Historinha escrita para o desafio do Lettera

O Lettera (ou seja, eu) lançou um desafio chamado “Uma imagem vale por mil palavras“, com 4 fotos para inspirar textos semanais de até mil palavras.

Eu resolvi interligar as 4 imagens, criando um pequeno romance em 4 atos.

Se ficou com preguiça de ler lá no Lettera, então essa é sua oportunidade de ler tudo de uma vez aqui.

P.S.: Micaela é de humanas, Mari é de exatas, isso afeta a narração de cada ato (1º e 3º são mais poéticos, 2º e 4º são mais diretos).

Segue abaixo:

Ato 1

Sem paz

Ela gostava da cama assim, meio desarrumada. Limpa, mas desarrumada. Reclamava quando Dona Dalva arrumava tudo e deixava as cobertas esticadinhas, tudo alinhado. Era em tom de brincadeira, claro que era. Mari nunca levou jeito para discussões, tinha pavor de brigas.

Por isso foi uma grande ironia o fim ter sido proclamado por ela, logo ela que preferia ficar quieta quando se zangava, que deixava pra lá.

Naquele dia na infinita loja de departamentos eu procurava a garrafa térmica perfeita, aquelas de apertar em cima, ela queria edredom branco, lençol branco, fronhas brancas.

Mas branco suja tão fácil, Mari!

É só a gente cuidar. Eu gosto porque traz uma sensação de paz quando vou dormir.

Tá bom, amor.

Quando voltei pra casa depois de trabalhar com os olhos vermelhos por oito horas, encontrei a cama do mesmo jeito que estava no dia anterior. Não dormimos naquela noite, foi de tudo, só não foi de paz.

Três anos pacíficos, poucas coisas atritavam entre nós. Eu pegava no pé dela por causa da mania de largar tudo pela casa, nunca nos lugares certos. Ela tinha o coração grande e um grilo. A suposta traição nos primórdios de nosso relacionamento era a nuvem densa dela, que aparecia de vez em nunca. Sempre neguei e expliquei com calma, ela sempre deixava esse assunto pra lá e ia fazer café.

Eu já estava deitada, ela estava vestindo o pijama de flanela, eu cai numa contradição boba, não neguei mais.

Mas faz tanto tempo! Estávamos nos conhecendo, não era sério ainda!

Ela não deixou pra lá, não fez café.

Não veio a paz do edredom branco, veio ofensas, veio o fim.

Sinto falta daquela garota de sorriso fácil pulando em mim na cama, na hora de dormir. Se esgueirando por baixo das cobertas e me beijando as costas, na hora de acordar.

Nove semanas encontrando a cama bagunçada e vazia quando chego em casa, quando saio de casa também. Nem ouso ajeitar nada, às quintas deixo um bilhete na geladeira para Dona Dalva não arrumar a cama, só trocar lençol e fronhas.

Deixo desarrumada esperando Mari voltar.

 

Ato 2

Nada contra a chuva

Nada contra a chuva, tem dias que até gosto de observá-la pela janela ou dormir ouvindo o barulhinho no telhado de casa, mas naquele dia só serviu para me atrapalhar mesmo.

A via principal estava congestionada naquele final de tarde, eu havia marcado um café com Micaela às cinco, e faltava apenas dez minutos. Não gosto de chegar atrasada em compromisso nenhum, por isso paguei ao taxista e resolvi seguir a pé por uma rua interna, com minha pequena sombrinha florida, que estava com um varão quebrado.

No caminho cruzei com uma mulher com feições familiares, tinha a nítida impressão que a conhecia de algum lugar, mas não consegui vê-la direito por conta do guarda-chuva vermelho enorme que ela usava para se proteger dos grossos pingos, que já encharcavam meu All Star branco.

Cheguei no tal café quatro minutos atrasada, toda respingada da chuva e ofegante, mas meu coração se encheu de alegria quando a vi numa mesa ao fundo, com um sorriso aberto para mim. Era apenas nosso quarto encontro oficial, mas eu estava tão apaixonada por essa garota de belos olhos verdes e cabelos azuis que estava investindo todas as minhas fichas, hoje seria tudo ou nada. Joguei a sombrinha no lixo e segui confiante para a mesa.

— Oi, Mica! Desculpe o atraso, essa chuva não estava nos meus planos.

Eu falei sem jeito, e mesmo eu estando meio molhada da chuva, ela me deu um abraço carinhoso, aproveitei a situação e roubei um beijinho.

— Que bom que você veio, Mari. Toma um café quente, você deve estar com frio, quer meu casaco?

— Não, eu vim quase correndo, estou meio que suando.

Conheci Micaela na faculdade, ela cursa Artes Cênicas com meu irmão, eu estou me formando em Economia. Meu irmão foi cupido sem querer, me chamou para uma exposição de fotografias no prédio onde ele estudava, lá me apresentou a colega de cabelos azuis, que me causou certa estranheza no início, mas que depois de meia hora de conversa já havia me deixado caidinha. Na hora da despedida ela me deu um beijo na boca, eu deixei. E gostei muito, mesmo tendo gosto de vinho barato.

E agora eu estava aqui, nesse café tão distante de casa, com os pés fazendo bolhinhas dentro do tênis, tomando um café bem quente. Eu nem gostava muito de café, mas depois de conhecer Mica passei a beber mais café, ela adorava.

— Se eu estiver sendo precipitada quero que seja sincera. — Eu disse com as mãos tremendo e nervosa.

— No que?

Tomei as duas mãos dela sobre a mesa e fiz a proposta.

— Quer namorar comigo?

Ela tinha 20 anos e alguns rolos. Eu tinha 23 e já acumulava um namorado e duas namoradas no currículo.

Micaela me presenteou com um sorriso tão fofo que nem precisaria ouvir seu sim, nesse momento eu percebi que ela também queria. Estávamos ficando há duas semanas e morria de medo dela rir da minha precipitação.

Ela levantou e arrastou a cadeira para meu lado, voltou a sentar e segurou meu rosto, dando um belo beijo.

— Claro que eu quero, Mari.

Fiquei nas nuvens, minha vontade era pedir logo em casamento, mas ela fugiria correndo na chuva, e eu a prefiro molhada comigo.

Eu morava numa quitinete perto da faculdade, com meu irmão. Eu fazia estágio à tarde e ele trabalhava à noite numa lanchonete, nesse dia levei Micaela para nosso cafofo e tivemos nossa primeira noite de amor, que finalizou de forma abrupta com a chegada de meu irmão com dois amigos para jogar vídeo game.

Sete meses depois ela me convidou para ir morar com ela, num apartamento no Centro da cidade, com uma vista maravilhosa da grande janela ao lado da cama. Eu aceitei depois de passar uma semana calculando despesas, prós e contras, medos e inseguranças. Coisa de gente de exatas, ela dizia rindo.

Me formei e comecei a trabalhar no lugar onde estagiava, durante a semana nos curtíamos naquela cama toda branca, nos finais de semana saíamos com nossos amigos ou para algum programa a duas, nossas personalidades eram complementares, era ela agitada, eu era calma. Tínhamos tanta paz.

Ela mudou de curso na faculdade, foi fazer gastronomia, e agora trabalhava numa cozinha industrial. Nossa vida em comum ficava cada vez mais sólida e eu já me preparava para pedi-la em casamento, me preparava inclusive para começar a fala sobre ter filhos.

Depois de três anos daquele “sim” na cafeteria, arrumei minha mochila e saí de casa depois de uma briga. Não uma briga qualquer, foi a noite em que Mica admitiu ter ficado com outra garota no início de nosso namoro, os boatos que eu teimava em não acreditar, as mentiras que ela me contou por três anos.

— Não faz isso, Mari, eu te amo, eu te amo de verdade!

— Desculpa, não dá, não consigo ficar aqui olhando pra alguém que mentiu por tanto tempo, se você tivesse admitido logo no início isso não estaria acontecendo. — Falei com o rosto banhado de lágrimas, eu não queria deixá-la, mas não estava conseguindo sequer olhar para ela.

— Esquece isso, Mari! Fica comigo.

Com o coração partido deixei nossa casa, fui para o apartamento da minha prima que também morava ali no Centro, ela morava sozinha. Meu irmão morava com outros quatro amigos, seria impossível ter paz lá.

Nove semanas de uma dor constante dentro do meu peito, nove semanas de insônia e saudades dela. Naquela noite chuvosa me vesti e chamei um táxi, era hora de colocar tudo em pratos limpos.

 

Ato 3

Ela vai ficar bem

Ela apareceu no café onde eu não a esperava, a companhia almejada era outra. Bruna sentou ao meu lado com um sorriso vitorioso, a noite anterior tinha sido um erro, só para mim. Nunca oficializamos nada, mas eu considerei namoro e ela também, por quase um ano. Acabou mês passado.

— Não pode ser o fim, nós ficamos ontem, e foi bom!

Bruna tentava me convencer a reatar o namoro naquele dia chuvoso num café distante de casa. Elogiava meu cabelo azul, minha determinação em mudar de curso na faculdade, meu sexo oral, me bajulava querendo meu coração de volta, mas não a pertencia mais.

A nova inquilina do meu coração chegaria ali daqui a pouco, a presença de Bruna estava me causando pânico. Achei melhor não contar a Mari sobre essa recaída de ontem, não significou nada para mim. E a Bruna do meu lado segurando minha mão por baixo da mesa? Pânico!

Eu olhava a cada cinco segundos na direção da porta, não entre agora, não entre agora. Hora de resolver as coisas, quero o fim definitivo pra ontem, o início perene daqui a pouco, com outra mão na minha mão.

— Então é isso? Você prefere aquela sem graça de Economia?

Ah se ela soubesse o quanto estou caidinha pela sem graça de Economia. Que tinha muito mais graça que Bruna.

— Vou pedi-la em namoro.

Ufa! A mesma chuva que levou Bruna trouxe Mari. Ela foi mais rápida no gatilho, me pediu primeiro.

***

Não dormiria tão cedo, minha recém amizade era com a insônia. Não tinha ânimo nem para ver TV, me joguei de bruços naquela cama sempre desarrumada e a dor voltou, nove semanas tentando contato, uma conversa, um café, um yakisoba, um telefonema, ela não queria falar comigo. Eu tive três anos para falar, agora pedia um minuto.

Ouvi o celular tocando na cozinha, na tela aparecia ‘Cunhado’, eu ainda não havia alterado o nome do irmão de Mari no meu aparelho. Mudaria para ‘Felipe’ ou para ‘Ex-cunhado’?

— Você vem? Ela ainda está no centro cirúrgico.

Duas quadras além de casa o guincho começava a remover um taxi parcialmente destruído, pelo visto encontrou o poste e não seu destino final. O trânsito estava lento por conta do acidente, passei por ele, acelerei com a maior das pressas em chegar no hospital. Não ouse aprontar nada na minha ausência, Mariana.

Era um café tão ruim, mas tão ruim, que fiquei com pena da lixeira onde joguei o restante fora. A espera era angustiante, me fez tomar outra blasfêmia destas. Ela bateu com a cabeça no para-brisas do carro, Felipe me disse, ela vai ficar bem, a cirurgia é na perna.

— E a cabeça? Ela bateu a cabeça.

— Não sei, Mica.

Uma hora depois ela surgiu na sala de espera. A Mari-mãe, minha ex-sogra. Veio correndo do interior, o pai talvez venha amanhã, minha ex-sogra não gostava mais do ex-marido, não gostou quando perguntei se ele viria.

Eu nunca acreditei na sagrada instituição do matrimônio, nunca pensei em casar. Mas se Mari fosse oficialmente minha esposa, eu teria entrado no quarto dela agora, teria acalmado um pouco meu coração ansioso. Me deixaram do lado de fora. Você não é família.

Acorde, meu amor, diga a eles que somos uma só, portanto tenho direito de entrar.

— Minha mãe não quer que você entre, eu sinto muito.

Um minuto. Isso continua doendo. Me dói mais ou menos que a perna quebrada dela?

— Mas ela tá bem, tá acordada, só está meio confusa. Volta amanhã, tenta de novo.

Eu não era nada, como poderia me revoltar? Tive vontade de chutar a frente da máquina de café, era de vidro, faria um bom estrago, liberaria minha raiva naquele momento.

Amor, relaxa.

Mari era a parte dócil do casal. Ex-casal. Por ela não chutei nada nem ninguém, só voltei pra casa. Nem sei qual esperança eu alimentava, uma coisa de cada vez, hoje eu só quero te ver. Depois a gente conversa, aquele minuto que venho pedindo há nove semanas. Hoje pode ser amanhã, tudo bem por mim.

Quando a mãe dela foi para um hotel dormir, meu celular tocou com o nome ‘Cunhado’ na tela, me acordando as oito e meia da manhã, era sábado. Pode correr em corredor de hospital? Se tem esse nome, então pode. Corri para o quarto dela, Felipe saiu dali e me disse ainda do lado de fora que ela continuava meio confusa, mas era por conta da concussão.

— Ela está bem?

— Ela perguntou por você.

Meu coração entrou no quarto antes que meu corpo tivesse alguma reação, o alcancei já ao lado do leito onde Mari me olhava de um olho só, o outro estava atado, guardado ou machucado.

— Seu cabelo era azul. — Ela disse sem responder ao meu bom dia, como você está.

— Era sim. — Eu ri. — Mas faz tempo que não é mais azul.

— Deu tanto trabalho para voltar para seu castanho natural, eu lembro.

— Eu queria raspar tudo, você não deixou, felizmente.

— Eu estava indo para sua casa.

— Quando?

— Ontem. Fecharam a gente, o taxi. O carro bateu em alguma coisa, não lembro de mais nada. — Correu os dedos pela bandagem no olho machucado. — Vou ficar com cicatriz.

— Mesmo se você tivesse todas as cicatrizes do Dead Pool você continuaria sendo a mulher mais linda.

O quarto asséptico se tornou quentinho e macio, ela sorriu com minha piada, eu tinha meu minuto e um sorriso, ah como fui feliz por cinco minutos.

— Esperei você ontem, Mica.

— Eu vim, mas não me deixaram entrar. — Odeio mentir para proteger minha ex-sogra. — Os médicos não me deixaram entrar.

Espera, ela disse que estava indo me visitar ontem?

— Mari, ontem você estava voltando para nossa casa?

— Não, mas eu queria conversar com você. Esse acidente foi um sinal divino?

— Amor, você não acredita nessas coisas. — Brinquei. O amor foi sem querer.

— Fica aqui?

— Quer conversar hoje? Podemos esperar você se recuperar. — Na ousadia eu me aproximei e afaguei sua testa.

— Me conta tudo?

 

Ato 4

Esquecidas

Quando Micaela entrou no quarto do hospital arregalou os olhos ao ver as hastes metálicas na minha perna, mas disfarçou com um sorrisinho quando se aproximou de mim. Bati forte a cabeça no acidente, por isso ainda estava me sentindo de porre, um porre sem a diversão do álcool e bem doloroso. Às vezes via as enfermeiras flutuando, manchas coloridas na parede, e tinha pensamentos engraçados. Achei que seria uma boa hora para tirar a limpo com ela sobre a tal da traição.

Reatamos.

Minha mãe voltou ao hospital à tarde, enfrentamos as negativas preconceituosas dela, e Mica ficou ali comigo por três dias, até eu ter alta.

— Você não vai para nossa casa? Mandei arrumar seu quarto, falei com uma cuidadora, fique conosco nesse período de recuperação, filha. Depois você volta para a Capital.

— Vou ficar aqui, mãe. Não fique chateada comigo.

— Sua prima está sempre fora de casa, você precisa de cuidados o tempo todo.

— Não vou para Samira, vou ficar na minha casa. — Olhei para Micaela que estava no cantinho do quarto, ela levantou o olhar quando eu falei isso.

— No apartamento dessa garota? Vocês terminaram, aquela não é sua casa, é a casa dos outros. — Minha mãe apontou para Micaela.

— É a casa dela, Dona Tamiris. — Mica se manifestou, vindo para meu lado. — Eu vou pegar férias e vou passar um mês cuidando dela, dia e noite.

Eu não sabia disso. Mas acho que Micaela também não sabia que eu havia decidido voltar para nosso ninho de amor. Ela teria a árdua tarefa de cuidar do Homem de Ferro que não conseguia nem ir ao banheiro. Nesses três dias de leito hospitalar e privações me dei conta que tenho mais intimidade com ela do que com minha mãe, ainda não defini se isso é bom. Pelo menos deixei de ser o Thor, tiraram meu tapa-olho, ficaria uma cicatriz mediana da sobrancelha até o meio da testa.

A cama estava desarrumada do jeito que eu gosto, parece até que ela desarrumou de propósito, aquela cama onde eu passaria um bom tempo tendo livros, a TV, e a vista da janela como distrações. Micaela morria de medo de encostar nos meus “ferros da perna”, como ela se referia. Quando eu a agarrava de jeito, ela parecia estar jogando Twister, aquele jogo dos círculos coloridos no chão.

Cinco semanas depois, finalmente fiz uma nova cirurgia onde removi tudo que não era orgânico de meu corpo. Ainda estava muito longe de me considerar recuperada, o médico não permitiu nem que eu andasse de muleta, só de cadeira de rodas. Mas eu comecei a andar de muletas, precisava ir ao banheiro quando Micaela estava no trabalho. Nunca imaginei que coisas simples do dia-a-dia se tornavam infernais naquela situação, é horrível estar inválida e menstruada ao mesmo tempo.

— Quer ajuda aí? — Micaela perguntou da cozinha, onde preparava nossa janta.

— Não, estou me virando.

Antes de apertar a descarga vi aquele vermelho e uma sinapse muito estranha aconteceu no meu cérebro: a mulher de guarda-chuva vermelho era a ex!

— Micaela! Venha aqui.

Eu já estava devidamente vestida e sentada na cama.

— O que foi? — Ela apareceu apavorada no quarto, com um garfo na mão. — Machucou a perna?

— Você ficou com a tal da Bruna no dia que te pedi em namoro! Você mentiu para mim!

— Que? Mari, coloca a perna pra cima da cama, você não pode ficar com a perna assim.

— Não mude de assunto! Eu vi! A garota de guarda-chuva vermelho que eu encontrei na rua era ela!

— Provavelmente sim, mas eu não fiquei com ela nesse dia, eu te falei a verdade.

— Só tomaram um cafezinho? — Eu me odiava assim irônica quando ficava brava, sei que isso não ajuda em nada. Na dúvida subi minha perna, tava começando a doer.

— Café eu tomei com você, com ela só fiz questão de deixar claro que não ia rolar mais nada. Satisfeita? Posso voltar ao fogão?

Por sorte eu odiava discussões. Subi a outra perna pra cama e bufei esfriando a cabeça.

— Depende, o que você tá fazendo lá? Bife de fígado?

Ela riu.

— Frango.

— Então tudo bem. Mas se fosse fígado a coisa ia ficar feia para o seu lado.

— Algo mais que você queira desenterrar, senhorita?

— Desculpa. Eu ainda tô dodói, vem aqui me dar um beijo.

***

Era a primeira vez que eu pisava no chão depois de três meses do acidente. Não era qualquer chão, era a praia. Dei cinco passos na areia e do nada apareceu uma cadeira colorida na minha frente.

— Não abusa, senta aqui. — Micaela disse e tirou a roupa, ficando de biquíni. — Quer entrar no mar comigo? Eu te ajudo a andar até lá.

— Amanhã. Hoje vou guardar minhas energias.

Tínhamos um feriadão inteiro pela frente, não queria correr o risco de estragar a oportunidade de ter uma noite inesquecível com aquela linda mulher que caminhava na direção do mar bem na minha frente. Aquele hotel com quarto de frente pro mar custara os olhos da cara.

Quando ela voltou do mar, se abaixou na minha frente e me deu um beijo. Foi nesse momento que tive certeza de tudo, e a joalheria não aceitaria devolução.

Eu esqueci!

Era para ter acontecido depois da janta, mas a noite foi tão boa que esqueci de tudo. Meu pulso doía! Acho até que desloquei minha mandíbula. Foi a primeira vez que fizemos amor até o sol nascer, já exaustas deitadas na cama, sobrepostas nuas como peças de Tetris, vendo o sol surgindo através da porta da sacada.

Fui até o banheiro e retornei com dois roupões.

— Veste, amor, vem aqui.

Uma brisa fresca com cheiro de mar invadiu o quarto quando abri a porta da sacada, a conduzi pela mão até lá, me ajoelhei e ergui a caixinha branca com veludo negro.

— Ah Meu Deus! — Ela levou as mãos à boca.

— Casa comigo, Micaela?

— Óbvio que eu caso! Levanta, amor, vai machucar a perna!

Levantei e ela me abraçou com força, me enchendo de beijos.

— Ai, minha perna, Mica!

— Machuquei??

— Não, tô brincando.

A beijei de novo, foi o beijo mais feliz que ganhei. Ficamos assim abraçadas por um tempo, abri os olhos e olhei na direção do mar, estava sereno e brilhante com os raios baixos do sol. Olhei para a areia também reluzente.

— Amor, não são as suas sandálias lá embaixo na praia?

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comentários

One thought on “Historinha escrita para o desafio do Lettera

  1. Simplesmente maravilhoso, vc é incrível.Em apenas 4 atos vc faz com que a gente sinta tudo ao mesmo tempo , felicidade, tristeza, e se emocione com um final que é inspirador.
    Parabéns por proporcionar tanta felicidade…Bjs

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