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2121 – Capítulo 29

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Capítulo 29 – Desvario

 

– Levei um tiro do meu amiguinho imaginário, fogo amigo. – Theo resmungou com deboche.

– Como você ainda está viva? – Sam aproximou-se, erguendo novamente sua camisa negra, olhando de perto.

– Não atingiu nada importante, mas não posso deixar infeccionar, preciso tirar a bala.

– Ok, ok. – Sam falava apreensivamente. – Vamos para nosso carro, eu vou cuidar disso, não vou deixar piorar.

Tomou Theo pela mão e em poucos minutos já arrancavam sua caminhonete azul pela estrada.

– Temos que encontrar um lugar para ficar. – Sam disse, consultando o localizador à sua frente.

– Hotel? Theodore disse que estava num hotel a trinta quilômetros daqui.

– Não tem nenhum hotel num raio de trinta quilômetros, ele mentiu, Theo.

– Claro… Não estou pensando direito, essa coisa está doendo. E eu deveria ter percebido que tinha algo errado, ele te chamou de tenente Samantha, eu nunca disse a ele que você era tenente. – Theo estava com a cabeça caída para trás, de olhos fechados e a mão sobre o ferimento.

– Você não pode confiar em todo mundo. – Sam deu uma olhada em Theo. – Aguente firme, eu vou remover essa bala daqui a pouco.

– Não, não vai, eu vou remover.

– Claro que não, eu vou tirar, eu enxergo, você não.

– Mas você não vai parar quando estiver doendo mais do que eu suporto, só eu tenho como saber a hora de parar. Eu vou remover.

– Eu vou dar um jeito. – Sam acelerou ainda mais o carro.

Após um silêncio, Theo voltou a falar.

– Está mais calma?

Sam olhou de relance para Theo.

– A ficha está caindo, estou tentando não pensar naquelas horas embaixo da terra, é perturbador demais.

– Foi muita maldade o que fizeram com você, ele fez isso por diversão, aquele cara era doente.

– Terei pesadelos com isso eternamente. – Sam carregava ainda um certo pavor na voz.

Theo procurou pela mão de Sam, a tirando do volante, entrelaçou devagar sua mão enfaixada suja de sangue e terra na mão de sua amiga, tentando lhe dar algum conforto.

– Está tudo bem agora, mas acho que você precisa de um pouquinho de certeza física. – Theo falou, com a voz comedida.

Sam sorriu de lado, correndo seu polegar pela mão de Theo.

Em quarenta minutos Sam dirigia pelas ruas de Iturama, já em Minas, uma pequena cidade de beira de rodovia, olhava ao redor, pelas janelas.

– Vamos dormir aqui? – Theo perguntou.

– Sim, mas preciso ir num lugar antes. Você me espera aqui? Não vou demorar.

– Onde você vai?

– Não abra a porta nem a janela para ninguém. – Sam disse e saiu do carro.

Retornou quinze minutos depois, com dois pequenos sacos de papel em mãos.

– O dia está nascendo, não está? – Theo perguntou, com a cabeça caída, quase adormecida.

– Está sim, vamos para uma pensão aqui perto. – Sam respondeu, colocando os dois sacos no colo de Theo.

– O que é isso?

– Tranquilizante para cavalos. Você será anestesiada, não sentirá nada. – Sam disse, já dirigindo.

– Cavalos?? – Theo arregalou os olhos.

– Foi o melhor que pude arranjar, ok? Vou injetar uma pequena dose em você, não se preocupe.

– Deus… – Theo suspirou. – Estou com medo de perguntar o que tem no outro saco.

– Antibiótico.

– Para cavalos?

– Não. Para cachorros, mas ele me disse que humanos também podem tomar, funciona. Nos ensinaram sobre estas coisas no exército, eu sei o que estou fazendo.

– Deve funcionar mesmo, saberemos depois, se eu latir ou relinchar. – Theo voltou a cair a cabeça no encosto.

Sam estacionou o carro na lateral de uma pequena pensão, conversou rapidamente com uma garota que tomava conta da recepção, e chegaram até seu modesto quarto. No interior havia um pequeno banheiro precário, com rachaduras e infiltrações, uma cama de casal com lençol azul desbotado, e diversos travesseiros com formatos estranhos.

– Me dê a pinça. – Theo foi logo ordenando.

– Não, eu já disse, eu vou tirar essa bala.

– Eu não preciso enxergar para remover, eu sei o que estou fazendo, me dê logo a maldita pinça.

– Não. – Sam falou com convicção.

– Ok, eu vou procurar. – Theo disse tateando o ambiente em busca da caixa médica.

– Hey, pare! – Sam a segurou pelos braços.

Theo apenas paralisou, assustada.

– Eu vou cuidar disso, você está com uma bala no corpo, e tem baixa imunidade, se não limpar esse buraco direito, você vai morrer com uma infecção generalizada em menos de 24 horas.

Theo suspirou, em dúvida.

– Theo, prometo cuidar da forma mais apropriada e que cause o mínimo de dor possível, você tem um buraco feio aí. E com terra!

Theo balançou a cabeça, concordando.

– Eu sei, eu sei…

– Venha, toupeira, vou te dar um banho antes. – Sam disse, conduzindo Theo para o banheiro, pelos ombros.

Sam a ajudou a tirar sua roupa suja de terra, abriu o chuveiro e a colocou dentro do box.

– Aaaai! É fria! A água é fria! – Theo reclamou, se encolhendo.

Sam tirou rapidamente sua roupa, entrando também no box e a acolhendo.

– Eu te aqueço.

Depois de dois minutos, Theo soltou-se dela.

– Preciso terminar o banho, estou tonta, isso não é bom.

– Está com tonturas? Não, não é nada bom. Ok, deixe eu terminar isso. – Sam disse, com gestos apressados.

Sam buscou roupas limpas para ambas, vestiu-se rapidamente e colocou Theo deitada na cama.

– Depois visto uma camisa em você, ok? – Sam falou, pousando a caixa médica sobre a cama, onde já estava sentada na beira.

– Qual o nome do anestésico?

– Acepromazina. Conhece? Aqui diz que a dose é de 2 ml a cada 100 Kg.

– Conheço. Me aplique 1 ml, 1,5 ml no máximo.

– Onde?

– Na minha coxa.

– Ok.

Sam preparou a seringa com o tranquilizante, baixou a calça de Theo, e injetou.

– Espero quanto tempo?

– Sam, você disse que sabia o que estava fazendo.

– E eu sei, mas só ensinaram na teoria, não prestei atenção em todos os detalhes.

– Dez minutos.

Sam subiu pela lateral da cama, se aproximando de Theo. Lhe deu um beijo suave.

– Relaxe, e não olhe para baixo.

– Ok.

A beijou novamente, com a mão em seu rosto.

– Se fosse para morrer de infecção você já teria morrido por conta dessa mão. Vai dar tudo certo, daqui a pouco você estará dormindo, sem essa bala.

– Ok, pegue a pinça e comece.

Sam tomou a pinça da maleta e limpou numa solução esterilizadora, limpou também a região do tiro. Ajeitou-se na cama, olhou de perto, criando coragem para começar a retirada da bala.

– Vá fundo, mas vá devagar. A bala deve estar longe. – Theo disse.

– Irei devagar. Mas lembre-se que não tenho mãos mágicas como as suas.

Sam aproximou a pinça lentamente, tremia um pouco. Introduziu a ponta, sendo logo sentida por Theo, que contraiu-se.

– A droga não fez efeito? – Sam indagou, com a pinça parcialmente dentro do corpo dela.

– Ainda não, mas continue. – Theo segurou firmemente os lençóis azuis com ambas as mãos.

– Mesmo?

– Continua logo.

Sam penetrou um pouco mais a pinça, movia dentro do ferimento, em busca da bala, sem sucesso. Theo fechava os olhos com força, trincando os dentes.

– Nada? – Theo perguntou, ofegante.

– Ainda não, talvez eu precise cortar. Vou pegar o bisturi.

– Cortar? – Theo apavorou-se.

Sam empunhou o bisturi hesitante, olhando para o ferimento que estava tomado por sangue.

– A bala não quer sair, Theo.

Theo engoliu em seco, e a respondeu com determinação.

– Não corte muito, prefiro que você force a retirada com a pinça, ok?

Sam a olhou, Theo suava e estava pálida, com semblante amedrontado.

– Vou tentar novamente apenas com a pinça. – Disse, já largando o bisturi.

Sam penetrou a fundo a pinça, conseguiu segurar a bala, mas não conseguia puxá-la, percebeu Theo gemendo.

– Aguenta ou quer que eu pare? – Sam perguntou.

– Aguento, tente mais. – Theo apertou os olhos com os dedos, segurando para não chorar.

– Lá vamos nós de novo.

Enquanto Sam movia a pinça, Theo diminuiu o semblante de dor.

– Acho que finalmente está fazendo efeito. – Theo disse, com alívio.

– Até que enfim, mas não quer sair. Corto?

Theo não respondeu, estava de olhos fechados.

– Theo? – Sam a chamou, preocupada.

– Hey, garota? Apagou?

Subiu na cama, aproximou-se de seu peito, ouvindo seus batimentos. Ouviu em seguida sua respiração.

– Melhor assim. Mas não morra, ok? – Sam disse, tomando o comunicador ao lado da cama.

Deu alguns toques na tela e encaixou o comunicador na mão de Theo, que estava desfalecida. Acompanharia os batimentos, temperatura, e outros dados da paciente improvisada pelos dados eletronicamente adicionados ao seu campo de visão, graças ao seu implante cerebral.

– Vamos lá, vamos cortar e terminar logo com isso. – Sam disse, retomando o bisturi.

Com a testa franzida, e olhando de perto, Sam fez um corte dentro do orifício. Limpou o sangue e tomou a pinça. Voltou a cravá-la de forma profunda, prendeu a bala e a tirou agora sem maiores dificuldades.

– Ah, maldita bala! – Disse, olhando o projétil sujo de sangue em frente aos olhos.

Descartou em cima de uma toalha, limpou novamente o ferimento, e aplicou um curativo.

Limpou a mão ferida dela e fez também um curativo, a enfaixando. Guardou todo o aparato na caixa e foi ao banheiro lavar as mãos. Retornou à cama, sentada ao lado de Theo, e a fitou por um instante. Consultou o comunicador, que trazia índices satisfatórios, tirou de sua mão, o colocando de volta no criado mudo. A olhou novamente, agora afagando sua testa e seus cabelos, com semblante satisfeito.

– Descanse, minha guerreira. – Disse em voz baixa, em seguida beijou sua testa.

Buscou uma camiseta branca dentro de sua bolsa, e vestiu em Theo, que continuava desfalecida. A ajeitou na cama e a cobriu, fechou as persianas digitais e por fim deitou ao seu lado, na tentativa de dormir um pouco na manhã daquele dia ensolarado.

Checou mais algumas vezes seus sinais vitais e adormeceu, mas seu sono não durou mais do que duas ou três horas, Sam acordou com Theo sentada na cama, bradando um palavrão.

– Merda. – Theo disse, sentada com a mão no local ferido.

– Deite e durma. – Sam respondeu, sonolenta.

Theo ergueu a camisa e começava a remover o curativo, com feições doloridas.

– Hey, o que está fazendo? – Sam inclinou rapidamente, verificando o que Theo fazia.

– A bala. – Theo resmungou e continuava tentando remover o esparadrapo.

– Não, não tire. – Sam segurou sua mão.

– Preciso remover a bala. – Theo insistia, ignorando a mão de Sam.

– Eu já tirei, deixe isso aí.

– Eu preciso tirar. – Theo tentava se desvencilhar da mão, não parecia totalmente consciente do que fazia.

– Theo, pare com isso, eu já tirei a bala de você.

– Preciso limpar, tem terra.

– Não tem terra, eu já limpei.

– Vai infeccionar. – Theo agora tentava com ambas as mãos.

– Mas que teimosia! – Sam segurou suas duas mãos. – Está limpo, não tem mais bala, terra, infecção, nada. Deite e durma mais um pouco.

Theo ficou imóvel por alguns segundos, de olhos fechados.

– Tem terra. – Theo voltou a tentar arrancar o curativo.

– Ok, chega. – Sam a deitou na cama, segurando seus braços. – Está limpo, deixe o curativo em paz.

– Tem terra demais. – Theo balbuciou, parecia delirar.

– Não tem mais nada.

– Tem, em cima de Sam, tem um monte de terra, eu não vou conseguir tirar.

Sam debruçou-se sobre Theo, correndo seus dedos por seu rosto.

– Você tirou a terra, estou aqui agora, está tudo bem.

– Theodore. – Theo abriu os olhos, assustada.

– Ele já era.

– Não confie em Theodore, ele quer me levar para algum lugar.

– Theodore morreu, ele não vai levar você.

– Ele vai me levar.

– Não vai, você não vai voltar para Elias.

– Acho que não foi Elias.

– Quem foi então?

– Água.

– O que?

– Theodore. Acho que ainda tem terra.

– Theo, não estou entendo nada do que você está falando.

Theo voltou a fechar os olhos, após um longo suspiro. Sam continuou a observando por algum tempo.

– Isso, durma. Eu vou tentar dormir mais um pouco também. – Sam saiu de cima dela, voltando a se deitar.

Segundos depois Theo levantou-se num rompante, cambaleou e caiu de joelhos, Sam saiu da cama em velocidade, a acudindo.

– Mas que coisa! – Sam a ergueu do chão, conduzindo para a cama.

– Mas… A água.

– Deite-se. E pare quieta nessa cama!

– Mas eu quero água, estou morrendo de sede. – Theo disse, já deitada.

– Eu busco para você, ok? Fique aí.

Sam retornou rapidamente, lhe entregando um copo com água e o antibiótico.

– Tome isso. – Disse colocando o comprimido em sua boca.

– O que é? – Theo disse, negando o comprimido.

– O antibiótico.

– Que antibiótico?

– O de cachorro.

– Qual o nome?

– Ãhn… – Sam olhou a caixa ao lado. – Enrofloxacina, 50mg. Tome.

– Não. – Theo novamente virou o rosto. – Um comprimido não adianta para mim, me dê uns seis.

Sam a olhou hesitante por um instante.

– Você já está bem?

– Bem? Essa porcaria aqui está doendo.

– Eu sei, mas… você está falando coisa com coisa?

– Me dê seis comprimidos disso, é por peso, eu não tenho o peso de um cachorro médio.

– Ok.

Sam colocou os seis comprimidos e um analgésico na boca de Theo, que os ingeriu, bebendo água na sequência.

– Agora deite e durma. – Sam disse, voltando para seu lado na cama.

– Theodore. – Theo disse e sentou-se na cama.

– Ah não… De novo?

– O comunicador, onde está meu comunicador?

– Não sei.

– Olhe a minha bolsa.

– Para que você quer o comunicador agora? Você está delirando.

– Ele deve ter me rastreado pelo comunicador. E quem o contratou pode estar me rastreando ainda.

Sam arregalou os olhos, e correu para sua bolsa marrom.

– Eu desativei o rastreamento assim que ele me deu, mas posso ter me enganado no procedimento. – Theo disse.

Sam sentou-se na beira da cama, ao seu lado, já com o comunicador em mãos.

– Vamos ver… – Sam verificava as configurações. – Está desativado, tudo desativado.

– Então o comunicador está limpo.

– Espera.

Sam foi até sua bolsa, retirando uma faca. Forçou contra a fina estrutura do comunicador, o partindo pela lateral.

– Achei.

– O que?

– Tem um emissor de sinal aqui preso no circuito, eles devem estar nos rastreando ainda.

– Então temos que jogar isso fora, bem longe daqui. – Theo disse, ainda sentada na cama.

– Tem um posto de recarga nessa quadra, eu vou jogar dentro de algum veículo que estiver de passagem. – Sam falou, já saindo da cama.

– De preferência um que vá no sentido contrário ao nosso. – Theo recomendou.

– Promete que não vai sair da cama?

– Prometo. – Theo respondeu, se deitando.

Três minutos depois Sam voltou ao quarto, retornando para a cama.

– Conseguiu?

– Sim, já está a caminho da Bolívia.

Theo levantou e sentou-se na beira da cama, fazendo com que Sam levantasse também.

– Qual parte do não sair da cama você não entendeu? – Sam resmungou, puxando Theo pela camisa.

– Eu quero água, estou com uma sede infinita.

– Eu busco, garota! Já disse que eu busco, fique nessa maldita cama.

Sam voltou novamente com um copo d’água, a entregando. Theo bebeu mas continuou sentada onde estava.

– É por causa do relaxante para cavalos que você me deu. – Theo se dava conta.

– O que?

– Que estou assim estranha, e com essa sede.

– Então deve ser. Mas custa deitar e me deixar dormir mais uma horinha?

Theo permaneceu ali, pensativa.

– Você me deu a dose que eu falei? – Theo perguntou.

– Sim. Quer dizer, um pouquinho mais.

– 1,5 ml?

– Um pouco mais. 3 ml.

Theo virou-se pasmada na direção de Sam.

– 3 ml? 3 ml? Você quer me matar??

– Você não morreu, morreu?

– Eu poderia ter tido uma parada cardíaca com essa dose!

– Eu só quis garantir que você não sentisse dor. – Sam respondeu, sem jeito.

Theo esfregou o rosto.

– Essa dose poderia ter sido letal, Sam. Eu não estou exagerando.

– Ok, agora eu sei, lembrarei da próxima vez.

Theo voltou a sentar-se na beira da cama, com as mãos no rosto.

– Está brava comigo? – Sam perguntou, receosa.

– Claro que não, você estava tentando me ajudar.

– Você nem sentiu quando te cortei.

– Você me cortou? – Theo voltou-se para Sam.

– A bala não queria sair.

– Tirou toda a terra?

Sam riu de forma contida.

– Tirei sim.

Theo sacudiu a cabeça assimilando.

– Quem você acha que contratou Theodore? – Sam perguntou.

– Elias.

– Você disse que achava que poderia ter sido outra pessoa.

– Não, foi Elias.

– Ok, não foi o que você disse.

– Quando?

– Quando acordou.

– Eu estava delirando do anestésico.

– Ok.

– Foi Elias. – Theo ratificou, colocando as pernas para cima da cama.

– Bom, o que importa é que ninguém te levou, você continua aqui.

– Não. – Theo cobriu-se e projetou-se por cima de Sam. – O que importa é que você está viva.

– E você no lugar certo, em cima de mim. – Sam sorriu.

Theo correu delicadamente seus dedos pelo rosto de Sam.

– Aqui. – Sam tomou a mão de Theo, a pousando em seus olhos. – Olhe para mim.

Sem focar o olhar em algum ponto, Theo correu seus olhos na direção onde Sam havia apontado. Sam sentiu-se bem com aquele azul a encarando tão de perto, apesar de não estar realmente a fitando.

– Estou te olhando. – Theo respondeu, baixinho.

– É justo, eu olho para você o tempo todo.

Theo deslizou seus dedos para os lábios de Sam, que os tirou dali. Ela sabia que quando Theo fazia isso, a beijaria.

– Consegue encontrar minha boca sem ajuda dos dedos? – Sam a desafiou.

– Posso tentar. – Theo sorriu timidamente.

Aproximou-se devagar de seu rosto, tentando sentir a respiração de Sam, já estava próxima, porém um pouco acima. Sam arrematou, corrigindo a rota com um beijo roubado.

***

– Vamos inverter um pouco as coisas hoje. – Sam disse, dirigindo por uma rodovia pouco movimentada.

– Do que você está falando?

– Já que dormimos durante o dia, vamos dirigir até mais tarde hoje. De acordo? – Era próximo das oito da noite.

– O cansaço é seu, por mim podemos ir noite adentro. – Theo respondeu, tirando seu boné e ajeitando o cabelo.

– Eu vou querer dormir por cinco dias, depois que isso acabar. – Resmungou.

– Duvido, você vai passar uma semana ouvindo sermões e broncas da sua irmã.

Sam dirigia com a cabeça apoiada na mão, e cotovelo no alto da porta, despojada no banco. Suspirou devagar antes de responder.

– Ela mandou mensagens hoje.

– Mensagens compreensivas? Está superando a perda do cunhado? Ou ainda está de luto?

– Perguntou sobre a busca, como estou, essas coisas de sempre.

– Isso é bom.

– Mas depois perguntou por Mike, se eu estava falando com ele, se estava repensando o que fiz… Sabe, eu gostaria de saber como Mike está, queria poder conversar civilizadamente com ele, mas acho que não é um bom momento. E Lindsay nunca vai desistir de tentar nos reunir.

– Não perca seu tempo discutindo essas coisas com ela, depois vocês conversam, ou fazem uma luta no gel, mas deixe tudo isso para depois, foque nas prioridades.

– É… Nunca brigamos para valer, mas já tivemos vários desentendimentos… Lynn é tão diferente de mim. – Sam refletia. – Acho que ela é feliz com a vida que leva, mas eu não sei se quero o mesmo.

– Saber o que você quer é metade do caminho.

– Não posso fazer planos agora, no máximo planos para os próximos dez dias.

– E seria perigoso fazer planos agora.

– Você pode fazer planos. – Sam comentou.

– Eu tenho planos.

– Mudou de ideia sobre morar na Inglaterra? – Sam sorriu.

– Ainda não, ficarei por aqui.

– Não sei o que você vê aqui, nunca moraria na Nova Capital. Me ajude a tirar a jaqueta.

– O clima daqui é bem melhor que o da Inglaterra. – Theo respondeu, já ajudando a tirar uma manga do casaco de Sam.

– Jesus! – Sam bradou, freando e tentando uma manobra rápida.

Um grande barulho foi ouvido, Sam havia atropelado um homem que estava de pé no meio da estrada, trajando paletó e gravata azul e amarela.

– O que foi isso??

– Eu tentei, eu tentei desviar, mas não deu tempo! – Sam falava nervosamente, já com o carro parado.

– Você atropelou alguém?

– Sim, um louco parado no meio da estrada. – Sam olhava pelos retrovisores e pelas telas.

– Onde ele está? Temos que socorrê-lo.

– Voou por cima do carro, deve estar caído lá atrás.

– Não está vendo?

– Não, está escuro!

– Então vá lá ver!

– Claro, claro, eu vou lá. – Sam disse, atordoada.

Assim que abriu a porta, um murro vindo de cima estraçalhou o para-brisas do carro, assustando ambas. O homem que fora atropelado surgira e estava agora em cima do capô. Inclinou-se para frente e tirou Sam de dentro do carro, a puxando pelos ombros de forma violenta.

Theo percebeu o que acontecia e tentou impedir que ele a tirasse do carro, mas era tarde demais, o forte homem travava agora com Sam uma luta ainda sobre o capô.

 

Desvario: s.m.: Ato praticado por doente que delira. Ato de loucura. Devaneio.

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comentários

Comments (8)

  1. Cristiane Schwinden

    Sim, aos pouquinhos vou soltando mais informações sobre Theo, dá pra ir montando o quebra cabeças, vocês estão se saindo muito bem… rs
    Aqui já está tudo melhorando, obrigada 😉

    Reply
  2. TE

    Estou orando para o problema de saúde na sua família se resolva rápido. Quanto a historia a cada capitulo ao passo que sabemos mais de Theo mais ela fica misteriosa enquanto sabemos muito sobre a Sam não sabemos praticamente nada sobre Theo e a curiosidade vai aumentando a cada passagem da historia a cada percalço da jornada delas que são muitos parecem ser um em cada esquina ou melhor a cada final de capitulo bjs Cris muita luz para vc e os seus

    Reply
    1. Schwinden (Post author)

      Obrigada, Te! Já está tudo se encaminhando por aqui, foi um duplo problema de saúde, mas está se resolvendo.
      Prometo que no capítulo 31 saberemos bastante sobre Theo, porém será um capítulo bem triste.
      Se a curiosidade está aumentando é um bom sinal, estou no caminho certo, quanto mais mistério melhor… rs
      Beijos e obrigada!

      Reply
  3. Maria Clara Batista

    Este capítulo de certa forma nos revela um pouco mais de Theodora: primeiro sua noção em medicina, segundo e mais importante é que ela sabe quem é o responsável por sua caça e não é Elias, isso eu já desconfiava. Eu acho que alguém contratou Elias para raptá-la e ele então a mantinha no circus que era seu local de cativeiro, e uma vez lá dentro foi forçada a prostituir-se. A pessoa responsável por orquestrar o sequestro é quem está financiando sua busca, pq eu não acredito que um cafetão tenha tanto dinheiro assim. Uma outra hipótese que surgiu em minha cabeça é a de que Elias fora contratado para matá-la, mas na ocasião viu o potencial dela como prostituta, por ser muito bonita, então a manteve viva. Em ambos os casos Elias é apenas o executor.
    Algumas teorias borbulham na minha cabeça, penso muito nesta história.
    ps: Cris, espero realmente que já esteja melhor do seu problema de saúde. Bjs

    Reply
  4. ada

    quem vai salvar a Sam novamente? claro que a Theo, fico pensando sem a The a Sam já era a muito tempo….rsrsrsrs e fico pensando quando foi que a Sam ficou tão frágil? ou já era e ninguém percebeu…Cristiane tenho imaginado muito essas duas numa dessas pinturas do Salvador Dalí porque é cada coisa que acontece com essas duas que é surrealista e ao mesmo tempo sei lá incrível.

    Reply
    1. Schwinden (Post author)

      Será que Super Theo irá salvar o mundo novamente? Ela é educada, as vezes ela cede sua vez para Sam achar que também tem super poderes.
      Sam tinha pinta de valentona, mas a força dela é diferente, a força que move Theo é beeeeem diferente, é força instintiva, Sam não passou pelas coisas que Theo passou, Theo foi forjada com fogo e trevas… rs
      Adoro surrealismo, sério, adoro em qualquer manifestação artística, inclusive na literatura, acertou em cheio.

      Reply
  5. Laila

    Oieeeeee Schwinden!!
    Primeiro dizer q amei o capitulo e q postou rápido!!Eu tava aquí descansando sabe…rs.Pude ler tranqui!!Con algunas interrupcoes,mas blz!
    Eu sentí dor quando Sam tava tirandoa bala…poxa vida!!!
    Sam e louca,deu 3 ml..viuge!!!rsrs.Theo delirou geral…mas os delirios sao bons tb,escutar oq tem q dizer…
    n sei se deixei pasar algo..to relaspa demais c meus coments rsrs.
    Huj,Theo disse q tem planos…dpsq conseguirem o coracao e?hTheo tas mt da misteriosa,mas a 1 versao ela n foi mt boa e acho q agora tb debe ta usando Sam,ainda q tb goste dela…
    La vem ese carinha de novo q ns abe se vestir…quem será???Quer Theo,isso certeza!!
    Bote logo o próximo cap!!!rsrs.ce ta sendo cocodila,cap foi curto,po!!RS
    BEIJOSS

    Reply
    1. Schwinden (Post author)

      Darling! Estou triste porque Carol não ganhou a palma de ouro de Cannes hoje, mas teve um prêmio de consolação, Rooney Mara ganhou o prêmio de melhor atriz.
      Quando escrevi a cena da outra tirando a bala, só me vinha na cabeça o Rambo, confesso que foi interessante escrever influenciada pelo Rambo, talvez faça novamente.
      Theo tem planos sim, planos malignos e megalomaníacos, ela inclusive vai começar a chamar Sam de Pinky.
      Esse cara da gravata europeia foi inspirado em dois personagens, o T1000 do Exterminador do Futuro e o Homem de unhas bem feitas, de Arquivo-X. (juro, esse é o nome do personagem). Mas fisicamente ele é inspirado no caçador alienígena de Arquivo-X.
      Capítulo foi curto não, tá dentro das regras, viu? (Ainda bem que eu que faço as regras auahuahuaha)
      Pra compensar, o capítulo 31 tem o tamanho de mais de 3 capítulos.
      Besos!

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