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10 regras para escrever ficção by Sarah Waters

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Quem me conhece um pouquinho mais a fundo sabe o quão sou apaixonada pela escritora inglesa Sarah Waters, é nela que eu miro quando escrevo.

O primeiro livro dela que li foi “The Night Watch” (“Ronda Noturna” no Brasil), a história de quatro personagens que se cruzam de alguma forma, no final da segunda guerra em Londres, e também no pós-guerra. Um livro sisudo, cortante, com um olhar angustiado da vida comum, sem heróis e sem glamour. Eu particularmente me apaixonei por ela aí, neste livro, tanto que assim que terminei a leitura comecei a ler de novo (até porque ele é dividido em três partes cronologicamente invertidas).

“She could have closed her eyes and, with a fingertip, touched the exact small
point on her breast at which the thread ran delicately into her heart and tugged at it.”

 

Depois li “Fingersmith” (“Na Ponta dos Dedos” no Brasil), e foi aí que a paixão se consolidou em amor, porque o livro é simplesmente genial. Os plot twists te fazem fechar o livro por alguns minutos e ficar de queixo caído assimilando o que você acabou de ler, incrédulo. A narrativa está um pouco diferente, mais romanceado. Sem tentar soar piegas mas já soando, há mais amor nesta obra.

“I had kissed her. I had lain upon her. I had touched her with a sliding hand. I had called her a pearl. She had been kinder to me than anyone save Mrs Sucksby; and she had made me love her, when I meant only to ruin her. She was about to be married, and was frightened to death. And soon no-one would love her, ever again.”

E agora estou lendo “Tipping the Velvet” (“Toque de Veludo” no Brasil), cheguei a metade e acredito que já posso dizer que é tão fabuloso quanto os dois previamente lidos, mas não os superam.

Para finalizar, Sarah Waters nos presenteou com 10 dicas para escritores novatos como eu:

1. Leia feito louco. Mas tente fazer isso analiticamente – o que pode ser difícil, porque, quanto melhor e mais convincente um romance é, menos consciente você estará de seus artifícios. Vale a pena tentar descobrir esses estratagemas, no entanto: eles podem vir a ser úteis em seu trabalho. Eu acho ver filmes instrutivo também. Quase todo arrasa-quarteirão moderno de Hollywood é desesperadoramente longo e desleixado. Tentar visualizar os filmes muito melhores que eles teriam sido com alguns poucos cortes radicais é um ótimo exercício na arte de contar histórias. O que me leva a…

2. Corte feito louco. Menos é mais. Muitas vezes, eu li manuscritos – incluindo os meus – onde eu cheguei ao início do, digamos, capítulo dois, e pensei: “Aqui é onde o romance deve de fato começar.” Uma enorme quantidade de informações sobre personagens e história de fundo pode ser transmitida através de pequenos detalhes. O apego emocional que você sente em uma cena ou um capítulo irá desaparecer à medida que você passar para outras histórias. Seja objetivo em relação a isso. Na verdade…

3. Trate a escrita como um trabalho. Seja disciplinado. Muitos escritores ficam um pouco obsessivos-compulsivos quanto a isso. Graham Greene famosamente escrevia 500 palavras por dia. Jean Plaidy conseguia 5.000 antes do almoço, e então passava a tarde respondendo cartas de fãs. O meu mínimo é de 1.000 palavras por dia – o que às vezes é fácil de conseguir, e é, por vezes, francamente, como cagar um tijolo, mas eu me obrigo a ficar em minha mesa até chegar lá, porque eu sei que fazendo isso eu estou avançando o livro para a frente. Aquelas mil palavras poderão muito bem ser lixo – muitas vezes elas são. Mas daí, é sempre mais fácil voltar às palavras-lixo em uma data posterior e torná-las melhores.

4. Escrever ficção não é “auto-expressão” ou “terapia”. Romances são para os leitores, e escrevê-los significa uma construção habilidosa, paciente, e altruísta dos efeitos. Eu penso em meus romances como sendo algo como parques de diversão: o meu trabalho é prender o leitor em seu carro no início do capítulo um, então fazê-los girar e correr através de cenas e surpresas, em uma rota cuidadosamente planejada, e a um ritmo finamente engendrado.

5. Respeite os seus personagens, mesmo os menores. Na arte, como na vida, todo mundo é o herói de sua própria história particular; vale a pena pensar sobre quais são as histórias de seus personagens secundários, mesmo que elas possam se cruzar apenas ligeiramente com a do seu protagonista. Ao mesmo tempo…

6. Não entulhe a narrativa. Personagens devem ser individualizados, mas funcionais – como figuras de uma pintura. Pense no Cristo Zombado, de Hieronymus Bosch, no qual um Jesus pacientemente sofredor está cercado de perto por quatro homens ameaçadores. Cada um dos personagens é único, e também cada um representa um tipo; e, coletivamente, eles formam uma narrativa que é tanto mais poderosa por ser tão firmemente e tão economicamente construída. Sobre um tema semelhante…

7. Não escreva em excesso. Evite as frases redundantes, os adjetivos que distraem, os advérbios desnecessários. Iniciantes, especialmente, parecem pensar que a ficção escrita precisa de um tipo especial de prosa florida, completamente diferente de qualquer outro tipo de linguagem que pode-se encontrar no dia-a-dia. Este é um equívoco sobre como os efeitos da ficção são produzidos, e pode ser dissipado ao se obedecer a Regra 1. Ler alguns dos trabalhos de Colm Tóibín ou Cormac McCarthy, por exemplo, é descobrir como um vocabulário deliberadamente limitado pode produzir um surpreendente ímpeto emocional.

8. Ritmo é crucial. Escrita refinada não é suficiente. Alunos de escrita podem ser ótimos em produzir uma única página de prosa bem-elaborada; o que às vezes lhes falta é a capacidade de levar o leitor em uma viagem, com todas as mudanças de terreno, velocidade e humor que envolvem uma longa jornada. Mais uma vez, eu acho que assistir filmes pode ajudar. A maioria dos romances vai querer se aproximar, se demorar, voltar, avançar, de formas muito cinematográficas.

9. Não entre em pânico. Na metade da escrita de um romance, eu tenho regularmente experimentado momentos de terror de gelar o intestino, conforme eu contemplo o lixo na tela diante de mim e vejo além dela, em rápida sucessão, as críticas ridicularizantes, a vergonha dos amigos, a carreira fracassada, a renda cada vez menor, a casa confiscada, o divórcio… Trabalhar obstinadamente no meio de crises como essas, no entanto, sempre me levou até lá, no final. Deixar a mesa por um tempo pode ajudar. Falar do problema em detalhes pode me ajudar a lembrar o que eu estava tentando alcançar antes de ter empacado. Ir para uma longa caminhada quase sempre me faz pensar sobre o meu manuscrito de uma forma ligeiramente nova. E, se tudo mais falhar, há a oração. São Francisco de Sales, o santo padroeiro dos escritores, muitas vezes me ajudou a sair de uma crise. Se você quiser espalhar a sua rede de forma mais ampla, pode tentar apelar para Calíope, a musa da poesia épica, também.

10. O talento trunfa sobre tudo. Se você é realmente um ótimo escritor, nenhuma dessas regras se aplica. Se James Baldwin tivesse sentido a necessidade de agitar um pouco o ritmo, ele poderia nunca ter alcançado a intensidade lírica prolongada de Giovanni. Sem a prosa “excessivamente escrita”, não teríamos nada da exuberância linguística de um Dickens ou uma Angela Carter. Se todos fossem econômicos com seus personagens, não haveria um Wolf Hall… Para o resto de nós, no entanto, as regras continuam importantes. E, fundamentalmente, só ao entender para o que elas são e como funcionam que você pode começar a experimentar em quebrá-las.

Fonte: http://dicasderoteiro.com/2011/09/14/dez-regras-para-escrever-ficcao-sarah-waters/

Original: http://www.theguardian.com/books/2010/feb/20/10-rules-for-writing-fiction-part-two

Published: janeiro 8, 2014 | Comments: 1