PH Poem a Day – Dia 4 – O verão

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Dia 4 – O verão

Eu não queria matar. Não posso dizer que nunca tive esse ímpeto antes, quem nunca? Mas as ordens são claras, não é uma voz humana, sequer é uma voz dessa dimensão, são as instruções do altíssimo poder das trevas.

Essa madrugada as coisas saíram do trilhos, essa arma Bulldog 44 não foi uma boa escolha, como posso ter precisão com algo assim, e num momento tão importante? Amanhã saberei pelos jornais sangrentos se eles morreram, principalmente aquele jornaleco de Manhattan, que pensa estar um passo a minha frente. Nem a polícia está perto de mim, porque Sam me protege, me faz promessas, além de me orientar.

O todo poderoso da escuridão se manifesta de formas diversas, é um teste. Tentei ignorar aquele cachorro, como pode um animal ser o veículo de uma entidade tão grandiosa como Sam? Mas assim Sam escolheu, e assim eu sigo as ordens de continuar atirando nestes seres insignificantes, que ameaçam os planos maiores de dele.

Não estou contando, não sei quantas almas já mandei para eles, alguns teimam em sobreviver – maldita Bulldog 44 – outros demoram a abandonar seus corpos. Eu não quero fazer isso, mas não irei parar até que a morte derrube esse saco de papel das minhas mãos, em definitivo.

No nosso grupo dizem que sou um iluminado por conseguir me comunicar com Sam, invejam meu dom de ouvir o instrumento animal. Eu não me invejo.

A guerra do Vietnã acabou há pouco, as pessoas nunca estiveram com seu ego e senso de liberdade tão aguçados como agora, estão nas ruas. Nova Iorque arde em chamas invisíveis, esse ritmo alucinado que chamam de punk os enlouquecem um pouco mais, e eu tenho meus alvos desatentos e pretensiosos nas ruas, nas madrugadas. Se acham imortais até o momento da minha colheita, da colheita de suas almas pecadoras e corrompidas.

Mandarei um carta amanhã, direi meu nome aos jornalistas carniceiros de plantão, e à polícia incompetente. Saberão de quem sou filho, e que este é o verão dele, o verão de Sam.

(baseado na história real do serial killer David Berkowitz, que ficou conhecido como “O filho de Sam”.)

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