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Capítulo 20 – Transfobia

Capítulo 20 – Transfobia

 

O corte no queixo não a impediu de concluir seu objetivo, ergueu-se novamente com os braços, e sentou-se no vaso. Ao terminar, subiu seu short e escorregou para o chão. Percebeu com desânimo que não teria forças para se arrastar de volta até a cama.

Ficou um tempo sentada, num desalento que tirava suas forças, fitando a escuridão do piso frio. Levou a mão ao queixo, continuava sagrando, o corte parecia profundo.

– Sam? – Chamou lá de dentro, com a voz sôfrega.

– Sim?

– Pode vir aqui?

– Posso entrar?

– Pode.

– Mas o que foi isso?? – Sam exclamou apavorada, ao ver todo o sangue.

– Cortei o queixo, você pode dar uns pontos?

– Não, eu vou levar você para dar pontos no hospital. – Rapidamente Sam tomou uma toalha de rosto, agachou ao seu lado, e segurou a toalha abaixo do seu queixo.

– Não precisa, são uns três pontos, você já me suturou antes.

– Eram outras épocas, e eu suturo muito mal. – Tirou a toalha e deu uma olhada de perto no corte, erguendo sua cabeça. – Meu Deus, Theo, isso está péssimo, vou te levar ao hospital e pedir para um médico te suturar.

– Quem está de plantão aqui hoje?

– Magda.

– Peça para ela suturar.

– Não, nós vamos a um hospital para um cirurgião plástico fazer algo discreto, é seu rosto.

– Não…

– Por que não? – Sam disse sem paciência.

– Hospitais não são seguros.

– Você não ficará internada.

– Mesmo assim.

– Theo, pare de drama, você sabe que não será internada por causa de um corte. Vou pegar a cadeira, já volto, e não tente sair se rastejando.

No hospital, Theo estava em sua cadeira de rodas, segurando apaticamente uma toalha embaixo do queixo numa sala de espera interna, enquanto Sam discutia com algum atendente atrás de um balcão, exigindo um cirurgião plástico.

Voltou ao lado de Theo, tomando sua mão.

– Eles vão chamar o que está de plantão, não deve demorar. – Sam disse, dando uma boa olhada em Theo, que sequer respondeu.

– Quer algo? Quer água?

– Não quero. Aqui é seguro?

– É sim, é uma espécie de sala de espera vip, só tem nós e dois seguranças, inclusive tem um ao seu lado, não se preocupe.

– Ok.

A atendente gesticulou, chamando Sam para comunicar que não havia encontrado nenhum cirurgião plástico. Enquanto discutia, Sam relanceou os olhos para trás, viu Theo com a cabeça virada na direção do segurança que estava ao seu lado, parecia pensativa. Sentiu seu sangue congelando ao ver que o homem portava uma arma na cintura, e a proximidade de Theo com a arma, numa sala de espera de hospital, a fez reviver um momento traumático que ela lutava para esquecer.

– Só um instante, eu já volto. – Sam disse, abandonando a atendente.

Foi até Theo, e rapidamente a tirou dali, levando a cadeira para seu lado, junto ao balcão.

– O que foi? – Theo perguntou confusa.

– Nada, ela perguntou umas informações suas que eu não tinha, por isso te trouxe.

– Que informações?

– Ela já deixou em branco, não precisa mais.

– O cirurgião vai atender em alguns minutos, vocês podem entrar no ambulatório dois, nesse corredor, a direita. – A atendente orientou.

Sam estacionou Theo e sentou ao seu lado, dentro do ambulatório, segurava firmemente sua mão, a soldado suava frio.

– Você mentiu. – Theo se dava conta.

– O que?

– Não tinha informação alguma, você achou que eu ia pegar a arma do segurança, não é?

– Não, não tem nada a ver.

Theo balançou a cabeça aborrecida.

– Eu não sou suicida.

– Eu sei que não é, aquela vez foi por outros motivos.

– Você acha que eu sou.

– Não.

Silêncio.

– Eu não queria me matar.

– Eu sei que não.

– Nem naquele dia, nem hoje, nem nunca.

Sam suspirou longamente.

– Eu sei, desculpe, eu fiquei em pânico quando te vi ao lado de uma arma, você está tão abatida, e para piorar estamos justamente num hospital, como da outra vez.

Theo abriu um sorrisinho.

– Medo de ficar viúva, oficial?

Sam riu, e a abraçou pelo lado.

– Medo de perder essa garota manhosa com o queixo cortado.

***

A cirurgia do transplante de Maritza seria dentro de dois dias, ela se internaria na manhã seguinte. Naquela noite todos estavam reunidos na ampla sala multimídia, além de John e Maritza, Claire, Letícia e Daniela também bebiam e conversavam descontraidamente. Sam estava sentada de lado do sofá maior, com Theo recostada em seu peito.

– É verdade que Theo foi o cupido de vocês? – Sam perguntou.

– Um cupido de chifres. – Theo respondeu, rindo.

– Como assim?

– Letícia me roubou a loira. – Theo disse num tom de brincadeira.

– Sério?

– Conte a história, Lê.

– Não roubei nada, eu comuniquei que estava interessada na sua amiga, você estava ciente que eu estava a fim dela. – Letícia se defendeu.

– Ok, ok, eu conto. Eu levei o pessoal para passar o réveillon no meu barco, Dani foi como minha ficante, Letícia ficou apaixonada por ela, me contou isso na madrugada do dia primeiro, eu estava um tanto alta, mas eu lembro disso. – Theo narrava.

– Mas você me disse que não tinha nada sério com a Daniela. – Letícia ia dizendo. – Que era a terceira vez que estavam ficando, e que era só curtição, de ambas as partes.

– Da minha parte era curtição. – Dani disse. – E eu também fiquei caidinha pela Lê quando a vi, piorou quando você me disse que era recíproco.

– Eu já esperava que essas duas ficassem em breve, elas se comiam com os olhos. Na noite seguinte fui na cabine da Letícia pegar mais coisinhas e flagrei as duas juntas. – Theo contou.

– Letícia, você fez isso com sua melhor amiga? – Sam perguntou incrédula.

– Eu nem sei como Theo se lembra de algo, ela tomou as minhas coisas, as dela, e as da cidade inteira.

– Que coisas?

– Coisas alucinógenas, Sam, você não conhece.

– Drogas?

– Também tem esse nome.

– Você usava drogas? – Sam perguntou assustada.

– Só por diversão.

– Quais?

– Ah… Vamos deixar esse assunto para outra hora. Ok, hora da Maritza falar como está se sentindo às vésperas de ganhar um coraçãozinho novo.

– Apavorada e feliz. – Maritza respondeu, estava deitada sobre as pernas de John, no chão sobre um tapete.

– Como conseguiram? – Claire perguntou.

– A ONG Martin, a mesma que conseguiu para mim, do dia para a noite. Mas como Maritza não tinha tanta pressa, levou um tempinho até conseguir.

– ONG de que?

– Acho que ajudam refugiados de guerra, tem uns políticos por trás disso, mas o processo é inteiramente idôneo. – Sam explicava.

– Poderíamos fazer alguma parceria com essa ONG, o que acha? – Theo perguntava a Sam, se virando para trás.

– Quem sabe? Vou procurar saber quem são os responsáveis. – Sam aproveitou para lhe roubar um beijo.

Theo ainda usava um curativo no queixo, mas parecia mais tranquila agora, seu desânimo havia sido convertido em dedicação à fisioterapia.

Mais tarde, já em sua suíte, Theo estava sentada na beirada da cama, esperando Sam retornar do banheiro.

– Me leva para escovar os dentes?

– Levo sim, mas vamos tentar algo diferente hoje.

– O que?

– Theo, você já tentou andar fora da sala de fisioterapia?

– Fora dos equipamentos? Não.

– Estenda as mãos.

Sam tomou suas mãos firmemente.

– Levante-se.

Forçando as mãos de Sam, Theo conseguiu erguer-se.

– Ótimo. Fique um pouco de pé, a cama está logo atrás de você se cansar.

– Estou de pé. – Theo disse com um sorriso.

– Está, e nem está tremendo as pernas.

– A perna direita está quase recuperada. – Theo contou.

– Dê um passo, não solte minhas mãos.

Theo deu um passo inseguro com a perna direita.

– Mais um.

A perna esquerda fraquejou, dobrando o joelho, Sam a ajudou.

– Só mais um.

Com mais dificuldade, Theo deu o terceiro passo.

– Por hoje está ótimo, venha, grude nas minhas costas, te levo ao banheiro.

Quando retornaram à cama, Sam reiniciou a conversa iniciada mais cedo.

– Então… Você e Daniela tiveram um relacionamento.

– Ficamos duas vezes e meia, não foi um relacionamento. – Theo virou-se na direção de Sam, tomando sua mão por baixo da coberta.

– Tudo bem, não tenho ciúmes dela, Dani é uma garota legal, não sei porque Mike ficava fazendo piadas estranhas sobre ela.

– Porque Mike é transfóbico, um babaca por completo, não existe preconceito que Mike não tenha.

– O que é isso?

– Quem tem preconceito com pessoas trans.

– Trans o que?

– Pessoas transexuais, Sam, pessoas que fazem redesignação sexual.

– Parece que você está falando outra língua. – Sam dizia com confusão.

– Ok, vou explicar como se você tivesse cinco anos. Daniela nasceu menino, mas com o passar do tempo percebeu que era uma mulher, e aos poucos fez a redesignação do corpo, para o gênero feminino, que é o gênero que ela realmente é.

– Daniela é um homem?? – Sam disse, surpresa.

– Não, Daniela é uma mulher, tanto quanto eu e você, apenas nasceu num corpo em que não se reconhecia como mulher.

– Ela nasceu homem, e modificou o corpo? Mas ela parece mulher de verdade.

– Suas colocações foram grosseiras, mas acho que agora você entendeu o que é uma mulher trans.

– Eu nunca imaginei… – Sam refletia, ainda se dando conta. – E você ficava com ela, vocês faziam sexo?

– Fizemos.

– E como era?

– Era muito bom.

– Ok, mas como as coisas funcionam? Ela fez aquela cirurgia?

– Isso é extremamente indelicado da sua parte, nunca pergunte essas coisas para a Dani, ok?

– Fez?

– Eu não vou te falar, isso faz parte da minha intimidade com ela, e se um dia ela quiser conversar sobre isso com você, tudo bem.

– É só curiosidade, não quero ofender ninguém.

– Você gostaria que eu falasse sobre sua anatomia íntima com outras pessoas?

– Não.

– Então está resolvido.

Silêncio.

– Eu não quero ser transfóbica, desculpe se pareceu, mas são tantas novidades. – Sam disse.

– Tudo bem, mas tire as dúvidas somente comigo, que já sei como funciona sua mente.

– Você tem paciência para me explicar.

– Sam, você tem um bom coração, seus preconceitos são apenas culturais, isso não está de fato dentro de você.

– Você acha? – Sam perguntou com um sorriso contente.

– Se você fosse uma preconceituosa de verdade, daquelas corrompidas de alma, não estaria agora na cama com uma mulher.

– Bom ponto.

***

A cirurgia de Maritza foi tranquila, em cinco dias ela já estava de volta à mansão de vidro, John era sua companhia inseparável, inclusive esteve o tempo todo no hospital com ela.

A noitinha, Sam foi ao quarto de Maritza, perguntar o que ela queria jantar. Avistou John na cama deitado ao lado de Maritza.

– Espera aí… – Vocês dois… Vocês dois estão… – Sam se dava conta.

– Estamos nos conhecendo melhor. – Maritza respondeu com um sorrisinho, enquanto John já havia deixado a cama, sentando na poltrona ao lado.

– Gente… – Sam exclamou com surpresa. – Quem diria?

– Nós íamos te contar. – John disse nervoso.

– Tudo bem, vocês são livres e desimpedidos, só estou meio chocada. – Sam ria.

– John pode passar a dormir aqui?

– Claro, sintam-se em casa, mas respeitem a dona da casa, ok?

Sam saiu pelo corredor ainda sorrindo incrédula, encontrou Meg entrando no quarto UTI com Theo na cadeira de rodas.

– Meg, deixe comigo. – Sam assumiu o comando da cadeira, e subiram o elevador.

– Para onde está me levando? Eu estava indo tomar banho. – Theo indagou.

– Você vai tomar banho no nosso quarto. – Entraram na suíte.

– Então temos que chamar Meg.

– Não, não precisamos dela.

Theo não entendia as pretensões dela, Sam posicionou-se à sua frente.

– Aquele não é seu quarto, quero que você se desapegue dele, ganhe independência.

– Mas… Você vai me ajudar com o banho?

– Vou, levante-se, vamos para nosso banheiro, e você já tem condições de ir andando para lá. – Sam estendeu as mãos.

Theo não falou nada, apenas obedeceu estendendo as mãos, sendo auxiliada a levantar da cadeira, por fim apoiou-se no ombro dela.

– Não precisa ter pressa, ok? Devagar nós conseguimos tudo.

Ao chegar no banheiro, Sam guiou as mãos dela até um suporte metálico, preso à parede.

– Desde quando seu banheiro tem esse tipo de apoio? – Theo estranhou, segurando com o braço direito no suporte.

– Desde hoje, mandei colocar em todo o banheiro. E dentro do box. – Ela aproximou-se do ouvido de Theo. – E é nosso banheiro, não meu.

Theo sorriu de lado, estava surpresa com a novidade. Quando começou a tirar a roupa, foi ajudada por Sam.

– Deixe comigo, disso eu entendo. – Sam brincou. – Consegue tomar banho de pé ou quer a cadeira de banho?

– Consigo tomar de pé.

Theo já estava dentro do box, debaixo do chuveiro ligado, quando Sam entrou.

– Por que fechou a porta do box? – Sam perguntou.

– Para não respingar… Espera, você está… – Theo estendeu a mão e tocou no abdome nu de Sam.

– Se importa se eu tomar banho com você?

– Não, claro que não. – Theo respondeu, sem jeito.

Aproximou-se, pegando a mão de Theo e colocando no alto do seu peito.

– Me veja. – Sam disse, agora numa voz doce.

Theo desceu sua mão de forma lenta e atenta, até a sua cintura. Sam chegou ainda mais perto, a abraçando carinhosamente.

– Hoje eu só quero que você me olhe, como você fez tantas vezes. – Sam sussurrava em seu ouvido. – Lembra de quando me conheceu com suas mãos?

– Eu lembro.

Sam segurava seu rosto, enquanto distribuía alguns beijos em seu pescoço. Falou num tom provocativo.

– Me explore, me redescubra com suas mãos.

A respiração de Theo aumentou, colocou ambas as mãos em sua cintura e a virou, Sam apoiou-se com as mãos espalmadas na parede, Theo encaixou-se em suas costas, correndo as mãos de forma demorada pelo corpo da namorada.

– Eu lembro… Eu conheci suas costas, quando fiz a massagem. – Theo colocou o cabelo molhado para frente, distribuía beijos abaixo da nuca e nos ombros de Sam.

– E me arrepiou do jeito que está me arrepiando agora.

– Beijos nas costas sempre fazem isso com você…

– Eu gosto disso também. – Sam murmurou, tomando ambas as mãos de Theo e subindo para seus seios, que se divertia.

Pouco tempo depois Sam virou e a beijou, a recostando na parede contrária. As mãos de Theo não paravam quietas, desbravavam e enxergavam todos os poros de sua namorada, que estava mais do que excitada, mas acompanhava o ritmo ditado.

O beijo só foi interrompido para que Theo proferisse três palavrinhas que fizeram com que Sam quase gozasse sem sequer ser tocada.

– Eu quero você…

– Quer ir para a cama?

– Não…

Theo a virou novamente, enquanto a mão esquerda cuidava dos seios, a mão direita seguiu sem cerimônia para entre as pernas de Sam.

– Você está ainda mais deliciosa… – Theo sussurrou enquanto seus lábios brincavam com o lóbulo da orelha.

Sam estava se segurando como podia para não implorar que Theo fosse além, que seus dedos fossem adiante. Abriu as pernas, como um convite involuntário, não percebido por Theo.

– Theo… Eu quero sentir você dentro de mim…. – Sam perdeu a luta, e pediu.

– Ah é? – Theo abriu um sorriso malicioso. – Quer que eu entre? – Corria os dedos encharcados próximo à sua entrada, a provocando.

– Se você não entrar eu vou morrer. – Sam dizia com exagero, ou nem tanto.

Theo deu um risinho, com a boca em seu pescoço.

– Então pede.

– Ah, Theo…

– Pede. – A provocava ainda mais, lhe arrancando uns gemidos.

– Eu já pedi… – Sam estava com a testa recostada no azulejo, de olhos fechados, arfando.

– Não, não é assim que se pede.

– Me come, me fode, mas por favor, entra em mim!

Theo arregalou os olhos, surpresa.

– Agora sim. – E atendeu com vigor o pedido tão clemente de Sam.

Theo pousou seu rosto junto ao pescoço de Sam, extasiou-se com os lábios dela junto ao seu ouvido, que recebia os gemidos altos de um longo orgasmo.

Sam recuperou um pouco o fôlego, mas virou-se ainda respirando forte, e a abraçou.

– Quer mais? – Theo perguntou baixinho.

– Nesse momento não tenho condições sequer de ficar em pé… Eu não sei onde você estava guardando isso, mas parece que fui atropelada por um furacão.

Theo abriu um sorriso satisfeito, como há muito tempo não fazia, Sam desprendeu-se, e a beijou.

– Eu não quero hoje, mas tem algo acontecendo comigo, com meu corpo, eu me sinto diferente.

– Algo bom?

– Foi a primeira vez que me excitei desde que acordei do coma.

Sam segurou seu rosto com as duas mãos.

– Então seja bem-vinda de volta.

***

– Você vai dormir aqui todas as noites, não vai? – Sam indagou ao sair do banheiro, Theo já estava deitada se preparando para dormir.

– Agora esse é nosso quarto. – Theo ouvia um canal de notícias na tela.

Sam deitou-se, cobriu ambas com o edredom e aconchegou-se em Theo.

– Você se deu conta do que acabou de falar? – Sam perguntou.

– Sobre o quarto?

– É um sonho que finalmente estamos realizando, lembra? Dormir numa mesma cama mais de duas vezes. – Sam passeava sua mão despretensiosamente por dentro da camiseta de sua namorada, uma tranquilidade conquistada recentemente.

– Agora temos nosso cantinho. – Theo respondeu com um quase sorriso.

– Nada nem ninguém vai nos separar. – Sam sussurrou em seu ouvido.

– Aumentar o som. – Theo deu o comando à tela, de forma tensa.

– O que foi?

– Eu conheço essa voz.

– Na tela?

– Sim, é voz de uma pessoa que conheço bem.

– Essa mulher que está sendo entrevistada?

– Está aparecendo o nome dela?

– Ãhn… Está, está sim. – Sam endireitou-se na cama, lendo o rodapé da tela. – Senadora Michelle Martin.

– Michelle. – Theo sentou-se, com semblante surpreso.

– Michelle? Michelle, sua cliente do Circus?

– Sim, é ela, é a voz dela. Então… Essa era a profissão dela, Michelle é senadora.

– Ela nunca te contou?

– Não, ela só falava que era algo delicado, por isso ela não podia arriscar a reputação me tirando de lá.

– Que vaca, que vadia, que… que…

– Não fale dessa forma. Você está prestando atenção?

– Não, sobre o que ela está falando?

– A ONG dela.

– A ONG Martin. – Sam se dava conta, perplexa.

– Me deixe ouvir.

No restante da entrevista, a senadora explicava que a ONG que ajudava refugiados de guerra foi fundada pelo marido, também senador, Carl Martin, e que ela assumiu a direção depois que ele faleceu, em janeiro.

– Será que ela sabe quem você é? – Sam indagou.

– A essa altura, pelas notícias veiculadas, ela já deve ter ligado os fatos.

– E nunca procurou você.

– Por certo não quer seu nome ligado ao meu escândalo.

– Se eu a encontrasse na rua… Não responderia por mim. – Sam resmungou, com raiva.

– Eu quero que você a procure.

– Que?

– Ligue no seu gabinete, agende uma hora com ela, ou algo assim, o mais breve possível.

– Por que?

– Porque ela sabe onde fica o Circus.

– Mas ela não vai me atender, ela não sabe quem eu sou.

– É mais fácil você conseguir falar com ela, provavelmente ela continua querendo se manter longe do meu nome, não posso procurá-la.

– E você acha que ela vai revelar a localização assim, sem problemas? Ela não vai querer se envolver nisso, vai fazer de conta que não sabe do que estou falando e me expulsar.

– Sam, preciso que você tente, posso contar com você? – Theo pedia com um quase desespero, queria poder resgatar as suas colegas o quanto antes.

– Pode, prometo que vou ligar amanhã cedo e tentar agendar uma visita à senadora abusadora de garotas traficadas.

– E promete que não vai bater nela? Não quero ter que te visitar numa prisão.

Sam suspirou fundo.

– Prometo também, mas direi alguns desaforos.

– Eu não guardo mágoa dela, Michelle era um alento para mim.

– Ela é uma criminosa, eu estou com vontade de apertar o pescoço dessa loira na tela.

– Segure seu ímpeto quando encontrá-la, por favor.

Na manhã seguinte, Sam foi para o escritório no segundo piso depois que Theo subiu para a fisioterapia. Depois de sua ligação ser encaminhada para três pessoas, finalmente falava agora com a assessora particular da senadora.

– Até que enfim alguém que pode resolver algo. – Sam bufou.

– O que a senhora deseja?

– Um horário com Michelle, de preferência ainda hoje.

– Eu sinto muito, ela está em viagem.

– Quando ela volta? Você tem como me passar a ID dela?

– Ela está na Zona Morta e só deve retornar mês que vem, e não tenho autorização para repassar sua ID.

– É um caso urgente e especial, por favor, fale com ela, eu preciso conversar por um minuto apenas, eu sei que ela vai se interessar pelo assunto.

– E qual seria o assunto?

– Theo.

– Theo? – Fibi perguntou surpresa.

– Sim, eu sou amiga dela, e preciso falar com Michelle sobre algo relacionado a Theo.

Silêncio.

– Só posso prometer que tentarei contato e repassarei sua urgência, ela irá responder todas as requisições de visita ainda esse mês.

– Eu vou te ligar de novo amanhã.

– Já tenho sua ID, entrarei em contato quando conseguir agendar seu horário.

A ligação se finalizou, e três minutos depois Sam recebeu uma ligação do gabinete.

– Eu consegui agendar uma visita para hoje à tarde, as duas horas, pode ser? – Fibi disse.

– Aqui em San Paolo?

– Sim, em seu gabinete, passarei o endereço a seguir.

 

Transfobia: s.f.: discriminação relativa às pessoas transexuais e transgêneros.

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comentários

Comments (10)

  1. Laura

    Essa escrita e tao maravilhosa…envolve vc na história.
    Incrível Cris cada vez melhor *_* 🙂

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  2. Cindy

    Ah como eu amo 2121, como é bom me sentir em outro mundo e me desligar do mundo real. Obrigada Cris. ?

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  3. Naty Reis

    Cada dia mais amando a Sam,e a Theo desde sempre.Obrigada Cris por nos dar o prazer de acompanhar tuas histórias.Tu escreve muito bem.Bjs!

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    1. Schwinden (Post author)

      Naty, obrigada pelo comentário gentil, nesses dias cinzas e sem inspiração é um alento receber um pouco de carinho. Um bjo.

      Reply
  4. ADA M DE MELO

    esse cap deu mas esperança de que a Theo vai voltar em definitivo e essa vingança ao circus e ao elias estar bem perto….

    Reply
    1. Schwinden (Post author)

      Ada, em muito breve finalmente o Circus será estourado, e as meninas resgatadas, a senadora terá participação nisso.
      Theo terá um tempo de paz agora para se recuperar, prometo.
      Bjos e obrigada!

      Reply
  5. Ana_Clara

    Sério que acabou agora?! Meu coração está na boca, imensamente ansiosa para este encontro. Com certeza essa tal de Michelle ainda gosta da Theo e saber que a Sam é praticamente a esposa da nossa heroína vai desestabilizar totalmente a senadora. Bom, comentando sobre o melhor momento do capítulo, estou adorando a forma que a Sam está trabalhando com o psicológico da Theo. Aos poucos nossa menina está voltando e hoje já tivemos um momento super quente no banheiro. Não vejo a hora de ter a Theo completa, cheia de alegria, piadas bobas e imensamente guerreira e amando a vida. E surpreendente a Maritza de casinho com o John, realmente surpreendente!!! rsrsrs

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    1. Schwinden (Post author)

      Viu como também consigo ser boazinha? Estamos atravessando uma maré de bons momentos e recuperação, finalmente elas estão conseguindo namorar em paz.
      E você acertou, a senadora ainda tem uma quedinha por Theo, e não vai deixar isso barato.
      Theo está voltando, quando as coisas ficarem críticas, ela vai fazer a diferença.
      Bjos, e obrigada pelo carinho 🙂

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  6. MTereza

    Primeiro amei o fato da nossa Theo finalmente esta se recuperando voltando a andar e amar a sua soldado o capitulo foi envolvente como sempre e eu fiquei a todo momento esperando com medo da hora que algo ruim iria acontecer rsrsr, mais as surpresas dessa vez foram leves e boas, então a Michele é senadora espero que esse encontro dela com a Sam não seja uma armadilha.Muita luz e paz Cris BJS e até logo

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    1. Schwinden (Post author)

      Eu acho que traumatizei vocês, né? Quando tudo está indo bem, lá vem eu sacaneando com elas de novo. Mas elas terão um tempo de paz por agora, Theo vai melhorar cada vez mais, ficar mais independente, e a relação terá espaço para amadurecer também. Claro que depois eu vou enfiar tragédia de novo, mas não vai ser por agora.
      Essa senadora não é flor que se cheire, já vou avisando.
      Luz e paz para você também, Maria. Bjos e obrigada!

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