Conto escrito para o desafio do Lettera

Tá rolando o segundo desafio “Uma imagem vale por mil palavras” no Lettera e já encerrei minha participação escrevendo os 4 textos baseados nas imagens semanais, que interligados formam um conto.

Segue abaixo:

Quase sem querer

1ª semana

 

Um grupo de jovens mulheres alcoolizadas fazia uma algazarra no lounge do bar, irritando Nicole, que fumava lentamente seu cigarro no balcão. Não gostava daquele lugar, mas tinha um encontro marcado.

— Mais um Bourbon? — Perguntou o bartender apontando para seu copo quase vazio.

— Agora não. — Respondeu cobrindo o copo com a mão que segurava o cigarro.

Parecia um tanto desanimada, desfez o coque soltando os cabelos loiros e rebeldes, suspirou consultando as horas no celular, correndo o flip para cima com o polegar. O ano era 2002 e algumas TVs pelos cantos exibiam lances dos jogos da Copa do Mundo, que acontecia naquele mês. Nicole detestava futebol e agradecia em silêncio por as TVs estarem sem áudio.

Ao resmungar algum xingamento pelo futebol que inundava o país naquela época se deu conta do quanto andava mal-humorada, cheia de tudo e todos. Estava se aproximando dos trinta e se via numa crise interior, principalmente profissional.

— Que gralhas insuportáveis… — Resmungou novamente, por conta do barulho vindo do lounge, um espaço ao fundo com dois sofás.

Consultou mais uma vez as horas no celular e foi tirada do seu transe desanimado por uma mulher que chegou eufórica no balcão, esbarrando em sua perna.

— Moça, me desculpa. — Disse uma sorridente mulher já um tanto bêbada.

Nicole apenas entregou um sorrisinho forçado e afastou-se um pouco dela.

— Três pinas coladas, amigão! — A maquiagem da moça já estava um pouco bagunçada, trajava uma tiara com uma pequena grinalda de tule.

Nicole logo se deu conta que aquela mulher estava no grupo da algazarra, e pela mini grinalda, deveria ser a despedida de solteira dela. Já havia perdoado o esbarrão, estava curiosa.

— Vai casar hoje? — Perguntou com ironia, apontando para a cabeça dela.

— Com a primeira pessoa que me pagar uma bebida! — Riu com vontade.

— Ninguém te pagou um drink até agora?

— Hoje eu que estou embebedando todo mundo. Quer uma pina colada também?

— Não gosto de misturar. Mas agradeço.

— Por que você está sozinha aqui?

— Estou bem acompanhada. — Ergueu seu copo e deu um gole.

— Qual seu nome, pessoa bem acompanhada?

— Nicole.

Um homem de meia idade com camisa social e gravata listrada interrompeu a conversa.

— Você é a Nicole, certo?

A elegante mulher de quase um metro e oitenta (com saltos) deu uma boa olhada no indivíduo.

— Não, acho que você me confundiu com alguém. — Nicole respondeu, a moça de grinalda não segurou o riso, estava atrás do homem acompanhando a conversa.

— Tem certeza? Acho que você marcou comigo aqui às nove.

— Não sei do que você está falando.

— Eu vi sua foto no site, é você sim.

— Deve ter sido alguém semelhante, eu sinto muito.

O homem deu uma última olhada ainda incrédulo.

— Você que sabe. — Bufou e saiu.

Nicole voltou a encaixar-se no balcão, com os cotovelos sobre o tampo.

— Onde achou esse cara? Foi naqueles sites de encontros, não foi?

A retraída mulher acabou rindo, girando no banco na direção da noivinha.

— Esses sites de encontro são uma caixinha de surpresa. Achou seu noivo em algum desses? Par Perfeito? Yahoo Encontros?

— Não, achei o Marcos numa formatura de uma amiga. Não tenho uma história mirabolante para contar, foi mal.

— Casa quando?

— Sábado que vem, se até lá ninguém mudar de ideia. — Falava com desembaraço.

O bartender colocou dois copos sobre o balcão.

— Falta um, já vai sair. — Ele comunicou.

— Brigada, moço. — Deu um pequeno gole em um dos copos. — Acho que já vou levar esses dois para Maurícia e Renatinha, depois busco o meu.

— Maurícia? — Perguntou Nicole com curiosidade. — Que nome diferente.

— No sentido de estranho?

— É, estranho, não acha?

— É a minha irmã, então já me acostumei.

— É sua irmã? Desculpe, não quis ofender. Mas agora fiquei curiosa para saber seu nome.

— Andrea, prazer. — Estendeu a mão.

— Prazer. Andrea é um tanto mais comum, tem mais irmãos?

— Tenho um irmão, Renato.

Nicole franziu o cenho, assimilando.

— É coincidência ou os nomes de vocês é alguma homenagem a Legião Urbana?

Andrea explodiu numa risada, cheia de surpresa.

— Caramba! Você matou nosso mistério sem que eu precisasse dar nenhuma dica!

— Sério? É isso?

— Sim, meus pais são fãs de Legião Urbana.

— Seu nome é Andrea Doria então?

— Só Andrea, mas meu irmão se chama Renato Russo Bezerra de Carvalho.

— Mentira. — Riu incrédula.

— Juro.

— Prontinho. — O barman colocou o terceiro copo no balcão e anotou na comanda dela.

— Valeu, fera! — Andrea disse e tentou pegar os três copos ao mesmo tempo, sem sucesso.

— Quer que eu ajude a levar?

— Aceito a ajuda, aproveita e já fica lá com a gente, já que seu encontro minguou.

Nicole topou, e passaram as horas seguintes engatando conversas e risadas, na companhia das amigas da noiva que estavam mais preocupadas em se embebedar e falar besteiras aleatórias.

— Vou buscar uma bebida. — Nicole disse se levantando.

— Traz uma pra mim?

Voltou minutos depois com duas águas.

— Água?

— Para se hidratar, depois você volta a beber suas pinas coladas.

Andrea aceitou a água estampando um sorrisinho, e depois riu alto.

— Que foi?

— Você vai ter que casar comigo.

— Por que?

— Eu disse que me casaria com a primeira pessoa que me pagasse uma bebida.

Antes que Nicole respondesse aquela garota de longos cabelos castanhos já sem grinalda, as amigas começaram uma brincadeira no estilo verdade ou desafio, porém voltado apenas à noiva.

Lá pela sexta ou sétima pergunta, após errar, Andrea deveria pagar uma prenda. Colocou a mão no cesto (onde previamente havia batatas fritas) e tirou o desafio.

— Beijar alguém agora. Sério? Ces tão loucas, né?

— Paga! Paga! Paga! — Gritavam as amigas eufóricas.

Andrea ria sem parar com as brincadeiras e brados das amigas, quando ergueu os braços.

— Tá bom! Eu pago!

Virou-se e sem se fazer de rogada tascou um beijo na boca de Nicole, que levou um baita susto, mas aceitou a prenda com animação.

Os gritos aumentaram e continuaram mesmo após o beijo, todas vibravam e riam.

— Foi mal. — Andrea disse em seu ouvido.

— Quem aqui está querendo desculpas? Eu não. — Riu.

Andrea ergueu o copo com água, satisfeita por ter pago a prenda.

— Hoje eu posso tudo!

Já passava da meia-noite quando Andrea foi ao banheiro e Nicole se prontificou a acompanhá-la. Andrea entrou e Nicole ficou no espelho, ouvindo sua nova amiga cantarolando enquanto no vaso.

Ninguém sabe se a intenção surgiu antes ou durante, mas Nicole enfiou Andrea de volta à cabine de onde havia acabado de sair, lhe tomando num beijo ardente que tirou o fôlego da pretensa noivinha.

— Hoje você pode. — Brincou Nicole ao final.

Andrea nada respondeu, apenas lançou um olhar surpreso e saiu do banheiro.

 

2ª semana

 

Andrea voltou do banheiro quieta, Nicole voltou minutos depois, achou melhor sentar no outro sofá. O restante da noite foi de troca de olhares enigmáticos. Pouco depois da uma da madrugada o grupo estava do lado de fora organizando a partida.

— Ninguém vai para o lado onde moro, vou ligar para o rádio taxi. — Andrea ia dizendo já procurando o número na agenda do celular, tinha um tanto de dificuldade por conta das bebidas.

— Posso te dar uma carona. — Ofereceu Nicole. — Meu carro tá ali.

— Você nem sabe pra qual lado eu moro.

— Tenho tempo de sobra, vem, te levo.

— Ce vai? Posso pegar um táxi com você, daí não vou com elas. — Maurícia disse, apontando para um carro já com cinco mulheres dentro que a aguardava com a porta aberta.

— Precisa não, vá com elas, eu vou com a Nicole, ela tá parecendo sóbria.

— E estou mesmo, bebendo apenas água desde as onze.

— Liga quando chegar em casa, ok? — Despediu-se rapidamente Maurícia, entrando no carro cheio.

Andaram até o final do estacionamento, Nicole abriu a porta do grande carro verde escuro para sua convidada.

— É o seu? — Disse espantada, era um carro caro.

— Sim.

Já dando a partida no carro, Andrea não segurou a curiosidade.

— Qual sua área?

— Me formei em biomedicina. E você? — Respondeu Nicole.

— Direito, trabalho como assistente num escritório.

— Me passa o endereço?

— Do meu trabalho?

— Não, o da sua casa, para poder te deixar lá. — Respondeu rindo.

— Ah, claro…

Vinte minutos depois o carro já estava parado na entrada do antigo prédio onde Andrea morava com uma ex-colega de faculdade.

— Está entregue, senhorita.

Andrea não queria se despedir, colocou a mão na porta e desistiu.

— Você mora aqui perto?

— Não, mas não estou indo para casa.

— Vai pra onde?

— Eu tenho um pequeno chalé na Serra, vou pra lá passar uns dias.

— Sozinha?

— Sim, ando precisando de um tempo sozinha, repensar algumas coisas… Enfim. Já enchi o porta malas com tralha suficiente para um mês na floresta. E vídeo game.

Sem pensar duas vezes e com alguns bloqueios derrubados pelo álcool, Andrea surpreendeu a motorista com seu pedido.

— Posso ir com você?

— Para o chalé??

— Sim, eu adoro a Serra, me deixa conhecer teu chalé, prometo que vou embora pela manhã, passa ônibus por lá, não passa?

— Passa. — Nicole encarou os olhos vivos e castanhos dela. — Tem certeza? Sua família e seu noivo não vão estranhar?

— Mando mensagem avisando minha irmã, só tenho compromisso com o Marcos amanhã à noite. Jantar com a família dele… — Fez semblante de desgosto.

Nicole ainda não estava certa, mas queria muito levar a garota extrovertida para seu chalé.

— Mas você…

— Hoje eu posso tudo. — A interrompeu rindo.

— Ok, coloque o cinto e se ajeite, porque teremos uma hora de estrada pela frente.

Já na estrada e com o rádio ligado, Andrea lutava contra o sono. Começou a tocar Eduardo e Mônica.

— Por que teus pais não batizaram sua irmã de Mônica?

— Eles não gostam de Eduardo e Mônica, acham comercial demais.

— Mas boa parte das músicas da Legião é comercial.

— Eu nunca entendi a cabeça deles, Nicole.

Ela deu um risinho fungado e um olhar demorado em Andrea.

— Não passou pela sua cabeça em nenhum momento que eu talvez seja uma serial killer? Que estou te levando para um calabouço de tortura no meio do mato?

— Desde que não roube meus órgãos, tá ótimo. — Disse com displicência, arrancando um riso de Nicole.

— Quer reclinar o banco para tirar um cochilo?

— Não, tô bem acordada.

Sete minutos depois Andrea pegou no sono. A loira parou o carro no acostamento, pegou um casaco no banco de trás e a cobriu, retomando a viagem.

Chegando no chalé, Andrea seguiu sonolenta para dentro da pequena construção de madeira. Era modesto e harmonioso, estava rodeado de floresta e alguns outros chalés não muito próximos.

— Que lugar bonitinho, adorei. — Disse olhando por todos os lados, de pé na sala onde havia sofás e lareira.

— Eu que decorei, por isso é assim simples, só queria um lugar confortável.

— E parece confortável mesmo.

— Quer tomar um banho antes de dormir?

Nicole arranjou roupas para ela, que foi para o banho. A anfitriã voltou do quarto de visitas após arrumá-lo para Andrea e a encontrou dormindo profundamente em sua cama, preferiu não a acordar, tomou também seu banho e dormiu ao seu lado.

Andrea acordou confusa com o sol começando a nascer, levou um bom tempo para se dar conta do que estava acontecendo e do que havia acontecido na noite anterior, as seis pinas coladas estavam cobrando seu preço.

Se pegou sentindo algo agradável e estranho por aquele mulherão dormindo pacificamente ao seu lado, lembrou do beijo no banheiro e voltou a sentir o tesão daquele momento. Acomodou-se devagar em suas costas, aos poucos ia criando coragem para ir além, beijos no pescoço e ombro, a mão subindo da barriga para o seio, logo Nicole já estava acordada e sem saber o que fazer.

Apesar de estar amando receber aquilo tudo, sabia que a outra não deveria estar fazendo aquilo, ela tinha um noivo. Nicole girou a abraçando, ainda de olhos fechados e com sono. O abraço era uma tentativa de mantê-la parada.

— Pode dormir mais, ainda é cedo. — Nicole murmurou em seu ouvido.

Andrea ignorou solenemente tudo, e como um polvo ensaboado fugindo de uma armadilha, voltou a correr sua mão boba por Nicole.

Resistir pra quê?

Dois minutos depois e já estavam trocando um beijo quente.

Vinte minutos depois e quatro mãos bobas corriam por corpos sem roupas.

Trinta e três minutos depois e Andrea experimentava o maior orgasmo de sua vida, nas mãos de Nicole.

Preferiram nada falar, apenas ouvir as respirações alheias e sentir mãos carinhosas afagando seus corpos. Dormiram. Nicole acordou preocupada, mas derreteu-se num sorriso ao contemplar a bela garota nua em sua cama.

Vestiu-se e foi para a cozinha, retornou acordando a convidada com um beijo no rosto e um cafuné.

— Vem tomar café comigo? Me encontra na varanda.

Nicole estava de pé na varanda com uma blusa de lã negra com as mangas até os dedos, Andrea chegou minutos depois, viu as canecas fumegantes sobre o parapeito de madeira e depois admirou com confusão a mulher que a fitava com ares receosos.

— Brigada pelo café. — Disse já sentando num banco rústico de troncos.

— Ali tem biscoitos e torradas. — Disse apontando para uma mesinha redonda ao canto. — Desculpe a falta de jeito, eu ainda não tenho mesa de verdade, faço minhas refeições no sofá ou aqui.

— A vista é linda. — Olhava para o horizonte cheio de árvores altas.

— É sim, esse é o lugar onde recarrego minhas energias.

— E traz seus namorados?

Ela riu.

— Eu sou lésbica, Andrea. Mas respondendo sua pergunta, já faz algum tempo que não namoro, nem lembro a última vez que trouxe namorada pra cá.

A jovem advogada a olhou confusa.

— Lésbica? Então por que marcou um encontro com um homem ontem?

Demorou um pouquinho para responder, finalmente falou com aparente receio.

— Eu sei que deveria ter contado antes… Não era um encontro, eu faço programas e aquele cara era um cliente.

Andrea ficou paralisada sem saber se era brincadeira.

— É sério isso?

— É sim. Tem mais uma coisa que deveria ter falado também, meu nome verdadeiro não é Nicole, é Leila.

3ª semana

 

— Leila?

— Nicole é o nome profissional, digamos assim. — A loira estava tímida e um bocado acuada de pé junto ao parapeito da varanda, fazia frio.

— Por que você faz isso? — Andrea perguntou sem rodeios, ainda sentada no banco de troncos.

— Me prostituo? Porque dá uma grana boa.

— Você gosta?

— Não, é impossível gostar de fazer isso.

Leila sentia os olhos de julgo sobre si, estava triste por decepcionar a garota extrovertida.

— Há quanto tempo?

— Quase quatro anos. — Deu um último gole no café. — Mas venho pensando em largar.

— Por que não larga? Algum cafetão ameaçando?

— Você é bem direta, gosto disso em você. — Tentou brincar. — Eu sustento meus pais, dou conforto a eles, coisas que eles nunca tiveram. Hoje em dia é a única coisa que me segura nesse mundo.

— Você mentiu sobre biomedicina?

— Não, sou formada mesmo. Trabalhei na área, fui demitida, só consegui empregos que pagavam mal, recebi um convite para descolar uma grana extra, o extra virou profissão temporária, o temporário virou quatro anos.

— Quantos anos você tem?

— Faço trinta no mês que vem.

— É uma boa hora para repensar.

— É… Eu sei. Estava fazendo isso quando você chegou.

Veio um silêncio, ninguém desejava aquilo, mas veio e veio gélido.

— Quando você estiver pronta te levo pra casa. — Leila voltou a falar, num tom grave.

— Não, você veio pra ficar, vou de ônibus, me viro.

— Eu te levo, só me avise quando. Tome o café sem pressa.

A menção a fez olhar a caneca, bebeu um pouco e ergueu-se do banco, indo até o parapeito também. Usava um grande moletom cinza emprestado.

— Eu preciso ir agora?

— Não, você pode ficar o tempo que quiser.

— Então posso ficar mais um pouco com você?

Leila fora pega de surpresa, não resistiu a um esboço sincero de sorriso.

— Claro, claro que pode.

Andrea deu aquela olhadinha meio safada, meio curiosa na direção de Leila, que estava bem ao seu lado.

— Obrigada por não roubar meus órgãos.

Leila riu aberto.

— Obrigada por não me dopar e fugir com meu carro. Sabe, eu adorei nossa noite. — A loira comentou de mansinho.

— Tudo?

— Tudo, toda a noite. Fazia tempo que não me sentia assim, sabe? Uma noite tão boa e tal…

— Também gostei.

A visitante deslumbrou-se um pouco com a vista, observando ao longe, Leila acompanhava a observação silenciosa.

— Leila… — Andrea murmurava para si. — Leila. Leila??

— Ãhn… Sim.

Andrea virou-se para ela.

— Você também tem nome de música de Legião Urbana!

— Tenho sim. — Respondeu aos risos. — Destino?

— Não é destino. — Andrea aproximou-se, a fitando de perto. — É que você é irresistível, e tá sendo irresistível de novo.

Trocaram um beijo. Dois, três… Entraram.

Passaram a manhã, o meio-dia, a tarde. Passaram quase todo o dia na cama, Leila saiu apenas para preparar um almoço, adorava cozinhar.

***

— E aqui estamos novamente, na frente do seu prédio.

— Só que desta vez tenho que entrar. — Andrea dizia com a voz sóbria.

— Você casa dentro de uma semana, tem muita coisa pra cuidar.

— Na verdade menos de uma semana, me caso sábado à tarde.

— Posso aparecer na igreja? Só para ver.

— Não recomendo.

— Nos veremos algum dia?

Andrea tomou a mão dela e colocou sobre sua perna, afagando.

— Acho que não. A noite de ontem acabou agora.

Leila concordou balançando a cabeça.

— Espero que tenha se divertido na sua despedida de solteira.

— Mais do que poderia imaginar. — Riu e a puxou para um último beijo.

***

Não se viram no dia seguinte, nem no outro, mas trocavam dezenas de mensagens. Na terça à noite a mensagem de Andrea foi incisiva.

— Quero te ver.

Leila despencou Serra abaixo e levou Andrea para seu grande apartamento ainda naquela noite. Mal dormiram, ambas sentiam a ampulheta escorrendo a areia do tempo e queriam aproveitar cada grão.

— Sua colega de apartamento não vai achar estranho você ter passado a noite fora? — Leila tinha a noivinha aconchegada em seu peito, nua, percebendo o sol nascendo lá fora.

— Ela não se mete na minha vida.

— Quando você vai começar a morar com seu marido?

— Sábado.

— No dia do casamento? E a lua-de-mel?

— Gastamos demais agora, vamos viajar no verão para o litoral.

Leila ficava com um nó na garganta quando lembrava do casamento, mas tentava se manter impassível.

— Acha que poderemos nos ver essa semana de novo?

— Não vai voltar para o chalé?

— Posso ficar por aqui. — Era um convite.

— Amanhã. Você tá livre amanhã?

— Pra você, com certeza. — Brincou.

Andrea preocupou-se pela primeira vez, ergueu-se um pouco ficando por cima dela.

— Isso é como mais um programa para você, não é?

— Não, claro que não. — Respondeu um pouco zangada. — São coisas completamente diferentes.

— Você sabe separar?

— Andrea, não tem nada a ver, não enxerga? Você fez amor com a Leila, e não sexo com a Nicole.

— Desculpe, não quis te ofender, te ofendi?

— Não. Mas se você insistir nesse papo saiba que você me deve uma boa grana. — Riu.

— Quanto você cobra?

— 1200.

— Por noite?

— Por hora. Mil nas horas seguintes.

— Uau… É tipo estacionamento de shopping?

Leila gargalhou.

— Tipo isso.

Andrea a beijou.

— Quanto custa um beijo?

— Pra você é de graça.

— E um orgasmo? — Disse descendo a mão entre as pernas dela.

— Nada. — Respondeu num gemido.

— Estou pensando em faltar essa manhã de trabalho… — Falava entre beijos no pescoço.

— Não vou me opor. Não quero dormir.

Ela faltou a manhã de trabalho.

Se viram novamente na quarta, dessa vez o sono acumulado fez a luxúria se findar no início da madrugada.

Na quinta Andrea tinha ensaio do casamento, se viram novamente na sexta, véspera do casamento.

— Não poderei dormir aqui, minha cunhada vai me buscar no meu apartamento amanhã cedo. — Andrea comunicou após algumas horas na cama.

— Tudo bem.

— Preciso ir agora, mas quero um beijo de despedida.

Leila lhe beijou, depois tomou seu rosto entre as mãos carinhosamente, lançando um olhar carente.

— É isso que você quer, Andy?

Ela não respondeu.

— Tem certeza que quer esse casamento? Aí no fundo do seu coração, você tem certeza?

— Não. Mas sei que é o certo.

— Me diga que não sentiu nada nesses dias.

Andrea desviou o olhar.

— Não posso falar isso…

— Andy. Olhe pra mim.

Ela obedeceu.

— Se mudar de ideia, estarei te esperando naquela estrada atrás da igreja. Vou te esperar até as seis, estarei de moto, com um capacete extra.

— Não me faça essa proposta…

— Você entendeu? Estarei esperando até às seis. Se você não aparecer até às seis vou embora te desejando o melhor casamento do mundo, e que você encontre a felicidade com o Marcos.

***

Andrea parou sua moto na estrada quase deserta às cinco, o horário marcado para o início da cerimônia religiosa. Aguardou com notável ansiedade por longos sessenta minutos.

4ª Semana

 

O edredom caído da cama. Roupas atiradas da cama. Em cima dela, lençóis sendo bagunçados e Andrea perto do ápice do gozo, recebendo um vigoroso sexo oral de Leila. Apertou com força os ombros da mulher que lhe provocava aquela sensação estrondosa, deixando as marcas das unhas em sua pele.

Leila subiu de mansinho e compartilhou o gosto do orgasmo com a boca que aguardava um beijo. E beijaram-se até o fôlego de Andrea voltar ao normal. Recebia ainda beijos demorados no pescoço enquanto consultava as horas no celular ao lado. Deu um longo beijo na testa da loira e levantou da cama.

Andrea juntava as roupas pelo chão enquanto Leila a observava, já enrolada no lençol branco.

— Fica mais um pouco.

— Não dá, Marcos chega do futebol dentro de meia hora, e ainda tenho que fazer janta pra ele. — Ia dizendo enquanto se vestia.

— Você chegou mais tarde hoje. — Leila dizia com tristeza.

— Eu sei, desculpa, fiquei presa no trabalho, você sabe como é. Você viu minha aliança?

— Não tá aqui no criado mudo?

— Não. — Respondeu procurando naquele local pela segunda vez.

— Quando tirou você colocou onde?

— Não sei, não lembro de ter tirado.

— O que??

— Acho que tirei, mas não sei onde está. Leila, me ajude, não posso chegar em casa sem aliança.

— Deve ter caído aí do lado, dê uma olhada, ou atrás.

— Não está, procure aí com você.

— Você não está insinuando que ela… Andrea, você está dizendo que sua aliança pode ter ficado dentro de mim?

— Talvez, dê uma olhada, eu já estou atrasada!

— Isso é um…

— Achei! — Disse já colocando o anel no dedo anelar. — Te vejo quarta que vem, te mando mensagem depois que Marcos dormir.

— Hey, espere. — Leila se ajeitou na cama. — Isso não está mais dando certo pra mim, estou cansando disso.

— Mas estamos conseguindo nos ver uma vez por semana, talvez Marcos comece a jogar futebol também aos sábados pela manhã, teríamos mais umas horinhas na semana, não seria bom?

Leila estava visivelmente magoada com a situação, voltou a falar com a voz embargada.

— Não, não é bom. Não estou feliz com isso, não percebe? Já são seis meses que tenho você duas horas por semana, e eu gosto de você, gosto de verdade, eu quero mais, Andy, eu cansei disso.

— Desculpe, é o máximo que posso te oferecer, Marcos é ciumento, ele está sempre perguntando para onde vou… Não tenho como te ver em outros horários.

— Eu serei para sempre sua amante? Ou nem isso eu sou? Tenho clientes que passam mais tempo comigo do que você. — Indagou a loira.

— Então case com um cliente! — Consultou o celular. — Estou mais do que atrasada, depois conversamos, tá bom? A gente se ajeita.

— Andrea, escute. Se você deixar seu marido eu deixo de me prostituir.

— E?

— E poderemos ter algo de verdade.

Andrea riu.

— Você ficou maluca.

Aquela resposta debochada trouxe um sentimento de humilhação, as lágrimas finalmente surgiram.

— Fiquei. Não precisa vir na quarta que vem. Nem nas outras quartas.

— É isso que você quer? — Andrea perguntou também de olhos molhados.

— É sim.

***

Leila já estava há três semanas trancafiada em seu chalé, isolou-se por vontade própria e a única coisa que a tirava da inércia era o vídeo game. Não houve mais mensagens nem ligações de Andrea. Andava recebendo cada vez mais ligações de seus pais.

— Mãe, o carro de vocês não tem nem um ano, pra que trocar de novo?

— Seu pai não se adaptou a esse, disse que é ruim de dirigir, você sabe que ele tem artrose, precisa de um carro bom. Filha, já pagou as contas que te mandei ontem? Você ficou de depositar nosso dinheirinho hoje, não esqueceu, não né? Tenho que pagar a conta do pet shop hoje.

Leila suspirou esfregando a testa antes de responder, havia esquecido de depositar a “mesada” de seus pais e pagar algumas contas deles.

— Eu sei.

— Como vai arranjar dinheiro isolada aí no meio do mato? Você tem que trabalhar, as contas não param de chegar, minha filha, larga esse vídeo game e vá trabalhar.

As contas realmente continuavam chegando, e a maioria era de seus pais. Reuniu ânimo e voltou para a cidade, já tinha um programa agendado para aquela noite.

Quando entrou no carro do cliente percebeu que já havia um homem no banco de trás.

— Se importa se meu amigo participar também? Posso pagar um pouco mais.

Leila odiava esses programas duplos, mas não podia fazer desfeita com seu cafetão depois de três semanas sem dar lucro.

Naquela semana acabou fazendo mais programas que o normal, precisava enviar o dinheiro para a troca do carro do pai, por isso aceitou trabalhar todos os dias, sem se dar um descanso. Seu coração continuava quebrado e doendo, mas precisava engolir toda aquela melancolia e continuar no exercício de seu sórdido ofício.

Emendou mais uma semana de trabalho, parecia que sua alma se diminuía com o passar dos dias, sentia falta de Andrea e se odiava por isso. Aquela noite estava sendo a mais difícil de todas após o desfecho infeliz: aguardava seu cliente sentada naquele mesmo bar onde conhecera Andrea. Pediu uma dose dupla de Whisky para tentar abrandar a mágoa que a fazia querer chorar naquele balcão.

Um esbarrão na perna, e lá estava a visão de Andrea ao seu lado, com um sorriso tímido e um par de olhos vivos sobre ela.

— O que você está fazendo aqui? — Leila perguntou em confusão.

— Eu gosto desse bar.

— Eu odeio.

— É, eu também odiava. Mas passei a gostar porque foi onde te conheci.

— Sério, Andrea, o que você veio fazer aqui?

— Você marcou comigo aqui às nove.

— Ficou maluca?

— Sou sua cliente das nove.

Leila paralisou, não sabia se era alguma brincadeira de mau gosto.

— Dei um nome falso, obviamente. — Andrea completou.

— Por que fez isso? Por que marcou um programa comigo? Para zombar de mim? Saiba que não vou aceitar fazer.

Andrea pousou a mão sobre a mão dela, que estava sobre o balcão.

— Aquela proposta ainda está de pé?

— Por que?

— Apenas me responda.

— Você nunca vai largar seu marido.

— Me responda.

— Está.

— Então é bom cumprir a sua parte, porque me separei dele semana passada.

— Você o deixou?

— Deixei, estou morando com meus pais. Acabou.

Leila relaxava pela primeira vez, abriu um sorrisinho contido.

— E se eu cumprir minha parte do acordo?

— Eu quero ficar com você, querida. De verdade. Fazer as coisas que casais fazem, prometo tentar ser uma boa namorada.

Largou o copo e virou-se totalmente para Andrea.

— Então estou oficialmente aposentada dessa profissão.

— Sério?

— Vou arranjar outro emprego, prometo.

— Tem mais uma coisa que quero te pedir, que faz muito tempo que venho sonhando com isso.

***

Leila entrou no quarto do chalé com duas canecas fumegantes, sua agora namorada dormia ainda nua e a contemplou por algum tempo, os cabelos espalhados pelo travesseiro, a janela aberta deixando aquele cheirinho de manhã entrar. Já havia amanhecido e mal podia acreditar na mudança radical que sua vida havia sofrido, o sorriso de felicidade era quase permanente. A acordou correndo beijos quentes pelas costas, depois ganhou um beijo demorado de bom dia.

— Que bom ser acordada assim, nessa cama, por você…

— Não era só você que vinha sonhando com isso, amor. Bem-vinda de volta, fiz café.

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comentários

One thought on “Conto escrito para o desafio do Lettera

  1. Oie Amiga,
    Simplemente você brocou!! Ia deixar pra amanha, mas decidi ler algo e acabei lendo tudo de tão bom! Muito gostosa de ler e diferente, achei até que fosse outra pessoa. O estilo de escrita e as palavras me parecem distintas, mas sempre é tempo de viajar por novos horizontes, amei !!!
    Leila é “uma grande mulher”! E tem “1,80”, melhor ainda!Hahaha. Mulher de personalidade forte, maravilhosa!!
    Pensei que Andreia n fosse casar, errei!
    E dps fiquei na dúvida com o que você faria com elas. Pensei na possibilidade de você não deixar elas juntas. Mas seria muita sacanagem com as leitoras, iam te matar e coitada de Leila tb. Merecia um amor!!!
    Finalmente Andreia deixou Marcus e foi atrás de Leila. Leila fez certo!! Andreia estava acomodada!!Precisava de um empurrão!! No final Andreia mandou bem!
    Bela estória, Schwinden!!!!
    Estou sem ler MT, mas suas palavras sempre serão lidas por meu coração através dos meus olhos pq vc é uma amiga da zorra!!!!
    Beijão

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