrinha de Elias.

– Exatamente.

– Aquela lá no fundo, a direita. Mas saiba que ela já não está mais aqui, ela morreu no início do ano.

– Eu sei.

As duas foram até a cama, onde Sam parou em frente, a fitando em silêncio.

– Foi aqui que você a deixou por dois dias com costelas quebradas perfurando seu pulmão, cuspindo sangue, com febre alta, foi nessa cama, não foi?

– Como você sabe disso?

Sam deu uma cotovelada nas costelas de Marli, que se contorceu após um grito de dor.

– Foi aqui? – Sam insistiu.

– Eu não sou médica! O que eu poderia fazer por aquela infeliz?? Não era eu que batia nela, eram os seguranças.

– Ou os clientes.

– Também, mas não é minha culpa, eu apenas sou a gerente aqui, cumpro ordens.

Sam deu uma olhada ao redor, e conduziu Marli para as escadas. Chegando no pavimento intermediário, Sam cessou o passo, e voltou a olhar para a porta que havia a intrigado momentos antes.

– O que tem ali? – Sam perguntou, apontando para a portinha.

– O buraco.

– O que é o buraco?

– Um lugar onde colocávamos as garotas que se comportavam mal.

– Tipo uma solitária?

– Isso.

– Venha comigo.

Sam a levou até a porta, abriu e entrou com a mulher. Uma claridade forte no seu interior doeu seus olhos. Após acostumar-se com a luz, Sam perscrutou os detalhes do cômodo gelado: havia manchas de sangue por todo lugar, no piso esverdeado e na parede, além de sujeira e um odor forte. Deu alguns passos até dois baldes vazios num canto, tentando encaixar aquela cena desagradável.

Pisou em algo granulado, sem entender o que acontecia.

– O que é isso no chão?

– Sal grosso.

– Marli, me conte o que acontecia no buraco. – Sam colocou ambas as mãos nos ombros de Marli, segurando uma arma.

– Melhor não saber.

Sam novamente a golpeou nas costelas, sem paciência.

– É a porcaria de um buraco! Era um castigo, acontecia de tudo aqui! – Marli falou com raiva.

– Theo esteve aqui alguma vez?

– Várias. – Marli sorriu de lado. Sam percebeu o risinho e golpeou seu rosto com as costas da mão.

– Sua vadia… – Marli resmungou.

– Era aqui que a espancavam?

– Não, elas tomavam alguma lição no quarto branco, depois as atiravam aqui, com privação de comida e de sono.

– Por que esse sal?

– Por que sim.

Sam ergueu a mão, mas Marli a interrompeu.

– Ok, ok! Elas ficavam aqui nuas e com seus ferimentos expostos, o sal nos ferimentos aumenta a dor e acelera a cicatrização.

Theo nunca havia contado para Sam sobre o buraco, nenhuma menção ou descrição desse lugar, agora ela entendia o porquê do silêncio.

– Para que as mercadorias não morressem, não é? Elias não queria prejuízo, só queria dar lições.

– Se essas garotas estúpidas apenas cumprissem suas funções, ninguém precisaria passar por aqui… – Marli fungou com raiva. – Elas nunca apanhariam se fizessem o que mandavam, mas eram burras demais.

Sam a fitou em silêncio por alguns segundos, refreando seu ímpeto violento.

– Marli, como você veio parar aqui?

– Eu tinha meu próprio negócio, minhas meninas, mas estava falindo. Sabe como é, essas garotas profissionais ficam com boa parte do lucro. Elias comprou meu negócio, e passei a trabalhar aqui. Se eu soubesse que esse tipo de casa dava tanto dinheiro, eu teria mudado de ramo.

– Que tipo de casa?

– Você sabe… Garotas sem remuneração.

– Escravas sexuais, você quer dizer.

– São todas garotas pobres, sem eira nem beira, ninguém está sentindo falta delas em lugar algum, pelo menos aqui estão sendo úteis.

Novamente Sam lutava para se manter calma, apertava com tremenda força o cabo de sua arma.

– Vamos continuar a visita guiada, se não se importa. – Sam disse, e a conduziu para fora do buraco.

– Você é policial?

– Não, para seu azar.

Chegaram no saguão do bar, onde restavam apenas os seguranças presos ao mastro no palco, George já havia levado as garotas para o hospital, para onde Maritza e Kohl, o militar ferido no quadril, também haviam sido encaminhados.

– Estamos a sós aqui, Marli, só eu e você no Circus. – Sam disse a encarando com um olhar sádico.

– Você vai me entregar à polícia? Ou vocês são alguma espécie de justiceiros?

Sam sorriu, e voltou a conduzi-la pelas mãos algemadas.

– Esse é o corredor dos quartos de trabalho, certo? – Sam perguntou, caminhando pelo corredor de ar pesado e odor forte de perfume doce.

– É sim. Sete quartos aqui, sete quartos lá em cima.

Sam andava sem pressa, olhava com atenção aos números pintados nas portas.

– Treze. – Sam parou em frente à uma porta amarela.

– Que bom que você sabe ler.

Sam a golpeou nas costelas, sem cerimônia.

– Entre aí.

Sam a empurrou para dentro do pequeno quarto de paredes amarelas, o ar ali era ainda mais pesado que no corredor. Deu alguns passos até a cama, parando ao lado, encarando aquele colchão sujo e cheio de manchas, permaneceu algum tempo em silêncio.

– Este era o quarto onde Theo trabalhava?

– Era sim, como sabe tantas coisas sobre ela? Você era cliente da tatuada malcriada? Não lembro de ver você aqui antes.

Sam não respondeu, algo nauseante e forte crescia em seu estômago enquanto olhava ao redor. Um lençol retorcido nos pés da cama, preservativos usados no chão, objetos sexuais caídos ao lado do pequeno criado mudo.

– Essas bagunceiras… – Marli resmungava. – Dormem sem arrumar o quarto, porque sabem que nós vamos arrumar tudo no dia seguinte, e largam assim desse…

– Cale a boca. Cale essa boca. Cale essa maldita boca. – Sam começava a explodir.

– Você acha que é fácil lidar com um bando de garotas desobedientes? Se você fosse uma das minhas garotas já teria tomado uma bela surra.

Sam a encarou rapidamente, antes de golpear seu rosto com o cabo da pistola, a derrubando no chão, ao lado da cama.

– Você é um demônio sem alma, você destruiu vidas, e finalmente chegou a hora de destruir a sua. – Sam vociferava com um ódio descomunal no olhar e nas palavras, fitando Marli caída sob seus pés.

– Você acha que salvará todas as donzelas inocentes me matando? Eram só vagabundas sem valor, não se iluda, no fundo todas elas gostavam de passar suas noites trepando nessas camas, não suje suas mãos por elas. – Marli se arrastava aos cotovelos.

Sam encheu seu pulmão de ar e desferiu seis ou sete chutes nas costelas de Marli, que rolava no chão em desespero.

– Isso foi pelas garotas que passaram por suas mãos. – Sam disse entredentes.

– Não me mate… – Marli balbuciou, com sangue enchendo sua boca.

– E isso é por Theo, que está viva, e planejou todo esse resgate.

– Está viva?

Sam tirou uma pistola branca de dentro da bota, tinha um formato estranho, não parecia uma arma de fogo.

– Eu trouxe esse brinquedo para Elias, mas infelizmente ele não está na casa, então será todo para você.

Marli cuspiu um pouco de sangue e tentou se erguer, fugindo de Sam.

– O que você vai fazer?

– Vire-se.

– O que?

Sam segurou seu braço e a virou com violência, colocando sua bota em cima das costas dela, para que não tentasse se levantar.

– É um brinquedo secreto do exército, meus colegas arranjaram para mim, ele não vai te matar, acho que não.

– O que é isso? – Marli se debatia, tentando se virar e ver o que acontecia a suas costas.

– Tem o nome provisório de desmanchador. Fique quieta, não se mexa.

Sam encostou o cano da pistola peculiar no alto de sua coluna vertebral, e disparou uma corrente visível e azulada.

Marli gritava pelo chão, tentando se arrastar com as mãos.

– Você nunca mais vai andar, Marli, sinto muito.

– Me tire daqui! – Continuava se arrastando pelo assoalho, com o rosto ensanguentado. – O que você fez??

Sam abandonou o quarto amarelo em silêncio, chegou novamente ao bar e encontrou policiais removendo os seguranças algemados, os levando presos.

– Senhor, tem mais uma no quarto treze, é a gerente do local. – Sam comunicou à um dos oficiais.

– Elias vai nos soltar ainda hoje! A polícia está do nosso lado! – Um dos seguranças gritou com Sam.

– Não a polícia internacional. – Sam rebateu. Deu uma última olhada pelo ambiente e desceu as escadas que davam na rua.

Enquanto caminhava até o carro estacionado numa rua próxima, sentia a cabeça pulsando e o ferimento na cintura latejando, mas o vento em seu rosto lhe trazia uma sensação de liberdade e dever cumprido. Antes de dobrar a esquina, viu fumaça saindo por algumas janelas do decadente prédio do Circus, algum comparsa de Elias havia ateado fogo no local, era o último recurso dele para encobrir seus negócios.

Acompanhou todos saindo do prédio, policiais e presos, e finalmente seguiu para o carro. Aquele problema já não cabia mais em suas mãos, o Circus havia ficado para trás, mas sua imagem e suas lembranças seriam indeléveis.

 

Indelével: Adj.: Que não se pode apagar, que não se pode destruir, que não desaparece, que dura; indestrutível.

 

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comentários

Comments (3)

  1. Jessica

    Que saudades eu estava!
    Quero saber o que vai acontecer com as meninas..
    Tinha que ser o Elias! Mas ele tem que ser estuprado.

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    1. Schwinden (Post author)

      Quanta bondade no seu coração ahahahhah
      Deixa que já tenho um destino traçado pra Elias 😉

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  2. Ana_Clara

    Que sentimento ruim! Queria estar no lugar da Sam e fazer justiça com minhas próprias mãos. Fazer essa Marli sofrer um pouquinho mais, só mais um pouco. Aliás, essa sensação de vingança é deliciosa. Fico aqui imaginando quando for o Elias, uau, será indescritível!

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