A lince e a raposa – completo – 2

        Capítulo 24 – Susan. Ou Codornas.

 

“Não sabia que tinha sido tão ruim assim.”

“Entre Becca. Mas não fiz almoço.”

Jennifer abriu a porta de seu apartamento apenas de regata e calcinha, com os olhos ainda vermelhos depois uma péssima noite de pouco sono.

“Então a coisa foi séria.”

“De sério não teve nada, foi só ridículo e absurdo mesmo.” Falou se jogando no sofá, ligando a TV.

“Vocês já haviam brigado dessa forma?”

“Não, ontem foi especial, ela caprichou.” Falava com sarcasmo e sem o menor ânimo.

“Você está bem?” Becca sentou-se no outro sofá, olhando preocupada.

“Juntando meus cacos. Mas vou sobreviver.”

“Ela sabe que Susan chega quarta-feira?”

“Sabe sim.”

“Então com certeza ela irá te procurar para fazer as pazes na terça.”

“Becca, já era.”

“Vocês terminaram?”

“Ela eu não sei, mas de minha parte, não quero mais nem saber.”

“Mas o que aconteceu?”

“Sinceramente eu ainda não entendi. Ela começou a me acusar de umas coisas sem o menor sentido, a impressão que eu tive é que ela estava guardando essas coisas já há algum tempo, e ontem resolveu vomitar tudo.”

“E você realmente aprontou algo? Você ficou com a ruiva semana passada?”

“Não! Eu nem sei o nome daquela ruiva. Becca eu juro, desde que começamos a namorar eu só tenho olhos para ela, foi injusto o que ela fez.”

“Te acusou de coisas sem fundamento então, que ela criou na cabeça louca dela?”

Jennifer balançou a cabeça incomodada.

“Até Helen ela colocou na conversa.”

“Ela sabe sobre Helen?”

“Sabe, quer dizer, só sabe o básico do básico, provavelmente só sabe que existiu uma Helen na minha vida, e que ela é híbrida também.”

“Como ela soube?”

“Sei lá, deve ter ouvido fragmentos de conversas por aí, ou alguém falou alguma merda para ela.”

“Eu nunca falei nada para ela.”

“Acho que Bob também não comentaria… Ah quer saber? Foda-se. Ela que arranje uma cara bem filho da puta, que sacaneie com ela de verdade, daí sim vai ter motivos para reclamar.”

“Vocês pareciam estar se dando bem… É uma pena.”

“Na verdade sabe de quem é a culpa disso tudo? É minha. Conhece a história das codornas?”

“Não.” Becca respondeu intrigada.

“Era uma vez duas amigas que viviam felizes, Mary e Clementine. Até que um dia Mary resolveu criar expectativas e Clementine resolveu criar codornas. Um tempo depois Mary não tinha nada, e Clementine tinha ovos de codorna. Moral da história: eu deveria ter criado codornas e não expectativas.”

Becca riu.

“Talvez devêssemos ir até a agropecuária amanhã…” Respondeu.

 

Na terça-feira, no finzinho da tarde Jennifer estava trabalhando, ou tentando trabalhar, em seu mini escritório no porto, sem muita concentração. Assustou-se com as batidas no aço da parede. Apenas virou-se na direção da porta, e não falou nada.

“Você não mencionou nada sobre esquecer onde você trabalha.” Anna tentou brincar.

Jennifer não sorriu, largou a caneta na mesa e foi até ela, que deu alguns passos para trás, Jennifer parou na porta.

“O que você quer aqui?” Perguntou séria.

“Pensei em termos uma conversa um pouco mais tranquila. Podemos ir no cantinho da reflexão?”

Jennifer a fitou por um momento, pela primeira vez não sentia uma onda de excitação quando viu Anna, aquela aceleração comum no coração, sentiu-se apenas triste. Vê-la novamente fez repassar novamente um pouco daquela noite no terraço do pub, era impossível a olhar e não lembrar das palavras mordazes que havia proferido, e que a magoaram tanto. Jennifer estava machucada, só não sabia se estava mortalmente ferida.

“Honestamente? Não.”

Anna baixou a cabeça, procurando as palavras.

“Então vamos à minha casa, te levo em casa depois. Só quero a chance de conversar um pouco. Acho que merecemos isto.”

Era tão difícil dizer não à Anna, negar algo para aqueles olhos que falavam por si só. Pensou um pouco.

“Tudo bem…”

Anna animou-se, e foram até a moto, e de lá até a casa dela.

“Quer beber algo?” Anna perguntou enquanto entravam em sua casa.

Jennifer apenas lançou um olhar fulminante.

“Ok, sente-se, fique à vontade.” Anna continuou, e sentou-se no sofá ao lado.

“Machucou numa missão?” Jennifer se referia a mão enfaixada de Anna, que estava pousada no descanso do sofá.

Anna olhou para a mão, e respondeu um instante depois.

“Não… acidente doméstico.”

“Quer que eu… nada, esquece…”

“Jennifer… Eu sei que você está chateada comigo, e acho que você tem razão para isso, tem toda razão, eu… nos últimos dias andei pensando bastante no que aconteceu, e talvez eu tenha tido uma reação exagerada, definitivamente não foi a melhor forma de abordar aqueles assuntos, eu simplesmente explodi.” Mantinha as mãos cruzadas.

Jennifer apenas a ouviu, sem esboçar maiores reações.

“Que bom que você andou pensando no que aconteceu, é um bom começo.” Respondeu com ironia.

“Eu quero pedir desculpas, e faço isso com toda sinceridade. Eu realmente não deveria ter falado aquelas coisas, sinto muito.”

Jennifer continuava sentada não muito à vontade.

“Eu estou propondo passar uma borracha naquela noite, e que as coisas voltem ao normal, sem mágoas.” Continuou.

Ela não podia acreditar na frieza quase cirúrgica com que Anna estava lidando com a situação.

Anna se inclinou para frente, na direção dela. Gesticulava devagar, parecia desconfortável.

“Eu não quero saber se Helen realmente morreu, não quero saber sobre suas ex-namoradas, nem com quem você flerta atualmente…”

Jennifer a interrompeu, estarrecida.

“’Se’ ela morreu?” – Falou com ênfase no ‘se’. “Você continua não acreditando em mim??”

“Não me importa, já disse. Eu quero somente focar em nós.”

Jennifer vestiu seu melhor sorriso sarcástico, deslizou no sofá e se aproximou de Anna.

“Anna… Não existe mais ‘nós’. Quer um conselho? Foque em você, foque no seu crescimento pessoal.”

“Por que você está reagindo desta forma? Você se magoou tanto assim?”

“Veja bem, a minha cota de mágoa de você chegou aqui, está vendo?” – Apontou para o alto da cabeça. “Já chegou ao limite, já estourou inclusive, e qualquer coisa que você fale agora eu nem tenho como absorver porque não cabe mais nem uma gota de mágoa de você dentro de mim!”

“O que você quer que eu faça?”

Jennifer sustentou um olhar triste.

“Que me esqueça…”

“Então é assim? É assim que termina?”

“Não, não é assim que termina. Já terminou no sábado. Quando desci aquelas escadas eu já estava começando a esquecer você.”

Anna balançou a cabeça para os lados, incomodada.

“Você está sendo intransigente…”

“Não precisa mudar nada na sua vida por minha causa, se quiser continuar frequentando o pub, ou falando com Bob, Becca… fique à vontade.”

“Finalmente conheci seu lado frio?” Anna sentia como se tivesse chamas em seu estômago, a queimando de dentro para fora.

“Você pode me deixar em casa?” Jennifer falou já com uma voz mais atenuada.

“Claro.” Respondeu levantando-se.

Aquela deve ter sido a pior viagem que Jennifer havia feito, da casa de Anna até sua casa parecia ter levado uma semana. A noite já começava a cair.

Anna parou em frente ao prédio, desligou a moto e tirou o capacete. Jennifer logo desceu da moto e tirou o capacete, olhou por um instante para ele em suas mãos, um capacete preto brilhante, olhou para o adesivo do Bob Esponja que havia colado meses atrás. Sentia como se tivesse engolido um grande nó quadrado, um cubo mágico entalado na garganta.

“Fique, ele é seu.” Anna falou e desceu da moto.

Jennifer a olhou e voltou a se aproximar.

“Não, ele nunca foi meu.” Prendeu-o na parte de trás da moto.

Anna acompanhou o movimento, tentando conter uma espécie de desespero, algo que nunca havia sentido antes, estava aterrorizada com a possibilidade, agora certeza, de não ter mais Jennifer. Se olharam, ambas tinham os olhos marejados.

“Você disse que me amava… e agora como pode me odiar tanto?” Anna questionou, com uma voz que carregava todo o pranto que lutava para manter dentro de si.

“Mas eu não te odeio.”

“Não faça isso comigo… Dê uma chance para nós…” Tentava.

Jennifer a olhou mais um pouco, lançou um pequeno sorriso pesaroso.

“Te cuida.” Murmurou. E entrou em seu prédio.

 

“Eu não vou chorar, eu não vou chorar.” Jennifer repetia para si mesma enquanto entrava em seu apartamento. Jogou a jaqueta no sofá e seguiu para o banheiro, parando em frente ao espelho.

“Eu não posso chorar…”

Se aproximou, observou seu rosto, com as mãos apoiadas nas bordas da pia branca. Sentia-se cansada e o cansaço era visível em suas feições. Noites em claro estavam se tornando uma constante. Fitava seus próprios olhos, como se negando-lhes o direito de chorarem.

Se afastou um pouco, usava uma blusinha branca, com as mangas curtas. Pela primeira vez percebeu dois pequenos hematomas esverdeados no alto do seu braço. Respirava com força agora, como se tentando se livrar de algo que subia em sua garganta.

Batidas na porta a despertaram, correu para abrir. Era Becca.

“Tá tudo bem?” Perguntou assustada ao ver a expressão transtornada de Jennifer.

Jennifer não respondeu, apenas desabou a abraçando, e começou a chorar como se não houvesse amanhã. Becca a abraçou carinhosamente, deslizando as mãos em suas costas.

“Venha…” Becca a conduziu para o quarto, com as duas mãos em seus ombros. Jennifer olhou para trás e fechou a porta.

“Santo Cristo! Essa sua casa é mal assombrada!”

Jennifer deitou-se de bruços, Becca sentou-se recostada na cabeceira e colocou a cabeça de sua amiga sobre suas pernas.

“Ainda bem que você está aqui…” Jennifer falou entre soluços.

“Eu vi Anna saindo de moto quando estava chegando, sabia que você ia precisar de um colo.”

“Acabou Becca… Agora acabou.”

“Pensei que já houvesse terminado.”

“Mas só agora me dei conta que terminar o namoro implica em não tê-la mais…”

“É… São as regras.” Fazia cafuné em seus cabelos.

“Mas dói tanto…”

“Por que não conversaram?”

“Nós conversamos.”

“E por que não fizeram as pazes?”

“Por que ela é uma filha da…”

“Ok, eu entendi. Ela não colaborou muito, não foi?”

“Becca, ela parecia um advogado defendendo seu cliente de uma multa de trânsito!”

“Ela não é muito expressiva…”

“Eu me senti um lixo. Um vaso que ela quebrou e agora está colando umas fitas adesivas, só pra ter o vaso de volta, não importando como.”

“Você tá se sentindo uma ‘coisa’ dela…”

“Uma ‘coisa’ quebrada. Agora eu sei o que significo para ela… Como pude me enganar tanto…”

“Só não se culpe.”

Jennifer se virou, olhando para Becca.

“E o que eu faço com essa coisa gigante que eu sinto por ela? Eu amo tanto aquela filha da… mãe.”

“Transforme em amor próprio.”

Jennifer deu uma risada abafada.

“Simples.”

“Você acha que Anna te ama?” Becca perguntou com uma voz tenra.

Jennifer pensou por um instante, com um ar hesitante.

“Acho que não…”

“Bom, então bola pra frente… tente ocupar sua mente… Preparada para receber suas primas e Susan amanhã?”

Jennifer fechou os olhos.

“Me mate por favor…”

Becca a olhava, pensativa.

“Eu acertei minha previsão.”

“Qual?”

“Que Anna te procuraria na terça.”

Jennifer sorriu maldosamente.

“Eu deveria ter falado para Anna que ia colocar Susan para dormir na minha cama, por falta de colchões extras…”

“E eu queria ver a cara dela…”

 

Era estranho ver suas duas primas, Carly e Amanda dentro do seu apartamento, mas era ainda mais estranho ver Susan ali.

“Meninas, eu nem preciso falar né? Fiquem a vontade, joguem suas coisas por aí, e se derem sorte podem até achar comida na geladeira.” Jennifer falou largando duas pesadas bolsas na sala.

Carly, de dezoito, e Amanda de dezesseis, eram duas bonitas adolescentes com longos cabelos lisos castanhos quase claros, diferiam principalmente pelos olhos azuis de Amanda, e o temperamento mais genioso de Carly. E Susan apesar dos seus tenros dezoitos anos, parecia já menos adolescente que suas amigas, tinha os cabelos loiros e cacheados, na altura dos ombros, um pequeno nariz bem formado e covinhas que surgiam quando sorria, o que fazia com frequência.

“Relaxa prima, a gente se vira.”

Foi até a porta do seu quarto e apontou com a mão.

“E esse será o quarto de vocês nos próximos dias. Se a cama for pequena para vocês três, já providenciei um colchão, está embaixo da cama.”

“E você?”

“Vou ficar com o sofá.”

“Não é justo.”

“Já dormi centenas de vezes nesse sofá… E por vontade própria.”

“Então te expulsamos da sua cama.”

“Tudo bem, estou feliz em ter vocês aqui garotas.” – Falou sorrindo para elas. “Querem descansar?”

Se entreolharam e Carly respondeu.

“Na verdade essa é a última coisa que queremos fazer por aqui.”

“Ótimo, vou levar vocês para jantarem então. No carro em trinta minutos?”

“Quinze!”

 

No dia seguinte, após uma tarde rodando por pontos talvez não muito turísticos da cidade, subiam as escadas do prédio de Jennifer.

“Você já tinha esse carro Jenny?” Carly a questionou, entravam no apartamento.

“Não, e sintam-se lisonjeadas. Comprei principalmente para passear com vocês.”

“Ah que legal!”

“Imagina, como levaria vocês no zoológico ou no parquinho?”

Todas riram.

“Não precisava ter gasto essa grana toda.”

“Que nada, esse carro é da idade da Amanda, saiu bem menos do que imaginam.”

Jennifer se atirou no sofá e ligou a TV.

“E aí, querem pedir pizza?”

“Na verdade estávamos pensando em sair… tipo, sair de verdade hoje.” Susan falou, recebendo olhares corroborativos das outras duas.

Jennifer inclinou a cabeça para trás.

“Tipo, algum bar, ou algo assim?”

“É, onde vocês costumam ir?”

“Bom, numa quinta-feira, tem um pub que frequentamos, hoje abre, mas não sei se a Amanda vai poder entrar, por causa da idade.”

“Podemos tentar, não podemos?” Carly falou, sentada no braço do sofá.

“Só se vocês prometerem se comportar.”

“Claro!”

Vibraram entre elas.

“Saímos lá pelas dez, tá bom? Me deixem esticar as pernas aqui no sofá um pouco.”

Jennifer estava se sentindo mais à vontade e até se divertindo com as três garotas como companhia. Susan não havia tocado no assunto do caso que tiveram em Montreal e estava apenas sendo uma amiga de suas primas, uma companhia divertida e agradável.

Estava se esforçando para não pensar muito em Anna nem transparecer para as meninas o quanto estava devastada por dentro, mas nem sempre com sucesso, elas já haviam perguntado algumas vezes se estava tudo bem.

As dez partiram para o pub de Oscar, e depois de um pouco de conversa com ele, Amanda pode entrar, com a condição de ficar só até meia-noite. O local não estava muito cheio e ficaram próximo ao palco, onde uma banda de pop/rock se apresentava. Susan e Carly voltaram do bar com três canecos, e entregaram um para Jennifer.

“Passo.”

“Não está bebendo?”

“Hoje não, estou de babá.” Riu.

“Ah que besteira!”

“Só não deem esse caneco para Amanda, ela vai ficar no refrigerante hoje também.”

A noite transcorreu de certa forma triste para Jennifer, estar ali no pub não era exatamente o melhor lugar para se curar das feridas do relacionamento recém terminado.

“Seus amigos não costumam vir aqui as quintas?” Carly perguntou.

“Raramente. É difícil trabalhar de ressaca no dia seguinte.”

“Podemos marcar com eles amanhã então.”

“Vocês querem vir aqui amanhã de novo?”

“Eu gostei.” Susan respondeu.

“Eu também quero.” Falou Amanda.

“Vou pensar no teu caso garotinha. Então vou chamar o pessoal sim, pode deixar.”

“Anna também?” Susan perguntou.

Jennifer sentiu um estremecer por dentro.

“Vou convidar todo mundo.” Desconversou, com uma expressão séria.

E Jennifer não sorriu no restante da noite.

“Crianças, já passa da meia-noite, é hora de pagarmos a conta e pegarmos o rumo de casa.”

Ela viu as feições decepcionadas de todas e continuou.

“Amanhã tem mais.”

Seguiram para a saída e Jennifer estava no caixa na antessala esperando a atendente somar as comandas.

“Jenny vamos esperar lá fora, ok?”

“Beleza.”

Saiu guardando o troco, sentiu aquele ar frio contrastando com o abafado do interior, fechou o casaco e olhou rapidamente ao redor, então as viu ao lado do carro, no final da calçada. Caminhou na direção delas e percebeu que estavam acompanhadas, um homem conversava com elas. Jennifer o ignorou e foi logo para a porta do motorista.

“Vamos meninas, vamos entrando no carro.”

O homem, talvez um frequentador do pub, mas que aparentava estar um pouco alterado, tinha um porte atlético e um ar presunçoso. Quando ouviu as palavras de Jennifer a impediu de abrir o carro, se colocando entre ela e a porta.

“Estou conversando com elas, não está vendo?” Ele falou.

Jennifer olhou um pouco surpresa, nada respondeu, e sem muita paciência o empurrou para o lado, colocando em seguida a chave na fechadura. Mas ele interrompeu o movimento, e segurou seu braço. Jennifer olhou arregalada para ele.

“Solte minha prima!” Amanda se manifestou, assustada.

Jennifer puxou o braço com raiva, se soltando.

“Por que você não vai chutar umas bolas por aí, ao invés de importunar garotinhas?” Jennifer falou sem se alterar, não era um bom dia para irritá-la.

“Por que eu decidi ficar aqui conversando com vocês, e daqui vocês não saem.”

“Olha, sério, é melhor você se arrancar daqui. Tipo, agora mesmo.” Jennifer começava a se exaltar.

“Senão o quê? Você vai buscar seu namoradinho nerd para me bater?”

Jennifer deu um passo para trás e desferiu um chute entre as pernas dele, que se curvou com as mãos em cima do local atingindo. Ela fechou os punhos, deu um murro com a mão direita no seu rosto, e em seguida um gancho mais forte com a esquerda, o derrubando no chão.

O olhou com olhos brilhantes de ira, e falou.

“Não, ‘eu’ vou te bater, seu desgraçado.”

Sacudiu as mãos no ar, com dor por causa dos socos desferidos, e então abriu a porta. As garotas olhavam estarrecidas.

“Vamos pessoal, o show acabou.”

Susan sentou-se ao seu lado, e logo seguiram para casa, Jennifer estava séria.

“Você é canhota?” Susan rompeu o silêncio.

“O quê? Ah, não.” – Sorriu de lado. “Mas me ensinaram uns truques com a mão esquerda.”

Naquela noite não houve muita conversa, foram logo dormir, sem questionar o que haviam presenciado. No dia seguinte, conforme prometido, Jennifer às levou novamente ao pub, desta vez Becca e companhia também foram.

As meninas dançaram, se divertiram e pareciam estar aproveitando as férias com sua prima mais velha. Jennifer, encostada com o ombro numa pilastra e segurando um copo de refrigerante já na temperatura ambiente, as observava.

Estava aliviada por estar sendo uma boa anfitriã, e era bom ter as garotas ocupando seu tempo. Mas naqueles momentos em que ficava sozinha consigo mesma, esses eram os piores. Achava que com o passar dos dias seu coração iria descansar, mas parecia cada dia mais indomado. Às vezes tinha vontade de sair no meio da noite e correr para a casa de Anna, como fez na noite de ano novo. Mas como num flashback de um filme, aquela conversa no terraço surgia, as palavras dançando ao seu redor, e a vontade era preenchida por desapontamento.

Susan se aproximou, ficando ao seu lado, também olhando para a pista, com seu chope na mão.

“Você está fazendo falta nessa pista, é o estilo musical que não está agradando?”

Jennifer deu uma olhadela e sorriu.

“Daqui a pouco.”

“Sabe, achei legal você me receber assim na sua casa, sendo tão hospitaleira e tal.”

“Não teria porque ser diferente.”

“Não sei… pelo jeito como você foi embora. Achei que… sei lá, eu tivesse feito algo errado.”

“De forma alguma… Sério?” – Olhou para Susan. “Desculpe ter feito você se sentir assim.”

“Então não aconteceu nada?”

“Não, eu só precisava voltar.” Olhava novamente para seu copo.

“Entendi…” Também ficou olhando seu caneco.

“E valeu a pena?” Continuou.

Jennifer deu um sorriso meio irônico, e balançou a cabeça positivamente.

“É… valeu.”

“Por que Anna não veio hoje?”

Antes que Jennifer esboçasse reação suas duas primas a tomaram pela mão e a levaram para a pista.

“Mas eu só danço quando bebo!”

“Então vamos mudar isso hoje!” Falou Carly.

Era quase uma da manhã quando Jennifer chamou todas para irem embora, dessa vez sem percalços no estacionamento.

“Todas para a cama porque amanhã é dia de zoológico.” Jennifer falou ao entrar em casa.

“Ah fala sério!” Amanda reclamou.

“Lógico que não, amanhã vamos num lugar que era ponto de encontro de usuários de drogas, mas hoje em dia tem várias pistas de skate, e skatistas, óbvio.”

“Ae!” Vibraram.

A madrugada corria como um relógio silencioso, Jennifer dormia pesadamente no sofá, quando foi desperta com alguém sentando ao seu lado.

“O que você está fazendo aqui?”

Era Susan.

“Você e Anna terminaram, não terminaram?”

Jennifer acabou acordando completamente, um pouco confusa. Ajeitou-se no sofá, suspirou pesado.

“Sim, terminamos…”

“E pelo visto é recente.”

“É sim, é bem recente.”

Susan a fitava com um olhar quase sofrido.

“Eu não te esqueci Jenny, eu não consegui te esquecer.”

Jennifer levantou-se lentamente, apoiando-se com os cotovelos, ficou sentada frente a frente com Susan.

“Sue o que tivemos em Montreal foi… legal, eu gostei daqueles dias com você…”

Susan a interrompeu, colocando um dedo sobre seus lábios.

“Não, sem os velhos clichês…”

Deslizou seu dedo sobre seu lábio, se aproximou e falou em seu ouvido.

“Não foi apenas diversão foi?           Para mim não foi…”

Correu sua boca na pele de seu pescoço, deixando Jennifer arrepiada, não só no pescoço. Desceu então sua boca até a boca de Jennifer, e a beijou.

Jennifer a correspondeu, numa bagunça de pensamentos e sensações, colocando sua mão na nuca de Susan, mas logo a interrompeu.

“Não posso… Sinto muito.” Falou, olhando incomodada para baixo.

Susan a olhou desolada.

“Por causa de Anna? Você acha que ela já não está te esquecendo? Ou talvez até com outra pessoa?”

Aquilo a incomodou imensamente, mas poderia ser verdade. Jennifer a olhou entristecida.

“Sue você me encontrou no meu pior momento… Você é uma garota adorável, foi incrível o que tivemos, mas eu não consigo… Agora não.”

“Ela não está esperando por você.”

“Eu sei, eu também não irei atrás dela, mas eu estou destruída, eu preciso de um tempo para me reerguer… Eu não sou aquela Jennifer que você conheceu em Montreal, sou apenas uma sombra dela, um fantasma, que está se esforçando para não deixar isso estragar as férias de vocês.”

Susan acariciou seu rosto com um olhar carinhoso. Jennifer a correspondeu.

“É melhor você voltar para o quarto. E tente não me odiar…”

Ela sorriu.

“Impossível odiar você, ma chérie.”

 

Susan não voltou a tocar no assunto nos dias que se seguiram, naquela terça-feira Jennifer as deixou no aeroporto.

“Visitarei vocês em breve, prometo.”

E aqueles seis dias estranhamente incomuns haviam acabado. Quando voltou ao seu apartamento, percebeu o que mais temia.

“Sozinha de novo.” Murmurou para si, enquanto andava pela sala.

Naquele mesmo dia recebeu uma mensagem de Bob no celular.

“Vai ter uma banda bacana sábado no pub, te vejo lá ok?”

“Para estar recebendo convite especial seu, deve ser o U2 em pessoa, ou a banda do seu primo.” Respondeu.

No final de tarde de sexta-feira Anna estava em frente à sua casa, fazendo alguns ajustes em sua moto, quando viu um carro entrando pelo seu portão, logo reconheceu quem dirigia.

“Olá moça, estou atrapalhando?”

“Oi Bob, claro que não, só estou bancando a mecânica aqui.” Falou ficando de pé, limpando as mãos numa flanela, não disfarçava a surpresa da visita.

“Como vão as coisas?”

“Ãhn… tudo em paz. Quer entrar?”

“Não, não, só vim aqui dar um oi e te fazer um convite.”

“Sim?”

“Amanhã nós todos vamos ao pub, bom, isso não é lá muito novidade… mas eu acho que seria legal se você fosse também, sair um pouco…”

“Jennifer vai?”

“Bom, acho que sim, eu também a convidei para reforçar, sabe.”

“Não acho que ela queira me ver.”

“Eu sei… Mas eu acho que pode ser uma boa oportunidade para conversarem, de uma forma mais descontraída. E mesmo que vocês não tenham uma conversa reconciliadora, vai ser legal você curtir um pouco, nós ainda somos seus amigos, vá com a gente.”

“Não sei se é uma boa ideia Bob…”

“O que pode dar errado? Vamos curtir um som e beber um pouco.”

“Eu vou pensar com carinho no seu convite, está bom? É o máximo que posso prometer.”

“Acho que me contento com isso.” Sorriu.

“Obrigada… pela tentativa, pelo convite.”

“Te vejo amanhã então!”

Anna também sorriu.

“Eu te mando uma mensagem amanhã.”

Se recostou na moto e ficou vendo Bob saindo de carro.

“O que pode dar errado?” Era uma pergunta bem perigosa.

 

 

        Capítulo 25 – Laura

 

Jennifer e todo seu grupo estavam reunidos de pé, num dos cantos do pub, conversando e bebendo sem maiores pretensões. A garota ruiva já havia passado por lá e haviam tido uma rápida conversa.

“Essa é a banda bacana que você falou? É a mesma da semana passada, e não é lá essas coisas, eles tem obsessão pela década de setenta.” Jennifer questionou Bob.

“Ah eles são bons, apenas tem um repertório limitado.”

Era a terceira semana de abril e a primavera estava no seu auge, naquela noite o clima estava agradável, Jennifer estava sem casaco, apenas com uma camisa azul clara de botões, com as mangas dobradas até acima do cotovelo, e jeans. Os cabelos presos. Quando não estava conversando com seus amigos, estava olhando cabisbaixa para seu caneco, deslizando o polegar pela borda de vidro, como se procurando pelo ânimo perdido.

“Mas vou embora cedo hoje, tá bom?”

Quando terminou de falar, olhou eventualmente na direção da entrada e rapidamente suas sobrancelhas baixaram, sentiu um arrepio na espinha, Anna caminhava na direção dela.

Quando chegou no grupo cumprimentou todos, Jennifer primeiramente. Anna trazia uma expressão um pouco nervosa mas se esforçava para deixar o clima leve, evitava pensar que aquela seria talvez sua última chance de fazer as coisas darem certo, e ter finalmente Jennifer de volta. Não sabia ao certo como abordá-la, nem quais palavras desarmariam Jennifer, era Jennifer que era boa nisso, em desarmá-la, será que não havia aprendido nada durante esse tempo?

“Pela sua reação Bob não te falou que eu viria.”

“Bob? O que ele tem a ver com isso?”

“Ele me convidou. Mas não o recrimine, ele estava bem intencionado, ele só queria ajudar.”

“Claro… tudo faz sentido agora… Tudo bem, o pub é público.”

“Como você está?”

“Não melhor que você.”

Ficaram em silêncio por um momento.

“Quer conversar lá no terraço?” Anna convidou.

“Nem que acontecesse uma invasão de ratazanas aqui que eu subiria naquele terraço com você hoje.”

“Ok, conversamos aqui então.”

“É muita pretensão sua achar que quero conversar com você.”

“Eu vim em paz.”

“Só faltou o ‘terráqueos’ no final da sua frase… Bom mas eu não, klaatu barada nikto para você.”

“O quê?”

“O filme, ‘O dia em que a terra parou’. Ah deixa pra lá… Se bem que esse filme é da sua época, você deveria conhecer…”

“Entendi…” Respondeu baixinho.

Jennifer lançou um olhar arrependido.

“Olha, desculpe, não quero discutir e também acho que não temos mais nada para conversarmos. Nossa, isso soou tão clichê…”

“Tudo tem sido um clichê ultimamente… Todas aquelas coisas que costumam acontecer nos filmes.”

“Que tipo de filme, comédia romântica ou terror?” Jennifer falou com um sorriso irônico.

“Depende do que você quer.”

Já haviam se afastado um pouco do pessoal, estavam mais próximos da parede escura, embaixo de um letreiro neon azul. Jennifer se recostou na parede e Anna permanecia a sua frente, como se tentando ter toda sua atenção naquele momento.

“Não coloque isso como um problema que eu preciso resolver.”

“Eu já te pedi desculpas, já te falei que sinto muito. E… eu tenho me sentido péssima por tudo que falei para você.”

Jennifer evitava cruzar seu olhar com o de Anna, desviava quase o tempo todo.

“Você foi cruel… E foi tão fria depois na sua casa.” Jennifer respondeu com certa mágoa em sua voz.

“Eu nunca te faria mal… Você esteve todo esse tempo ao meu lado, sabe que esse não é o meu comum, você me conhece.”

“Eu achava que conhecia.”

Anna se inclinou para frente e colocou uma das mãos espalmadas na parede.

“Sinto sua falta…”

Jennifer desta vez correspondeu ao olhar de Anna.

“Eu também sinto a sua, mas não posso ficar com alguém que não confia em mim…”

“Eu confio.”

“Não, não confia. Você só acredita no que você quer.”

Anna tirou sua mão na parede, voltou a ficar apenas na frente de Jennifer. Anna não achou as palavras certas para falar naquele momento, e não falou nada.

“Foi por ciúmes? Tudo aquilo foi por ciúmes? Porque se foi, isso tem tratamento, tem bons psicólogos na cidade.” Jennifer realmente tentava entendê-la, mas faltavam muitas peças no quebra cabeça.

“Eu diria que você não passa muita segurança para quem está ao seu lado…”

“O que você quer dizer?”

“Você está sempre olhando para outras garotas, flertando com elas, mesmo quando estou com você.”

“Sério que você está me acusando disso? Eu apenas olho, todo mundo olha, você também pode olhar para outras garotas se quiser, ou garotos… Mas nunca passou disso, nunca flertei de fato com ninguém.”

“Isso é desrespeitoso, faz quem está com você se sentir descartável.”

“Eu não sabia disso, não sabia que você se sentia assim, mas de qualquer forma não vejo isso como falta de respeito. Anna, você tem um problema sério com comunicação, eu não tenho como adivinhar tudo que você está sentindo.”

“Para você tudo é simples…” Anna desviou o olhar, juntamente de um suspiro.

“E não é para ser simples?”

“Eu queria que fosse… Mas para mim é tudo bastante complexo, até mesmo pequenas coisas… eu nunca estive num relacionamento como este.”

“Por que é com uma mulher?”

“Porque é com você. Mas sim, também tem esse fator.”

“Eu sabia que mais cedo ou mais tarde você iria jogar a culpa nesse ‘fator’.”

“É… é um fator e tanto. Pelo menos homens são simples.”

O sangue de Jennifer ferveu um tantinho naquele momento.

“Anna você não é gay, ponto final.”

“E eu sabia que mais cedo ou mais tarde você usaria esse argumento também, da mesma forma que você falou isso para sua prima.”

“Por quê, aquilo te irritou? Se irritou é porque você sentiu o fundo de verdade na brincadeira. Sério, não quero te julgar por você ser quem você realmente é. Eu que quebrei a regra básica de não me envolver com heterossexuais, nunca termina bem”

Se os corações de ambas pudessem se comunicar entre eles naquele momento, aquela discussão simplesmente nunca ocorreria. Todas aquelas palavras proferidas eram apenas, e somente apenas, reflexo da mágoa latente, não era reflexo do que sentiam verdadeiramente em seus corações.

O sangue de Anna também já estava um pouco mais quente que o normal àquele ponto.

“Você ficou com aquela francesa, essa semana, não ficou?”

“Lá vem você tirando suas próprias conclusões de novo, já está ficando chato isso.”

“Bom, pelo visto estou perdendo meu tempo aqui… Você já deve ter alguém engatilhado para esta noite, não quero atrapalhar seus planos.”

“Não, fique à vontade, tem um monte de caras legais aqui hoje.”

“É, quem sabe eu encontre alguém com quem possa ter uma conversa adulta.”

“Vou ver se encontro alguma garotinha descartável. Mas aproveite a noite.”

“Farei isso.” Anna respondeu com sarcasmo.

Jennifer estava irada, saiu rapidamente da parede onde estava e foi para o banheiro. Lavou o rosto várias vezes, deu uma boa olhada no espelho, se enxugou e subiu ao terraço, para tentar ventilar seus pensamentos.

Ficou não mais que dez minutos lá, com os braços apoiados na soleira do parapeito. Uma corrente de vento a pegou de surpresa, gostou daquela sensação fria, levantou a cabeça, fechou os olhos. O vento frio transpassou o fino tecido de sua camisa e atingiu sua pele, arrepiando. De repente sentiu um arrepio maior, uma sensação de terror, abriu os olhos.

“O que estou fazendo??” Falou baixinho, com uma feição confusa.

Se dirigiu à escada certa do que tinha que fazer, era hora de colocar um ponto final naquele clima desnecessariamente hostil, e ela não pretendia usar palavras para falar isso. Desceu com passos rápidos os degraus, contornou o bar e parou de repente.

Pode ver lá no canto mal iluminado onde estavam seus amigos, Anna conversando animadamente com um amigo de Bob. Ela parecia interessada na conversa, e Jennifer não queria nem imaginar se era somente na conversa, abortou seu plano e sentou-se numa das cadeiras altas do bar.

“Uma margarita. Dose dupla de tequila viu?”

/“É pra já!”

Virou o drinque sem pestanejar. E pediu outro, também duplo.

“A terceira, porque três é meu número da sorte! Nem preciso dizer que é dupla não é?” Pediu outro drinque.

Terminou de beber e relanceou os olhos para trás, Anna continuava conversando de forma empenhada, gesticulava.

Largou a taça no balcão, levantou-se e sentiu a tequila agindo sobre seu equilíbrio, caminhou até o canto oposto, próximo ao palco, onde havia um pequeno grupo dançando.

Se colocou na frente da garota artificialmente ruiva e sorriu, começaram a dançar juntas, uma de frente para outra. Bastou apenas uma música, e Jennifer passou seu braço ao redor da sua cintura, a puxando para um beijo, um beijo lascivo e sem previsão de terminar. Naquele momento tentou não pensar em nada, em ninguém, apenas converteu seus sentimentos perturbados naquela atitude impensada.

Terminou o beijo, a garota a abraçou e continuou beijando seu pescoço. Abriu os olhos e pode ainda ver Anna saindo pela porta frontal do pub.

 

“O que é isso?”

“Aspirinas, sei que você está precisando.” Becca falou após jogar um frasco de remédios em Jennifer, que dormia no sofá de seu apartamento.

“Apaga a luz…” Resmungou, colocando uma almofada em cima do rosto.

“Não posso apagar a luz do sol Jenny, já passa das onze da manhã.” Sentou-se no sofá menor ao lado.

“Seu sarcasmo e aspirinas não vão me ajudar muito…”

“Eu sei do seu arsenal no criado mudo, mas aspirinas sempre ajudam.”

“Deixe meu pequeno arsenal em paz ok?” Tirou a almofada do rosto.

“Cara você enfiou o pé na jaca ontem, o que foi aquilo?”

Voltou a cobrir os olhos com a almofada.

“Nem me fale…”

“Eu estava conversando com Jim ontem, sobre quem é a cabeça dura da relação de vocês, e depois de levantar alguns pontos chegamos à conclusão que é empate técnico.”

“/Somos boas nisso.”

“Você havia me falado que não tinha o menor interesse naquela pseudo ruiva, porque ficou com ela?”

“Pelo menos ela eu sei que é gay.”

“Mas Jenny, na frente de Anna? Você pegou pesado, e olha que nem vou muito com a cara dela.”

“Anna já estava entretida por outra pessoa, eu fui me entreter com a garota ruiva.”

“Leonard? O amigo de Bob? Ele é gay!”

“Não importa.” – Tirou a almofada de cima dos olhos. “Becca, eu juro, eu estava determinada a fazer as pazes, mas quando a vi cheia de sorrisos para cima daquele cara eu… fiquei muito, muito puta da vida. Não me orgulho do que fiz.”

“Anna ficou transtornada, mal se despediu de nós e se mandou.”

“Podemos mudar de assunto? A ressaca moral aqui já está grande o suficiente.”

“Ok… Jim vai trazer almoço para nós.”

“Santo Jim… Como vocês estão?”

Becca ligou a TV e se ajeitou no sofá.

“Normal, estamos numa fase boa. Ele é bem ocupado, mas sempre arranja um tempinho para ficar comigo.”

“O que ele faz?”

“Trabalha com o pai, que é músico, então está sempre fazendo pequenas viagens.”

“É bom para a relação, nunca vai cair no tédio.”

“É… Só não é legal quando ele viaja para longe. Mês que vem ele vai para a Escócia de novo.”

“A trabalho?”

“Não, é algum compromisso do pai. Ele não fala muito sobre essas coisas, é alguma coisa com seis grupos de alguma coisa.”

Jennifer olhou assustada para Becca.

“Que tipo de coisa?”

“Não sei, acho que é uma reunião política, algo assim. Por que você está me olhando desse jeito?”

“Só curiosidade.”

“Hum…. Você acha que ele está mentindo?”

“Não, não… Só deve ser algo chato demais para ele entrar em detalhes. E o pai dele, é líder de um desses grupos?”

“Líder? Como assim?”

“Não, nada, deixa pra lá. Pega uma água para mim? Para tomar com essa aspirina.”

“Sobre seu arsenal… Você anda, você sabe, usufruindo dele?”

“Também não quero falar sobre esse assunto.”

“Não faça, ok?”

“Becca… Não.”

 

Foi uma semana péssima para ambas, uma das piores e mais negras dos últimos tempos. De um lado Jennifer passando mais tempo no cantinho da reflexão que no trabalho propriamente dito. De outro Anna pegando todas as missões possíveis junto a Max, preenchendo suas noites com bastante ação. E era de dar pena dos Titans que cruzavam seu caminho nestas missões. Além de que àquela altura já estava precisando dos serviços de um decorador, devido ao número de coisas quebradas no interior de sua mansão.

Sexta-feira no final da tarde Jennifer subia preguiçosamente as escadas de seu prédio e deu de cara com um pacote de papel pardo, enrolado por cordões de sisal, no chão em frente à sua porta. Não havia nada escrito.

Pegou e entrou em casa, colocou em cima da mesa e arrebentou os cordões com as mãos. Abriu o embrulho e automaticamente reconheceu o conteúdo. Eram suas coisas. Suas coisas que estavam na casa de Anna. Algumas roupas, livros, escova de dentes e o cordão de prata com o pingente de lince. Sentiu uma fisgada no coração quando viu este último item.

Naquela noite Jennifer foi para o pub sozinha, Bob e Becca não iriam, mas sabia que encontraria conhecidos por lá. Estava decidida à apenas se divertir, ou pelo menos tentar. Já bastava a semana angustiante e quase paranoica que teve, remoendo os últimos acontecimentos, iria tentar apenas beber e dançar.

Encontrou Samantha e Lindsay, duas irmãs amigas suas, e passou a noite do jeito que planejou, bebendo, conversando e dançando. Mas passava de uma da manhã e sentia falta de algo mais forte, aquilo tudo apenas a havia entediado. Estava bebendo seu sétimo chope quando teve uma ideia.

“Meninas, estou indo nessa.”

“Já vai para casa? O som vai até as duas hoje.”

“Não, não vou para casa.” Sorriu maliciosamente.

 

Pagou sua comanda, vestiu sua jaqueta de couro preta e seguiu já com certa embriaguez para seu carro. Arrancou com os pneus cantando e pegou o rumo da Cidade Velha, iria ao pub de Joel, de longe o lugar que ela mais tinha curiosidade em conhecer.

Era um conglomerado de prédios mal conservados e com aparência ruim, sabia qual era a rua mas não exatamente onde era o bar. Andou em velocidade bem reduzida, olhando placas e letreiros, pode ver um pequeno letreiro luminoso, com as luzes falhando, que dizia o nome do bar. Parou em frente do pequeno prédio cinza e subiu uma escada estreita de degraus de piso vermelho.

Entrou no ambiente, era escuro e parecia ter uma leve neblina ocupando o ar do local. Haviam mesas redondas espalhadas, e um balcão de bar marrom seguindo o comprimento do bar. Um som ambiente, mais alto que um som ambiente normal, parecia ser ignorado pelos frequentadores, que estavam quase todos sentados ao redor das mesas e absortos pelas suas conversas.

Mais da metade das pessoas olharam curiosas para Jennifer, que ficou um pouco sem jeito e sentou-se junto ao balcão do bar. Um simpático barman, careca e aparentando uns quarenta anos, de sobrancelhas grossas e avental preto surgiu em sua frente.

“Posso ajudá-la?”

“Ãhn… Sim, uma margarita, por gentileza.”

“Você tem idade para isso?”

“Claro que tenho idade para beber. Você sabe, eu posso ter quarenta anos, híbridos não aparentam sua real idade.”

“Você tem toda razão… Mas você não é híbrida.” Sorriu.

“Você me pegou…”

“Uma margarita saindo.”

Entregou-lhe o drinque mas continuou à sua frente, a olhando.

“Você está esperando alguém?”

“Não, estou por minha conta. Hey, você é o Joel?”

“Esse é meu nome. Foi alguém que indicou esse bar à você?”

“Sim, uma amiga híbrida.”

“Qual o nome dela?”

“Anna.”

“E você é a namorada dela.”

“Não! Quer dizer, já fui.”

Jennifer estava intrigada.

“E ela te contou que nós híbridos temos o poder de adivinhar o nome das pessoas?” Joel falou com um ar de mistério.

“Ah é? E como funciona isso?” Jennifer entrou na brincadeira, se inclinou para frente e colocou os braços sobre o balcão.

“Eu coloco a mão sobre sua testa e pronto, descubro seu nome.”

Jennifer riu.

“Ah claro…”

“Posso tentar?”

“Fique à vontade.”

Colocou a mão sobre sua cabeça, fechou os olhos. Abriu os olhos e olhou seriamente para ela.

“Seu nome é Jennifer.”

“Ah fala sério, você viu escrito em algum lugar!”

“Que eu saiba você não está usando nenhum crachá.”

“Tá, como você descobriu?”

“Anna é minha amiga, ela me contou sobre você.”

“Ela esteve aqui?” Jennifer perguntou séria.

“Você diz, hoje?”

“Hoje, recentemente…”

“Não, a última vez que esteve aqui foi no ano passado. Mas nos falamos às vezes. Esperava encontrá-la aqui?”

Jennifer hesitou um pouco antes de responder, talvez inconscientemente era o que ela estava fazendo de fato.

“Não, não… Só vim conhecer mesmo. E quem sabe me divertir um pouco…”

“Hum, recém solteira em busca de diversão, acertei?” Piscou e sorriu.

“Mais ou menos isso… Na verdade eu sempre tive curiosidade em saber como era seu pub, quem frequenta, e tal…”

“Híbridos, em sua maioria.”

“É, isso eu imaginei. Mais uma bebida por favor?”

“Claro, num instante.”

Jennifer girou o banco e deu uma olhada ao redor, dando uma boa analisada nos frequentadores e no ambiente, agora já estava mais à vontade. Era diferente do que imaginava, havia criado uma aura underground em sua cabeça, um ambiente marginal com pessoas desinteressantes. Mas em poucos minutos já percebia vários tipos notáveis, uma mesa em particular havia chamado sua atenção, eram cinco mulheres com o mesmo ar misterioso de Anna, porém pareciam bem mais sociáveis, e conversavam animadamente entre elas.

Voltou a ficar de frente com Joel e bebeu sua margarita. Quando o barman se aproximou, o chamou.

“Joel, eu sei que não é muito ético, mas… o que Anna falou de mim?”

“Realmente aqui é quase que um confessionário.”

“Mas você não é padre.”

“Você me pegou…” – Sorriu. “Bom, basicamente ela estava afogando as mágoas porque a humana por qual estava apaixonada a havia trocado por uma francesa.”

“Hum… Mas depois eu destroquei.” Riu torto.

“Tempos depois a encontrei no centro numa tarde, e ela me contou que estava indo viajar com a namorada. Eu estranhei um pouco, nunca soube que ela havia se envolvido com uma mulher antes, ainda mais uma humana, mas nunca é tarde para se tentar truques novos, não é mesmo?”

“Mas não deu certo…” Jennifer retrucou desanimada.

“Que pena, me parece que tiveram bons tempos juntas, no final é isso que importa.”

“Bom, mas agora quero ter bons tempos com a tequila, me traz outra?”

Novamente correu os olhos naquela mesa mais ao canto, uma das garotas a olhava, e Jennifer voltou a virar para frente um pouco confusa.

“Ah não, outra híbrida não…” Pensou com seus botões, que àquela altura alguns poucos já estavam abertos na parte de cima da sua camisa.

Mas aqueles segundos antes de se virar foram suficientes para notar o quão interessante era aquela garota. Bebeu seu drinque e voltou a falar com Joel.

“Aquela mesa, mais ao canto esquerdo, conhece as garotas?”

“Estão sempre por aqui.”

“Aquela de cabelos pretos, e óculos…”

Joel a interrompeu.

“Essa que está vindo falar com você?” Joel riu.

“Joel, eu vou querer o que ela está bebendo.” A garota falou, sentando-se no banco alto ao seu lado e apontando com a cabeça para Jennifer.

Jennifer sorriu um pouco encabulada.

“Foi uma boa escolha.” Respondeu.

“Laura, prazer.”

Laura era uma simpática híbrida, com os cabelos negros e compridos, usava um óculos com armação de acetato preto, que lhe dava um certo ar hipster. Estava com uma blusinha preta que deixava à mostra uma grande tatuagem colorida no braço, que começava no cotovelo e Jennifer deduziu que ia até o ombro.

Jennifer a olhou, e de perto pode ver o quão verdes eram seus olhos, pareciam águas marinhas, e suas sobrancelhas eram finas, arqueadas, era daquelas garotas que mesmo sem esforço tinham um olhar sexy, em conjunto com uma grande boca. Aparentava uns trinta anos e era ainda mais alta que Anna.

“Jennifer.” Respondeu brindando sua taça com a dela.

“Eu ia perguntar se você errou de bar, mas achei que soaria um pouco grosseiro da minha parte, então deixa eu reformular a pergunta: acertou de bar?”

“Ainda estou descobrindo.”

“Mas você sabia o que queria quando entrou aqui.”

“Não, acredite. Só resolvi desbravar novos horizontes.”

“Eu gosto de garotas curiosas, você nunca se entedia com elas.”

Jennifer olhou de relance para ela, que sorria com o mais malicioso dos sorrisos. Sorriu também e pediu outro drinque. “Foda-se.” Pensou para si.

“Você veio até aqui porque é incumbida de dar as boas-vindas às humanas que caem de paraquedas no bar?”

“Exatamente… E você gostaria de saber o que está incluso no pacote de boas-vindas?”

“Espero que bebida grátis.”

Laura riu.

“Venha, sente-se conosco.” Falou levantando-se.

Jennifer a seguiu até a mesa e sentou ao seu lado, Laura à apresentou ao restante das garotas. A tequila, mais o chope no pub anterior, haviam soltado todas as amarras possíveis.

“E então, o que você faz além de dar boas-vindas às novatas?” Jennifer perguntou.

“Trabalho bastante… E brinco de tocar baixo numa banda.”

“Ah é? Qual o nome da banda?”

“Você vai rir…”

“Provavelmente.”

“The Oranges.”

Jennifer balançou a cabeça sorrindo.

“Era para ser tipo, uma banda de ruivos?”

“Quando entrei já tinham o nome, então não faço ideia da origem.”

“Já que você não sabe a origem poderia inventar algo para impressionar as pessoas.”

“Por exemplo?”

“Que o nome é uma alusão à cor do uniforme usado nas penitenciárias, e que a banda é formada por ex-presidiários.”

Laura riu.

“Acho que não pegaria bem… Principalmente para mim.”

“Por quê?”

“Porque eu sou policial.”

“Sério?”

“Posso mostrar meu distintivo se quiser.”

Foi a vez de Jennifer rir.

“Não, tudo bem, acredito em você. E eu não teria um distintivo para mostrar de volta…”

“E você, o que faz?”

“Sou assassina de aluguel.”

Riram.

Conversaram mais um pouco e Jennifer foi até o banheiro, instantes depois pelo grande espelho preso no azulejo branco pode ver Laura entrando à passos lentos, e a fitando através do espelho, ela só acompanhou com os olhos.

Laura encostou ao seu lado, recostando a cintura na bancada, de frente para Jennifer. Levou a mão até o óculos e o ergueu no alto da cabeça, logo Jennifer antecipou o que viria a seguir e a beijou, colocando Laura contra a bancada. Trocaram um longo e ofegante beijo ali em frente ao espelho.

“Vamos para a minha casa.” Laura sussurrou ao fim do beijo.

Jennifer a olhou.

“Não… Mas eu adoraria que você me seguisse.”

“Agora.”

“Agora?”

“Agora.”

“Ok.” Jennifer deu de ombros.

Pagaram a conta rapidamente e cada uma seguiu para seu carro. Jennifer conduzia se esforçando para enxergar a estrada que parecia sumir da sua frente, sentia um entorpecimento bem-vindo, já não se julgava nem julgava o que se passava com sua vida, sentia-se livre.

Esperou Laura estacionar seu carro e pegou em sua mão, a levando escadas acima até seu apartamento.

“Quer beber algo?”

Antes que terminasse a frase Laura a abraçou pelas costas, entrelaçando seus braços a frente de sua cintura, a beijando no pescoço.

“Acho que já bebemos o suficiente hoje…” Murmurou.

“Trouxe as algemas, policial?” Jennifer falou se virando.

“/Não acho que preciso de algemas com você…”

Laura a beijou e começou a abrir os botões da sua camisa. Logo que tirou sua camisa, Jennifer a levou para o quarto.

“E para você, é oficial Hughes.” Laura falou a derrubando na cama.

 

 

        Capítulo 26 – Frascos laranjas

 

Jennifer despertou sentindo como se tivesse passado por um ciclo completo numa lavadora de roupas. Mesmo estando nua não havia ainda se dado conta de como havia terminado aquela noite. Arrastou-se até o banheiro, tomou um banho e vestiu-se. Abriu a porta do quarto e deu alguns passos pela sala, ia até a cozinha beber água.

“Bom dia! Gosta de ovos mexidos, não gosta?”

Jennifer interrompeu seus passos e viu Laura na cozinha, em frente ao fogão, lançando um sorriso de bom dia. Agora lembrava de tudo, ou quase tudo.

“Bom dia… Gosto, gosto sim.” – Respondeu sem muita segurança, a olhando surpresa. “Já volto.” Falou e saiu pela porta, indo até o apartamento de Becca.

Becca via TV no sofá e levou um susto com a entrada de sua amiga.

“Bom dia Jenny, que cara é essa?”

“Tem uma híbrida preparando ovos mexidos na minha cozinha.”

“Anna??”

“Não, outra híbrida.”

“O que você aprontou?” Becca a questionou perplexa.

“Eu a conheci num bar ontem, e trouxe para casa. Não me lembro direito, mas me pareceu uma boa ideia na hora.”

“Certo, e você veio aqui pedir minha benção nesse seu novo namoro?”

“Becca… O que eu faço com ela?”

“Você que tem o costume de trazer garotas aleatórias para sua casa, o que você fazia com as outras?”

“Nada, elas iam embora assim que acordavam, não me davam um bom dia sorridente enquanto faziam o café da manhã.”

“Então case-se com essa.”

Jennifer pensou por um instante.

“Ela me pareceu uma pessoa sensata, vou conversar numa boa com ela.”

“Ok, boa sorte então.”

Jennifer virou-se e começou a caminhar de volta para a porta.

“E coma os ovos mexidos antes!” Becca bradou.

“Pode deixar.”

“E eu estava brincando sobre se casar com ela, ouviu?”

Jennifer apenas levantou o polegar, e voltou para seu apartamento.

“Está servida?” Laura falou colocando duas xícaras na mesa.

“O cheiro está bom.” Falou já se sentando.

“Assustei você, não foi?”

“Um pouco, para ser sincera…” Jennifer respondeu, encabulada.

Laura ajeitou os óculos e a fitou, sorrindo.

“E você deve estar pensando que sou daquelas loucas pegajosas que acham que estão num relacionamento sério depois de uma noite.”

“Não que você pareça ser…”

Laura riu.

“Relaxa, só quis fazer uma coisa legal, gostei de você, só isso.”

Jennifer realmente relaxou um pouco.

“E eu estou sendo mal educada. Obrigada pelo café, os ovos estão ótimos.”

“E então, como se chamarão nossos filhos?”

“O quê?” Jennifer parou o movimento do garfo que ia em direção à boca.

Laura deu uma risada.

“Viu, você ainda não relaxou.”

“Quase me pegou, quase.”

“Saciou sua curiosidade?”

“Qual delas?”

“Ficar com uma híbrida.”

“Ah não, já fiquei com outras antes.”

“Então é tipo um fetiche?”

Jennifer riu.

“Chame do que quiser, eu prefiro chamar de carma.”

“Um carma bom, claro.”

“T/odos os híbridos são assim modestos?”

“Faz parte da nossa gama de qualidades. Bom, você deve conhecer a maioria destas qualidades.”

“Com certeza…” Suspendeu rapidamente as sobrancelhas, e voltou a tomar o café.

“Alguma delas frequenta o Joel?”

“Ãhn… Sim.”

“Qual o nome?”

Jennifer a olhou hesitante.

“Anna.”

“Hum… Anna… Cabelos escuros, olhos azuis?”

“É, essa mesmo.”

“Conheço. Esteve no pub anteontem, inclusive.”

“Não, você deve estar confundido, faz tempo que ela não vai ao pub do Joel.”

“Anna, que tem uma moto preta, grande, não é?”

“É sim.”

“Estava lá quinta sim.”

Claro, Joel a encobriu, é amigo dela.” Pensou.

“E /ela saiu de lá acompanhada de algum cara?” Jennifer perguntou, receosa.

“Não.”

“Hum…”

“Saiu acompanhada de uma garota.”

“Sério?”

Laura balançou a cabeça.

“Sim, Sharon, conheço só de vista.”

“Quem diria…”

“Algo me diz que ela não foi só uma aventura para você…”

“Existem aventuras de todos os tamanhos, não é mesmo?” Jennifer respondeu com um ar triste.

“É um bom argumento.”

Laura terminou seu café e colocou sua mão em cima da mão de Jennifer.

“Infelizmente tenho que abandoná-la, meu turno começa em quarenta minutos, tudo bem?”

“Claro, o dever a chama.”

“Você tem meu número, me ligue quando quiser um pouco de diversão.”

“Eu tenho seu número?”

Laura sorriu.

“Você pegou ontem à noite, mas tudo bem, eu também não lembro como dirigi até aqui…”

Levantou-se a beijou antes de sair. A levou até a porta.

“É… ela não é uma daquelas loucas pegajosas…” Jennifer murmurou para si, aliviada.

Então… Anna e uma garota?” Pensou, com um sorriso irônico nos lábios, mas com uma dor dilacerante surgindo em seu coração.

 

 

Naquele sábado de manhã Anna resolveu voltar à um antigo hábito que estava esquecido, correr na praia. O dia estava nublado mas a temperatura estava amena, colocou um moletom, short, tênis e partiu. Mas antes de partir olhou em cima da cômoda e viu o iPod que Jennifer havia lhe dado, resolveu levar para sua corrida.

Corria a uma velocidade moderada, só queria sentir a maresia em sua pele, deixar a energia ruim para trás como ferrugem caindo de um robô de lata que voltou a caminhar depois de anos. O mar verde e espumante a faria companhia.

“Até o momento não conheço nada do que tocou…” Pensou.

Prosseguia correndo até que começou a tocar Starlight, do Muse.

“Falei cedo demais…”

Alguns minutos depois tocou então Turn up the radio, da Madonna, a música que Jennifer havia cantando e praticamente feito uma performance no aniversário de Bob.

“Ok…”

Corria ainda no mesmo ritmo, sentindo a areia afundando parcialmente com suas pisadas.

Não demorou muito para começar a tocar Time after time, da Cyndi Lauper, e imediatamente Anna sentiu um arrepio, uma sensação que não conseguiria enquadrar em boa ou ruim. Mas era inevitável não lembrar da ocasião de quando dançaram essa música, na festa Vulpi.

As passadas aumentaram de ritmo à medida que a música tocava, aquela lembrança havia a chacoalhado da letargia dos últimos dias, revivia tudo de bom que havia passado com Jennifer, lembrava-se de como sentia-se ao seu lado, como sentia-se preenchida, feliz.

Você tem ideia do quanto eu amo você?”

Anna não estava agora julgando se era verdade ou não, estava apenas lembrando do que sentiu quando ouviu Jennifer proferindo estas palavras naquela noite, de como havia se sentido especial. Naquele dia, naquele momento, o mundo havia sumido ao seu redor por alguns segundos.

Corria numa velocidade absurda agora, respirava com força, e então a música parou, e ela também. Ofegante, se curvou e colocou as mãos nos joelhos, e finalmente se deu conta.

“Não são só palavras.”

 

Naquele mesmo sábado, Jennifer foi até o porto no final da tarde. Precisava repor seu estoque do que Becca chamava de arsenal na gaveta do seu criado mudo. Eram tarjas pretas, em sua maioria antidepressivos e analgésicos, e Jennifer estava usando indiscriminadamente nos últimos dias, cada dia mais, juntamente de boas doses de álcool. Essa era a grande preocupação de Becca, mas Jennifer não a deixava sequer tocar nesse assunto, era como seu monstro particular.

“E então, como se livrou da encrenca hoje cedo?” Becca sentou-se ao seu lado, no pub.

“Não era bem uma encrenca, era só um impasse, que na verdade nem era um impasse, ela só quis ser legal.”

“Não te pediu em namoro então.”

“Claro que não.”

“Eu já estava pronta para chamar a polícia.”

Jennifer riu e quase cuspiu seu chope.

“Por que está rindo?”

“Ela é policial.”

“Não me conte sobre as fantasias que vocês brincam na cama, ok?”

“É sério, ela é policial mesmo.”

“Perfeito, Anna ia adorar conhecê-la.” Riu.

Jennifer apenas balançou a cabeça.

“Desculpe, não foi engraçado.”

Jennifer se ajeitou na cadeira.

“Ok, isso não é assunto proibido.”

“E aquele outro assunto proibido, temos que conversar sobre isso.”

“Ele é proibido justamente para evitar esse tipo de conversa.”

“Eu estou preocupada com você Jennifer, eu vi frascos no chão do seu quarto.”

“Você me chamou de Jennifer?”

“Não mude de assunto…”

Jennifer parou de sorrir e a encarou.

“Vou buscar outro chope, você quer?” Falou, e logo se levantou.

“E aí pessoal, vamos para a pista? O som tá legal!” Bob convidou todos na mesa, assim que Jennifer retornou.

“Não estou no clima, vou ficar por aqui ok?” Jennifer recusou.

“Ãhn… Bob, daqui a pouco eu vou.” Becca resolveu ficar ao lado de Jennifer.

“Vou ficar bem sozinha, pode ir dançar.”

Becca levantou sua caneca e brindou com Jennifer.

“Agora somos só nós duas.” Respondeu, sorrindo.

Jennifer sentou-se ao seu lado.

“Eu sei que você não quer falar sobre aquele assunto, mas tem algo diferente hoje em você, está com uma cara péssima, quer me contar algo?” Becca a perguntou, em um tom confidente.

“Está tudo bem, baby…”

Becca se inclinou na direção de Jennifer.

“Faz tempo que não está nada bem, mas hoje você está parecendo tão distante, triste.”

Jennifer segurou sua caneca com as duas mãos, a fitando.

“Anna ficou com outra garota.”

“É mesmo? Quando?”

“Quinta-feira.”

“Sinto muito…”

“Tudo bem, ela está tocando a vida dela, do mesmo jeito que eu estou também.”

“Não, você está fugindo da sua vida, está se auto destruindo, é bem diferente.”

“É o meu jeito de tocar a vida.”

Esse era o jeito como Jennifer estava encarando seus medos e suas frustrações. Seu avô havia depositado uma carga de expectativa grande nela, quando explodisse a tal revolução Vulpi, que parecia tão palpável agora. E temia ter que encarar seu dia-a-dia sem Anna, sentia como se faltasse um motivo para sair de sua cama todos os dias, seu coração não deixava seu corpo descansar, havia encontrado seu jeito torto de se desligar de tudo isso, todos os dias. A pressão psicológica estava deteriorando aquela garota de vinte e dois anos, que guardava cicatrizes na alma causados por dois eventos traumáticos, a morte dos pais e a morte traumática de Helen.

“Não está conseguindo esquecê-la, não é?” Becca questionou.

“Nem um pouco. Eu não quero esquecê-la, eu só… queria tanto estar com Anna agora.” Os olhos de Jennifer já estavam cheios de lágrimas.

“Nunca imaginei que eu falaria isso, mas porque não tenta conversar com ela? Sem acusações, sem julgamentos, apenas fale o que você sente.”

“Se conversarmos apenas sobre sentimentos, será um monólogo meu… E eu acho que ela já está em outra, acho que perdi minha chance de estar ao lado de quem eu mais amei em minha vida…” – Passou a mão no rosto. “Meu Deus, o que eu não daria agora por um abraço dela… Um só.”

“Você ainda a ama.”

“Com todo meu coração.” Falou esfregando as mãos nos olhos.

“Por que essas coisas são sempre tão complicadas para você?”

“Talvez eu mereça…”

 

Jennifer foi embora cedo, mas não dormiu. Aquela noite terminou como as noites anteriores haviam terminado, com um coquetel de barbitúricos, vicodin, coisas do tipo, acompanhados de muito álcool. Acordava no dia seguinte sem disposição para nada, mal comia, mal trabalhava. Estava entregue neste perigoso ciclo, que só piorava no decorrer dos dias.

Nesta noite em especial uma angústia parecia querer explodir seu tórax, foi preciso duplicar as doses para conseguir apagar as imagens de Anna com outra pessoa, que não saiam de sua mente.

Naquela semana foi para o porto no dia que seu arsenal terminou, na terça-feira, e passou a tarde no cantinho da reflexão. Desde o dia que Laura contou ter visto Anna com outra garota que seu consumo de entorpecentes e álcool estava atingindo níveis quase catastróficos.

A noite saiu com Becca, Jim e Bob, foram à uma pizzaria comemorar o aniversário de Jim. Jennifer chegou com um semblante sério, quase catatônico.

“Jenny, tem três dias que não te vejo, porque você não tem atendido a porta?” Becca a questionou, assim que ela entrou no local, antes que Jennifer sentasse à mesa.

“Provavelmente estava dormindo.”

“Bom, aqui não é local para discutirmos isso, mas tem algo muito errado acontecendo e desta vez você não vai fugir do assunto, vou na sua casa amanhã à noite, e é bom você abrir aquela porta.”

“Hey, relaxa, está tudo bem, só estou com meus horários trocados, estou com insônia, é só isso.”

“Ok zumbi, sente-se conosco, vamos comer uma pizza e tentar ter uma noite legal.”

 

No dia seguinte, no final da tarde, Anna estava no centro da cidade fazendo uma entrega, quando foi abordada por um homem baixinho, com cabelos ralos e escuros no alto da cabeça e semblante nada amistoso.

“Hey, você é a Anna, não?”

“Conheço você?” Anna prendia uma bolsa vazia no fundo da moto, e ficou surpresa com a abordagem.

“Talvez, mas com certeza sua namoradinha conhece.”

“Não tenho namorada.”

“Bom, não sei como vocês chamam isso hoje em dia, mas sua namorada me deve uma grana, ela só tem me enrolado, diz que a grana vai entrar no mês que vem, mas dinheiro para comprar um carro ela teve, bonito isso não? Enfim, cansei das baboseiras dela então vim cobrar de você. Hum, bonita sua moto…” Falou passando a mão no banco da moto.

“Grana do quê?” Falou sem muita paciência.

“Ah você sabe do que é.”

“Não faço ideia.”

“Ela me deve dezesseis pacotes, é uma boa grana, e não posso ficar mais esperando o mês que vem, como ela sempre fala.”

“Continuo não fazendo ideia do que você está falando, e sério, tenho mais o que fazer.”

O homem então a segurou pelo braço, e mudou de tom.

“São dezesseis potes, ela pegou dezesseis esse mês, não sei se ela anda fazendo alguma festinha com essa droga toda, mas eu preciso da grana, e não vou mais aceitar desculpas esfarrapadas, senão tua garota vai voar, entendeu?”

Anna soltou seu braço, perturbada.

“Quanto ela te deve?”

“Três e quinhentos, coloquei um juros em cima porque o bagulho já atrasou demais, sabe como é, tenho minhas contas também.”

“Olha, não tenho dinheiro aqui, não costumo carregar essa quantia comigo por motivos óbvios, onde posso encontrá-lo amanhã?”

“Estou sempre no porto, perto do píer nove, se não me achar lá, pergunte pelo Tuck.”

“Certo… Tuck. Eu vou conseguir esse dinheiro e lhe entrego amanhã à tarde no porto, agora me dê licença que tenho mais o que fazer do que negociar com tipos como você.”

“Fique à vontade belezinha!” Saiu rindo com sarcasmo.

Anna montou na moto, e seguiu possessa para o apartamento de Jennifer. Jogou o capacete no espelho retrovisor, subiu as escadas com passos rápidos e bateu na porta com força. Mas ninguém abriu. Podia ouvir o som da TV ligada na sala, bateu novamente à porta, com mais energia.

“Jennifer eu sei que você está aí, abra essa porta!” Falou dando um tapa na porta.

A noite já começava a cair e Anna sabia que neste horário Jennifer já havia voltado do porto, tinha medo de voltar de lá no escuro.

Bateu novamente na porta, mas nada aconteceu. Lembrou do que o traficante havia falado, da quantidade de drogas que ela havia comprado, e teve um mau pressentimento.

Se atirou contra a porta, na tentativa de abri-la, tentou uma segunda vez e nada. Tentou novamente, com mais força, e finalmente a porta abriu-se. Entrou devagar no apartamento, não viu sinal de Jennifer. O apartamento estava bagunçado, havia caixas de pizzas acumuladas na cozinha, além da TV, o aparelho de som também estava ligado, Anna desligou tudo, continuou olhando ao redor.

“Jennifer?”

Deu alguns passos pela sala e foi até o quarto.

Entrou no quarto e não viu nada, andou na frente da cama e pode então ver Jennifer caída no chão, ao lado da cama, de bruços, somente de calcinha e com uma camiseta branca. Correu até ela e a virou, Jennifer estava desacordada, não reagia.

Anna se agachou, e se inclinou ao seu lado, colocando o ouvido sobre seu rosto, tentando ouvir sua respiração. Conseguiu ouvir, mas era fraca. Anna desesperou-se, sabia que precisava pensar rápido.

Olhou ao redor, colocou o frasco laranja vazio que estava ao seu lado no bolso da jaqueta, lembrou que o traficante havia falado que ela agora tinha um carro.

“Jennifer, continue comigo, ok? Continue respirando!” Falou colocando a mão em seu rosto desfalecido.

Transpassou seus braços por baixo do seu corpo e a levantou de lá, a carregou no colo, avistou uma chave de carro em cima da mesa e pegou. Desceu as escadas rapidamente com Jennifer, e com dificuldade apertou o botão do alarme na chave, avistou um carro pequeno e prata com as luzes piscando, foi até lá.

Abriu a porta do passageiro e a repousou no banco, posteriormente o reclinou e fechou a porta com pressa.

Sentou-se no banco do motorista, sentiu-se se zonza, não sentava diante de um volante há quase vinte anos, sabia o que tinha que fazer mas sentiu-se paralisada por um instante, sentia uma vertigem antagônica, sabia que precisava levá-la o mais rápido possível ao hospital, mas seu corpo se recusava a responder aos seu comandos.

Olhou para o lado, viu Jennifer com a respiração cada vez mais lenta, parecia apenas dormir, mas ela sabia que ela estava morrendo, teria uma parada a qualquer momento. Virou a chave na ignição e arrancou com o carro. Deu ré com dificuldade, bateu numa placa de trânsito, mas finalmente pegou a estrada e seguiu determinada até o hospital. De minuto a minuto verificava sua respiração e seu pulso.

“Fique comigo, ok? Já estamos chegando.”

Chegou em alta velocidade ao Saint Vincent’s e parou na entrada da emergência, a tirou do carro e entrou praticamente correndo no hospital com ela em seus braços.

“Qual o caso dela?” A enfermeira perguntou enquanto a conduziam na maca por um corredor.

“Acho que overdose.” Anna respondeu, acompanhando.

“Ok, sala dois, chequem os sinais vitais!” Bradou quando chegou numa sala de triagem, com outras macas separadas por biombos.

Outro enfermeiro se aproximou e checou rapidamente seus sinais.

“Está parada! Vou chamar o médico, já volto.”

Anna se aproximou rapidamente, ficou do seu lado, a olhou, sentia tanto medo que mal conseguiu balbuciar algumas palavras.

“Volte, volte por favor.”

Um médico alto e ruivo se aproximou rapidamente e afastou Anna do seu lado, o enfermeiro a ligava aos monitores.

“Há quanto tempo está parada?” Ele perguntou para Anna.

Anna estava assustada, titubeou antes de responder.

“Eu… não sei. Eu estava monitorando no carro, e ela estava respirando, com dificuldade mas estava!”

“Ok, talvez um minuto de parada. Lidocaína e atropina, ventilação e massagem, agora!”

Massageavam o peito de Jennifer de forma ritmada, enquanto apertavam e soltavam um balão de ar em seu rosto.

“Nada ainda. Entubem.”

Continuavam com o procedimento, até que o médico bradou.

“Assístole, tragam o desfibrilador!”

Cortaram a camiseta de Jennifer e o médico preparou as duas pás do desfibrilador, esfregando uma na outra com um gel transparente.

“Duzentos! Afastem-se!”

E Anna viu o corpo agora frágil de Jennifer praticamente pulando naquela maca, mas ainda não havia sinal nos monitores. Anna estava num estado absurdo de tensão, ali acompanhando a ressuscitação de Jennifer, estava sem chão.

“Volte, volte, por favor volte… Reaja Jennifer, volte.” Sussurrava, com a testa franzida.

“Trezentos! Afastem-se!”

Novamente o choque foi aplicado ao peito de Jennifer, que ergueu-se, Anna olhou o monitor, mas o risco retilíneo e o bip contínuo permaneciam.

Continuaram a massagem cardíaca, mas sem sucesso.

“Trezentos e sessenta! Afastem-se!”

Mais um choque em seu peito, Anna correu os olhos da maca para o monitor ao lado, o risco transformava-se agora em ondulações ritmadas, o bip agora era intermitente.

Anna suspirou aliviada, baixando a cabeça.

“Você precisa sair daqui, senhora.” Ouviu da enfermeira, já a conduzindo para fora do recinto.

“Mas… Preciso ficar com ela.”

“Ela vai ficar bem, vamos levá-la para cima.”

Saiu mesmo a contragosto, voltando para o saguão do hospital. Caminhou ainda abalada até um conjunto de cadeiras azuis, sentando-se devagar. Apoiou os cotovelos nos joelhos colocou as mãos no rosto.

E ficou ali por uma hora, sentada, esperando por notícias, sem saber direito o que pensar. Até que o médico veio até ela.

“Como ela está?”

“Ela vai ficar bem, foi uma overdose causada por medicamentos controlados e álcool, apesar da parada está tudo sob controle, ela está reagindo bem.”

“Que bom…” Respirou aliviada.

“Ela tem histórico de tentativa de suicídio?”

“Não acho que tenha sido isso, acho que ela tem usado essas coisas já há algum tempo e deve ter se passado na dose hoje.”

“Hum, certo, mas é bom mantê-la sob vigilância, nunca se sabe.”

“Entendi.”

“Ela já está no quarto, quer visitá-la?”

Anna o olhou por um instante.

“Não.” Respondeu com uma dor imensa no coração.

“Ok, vamos tentar achar algum parente ou amigo para acompanhá-la então.”

“Eu cuido disso. Você pode entregar a ela?” Falou colocando a chave do carro dela na mão do médico.

“Claro.”

Levantou-se, pegou seu celular e ligou para Becca.

“Becca? Você pode vir ao Saint Vincent’s agora?”

“Por que, o que aconteceu?”

“Jennifer teve uma overdose, mas já está fora de perigo.”

“Meu Deus, ela está bem??”

“Agora sim, ela precisa de algum acompanhante.”

“Mas você não está aí?”

“Já estou de saída.”

“Você que a encontrou?”

“Sim.”

“Eu sabia que ia dar nisso…”

“Você sabia que ela estava usando essas coisas? Por que não me falou?”

“E por que você teria interesse nisso?”

“Ok… O carro dela está aqui em frente, deixei a chave com ela.”

“Estou a caminho.”

“Becca?”

“Sim?

“Não conte à ela que fui eu quem a trouxe para cá.”

“Por quê?”

“Apenas não conte.”

 

Becca e Bob chegaram minutos depois, e fizeram companhia a Jennifer em seu pequeno quarto de hospital. Ela não se sentia nada bem, nem tanto pelos efeitos do trauma em seu corpo, mas por ver aquele assunto tão pessoal exposto desta forma, aquela era talvez sua maior fraqueza, sentia-se mal por isso.

“Como vim parar aqui?” Questionou, apática em seu leito inclinado.

“Ãhn… uma ambulância te trouxe, da emergência.” Becca respondeu, sem segurança.

“Sim, acionaram o serviço de emergência, e te trouxeram.” Bob corroborou, ele também sabia do pedido de Anna. Ambos estavam sentados em cadeiras giratórias, ao lado da cama.

“Vocês estão mentindo, a chave do meu carro está aqui do meu lado. Só não sei porque estão mentindo.”

Becca e Bob se entreolharam.

“Foi Anna que te encontrou, e te trouxe.” Bob acabou contando.

“Ok, eu que me drogo e vocês que ficam loucos? Ela nem dirige, ela tem um trauma, ou algo assim.”

“Bom, então ela superou o trauma hoje.” Becca respondeu.

“Sério? O que ela estava fazendo no meu apartamento?”

“Não fazemos ideia, e agora estamos falando a verdade.”

“Algum de vocês falou com ela?”

“Ela me ligou agora a noite, me chamando para cá.”

“Hum… Ela ainda estava aqui quando você chegou?”

“Não mais…”

 

No dia seguinte, no início da tarde, Jennifer teve alta e voltou para casa. Anna foi até o porto, estacionou perto do píer nove e saiu a procura de Tuck.

“Hey, que porra é essa??” Tuck falou assustado, enquanto era arrastado pelo pescoço com uma gravata, para trás de um contêiner.

Anna o soltou jogando no chão, ele tentou levantar-se, ela o impediu dando alguns bons/ murros em seu rosto. Em seguida, rapidamente sacou sua adaga de dentro do casaco e colocou em seu pescoço, ficando cara a cara com ele, que àquela altura sangrava na boca e num corte no supercílio.

“Você nunca mais vai vender nada para Jennifer, nunca mais. Nem um pílula, nem meio comprimido, mesmo que ela venha aqui com rios de dinheiro, você vai se recusar, você vai dizer não e vai mandá-la embora. Se você vender qualquer coisa para ela, mesmo que seja uma cerveja, eu volto e acabo com a sua raça, você será um filho da mãe morto boiando no mar, entendeu?” Falava com raiva, apertando a lâmina contra seu pescoço.

Tuck a olhava apavorado, apenas balançou a cabeça, concordando.

“Você entendeu tudo que eu falei?”

“S-sim.”

“Estamos combinados então?”

“Estamos.” Falou, arfando.

“Você não tem ideia de quem você está lidando, então é bom que tenha entendido mesmo.”

O largou, ele ainda a fitava assustado. Anna tirou do bolso um pequeno bloco com notas de dinheiro, e jogou em cima de Tuck.

“Isso aqui deve quitar a dívida de Jennifer.” E saiu, sem olhar para trás, voltando para casa, um pouco mais aliviada.

Chegou em sua casa e pegou logo o celular, ligou para Becca.

“Como ela está?”

“Parecendo um personagem de Resident Evil, mas já estamos em casa.”

“Que bom… Você está com ela?”

“Sim, estou aqui na cozinha fazendo algo para almoçarmos. Por que você não liga para ela? Ela ia gostar de receber sua ligação, ela está precisando de você Anna.”

Anna caminhava devagar dentro de sua sala, ouvindo Becca, sentia uma vontade enorme de ir visitar Jennifer, sabia que ela estava fragilizada, queria passar por cima de tudo, mas não conseguiu.

“Eu só vou piorar as coisas…”

“Acho que não, ela sempre fala de você.”

“As coisas não são simples.”

“Ela ainda te ama…”

Anna ficou em silêncio, sentiu um nó na garganta, um desespero comedido, como se isso fosse possível.

“Ela vai fazer de novo, você sabe…” Becca continuou.

“A ajude Becca, converse com ela, vigie, sei lá.”

“Não sei se consigo, você a conhece, ela é teimosa.”

Anna não estava preparada para receber uma notícia trágica em breve, mal conseguia pensar nessa possibilidade, ainda estava assustada o suficiente com o que havia presenciado no dia anterior.

“Cuide dela.”

“Vou tentar.”

 

“Era Jim? No telefone. Não quero atrapalhar qualquer plano que você tenha feito com ele.” Jennifer perguntou, assim que entrou no espaço da cozinha.

“Não…”

Jennifer sentou-se junto à mesa.

“Parece bom.” Falou mexendo com o garfo no prato servido.

“Era Anna.”

Jennifer parou, e voltou a olhar para Becca, que estava de pé do outro lado da mesa.

“O que ela queria?”

“Saber como você estava.”

“Hum…”

“Jenny, eu não sei o que fazer com você.” Becca a fitava séria.

“Com relação à que?”

“Você não me ouve, não quer conversar, você quase morreu ontem, qualquer hora você consegue.”

“Ah não estou a fim de falar disso… Foi um acidente, eu tenho total controle do que faço, ontem foi um deslize, eu estava de estômago vazio, isso não vai acontecer de novo, prometo.”

“Você não vai parar, não é?” Becca apoiava as duas mãos sobre o encosto da cadeira à sua frente, era perceptível certa angústia em sua voz.

“Não ando fazendo planos para nada, então não tenho essa resposta.” Jennifer estava bastante abatida, física e mentalmente, não queria se prolongar nesse assunto.

 

Becca dormiu em seu sofá naquela noite, sabia que sua amiga não era nenhuma suicida nem nada parecido, mas ainda temia por ela. Jennifer conseguiu dormir mais do que havia dormido nas últimas semanas, engatou algumas boas horas de sono.

No dia seguinte Becca foi trabalhar cedo, e Jennifer acordou com a porta batendo. Caminhou para o banheiro, tomou um longo banho e sentiu-se com mais energia, vestiu-se com seu moletom do lanterna verde e foi ao mercado. Uma garoa fina caia, mas ela não se incomodou, andava devagar pela calçada da vila, sentindo os pequenos pingos gelados caindo em seu rosto. Tinha ideia que havia passado por uma situação crítica, mas não estava consciente que precisava de uma mudança para que as coisas melhorassem.

No caminho, desistiu de ir ao mercado, pegou outra rua e andou até o cemitério municipal. Ultrapassou os grandes portões brancos e descascados e seguiu pelo labirinto de lápides que já conhecia bem. Chegou num descampado gramado, onde haviam placas de mármore pousadas no chão, placas cinzas, brancas, contrastando com o verde da grama.

Parou em frente à uma das lápides e sentou-se, lançava um sorriso entristecido enquanto fitava o nome de Helen. A chuva continuava esparsa e fria, já havia mudado o tom do verde em sua roupa, nos ombros e nos braços.

Estendeu a mão sobre o chão à sua frente, tocou a grama molhada, sem pressa.

“Você estaria fazendo bem melhor que eu…” Falou baixinho.

Passou a manga do moletom no rosto, enxugando-o.

“E o mais irônico é que você que era a garota forte, como dizem… era para eu estar aqui, não você. Mas já que está aí do outro lado, talvez você saiba porque foi assim, se é que isso tem algum sentido…”

Ficou mais alguns instantes naquela posição, pensativa.

Levantou-se, olhou novamente a lápide.

“Desculpe, meu anjo…”

Ergueu o capuz sobre sua cabeça e saiu caminhando de volta para casa. À noite seus amigos se reuniram em seu apartamento, fizeram um jantar, assistiram um filme, e atingiram seus objetivos, de distrair e entreter um pouco Jennifer.

“Eu acho que você deveria ir trabalhar amanhã, vai te ocupar, vai ajudar você a colocar sua vida nos eixos. Não te faz bem ficar trancada aqui dia e noite.” Becca sugeriu antes de ir embora, ainda no corredor.

“É… Estou pensando em ir ao porto sim.”

“Só não volte tarde, tá bom?” Falou, já saindo.

“Becca?”

“Diga, meu amor.”

“Anna te ligou novamente?” Perguntou, esperançosa.

“Não…” Respondeu, com pesar.

“Ok… Boa noite.”

Diferente da noite anterior, não conseguia dormir. Bebeu as duas últimas cervejas na geladeira enquanto via TV, depois foi para a cama, onde parecia que sua inquietação triplicava, enquanto rodava de um lado para outro. Horas mais tarde finalmente dormiu, no sofá, com o sol já nascendo.

Acordou na metade da manhã, com certa disposição, o suficiente para animar-se para ir trabalhar. Abriu a janela e viu um sol solitário no céu, sem nuvens. Estava quase calor, abandonou o casaco em cima da mesa e seguiu para o porto, apenas com um jeans e uma blusinha preta.

Devido à sua instabilidade no trabalho e pouca assiduidade, não havia muito o que fazer por lá. Visitou alguns poucos clientes e foi para o cantinho da reflexão.

Ela sabia que aquela sua gaveta estava vazia, e também sabia que deveria ficar longe do que quase a matara. Mas quando lembrava que mais uma noite dolorosa chegaria, seus pensamentos ficavam dúbios, como se tivesse um anjinho em seu ombro mandando ir direto para casa. E um diabinho sentado de forma suntuosa no outro ombro, a lembrando que quando a madrugada chegasse, ela desejaria com todas as suas forças que aquela gaveta estivesse abastecida.

O sol começava a ser pôr, levantou-se, saiu andando com convicção, sabia o que queria fazer. Foi até o píer nove.

“Ah não, você não!” Tuck falou ao ver Jennifer se aproximando.

“O que isso Tuck, isso é jeito de tratar os amigos? Hoje é seu dia de sorte, não vim de mãos vazias.” – Sorriu. “O que foi isso no seu rosto? Participou de uma luta de boxe?”

“Já encerrei por hoje.” Falou, indo na direção de um contêiner escritório.

Jennifer o segurou pelo ombro, fazendo com que olhasse para ela.

“Hey, eu trouxe grana, posso te mostrar.” Falou num tom mais baixo.

“Eu não vou vender mais nada para você, tenho amor a minha vida.”

“E se eu pagar tudo que te devo?”

“Sua namorada já pagou, e de brinde fez isso comigo.” – Falou apontando para o rosto. “Sério, não quero encrenca.”

Jennifer o fitou com as sobrancelhas franzidas.

“Como assim? Do que você está falando?”

“Não quero confusão com híbridos, só sei que não te vendo mais nem meio comprimido! Esqueça meu nome, se me perguntarem, nunca sequer vi você.”

Jennifer não falou mais nada, virou-se e saiu andando atordoada, assimilando o que havia acabado de ouvir, confusa.

Seguiu com passos agora rápidos até seu carro, e saiu em velocidade. Ela tinha uma grande dúvida povoando sua mente, e somente uma pessoa tinha essa resposta.

Já havia escurecido, Jennifer entrou pelo portão da casa de Anna ainda em alta velocidade e freou bruscamente em frente à sua porta. Anna ouviu o barulho, estava saindo do banho e vestiu-se rapidamente com jeans e regata. Desceu as escadas ainda descalça, e viu Jennifer entrando por sua porta, com uma expressão transtornada.

“O que é isso?” Anna perguntou surpresa.

“Você foi falar com Tuck, você o procurou no porto.” Jennifer parou no meio da sala e começ/ou a falar, estava em frente à uma Anna assustada.

“Olha, se você veio aqui discutir… Me poupe disso tudo. Sim eu falei com esse elemento, ele me procurou anteontem.”

“Você bateu nele, para que não me vendesse mais nada.” Apesar de estar um pouco fora de si, Jennifer falava sem se alterar.

“Jennifer, eu já falei, não quero mais um bate-boca, estou te pedindo com todo respeito, não quero mais brigar.”

“E foi você que me encontrou, e que me levou para o hospital, não foi?” Agora seu olhos já estavam carregados de lágrimas.

Anna não sabia o que Jennifer queria.

“Vai me culpar por isso?”

“Você ainda se importa comigo? Só me responda isso, e eu irei embora. Por que você fez isso tudo?” – A essa altura já chorava, seu coração doía de tanta inquietação. “Você fez essas coisas porque ainda se importa comigo?”

Anna a encarava com um olhar sofrido, seus olhos também já estavam molhados, sentia um vulcão querendo explodir dentro do seu peito, mas era outro tipo de vulcão.

“Eu… Eu fiz porque ainda te amo.”

Jennifer fechou os olhos com força, jogando a cabeça para trás, voltou a encarar Anna.

“E eu também te amo.” Enxugou seu rosto.

Anna deu um passo em sua direção e parou hesitante, Jennifer deu então os dois passos que faltavam para uni-las, e se atiraram nos braços uma da outra ao mesmo tempo. Se abraçaram com a intensidade de seus mais profundos sentimentos, e depois de dias tenebrosos, tiveram seu primeiro momento de paz. Jennifer a segurou com as mãos espalmadas em suas costas, com força, Anna subiu sua mão por sua nuca, entrelaçando seus dedos nos cabelos, que estavam presos num rabo de cavalo.

Num gesto rápido, Anna soltou-se, e a beijou, o mais apaixonado dos beijos. Seus lábios uns contra os outros, pareciam querer se fundir em um só, um só momento, o momento de dar adeus às mágoas. Havia chegado a hora de permitir que todo aquele amor imensurável que sentiam, e que nunca sequer diminuiu, tomasse seu devido lugar. E era isso que sentiam, fisicamente, como se os sentimentos tivessem cores, todo aquele cinza saindo de seus corações e permitindo que o vermelho voltasse à preenchê-los.

Jennifer só conseguia pensar em como era bom estar beijando novamente aqueles lábios tão delicados e quentes, o quanto desejou aquilo nas últimas semanas, o quanto era confortável sentir seu corpo unido ao corpo de Anna, seu cheiro, sua pele.

“Eu te quero tanto…” Jennifer sussurrou quando terminaram o beijo, ainda com os lábios próximos dos dela.

Anna afastou um pouco seu rosto e a fitou com ternura, ambas tinham os olhos vermelhos.

“Eu também.”

Jennifer correspondeu seu olhar, e então sorriu.

“É o iPod que eu te dei que está tocando?” Podia ouvir música vindo do andar de cima.

Anna também sorriu.

“Foi o jeito que encontrei de ter você por perto.”

Jennifer colocou a mão no bolso da sua calça e tirou alguma coisa, a mostrando em sua palma da mão.

“E eu carrego você no bolso.” Mostrava o cordão prata com o pingente de lince.

Anna olhou para sua mão, e voltou a olhar para Jennifer, aproximou seu rosto e beijaram-se novamente, instantes depois Anna interrompeu o beijo.

“Meu celular, está tocando lá em cima, e eu acho que sei quem é.”

Pegou Jennifer pela mão e subiu as escadas com ela logo atrás. Foi até o criado mudo e atendeu. Jennifer a olhava, de pé em frente a cama.

“Oi Becca, como…”

“Jennifer não apareceu ainda! Ela nunca fica até essa hora no porto, não sei onde procurá-la! Desculpe te ligar, mas Bob não atende e não sei o que fazer, Meu Deus, será que…”

“Hey, heeeey! Acalme-se garota. Ela está aqui em casa.”

Jennifer riu, assistindo a cena.

“Ah não, vocês estão brigando de novo, ela vai tomar uma tonelada daquela porcaria quando chegar em casa, isso se chegar em casa!”

“Becca, relaxa, não estamos brigando.”

“Não?? Estão fazendo o que então?”

Jennifer pegou o celular das mãos de Anna.

“Baby, você já foi mais otimista.”

“Pelo amor de Deus Jenny, pare de me dar sustos, eu não tenho mais idade para essas coisas. Quando entrei na sua casa agora e não te encontrei quase enfartei!”

“Desculpe, esqueci de te avisar…”

“Então… ninguém matou ninguém aí ainda, nem vão se matar não é?”

“Está tudo bem, pode dormir tranquila.”

“Finalmente… Eu tenho vontade de bater em vocês duas sabia? Até vocês pararem com…”

“Tchau Becca.”

“Tá bom, boa noite. Juízo viu?”

 

Jennifer largou o celular e ficou em frente Anna.

“Ela anda preocupada, já falei que não precisa toda essa preocupação…” Jennifer comentou.

“Becca não é a única preocupada.”

“Não vai acontecer de novo.”

Anna a fitou.

“Eu vi você numa maca de hospital, seu coração parou ali, bem na minha frente, e meu coração parou junto com o seu naquele momento.”

“Você estava lá…” Jennifer desviou do seu olhar.

“Jennifer eu sei que você gosta de sentir intensidade em tudo que faz, que talvez você não pense muito antes de tomar algumas decisões, mas sua vida é algo mais sério que qualquer rompante ou má ideia que você tenha.”

“Eu sei…”

“Se você quiser levar sua vida a sério… se quiser me levar a sério, eu estarei sempre aqui para você.”

“É tudo o que eu mais quero… minha vida de volta, e você…” Murmurou, com a voz embargada.

Anna a puxou para próximo de si, pela cintura, unindo seus quadris.

“Então você está no lugar certo.”

Jennifer a olhou por um momento, e beijaram-se, um beijo estático, como se selando seus destinos. Depois beijaram-se com mais ardor, quase aflição, e logo se atiraram na cama ao lado.

 

 

        Capítulo 27 – O dia que completaríamos um ano de namoro

 

Tiveram uma noite recompensadora, onde os sentimentos ruins e as mágoas não tiveram a menor chance. Jennifer tratou de sentir e desbravar cada centímetro do corpo de Anna, e esta deu à Jennifer o prazer e alívio que droga alguma poderia lhe proporcionar.

Anna acordou no meio da madrugada, sentia seu braço dormente, quando percebeu o motivo sorriu. Estava aliviada e com o coração em paz por ter Jennifer de novo em seus braços, ela dormia tranquilamente encaixada em seu abraço. Lançou um olhar carinhoso, correu o dedo lentamente em seu pescoço, passando pela nuca, onde começavam seus fios de cabelo, e subiu até atrás da orelha. Percebeu que Jennifer deu um longo suspiro.

Tirou seu braço devagar, mas ainda mantendo-se como uma concha para uma pérola, a envolvendo.

“Posso ficar aqui?” Jennifer acordou de leve, e perguntou sem abrir os olhos.

“Claro… Durma.” E lhe deu um suave beijo em seu pescoço, deixando seus lábios ali.

 

Com o dia já claro, Jennifer despertou, e levou um longo segundo se perguntando onde estava. Olhou para o lado e viu todo aquele espaço desocupado na cama, com o lençol ainda mexido. Olhou para frente e viu suas roupas dobradas em cima do sofá de madeira, sorriu.

“Tem algumas coisas que não mudam…” Pensou.

Tomou um banho, ainda debaixo do chuveiro fechou os olhos, sentia-se tonta, nauseada, esperou aquela sensação passar e saiu. Vestiu-se com a roupa que havia ido até lá, não tinha mais nada seu na casa, seguiu para as escadas e assim que abriu a porta do quarto deu de cara com Anna, que assustou-se, Jennifer quase derrubara as duas canecas que ela carregava.

Por um instante ficaram num impasse, olhando nos olhos uma da outra, como se ambas esperassem alguma primeira reação, de preferência positiva.

“Uma é minha?” Jennifer finalmente falou, com um sorriso aberto.

Anna correspondeu ao simpático sorriso, lhe entregando a caneca, Jennifer se aproximou e lhe deu um beijo.

“Quer tomar café lá fora?” Anna convidou.

“Sim senhora.”

Saíram e sentaram-se no banco de ferro acima do paredão de pedras, à frente do mar. O sol do início da manhã estava apenas morno, e o vento agitava de leve os cabelos soltos de ambas.

“Hmm seu café… como senti falta.” Jennifer bebia segurando a caneca com as duas mãos.

Anna ficou um instante pensativa, olhando para frente, antes de falar.

“Jogamos um mês fora.” Falou com certa tristeza.

“Um mês? Sério?” Jennifer se virou na direção de Anna.

“Praticamente um mês.”

Jennifer apoiou o cotovelo no encosto do banco, e seu rosto na palma da mão, enquanto olhava para Anna.

“Seu cabelo cresceu tanto, desde que nos conhecemos.” – Colocou a mão na altura do ombro dela. “Era mais ou menos aqui. Olha onde já está.”

Anna simplesmente riu.

“Por que você está rindo?”

“Porque eu te conheço, você está com rodeios, com receio que eu entre em algum assunto que talvez… você não queira entrar.”

Jennifer ainda a fitou por mais um instante, e virou-se novamente para frente, pensativa.

“Nunca me senti tão exposta em toda minha vida…”

“Mas tem uma diferença enorme entre ter suas cartas na mesa, e jogar.”

“Que engraçado, parece que estamos invertendo papéis.” Jennifer falou com um sorriso irônico.

“Foram dias de aprendizado…”

“Vendo você assim tão serena, tão calma… Me faz lembrar porque me apaixonei por você.” Jennifer disse.

Anna /deu uma olhadela em Jennifer, lhe entregando um pequeno sorriso.

“Não foi total surpresa quando soube que você estava se drogando.”

“Por quê?”

“Eu já conhecia aquela sua gaveta, no criado mudo.”

“Desde quando?” Perguntou curiosa.

“Lembra aquela noite, depois de uma missão que você levou um tiro de raspão…”

“Que eu nem havia percebido. Lembro… eu falei para você pegar o kit de primeiros socorros na segunda gaveta.”

“O kit estava na terceira gaveta.”

Jennifer balançou a cabeça lentamente.

“O que você foi fazer no meu apartamento quarta-feira?”

“Tuck havia acabado de me procurar, me cobrou uma dívida de dezesseis potes, e eu juro que levei alguns segundos achando que ele estava falando de comida.”

“Então você estava brava quando foi lá.”

“O que você acha?”

“Você /ia me dar bronca?”

“Sem sombra de dúvida.”

“Que bom que eu estava desacordada…”

“Estava com saudades do seu humor negro.”

Jennifer sorriu e refletiu um pouco.

“O que você acha que aconteceu?”

“Com o quê?”

“Com a gente.”

Anna apertou os lábios, pensou um instante.

“Meu pai dizia que todo relacionamento sólido precisa ser construído sobre três bases, não falo somente de relacionamentos amorosos, mas todo tipo de relação, para dar certo precisa se basear em confiança, respeito e compreensão.”

Jennifer/ aguardava que ela prosseguisse.

“Tivemos um problema de confiança. Eu tive um problema de confiança, para ser mais exata. E não soube lidar com isso, muito menos expressar, e errei. Como se isso já não bastasse para abalar as estruturas, em seguida tivemos um problema de respeito. Você teve um atitude irresponsável e me desrespeitou, foi a vez de você errar… Mas ainda havia a compreensão, até ontem não sabíamos se ainda tínhamos isso, mas quando você entrou por aquela porta, nos agarramos ao que nos restava, e foi aí que acertamos, tanto eu quanto você estávamos dispostas a nos darmos outra chance.”

“Fomos salvas pela compreensão…” Jennifer completou, como um leitor que narra a moral da história após ler um livro de fábula.

Anna virou-se no banco, ficando de frente para Jennifer.

“Não acha que ainda estamos com as bases da confiança e do respeito abaladas?”

“Acho que tudo recomeça quando encontramos os erros, e os assumimos. É o que estamos fazendo agora.”

“Estamos assumindo nossos erros então?”

Jennifer sorriu e ergueu sua caneca sugerindo um brinde, Anna correspondeu batendo sua caneca na dela.

“Então é um bom recomeço.” Anna ponderou.

Jennifer também se virou um pouco, voltou a apoiar seu rosto na sua mão.

“Escute… não quero que você se sinta insegura quando estiver comigo, nem que fique imaginando coisas. Se estou com você, estou só com você, e eu seria louca se não fosse assim, per/to de você todas as outras garotas são apenas coadjuvantes.”

Começou a deslizar sua mão no braço de Anna, que estava apoiado acima do encosto do banco, olhava o sol realçando os pelos à medida que deslizava seus dedos. Voltou a falar.

“Acho que devemos fazer um acordo.”

“Que tipo de acordo?”

“Eu prometo minha sinceridade, se algum dia por acaso eu acabar ficando com alguém ou se sei lá, começar a gostar de outra pessoa, irei te contar, não quero dar espaço para dúvidas. E você promete que sempre que tiver algum grilo, alguma dúvida, você vai conversar comigo, não vai deixar a bola de neve chegar onde chegou. Mas fique tranquila, não tenho e menor intenção de usar isso como prerrogativa para ficar com outras pessoas, só quero que você tenha sempre certeza que não estou escondendo nada de você.”

Anna foi pega de surpresa com a sinceridade dela, a olhou hesitante.

“Parece justo.” Concordou e estendeu a mão.

“Não… Um acordo desses não deve ser selado com um aperto de mãos.”

Jennifer largou sua caneca, se inclinou para frente e a beijou, a segurando pela nuca.

“Então… Se você ainda tem algum grilo aí dentro, essa é a hora de colocar para fora.”

“Não tenho grilos, nem nenhum outro inseto.” Sorriu, e virou-se para frente.

“Hum, sei.” A fitava, ela sabia que Anna estava pensando em algo do tipo e logo começaria a falar.

Alguns segundos depois, Anna deu uma olhada para o lado e perguntou, com uma voz mansa.

“Você ficou com Susan?”

Jennifer riu.

“Eu sabia que você ia perguntar isso…”

“Tudo bem, já estávamos separadas.”

“Só curiosidade então?”

“Só curiosidade.”

Jennifer a olhou mais um pouco, antes de responder.

“Ela me procurou uma noite, mas não aconteceu nada, quase nada…” Falou baixando a voz no fim da frase.

“Quase?”

“Sério? Tem certeza que você quer que eu entre em detalhes?”

“Quase nada é um pouco vago, não acha?”

“Ela me beijou, em seguida eu interrompi. Juro, estou sendo sincera.”

“Eu sei.”

“Não rolou revival.”

Anna balançou a cabeça, assimilando.

“Aquela garota ruiva que você ficou no pub, naquela fatídica noite… você a conheceu no dia da festa anos oitenta, que eu não pude ir porque tinha uma entrega, não foi?”

“Isso.”

“Vocês ficaram nesse dia?”

“Na festa?? Não, claro que não.” – Respondeu um pouco estarrecida. “Anna, eu nunca te traí, achei que você soubesse disso.”

“Você disse para tirar todas as dúvidas agora…”

“Ok, você está certa, se você tem dúvida, pergunte mesmo. Mas então me deixe esclarecer uma coisa, eu nunca fiquei com outra pessoa enquanto estávamos namorando, nem sequer tive vontade, entendido?”

“Totalmente.”

“E até hoje eu não sei o nome daquela ruiva…” Riu para si.

Anna ficou em silêncio alguns segundos, antes de voltar a conversa.

“Sobre aquela garota que morreu, Helen…”

As feições de Jennifer mudaram, e Anna percebeu.

“Não, deixa pra lá…” Anna tratou de encerrar o assunto.

“Obrigada.” Respondeu baixinho.

Anna passou seu braço por cima dos ombros de Jennifer, a puxando para perto de si, Jennifer deitou sua cabeça no ombro dela.

“É bom ter você de volta…” Anna murmurou, próximo do seu ouvido, lhe arrancando um sorriso, era o suficiente.

Voltaram a ficar apenas na companhia do barulho do vento que soprava vindo do mar, mas logo Anna interrompeu o silêncio.

“Eu preciso te contar uma coisa.”

“E foi assim que pela segunda vez essa semana meu coração parou.” Jennifer brincou.

“Quero te contar um segredo.”

“Manda.” Jennifer levantou-se e passou a fitar Anna.

“Sabe meu café, que você adora.”

“Claro.”

“Esse café vem do Brasil, é um café bem especial.”

“Hum… Sabia que tinha algum mistério nisso.”

“Claro qu/e meu preparo também conta, mas o mérito é quase todo dos grãos brasileiros mesmo.”

“Bom, agora que já sei o segredo… Já posso pedir o divórcio, foi bom te conhecer, na partilha dos bens vou ficar com seu estoque de café.”

“Não, o café fica comigo.”

“Meio a meio então.”

“Não, se quiser café, vai ter que tomar aqui em casa.”

“Você é difícil de negociar hein?”

Anna a olhou sorridente, e a beijou.

“Seu coração já voltou a bater?”

 

Jennifer chegou sozinha ao pub naquela noite, estacionou seu carro no final da calçada e entrou com uma expressão enigmática em seu rosto, juntando-se aos seus amigos já alojados numa mesa próxima ao bar. Todos a olharam receosos, Becca já havia espalhado a notícia que possivelmente teriam feito às pazes na noite anterior, mas preferiram não perguntar o que havia acontecido com Anna.

Jennifer foi buscar sua bebida e voltou a conversar com Becca.

“Ah eu gosto da banda de hoje! Faz tempo que não tocam aqui, não é?” Jennifer comentou com Becca, que estava sentada ao seu lado.

“É, faz algum tempo que não vejo eles por aqui. E eu acho esse vocalista bem…” – Olhou para o lad/o onde Jim estava sentado. “Bem, você sabe.” Deu um sorrisinho.

“Prefiro a guitarrista.” Jennifer falou com um sorriso no canto da boca.

“Jenny… O que aconteceu ontem afinal? Achei que vocês iam fazer as pazes!” Becca não conseguiu segurar sua curiosidade e finalmente perguntou.

“Relaxa, está tudo sob controle.”

“E o que isso significa?”

“Pergunte para ela.” Falou apontando com a cabeça na direção da porta de entrada, por onde entrava Anna.

Bob e Becca olhavam apreensivos Anna caminhando na direção deles, Jennifer continuava com uma expressão que não dizia muita coisa.

Anna se aproximou da mesa e cumprimentou educadamente todos, depois foi na direção de Jennifer, curvou-se um pouco e a beijou. Todos na mesa respiraram aliviados, e Jennife/r não conseguia conter seu sorriso bobo. Anna buscou uma cadeira e sentou-se ao seu lado.

“Poderia ter me falado antes né?” Becca falou no ouvido de Jennifer.

“Não, assim foi mais divertido, adorei a cara de pânico que vocês fizeram quando Anna chegou.” – Sorriu. “E achei que você deduziria, por eu ter passado a noite fora.”

“Eu não tinha como deduzir, eu dormi na casa do Jim.”

“Ops…” Riu.

Jennifer parecia estar recuperando seu brilho, estava radiante, havia colocado um casaco branco, estilo militar, por cima de uma blusa cinza com prata, e estava com os cabelos soltos. No final daquela tarde havia ido para casa, e marcaram de se encontrar a noite, no pub.

A noite transcorreu na maior pacificidade possível, Anna e Jennifer não se desgrudaram nem por um minuto, e apesar da timidez em público que normalmente Anna tinha, haviam trocado alguns beijos discretos. O clima só ficou um pouco tenso quando a garota ruiva foi até os dois casais, Anna e Jennifer, Becca e Jim, que estavam de pé próximo ao palco.

“Oi Jenny! Eu fui até o porto essa semana, mas não te encontrei.”

“É… tive alguns probleminhas, ando um pouco ausente.” Sorriu meio sem jeito.

Anna estava bem ao lado, apenas acompanhando atentamente, de forma sisuda, segurando com força seu copo, bebia suco em solidariedade à Jennifer que também estava apenas bebendo suco aquela noite.

“Ah que pena… Bom, quer ir lá nas mesas conversar?”

“Sinto muito, estávamos indo dançar agora, não é amor?” Terminou de falar e pegou a mão de Anna, que a olhou um pouco assustada.

A garota foi embora e Jennifer conduziu Anna para a pista em frente ao palco. A banda já não tocava mais e agora um DJ tocava algumas músicas pop.

“Você não tinha outra forma de dispensar a garota?” Anna perguntou no seu ouvido.

“Achei essa a mais criativa.” Falou começando a dançar a sua frente, sorridente.

A música era Umbrella da Rihanna, e Jennifer começou a dançar de forma provocativa junto à Anna, que apenas sorria em retribuição. Aproximou seu rosto do rosto de Anna, com um sorriso malicioso, e movimentava-se de forma sexy, aos poucos Anna foi deixando sua timidez de lado, e acabou sendo levada pelo clima quente que Jennifer estartara. Anna estava dançando, frente a frente com Jennifer, que agora sorria abertamente, mas ainda mantinha uma dose generosa de malícia nos lábios.

Estavam embaladas pela música, mais do que isso, estavam entregues à seus instintos, Jennifer por vezes acompanhava os movimentos de Anna com suas mãos, as subia em seus quadr/is. Aproximava seus lábios dos dela, mas não à deixava beijar, estava fazendo um jogo com Anna, e estava adorando a reação dela. Quando começou outra música, Anna puxou Jennifer pela cintura e a beijou, sem o menor resquício de sua costumeira timidez, deram um beijo de tirar o fôlego, excitante, como toda aquela dança.

Anna correu seus lábios pelo pescoço dela e sussurrou.

“Vamos para casa.”

“Você está se sentindo bem?” Jennifer perguntou, confusa.

“Vamos para minha casa.” Anna falou lançando o mais malicioso dos sorrisos.

 

“Você disse que não sabia dançar.” Jennifer comentou, enquanto pagavam suas comandas na portaria.

“Eu nunca disse que não sabia dançar.”

“Bom saber…”

“Me segue?” Anna falou já saindo para a rua, com Jennifer logo atrás, que vinha fechando seu casaco por causa da brisa fria que soprava.

“Sim, pode indo de moto, vou logo atrás. Não durma viu?” Falou sorrindo.

“Te encontro lá em cima.” Sorriu em resposta, e colocou seu capacete, já montando na moto.

Jennifer entrou no seu carro, fechou a porta e girou a chave. O carro não pegou, fazendo um barulho prolongado.

“Vamos lá Ignatius, não me deixe na mão.” Conversava com seu carro.

Virou novamente a chave na ignição mas o barulho que se ouviu foi o mesmo. De repente tomou um susto, com uma figura que surgiu em sua janela, colocando as duas mãos na porta e a cabeça quase dentro do carro.

“Ah fala sério, você de novo?” Jennifer falou num tom injuriado.

“Cadê suas amiguinhas hoje?” Perguntou com deboche.

Era o mesmo cara que havia mexido com ela e suas primas algumas semanas antes, naquele mesmo lugar, tinha um porte de jogador de futebol americano, os cabelos castanhos bem penteados.

“Você gosta de apanhar de garotas ou é algum fetiche?”

“Não, eu gosto de ver garotas como você apanhando.” Saiu rapidamente da janela e apareceram dois brutamontes, que puxaram Jennifer de dentro do carro sem sequer abrir a porta, através da janela.

Um deles tapou a boca dela, enquanto o outro a arrastava pelos braços. A levaram arrastando de costas até um beco que se formava entre dois prédios próximo dali. Ela esperneava e tentava se soltar, mas o outro grandalhão ajudava a segurar. Chegaram até o final do beco, que tinha uma pouca claridade vindo de frestas acima. Além de algumas caixas de papelão, havia apenas o ladrilho molhado e escuro.

A jogaram numa pilha de papelão amassado, e logo foram para cima dela, segurando seus braços e ombros contra as caixas, que não tinham mais que um metro do chão. Ela pode ver então caminhando lentamente o cara que a havia abordado, vindo em sua direção, com um sorriso irônico nos lábios.

“Hum, bem melhor assim… Sabe, naquele dia confesso que estava um pouco bêbado, só por isso que você conseguiu me acertar. Boa notícia: hoje estou ótimo. Ou seria má notícia?” Riu.

Jennifer, ainda com a boca coberta, tentava falar algo, e continuava se agitando, tentando sair dali. Ele se aproximou mais um pouco, ficando de pé à sua frente, a observou por alguns segundos, com uma expressão repugnante, Jennifer agora o fitava já com os olhos molhados de raiva.

“Acho que seria um desperdício apenas ver você apanhando… Tenho outros planos para nós.” Sorriu.

Se aproximou mais um pouco parou em sua frente, correu as mãos pelas suas pernas, Jennifer sentia aquelas mãos deslizando sobre seu jeans e tinha vontade de chorar mais do que já chorava. Em seguida ele abriu seu cinto, sem pressa. Jennifer tentava atingi-lo, ma/s um dos caras grandes segurou uma de suas pernas.

“Mas que gata selvagem você é hein? Colabore e quem sabe você sai andando daqui hoje.”

Voltou a colocar suas mãos em Jennifer, e desabotoou a calça dela, abrindo seu zíper. Jennifer olhava desesperada, suava, não tinha mais forças para tentar fugir dali. Ele abria seu casaco quando um dos seguranças bradou.

“Atrás de você!”

“O quê?” Respondeu confuso.

Antes que virasse para trás, sentiu algo rígido golpeando seu rosto, fazendo com que sangue e talvez alguns dentes voassem de sua boca, enquanto ainda caía no chão, sem ideia do que estava acontecendo.

Jennifer assistia a cena paralisada, ainda nas caixas de papelão. Anna empunhava uma barra de ferro e agora acertava um dos brutamontes, primeiro na cabeça e logo em seguida nas costelas. O segundo deles também veio para cima dela, com toda raiva, porém com mais raiva Anna o acertou quatro vezes na cabeça com a barra, caiu sangrando. O valentão atlético, que agora virava-se no chão como um rato encurralado, fitava assustado Anna, já sabia de onde tinha vindo o golpe que o fazia cuspir sangue até agora. Ele ergueu-se, se sustentando nos cotovelos, a olhando apavorado.

“Mas que porra de maluca é você??” Ele bradou, com a voz falhando.

Anna deu alguns passos ficando aos pés dele, olhou dentro de seus olhos com raiva e respondeu.

“Eu sou a namorada dela.” Empunhou rapidamente a barra e golpeou novamente em sua cabeça, o deixando desacordado. Os outros dois grandões já haviam dado no pé.

Olhou para o lado e viu Jennifer retraída, olhando arregalada, largou a barra de ferro no chão e correu para ela.

“Você está bem?” A abraçou, Jennifer a agarrou com as duas mãos às suas costas, com força.

“Machucaram você?” Anna insistiu.

Jennifer apenas balançou a cabeça, negativamente, agora chorava bastante, ainda a prendendo com seus braços.

“Tá tudo bem /agora.” Anna corria sua mão pelos cabelos dela, afagando sua cabeça.

Anna a ajudou a levantar dali, deu uma conferida se estava tudo ok, a ajudou a fechar sua calça e o cinto.

“Fizeram algo com você? Quer ir no hospital?”

“Não, só quero ir embora…” Falou, com uma vozinha ainda trêmula.

“Vem de moto comigo?”

Jennifer concordou, Anna lhe deu seu próprio capacete e seguiram para a casa de Anna.

“Vá, tome um banho e eu coloco você na cama.” Anna falou, assim que entraram no quarto.

Jennifer saiu do banho com um roupão branco e viu Anna na sacada, a esperando, recostada no parapeito.

“Cadê o vidro?” Perguntou ao perceber que a porta da sacada estava sem a vidraça.

“Acidente doméstico.”

Jennifer se aproximou dela, pegou sua mão esquerda, olhou algumas cicatrizes recentes na parte de cima da mão.

“O mesmo acidente doméstico?”

Anna sorriu.

“Você tem boa memória.”

“Anna… Obrigada…” Jennifer falou, se aproximando devagar, e finalmente a abraçando, como se estivesse se acomodando em algo confortável e macio.

“Quem era esse cara?”

Jennifer deu um longo suspiro antes de falar.

“Não sei, um babaca que veio nos incomodar no estacionamento há algumas semanas atrás, quando eu estava com minhas primas.”

“E o que aconteceu?”

“Eu bati nele, e fomos embora.”

“Hoje ele veio se vingar então?”

“Sim…”

“Que covarde… O que me consola é que ele deve estar contando os dentes no chão até agora.”

Jennifer se desprendeu, ficando cara a cara com Anna.

“Como sabia que eu estava em apuros?”

“Você não chegou, eu voltei para o pub, te procurando. Estava entrando no pub quando escutei uns sons vindo de um beco ali próximo, eu já estava achando estranho seu carro estar lá, com o vidro aberto e sem você dentro, fui na direção do som. E te achei.”

“Não quero nem pensar no que teria acontecido se você não tivesse voltado…”

“Não pense. Venha, vamos dormir.”

 

 

Jennifer estava com os braços apoiados no mármore do parapeito da sacada, com o olhar perdido no mar à sua frente, com o adorno amarelado do sol que nascera há pouco tempo. Anna se aproximou com duas canecas de café e lhe entregou uma, transpassou seu braço ao redor da sua cintura e deu um beijo em seu pescoço. Ficaram lado a lado, olhando por alguns instantes em silêncio para a imensidão esverdeada, Jennifer girava sua caneca nas mãos, usava uma calça cinza de Anna e um regata também dela.

“Eu nunca havia me relacionado com alguém tempo o suficiente para comemorar um aniversário, então aquele dia era um dia especial, estávamos completando um ano de namoro.” Jennifer começou a falar, com o semblante triste, mas pacífico.

“Helen?”

“Sim. Havíamos combinado um jantar na minha casa à noite, para comemorarmos, eu sairia mais cedo do porto para ir para casa preparar algo, mas acabei me enrolando com um trabalho e nem percebi que já havia escurecido.”

Anna sabia o que estava acontecendo, e deixaria Jennifer o mais à vontade possível para se abrir daquele jeito.

“Ela esteve no meu apartamento e não me encontrou, então resolveu me buscar no porto, me fazer uma surpresa. Saímos do escritório e estávamos tão imersas numa conversa sobre o que cozinhar para o jantar, que andávamos sem maiores preocupações pelo porto. A noite já havia caído, seguimos entre algumas pilhas altas de contêineres e de repente eu senti um mão cobrindo a minha boca, e um braço me puxando para trás. Quando percebi, haviam feito o mesmo com ela, e já estávamos num pequeno espaço atrás dos contêineres, no chão.”

Anna suspirou, já imaginando o que poderia ter acontecido.

“Os caras eram bem grandes, não maiores que aqueles irmãos vikings que enfrentamos na Escócia, mas eram bem truculentos. Eles praticamente montaram em nós, e nos imobilizaram, eles nos batiam quando tentávamos gritar, então eu desisti de tentar gritar por socorro. O que estava em cima de mim estava sem camisa, tinha umas tatuagens horrorosas nos braços, e o que estava com Helen ficava falando coisas grotescas sobre os híbridos.”

“Eram Titans?” Anna perguntou, com uma voz branda.

“Sim, também me xingaram por eu ser humana. Eu tentei me desvencilhar dele, às vezes eu conseguia olhar para o lado e podia ver que ela também estava lutando, mas mesmo sendo híbrida, ela não era tão forte como você, ela nunca gostou de nada violento, nunca deve ter batido em ninguém, nem barata ela matava.”

Jennifer fez uma pausa antes de continuar.

“Enfim, eles… você sabe, você pode imaginar o que fizeram com a gente.” Jennifer já tinha algumas lágrimas teimando em rolar de seus olhos.

“Não… Eles violentaram vocês…” Anna se deu conta, com os olhos arregalados, e um semblante triste.

Jennifer balançou a cabeça, confirmando. Engoliu em seco, e continuou falando.

“Foram minutos bem longos, se você me perguntar se durou dez minutos ou dez horas, eu não saberia responder. Se não bastasse o que estavam fazendo, eles pareciam querer descontar toda raiva do mundo em nós.”

“Meu Deus…” Anna estava totalmente abalada com o que ouvia, nunca imaginaria que Jennifer tivesse passado por uma violência desse tipo. A fitava, estarrecida.

“Eu percebi que Helen não estava mais tentando gritar, não estava mais fazendo barulho algum. Olhei para o lado e o vi com as mãos em seu pescoço, ele estava a sufocando, ela estava com as mãos em seus punhos, tentando se soltar, mas ele era muito mais forte que ela. Algum tempo depois eu… eu vi suas mãos caindo ao seu lado…” – Jennifer se esforçava para continuar falando, a voz falhava, soluçava. “E então ela não se mexeu mais. Ele havia a matado e eu tinha certeza que seria a próxima. Eu olhei nos olhos do cara que estava em cima de mim e foi exatamente isso que eu percebi. Bom… Não sei de onde surgiu aquela força, mas eu acho que converti todo o medo que estava sentindo numa força Jedi ou sei lá o que, e consegui soltar minha perna, e acertei uma joelhada no meio das pernas dele… É isso funciona mesmo…” – Deu um meio sorriso torto. “Aproveitei a deixa para empurrá-lo para o lado e… eu fugi, corri mais que uma lebre, sem olhar para trás.”

Jennifer parou um instante, enxugou o rosto.

“Só parei de correr quando já estava fora do porto, me dei conta que Helen ainda estava lá, eu já não podia fazer mais nada por ela, mas ela ainda estava lá… Com aqueles caras…” – Parou um instante, respirou com mais calma. “Eu não sabia o que fazer, não sabia a quem pedir ajuda, eu fui para casa. Becca e Bob foram meus anjos da guarda, eles me ajudaram de tal forma… Principalmente Becca. Nossa eu… estava acabada… Os caras pegaram pesado, eu quebrei dentes, dedos da mão, um braço, foram semanas bem difíceis, me recuperando em casa.”

Anna apenas a observava, angustiada.

“E no dia seguinte eu fui até a casa dela, e dei a notícia para sua mãe e sua avó. Encontraram o corpo no mar, naquele mesmo dia.”

“Faz quanto tempo que isso aconteceu?”

“Fez três anos no mês passado.”

“Você tinha dezenove anos… é muita maldade.”

Pela primeira vez desde que havia começado a falar, Jennifer olhou para Anna.

“E não teve um dia sequer, nesses três anos, que não me culpei por não tê-la salvo.”

Voltou a olhar para frente, chorava sem reservas.

“Eu… não sei, eu poderia ter sido mais forte, poderia ter lutado mais, tentado soltar minha perna antes, somente eu poderia ter mudado o curso daquilo, ela não deveria ter morrido ali…”

Anna a abraçou, a aninhando em seu peito.

“Você não tem culpa de nada meu anjo…” Anna afagava seus cabelos.

“Não é o que eu sinto no meu coração…”

“Pense em tudo de ruim que você fez ou que você permitiu que acontecesse, por causa dessa sua culpa, o que ela acharia disso? Você precisa dar outro sentido para a morte dela, você não é a responsável pelo que aconteceu, é apenas uma sobrevivente.” Anna falava com uma voz calma, apaziguante.

Jennifer apenas balançou um pouco a cabeça.

“Eu sinto muito por tudo isso… Queria que você tivesse me contado antes, mas eu te entendo… meu amor, você precisa deixar Helen partir…”

Jennifer não falou mais nada, mas Anna percebeu algo errado.

“Você está tremendo? E suando…” – Anna a afastou e a olhou assustada. “Você está bem?”

“Não…” Jennifer respondeu e logo em seguida sentou-se zonza no banco na varanda, estava pálida e suando, passava as mãos no rosto.

“O que está acontecendo?”

Jennifer não respondeu.

“É uma… crise de abstinência?” Anna perguntou, preocupada.

“Talvez…”

“E o que fazemos?” Falou se agachando à sua frente, pousando as mãos em seus joelhos.

“Nada.”

“Quer que eu te leve no hospital?”

“De carro?” Sorriu.

Anna riu, balançou a cabeça.

“Eu quase matei nós duas naquele carro.”

Jennifer a olhou, passou seus dedos em sua testa, afastando seus cabelos.

“Não, eu vou ficar bem, isso passa.”

Jennifer estava encolhida, sentindo frio, corriam filetes de suor de sua testa até seu queixo, pelas laterais de seu rosto, e haviam pequenas gotas acima de seu lábio.

“Venha deitar então.”

“Já vou.”

Anna se levantou, passou a mão esquerda por baixo dos seus joelhos e a outra em suas costas, e a ergueu.

“Hey, eu posso andar.”

“Eu sei, mas pra variar eu queria te carregar alguma vez acordada.” Jennifer passou seus braços ao redor do seu pescoço.

A repousou na cama, e sentou-se ao seu lado, com as costas na cabeceira. Jennifer prontamente virou-se e deitou-se em suas pernas, passando sua mão por trás de suas costas.

“Você está quentinha.” Jennifer murmurou, de olhos fechados.

Anna puxou o cobertor e a cobriu, fazia cafuné em sua cabeça, e a olhava, processando tudo que havia ouvido, sentia um grande mal-estar, e uma espécie de revolta. Se pudesse arrancaria aquela culpa do coração dela.

“Me desculpe pelas coisas que falei sobre Helen aquele dia, eu não fazia ideia…”

“Tudo bem, você não fazia ideia…”

“Quantos anos ela tinha?”

Jennifer abriu os olhos, mas não olhou para cima.

“Não sei, ela nunca me falou. Ela dizia que a idade biológica era um mero detalhe. Aparentava uns vinte, mas com certeza tinha mais, ela estava terminando a faculdade de veterinária quando a guerra começou.” Jennifer ainda tinha tremores, sua camiseta já estava parcialmente molhada de suor.

“Você começou a usar aquelas coisas depois disso?”

“Sim. No início usava porque precisava, eu tinha dores no corpo todo, e também nunca conseguia dormir.”

“Mas continuou usando… até hoje.”

“Não, só de vez em quando. Na verdade só em tempos difíceis… sei que você deve estar achando que sou algum tipo de viciada, ou sei lá… eu dei margem para isso, mas não é o que parece. É que as últimas semanas foram pesadas…”

“É eu sei…”

“Desde o dia que te conheci, até o dia que terminamos, eu não tomei sequer um comprimido, nunca usei nada ao seu lado.”

“Eu substitui a sua droga…” Falou sorrindo.

“Eu não preciso de nada quando tenho você.”

Anna se dava conta que fazia parte de algo muito maior do que imaginava.

“Desculpe se te julguei… Você é uma boa garota, foi injusto isso que te aconteceu. E eu quero garantir que nada do tipo aconteça com você novamente, eu quero estar sempre do seu lado.” Anna a olhava com carinho.

“Eu sei que isso pode soar meio cafona, mas eu sentia que tinha um vazio enorme aqui dentro, e você apareceu… e preencheu tudo, tão lindamente, que eu nem acreditava que você era de verdade. Eu levei um bom tempo me contentando em apenas estar perto de você, conversar com você, esbarrar acidentalmente na sua mão, mas com o passar dos dias eu comecei a sentir uma espécie de urgência em ter mais, em poder tocar você, queria poder te abraçar sem ter uma boa desculpa para isso, queria poder te beijar, mas sabia que não seria correspondida, e isso doía muito, por isso resolvi ficar no Canadá.”

“Foi por isso que você ficou lá?”

“Posso te garantir que não foram pelos quitutes da minha vó, que são muito bons, diga-se de passagem.” Deu uma olhadela para cima.

Anna riu.

“E eu acordava todos os dias torcendo para receber uma mensagem sua dizendo ‘venha me buscar’.”

Jennifer já não tremia mais, parecia mais tranquila.

“Sente-se melhor?”

“Uhum.”

“Por que você não me contou tudo isso antes? Sobre a Helen.”

“Não é um assunto fácil… E eu não sabia como você reagiria. Tinha receio que você se assustasse… ou se afastasse.”

“Eu… nunca faria nada parecido. Mas agora que você compartilhou comigo, eu quero te ajudar a superar isso.”

Jennifer virou-se um pouco em seu colo, passou a fitar Anna.

“Você carrega esses fantasmas com você o tempo todo, seu sono é agitado e tenho certeza que é por causa disso. Você já falou o nome dela enquanto dormia.”

“Eu fiz isso?” Jennifer perguntou com a testa franzida.

“Fez.”

“Eu tenho pesadelos…”

“Alguns bem reais, você até me bate.” Sorriram.

“Meu celular está tocando?”

“Também estou ouvindo. Está lá próximo da sacada.”

Jennifer levantou e foi até a mesa próximo a porta de vidro, foi até a sacada atendeu. Anna da cama pode apenas observá-la, Jennifer estava com um semblante preocupado, parecia tentar argumentar, contrariada. Desligou o telefone caminhou com os braços caídos junto ao corpo, ainda segurando o aparelho.

“Quem era?”

“Meu avô. Ele já sabe o que aconteceu comigo essa semana.”

Anna apenas esperou ela continuar a falar, percebeu o tom de voz assustado dela.

“Ele quer que eu vá morar na Escócia.” Continuou.

 

 

        Capítulo 28 – Segunda-feira

 

Jennifer aprendia a duras penas que toda atitude acaba tendo uma consequência, as vezes imediata, outras vezes tardia.

“E o que você respondeu? Você vai para a Escócia?”

Jennifer se aproximou devagar da cama onde Anna, ainda recostada na cabeceira, lançava um olhar temeroso. Sentou-se ao seu lado, de frente para ela.

“Eu não quero ir…”

“Você tem essa opção?”

“Eu não sei, tentei argumentar mas ele parecia inflexível. Disse que me ligaria daqui alguns dias para termos uma conversa definitiva.”

“Ele quer a neta ao alcance dos seus olhos, é compreensível depois de tudo que aconteceu.”

“Mas nada disso vai acontecer de novo, eu falei para ele… Eu só quero tocar minha vida aqui.” Jennifer argumentava cabisbaixa, mexendo nas pulseirinhas em seu pulso.

“Como ele soube?”

“Ele não falou, mas tenho uma suspeita.”

“Qual?”

“Não quero acusar ninguém, vou averiguar primeiro.”

“Jim?”

Ergueu as sobrancelhas.

“Vou averiguar primeiro.”

“Quando seu avô ligar novamente, o que você irá dizer?”

Jennifer balançou a cabeça.

“Meu lugar é aqui… Mas sei que irão precisar de mim. Não sei se estou preparada para tudo isso, não quero decepcioná-los.”

“Você está falando sobre assumir o posto do seu avô?”

“Também. Talvez essa seja a parte mais fácil…”

“Tem mais coisas, não tem?”

Ela não respondeu, Anna percebeu o semblante pesaroso de Jennifer, e o silêncio dela foi compreendido.

“Tudo bem, eu sei que você não pode me contar tudo.”

“Acho que um dia vou poder te contar.”

“Eu sei… Não se preocupe com isso. Mas se for algo pesado demais, você sabe que pode dividir o fardo comigo, não sabe? Seja o que for.”

“Sei sim.” – Afagou seu rosto, com carinho. “E precisarei muito de você.”

“Ajuda se eu conversar com seu avô, prometer cuidar de você?”

“Quem sabe na próxima ligação ele esteja mais compreensível, acho que ele acabou de ficar sabendo de tudo.”

“Se você quiser, me passe o telefone que tento negociar com ele.”

“Quem sabe…”

 

No dia seguinte, na segunda-feira, Anna se dirigiu ao centro da cidade, iria visitar Max, como fazia todas as semanas. Teve uma sensação estranha enquanto estacionava a moto, próximo à ponte, olhou para todos os lados, mas acabou entrando logo na loja de Max.

“Bom dia Max.” Falou sorrindo enquanto descia as escadas que conduziam ao escritório.

“Eu conheço esse sorriso.”

Anna sorriu ainda mais com o comentário, e sentou-se na cadeira em frente à mesa de trabalho bagunçada de Max.

“O que eu posso dizer… Minha pequena voltou.”

“Já não era sem tempo!”

“Nem me fale… Essa semana foi uma verdadeira montanha russa.”

“Ela está bem agora?”

“Sim, o pior já passou, está se desintoxicando.”

“E vocês?”

Anna deu um sorriso bobo.

“Ela voltou para casa ontem à tarde, e já estou com saudades, querendo correr para o apartamento dela. Isso responde sua pergunta?”

“Responde sim…” – Deu um suspiro lento antes de continuar. “Anna, conheço você desde que usava fraldas, seu pai te trazia aqui e você mexia em todas as coisas da vitrine! Vi você crescendo, namorando, sendo noiva inclusive, mas eu nunca vi alguém te deixar desse jeito, você fica iluminada quando está com ela.”

“Ela é o meu sol.” Deu um sorriso tímido.

“Mantenha a cabeça no lugar, cuide dessa relação. Sei que já te falei isso várias vezes, mas nunca deixe uma conversa para depois, o diálogo é a chave do entendimento.”

“Estou aprendendo, Max… Sinto que aprendi algumas coisas nos últimos dias, outras coisas ficaram mais claras. É que as vezes é difícil entrar na cabeça dela… Ela tem muitos esqueletos no armário.”

“Todos nós temos…”

Anna se ajeitou na cadeira, e falou num tom mais brando.

“Mas o avô dela quer levá-la para a Escócia…”

“Quer que vá morar com ele?”

“Sim. Ela quer ficar, mas talvez acabe obedecendo o avô.”

“Vocês querem ficar juntas, vão encontrar um jeito, o avô deve estar assustado, quer tomar providências imediatas.”

“Bastante… Mas mudando de assunto, você tem câmeras instaladas do lado de fora da loja?”

“Não, por quê?”

“Não sei, estou com a sensação que fui seguida, não somente hoje.”

“Você viu alguém?”

“Não exatamente, mas algumas vezes tive a impressão de estar sendo observada.”

“Quer que eu coloque alguém para ficar na sua retaguarda?”

“Não… Acho que não é necessário, apenas vou ficar atenta.”

“Tome cuidado, você já irritou algumas dezenas de Titans, nunca se sabe.”

“Tomarei.”

“E aí, quer uma missão especial essa semana?”

“Sempre.”

“Nosso melhor cliente voltou a nos procurar.”

“Quem, a polícia?”

“Isso, estão com um impasse e precisam de nossos servicinhos. É uma missão conjunta.”

“Não gosto muito de missões compartilhadas.”

“Eles sempre pagam bem.”

“Você sabe que esse não é meu principal critério.”

“Eu sei… Mas vai topar?”

“Acho que Jennifer vai querer voltar à ação. Mas depende do tipo de serviço.”

“Um resgate em Newtown.”

“Hum… Prossiga.”

 

“Te acordei?” Anna perguntou após bater na porta de Jennifer naquela manhã, trazia um pequeno saco com rosquinhas.

“Não tem problema, desde que tenha comida neste saco aí.”

Anna ergueu o saco de papel branco e sorriu.

“Rosquinhas.”

“Ok, pode entrar. Mas você não me acordou não, Becca me tirou da cama cedo, veio fazer a checagem matinal…”

“Que checagem?”

“Se estou viva.”

Anna a olhou com uma sobrancelha levantada.

“Que mórbido.”

“É o jeito dela dizer que me ama. O seu é trazendo rosquinhas.”

“Mas também vim ver como você está, você deveria ter passado a noite lá em casa.”

“Vocês vão ganhar o prêmio babás do ano.”

“E quem vai entregar esse prêmio, seu avô?”

“Ok, seu argumento foi melhor que o meu, vou me recolher a minha insignificância.” – Falou sorrindo, já comendo um dos quitutes. “Você está vindo da loja de Max?”

“Sim, e resolvi passar aqui para dar um beijo de bom dia.” Andava até o sofá.

“E onde está?”

“O quê?”

“O beijo.”

Anna largou o capacete, virou-se e se aproximou. Entrelaçou sua namorada pela cintura e a beijou, mas parecia não se contentar com um simples beijo de bom dia, e o prolongou de forma voluptuosa, logo Jennifer subiu suas mãos sorrateiramente por dentro da blusa de Anna, a incendiando.

“Assim não vou parar no beijo de bom dia…” Sussurrou no ouvido de Jennifer.

“Não pare…”

O aparelho de som agora no quarto tocava uma sequência de músicas do David Guetta, e ditava o clima quente que se iniciava.

Um beijo depois já estavam dando os passos sôfregos que os amantes dão, e Jennifer já estava se atirando na cama. Anna tirou sua roupa sozinha de pé em frente a cama, com grande agilidade, enquanto Jennifer a olhava, com um olhar desejoso e um sorriso bobo, ou talvez nada bobo. Puxou Jennifer pelas pernas, a pegando de surpresa, e tirou a sua calça. Subiu na cama com os joelhos e a trouxe para próximo de seu corpo, tirando sua blusa de alcinhas brancas, finalizou a puxando pela nuca, e lhe dando um beijo que proporcionou a Jennifer todo o gosto do tesão que sentia no momento.

Jennifer soltou dos seus lábios e aproveitou da posição, quase sentada, para beijar os seios dela, mantendo as mãos às suas costas, a tocando e prendendo, percebeu que Anna suspirava mais forte agora, e arrepiava-se, quando passava seus lábios nos seus mamilos. Não demorou muito para que Anna empurrasse Jennifer de volta à cama, a deitando novamente, que prontamente tratou de escorregar para trás, Anna a seguiu, continuava com seus joelhos ao redor dos quadris de Jennifer, mas agora Anna descia seu corpo, queria sentir sua pele em contato com a pele dela, uniram-se.

Anna deslizava avidamente suas mãos pelo corpo de seu objeto de desejo, enquanto a beijava, ora nos lábios, ora no pescoço, às vezes mordiscava sua orelha. Era desejo em sua forma plena, tendo paixão como combustível, Anna agora sabia exatamente como era a dor de não tê-la mais em seus braços, em sua cama, e queria consumir cada gota de Jennifer, era muito mais que apenas fazer amor.

Desceu seus beijos pelo pescoço dela, chegou até seu seio, permitiu-se demorar em ambos os seios, com sua boca e o toque delicado de sua mão, Jennifer começava a ficar ofegante, mordia o lábio inferior. Anna desceu mais um pouco, correu seus lábios quentes até seu umbigo, e fez o mesmo caminho de volta com a língua, até o espaço entre seus seios. Voltou até a região da cintura, contornava o umbigo sem pressa, com beijos suaves, podia sentir a leve penugem da pele de Jennifer roçando seus lábios. A sentia contraindo os músculos do abdome, quando se arrepiava.

Caminhou quadril abaixo e logo sua boca encontrou o sexo de Jennifer, que como se prevendo as intenções de sua namorada, inconscientemente espaçou sua perna para o lado, deixando ainda mais fácil para Anna encaixar-se em seu baixo ventre. Pareciam que seus corpos haviam sido feitos para isto, para encaixaram-se, em qualquer posição. Anna a puxou para si, sedenta, passando sua mão por baixo da cintura de Jennifer. Percorreu as pequenas curvas quentes e molhadas com seus lábios e sua língua, pode sentir que Jennifer estava de fato entregue, de corpo, alma e excitação.

Aumentou um pouco o ritmo com seus movimentos, sentia Jennifer vibrando, arfando, parecia buscar algo com sua mão irrequieta no lençol branco. Anna a segurou pelo quadril com força, a absorvia, sorvia. Jennifer alcançou o lençol e o apertou com força, fazendo as juntas de seus dedos ficarem esbranquiçadas. Jogou a cabeça para trás, Anna pode sentir com a mão seu ventre tendo espasmos, enrijeceu, e enfim seu corpo entregou-se, com a respiração forte.

Anna ergueu um pouco os olhos e pode ver Jennifer ainda com a cabeça para trás, buscando o ar, se recompondo. Sorriu, contemplou por alguns segundos o corpo alvo e com alguns pequenos sinais marrons espalhados estrategicamente. Subiu devagar, sua boca agora apenas entregava beijos suaves no seu pescoço exposto. Jennifer voltava a si, a fitou e colocou sua mão quente em seu rosto, Anna encontrou seus lábios entreabertos e a beijou.

Jennifer a abraçou, a aninhando em seu corpo, encostou seu rosto na testa de Anna.

“Eu te amo tanto…” Murmurou com os lábios roçando em sua testa.

Anna simplesmente sorriu, e ficaram assim por algum tempo, trocando alguns beijos.

“Você está vibrando ou é algum celular?” Anna falou.

“Deve estar embaixo do travesseiro.” Jennifer respondeu, passando a mão por baixo do travesseiro e alcançando o aparelho.

“Meu avô? Já??” Sentou-se na cama, olhando para o aparelho.

“Melhor atender.” Anna sugeriu, já se cobrindo.

Jennifer sentou-se com as pernas para fora da cama e atendeu.

“Aí já é de manhã, não é?” Seu avô perguntava do outro lado da linha.

“É sim, acho que umas dez da manhã.”

“Ah bom… Como você está minha neta?”

“Me sentindo ótima.”

“Pensou sobre nossa última conversa?”

“Pensei… na verdade minha opinião continua a mesma.”

“Você está sozinha?”

“Não.”

“Anna está aí com você?”

“Sim.”

“Tem como você falar comigo a sós?”

“Ãhn… só um minuto.”

Vestiu rapidamente sua calcinha e uma camiseta.

“Já volto.” Sussurrou para Anna.

Foi para a cozinha, sentou-se numa das cadeiras.

“Pronto, estou sozinha.”

“Quer dizer que não consegui amolecer seu coração então.”

Hoje seu avô parecia mais amigável, Jennifer percebeu a mudança de tom.

“Vô… Eu entendo a preocupação, e eu adoraria morar com vocês, seria incrível, mas eu já tenho meu lugar, eu moro aqui.”

“Como posso ter meu coração em paz com você aí tão longe, sem notícias suas, sem saber como você está, se está em perigo, se precisa de ajuda, se terá uma recaída…”

“Eu sempre me virei, desculpe pelo que aconteceu semana passada, foi um deslize, mas agora estou bem melhor, e prometo mantê-lo sempre informado.”

“Não é o suficiente para mim.”

“Vô…”

“Eu te liguei hoje preparado para ouvir exatamente isto, sei que não sou páreo para a sua teimosia, por isso eu vou lhe propor um plano B, mas ouça com atenção, pois é pegar ou largar.”

“Sou toda ouvidos.”

“Se você quer continuar morando longe de mim, não posso obrigá-la do contrário, mas tenho algumas condições. Você sabe que eu prefiro resolver tudo com uma boa conversa, sem imposições, mas quando se trata da segurança da minha neta, preciso ser mais taxativo.”

“Quais são as imposições?” Jennifer a essa altura já apoiava seus cotovelos na mesa, e com a mão livre coçava a testa, apreensiva.

“Em primeiro ligar, eu conversei com os líderes do clã de Connecticut, e agora você é um membro honorário deste clã, você vai fazer parte efetivamente, não será apenas um membro, você fará parte do conselho, irá participar das reuniões, todas elas, irá frequentar a casa dos líderes, vai entrar nesse círculo e eles serão meus olhos aí. Compreendido?”

“Sim.”

“Alguma dúvida?”

“Qual a frequência dessas reuniões?”

“Não tem datas fixas, eu já repassei seu telefone e endereço para eles, irão te procurar em muito breve, e você aceitará todos os convites que receber.”

“Ok…”

“Em segundo lugar, você virá nos visitar com regularidade, não vou lhe impor uma frequência, mas vou lhe sugerir que seja de dois em dois meses, ou três. Quero me certificar pessoalmente que está tudo bem com você. Compreendido?”

“Sim senhor.”

“Bom, o terceiro item é sobre sua mesada, mas antes quero conversar sobre uma coisa com você.”

“Manda.”

“Você se recorda quando estava aqui, você estava sentada na minha frente e eu perguntei se você confiava em Anna, você me respondeu que sim. Você ainda confia nela?”

“Agora mais do que antes.”

“O que houve entre vocês? Como ela não percebeu o que estava acontecendo?”

“Ãhn… É que estávamos separadas…”

“Ela sentou diante de mim e prometeu cuidar de você, mas pelo visto as coisas não saíram como esperado.”

“Mas agora estamos juntas novamente, e sei lá, eu sinto que as coisas agora estão mais fortes, se não tivéssemos terminado eu não teria… o senhor sabe, aquela coisa toda e tal…”

“Você sabe quantos anos ela tem?”

“Vários. Ela é híbrida.”

“Eu coloquei alguns homens de confiança para buscar informações sobre ela e sua família, e talvez você não saiba de tudo que descobri.”

Jennifer ficou ainda mais apreensiva, se tivesse mais testa para franzir, era o que faria naquele momento.

“Como assim? O senhor investigou ela?”

“Apenas busquei mais informações. Você conheceu alguém da família dela?”

“Não, ela não tem nenhum parente… acessível no momento.”

“Sim, o pai, humano, morreu do coração. A mãe, Titan, num acidente de carro. O irmão desapareceu. Mas isso tudo você deve saber.

“Sim, sei disso tudo.”

“E você sabia que seu avô materno, juntamente do seu tio, de nome Victor, foram condenados à prisão pela justiça americana, por sonegação de impostos e estelionato, e fugiram para a Tailândia?”

“Não… eu só sabia que eles haviam ido morar na Ásia.”

“Anna também tem ficha policial, ela foi acusada de um homicídio há nove anos atrás, mas foi absolvida por falta de provas.”

“Não, não sabia…”

“Bom, mas você deve saber que ela foi noiva, de um rapaz de nome Robert.”

“É… sabia que havia sido noiva, há muito tempo atrás.”

“E que ela o abandonou na véspera do casamento.”

“Não, isso eu não sabia…”

“Ah, esse avô materno, que fugiu para a Tailândia, ele faleceu, há algumas semanas atrás, provavelmente nem ela saiba disso…”

“Nossa… ela não deve saber não.”

“É… pelo visto tem bastante coisa que você não sabe.”

“Mas não são coisas que mude minha forma de enxergá-la.”

“Eu sei, e esse não foi meu objetivo. Ouça…  Eu resolvi dar um voto de confiança para Anna. Você lembra como começou o terceiro item?”

“A mesada.”

“Justamente. Você não receberá mais a mesada, eu vou mandar o dinheiro para Anna, e ela vai gerenciar isto com você.”

“Eu vou ter que pedir dinheiro para ela??”

“O acordo será entre vocês, mas ela terá que prestar contas todos os meses comigo. Compreendido?”

“Isso é meio constrangedor…”

“Bom, ou ela gerencia seu dinheiro, ou eu contrato um monitor Vulpi aí na sua cidade para tomar conta de você. É você que decide.”

“Ok, Anna.”

“Certo, mas eu vou querer falar com ela, preciso dar uns puxões de orelha, só para fazer meu papel de avô. Peça para ela me ligar mais tarde, ok?

“Tá bom…”

Jennifer estava meio desnorteada com a quantidade de informações.

“Promete que não vai mais fazer nenhuma besteira Jenny?” Falou num tom de voz tenro.

“Prometo vô, sério, pode ficar tranquilo, está tudo sob controle agora.”

“É o que você sempre fala…”

 

Jennifer despediu-se de seu avô e voltou para o quarto, ainda baratinada. Quando avistou Anna não soube o que falar muito menos como esconder dela a surpresa pelos fatos recém descobertos.

“Como foi a conversa?” Anna já a aguardava vestida, recostada na cama.

“Ainda não sei exatamente.”

“Mas chegaram a um consenso?”

“Sim, eu vou ficar.” Falou sem muita animação.

“É por isso que você está nesta alegria contagiante?”

Como se despertando de um transe, Jennifer se aproximou da lateral da cama, e sentou-se próximo à Anna.

“Eu estou aliviada por poder ficar, mas ainda estou processando tudo…”

“Mas está tudo bem?”

“Sim… Na verdade ele impôs algumas condições para que eu continue morando aqui.”

“Algo muito difícil de atender?”

“Bom… Você vai gerenciar minha mesada a partir de agora, o que acha?”

“Como assim, o dinheiro vai ficar comigo?”

“Basicamente sim, você vai ter que prestar contas com meu avô todos os meses. Claro que você pode declinar dessa nobre função se quiser, e então um monitor Vulpi será contratado para ser meu monitor particular. Foi a segunda opção, mas preferi você.”

“É claro que aceito essa nobre função.” – Correu sua mão na cama e colocou em cima da mão de Jennifer. “Eu faço qualquer coisa para ter você aqui por perto.”

Jennifer correspondeu o carinho, passou a afagar sua mão com seu polegar.

“Vai ser estranho.”

“Vamos encontrar uma forma de não deixar estranho. Quais as outras imposições?”

“Agora também faço parte do clã de Connecticut e tenho que participar de todas as reuniões, além de ser amiguinha de todo o conselho e aceitar os convites que me forem feitos.”

“É uma boa forma de conhecer outras pessoas como você, aumentar sua rede de contatos, é sempre bom cultivar o networking.”

“Ainda estou me acostumando com essa ideia, mas… paciência. A outra condição é que tenho que visitá-los na Escócia de tempos em tempos, dois ou três meses de intervalo.”

“Viagem de graça para a Europa várias vezes por ano.”

“Adoro como você enxerga o lado bom das coisas sabia?”

“E não deveria enxergar? Você vai ficar, isso que importa.”

Jennifer a encarou sorrindo, se inclinou para frente e lhe entregou um beijo.

“Ou tem mais coisas?” Anna continuou.

Estava difícil conter sua curiosidade nata, Jennifer queria poder falar sobre tudo que havia conversado com seu avô, obviamente não seria uma boa ideia, mas a língua coçava cada vez mais.

“Não, foram essas as condições.”

“Vamos tirar de letra. E prometo ser uma boa monitora financeira.”

Jennifer hesitou por um instante, antes de voltar a falar.

“Se eu te perguntar uma coisa, você promete que não pergunta como eu sei disso?”

“Hum… Ok, pergunte.” Anna se ajeitou na cama, puxou as pernas cruzando para próximo de si.

“Você largou seu noivo na véspera do casamento?”

“Vocês estavam falando sobre mim?” Questionou surpresa.

Jennifer apenas cobriu a boca e balançou a cabeça, negando qualquer informação adicional.

“Seu avô me investigou? Por que ele faria isso?”

Jennifer balançou a cabeça negativamente de novo, em silêncio.

“Bom, seja quem for que obteve essa informação, deve ter falado com alguém da parte dele, porque é isso que eles falam por ai, algumas vertentes até dizem que o abandonei no altar.”

“E qual a vertente verdadeira?”

“Eu terminei o noivado uma semana antes do casamento.”

“Por que deixou ir tão longe?”

“Não tenho uma resposta satisfatória para essa questão, nem para mim mesma.”

“O casamento já deveria ter bastante coisas prontas, não?”

“Sim… algumas coisas já estavam organizadas, reservadas, mas tudo foi resolvido a tempo.”

“E o que Robert achou disso?”

“Você sabe até o nome?”

“Era Bob também?”

“Não, era Rob. E Rob não aceitou o fim da relação, mas não teve muita escolha.”

“Viu, nem doeu. Era só curiosidade mesmo, não quero resgatar velhas histórias de amor.”

“Ótimo.”

“Eu entendo o Robert…” – Falou sorrindo sarcasticamente. “Morreu na beira da praia.”

“Ok, minha vez de resgatar histórias.”

“Qual?”

“Você parece não ter dormido muito essa noite.”

“Dormi algumas horas, a mesma insônia de sempre, o que que tem?”

“Você teve aquele mal estar ontem à noite, aqui sozinha?”

“Tive…”

“Você ainda tem alguma coisa, naquela gaveta?”

“Quase nada.”

“Usou ontem quando teve a crise?”

“Não, não usei nada, apenas bebi bastante água.”

“Mas se sentiu tentada a usar?”

“Crise de abstinência é exatamente isso, não acha?”

Anna apenas lançou um olhar receoso.

“Você quer que eu me desfaça do que restou, não é?” Jennifer leu seus pensamentos.

“Você pode não resistir da próxima vez.”

Jennifer olhou sofridamente na direção do criado mudo, não tinha certeza se queria de fato se desfazer de tudo.

“Eu jogo fora depois.”

“Se é difícil para você, me deixe fazer isso então.”

Olhou novamente para a gaveta, titubeou antes de respondê-la.

“Ok, leve quando for embora.”

“Mesmo?”

“Apenas faça…”

“Hey, olhe para mim.” Anna pegou sua mão, e a puxou para perto.

“Você não precisa de nada disso.” – Continuou. “Tenho algo bem mais forte para você.”

“O quê?” Questionou curiosa.

“Uma missão quinta-feira.”

“A dupla dinâmica vai voltar à ativa?” Falou agora animada.

“Com força total. Uma missão conjunta com a polícia.”

“Polícia?”

 

 

        Capítulo 29 – O viadinho do homem aranha

 

“Já está pronta?” Anna falou mais alto, adentrando a sala do apartamento de Jennifer, era quinta à noite.

“Só vou prender o cabelo!”

“Não esqueça que tem gente nos esperando.”

Jennifer apareceu esbaforida um minuto depois.

“Pronto!” Terminava de vestir um blusinha verde escura, usava também uma calça preta e botas.

Anna se aproximou devagar, pousou ambas as mãos em seus ombros, com uma expressão carinhosa.

“Tem certeza que está pronta para voltar à ativa? Outras missões aparecerão.”

“Tudo que eu preciso é de um pouco de ação.” Falou após roubar um beijo.

“Ok Lara Croft, hora de partir então.”

A desentrelaçou e foi até a mesa, onde estavam os dois capacetes, pegou o de Jennifer e jogou para ela.

“De volta para a dona.” Anna falou.

“Espero que ninguém tenha usado na minha ausência.” Respondeu jocosamente.

“Esse não.”

“O que você quer dizer?”

Anna riu.

“Só estou te provocando sua bobona. Vamos.”

“Que tal irmos com o Ignatius?”

“Que seria…”

“Meu carro, você ainda não andou comigo. Tá, teve aquela vez que você me levou para o hospital, mas não conta porque eu estava desacordada.”

“Tudo bem, pode ser.”

“Por falar nisso, o que foi aquilo na traseira do carro?” Falou já descendo as escadas.

“Um pequeno incidente.” Anna respondeu apontando para uma placa de trânsito entortada em frente ao prédio.

“Ok, poderia ser pior… Então, como é esse lance de missão conjunta?” Questionou, já manobrando o carro.

“Dessa vez nem é assim bem conjunta, eles não entrarão conosco, vão nos esperar do lado de fora.”

“E o que faremos?”

“Nós vamos para o bairro que te falei, Newtown, encontraremos alguns policiais, de lá entraremos numa espécie de condomínio fechado, e faremos o resgate, na verdade é uma captura de um foragido da justiça.”

“Quem é?”

“É o contador da máfia local, a polícia já prendeu o chefão, mas esse cara é quem sabe de tudo, de todos os envolvidos com a máfia, por isso querem tanto prendê-lo, parece que tem alguns políticos na lista de clientes. Mas a coisa ficou feia porque isso se tornou um caso público, até o prefeito já foi na mídia falar que iria prender esse contador rapidamente, mas até agora nada, porém já o localizaram, ele está escondido nesse condomínio.”

“E por que a polícia não entra lá e pega?”

“Aí que está o pulo do gato, a polícia não pode entrar nesta vila de segurança máxima, porque é um reduto de figurões e chefes do tráfico, eles tem um acordo com alguns superintendentes dentro da corporação, eles pagam uma espécie de propina para que a polícia não chegue nem perto deste lugar.”

“A polícia não pode entrar mas contrata gente como a gente para fazer o serviço deles.”

“Exatamente, eles nos acompanharão até certo ponto, depois é com a gente, entramos, procuramos o nosso homem, o tiramos de lá e entregamos para eles.”

“Simples assim.”

“Não tem missão simples, essa vila deve ser muito bem vigiada, vamos encontrar alguns obstáculos, se é que você me entende… O cara em si não representa nenhum risco, é apenas um contador, mas encontraremos resistência até chegarmos ao objetivo e depois para sair.”

“Entendi…”

“Então já sabe, fique sempre atrás de mim, não tente nada maluco nem arriscado, não faça barulho e não se distraia com bichinhos de estimação.”

“Isso só aconteceu uma vez, e até você achou o gatinho fofo.”

“É aqui, eles estão ali do lado das árvores.”

Anna falou apontando para uma viatura parada num local mais alto, de onde se tinha a visão do condomínio em questão, inúmeras casas vistosas cercadas por pequenas ruas asfaltadas e bem iluminadas. Saíram do carro e logo viram um policial negro com feições simpáticas saindo do carro, e do outro lado uma policial de cabelos negros e óculos.

“Jenny? Que surpresa te encontrar aqui!” Laura, devidamente fardada com seu uniforme preto, se aproximava delas, sorridente.

“Que coincidência não?” Jennifer respondia timidamente e um pouco nervosa, olhou de relance para Anna, e correspondeu meio sem jeito ao beijo e abraço que Laura havia lhe dado. Anna observava a cena sem entender o que acontecia, com a testa franzida.

“Oi Anna, tudo bom?”

A cumprimentou sinalizado com a cabeça.

“Oi Laura.” Falou não muito alto.

O outro policial se aproximou com uma pasta e foi logo mostrando o conteúdo para elas.

“O oficial Hills vai mostrar a provável localização do nosso alvo, e também algumas fotos, para vocês o reconhecerem.” Laura falou com desembaraço.

O policial mostrava algumas plantas e rabiscos às duas garotas, enquanto Laura se aproximava de Jennifer, e falava próximo de seu ouvido.

“Que bom te rever aqui, nem imaginava que você era algum tipo de heroína noturna…”

“Esse desígnio é por sua conta.” Jennifer tentava prestar atenção às orientações, mas sem sucesso.

“Então… você… e Anna… voltaram?”

“Sim, voltamos.”

Jennifer sabia que Anna já havia sacado que havia acontecido algo entre elas, àquela altura seria desnecessário qualquer tentativa de encobrir, mas também não seria ela que contaria abertamente, esperaria Anna perguntar, o que ela sabia que aconteceria mais cedo ou mais tarde.

“Fico feliz por vocês, mesmo. Bom, mas se as coisas mudarem… Você sabe, você tem meu telefone.”

“Obrigada oficial, já pegamos todos os detalhes, não é Jennifer?” Anna falou mais alto, interrompendo a conversa paralela.

“Ãhn… Claro, já temos as informações que precisamos.” Respondeu.

“Então vamos entrar.” Anna conduzia Jennifer na direção do condomínio, com uma mão à suas costas.

“Espere, leve esse rádio comunicador com vocês, qualquer emergência entre em contato.” Laura entregou o aparelho à Anna, que estava com um semblante de poucos amigos.

“E tomem cuidado, ok meninas?”

Anna apenas lançou um olhar fulminante. Fazia uma noite de verão agradável e fresca, Anna usava uma regata negra, de alças finas, e por cima vestia seu coldre com duas adagas guardadas. E no cós da calça, atrás, uma arma.

A dupla desceu o pequeno barranco que dava acesso ao muro, onde pularam rapidamente. Jennifer olhava atentamente para os lados, curiosa e planejando o percurso.

“Acho que devemos ir por ali, por trás daquelas casas brancas.” Apontou.

“Então você conhece a Laura.” Anna a questionou de bate pronto.

“É, conheço.” Respondeu sem maiores reservas, mas de forma econômica.

“Hum.” – A olhou por mais um instante. “Ok, vamos naquela direção, ande rápido, mas não corra.”

Andaram por trás de grandes casas sem muros, até chegarem numa pequena rua, onde havia uma guarita de vigilância, um forte segurança estava de pé ao lado, conversando com outro que estava no interior.

“Como vamos passar para o outro lado?” Jennifer indagou sussurrando, estavam próximas à quina de uma das casas, observando.

“Faça barulho.”

“O quê?”

“Faça algum barulho, mas algo discreto.”

Jennifer olhou ao redor, pegou uma pequena pedra e atirou para frente, mas nada aconteceu.

“Você é bem melhor que isso em se tratando de fazer barulho.” Anna falou, empunhando uma arma próximo ao rosto.

Haviam algumas latas de lixo nos fundos, Jennifer as fitou e de repente todas rolaram pelo chão, atraindo a atenção do segurança que estava do lado de fora.          Quando ele se aproximou, Anna o puxou pelo pescoço e arrastou para trás da casa, ele ainda tentou revidar, acertando um soco não muito certeiro no rosto de Anna, que tratou logo de eliminá-lo com sua arma.

“Se machucou?” Jennifer se aproximou e observou de perto o rosto dela.

“Não, está tudo bem, vamos pegar o outro.”

Novamente espiaram a guarita, aguardando o melhor momento de fazer a abordagem. Anna deu uma boa olhada em Jennifer, pensativa.

“Conhece ela há muito tempo?”

“Quem, Laura? Não, conheci recentemente.”

“Quando estávamos separadas?”

“Ahan. Hey, o outro cara está olhando desconfiado para cá, temos que agir logo.”

“Fique atrás de mim.”

Anna ergueu novamente a arma, deu mais uma espiada e correu até a guarita. O elemento que vigiava não era de grande porte, deveria ser alguma espécie de sentinela, mas era ágil. Ele sacou sua arma mas Anna conseguiu impedi-lo de atirar, segurando seu braço para o alto. Permaneceram assim, se digladiando, ambos segurando suas próprias armas e o braço alheio.

Jennifer que inicialmente olhava a situação e ao redor preocupada, sacou sua adaga da bota e cravou na lateral do abdome do vigia, tendo o cuidado de cobrir sua boca, o segurando por trás, para evitar chamar a atenção. Ele ainda soltou um grunhido abafado pela mão de Jennifer, antes de cair no chão.

“Termine o serviço.” Jennifer falou para uma Anna arregalada.

Anna prontamente finalizou com sua arma e seguiram para trás das casas novamente, correram pelos quintais e recostaram-se na parede sob a penumbra, recuperando o fôlego. Anna virou-se na direção dela na menção de falar algo.

“Não precisa agradecer.” Jennifer falou em tom de brincadeira.

“Você não aprendeu tudo isso comigo, não é?”

“Nem tudo, eu fiz um bocado de aula de defesa pessoal depois daquele… incidente no porto. Sabe como é, eu precisava aprender a me defender.”

Anna olhou para frente e fez uma expressão séria.

“O que foi?”

“A casa rosa, deve ser aquela lá.” Anna falou apontando com a mão para uma casa no final daquele quarteirão.

“O que tem a casa rosa?”

Anna apertou os olhos, em recriminação.

“Prestou bastante atenção às instruções do oficial Hills, pelo visto.” Falou com sarcasmo.

“O cara está nessa casa rosa?”

“Aparentemente sim, se bem que pode haver mais casas rosas aqui… Mas vamos arriscar. Preparada para entrar?”

“Já estou lá dentro!”

Jennifer tinha uma carta na manga, Anna também havia ficado com uma garota naquela mesma época, por isso não estava levando muito a sério as provocações de Anna, apesar de ter ficado tensa assim que viu quem era a policial que as aguardavam. Esperava não ter que usar esta carta, mas se o tom da conversa piorasse, usaria.

“Na minha retaguarda.”

Anna arrombou a porta dos fundos da casa rosa, entraram num ambiente escuro, era a cozinha, e estava vazia. Continuaram passo atrás de passo adentrando os cômodos, andando pelos corredores, ouviam um som vindo do andar de cima, logo subiram as escadas até encontrarem uma porta fechada, com o som de TV vindo de dentro.

Se emparelharam uma em cada lado da porta, Anna gesticulou indicando que ela entraria na frente, na contagem de três. Abriram a porta com vigor e um homem aparentando uns quarenta anos, magro e com duas entradas calvas proeminentes no cabelo castanho, estava deitado numa cama, assistindo TV.

Deu um pulo com o susto da entrada das garotas mercenárias, olhou assustado para elas, permanecendo sentado na cama.

“Largue isso em cima da cama, calmamente.”

“Mas é só um controle remoto.”

“Largue calmamente. Colabore e ninguém sairá ferido.” Anna falava pausadamente.

Naquele momento Jennifer lembrou do que seu avô falara, que Anna havia sido acusada de homicídio há nove anos atrás, se deu conta que ela fazia aquilo há muito, muito tempo. Era literalmente ver para aprender.

“Levante da cama, e vire-se para a parede.”

“Para onde vocês vão me levar?”

“Para a prisão.”

“Vocês são policiais??”

“Não, somos escoteiras.” Anna respondeu com ironia.

Jennifer riu.

Lentamente ele desceu da cama e colocou as mãos na parede ao lado. Anna se aproximou, baixou seus punhos e o algemou, com as mãos para trás.

“Jennifer venha aqui. Consegue conduzi-lo, enquanto vou na frente abrindo alas?”

“Claro, é só levá-lo, assim, segurando pelo braço?”

“Segure pelas algemas.”

“Eu vou de pijamas?” O homem perguntou.

Anna e Jennifer se entreolharam.

“Deixe ele pelo menos ser preso dignamente.” Jennifer sugeriu.

Anna hesitou, mas permitiu que ele vestisse um casaco.

“Tá ótimo, para onde você vai não precisará dessas roupas.”

Saíram do quarto e ouviram barulho no andar de baixo.

“Tem gente lá.” Jennifer sussurrou.

“Espera, vou dar uma olhada, fique aqui com ele.”

Desceu alguns degraus e voltou rapidamente.

“Tem dois homens lá embaixo.” Falou preocupada.

“São os seguranças, eles são bem fortes para vocês mocinhas, acho melhor me deixarem aqui mesmo.” O alvo se pronunciou.

Anna subiu os dois degraus que faltavam para o patamar onde eles se encontravam, e o encarou de perto.

“Você vai sair daqui com a gente, acostume-se com esta ideia, ok?” Falou rispidamente.

“Vamos descer?” Jennifer questionou, preocupada.

“Sim, segure bem esse indivíduo, fique com seu punhal na mão, e me siga. E você, espertinho, não tente nada, ela tem autorização para machucar você, acho que deveria saber disso.”

Começou a descer devagar a escada escura, chegando até o corredor. Esperaram um momento e Anna correu na direção da sala onde os dois homens estavam. Sem pestanejar atirou neles, dando tiros certeiros e não dando tempo para uma reação.

“Viu, ela estava falando sério.” Jennifer falou no ouvido dele.

“Anda, vamos.” Anna seguiu com passos largos na direção da porta dos fundos, Jennifer a seguiu, arrastando-o pelas mãos.

Assim que saíram da casa, puderam avistar um grupo armado reunido bem ao lado, mais à frente. Rapidamente elas voltaram para a porta da casa, se escondendo.

“Por onde vamos?” Jennifer perguntou.

“Não podemos voltar por onde viemos, teremos que dar a volta pelo condomínio.”

“Agora?”

“Sim, vamos pelo outro lado.”

Anna correu na frente, e a dupla inusitada a seguia. Corriam pelos fundos das casas até chegarem numa outra rua, Anna parou bruscamente.

“O que foi?”

“Outro grupo armado. Espere aqui atrás de mim.”

Anna deu outra espiadela, viu um grupo de cinco homens parados, conversando, e empunhando submetralhadoras.

“Não temos chance com esse grupo, temos que esperar que eles saiam daqui, não podemos voltar.” Anna explicava à Jennifer.

“Ok, tomara que aqui não seja algum ponto de encontro de seguranças fortemente armados.”

Anna expiou novamente, e encostou-se na parede da casa.

“Temos que esperar.” Fulminou.

“E você fique quieto, seja um bom menino. Qual seu nome?” Jennifer falou para seu refém.

“Joshua. Mas pode me chamar de Josh.”

Anna continuava alerta, empunhando sua arma. Então voltou seu olhar para Jennifer, a fitou.

“Onde você conheceu Laura?”

“No pub do Joel.”

“Você esteve lá? Sozinha?”

“Sim, qual o problema?”

“Aquele bairro é perigoso, ainda mais à noite.”

“Essa é a sua única preocupação?” Perguntou com sarcasmo.

“O que foi fazer lá?”

“Fui conhecer o famoso pub que você frequenta, me divertir um pouco.” Falou ajeitando seu cabelo, jogando alguns fios para trás das orelhas, displicentemente.

“Conheceu alguém além de Laura?”

“Sim, algumas amigas dela. Por falar nisso, precisamos fazer amizade com mais híbridas, elas são tão divertidas.”

O homem que estava à frente, preso, olhava de um lado para outro, para Anna e Jennifer, como acompanhando um jogo de tênis, interessado na conversa.

Anna apenas balançou a cabeça, assimilando. Depois expiou novamente a lateral da casa.

“Pronto, rua liberada, vamos adiante.”

Saíram detrás da casa, não tinham como seguir pelos quintais, precisariam pegar a rua naquele trecho. Assim que pisaram no asfalto ouviram latidos e sem conseguir detectar de onde, surgiu um sentinela conduzindo um cão de grande porte, preso pela coleira.

Jennifer praticamente pulou em cima do cachorro, o segurando pelo pescoço e focinho, enquanto Anna dominava o vigilante, caindo no chão com ele abaixo de si, logo já estavam rolando e trocando socos. O refém apenas acompanhava a ação, atônito.

Anna levou alguns golpes no rosto mas conseguiu finalmente empunhar sua arma e eliminar a ameaça, enquanto Jennifer arrastava com dificuldade o cachorro até próximo de algumas árvores, numa espécie de pracinha com cercas baixas. Quando Anna se aproximou dela, o cachorro já estava devidamente preso num elo da cerca tubular, que cercava a grama, Jennifer percebeu que Josh começava a correr na direção da casa de onde viera, correu atrás dele e o derrubou no chão, Anna correu logo em seguida, e segurou a cabeça dele contra o concreto da calçada.

“Outra tentativa dessas, e você vai virar comida para aquele cachorro, entendeu??” Anna bradava em seu ouvido.

Anna ainda o segurava no chão, quando Jennifer saiu correndo, na direção do cachorro, que latia, abaixou-se e começou a conversar com o animal. Anna levantou o homem do chão e ficou aguardando Jennifer atrás da casa, a olhando curiosa.

“Pronto, agora ele não vai mais chamar atenção.” Jennifer falou ao voltar.

“O que você fez?”

“Conversei com ele, o acalmei.”

Anna apenas a encarou com as sobrancelhas franzidas.

“Ok, vamos seguir nesse caminho. Pegue sua encrenca de volta.” Falou entregando os punhos algemamos dele.

“Deixa eu ver.” Jennifer se aproximou de Anna, e limpou o sangue que escorria de seu nariz.

“Não foi nada.”

“Incrível, você sempre sangra o nariz, precisa ir no médico ver isso.”

“Você se machucou?”

“Ele mordeu minha mão, mas foi de leve.” Mostrou a mão com alguns pontos perfurados.

“Em casa eu limpo isso, não se pode brincar com mordida de cachorro, tenho que desinfetar bem esses furos.” Anna falava enquanto olhava de perto a mão dela, a segurando com as duas mãos.

Atravessaram a rua e andaram na frente de duas casas, até voltarem a caminhar por trás das casas, pelos quintais escuros e cheios de obstáculos e tranqueiras. Anna seguiu na direção de um carro estacionado ao lado de uma das casas, e parou ao lado, se abaixando.

“Tem alguém ali, se abaixem.”

Anna se abaixou de frente para o carro, espiando através da janela do motorista. Jennifer deu uma olhada pelo vidro mas logo se abaixou, deslizando de costas pela lataria do carro, até quase sentar-se, seu companheiro daquela jornada fez o mesmo, sentando-se ao seu lado.

“É outro vigia, vamos ver para que lado ele vai.” Anna informou.

“Então… Ela é sua namorada?” Josh perguntou para Jennifer, em voz baixa.

“É sim.”

“Bem durona ela hein?”

“Você ainda não viu nada.” Falou com um sorrisinho nos lábios.

“Ele foi embora, vamos para aquele lado.” Anna falou tocando no ombro de Jennifer.

“Quantos seguranças tem nessa porra de vila?” Jennifer questionou, enquanto caminhavam por trás das casas.

“Aqui tem mais vigilância que sua melhor penitenciária.” Ele respondeu.

“Não somos policiais.”

“Então o que vocês são?”

“Super heróis. Eu sou a Lara Croft e ela é a Mulher Maravilha.” Jennifer respondeu, se divertindo.

“A Lara Croft é um super herói?”

“Ela é mais valente que o veadinho do homem aranha.”

“Não ouse falar mal do homem aranha.”

“Você realmente acha que soltar teias é um super poder?”

“O Batman é um super herói e não tem super poderes.”

“Tem um super cinto de utilidades.” Jennifer respondeu enfática.

“Ok, qual seu problema com o homem aranha?”

“Nenhum. Mas aquela roupinha dele… Vou te contar viu.”

“Ah claro, e a Mulher Maravilha usa roupas bem melhores.”

“Agora você tá brincando com fogo rapazinho.”

“Hey, dá para fazer silêncio?” Anna interrompeu o debate acalorado.

“Onde estamos?” Jennifer perguntou, desorientada.

“Chegamos numa quadra de esportes, logo ali do lado tem duas guaritas, bem frequentada pelo visto. Temos que atravessar essa quadra e chegar até o muro, ali, está vendo?” Apontava para o muro há uns cinquenta metros da guarita, onde havia arbustos.

Estavam diante de uma quadra de concreto, com duas pequenas arquibancadas laterais, permaneciam abaixadas atrás de um conglomerado de lixeiras.

“Vamos atravessar a quadra?”

Anna pensou um pouco antes de responder.

“Sim, tentem não chamar atenção.”

Foram caminhando, devagar, abaixados, pela quadra, quando foram surpreendidas por tiros, vindo das guaritas. Correram para próximo da arquibancada com alguns poucos degraus de concreto, os tiros passavam próximos deles, os zunidos pareciam passar raspando seus ouvidos.

“Algum tiro atingiu você?” Anna perguntou, apalpando as roupas de Jennifer.

“Não, tá tudo tranquilo. E você?”

“Acho que não.”

“Atingiu sim, olha aqui seu braço.” Falou segurando seu braço, próximo ao ombro, onde havia um pequeno rasgo na pele.

“Foi de raspão.”

“Vai levar pontos.”

“Não, água oxigenada resolve.”

“E agora, para onde vamos?”

“Vamos esperar eles virem para cá. Não sei quantos são lá, melhor enfrentarmos aqui, num campo aberto.”

“Ok então.” Sentou-se, e logo os outros dois sentaram-se também.

Anna segurava sua arma com as duas mãos, juntas a sua frente, esperando pela abordagem, que talvez não acontecesse.

“Tudo bem com você?” Jennifer virou-se para o homem sob seu poder.

“Acho que sim… Vocês são loucas sabia?”

“E você só percebeu agora?” Jennifer riu.

Esperavam já por dois longos minutos, mas nada aconteceu. Anna passou a respirar com mais calma, ainda com a arma em riste, e olhou para Jennifer, que estava pacífica, segurando o punho do seu companheiro.

“Sério, não quero te julgar, mas com qual objetivo você foi naquele bar? O que procurava?” Anna indagou.

“Diversão, já te disse.”

“Por que um pub frequentado por híbridos?”

“Sei lá, eu estava bêbada.”

Anna a olhou por mais um instante, levantou-se e olhou na direção das guaritas. Novos disparos foram feitos, ela logo abaixou-se novamente, arregalada.

“Eles vão ter que vir.” Anna murmurou.

“Virão.”

Baixou a arma, voltou a olhar Jennifer.

“Você ficou com Laura, não ficou?”

Jennifer a encarou por um segundo, e deu um sorriso inseguro.

“Você não está preparada para ouvir a resposta.”

“Se perguntei, é porque estou preparada.”

“E você, já ficou com ela?”

“Não, nunca fiquei com ela.”

“Mas ela já tentou ficar com você.”

“Já.”

Josh às olhava, franzindo as sobrancelhas, acompanhando o desenrolar da conversa.

“Ok, se é isso que você quer ouvir… Sim, nós ficamos, foi uma vez apenas.” Jennifer finalizou.

“Eu sabia… desde o início, aquele ‘oi’ acalorado que ela te deu…”

“Olha, se você não ficou com ela, não posso fazer nada, eu não me arrependo, foi só uma aventura de uma noite, você entende bem disso.”

“Mas por que ela? Por que uma híbrida?”

“Por que não? Nós estávamos separadas, o que que tem?”

“Não sei… logo a Laura, uma pessoa que eu conheço.”

“Não vejo motivo para esse drama.”

“Vocês estavam separadas, ela podia ficar com qualquer pessoa, ela não sabia que você conhecia Laura, não é?” O refém resolveu participar da conversa que acompanhava atentamente.

“Exatamente, eu nem sabia que você a conhecia.” Jennifer corroborou com seu refém, gesticulando ao falar.

“Mas era um lugar que eu frequentava, as chances de ser uma conhecida minha eram grandes.”

“Sim, mas o ponto é que vocês não estavam juntas, você não pode recriminá-la.” Josh insistia.

“Até ele sabe que não foi nada demais.” Jennifer falou enfática.

“Tantas pessoas nessa cidade, e logo ela?”

“Qual seu problema com ela?”

“Sim, qual seu problema com Laura? Você se arrepende de não ter ficado com ela quando teve oportunidade?” Josh argumentava juntamente de Jennifer.

“Problema nenhum, quando ela veio ficar comigo, eu já estava com outra pessoa engatilhada, foi uma opção minha.”

“Foi apenas uma aventura aleatória.” Jennifer tentou finalizar.

Anna olhou impaciente para ambos, e fitou Jennifer.

“Dormiu com ela?”

“Hum… É, digamos que sim…” Falou sem muita segurança.

Anna a olhou séria, uma ira incômoda teimava em querer dar as caras, mas ela se esforçava para manter o controle.

“Ops…” Josh murmurou, fazendo uma expressão de ‘melhor não me meter’.

De repente o rádio soou um chiado, seguido de uma voz feminina.

“Como estão as coisas aí, baby?” Laura perguntava.

“Baby? É com você.” Anna falou com desdém, entregando o rádio para Jennifer.

“Já temos o alvo, vamos sair daqui a pouco.” Jennifer respondeu ao rádio.

“Vamos?” Anna completou.

“Eles não virão até aqui.” Jennifer falou, encerrando aquela conversa.

Anna deu mais uma olhada ao redor, voltou a espiar os vigias.

“Vamos correr para os arbustos. Corram como se suas vidas dependessem disso, e na verdade dependem.”

“Vamos levar um tiro.”

“Corram abaixados, a distância não é tão grande.”

Josh levantou a mão.

“Diga.”

“Posso ficar aqui?”

“Não, você vai correr também. Jennifer, não o solte.”

“O que, esse homem aranha aqui? Não vai muito longe.”

“E você acha que um arco e flecha faz da Lara Croft muito mais equipada que o homem aranha?”

“A questão não é equipamento, é a valentia, a coragem que ela tem.”

“Ela nem tem um gibi, é um personagem de vídeo game!”

“Gente, foco!” Anna chamava a atenção deles.

Olharam assustados para Anna.

“E agora?”

“Sebo nas canelas.”

Pegou a mão livre de Jennifer e saiu correndo curvada na direção dos arbustos e do muro, ambos os seguiram da mesma forma. Os tiros novamente foram ouvidos próximos, mas nenhum os atingiu. Pularam o muro, e com dificuldade pularam Josh, correram acompanhando o muro até chegar onde estava a viatura, os aguardando.

Subiram o pequeno morro que dava para as árvores, e chegaram ofegantes até o carro. Os dois policiais saíram prontamente, os recebendo.

“Prontinho, aqui está a encomenda.” Jennifer falou ao chegar.

O trio estava diante de Laura, que sorriu e deu uma conferida em Josh.

“Vocês não brincam em serviço mesmo?” Falou num tom leve.

“Agora é com vocês. Aliás, Laura, para onde ele vai agora? Para a delegacia?”

“Laura?? Você é a Laura?” Josh falou, num tom surpreso.

“Sim, por quê?”

“Minha cara, você precisa fazer sexo com essas duas com urgência.”

Anna e Jennifer se entreolharam sem jeito, e olharam ainda mais sem jeito para Laura.

“Leve logo esse elemento, já nos encheu o suficiente por hoje.” Anna falou, meio desconcertada.

Observaram o outro policial o conduzindo para dentro da viatura, segurando pelo braço.

“Bom meninas, vocês sabem com quem fazer o acerto dessa missão, quem sabe outras missões como essa surjam não? Foi um prazer trabalhar com vocês hoje.” Piscou.

“Até a próxima Laura.” Jennifer se despediu.

Laura fez menção de ir para a viatura, mas voltou.

“E só para constar, eu toparia.” Sorriu com malícia, ajeitou os óculos, e entrou no carro.

Ambas olharam a viatura indo embora, lado a lado. Então se entreolharam, sérias. Jennifer não resistiu e começou a rir, Anna a encarou, mas acabou rindo também.

“Jennifer, Jennifer…” Balançou a cabeça.

“Vamos para casa?”

“Vamos.”

 

“É bom estar de volta à ativa…” Jennifer comentava, ao entrar em seu apartamento largando as chaves em cima da mesa, seguida por Anna.

“Essa foi a missão mais estranha que já participei.” Anna respondeu, indo na direção do banheiro.

“Eu me diverti.”

Foi até e geladeira, deu uma olhada e pegou duas cervejas, seguiu até o sofá onde Anna já ligara a TV e sentara.

“Você está muito tensa, tome.” Lhe entregou uma das garrafas.

“Obrigada.” Respondeu séria.

Jennifer sentou em seu colo, de frente para ela, com um sorriso apaziguante, e a fitou.

“Está tudo bem?”

“Ainda não, mas vai ficar. Estou digerindo tudo.”

“Ok, eu espero então.” A olhou por alguns segundos. “E agora?” Riu.

“Eu não consigo ficar brava com você quando você me olha desse jeito.” Quase sorriu.

“Então está funcionando.”

“Está sim.” Anna relaxou um pouco, colocou uma de suas mãos na cintura de Jennifer.

“Ficou alguma dúvida? Sobre Laura.”

“Hum… Acho que não.”

“Não quero ver você tirando suas próprias conclusões, estou jogando limpo com você.”

Anna a fitou, um pouco receosa.

“Foi aqui, na sua casa?”

“Eu não entendo essa sua necessidade em saber de detalhes.”

“É, talvez eu seja masoquista.”

“Ok… sim, foi.”

“Hum…” Desviava do olhar dela.

“Chega de Laura por hoje?”

“Sim… É no meu colo que você está agora, não é mesmo?”

“Adorei sua linha de raciocínio, essa é a nova Anna?”

“Eu andei lendo alguns livros de autoajuda.” Sorriu.

“Que mentira, você odeia isso.”

“Ok, não li, mas tive bastante tempo para refletir nas últimas semanas, não quero deixar meu ciúme estragar mais nada. Não prometo que consiga sempre, mas vou tentar.”

Jennifer soltou sua garrafa no chão, e levou a mão ao rosto de Anna, carinhosamente, correndo seus dedos em sua face. Anna colocou sua mão por cima da dela, a conduziu até sua boca, beijando sua palma.

“É você quem eu amo.” Jennifer falou baixinho, com doçura.

Anna deu uma longa piscada, suspirou com um sorriso tímido, sentiu uma onda pulsante em seu peito, e encontrou a paz que procurava dentro dos olhos de Jennifer.

“Eu sei.”

“Que bom.” Jennifer deu um sorriso aberto, a segurou com as duas mãos e por fim a beijou.

 

Pouco mais de uma semana passou-se, era véspera do aniversário de Anna mas nada além de uma sexta-feira como qualquer outra. Trabalhava em sua oficina, compenetrada naquele início de tarde, manuseando um esmeril barulhento, quando foi surpreendida com a visita de Jennifer, que foi logo entrando.

“Nossa, que coisa barulhenta!” Jennifer reclamou.

“O quê?” Respondeu desligando a máquina.

“Você vai acabar ficando mais surda do que eu.” Se aproximou e deu um beijo rápido.

“Estava passando por aqui e resolveu me fazer uma visita?”

“Não, na verdade…”

“Oi Anna!” Bob interrompeu, aparecendo na porta da oficina.

“Visita surpresa em dose dupla?”

“Mais surpresa do que visita na verdade. Preciso de algumas coisas suas, empresta?”

“Que tipo de coisas?”

“Bob, me refresque a memória, precisamos de uma furadeira, uma broca número…”

“Dezesseis.”

“Ok, uma broca de vídea números dezesseis, buchas do mesmo número… Os parafusos nós já temos não é?”

“Sim, só precisamos das buchas mesmo.”

“Precisamos de uma chave de fenda grande, um martelo e uma escada.”

“Vão fazer alguma espécie de festinha?”

“Vamos torturar algumas pessoas.”

“O quê?”

“Claro que não. Você tem essas coisas?”

“Sim, naquele armário ali na última porta tem quase tudo que você falou. O martelo está aqui nesta caixa e a escada está encostada do lado da porta.”

“Ótimo, Bob pegue as coisas ali no armário.”

Depois de pegarem tudo já estavam se encaminhando para a porta quando Anna perguntou curiosa.

“Querem ajuda?”

“Não, na verdade não saia daqui até voltarmos, não nos siga, estou falando sério.”

“Voltam hoje, não?”

“Talvez.” Riu.

Alguns minutos depois, Anna já estava absorta em outra tarefa, quando começou a ouvir o barulho abafado da furadeira vindo de algum lugar dentro de sua casa.

“Era para usar aqui??” Balbuciou para si mesma.

Enquanto isso em outro cômodo, Bob segurava a escada enquanto Jennifer manuseava a furadeira. Sentiu seu celular vibrando no bolso e parou para atender.

“Bom dia Jenny!”

“Na verdade aqui já é boa tarde vô.”

“Ah ok. Como estão as coisas por aí?”

“Se melhorar estraga.”

“Você e suas frases prontas que não dizem nada…”

“Tá tudo bem mesmo, acredite.”

“Estou ligando para dizer que já transferi o dinheiro para Anna. Já chegaram à algum acordo sobre como as coisas serão?”

“Prestarei contas à ela, fazer o que…”

“Ótimo. Bom, tenho uma notícia para vocês.”

“A mesada teve reajuste?” Riu.

“Não, outro tipo de notícia.”

“Sou toda ouvidos.”

“Acho que localizei o irmão de Anna.”

 

 Capítulo 30 – O melhor aniversário de todos

 

“Você madrugou?” Anna despertava um pouco assustada, com Jennifer em cima dela em sua cama.

“Só porque é seu aniversário. E tive que colocar meu celular para despertar, eu nunca consigo acordar antes de você.” Falava ainda com os olhos naturalmente inchados de quem acabou de acordar e não dormiu muito, mas de forma animada.

“Sério? Hoje é meu aniversário?” Falou brincando.

“Não me diga que errei a data? Mas eu olhei na sua carteira, lá dizia onze de maio.”

“Você já foi mais esperta Jennifer…” Riu.

“Ah ok, pegadinha antes do meio-dia… eu sempre vou cair, ainda não acordei completamente.”

“Já podemos voltar a dormir?”

“Você acha mesmo que te acordei só para isso? Anda, vamos lá embaixo.” Falou já saindo da cama.

Anna levantou-se também, com preguiça. Jennifer a conduziu pela mão escada abaixo, até um dos quartos do andar inferior.

“Espero que não tenha espiado.”

“Juro que não.”

Abriu a porta e mostrou seu presente de aniversário, pendurado no teto.

“Esse é um dos dois presentes de aniversário que tenho para você.”

No alto pendia um grande saco de pancadas vermelho, bem no centro do cômodo.

“Então era isso que vocês estavam aprontando ontem.” Olhava sorridente.

“Para você parar de esmurrar coisas por aí.”

“Acho que será útil.” Anna se aproximou e começou a dar alguns jabs de leve, com a mão direita.

“Sinceramente não sei como você ainda não tinha um desses em casa.” Jennifer apenas observava.

“Eu teria economizado com redecoração.” – Finalizou dando um gancho com a esquerda, e abraçando o pêndulo em seguida. “Quantas vezes você tentou prender isso?” Falou olhando para cima, e contando uma dúzia de furos mal sucedidos no teto.

“Até pegar prática com a furadeira. Então, gostou?”

Anna caminhou devagar até ela, com um sorriso gostoso nos lábios.

“Adorei, obrigada.”

Jennifer lhe deu o esperado beijo e abraço de aniversário.

“Não esqueça de me entregar a nota fiscal depois, para prestar contas com seu avô.” Anna brincou.

“Que situação…” – Jennifer balançou a cabeça. “Bom, tem um outro presente, mas esse só vou te entregar a noite, depois da festa.”

“Que festa?”

“A que vai acontecer aqui na sua casa.”

“Eu nunca faço festa.”

“Eu sei, eu que estou cuidando disso.”

Anna apenas a olhou um pouco boquiaberta.

“Não se preocupe com nada, apenas esteja aqui a noite. E me diga qual o melhor lugar para instalar o touro mecânico.”

“Sério?”

Jennifer riu.

 

“Oi Max!” Jennifer recepcionava o primeiro convidado a chegar naquela noite.

“Não me diga que fui o primeiro?”

“Não, eu fui a primeira, relaxa.”

“Fiquei em dúvida se você havia falado seis ou sete horas.”

“Na verdade eu falei oito, mas tudo bem. Vamos, entre, Anna já vai descer.”

Jennifer ainda andava de um lado para outro cuidando dos últimos ajustes, quando teve sua atenção tomada por Anna, que descia as escadas já pronta para a festa. Usava uma blusa vermelha, com um caimento que deixava um ombro a mostra, e jeans.

“Vermelho definitivamente deveria ser a sua cor.” Jennifer foi até o pé da escada e colocou as mãos em sua cintura, com um sorriso bobo.

“Não, preto é a minha cor.”

“Reveja seus conceitos baby.”

“Jenny tem razão, você fica ótima de vermelho.” Max falou do sofá.

“Max, não o vi, me desculpe.” Anna foi conversar com seu velho amigo e não demorou muito para outros convidados começassem a chegar.

Jennifer havia cuidado de todos os detalhes, próximo à cozinha havia uma farta mesa com tira gostos e aos que chegavam, ensinava o caminho até às bebidas, queria que todos se sentissem à vontade, como numa reunião íntima, principalmente Anna, que provavelmente não comemorava um aniversário daquela forma há muito tempo.

A luz estava baixa, havia um globo espelhado pendurado próximo à lareira, onde havia algumas caixas de som e uma amiga, Samantha, cuidava das músicas. Também haviam balões por toda grande sala, e bandeirolas pela parede. Algumas cadeiras estavam espalhadas mas a maioria das pessoas permanecia de pé, conversando.

Anna deixou o sofá que dividia com outros convidados e foi na direção da cozinha, buscar mais bebida.

“Estou lisonjeada com a presença da aniversariante aqui.” Jennifer brincou, quando viu Anna entrando.

“E a aniversariante está imensamente feliz com a bagunça que você organizou pelas minhas costas.”

“Isso foi um obrigada?”

“Se você tivesse me perguntado, eu teria dito para não fazer. Mas… Que bom que você fez, obrigada.” Se aproximou com duas garrafas nas mãos, e a beijou.

“Deixa comigo.” Jennifer falou ou ouvir a campainha tocando.

Abriu a porta sorridente, mas logo enrugou a testa.

“Boa noite, você deve ser Jennifer, certo?”

“Sim, e vocês…”

“Eu me chamo Nicholas Gavin, essa é minha esposa Thereza e esse é o Jeremiah, somos do conselho do clã de Connecticut.”

Jennifer apenas olhava sem reação.

“Bom você deve estar estranhando nossa visita, seu avô mencionou sobre a festa que você daria hoje à noite, e viemos prestigiar.”

“Prestigiar ou vigiar?”

Todos riram um pouco sem jeito. O casal, na faixa dos quarenta anos, estava bem arrumado, e pareciam simpáticos. O amigo, aparentando uns trinta anos, usava muletas, não possuía uma das pernas.

“Seu avô deve ter falado sobre a aproximação que você deve fazer conosco, não? Então achamos que nada como uma festa para nos aproximarmos de você. Apenas queremos tê-la em nosso círculo, não temos intenção de vigiá-la nem nada do tipo.” Falava amigavelmente.

“Ok, desculpe pelo jeito, entrem, fiquem à vontade.” Abriu mais a porta, dando passagem aos três, que entraram olhando atentamente ao redor.

Da porta da cozinha, Anna os viu entrando, e encarou Jennifer, como perguntando quem eram. Jennifer apenas gesticulou, sinalizando que depois explicava. Naquele momento ela tinha o intento de outra tarefa.

Atravessou o salão com passos largos, segurou Jim pela gola de sua camisa polo e o arrastou para um pequeno corredor que havia ao lado das escadas.

“Opa!” Jim exclamou assustado.

“Foi você que contou da minha overdose para meu avô?”

“Você é bem direta hein?”

“Foi você ou não foi?” Vociferava o encarando, mas não num tom muito alto.

“Mais ou menos…” Jim ajeitou sua gola, um pouco encabulado.

“Sou toda ouvidos.”

“Contei para minha mãe, na Escócia. Ela deve ter contado para meu padrasto, que é do conselho do clã do seu avô, então… a notícia deve ter se espalhado.”

Jennifer suspirou com raiva, balançando a cabeça.

“Você queimou meu filme com meu avô de uma forma… você não faz ideia.” Ainda estavam bem próximos um do outro.

“Mas não tive a intenção Jenny, não imaginei que a notícia se espalharia.”

“Agora tenho três babás lá na sala me vigiando!” Gesticulava.

“O que está acontecendo aí?” Becca chegou até eles, sem entender o que se passava, mas sem gostar do que via.

Jennifer virou-se rapidamente, assustada.

“Ãhn… Estamos conversando, apenas conversando.” Respondeu insegura.

“Por que aqui, nesse canto deserto e escuro?”

“Porque tinha muito barulho lá na sala.” Jim completou.

Becca continuava desconfiada, incrédula.

“O que vocês estão aprontando? Sobre o que falavam?”

“Relaxa, nos empolgamos numa conversa sobre guitarras e afins, ele vai me emprestar uma do pai dele, essas coisas.”

“Desde quando vocês precisam ir para cantinhos escuros falar sobre guitarras?”

“Quando percebemos já estávamos aqui.” Jim murmurou.

“Me façam um favor, continuem aí cochichando, eu vou voltar para minha casa.”

“Becca, que besteira, volte aqui!” Jennifer estava pasmada com a reação dela.

“Becca!” Jim também tentava.

Jennifer fez menção de ir na direção dela, mas Jim a impediu.

“Deixe, eu cuido disso.” E saiu apressado.

Ela ainda ficou alguns instantes petrificada naquele corredor escuro, como um objeto de decoração. Em seguida saiu com passos lentos de volta para o salão principal, viu seus novos amigos Vulpis de pé, eles continuavam observando toda a movimentação, curiosos. Balançou a cabeça, irritada.

Samantha, que cuidava do som, se aproximou dela, a abordando afoita.

“Jenny, as caixas de som estão falhando, acho que é algum mau contato, você pode resolver?”

“Já vejo isso ok?”

Ainda deu uma olhada pelo ambiente, tentando enxergar Becca ou Jim, mas provavelmente já haviam deixado a casa. Seguiu até onde estava Samantha e as instalações do som, abaixou e começou a mexer nos fios e plugues, acabou levando um choque e caindo sentada no chão.

“Deixa comigo.” Bob se agachou ao seu lado, e ofereceu sua ajuda.

Jennifer levantou-se e seguiu para a cozinha, saiu de lá com um copo numa das mãos. Anna estava próximo e viu ela subindo as escadas guardando algo dentro do bolso frontal de sua calça, um frasco laranja. Apenas a acompanhou com o olhar seus passos rápidos, na direção do quarto no andar superior.

Pediu licença aos convidados com quem conversava e subiu também as escadas, adentrando o quarto, iluminado apenas pela luz da lua que vinha da sacada.

Pode ver apenas Jennifer já fechando a tampa do pequeno pote plástico, com o copo em outra mão, estava sentada na cama, e tomou um susto quando viu Anna entrando.

“O que é isso?” Anna perguntou rispidamente, próximo da porta.

“Isso o quê?” Respondeu surpresa.

“Isso na sua mão, e que você acabou de tomar.”

“Ah.” – Olhou para o frasco na mão. “É aspirina.”

“Aspirina?” Falou com aquele tom irritante de dúvida.

“Sim, estou com dor de cabeça.”

Anna deu alguns passos rápidos na direção de Jennifer, que permanecia sentada na cama, e que agora a olhava arregalada. Pegou a mão dela e a ergueu, olhou o rótulo do remédio ainda dentro da palma da mão dela.

“Aspirinas.” Leu no rótulo.

“E no meu copo tem refrigerante, mas você pode verificar se quiser.” Jennifer falou com sarcasmo.

Anna fez um semblante entristecido, triste com si própria, formando seus já famosos sulcos verticais na testa.

“Por que você veio tomar aqui em cima?” Perguntou num tom consternado.

“Para evitar que as pessoas fizessem justamente o que você acabou de fazer.” Jennifer respondeu séria, olhando para ela.

“Desculpe… me desculpe. Eu pensei…”

“Que ótimo, você continua não confiando em mim.” Olhava agora para o lado, chateada.

“Não, não diga isso, eu confio em você, é só… eu sei como essas coisas são, algumas pessoas tem recaídas… não é questão de confiança… eu só pensei…”

Jennifer ergueu a cabeça, viu o quão angustiada Anna estava com aquela situação, ficou triste por ela, levantou-se da cama.

“Venha cá.”

Anna voltou a se aproximar, e Jennifer a abraçou, de forma apertada e carinhosa, pousando seu queixo no ombro dela.

“Deixa pra lá…” Sussurrou.

Soltaram-se e Anna a encarou.

“Eu não tenho uma festa de aniversário há mais de vinte anos, porque não gosto, não me sinto à vontade, e além do mais meu pai morreu um dia antes do meu aniversário. Mas hoje cedo você disse que estava preparando uma festa e não me opus, você acha que eu deixaria qualquer pessoa fazer isso?”

“Não hesitou mesmo quando falei do touro mecânico?” Jennifer falou com um sorriso leve.

“Você poderia ter falado que teria uma roda gigante que eu não seria contra. Eu sei que você quer o meu melhor, as vezes do seu jeito torto, mas estou aprendendo a te entender. ”

“Está curtindo a bagunça?”

“Estou. Na verdade já tinha esquecido como é ser o centro das atenções.”

“Não é tão ruim assim.”

“Não, até pode ser divertido.

Jennifer sorriu mais um pouco com a resposta de Anna mas então lembrou do que havia acontecido com Becca, e mudou de expressão, e sentou-se na cama.

O que foi?” Anna sentou-se ao seu lado, a olhando.

“Becca está brava comigo, foi embora inclusive.”

“O que houve?”

“Ela me flagrou no corredor ao lado da escada conversando intimamente com Jim, deve estar agora achando que estou tendo um caso com ele, ou conspirando alguma coisa, sei lá.”

“E está?”

“Espero que você esteja se referindo ao ‘conspirando’. Não, eu só estava dando uma dura nele, por ter me dedurado para meu avô.”

“Então foi ele mesmo.”

“Contou para a mãe, que contou para o marido, que contou para todas as raposas do sul da Escócia.”

“Que linguarudo.”

Jennifer riu do termo que Anna usou.

“Agora tenho babás Vulpis lá embaixo.”

“Aquele trio ao lado da mesa dos salgados?”

“Exatamente.”

“Mas não se preocupe agora com isso, amanhã quando Becca estiver de cabeça fria vocês conversam e desfazem o mal entendido, essas suposições dela são descabidas, ela vai se dar conta.”

“É, uma coisa de cada vez… Vamos descer? Você é a estrela da noite, não posso te raptar assim. Se bem que não seria uma má ideia…”

“Melhor não falar isso duas vezes, senão eu fico aqui com você, estou com a única convidada que me interessa.”

Se aproximaram e deram um beijo contido, mas resolveram prolongar o beijo, e Anna empurrou devagar Jennifer contra a cama, deitando parcialmente por cima dela. A medida que os beijos evoluíam as mãos também ficavam mais ágeis, ignorando as roupas como obstáculos.

“Bob foi buscar… Ops!” Lindsay entrava ofegante no quarto e interrompeu o que ia dizendo.

“Foi buscar o que Lin?” Jennifer levantou-se rapidamente da cama, ajeitando sua camisa.

“Ai, desculpe meninas, Bob foi buscar o bolo e pediu para chamar Anna, como vi você subindo…”

“Relaxa baby, vamos descer.”

Jennifer foi até a mesa próxima à cozinha e rearranjava os itens restantes, liberando um espaço para o bolo, logo ouviu a voz de Bob que trazia o bolo nas mãos, sorridente. Um grande bolo branco redondo, cheio de velas. Num descuido, tropeçou nos fios da caixa de som, se desequilibrou e o bolo acabou voando, Jennifer que assistia a cena ergueu a mão espalmada a frente e conduziu o bolo até sua própria mão, antes que encostasse no chão. Rapidamente o colocou em cima da mesa, no lugar que havia preparado para o mesmo. Só então se deu conta do que havia feito, sorriu desajeitada para as faces assustadas que encontrou a encarando, principalmente os três membros do seu novo clã.

“Nossa, essa foi por pouco. Vou buscar uma faca.” Saiu correndo para a cozinha, Anna a seguiu.

“Você não pode fazer essas coisas na frente dos outros!” Anna falou atrás dela.

“Eu sei, eu sei!” Jennifer respondeu enquanto revirava uma gaveta.

Anna pegou algo em outra balcão e se aproximou.

“Aqui, a faca para cortar o bolo.”

“Foi automático, quando me dei conta já tinha feito!”

“Ok, se policie e faça de conta que nada aconteceu. Vamos para fora porque estão nos esperando.”

Os demais convidados acabaram não dando grande importância para a cena um tanto estranha que haviam presenciado, e após cortarem o bolo já haviam praticamente esquecido. Jennifer voltou à cozinha com Anna, ainda estava preocupada com o que seus vigias poderiam fazer sobre o que haviam presenciado.

“Eles viram que ninguém deu muita importância, somente os Vulpis entenderiam. E eu.” Anna tentava tranquilizá-la.

“Ainda bem que Jim não estava…”

“E Becca ficaria ainda mais confusa.”

“Nossa… que noite. O que mais pode acontecer hoje?” Resmungava, quando a campainha tocou.

“Pelo visto temos convidados atrasados…” Anna falou.

“Deve ser Joel, eu vou lá recepcioná-lo.”

Jennifer abriu a porta e suas feições mudaram.

“Laura?”

“Oi baby! Ainda tem festa aí dentro?” Laura respondeu animada.

“Desculpe o atraso, só consegui fechar o bar agora.” Joel se desculpava, ao seu lado. Era quase meia-noite.

“Bom, pelo menos deram o ar de suas graças. Vamos, entrem, Anna acabou de cortar o bolo.” Respondeu educadamente, mas ainda um pouco perturbada pela presença de Laura.

Os conduziu para dentro da sala quando Anna os abordou, lançou um olhar com sobrancelhas baixadas rapidamente para Jennifer, que sem jeito, foi buscar bebidas para todos.

Jennifer resolveu assumir o comando do som da festa e era a que mais se divertia com sua seleção musical, dançando animada atrás dos equipamentos. De lá pode ver Anna no sofá, rodeada por Joel e Laura, conversando sem maiores reservas com ambos.

Lá pelas duas da manhã todos já haviam ido embora, Anna voltava cansada da cozinha e se atirou no sofá. Jennifer colocou uma playlist mais calma para tocar, num volume já mais baixo, e sentou-se também no sofá, jogando a cabeça para trás e abrindo os braços sobre o encosto do sofá.

“Missão cumprida?” Anna a questionava.

“Me diga você.”

“A noite foi perfeita. Olhe isso.” – Apontou para o globo espelhado no teto acima delas. “Teve até globo! Sei que você teve alguns percalços, na verdade deve ter sido uma noite bem movimentada para você. Mas falando por mim, adorei tudo, você foi incrível.”

“Esqueça meus percalços, foi bom te ver se divertindo, conversando com o pessoal, interagindo.”

“Ãhn… sobre Laura, foi ela que sentou-se ao meu lado, e começou a conversar comigo.”

“Eu sei.”

“Só conversamos sobre banalidades.”

“Ok.” – Virou-se na direção de Anna, colocando a mão em sua face. “Meu amor, não tenho ciúmes de Laura, relaxa.”

“Só… Só achei que você deveria saber.”

“Sabe, andei pensando no que Josh falou.”

“Quem é Josh?” Perguntou com a testa franzida.

“Nosso refém da semana passada.”

“O que ele disse?”

“Sobre nós, e Laura.”

“Acho que não entendi.”

“Anna, você já fez sexo a três?” Falou pacificamente.

“Você… não está insinuando…” Ruborizou.

“Já fez?”

“Já. Mas não com Laura. Nem com você.”

“Já??” Jennifer a olhou arregalada, com um sorriso bobo nos lábios.

“Há muito tempo atrás.” Respondeu encabulada.

Jennifer riu.

“Não tem graça.”

“Foi divertido, não foi?”

“Foi bem diferente do que você está sugerindo, um homem, uma mulher, e eu nunca namorando nenhum deles.”

“Pense no assunto, volto a te questionar sobre isso em breve.”

“Não tem o que pensar.”

“Ah tem, tem sim.” Jennifer falou com um sorriso debochado.

Jennifer voltou a pousar a cabeça no encosto do sofá, de olhos fechados, ainda sorrindo.

Começou então a cantarolar a música que tocava, All I want is you, do U2. No refrão virou-se e cantou baixinho no ouvido de Anna.

“When all I want is you…”

“Eu também… eu também…” Anna respondeu.

“Nossa, seu presente!” Jennifer levantou-se rapidamente, de sobressalto.

“Você já deu.”

“Não, o segundo presente, lembra que falei hoje de manhã?”

“Lembro.”

“Não é um presente qualquer…”

“Onde está?”

“Olha, é algo que você quer faz muito tempo, mas não sei se é exatamente o que você procura, mas já é algo.” Jennifer virou-se devagar, a encarando.

“E eu não estou entendendo bulhufas do que você está falando.”

Tirou do bolso de trás da calça um pequeno pedaço de papel amassado, e a entregou. Anna abriu curiosa, sem entender o que aquilo significava.

“Parece um endereço.” Fulminou.

“E é. É o endereço do seu irmão.”

“Como assim??”

“Quer dizer, o provável endereço do seu irmão, mas só saberemos depois que formos até lá para confirmar se é seu maninho mesmo.”

Anna olhou mais um tempo, boquiaberta, para o papel.

“Como, como conseguiu isso?”

“Não foi eu. Meu avô não estava simplesmente investigando você por diversão, ele estava procurando seu irmão. E depois de muito fuçar por aí acabou achando uma pessoa que bate com a descrição e o nome do seu irmão.”

Anna ainda estava surpresa, assimilando.

“Mas… Então ele está na Inglaterra?”

“É, talvez. Não conseguiram confirmar se realmente era ele, porque esse endereço aí é de uma fazenda de centeio no interior do interior do interior da Inglaterra, tipo assim, no fim do mundo.”

“Meu Deus, Andrew… numa fazenda na Inglaterra…”

“É o que vamos descobrir.”

“Você vem comigo?”

“Claro, você me acompanha em tudo, eu também quero te acompanhar.”

“Então vamos para a Inglaterra.” Falou, animada.

“Vamos para a Inglaterra baby!”

 

Três dias depois a dupla chegara a Inglaterra, desembarcando no Heathrow, em Londres, com uma ansiedade que mal podia ser contida.

“São cento e trinta quilômetros até Swindon, você nunca dirigiu por aqui antes, melhor procurarmos outra forma de chegarmos lá.” Anna falou discordando da sugestão de novamente alugar um carro.

“Ok… ônibus?”

“Se tiver algum que vá até lá…” Respondeu suspirando, com cansaço da viagem, era meio-dia.

Após algum tempo procurando por informações de como chegar no pequeno vilarejo onde possivelmente Andrew estaria, finalmente pegaram um ônibus até a cidade no interior.

“Vamos, recline esse banco e durma, são duas horas até lá, você não dormiu nada no avião.” Anna tentava fazer Jennifer dormir um pouco.

“E perder a paisagem? Por isso fiz questão de ir na janela.”

O ônibus seguia pela estreita rodovia cercada de algumas poucas casas intercalando com florestas rareadas e esparsas, Jennifer continuava olhando pelo vidro, percebeu que Anna estava tensa, segurou a mão dela com suas duas mãos e a fitou.

“Se não for ele, continuaremos procurando ok? Meu avô é bom nisso.” Sorriu.

“Estou tentando não criar tantas expectativas, mas é quase impossível… Andrew é o que resta da minha família.”

Jennifer apenas a ouvia.

“E se for ele? E se ele resolveu se manter afastado de mim e de todos por escolha própria? E se minha presença não for bem-vinda?”

“Tenho certeza que como qualquer dupla de irmãos vocês tiveram suas desavenças fraternais na infância, mas ele não teria motivos para não ficar feliz em ver a irmãzinha, ele apenas pode ter desistido de procurar por você por causa da guerra e se acomodou aqui. Agora o encontramos, e viemos até ele, se for realmente seu Andrew, será lindo!” Riu.

“Será um grande choque para ele, com certeza…”

“Ah sem sombra de dúvida. Mas tente relaxar ok? Fique tranquila.”

“Ficarei… E com você do meu lado as coisas ficam mais leves.”

Jennifer apenas sorriu de lado.

Chegaram ao ponto final daquele ônibus, numa pequena cidade chamada Swindon. Ao redor dali haviam algumas casas e fábricas, mas elas precisariam adentrar o interior, até a zona rural. Carregavam pouca bagagem e não demorou muito para Jennifer conseguir uma carona até metade do caminho, numa caminhonete carregada de ovelhas.

Caminharam mais um pouco pela estrada de chão batido, com o sol do meio da tarde às acompanhando, Anna com uma blusa preta e Jennifer de xadrez. Novamente conseguiram outra carona, às deixando próximas da fazenda que procuravam. Mais uma vez tiveram que fazer uma caminhada carregando suas pequenas malas, numa estrada ainda mais campestre. Após algumas dezenas de minutos, contemplaram uma entrada ornada por uma espécie de portal arcaico de madeira, com uma tábua escrita à mão o nome da fazenda que procuravam.

Se entreolharam, receosas, então Jennifer com passadas firmes, foi até a porteira e a destrancou, a puxando, parou ao lado.

“E então, vamos entrar? Hora da verdade.”

 

 

        Capítulo 31 – O irmão no campo de centeio

 

Lado a lado, Anna e Jennifer caminharam pela pequena estrada de terra laranja rodeada pelo verde e cercas marrons, até chegarem à duas casas tipicamente rurais, uma branca maior, e outra amarela, ao lado, com varandas à frente.

Se aproximaram da varanda e encontraram uma garotinha brincando com pequenas loucinhas, nos degraus. A menina tinha cabelos castanhos, soltos, e olhos claros, usava um vestido azul celeste estampado e aparentava tenros quatro anos.

“Oi mocinha, você mora aqui?” Jennifer se abaixou à sua frente, e perguntou amavelmente.

“Moro.” Respondeu, com um misto de sotaque britânico e do interior.

“Hum… está preparando café?”

“Não, é chá. Você gosta de chá?”

“É… Gosto…” – Ela odiava, mas não faria desfeita com a pequena. “Qual seu nome?”

“Marianne.”

“Marianne?” Anna repetiu.

Jennifer inclinou a cabeça para cima, e viu as feições surpresas dela.

“É o nome de nossa mãe.” Anna falou baixinho.

Jennifer sorriu, com as mãos espalmadas sobre as pernas, e continuou o diálogo com a menina.

“Marianne, seu pai está aí?”

“Não, está trabalhando no campo.”

“É aqui perto?”

A menina apenas olhou para frente e apontou, na direção de um caminho entremeado por pastos, que despontava num vasto campo com cereais dourados plantados.

Jennifer olhou para cima novamente, como se esperando a autorização de Anna para prosseguirem pelo caminho orientado pela menina, e Anna consentiu.

“Obrigada minha querida, nós…”

“Vocês querem brincar de tomar chá comigo?” Ela interrompeu, falando calmamente, contrapondo com o nervosismo de Anna.

“Ah com certeza queremos sim, primeiro vamos lá falar com seu pai, mas depois voltamos aqui ok?” Jennifer respondeu sorrindo.

“Tá bom.”

Jennifer levantou-se, ficou olhando Anna até esta começar a caminhar na direção da trilha que dava à plantação, e emparelhou com ela, em silêncio. Fazia um dia ensolarado e agradável de primavera europeia, dobrava as mangas de sua camisa enquanto andava, e percebia a inquietação de Anna apenas pelo ritmo determinado de suas passadas.

Já haviam chegado até os campos de centeio, que se agitavam com as ocasionais brisas que sopravam, formando um mar dourado, com pequenas ondas de direções variadas. O sol já estava mais baixo, suas sombras formadas no chão mais alongadas, e ao redor não viam nenhuma forma humana.

Quando ao longe Anna avistou uma grande árvore e abaixo dela um homem, parecia se movimentar trabalhando com o cereal colhido, cercado por balaios, sentiu um arrepio, uma dúvida momentânea.

“Tem alguém lá.” Falou com firmeza, apontando.

Depois de algumas dezenas de metros caminhando ainda mais rapidamente, o homem as avistou também, se erguendo altivo, olhando para elas. Naquele momento Jennifer viu Anna sorrindo, era a confirmação que ela precisava.

Praticamente correu até ele, que a olhava boquiaberto, incrédulo. Anna parou à sua frente, com o sorriso de quem acaba de encontrar um tesouro. Andrew lembrava bastante sua irmã nas feições, mas tinha o cabelo mais claro, como seu pai, e olhos castanhos, como sua mãe, o inverso de Anna. Seu cabelo estava desgrenhado, e usava uma barba castanha quase cobreada, cheia, mas bem aparada.

 

“Anna??” Perguntou com um olhar assustado.

“Finalmente…” Foi tudo que Anna conseguiu balbuciar.

Ele deu alguns passos na sua direção e a abraçou, e assim permaneceram por alguns instantes, Jennifer apenas os contemplava, satisfeita, aliviada.

“Achei que nunca mais te veria…” Ela falou, ainda unidos. Tinha os olhos marejados de lágrimas, e suas mãos pareciam não querer soltar das costas de seu irmão.

“Mas como… como me achou?” Ele indagou, após soltarem-se.

“É uma longa história, mas o responsável por isso foi o avô dela.” Virou-se na direção de Jennifer, que se aproximou.

“Andrew, essa é a Jennifer, Jennifer, esse é meu irmão sumido.” Os apresentou.

“Então você é o famoso irmão fujão de Anna.” Falou num tom descontraído, estendendo sua mão.

“Meu Deus Andrew, todos esse tempo, eu imaginei tantas coisas, até mesmo que a guerra tivesse te levado, mas você estava aqui, morando numa fazenda em outro continente!”

“Eu apenas toquei minha vida, encontrei meu lugar.”

“Por que não entrou em contato?”

Andrew lançou um olhar baixo.

“É uma longa história…”

“Sua filha, você colocou o nome de nossa mãe!”

“Sim, você a conheceu?”

“Estava preparando chá e a interrompemos.” – Riu. “Ela é linda Andy… Você acertou em colocar o nome de nossa mãe, é tão parecida com ela…”

“E não é? Lembra tanto nossa mãe às vezes! Até o gênio é parecido.”

“Igual a você então, genioso.”

“E você não é muito diferente não, é como nosso pai, mantendo a calma, parece um poço de frieza, mas quando explode, sai de baixo!”

“Ok, sem exageros…”

Se entreolharam, sorridentes.

“É bom te ver meu irmão.”

“Nunca imaginei que um dia teria você aqui, na minha frente… quem bom que nunca desistiu de mim.”

“E que bom que te achei vivo, seu filho da mãe fugitivo.” Deu um murro de leve no seu ombro.

“Vamos trocar elogios em casa? Quero te apresentar minha esposa, Eileen.”

“Claro, até porque Marianne está nos esperando para tomar chá com ela.”

Os três chegaram em casa e encontraram Eileen com a filha na cozinha, começando a preparar o jantar, e fizeram as devidas apresentações. A esposa era uma típica camponesa, com algumas sardas acima das bochechas, e cabelos da cor do trigo. Andrew se agachou ao lado da filha, e apontou para Anna.

“Filha, lembra da tia Anna, que sempre falamos? Ela é a tia Anna, veio nos visitar.”

Anna também abaixou-se, à sua frente.

“Quer dizer que você já ouviu falar de mim então?”

“Você é a irmã do papai?”

“Sim, e queria que soubesse que você é a sobrinha mais linda e encantadora que alguém pode ter, estou super orgulhosa em ser sua tia.”

“Por que não veio nos visitar antes?”

Anna deu uma olhada rápida para o irmão, antes de responder.

“É que eu moro muito longe, só pude vir agora.”

“Você vai morar aqui com a gente?”

Anna sorriu.

“Não querida, mas prometo visitá-la mais vezes ok? E desculpe não ter voltado a tempo de tomar seu chá.”

“Amanhã vou fazer mais, daí você me ajuda.”

“Claro, ajudo sim, sou melhor com café, mas também sei fazer chá, qual o seu favorito?”

Jennifer acompanhava o desenrolar da conversa, surpresa com a desenvoltura de Anna com a criança.

A família agora reunida ficou ainda algum tempo matando a saudade, ali mesmo, na cozinha, conversando e assimilando tudo que estava acontecendo.

“Andy que tal jantarmos todos na casa dos meus pais? Eles vão gostar de conhecê-las, e com certeza o jantar deles é bem melhor que isso que eu estava preparando.” Eileen sorriu envergonhada.

“Pessoal não se preocupem conosco ok?”

“Eileen tem razão, vamos até lá, é a casa ao lado. Mas antes acho que vocês gostariam de descansar um pouco, tomar um banho, não?”

“É, é uma boa ideia.” Anna respondeu.

“Só temos esse quarto vago, se quiserem mais privacidade posso falar com minha mãe para que ajeite outro quarto na casa deles, para que cada uma tenha seu próprio quarto.”

“Não se preocupe com isso, este quarto está ótimo para nós.” Anna respondeu.

“Ok, vou deixá-las à vontade, tem um banheiro aqui ao lado, tem toalhas lá dentro, mas se precisarem de algo mais, é só falar.” Eileen disse, de forma atenciosa, esfregando as mãos no vestido.

A dupla entrou no quarto, largando suas coisas no canto, e dando uma olhada ao redor. Havia um guarda-roupas antigo, uma cômoda e um beliche. O quarto era pequeno mas parecia intocado, como se aguardando que a prole da família aumentasse. As paredes eram amarelas claras e as janelas de madeira, brancas.

Anna andou lentamente pelo quarto, e se voltou para Jennifer, com um sorriso perdido.

“Eu vou ser eternamente grata ao seu avô por isso…”

“Ele só queria retribuir o que você fez por nossa família, ele me disse isso.” Falou sentando-se na cama.

“Ainda não caiu a ficha que o Andrew está ali, do outro lado da parede, é surreal demais…”

“Acostume-se, seu irmãozinho está de volta.” Sorriu.

“Obrigada…”

Jennifer levantou-se, lhe dando um beijo carinhoso, e a envolvendo.

“Queria que você tivesse mais uns dez irmãos para encontrar, só para ver você sorrindo desse jeito.” Jennifer murmurou no seu ouvido.

“O que eu faria com onze irmãos?”

“Um time de futebol?”

Logo em seguida a soltou, virou-se e colocou suas duas mãos na cama de cima do beliche.

“E a cama de cima é minha.” Fulminou.

“Assim, sem eu poder manifestar minha vontade?” Anna reivindicou.

“Sou claustrofóbica.”

“Desde quando?”

“Você nunca perguntou.”

“Já me convenceu, vá tomar banho para jantarmos.”

 

Mais tarde os cinco foram devidamente recebidos na grande casa branca pelos pais de Eileen, duas figuras simpáticas que apesar da não muito idade, eram perceptíveis as marcas em seus rostos do trabalho ao ar livre na lavoura. Quando Jennifer adentrou a sala de estar, foi cumprimentada primeiramente pela senhora rechonchuda, que tinha uma bonita combinação de cabelos claros misturando-se com grisalhos. Jennifer percebeu que seu sorriso amistoso alterou-se não de imediato ao vê-la, mas se desfez em câmera lenta, como se tivesse captando algo no ar.

Apesar da situação estranha, Jennifer seguiu adiante e cumprimentou o esposo, um grande senhor de cútis vermelha, que guardava sua careca proeminente dentro de uma boina marrom e usava engraçados suspensórios da mesma cor. Ele o cumprimentou de forma bastante carinhosa, porém continuou a encarando mesmo após finalizado o aperto de mão. Nos minutos seguintes Jennifer seguiu intrigada com o clima misterioso formado pela presença dela, porque ela estava certa que tudo aquilo estava relacionado unicamente com sua pessoa.

“Mais costelinhas minha querida?” A camponesa matriarca oferecia para Jennifer, erguendo uma travessa repleta de costelas suínas.

“Ãhn… Claro, mais duas!”

Mas com o passar da noite e com a suculenta janta, Jennifer já esquecera daquilo e ficava cada vez mais à vontade, esse pessoal da fazenda sabia como ninguém como ser acolhedor, fazendo até mesmo Anna conversar animadamente com todos na mesa, e depois do jantar.

Já estavam à porta da casa, de saída e se despedindo, Jennifer esfregava os olhos vermelhos e que pareciam repletos de grãos de areia de tanto sono que sentia, foi quando de repente ela teve um insight. Ainda teve tempo de olhar assustada para os pais de Eileen que estavam no alto da varanda, enquanto Marianne a levava pela mão, todos já seguiam de volta para a casa amarela. Jennifer havia matado a charada.

No pequeno caminho até a casa ao lado Jennifer sussurrou no ouvido de Anna.

“Preciso te contar uma coisa.”

“Agora?”

“É!”

“Anna senta aqui na varanda, toma um chá com a gente!” Andrew a chamava, à sua frente.

Anna titubeou, já subindo os degraus da varanda com Jennifer a tiracolo.

“Daqui a pouco, tá bom?” Sussurrou de lado.

Jennifer teria que esperar.

Na varanda haviam dois bancos de madeira pintados de branco, Andrew sentou em um deles com Marianne no colo, e no outro Jennifer e Anna sentaram-se lado a lado, enquanto Eileen ia fazer o chá. Era visível a excitação de Jennifer para contar o que havia descoberto mas não demorou muito para que o sono a vencesse.

Quando Eileen chegou com a bandeja cheia de xícaras, metade dos participantes já haviam adormecido. Marianne dormia pacificamente no colo de Andrew, e Jennifer dormia recostada no ombro de Anna, com a boca entreaberta e a cabeça inclinada para cima.

“Acho que é hora de colocar as crianças na cama.” Eileen falou rindo, olhando para Jennifer.

Entregou a bandeja a Andrew e tomou Marianne nos braços, em seguida se aproximou de Jennifer e a chamou para dormir.

“Vamos para o quarto?” Falou de forma tenra.

“Jennifer?” – Anna disse baixinho em seu ouvido. “Vá para a cama querida.”

Sem entender direito o que acontecia, Jennifer topou e foi para o quarto. Eileen retornou e sentou-se ao lado de seu marido, ajeitando seu vestido claro debaixo das pernas.

“Andy me contou tantas histórias sobre vocês…” Falou.

“Ele contou tudo que aprontava comigo? Os sustos que ele me dava?”

“Até hoje ele ainda gosta de dar sustos, até na própria filha.”

“São sustos inofensivos.” Andrew retrucou.

“Como quando você se escondeu atrás do sofá da sala? Tive que fazer chá de camomila para ela dormir!”

Anna riu.

“Esse era um dos preferidos dele quando éramos crianças.”

“É… o que Anna não está contando é como se vingava de mim.”

“Era merecido.”

“Ela armava armadilhas no meu quarto, as mais variadas, desde balde cheio d’água em cima da porta, até almofada de tachinhas na minha poltrona. Ou o dia que encheu minha gaveta de cuecas com formigas.”

“Depois me repasse algumas ok?” Eileen falou se inclinando na direção de Anna.

Pouco tempo depois a esposa de Andrew também recolheu-se, deixando os irmãos conversando na parte externa da casa, deixaria que colocassem seus anos de afastamento em dia, ou pelo menos parte disso.

Agora apenas a lua entre nuvens fazia companhia aos irmãos Fin, a paisagem dali da varanda era quase poética, aqueles campos cobertos de cereais, onde não era possível dizer se a lua os deixava assim dourados ou apenas os realçava quando se moviam com o vento, trazendo aquele cheiro fresco dos grãos até a casa.

“Eileen parece ser uma pessoa tão dócil, tão serena.” Anna reiniciou a conversa.

“E é sim, ela é encantadora, é doce e ao mesmo tempo forte, eu dei muita sorte.”

“Como a conheceu?”

Ainda estavam cada um em seu banco, mas agora em suas extremidades, próximos um do outro, com suas xícaras em mãos.

Andrew coçou sua barba e se espojou no banco antes de começar a contar, com um olhar nostálgico.

“Eu andava por estas cidades rurais, sem destino, gostei daqui, de Swindon, resolvi passar uns dias e fui ao pub numa noite. Por sorte soube que tinham uma vaga no bar e nem pensei duas vezes, era minha. Algo aqui me fez querer fincar raízes. Algumas semanas depois um grupo de garotas estava no pub, comemorando o aniversário de uma delas. Eram todas amigas, do último ano do colegial, e uma delas me chamou a atenção imediatamente, ela era deslumbrante, bom você a viu, não viu?” Andrew sorriu.

Anna apenas acompanhava a narrativa de seu irmão, atenciosamente, apesar do cansaço sentia-se bem em estar ali, ao lado de parte da sua família, com todas as lembranças e sensações confortáveis que vinham à tona.

“Errei todos os pedidos da noite depois que a vi… De vez em quando arranjava um tempinho para ir até a mesa delas, mesmo quando não pediam nada, dava um jeito de conversar com a garota do casaco azul e cabelos dourados.”

“Você nunca foi do tipo galanteador…”

“Não, mas aquela noite nem eu acreditava no que estava fazendo, a cortejando daquele jeito. Ela me prometeu aparecer no final de semana seguinte, e apareceu!”

“E o que você fez?”

“Ignorei todas as broncas do chefe e passei a noite quase toda conversando com ela. Passamos a nos encontrar nos dias seguintes, num café no centro da cidade, quando vimos já estávamos namorando!” Andrew contava com um entusiasmo quase infantil, como se revivendo aqueles dias, bem à sua frente.

“Eu sabia, eu tinha certeza que íamos nos casar e ter filhos, mas ainda faltava um pequeno detalhe: seus pais, eu ainda não os conhecia.”

“E como foi esse encontro? O que acharam do namorado híbrido da filha?” Anna perguntava movida pela curiosidade e entusiasmo alheio.

“Ah… Essa é a melhor parte, você não vai acreditar!”

“Melhor?”

“Ela tinha um receio, uma reserva tão grande com esse assunto, mas não me parecia preconceito com híbridos, não parecia que ela estava com receio que eles soubessem de mim, parecia o contrário!”

“Não notei nada de diferente com os pais dela.”

“Eu falei que gostaria de conhecer seus pais, de ir até a sua casa. Ela então me contou que era adotada, havia sido adotada ainda bebê. E que seus pais eram pessoas reservadas mas bastante generosas, e gentis, eu percebi que ela queria contar algo mais, e na hora foi como um estalo, eu segurei suas mãos e falei: ‘Eileen, seus pais são Vulpis?’ Anna, os pais dela são Vulpis!”

“Nossa… A mesma história de nosso pai.” – Anna falou com as sobrancelhas franzidas, surpresa. “Era isso que Jennifer queria me contar.” Pensou.

“Não é uma coincidência e tanto? Ali eu tive certeza que tudo daria certo, e que ela era de fato a mulher da minha vida. Ela me olhou assustada, como eu saberia sobre isso? Então contei a história de nosso pai, ela ficou tão transtornada quanto eu, mas nossa… que alívio para ambos… principalmente para ela, que não precisaria mais esconder isso de mim.”

“Imagina como nosso pai riria disso tudo, ele ia fazer questão de vir aqui conhecê-los.” Anna falou com um sorriso meio torto.

“Ia sim… Eu não acreditei em quão perfeita era essa história toda, nos casamos três meses depois e vim morar aqui, com a casa ainda inacabada mesmo, um ano depois veio a Marianne, desde então trabalho nas plantações de grãos, não é muito grande, os dois irmãos de Eileen também ajudam, mas é o suficiente para o sustendo de todos. E ainda por cima estou cercado por Vulpis, eles são tão bons comigo, nosso pai tinha razão, são tão diferentes das outras espécies, as pessoas mais justas que já conheci.”

“Eu fico imensamente feliz e aliviada sabendo que durante todo esse tempo você estava bem, estava tocando sua vida, e que achou uma boa pessoa para ficar do seu lado, você se envolveu com tantas garotas mal intencionadas lá em Bridgeport, que bom que você encontrou alguém como Eileen, e… que bom que te encontrei bem.”

“Eu sou um cara muito sortudo, tive minha época errante, fiz minhas besteiras, mas finalmente me encontrei, e é uma pena que seja tão longe de nossa casa e de você, mas aqui é meu lar agora.”

“Eu sei… eu sei disso. Sabe, quando estava vindo para cá, comentei com Jennifer que se você não estivesse bem, se não estivesse numa situação confortável, eu faria de tudo para te levar para casa, eu te colocaria no mesmo avião que eu e iríamos todos de volta para os Estados Unidos, na verdade acho que até já contava com isso, até imaginava você voltando comigo…”

“Aqui é meu lugar agora…”

“Não tenho a menor dúvida disso, eu enxergo o quanto você é feliz aqui, sua família é linda, Eileen é amável, e Marianne, meu Deus, ela é a coisa mais fofa do mundo! Acredite, não estou desapontada por não te levar na mala de volta para casa.” Sorriu.

“Nunca achei que fosse casar, lembra que eu dizia que não queria me ‘amarrar’? E veja onde estou!” Andrew riu, largando a xícara ao lado, no banco.

“Mas você procurou bastante até achar a pessoa certa.”

“É… bastante. E você minha irmã, casou também?”

“Não, não casei não.” Respondeu um pouco encabulada.

“Sério? Volta e meia você estava de pretendente novo, achei que depois daquele noivado mal sucedido, como era mesmo o nome dele? Rob?”

“Isso, Rob.”

“Achei que você casaria rapidinho depois daquilo.”

“É… mas não aconteceu.”

“Mora com alguém? Algum namorado?”

Anna lançou um sorriso contido.

“Andy achei que você tivesse percebido…”

“Percebido o quê?”

“Jennifer é minha namorada.”

Andrew ergueu as sobrancelhas, espantado.

“Mas… como assim… Jennifer é uma mulher!”

“É sim, nossa, como você é bom observador.”

“Mas você gosta de homens, sempre namorou homens! Desde quando gosta de mulheres?”

“Eu gosto de Jennifer.”

“Isso não está certo Anna, você não é uma daquelas… como se chama… você não é uma lésbica, você é normal, sempre foi.”

“Andrew…” Anna balançou a cabeça incomodada.

“Você deve estar em alguma fase estranha, sei lá, esse não é o seu natural.”

“Não fazia ideia que os ares do interior iriam fechar sua mente dessa forma.”

“Não é questão de ser mente aberta, isso não está certo, você precisa conhecer um cara legal, casar e começar sua família, um homem! Tenho certeza que vários dos caras que você se envolveu no seu passado voltariam rastejando para você se quisesse.”

“Você realmente não consegue ficar feliz por mim?”

“Com outra mulher não. Isso está errado, ela nunca vai te fazer feliz, e sei que logo você vai perceber isso.”

“Você nem a conhece…” Anna falava entristecida, e agora cabisbaixa.

“Mas já imagino o que seja… uma humana aproveitadora.”

Anna sorriu, um riso sarcástico que saiu naturalmente.

“Por que está rindo?”

“Ela é Vulpi.”

“Claro que não.”

“Por que ela não poderia ser Vulpi? Por que é ‘lésbica’?” Falou quase se exaltando.

“Ela é Vulpi??” Andrew perguntou com uma expressão perturbada.

Anna apenas assentiu com a cabeça.

“É por isso que você está com ela?”

“Sério? É isso que você pensa de mim? Eu nem deveria estar te explicando isso, mas quando me apaixonei por ela eu nem sonhava que ela poderia ser Vulpi.”

Andrew se inclinou para frente, com os braços sobre os joelhos, pensativo.

“Então… Você gosta dela mesmo?”

Anna relaxou um pouco o corpo e a expressão.

“Como nunca gostei de alguém em toda minha vida.”

Andrew assimilava.

“A ama?”

“Amo.”

Até mesmo Anna assustou-se com a naturalidade com que falou aquilo.

“Minha irmã… Eu só quero o melhor para você. Como isso pode dar certo? Acho que você está perdendo seu tempo.”

“Ou talvez você esteja, me falando essas coisas.” Anna rebateu, mas não de forma grosseira.

“Ela sabe então, sobre meus sogros?”

“Acho que sim, bem como eles devem saber sobre ela.”

“E nós sem percebermos nada…”

“É verdade… totalmente vendidos.”

“Nosso pai iria gostar de conhecê-la… Ele não conhecia muitos Vulpis em Bridgeport.” Andrew refletiu.

“Acho que eles se dariam bem, nosso pai adorava pessoas sarcásticas, e essa passou na fila do sarcasmo várias vezes…”

Andrew ainda levou mais algum tempo assimilando aquela revelação.

“Quer ir dormir? Você parece bem arriada.”

“Esse é o vocabulário da fazenda?”

“Anda, vamos para dentro.”

 

Anna entrou no quarto devagar, tentando não fazer barulho, e fechou a porta delicadamente. Alguma pouca luz entrava pelas frestas da janela e iluminava de forma irregular o pequeno cômodo. Trocou-se rapidamente e antes de deitar apoiou seus braços na cama de cima, ficou por alguns segundos velando o sono de Jennifer.

“Se ele pudesse enxergar isso, ele entenderia…” Pensou, enquanto passava seus dedos nos cabelos meio bagunçados de Jennifer.

Não importava a sensação reconfortante de reencontrar seu irmão, após cinco anos de incertezas angustiantes, nem mesmo a opinião de um ente de sua família, sangue de seu sangue, alguém que realmente era importante para ela. A certeza do que ela sentia por Jennifer era inabalável e se reafirmava num momento simples como aquele, a vendo dormir, observando seu rosto quieto e sombreado.

Quando tirou seus braços do colchão e se abaixava para deitar pode ouvir Jennifer num murmúrio sonolento.

“Anna?”

“Sim.”

“Os pais da Eileen são Vulpis.” Falava sem abrir os olhos.

Anna sorriu.

“Eu sei.”

“Sabe?”

“Sei sim, Andrew me contou.”

“Ah que droga.”

“Boa noite.”

“Anna?”

“Ainda estou aqui.”

“Preciso ir para a Escócia amanhã.”

“Vai visitar seu avô?”

“Também, e participar de uma reunião que não posso contar para você.”

“Hum… ok. Boa noite.” Anna respondeu meio confusa.

“Anna?”

“Diga…” Falou interrompendo o movimento de se deitar pela terceira vez.

“Eu nunca te contei sobre a reunião, ok?”

“Ok, nadinha.”

“Anna?”

“Eu.”

“Posso dormir aí na sua cama?”

“Boa noite Jennifer.”

 

 

        Capítulo 32 – Seus argumentos são inválidos

 

“Já nos chamaram para o café da manhã.” Anna tentava acordar Jennifer naquela manhã de quarta-feira.

“Hum…” Virou-se para a parede, com preguiça.

“Você não tem que ir para a Escócia?”

“No final da tarde.”

“Quando é a reunião?”

Jennifer virou-se, já acordada.

“Eu te falei da reunião?”

“Desculpe, esqueci que era para fazer de conta que eu não sabia da reunião.”

Jennifer do alto do seu beliche a encarou por um instante, esconder tudo aquilo de Anna era incômodo, era como carregar uma mochila pesada num ombro só.

“Eu sei, é um saco isso, não poder te contar… não gosto das coisas desse jeito… fiz votos de sinceridade com você.” Jennifer falava séria.

“Votos de sinceridade?” Anna riu quando ouviu ela falando isso.

“Quando chegar em Glasgow vou conversar com meu avô, ele vai ter que liberar, e quando voltar vou te contar tudo.” Jennifer continuava.

“Se for para você se sentir melhor e mais aliviada, então tudo bem, negocie com seu avô.”

Jennifer já descera do beliche e procurava suas roupas na mala, quando interrompeu o que fazia e virou-se apreensiva para Anna.

“Anna acho que não tem café no café da manhã.”

“Aqui? Não sei, vamos lá ver.”

“Eles só bebem chá! Todos, não só a família do seu irmão, os ingleses só bebem chá, são viciados nisso!”

“Também não é assim. Mas realmente é tipo a preferência nacional, tudo aqui gira em torno de uma xícara de chá…”

“Mas eu quero café…”

“Eu faço café para você.”

“E se eles não tiverem pó de café?”

“Eu deveria ter trazido na mala não é?” Anna falou num tom confessional, com bom humor.

“Tudo bem, eu sobreviverei… E sobre a reunião, é amanhã, devo voltar para cá no sábado.”

“Que horas? Pra combinar com meu irmão para te buscar em Londres.”

“Sábado à tardinha. Hey, poderíamos ir em algum pub local no sábado, ou domingo, que acha? Um autêntico pub inglês, autêntico chope inglês…”

“Pensarei no assunto.”

“Conversou com seu maninho ontem?” Jennifer falou já se vestindo.

“Sim, um pouco.” Anna aguardava sentada em sua cama.

“Ele me pareceu uma cara legal… vocês tem as mesmas sobrancelhas. E ele também faz aquela coisa com a testa sabe, quando você franze assim.” Imitava franzindo a testa.

“É sim.”

“Será que ele ficaria bravo se eu o chamasse de cunhado? Nunca chamei ninguém de cunhado.”

Anna deu um sorriso cabisbaixo.

“Melhor não…”

“Ele sabe de nós, não sabe?”

“Sabe mas não aprova, acha que devo me casar com um homem.” Falou, receosa com a reação de sua namorada.

Jennifer parou o que estava fazendo, e se aproximou de Anna, colocando as duas mãos na beirada da cama de cima, a fitando logo abaixo.

“É uma pena que meu cunhado pense desta forma, porque você vai se casar comigo.”

Jennifer sempre a surpreendia.

“Ah é? E o Vulpi bem alimentado com uma caminhonete vermelha que você ia se casar?”

“Se descobriu gay, comprou uma roupa de couro e foi cantar no Village People.”

“Todo mundo se descobre gay nas suas histórias?”

“Bom… todo mundo eu não sei, mas você sim.” Sorriu com sarcasmo, saindo para terminar de calçar seu tênis.

Anna se apaixonava mais um pouquinho a cada besteira que ela falava. Levantou-se de cama e a abraçou por trás. Se fosse um polvo, a envolveria com seus oito braços.

“Podemos fazer essas coisas aqui? A porta está destrancada.” Jennifer perguntou meio desconcertada, enquanto tinha seu pescoço percorrido pelos lábios de Anna.

“Tudo o que quisermos.”

“Que garota de atitude.”

Anna agora tinha um olhar nostálgico, perdido.

“Lembra o dia que levei você para casa, bêbada feito um gambá e molhada de cerveja, você tomou um banho e não enxugou seus cabelos, então te empurrei de volta para o banheiro e enfiei a toalha na sua cabeça?”

“Lembro vagamente…” Mentia, lembrava de todas os detalhes daquela noite.

“Meu Deus como foi difícil dizer não para você… Eu não quero passar por algo do tipo nunca mais.”

“Eu te assustei.”

“Digamos que me pegou desprevenida.”

“Nós duas no meio do banheiro e eu te perguntei ‘por que você é tão perfeita?’ Não foi? E mais um monte de perguntas aleatórias.” Jennifer riu.

“Perguntou…”

“E você não me respondeu nada.”

“Eu ainda não tinha intimidade o suficiente para te responder.”

“Mas agora tem.”

Anna ainda mantinha seus braços envolvendo a cintura de Jennifer, e seus rostos lado a lado.

“Eu não sou perfeita, mas talvez eu seja perfeita para você, assim como você é para mim… E quando eu olho para você… eu enxergo a perfeição que eu procurei durante toda minha vida, essa perfeição torta, às vezes inexplicável, mas eu procurava justamente você e nem sabia disso.”

Jennifer sorria ouvindo tudo isso.

“Não esqueça que foi eu que achei você…”

Virou-se e roubou-lhe um beijo.

“Temos que ir…” Anna falou baixinho.

“Vamos tomar café.”

“Ou chá.”

“Nãããão…”

 

Aquele dia correra lento e suave, e terminava com uma caminhada pela extensão da fazenda, passando pelo rio que cortava a propriedade.

Jennifer notara durante todo o dia o desconforto de Andrew com sua presença, que agora sabia que ela era mais do que a amiga de sua irmã. Ela tentava contornar a situação, o deixando à vontade, e sem maiores aproximações de Anna. Pelo menos no final da tarde Andrew já não a olhava mais com tanta estranheza.

Ela andava mais a frente pelo caminho ao lado das plantações, de mãos dadas com Marianne, que não a largou durante todo o dia.

“Por que você vai embora hoje? Não vá…” A pequena perguntou entristecida, olhando para cima e protegendo os olhos do sol com a mão em concha.

“Sabe seu avô? Ele é legal não é?”

“É o melhor vô do mundo.”

“Então, meu vô também é legal, claro que o seu é bem mais, o meu talvez seja o melhor vô da Escócia apenas, ou o segundo vô mais legal do mundo. Mas quero visitá-lo, já faz tempo que não o vejo. Você me entende?”

“Entendo…”

“Eu volto no sábado. E prometo que trago um presente para você.”

“O que você vai trazer?” Perguntou animada.

“Não é mais divertido quando é surpresa?”

“Hum… acho que sim.”

“Tia Anna por exemplo, adora surpresas, não é tia Anna?”

“Ãhn?”

“A propósito, domingo passado foi aniversário da tia Anna sabia?”

Marianne saiu correndo com seus cabelos castanhos como o do pai esvoaçando e foi abraçar sua tia, Andrew então se aproximou de Jennifer.

“Eu levo você até o aeroporto em Londres hoje.” O jovem fazendeiro falou, o sol já baixava.

“Não quero dar trabalho, posso tentar uma carona.”

“Que isso, trabalho algum, eu levo você.”

“Eu agradeço, por que minhas opções são uma carona com você ou com um desconhecido, já que sua irmãzinha não dirige.”

“Ainda não venceu seu trauma Anna?”

“Só dirige em emergências.” Jennifer se antecipou na resposta.

 

 

Por falta de espaço na sua pick-up, apenas Andrew e Jennifer seguiram até Londres, para que ela pegasse seu voo até Glasgow, mas o clima no interior da cabine não era dos melhores.

“Então… Você é Vulpi… Anna deve ter contado que os pais de Eileen também são.” Andrew comentava timidamente enquanto dirigia.

“Não é tudo uma grande coincidência? Eu, seus sogros, os pais adotivos do seu pai…”

“É sim… uma grande coincidência…” Andrew não parecia muito à vontade.

“Foi sua irmã que percebeu que eu era Vulpi sabia? Nem eu sabia de mim mesma, olha que tapada que eu sou!” Tentava quebrar o gelo.

“Seus pais não te contaram por quê?”

“Eles morreram antes de me contar. Coisas da guerra.”

“Hum.”

Uma pausa incômoda se formou, então Andrew deu uma boa olhada em Jennifer e questionou, sério.

“Por que a minha irmã?”

Jennifer foi pega de surpresa com a pergunta.

“Precisa de porquê? Você, mais do que eu, deveria saber o quanto ela é incrível.”

“Me desculpe, mas eu não consigo imaginar como duas mulheres podem ser felizes juntas… Anna está passando por uma fase, e eu sinto muito por você, mas eu sei bem como isso vai terminar.”

“Na verdade Andrew, se me permite dizer, é exatamente o contrário, você sabe como os relacionamentos que Anna teve com homens terminaram, mas esse você não faz a menor ideia como vai terminar, nem sequer ‘se’ vai terminar.” Falou com ênfase no ‘se’.

Andrew ficou em silêncio pelos minutos seguintes.

A noite já caia por completo e Londres já se aproximava, as luzes da grande cidade podiam ser avistadas da estrada.

“Como se conheceram?” Andrew voltou a falar.

“Bom… resumindo, ela salvou a minha vida. A minha e de meus amigos. Nos defendeu de alguns gárgulas e não deixou que eu morresse de infecção.”

“Uau.”

“Eu não disse que ela é incrível?” Sorriu.

“É… É sim. Ela já foi noiva, você sabia?”

“Sim, Robert deve estar inconformado até os dias de hoje.”

Andrew balançou a cabeça.

“Você acha que a conhece mas não a conhece, Anna deve ter ficado alguns anos sozinha dentro daquela mansão e quando você apareceu acabou se apegando a você, como amiga, ela deve enxergar você como uma amiga.”

“Você tem amigos Andrew?”

“Sim, tenho.”

“Você dorme com seus amigos?”

Jennifer apenas lhe direcionou um sorriso, e Andrew não falou mais nada.

As seis em ponto Andrew estacionou em frente ao aeroporto em Londres, e acompanhou sua cunhada até os guichês da companhia aérea. Ela partiria naquela quarta-feira à noite, mas voltaria três dias depois.

“Tem pub em Swindon?”

“Tem sim, um só, eu trabalhei lá por alguns meses.”

“Hum… Estou pensando em levar sua irmãzinha lá no sábado ou domingo, o que acha? Vocês poderiam ir também.”

“Soube que o nível decaiu um pouco, mas tudo bem, podem usar meu carro se quiserem. Agora sobre irmos também, quem sabe, vou conversar com Eileen.”

“Ótimo. Até sábado então.”

Aquele dia terminou e quinta-feira veio apenas para que Jennifer matasse as saudades da sua família em Glasgow, e participasse de uma reunião do G6, como seu avô chamava o grupo dos seis clãs que organizavam a revolução Vulpi. Terminou o dia com a certeza que aquilo era real, e agora percebia o quão tangível era seu papel naquela cruzada.

Sexta-feira também foi embora e sábado chegou sem o sol que os acompanhava, apesar do dia nublado a paisagem verde e dourada da fazenda continuava como numa pintura. Jennifer continuava em Glasgow e Anna no interior do interior do interior da Inglaterra, sentada num banco rústico de madeira, em frente ao rio na propriedade da família, juntamente de seu irmão. A tarde já corria pela metade e haviam passado boa parte dela contando o que haviam feito nos últimos anos.

“Então, Jennifer foi visitar os avós na Escócia?”

“O avô. E as tias e os primos.”

“Volta hoje?”

“Sim. E vamos embora terça.”

“Terça já? Você poderia passar um tempo aqui conosco.”

“Tenho meus compromissos lá, não posso simplesmente abandonar tudo.”

“Mas você vem me visitar de novo, não vem?”

“Claro, mas você também pode nos visitar, continuo na mesma casa onde crescemos.”

“Eu não posso…”

“Andrew por que você sumiu? Por que não me procurou mais?”

Ele deu uma boa olhada para os lados antes de começar a falar.

“Aqui é meu refúgio, eu fiz algumas coisas nos primeiros anos da guerra…” – Hesitou antes de continuar. “Olhe, Eileen sabe de tudo, mas os pais dela não sabem. Eu vou contar à você, mas precisa me prometer que guardará isso como segredo absoluto, entendeu?”

“Você está me assustando Andy… O que você aprontou de tão grave?”

“Você promete? Nem para sua amiga!”

“Sim, essa conversa ficará aqui.”

“Eu nunca participei de nenhuma matança nem genocídio, mas me ferraram, me usaram como bode expiatório.”

“Do que você está falando?”

“Assim que cheguei aqui, na Europa, conheci um grupo com ideias libertárias, cheio de vontade de mudar o rumo da guerra, e eu entrei para esse grupo. Fui para a Turquia, onde ficava o quartel general, e de onde partiam as ordens. Era o que chamam de grupo terrorista, mas me recuso a classificá-los como tal… Nós apenas queríamos destituir do poder alguns tiranos.”

“Você era um terrorista Andrew?” Anna estava estarrecida.

“Nunca fui, nossos atos podiam até ser violentos, mas era em prol de um bem maior, para se fazer o omelete é preciso quebrar alguns ovos, não é o que dizem?”

“Hum…. Claro.” Respondeu sem comprar a ideia do irmão.

“O grupo cresceu, e vertentes reacionárias começaram a surgir entre os próprios amigos de farda, um destes subgrupos tinha ideias genocidas, queriam exterminar cidades inteiras, mas eu me recusei à participar dos atos hostis que eles planejavam. Não vou dizer que eu era um santo e que não fiz algumas coisas que me arrependo, mas eu nunca cedi a pressão desse pequeno exército.”

“E por que acabou escondido aqui então?”

“Um dia fui com meus colegas para o Sudão, tínhamos a missão de explodir um consulado, faríamos na calada da noite, haveria no máximo alguns vigilantes de serviço no prédio, poucas baixas, era para ser um atentado mais político do que sangrento. Mas fomos sabotados pelo grupo reacionário, aquele que tentou nos recrutar e recusamos. Na mesma noite eles explodiram um hospital ali próximo, e a autoria dessa explosão também foi dada à nós, porque já havíamos assumido a autoria da primeira explosão. Colocaram aquele segundo atentado, um ataque covarde, na nossa conta!”

“E o hospital não estava vazio…”

“Não, e estava repleto de crianças.”

“Isso é grave demais, é um crime de guerra sem tamanho!”

“Eu sei! Eu nunca participaria de algo tão bárbaro, mas hoje em dia sou procurado pelo governo de seis países por conta disso, algo que não fiz. Sem contar que o restante da nossa organização passou a nos perseguir também, nos julgando desertores.”

Anna precisou de alguns segundos para digerir aquilo tudo.

“Você está ferrado, muito ferrado…”

“Ferrado e escondido, por falar nisso, nunca revele a ninguém meu verdadeiro sobrenome ok? Aqui meu nome é Andrew Cooper.”

“Como fugiu?”

“Eu estava atravessando a fronteira com o Egito quando soube do que haviam aprontado com a gente, tivemos que fugir dali, passamos alguns dias vagando pelos arredores, até conseguirmos voltar clandestinamente para a Europa. Fui para a França, fiquei algumas semanas escondido numa pensão de um conhecido, mas fui descoberto pelo nosso grupo, fui para a Bélgica, mas me deduraram, então fugi para cá, para a Inglaterra, onde a atuação do grupo era quase nula, e o governo ainda não me caçava.”

“Acabou se enfiando aqui nessa fazenda de centeio.”

“Sim, mas aquela história que te contei sobre o pub, Eileen, é tudo verdade, eu não vim para a fazenda unicamente para me esconder, eu vim depois que me casei. Até então eu estava morando num porão na vila e trabalhando no bar.”

“Você nunca vai conseguir sair daqui… Você está preso nesta propriedade.”

“Até o dia que me anistiarem.”

“Não é o tipo de crime que anistiam assim, do dia para a noite.”

“Eu sei… Talvez nunca aconteça. Mas você sabe que essa conversa não pode sair daqui, não sabe?”

“Claro que sei… Mas eu vou me informar sobre seu caso, a quantas anda, quem procura por você, sobre o que te acusam, serei discreta, prometo.”

“Por favor, não faça nada que coloque meu paradeiro em risco.”

“Fique tranquilo, não vou prejudicá-lo.”

“Preciso continuar invisível.”

Anna ainda processava aquelas informações todas.

“Você não poderia pelo menos ter me mandado alguma carta, algum comunicado, dizendo que estava vivo?”

“Não era apenas eu, agora eu tenho uma família, tenho uma filha, eu tinha medo de colocar isso tudo em risco se tentasse me comunicar com o exterior, eu preferi não arriscar. Pelo menos não por agora, mas eu sempre tive esperança de achar uma forma de encontrar você, por mais que tudo indicasse que a guerra tivesse acabado com você.”

“Por que achava isso?”

“Por causa das notícias que vinham da américa, tanta devastação, tantas mortes, parecia que aquele continente havia sido dizimado. E eu conheço você, sei o quanto gosta de bancar a valente, achava que não duraria muito naquele ambiente hostil.”

“Minha moral está baixa com você hein maninho?” Sorria, pela primeira vez naquela conversa.

Olhavam na direção das águas, que corriam não muito profundas naquele riacho de águas enegrecidas pelas rochas.

“É verdade que você conheceu Jennifer salvando a vida dela?”

“Ela te contou?”

“Não entrou em detalhes.”

“É… ela estava em apuros com alguns gárgulas.”

“Ela sempre tem uma boa resposta para tudo, não é?”

“Vejo que conversaram…” Anna riu.

“Um pouco. Acho melhor voltarmos para casa, está vindo uma tempestade.” Andrew falou já se levantando.

“Você não ia buscá-la no aeroporto?”

“Não, os pais de Eileen já se encarregaram de arrumar um motorista para trazê-la.”

“Sério?”

“Os Vulpis são unidos, você deveria saber disso… Eles já estão conversando com o avô dela e tudo.”

“É… é uma espécie bem unida.”

Caminhavam lado a lado, pelo caminho de terra sendo acompanhados pela brisa úmida típica que antecede a chuva.

“Olha, sinceramente não tenho nada contra essa garota… Marianne a adora, não fala de outra coisa. Não acho que o problema seja ela, mas Anna, onde você estava com a cabeça ao se envolver com uma mulher?”

“Ela não é a primeira mulher com quem me envolvo.”

“Então você escondeu todas as outras da sua família?”

“Tá, confesso que é a primeira com quem tenho um relacionamento, mas não é a primeira vez que uma mulher me atrai, então eu entendo o seu choque, mas para mim não foi tão absurdo assim, foi apenas inevitável.”

“Nossos pais também não aprovariam isso.”

“Não fale por eles.”

“Anna… pelo menos pense sobre isso… o que você viu nela? Tenho certeza que você tem condições de achar um homem muito mais interessante que aquela garota, e que vai te proporcionar uma relação de verdade.”

Enquanto falava isso, já próximos da casa amarela, Anna pode ver Jennifer no gramado em frente à casa, com Marianne montada em suas costas, com um chapéu de cowboy preto, brincando de montaria. Ela galopava de um lado para outro, e a garotinha divertia-se e ria, balançando as pernas às suas costas e com a mão no chapéu.

Anna assistiu aquela cena, sorriu, e respondeu seu irmão.

“Andy desculpe, mas todos os seus argumentos são inválidos.” Terminou de falar e foi de encontro às “crianças”.

“Tia! Olha o chapéu que ganhei!”

“Nossa que chapéu bacana! Ganhou de quem?”

“Da tia Jenny!”

Marianne desceu das costas de Jennifer e mostrou o chapéu para sua tia.

“O seu está lá dentro.” Jennifer falou sorridente e ofegante para Anna, usava um short jeans e tinhas os joelhos sujos, tirava alguns fios de cabelo que estavam no suor da testa.

“Ah eu também ganhei um?”

“Ganhou! Mas o meu é o mais lindo de todos!” Marianne falava empolgada.

“Papai posso pedir um pônei de Natal?” Marianne corria para as pernas de seu pai.

“Um pônei? Vou conversar com o Papai Noel ok? Vamos ver se cabe no trenó dele.”

Não demorou muito para que a chuva despencasse e todos entrassem correndo para casa.

“Venha ver seu chapéu.” Jennifer falou para Anna, já se dirigindo para dentro.

Anna a seguiu, entrando também no quarto.

“Não precisava…”

Antes que terminasse a frase Jennifer a puxou pela nuca, fechando a porta a distância. Deu um beijo apaixonado e finalizou enfiando o chapéu negro em sua cabeça.

“Gostou?”

“De ambas as coisas.” – Anna sorriu. “Ainda não sei onde usá-lo.”

“Brinque com Marianne.”

“Ok. Acho que tenho que mandar um pônei para meu irmão…”

“E não esqueça de pagar aulas de montaria, a aula de hoje não foi suficiente.”

“Como foi na Escócia?”

“Conversas, reuniões, conselhos, exames médicos…”

“Exames médicos?”

“Meu vô quis ter certeza que estou bem, depois daquele piripaque…”

“Sei. Bem que ele fez. E como se saiu?”

“Saúde de ferro. Só talvez precise diminuir a cerveja. Mas vamos mudar de assunto, então, vamos ao pub hoje?”

“É uma boa mudança de assunto… Com essa chuva a estrada fica ruim, quem sabe amanhã.”

“Ok, vá lá mostrar seu chapéu para Marianne, vou tomar um banho e tirar essa grama das minhas pernas.”

 

“Anna. Anna. Tá dormindo?” Jennifer a chamava despretensiosamente do alto da sua cama, já passava de uma da manhã.

“Estava até dez segundos atrás.”

“Ah, desculpe, não queria te acordar.”

Além da chuva lá fora, pode se ouvir um longo suspiro vindo da cama de baixo.

“Não consegue dormir?”

“Não.”

“Ainda confusa com o fuso horário?”

“Talvez.”

“Andrew tem um pasto cheio de carneirinhos, conte-os mentalmente.”

“São ovelhas. E essas coisas nunca funcionam.”

“O que funciona então?”

“Coisas que você não aprovaria.”

“Nem pense nisso.”

“Não estou pensando, foi você que perguntou.”

“Quer deitar aqui?”

“Até que enfim, achei que não falaria nunca.” Disse já pulando para a cama de baixo.

Ajeitou-se de/ costas, debaixo das cobertas, Anna passou seu braço sobre ela, se encaixando por trás.

“Viu como cabem duas pessoas.” Jennifer falava baixinho.

“Me sinto como uma estudante num campus de uma universidade, me espremendo numa cama de solteiro com sua namorada as escondidas.”

“Já fez isso?” Jennifer perguntou curiosa.

“Ãhn… É… Mas com namorado.”

“Espera, espera, várias informações novas.” Jennifer se virou, ficando de frente para ela.

“Você sabe que horas já são?” Anna desconversava.

“Uma e dezoito. Você fez faculdade de quê?”

“Quer tentar adivinhar?”

“Artes dramáticas?”

“Você está falando sério?”

“Lógico que não. Hum sei lá, física nuclear?”

“História.”

“História? História é legal.”

“É sim, faz tanto tempo…. Mas depois fiz administração a pedido do meu pai, para ajudá-lo na fábrica.”

“Duas faculdades, assim você me mata de orgulho. E eu nem terminei o colegial.”

“Você nem teria como terminar, todas as escolas da cidade foram pelos ares durante a guerra.”

“Bem observado. História… Deve ser fascinante viajar no tempo, e pelo mundo. Ainda lembra de alguma coisa?”

“Bastante. Lembro por exemplo de ter estudado sobre seus parentes.”

“Quem?”

“A casa de Stuart. É como chamam os reinados na Escócia, chamam de casas reais.”

“E teve um rei/nado dos Stuart?”

“Teve, não me recordo exatamente em qual época, acho que do século quatorze até o dezessete ou dezoito, a Escócia foi governada por essa dinastia.”

“Caramba… Morria sem saber.”

“Pergunte para seu avô, ele deve saber muito mais do que eu.”

“É… Meus parentes…”

“Viu, já estudei sobre vocês…”

“Então, levava garotos para seu dormitório na universidade?”

“Raramente.”

“Raramente…” Deu um sorrisinho irônico.

“Já está com sono?”

“Não… Você fica linda assim, toda… universitária.”

Anna se aproximou, a puxou para perto.

“Cante alguma coisa.” Jennifer pediu.

“Quer que eu cante para você dormir?” Falou no seu ouvido, a envolvendo com suas mãos.

“Sim.”

“Melhor não…” Deu alguns beijos preguiçosos.

“Só um pouquinho vai.”

Um silêncio se instaurou, sendo rompido um minuto depois.

“Jeremiah was a bullfrog… was a good friend of mine…” Anna começava a canção, devagar.

Jennifer riu.

“Jeremiah era o nome de um dos conselheiros Vulpis que foi na sua festa de aniversário.” Explicava.

“Minha mãe sempre cantava essa.”

“Ok, troco a música por beijos, fácil.”

Anna sorriu e voltou a beijá-la nos lábios, deslizava sua mão pela lateral do corpo de Jennifer quando ouviu um gemido, mas não de prazer, era de dor. Imediatamente ela parou o beijo e a fitou com as sobrancelhas baixadas, sem entender.

Então olhou para baixo e ergueu a camiseta de Jennifer, pode ver um grande hematoma na altura das costelas, parecia algo recente.

“Não foi nada.” Jennifer se antecipou.

“Como conseguiu isso?”

“Sério, não foi nada demais.”

“Foi minha sobrinha, brincando em você hoje?

“Marianne? Não, claro que não, ela pesa menos que uma borboleta.”

“Quem fez isso? Foi na Escócia?”

“Foi, mas não quero falar sobre isso.”

Anna a olhava tentando decifrá-la, mas não fazia ideia do que havia acontecido.

“E os votos de sinceridade?” Insistia.

Jennifer apenas balançou a cabeça meio contrariada, e baixou sua camiseta.

“Machucaram você, como aquela vez, com Helen?” Anna falou já com a voz menos exigente.

“Não, não foi nada disso. Só não estou a fim de falar sobre esse assunto agora. Prometo que conto outra hora, tudo bem?”

“Eu vou te perguntar outra hora.”

“E te responderei. Podemos ativar o modo concha?” Falou já se virando de costas para Anna.

 

 

        Capítulo 33 – Canecos voadores

 

No domingo a chuva havia cessado, ficando apenas o cheiro da vegetação e da terra molhada. Jennifer aproveitaria aquela tarde para contar à Anna sobre os planos Vulpi, já que seu avó havia liberado que ela contasse para sua namorada.

Caminharam até o mesmo banco de madeira em frente ao rio, que agora corria robusto e avermelhado com a chuva, e Jennifer tentou contar tudo de uma maneira que não a chocasse, receava que talvez ela não concordasse com aqueles planos de certa forma megalomaníacos. Anna ouvia tudo atentamente, surpresa, mas sem questionamentos.

“E qual seu papel nesse levante?” Foi a primeira pergunta que fez, após ouvi-la.

“Meu clã é um dos seis que tomará frente, meu avô me quer ao seu lado na liderança. E se ele não estiver mais aqui quando isso acontecer, ah… daí estarei muito, muito mais encrencada.”

“Você será uma líder da revolução.”

“Mais ou menos isso.”

“E você concorda?”

A pergunta a surpreendeu.

“Agora sim. Quando meu avô me contou achei tudo uma loucura, mas já conversamos tanto, debatemos essa semana inclusive, é uma solução bem plausível sim.”

Anna inclinou-se para frente, pensativa, apertando os olhos por causa do sol que vinha sobre o rio.

Jennifer continuou.

“Não será uma guerra. Será muito mais político do que qualquer outra coisa. E não será de uma hora para outra, já está sendo arquitetado há muito tempo, tem governantes atuais que farão parte, gente que já está no poder. Acho que é viável. O que acha disso tudo?” Jennifer queria sua opinião.

“Eu ainda não sei… Historicamente esse tipo de imposição não costuma dar certo. É natural que o diferente seja rejeitado, ainda mais de forma compulsória. Estou tentando observar de um prisma neutro, entende?”

“E como híbrida, o que você pensa?”

“Acho pretensão demais achar que somente uma espécie é competente o bastante para governar.”

“Mas a ideia é agregar todas as espécies no decorrer do processo.”

“Excluindo todas no início. Não sei, ainda estou formulando uma opinião melhor. Mas uma coisa eu tenho certeza, é carga demais nas suas costas.”

“Me sinto bem melhor ouvindo isso.”

“Com certeza haverá uma super equipe dando suporte e guiando todos os seus passos, mas será desgastante, cansativo, sem contar do perigo que você correrá.”

Jennifer apenas assimilava e se dava conta de tudo.

“E sabe o que mais?”

“O que?”

“Eu estarei lá com você, o tempo todo.”

Jennifer lançou um sorriso aliviado para o lado, a esquerda, onde Anna ainda olhava para a frente.

“Então vou dar conta.”

Anna deu uma olhada rápida para o lado, corroborando.

“Tem uma coisinha chata que preciso conversar com você.” Jennifer reiniciava a conversa.

“Fale.”

“Seu irmão, fez algumas coisas assim, não muito legais nesse tempo em que andou sumido, antes de encontrar o amor loiro de sua vida.”

“Eu sei…”

“Ele te contou.”

“Sim.”

“Meu avô não vai contar para ninguém o paradeiro dele, o objetivo de investigá-lo foi realmente para que você sossegasse seu coração o reencontrando, mas ele não imaginava que a polícia de cinco países o procurassem por terrorismo.”

“Cinco? Ele acha que são seis.”

“Então um país já cansou de procurar por ele. Enfim, que porra que ele andou aprontando?” Jennifer perguntou calmamente, olhando para Anna.

“Ele admite ter integrado um grupo terrorista turco, mas o motivo dele estar sendo procurado, um atentado num hospital no Sudão, ele alega inocência, foi bode expiatório.”

“Hum, então o negócio foi tenso mesmo… Bom, vou te falar com as palavras que meu avô usou ok? Temos que conseguir anistia para esse moleque que gosta de explodir coisas.”

“Como se fosse assim simples.”

“Não, não é. Mas a raposada vai entrar em jogo, porque quando a revolução começar vão esmiuçar minha vida privada, consequentemente a sua vida também, consequentemente vão descobrir sobre seu irmão, e ele precisará estar com a ficha limpa.”

“É uma questão política então.”

“Já comecei a trabalhar baby.”

“Eu não sei… Andrew morre de medo de colocar a família em risco, não sei se vai querer que os Vulpis desenterrem isso.”

“É a liberdade dele de volta. Olha só, sei que você acabou de dizer que estará comigo pro que der e vier, mas digamos que tudo mude, e você mude de ideia, ou você termine comigo, não estejamos mais juntas, de qualquer forma vão revirar meu passado e vão encontrar você, e seu irmão. Então a verdade é que algo precisa ser feito, porque provavelmente seu irmão já está em risco, você está inevitavelmente atrelada a mim.”

Anna balançava a cabeça pensativa.

“Vamos esperar, me dê um tempo para assimilar isso tudo, pode ser?”

“Claro meu anjo, relaxa, nada vai acontecer em breve.”

Ainda com os cotovelos apoiados nas pernas, Anna passou as mãos pelo rosto, inquieta. Jennifer a observava.

“Quem diria que no dia que você resolveu embarcar naquele trem com a gente sua vida seria bagunçada dessa forma, não é mesmo?”

“Eu estava quietinha dentro da minha casa, trabalhando honestamente, com minha taça de vinho, completamente sem planos para os próximos… sei lá, dez anos, e você veio para bagunçar tudo.” Anna entrava na brincadeira.

“De nada.”

“Foi uma avalanche de novas informações essa semana…”

“É…”

“Mas ainda não sei como você se machucou.”

Jennifer pegou a mão direita de Anna e passou o braço dela por cima dos seus ombros, deitando sua cabeça em seu ombro.

“Ainda não.”

Anna não insistiria, estava aprendendo que Jennifer tinha seu próprio tempo para tudo.

“Quer ir ao pub hoje?” Anna a convidou.

 

Chegaram cedo ao pub no centro de Swindon, uma casa escura entre tantas outras parecidas numa rua úmida tipicamente de subúrbio inglês. O espaço lá dentro era amplo, com dois ambientes, algumas vigas largas, paredes de madeira marrom escuras, várias bandeiras do Reino Unido espalhadas pela parede e alguns letreiros luminosos.

As duas garotas sentaram-se numa pequena mesa mais ao canto, longe do balcão do bar, que foi se preenchendo no decorrer da noite por figuras não muito simpáticas.

“Andrew tinha razão, esse pub não é lá muito bem frequentado…” Jennifer constatava, observando os tipos que circulavam ora derramando seus canecos de chope escuro, ora bradando para a TV.

“É… Achei que seria um lugar mais agradável. Meia-noite vamos embora, pode ser?”

“Por mim tá ótimo. Olha aquele lá, de camisa azul, o que está fazendo?”

Anna se inclinou para o lado, para enxergar melhor.

“Não olhe.” Anna voltou a sentar-se normalmente em sua cadeira.

“Por quê?” O comando foi seguido exatamente o oposto, Jennifer se inclinou para frente para ver melhor também.

“Ele está…” – Jennifer riu. “Fazendo xixi no vaso de plantas!” Riu mais ainda.

“E agora olhando para cá. Falei para não olhar.”

“Pronto, não está mais olhando. O pessoal aqui é esquisito.”

“Estão bêbados, temos que ficar na nossa.”

“Pelo menos o chope aqui é bom…” Jennifer dava mais uma olhada em volta, o lugar era escuro, havia o barulho alto da TV mesclado com o som sujo de alguma música indecifrável vindo de pequenas caixas de som.

Passaram quase duas horas não fazendo muito mais que bebendo suas cervejas sem pressa e jogando conversa fora, em meio aos ruídos do bar.

“Não gosto do jeito como olham para cá.” Anna estava incomodada.

“Como você disse, continuamos aqui no nosso canto e não teremos problema.”

Anna estava sentada de costas para boa parte do recinto, mas mesmo assim relanceava os olhos de tempos em tempos ao redor, mexia nas mangas de seu casaco de couro, observada por Jennifer, à sua frente.

“Vai sentir falta deles, não vai?” Jennifer tentava relaxá-la.

“É… Família, seria bom ter por perto.”

“Queria poder levar Marianne na mala.” Jennifer falou prendendo seu cabelo.

“Nem fale duas vezes, ela iria mesmo.” – Anna deu uma olhada já mais tranquila em Jennifer. “Ela adorou o presente, Eileen disse que não quer tirar nem para dormir.”

“Crianças adoram chapéus.”

“Por falar em presente, o seu de aniversário já está encomendado.”

“Por que a antecedência? Ah já sei, porque precisava construir, não é mesmo?”

“Construir?” Lançou um olhar confuso.

“Não é uma cobertura em Miami Beach?”

“Hum não foi dessa vez.”

“Tudo bem, tenho certeza que também vou gostar.”

Jennifer balançou seu caneco vazio e levantou-se.

“Vou buscar o último, quer um também?”

“Não, já parei. /Eles deveriam ter serviço nas mesas.”

“Você está exigindo demais desse lugar…” Saiu sorrindo.

O jogo de futebol na TV já havia acabado a algum tempo e a maioria no bar agora comemorava ou discutia entre si, num ruído eufórico, acalorados pelo chope.

Jennifer contornou a aglomeração de mesas e transeuntes, e seguiu até o balcão, num lugar mais vazio ao canto, onde pediu seu último chope. Aguardava olhando a TV no alto e tamborilando seus dedos sobre a bancada, quando sentiu uma mão em sua cintura que desceu rapidamente para sua nádega, olhou assustada para o lado, e tirou a mão do seu corpo quase que por reflexo.

“E aí gatinha…”

Pode ver de perto aquele mesmo homem com a camisa de futebol azul do Chelsea, agora a poucos centímetros do seu rosto, e com um sorriso debochado, os cabelos negros desgrenhados e oleosos, apoiado no balcão com o cotovelo. Ela apenas deu um pequeno passo para trás com um semblante um pouco assustado.

“Seu chope senhorita.” O barman lhe entregou o caneco e ela seguiu de volta para sua mesa, ou pelo menos tentou.

“Hey, espera, posso te pagar uma bebida? Vamos conversar.” Ele a cercara, impedindo sua passagem.

“Eu já tenho uma bebida, como pode ver.” Ergueu o caneco e as sobrancelhas.

Anna nesse momento deu uma olhada para o lado, por cima do ombro, e viu a cena, sem gostar do que via.

“Por gentileza.”/ Jennifer tentou novamente seguir até sua mesa, já sem paciência, e desta vez a passagem foi liberada.

“O que esse cara queria?”

“Pagar uma bebida, me encher o saco… Bêbados fazem as mesmas coisas em todos os países.” Respondeu já sentando de volta.

“Tirando o chope que você gostou, não foi uma boa ideia ter vindo até aqui, definitivamente.” Anna comentava, incomodada.

“Terminamos esse aqui e partimos. Nem vou insistir para dividir sua pequena cama comigo hoje, vou te deixar dormir em paz, ok?” Sorriu.

“Você fala como se eu odiasse dormir com você.”

“Droga.” Jennifer olhava preocupada para frente.

“O que foi?”

“Não caia nas pr/ovocações deles.”

“Ãhn?”

“Olá meninas!” O cara com a camisa azul acompanhado de um colega igualmente bêbado e com ares de folgado já sentavam-se à mesa delas, puxando duas cadeiras para próximo.

Anna percebeu então o que acontecia, olhou para cima com a testa inteiramente franzida e não acreditava na ousadia daqueles dois, enquanto Jennifer apenas torcia para que eles logo desistissem delas.

“E então, estão de passagem pela cidade? Posso ser o guia de vocês.” Falou o de azul, que estava sentado ao lado de Jennifer.

“Não, obrigada.” Jennifer respondeu de bate pronto. Em seguida ele inclinou-se para o lado e deu uma boa olhada nela, dos pés à cabeça.

“E você gata, está sem bebida, posso pegar uma para você.” Falou o outro para Anna.

Anna engoliu em seco, e respondeu.

“Já estávamos de saída.”

“É, esse chope aqui foi a saideira, já estamos indo, sério, já estávamos saindo mesmo.” Jennifer completou.

“Não, duas garotas bonitas como vocês tem que aproveitar a noite, nós podemos providenciar diversão…” Deu um sorrisinho malicioso. Seu colega, que parecia um pouco bobalhão, apenas ria.

Anna soltava um pouco a echarpe cinza que envolvia seu pescoço, como se o ambiente estivesse esquentando, mas na verdade era seu sangue que começava a ferver, irritada.

“Termine seu chope para irmos…” Anna murmurou, de lado, para Jennifer.

“Vamos.”

“Ah que isso, fiquem.” – Ele se aproximou de Jennifer. “O que acha de ir para a minha casa belezinha?”

Ele fez menção de colocar a mão no braço de Jennifer, mas parou o movimento no ar quando ouviu Anna.

“Não ouse.”

Olhou assustado para Anna, mas com um sorriso sátiro, duvidando da autoridade daquela ordem.

“Você é a dona d/ela por acaso? Para sua informação, eu já coloquei minhas mãos nela lá no balcão do bar. Não foi gata?” E novamente ele insistiu, dirigindo sua mão na direção do braço de Jennifer.

“Eu falei ‘não ouse’.” Anna bradou já segurando o braço dele, com força.

E pronto, o pandemônio estava formado. O amigo bobalhão ao ver o amigo preso pelo braço tentou soltá-lo, e acabou levando um murro no meio da face. Anna puxou o homem da camisa azul para perto e também lhe bateu no rosto com a mão livre. Porém eles não eram os únicos com ânimos exaltados dentro daquele bar obscuro, logo alguém já puxava Anna pelo pescoço e em segundos boa parte dos frequentadores estavam envolvidos em murros, pontapés, cadeiradas e garrafadas, sem contar os arremessos de canecos, garrafas e bêbados sobre as mesas e balcões, algo digno de um filme de ação mal dirigido.

“Fique aqui no canto!” Foi a única coisa que Anna falou antes de sumir.

Jennifer apenas desviava-se do que vinha em sua direção, não queria entrar naquele bolo humano desvairado, e procurava por Anna. Dali, atrás de uma das poucas mesas ainda no lugar, assistia aqueles homens com expressões raivosas, suados, extravasando álcool, futebol e testosterona, alguns já sangrando, em meio ao ambiente mal iluminado e repleto de fumaça de cigarro, com vozes, gemidos e todo tipo de ruído.

Finalmente a localizou, e percebeu o que ela estava fazendo. Não estava brigando com ninguém, não batia em ninguém, nem apanhava, apesar de estar no meio da confusão. Anna olhava atentamente em volta, como se estivesse numa caçada. Estava procurando alguém.

“Ah fala sério…” Jennifer suspirou para si.

Desviando de tudo e todos, Jennifer conseguiu chegar até ela abaixada, e a puxou pela perna.

“Anna! Vamos embora!”

“Ainda não. Saia daqui do meio, vá para o carro.”

“Que porra você quer aqui?? Vamos embora!”

“Vá para o carro, já vou também.” Terminou de falar e deu algumas passadas apressadas na direção do balcão.

Jennifer hesitou, mas foi atrás dela, como num jogo de futebol americano, precisou desviar-se de algumas pessoas engalfinhadas, um caneco passou voando a poucos centímetros do seu rosto. Conseguiu chegar a tempo de ver Anna erguendo uma cadeira de madeira e a acertando nas costas do homem com a camisa azul do Chelsea. Logo em seguida o seu colega bobalhão, que de bobalhão naquele momento não teve nada, acertou uma garrafa quadrada, transparente, na cabeça de Anna, por trás, a derrubando no chão.

Jennifer correu até ela, não sem antes dar um soco e uma cotovelada no rosto do amigo bobalhão, arrancando um pouco de sangue do seu nariz. Anna estava desacordada, caída de lado.

“Acorda Anna! Temos que sair desse inferno!” A virou para cima, dava tapinhas no seu rosto, tentando acordá-la.

“Por favor, acorde…” Olhou para os lados, como se procurando alguma solução milagrosa para aquela situação.

“Como vou te tirar daqui?” Afastou o cabelo caído sobre o rosto dela.

Tentou erguê-la, e arrastá-la, havia pessoas brigando à sua frente, cadeiras, mesas.

“Que merda, por que você tem que ser tão grande?”

“Deixe comigo.”

Jennifer levantou a cabeça assustada, e viu um homem passar seus braços por baixo do corpo Anna. Ele era alto e com bom porte, de cabelos loiros, um pouco compridos, e olhos claros.

“Ok.” Foi o que ela balbuciou enquanto ele a erguia, com facilidade.

“Estão de carro?”

“Sim, aqui perto.”

Atravessaram rapidamente o recinto, Jennifer os seguiu, os usando como escudo naquela bagunça.

“Ali, aquele branco.” Apontou para o carro de Andrew, já do lado de fora do bar.

Jennifer correu até a porta, a abrindo. Com cuidado o homem deitou Anna no banco, ainda desacordada.

“Eu conheço você?” Jennifer perguntava, intrigada com o homem solícito.

“O quê?” Ele estava parcialmente dentro do carro, verificando o ferimento na cabeça de Anna.

“Você sabe se tem algum hospital aqui perto?”

Ele então desceu do carro, e a fitou.

“Não vai precisar de hospital, foi de leve, daqui a pouco ela acorda.”

“Você é médico?”

“Não, mas eu sei do que estou falando.”

Jennifer o olhava intrigada.

“Você por acaso tem algum irmão?”

“Ãhn? Tenho, por quê?”

“Nada… Deixe eu vê-la.” Jennifer falou entrando no carro, e dando uma examinada em Anna. Parecia bem, respirava com facilidade.

“Só está desmaiada, mas vocês deveriam evitar se meter nesse tipo de confusão, da próxima vocês podem não ter tanta sorte, ou eu posso não estar por perto.”

“Mas quem é você?”

Jennifer virou-se saindo do carro, mas o homem já havia ido embora. Ainda deu uma olhada nos arredores, pela rua, mas nem sinal dele. Entrou no carro, tirou seu casaco, dobrou e colocou embaixo da cabeça dela, acomodou Anna de forma mais confortável no banco e fechou sua jaqueta.

“Andrew vai me matar se eu chegar com você assim em casa baby… ele já não gosta de mim…” – Conversava sozinha, enquanto passava sua mão na testa suada de Anna. “Você vai acordar logo. Não vai?”

Enxergou no início da rua um carro da polícia, com suas luzes ligadas vindo na direção do pub, achou que era hora de sair dali. Deu partida no carro e iniciou a volta para a fazenda, de olho em Anna.

Alguns minutos já na estrada reparou numa garrafa plástica de água mineral na lateral da sua porta, não pensou duas vezes, segurou a garrafa com as pernas, girou a tampa, e despejou na cab/eça da sua passageira.

“O que foi isso?” Foram as primeiras palavras de Anna.

“Finalmente!” Jennifer falou aliviada e sorridente.

“Você jogou água em mim?” Anna esfregava as mãos no rosto e nos olhos, e depois passou a mão nos cabelos, jogando para trás.

“Você estava desacordada. A água funcionou. Como se sente?”

Como se lembrando do ocorrido, colocou a mão na nuca com uma feição de dor.

“Minha cabeça.”

“Está doendo muito?”

“Um pouco. O que aconteceu? Onde estamos?”

“Estamos voltando para casa. Não lembra o que aconteceu?”

“Acho que algo me atingiu por trás.”

“Foi uma garrafa de tequila, ainda bem que estava quase vazia.”

Anna a olhou.

“O que foi? Não gosto de desperdício.”

Com os olhos fechados, voltou a pousar a cabeça no casaco dobrado de Jennifer, que estava no encosto do banco.

“Quer ir num médico, farmácia, veterinário, ou sei lá, quer ver sua cabeça?”

“Vou ficar bem.”/

“Daqui a pouco chegamos em casa, tenho analgésicos na mala.” Jennifer falou segurando sua mão.

Anna inclinou um pouco a cabeça para o lado, a olhando.

“Analgésicos normais.” Jennifer completou.

“Eu sei.” – Enxugou mais um pouco os olhos. “Como eu saí de lá?”

“Um cara bonzinho nos ajudou.”

“Que cara bonzin/ho?” Voltou a deixar sua cabeça pender para o lado, fitando Jennifer.

“Eu não sei, eu estava tentando te arrastar para fora, sem sucesso lógico, e ele chegou e nos salvou, assim, do nada. Te carregou até o carro.”

Anna franziu as sobrancelhas.

“Que estranho.”

“É.”

“Ele falou quem era?”

“Não, mas acho que o cara que nos ajudou era Vulpi, senti algo, umas vibrações, sei lá.”

“Ah é?”

“Meu faro está melhorando.”

“Bom, eu estava completamente apagada, não faço ideia de como ele seja.”

“Não sei… tem algo nele que está me intrigando… Mas você vai zombar de mim.”

“O quê?” Anna passava a mão na testa, com um semblante dolorido.

“Não, deixa pra lá…”

“Diga logo Jennifer.”

“Acho que ele é o /Thor.”

“Que Thor?”

“O Thor… Thor.” Falou meio encabulada.

“O Thor… super-herói?”

“É.”

“O Thor… irmão do Loki?”

“É.”

“E o Thor é Vulpi.”

“Aparentemente sim.”

“Ok.”

“Viu, era besteira.”

“Só para deixar claro, quem levou a pancada na cabeça fui eu, certo? Ou você também levou?”

“Sabia que você ia zombar.”

“Por que eu não acreditaria? É algo tão plausível.”

“Mas parecia com ele.”

“Hum. Cabelos loiros compridos, olhos azuis, barba?”

“Sim, mas não tinha barba, o Thor dos quadrinhos nem sempre usou barba, só o do cinema.”

“Ah certo. Talvez ele seja amigo dos duendes que nos atacaram naquela floresta na Escócia.”

Jennifer olhava agora apreensiva pelos retrovisores e não prestava mais atenção na conversa.

“Esse cara bonzinho também usava uma capa vermelha e… Hey o que foi isso?” Anna assustara-se com uma manobra defensiva que Jennifer fez com o carro.

“Tem um carro tentando nos tirar da estrada!”

Jennifer olhou pela janela do seu lado e viu uma caminhonete grande, preta, pareada com elas, e reconheceu o motorista: o cara com a camisa azul do Chelsea.

“Quem é??”

“Seu desafeto do bar.”

“O que você vai fazer?”

“Deixe comigo.” Jennifer segurou firme o volante com ambas as mãos e olhava para frente, determinada, olhando às vezes de relance para o lado.

Ela acelerava cada vez mais, e o carro ao lado correspondia, e a empurrava lentamente para a borda da rodovia. Jennifer estendeu os braços firmemente no volante e deu um giro rápido, fazendo com que a lateral de sua pick-up batesse na lateral do outro carro, o empurrando e fazendo um estrondo. Mas ele voltou para a estrada.

“Você vai acabar com o carro!”

“Vou acabar com eles.” Era a vez de Jennifer ficar irritada naquela noite.

Seguiram emparelhados até um cruzamento, acabaram não pegando nenhuma das duas estradas, subiram o meio fio e andaram por algumas centenas de metros sobre um terreno de terra, aos solavancos. Jennifer cortou a frente deles e tomou uma estrada asfaltada, mas foi seguida e logo o carro preto já estava ao seu lado novamente.

Jennifer empurrou o carro para o lado, batendo lateral com lateral, podia se ouvir o ranger alto das latarias em contato, os carros disputando o mesmo espaço. Ela sentia o volante vibrando, segurava com força e temia que o carro se desgovernasse.

“Pare o carro!” O cara de azul gritou.

“Me pare se for capaz seu filho da puta!”

“Eu quero terminar o que eu e sua amiga começamos no bar!”

“Eu acho que…” Anna tentava falar algo com Jennifer.

“Não, agora o negócio é comigo, cuide de sua cabeça.” Jennifer a interrompeu.

“Ela já acordou?” Ele gargalhou após gritar de dentro de seu carro.

“Por que você não vai dar sua bunda para esse seu amiguinho aí do lado?”

Assim que terminou de falar Jennifer enfiou o pé no acelerador com raiva, girou o volante para fora da estrada e em seguida para dentro, dando um balão, e encurralando o carro deles, batendo na quina da frente, fazendo com que a caminhonete deles caísse da estrada, capotando. Seu carro também saiu da estrada, as rodas travaram, mas conseguiu conduzi-lo de volta. Elas ainda ziguezaguearam pelo asfalto até Jennifer recuperar o controle do veículo, mas pode ver pelo retrovisor, com uma alegria maldosa, o grande carro preto com as rodas ainda girando no ar, ficando para trás.

Jennifer enfim olhou para Anna, que estava pálida, apavorada, parecia que havia prendido a respiração durante toda a aventura. Enquanto Jennifer era o retrato fiel da excitação e euforia.

“Viu, é assim que se termina uma briga!” Comemorava esfuziante.

“Vi…” Anna acabou sorrindo também.

“Você está bem?”

“Estou, bem melhor que eles, isso que importa.”

“Sinto muito pelo carro.”

“Depois eu cuido disso.”

“Pelo menos conseguiremos chegar em casa com ele.”

Anna olhava pelos vidros, se orientando.

“Ãhn… acho que não estamos indo para casa.”

“Onde estamos?”

“Não faço ideia.”

“Oh merda… nos perdemos naquele cruzamento.” Falou já freando bruscamente.

 

Chegaram na fazenda duas horas depois, fazendo o mínimo de barulho para não acordar o restante da casa. A noite havia sido longa e extenuante, tomaram um banho e logo foram para o quarto.

“Dê uma olha na minha cabeça, aqui atrás, veja se é apenas suor.” Anna falou baixinho, sentada em sua cama.

“Tenho uma boa e uma má notícia. A má é que não é suor, é sangue. A boa é que não consigo enxergar seu cérebro, nem seu crânio.”  – Pegou um lenço em sua mala e colocou embaixo da cabeça de Anna. “Não está mais sangrando, mas deixe aí.”

“O corte é grande?”

“Não, uns três centímetros. Eu lembro de ter lido uma vez na escola uma livreto que falava sobre o que fazer em caso de uma pancada na cabeça.”

Jennifer ficou olhando pensativa para cima.

“E?”

“E estou tentando lembrar o que dizia.”

“Ah claro, mas não se apresse.”

“Acho que você não pode dormir.”

“Mas estou com so/no.”

“E não pode manobrar máquinas pesadas. Ou essa era a bula do meu remédio para rinite? Não lembro.”

“Ok, eu estou bem, só um pouco zonza, mas não foi nada demais, eu só queria ver até onde você ia.”

“Thor falou que foi de leve.”

“Claro que Thor entende disso.”

“Ele disse que entende.”

“Eu vou dormir, tá bom?” Falou já entrando debaixo das cobertas e se deitando, Jennifer permanecia sentada na beirada da cama, a fitando.

“As coisas terminaram assim por causa da sua teimosia.” Falou séria.

“Nada a ver.”

“Por causa da sua insistência em bater no cara que me cantou e passou a mão na minha bunda.”

“Ele passou??”

“Viu? É disso que estou falando!”

“Eu não poderia deixar o cara que passou a mão na bunda da minha namorada viver para contar a história.”

“Em que século voc/ê vive, John Wayne? Por que não fizeram um duelo em frente ao bar?”

“Como? Nem tínhamos armas.”

“Eu estava brincando.”

“Ah tá.”

Jennifer balançou a cabeça para os lados, e levantou-se, já subindo para sua cama.

“Espera, venha cá, quero te perguntar uma coisa.” Anna a puxou pela mão.

“Diga.”

“Ele tinha um martelo?” Anna riu ao terminar a pergunta.

Jennifer arremessou um travesseiro em sua direção e subiu para a cama.

“Volte…”

“Boa noite.” Jennifer respondeu já se cobrindo.

“Me desculpe.”

Um silêncio sepulcral seguiu-se.

“Pequeno castor?”

Alguns segundos depois a cama de cima movimentou-se, e Jennifer desceu, Anna sorriu e levantou as cobertas, para que se juntasse a ela na pequena cama.

“A cabeça ainda dói?” Jennifer perguntou, aninhando-se sobre o braço e o corpo de Anna.

“Quase nada.” Deu um beijo demorado em sua testa.

“Não se meta em confusão por minha causa.”

“Tentarei.”

“E talvez super-heróis existam.”

“É possível sim.”

“Você é uma.”

“Bom, daí tenho minhas dúvidas.”

Jennifer mantinha um olhar baixo, preocupado, acompanhava seus dedos correndo pela pele de Anna, do pescoço até o início dos seus seios.

“Não corra riscos desnecessários meu amor…”

“Por que está dizendo isso?” Anna percebeu um tom de voz diferente.

Ela esperou uns segundos antes de responder.

“Estavam roubando /sangue de um híbrido.”

“Onde? Dentro do pub?”

“Não, não hoje. Na Escócia.”

“Você viu?”

“Eu tentei impedir.”

Anna começava a entender.

“Seu machucado…”

“Eu e meus primos saímos para jantar na vila, foi na sexta-feira. Quando estávamos indo buscar o carro eu ouvi algo acontecendo num beco próximo ao restaurante, alguma confusão, parecia alguém pedindo ajuda, claro que eu fui ver o que era.”

“Não seria a Jennifer que eu conheço se você não fosse.”

“Exato. Meus primos não queriam que eu fosse, mas fui mesmo assim, Hugh acabou me acompanhando, colocamos a cabeça para dentro do beco e bom… eu vi o que faziam, entendi na hora, eram dois Titans contra um híbrido, não sei se iam matá-lo, mas de qualquer forma eu não poderia deixar continuarem.”

Anna apenas assimilou com a cabeça.

“Hugh sabe lutar sabia? Eu não sabia. E anda armado.”

“Por que ele anda armado?”

“Também não sei. Mas ele me surpreendeu, e não precisamos de muito esforço para colocar os caras para co/rrer, eu só levei um chute nas costelas, e ele um murro na boca. Depois levamos o híbrido para o hospital, ele ficou bem.”

“Como sabe?”

“Ligamos para o hospital no dia seguinte, logo teve alta.”

“Então essas coisas ainda acontecem…”

“Era por isso que não queria te contar, se você não tivesse visto o hematoma eu não te contaria, porque só fomentaria ainda mais esse seu pânico.”

“Que não é infundado.”

“Não, não é, mas você é uma garota esperta, valente, sabe se defender. E não está sozinha.”

“Esse sangue é uma maldição.”

“Não fale assim…”

Anna passou seus dois braços ao redor de Jennifer, a envolvendo mais, a puxando para si.

“Sobre super-heróis, acho que você tem razão… e você também é um deles.”

Jennifer deu um sorriso torto.

“O dia já está clareando…”

“Está…” Anna respondeu já quase vencida pelo sono.

Algumas batidas na porta interromperam aquele final de conversa sonolento.

“Anna?? Anna o que foi aquilo no meu carro??” Andrew bradava do outro lado da porta.

 

 

        Capítulo 34 – Laranja

 

“O que você disse para seu irmão, sobre o carro?” Jennifer e Anna aguardavam as malas na esteira do aeroporto, já em Bridgeport.

“Que foi um acidente, um carro furou o sinal e nos colheu, justificou inclusive o corte que eu tinha no lábio.”

“Ele acreditou?”

“Sou boa com desculpas.”

“Que bom. Quer dizer…” – Franziu a testa a fitando. “Quer dizer que você é boa em inventar desculpas? Bom saber.”

Anna apenas segurou um risinho.

“Vou comprar um carro novo para ele.”

“Você também bateu o meu carro, naquele dia que me levou ao hospital.”

“Sua mala chegou, vá buscar.”

“Pronto, a minha e a sua mala, vamos lá fora procurar taxis.”

“Quer ir para minha casa?”

Jennifer não resistiu, acabou dando uma risada abafada.

“Quanta diferença não? Da última vez que voltamos da Europa você nem aceitou dividir o taxi comigo.”

Anna balançou a cabeça uma vez, fitando o chão.

“Você veio falando o nome de sua ex-namorada enquanto dormia e eu havia levado uma flechada na bunda, não estava num dos meus melhores dias.”

“Deveria ter mandado eu calar a boca.”

“Eu mandei. Educadamente.”

“Vamos, tudo o que eu quero é um banho quente, uma cama bem grande, e uma boa noite de sono. E você no meio disso tudo.”

“Exceto na noite de sono.”

“Nos meus sonhos, oras.” – Falou já arrastando as malas pelo aeroporto. “Aqui, tome seu chapéu, tia Anna.”

 

“Becca? Você está aí?”

Jennifer batia com insistência na porta de sua vizinha no dia seguinte, mas nada acontecia. Desistiu, adentrou seu pequeno apartamento, largou tudo pelo chão e foi logo abrindo todas as janelas e cortinas, gostava de tudo arejado, às claras. Pousou as mãos no parapeito da janela da sala, era uma tarde de quarta-feira, um meio de tarde, se pôs a observar uma máquina escavadeira amarela abrindo um buraco na calçada em frente ao prédio vizinho, aquele ruído forte quando a concha subia ou descia, seguidos de bip bip quando a máquina se deslocava, e na cabine um homem pequeno, magro, com um boné que parecia maior que sua cabeça.

Naquele exato momento sentia-se tão segura de si, ali dentro de sua casa, como se soubesse enfim seu papel d/entro do filme da sua vida. Como o papel daquela máquina na grande, ou não tão grande obra que estava sendo feita na rua naquele dia, parte de algo, como a máquina, como o operador da máquina, ela era parte de algo, de vários algos, riu quando pensou nessa palavra, algos.

Em menos de uma semana seria seu aniversário, e talvez fosse uma data simbólica de diferentes formas naquele ano. Sentia-se tão adulta, crescida, nunca havia pensado tanto no futuro quanto nos últimos meses, nunca havia pensado no futuro! Deu-se conta. Agora observava a máquina empacada em alguma pedra ou algo do tipo, lembrou que havia até mesmo falado uma palavra que provavelmente nunca pronunciara outrora: casamento. A não ser quando falava sobre o casamento de seus pais, porque sim, para ela casamento era algo que pais faziam, não ela, ela não casava, ela sequer namorava, ela só ficava, esse era seu único verbo praticado, Helen havia sido sua única exceção. E agora Anna.

“Anna…” Sorriu quando percebeu que pensou em voz alta o nome dela.

Foi até a cozinha, pegou uma jarra na geladeira e encheu um copo com água, ligou o aparelho de som e se atirou no sofá, bebeu um grande gole e segurava o copo em cima do seu peito.

Sorriu novamente quando sentiu o gosto dela ainda em sua boca. Tirou o elástico que prendia seu cabelo e deitou a cabeça no encosto do sofá. Prestou atenção na música, era uma velha canção do Fleetwood Mac, Landslide.

Bem eu estava com medo de mudar

Porque construí minha vida ao seu redor

Mas o tempo traz corag/em, até mesmo as crianças envelhecem

E eu envelheço também

“Nada como o tempo…” Murmurou. E sentiu-se uma idosa.

Tudo gira em torno de comparações, mulheres, garotas, também se encaixam nisso, e ela estava agora comparando como havia levado tempo para conseguir enfim ter Anna, por mais que ela odiasse esse termo, ‘ter’, porque Anna não era sua propriedade, ninguém era propriedade de ninguém, e suas demonstrações excessivas de ciúmes era algo extremamente incômodo para Jennifer. Mas voltando aos comparativos, as garotas com quem ela se envolvia eram arrebatadas numa média de trinta e oito minutos. Com Anna foram necessários cento e onze dias. Pouco mais de três meses e meio de sofrimento.

“Heteros…” Falou assoprando.

Os olhos pesaram, resquício do cansaço da viagem do dia anterior. A noite também não havia corrido como/ planejado, desejara uma longa noite de sono, dormir e dormir. Mas aquelas duas apenas caíram de fato no sono na alta madrugada, haviam respeitado o lar doce lar de Andrew e os pequenos leitos onde passaram uma semana, portanto sim, a noite anterior havia sido de sexo.

Jennifer adormeceu, com um copo cheio de água sobre seu abdome, dormiu profundamente por algumas horas até despertar com sua porta se abrindo e a claridade incomodando suas vistas.

“Isso é hora de dormir?” Anna falou dando um tapinha nos seus pés descalços, que estavam para fora do sofá.

“E isso tudo é saudade?” Falou se sentando com a maior preguiça do mundo, esfregando os olhos.

“Anda, se arrume.”

“Para?”

“Vamos ao pub.”

“Fazer o que lá, limpar? Assaltar?”

“Ha-ha, que engraçado.” Falou sentando-se ao seu lado no sofá, e tascando um beijo.

“Hoje o pub não abre, é quarta-feira.” Jennifer percebia uma luz rosada vindo pela janela, já era noite mas parecia um pôr do sol congelado.

“Pois hoje irá abrir, e vai tocar uma banda legal lá.”

“Como sabe?”

“Fiquei sabendo através de uma pessoa da banda.”

“Quê?” Jennifer ainda estava meio sonolenta.

“Tome um banho para acordar, se vista, a banda começa em uma hora.”

“Mas é cedo ainda.”

“Não, são dez horas.”

“Putz dormi isso tudo? Espera, você cortou o cabelo? Que luz é essa?” Olhou para a janela.

“Vai lá tomar banho Jennifer.” Tomou o controle que estava debaixo dela e ligou a TV.

“Já vou.” Coçou os olhos de novo.

Minutos depois já estava/m no pub, e conforme prometido por Anna, estava funcionando normalmente, mas não muito cheio, alguns poucos frequentadores espalhados pelas mesas mais aos cantos.

“Você convidou mais alguém?” Jennifer perguntou, assim que Anna chegou trazendo dois chopes para a mesa delas.

“Não, pensei em termos uma noite só nossa.”

“Ah tá… Queria resolver as coisas com Becca, bati na porta dela hoje mas ninguém atendeu… não sei se não estava, ou se não quis abrir para mim…” Falava cabisbaixa, chateada.

“Resolver o que com Becca?”

“Como assim? Aquele lance com Jim, no seu aniversário, não lembra?”

“Ah, isso é besteira.”

Jennifer olhou para Anna com uma sobrancelha baixada, a estava achando um tanto estranha, mas resolveu relaxar. “Carpe noctem!” Pensou.

Aproximou sua cadeira da dela, segurou com carinho uma de suas mãos e deu alguns beijos em seu pescoço.

“Adoro quando você usa esse perfume…”

“Eu sei…” Anna sorriu com malícia.

“Sua mão está suada, tipo, muito suada.” Jennifer estranhou, olhando para as mãos de Anna.

“Normal.”

“Não, não é normal, você parece tensa, está ansiosa com alguma coisa?”

“Eu? Não, claro que não, por que estaria?”

“Não sei, mas você sabe que pode me falar qualquer coisa não sabe?”

“Claro que sei.”

“Então…”

Nesse momento a banda começou a tocar no palco, atraindo a atenção de todos, inclusive de Jennifer, que virou-se para dar uma olhada, e imediatamente reconheceu a baixista: Laura.

Jennifer abriu um sorriso largo, e balançou a cabeça.

“Foi através dela que você soube do show?” Perguntou.

“Foi sim.” Respondeu e deu um longo gole em seu caneco.

Agora ela estava confusa, a fitava tentando decifrá-la, Anna teria planejado aquilo? Novamente pensou com seus botões da sua jaqueta marrom: “Ok, vamos aproveitar a noite.”

“Gostei do som deles.” Jennifer comentou, após algumas músicas.

“É… Nada mal. É mais o seu estilo não?”

“Você conhece meu estilo?”

“Você subestima meu poder de observação.” – Sorriu a fitando. “Vem cá.” Anna a trouxe para perto, com o dedo aproximou seu queixou até seus lábios, e a beijou sem pressa.

“Melhor quando o pub está assim vazio não?” Anna sussurrou.

“Ahan… Você fica com menos reservas.”

Algum tempo depois, e chopes e músicas também, Jennifer foi banheiro, entrou numa das cabines e novamente estranhou aquela luz laranja que entrava pela pequena janela basculante no alto. Ficou algum tempo ali olhando na direção da janela, até enfim aliviar-se. Ao terminar não conseguiu abrir a porta, a tranca de ferro simplesmente não queria deslizar mais, empurrava, dava pequenos murros, tentava com jeito, com força e nada. Parou e ficou apenas olhando a pequena maçaneta prateada, tentou deslizar a haste metálica, sem tocá-la, e a haste deslizou, a porta se abriu. Saiu de lá e encontrou sua amiga policial já sentada na mesa, conversando com Anna.

“Eu amo aquela música do Strokes que vocês tocaram.” Jennifer falou ao sentar-se.

“Reptilia? Também gosto, eles sempre querem tirar, eu que insisto em manter no setlist.” Laura respondeu de forma simpática.

“Laura estava me contando que coleciona facas, veja só!” Anna falou.

“Sério? Nossa, faca é o que não falta na casa de Anna…” Jennifer respondeu sorridente, mas então se deu conta do que havia falado e mudou de expressão, na verdade se deu conta da sugestão implícita que havia acabado de fazer.

Não foi preciso mais do que meia hora de conversa para que a sugestão implícita de Jennifer se tornasse realidade, as três já estavam na portaria do pub, prestes a pagarem suas comandas.

“Meninas vou lá dentro me despedir do pessoal da banda, e vou logo atrás de vocês, certo?”/

“Combinado, siga a nossa moto.” Anna completou.

É, Laura as acompanharia até a casa de Anna.

Após pagarem suas contas, as duas saíram juntas pela porta da frente, Anna foi até a moto, estacionada quase em frente.

“Que céu estranho é esse hoje? Porque não está preto como todas as noites? Essa luz laranja…” Jennifer olhava para o alto, devaneando, depois foi até a moto.

Anna entregou o capacete a Jennifer, e a olhou em seguida.

“Você está bem?” Anna perguntou.

Jennifer passou a encará-la também, e deu um sorriso meio inseguro.

“Você tem certeza que quer isso? É que… você parecia tão irredutível há alguns dias atrás, quando toquei nesse assunto.”

“Bom, agora quero, e a ideia foi sua.”

“Eu sei, eu sei… E só que… Ok, vamos lá.” Colocou seu capacete e montou na moto.

Logo que chegaram na casa de Anna e tiravam o capacete, um par de faróis as iluminou, o carro parou ao lado da moto e desligou os faróis.

As três entraram na casa, largaram os capacetes e bolsas. Logo Jennifer levou Laura até as paredes da sala onde haviam algumas espadas penduradas, e um aparador com adagas arrumadas lado a lado, Anna seguia logo atrás.

“Você que fez isso tudo?” Laura questionou, ajeitando os óculos.

“Hum… não, algumas. Meu pai fez a maioria. Essa aqui, com a lince, foi eu que fiz.” Anna falou lhe mostrando uma adaga com o cabo rico em detalhes, prata.

“Com suas próprias mãos?”

“Uhum.”

“Que garota talentosa…” Falou em tom de brincadeira, fitando Anna.

Jennifer caminhou até a cozinha.

“Querem beber algo? Temos vinho, cerveja, champanhe, na verdade acho que é espumante…”

“Espumante!” Laura bradou da sala.

Quando Jennifer saiu da cozinha não as encontrou, já haviam subido para o quarto. Com a garrafa e alguns copos em mãos, Jennifer subiu rapidamente as escadas e as encontrou se beijando de pé, ao lado da cama. Ficou sem reação por um instante, atônita, mas em/tão largou a garrafa em cima de uma cômoda e partiu também para o ataque.

Pararam o beijo e Anna começou a beijar Jennifer, enquanto isso Laura pegou a garrafa na cômoda, deu um gole e a deixou no criado mudo ao lado da cama, tirou sua calça e sua blusa. Jennifer também tirou sua própria blusa, sentou-se e puxou Anna para a cama, a derrubando para cima de si.

Laura se aproximou de joelhos ao lado delas e começou a tirar a camisa de Anna, que levou um certo susto com o gesto dela. Jennifer tratou logo de abrir a calça de Anna e deixou que Laura terminasse o serviço, enquanto tirava sua própria calça.

Logo as três já estavam seminuas em cima da grande cama, Jennifer deitada via as duas se beijando acima delas, como se esperando sua vez num cruzamento, apenas as olhava. Resolveu interferir, e roubou os lábios de Laura para ela, deslizando suas mãos pelo corpo dela. Sem entender direito como aquele movimento foi feito, Laura girou para cima de Anna, e a beijou. Laura foi descendo os beijos pelo pescoço, seios, abdome, e tirou a calcinha de Anna.

“Vem cá.” Anna sussurrou para Jennifer.

Se aproximou e começou a beijá-la, ao seu lado.

“Quem ligou o som?” Jennifer interrompeu o beijo e perguntou com a testa franzida, ouvia alguma música dos Rolling Stones tocando no ambiente.

Anna a puxou pela nuca e voltou a beijá-la, mas logo Laura subira e roubara os lábios de Anna para ela, Jennifer via ela se movimentando de forma sensual em cima de sua namorada e descia suas mãos entre as pernas dela.

Jennifer novamente ao lado, observou Laura introduzindo seus dedos em Anna, enquanto a beijava, e um furor lhe subiu à cabeça.

“Não, chega! Não quero mais! Para!!”

E Jennifer acordou com o copo d’água derramando-se completamente sobre si no sofá. Sentou-se, assustada e ofegante, tirou a camiseta molhada e atirou no chão. Olhou para o lado e viu a luz alaranjada do sol entrando pela sua janela naquele final de tarde.

“Puta que o pariu.” Bradou para si, atordoada.

Passou as mãos pelo rosto, as imagens do sonho ainda rondavam sua mente, a perturbando. Minutos depois seu celular toca em cima da mesa, ela corre para atender.

“Alô?” Falou afoita.

“Oi meu anjo, que alô desesperado foi esse?”

“Oi Anna.”

“Você está bem?”

“É… estou. É que estou… meio que brava com você agora.”

“Ah tá. O/k então. E posso saber o que eu fiz ou é confidencial?”

“Não é bem com você…”

“Era para eu estar entendendo?”

“Olha só, eu não quero que façamos sexo a três com a Laura.”

“Hey, hey, essa conversa evoluiu rápido demais, acho que perdi alguma coisa.”

“Parecia mais legal quando eu imaginei, mas no sonho não foi legal.”

“Ah entendi…”

“Não faremos, ok?” Jennifer insistia.

“Eu nunca dividiria você com ninguém.” Anna falou com uma voz calma.

“Mas você gostaria de ir para a cama com Laura, não gostaria?”

“Eu tive oportunidade de ir para a cama com ela quando estava solteira e não fui, isso não diz nada para você?”

“É… talvez eu tenha me enganado…”

“E então, Becca estava em casa? Conseguiu conversar com ela?”

“Anna?”

“Sim?”

“Eu te amo, sabia?”

Jennifer pode sentir Anna sorrindo do outro lado da linha.

“Não esta/va brava comigo?”

 

Anna ouviu uma freada brusca em frente à sua casa naquela terça-feira de manhã, e foi para fora ver quem era.

“Nossa, que carrão, de quem é?”

Jennifer saltou de um grande carro SUV preto, novo.

“Meu! Presente de aniversário do meu avô!”

“Aniversário? Quando é seu aniversário? Acho que é por esses dias não é?” – Falou rindo. “Venha cá.”

Anna a abraçou com carinho, a envolvendo de forma apertada.

“Feliz aniversário meu amor.” Sussurrou ainda a enlaçando.

“Quer dar uma volta?”

“Podemos ir no Centro buscar seu presente?”

“Claro. Quer dirigir?”

Anna sorri/u.

“Boa tentativa.”

Estacionaram o carro próximo à ponte no Centro e seguiram para um café próximo, um lugar agradável construído a pouco tempo.

“Já conhecia o lugar?” Anna perguntou, ao sentar-se numa das pequenas mesas redondas.

Jennifer deu uma olhada ao redor, viu os quadros que remetiam ao clima campestre, e claro, à guloseimas.

“Não, nem sabia da existência para ser sincera.”

A atendente então aproximou-se da mesa delas com papel e caneta em punho, uma mulher alta, com grandes lábios vermelhos, sorridente.

“Anna? Olá moça, quanto tempo? Como você tem passado?” Falou com excesso de simpatia, pegando apenas Jennifer de surpresa, que a encarou.

“Tudo em paz, e você?”

“Tudo ótimo querida, então, o que vão pedir?”

“Um latte para mim, e você…”

“Para mim também.” Jennifer completou, ainda a encarando.

“É pra já!”

“Quer pedir um pedaço de torta? A ocasião pede.” Anna falou já folheando o cardápio, sem pressa. Jennifer passou a folhear o cardápio também. Em dois minutos a solícita garçonete t/razia a bandeja com as duas xícaras e as servia, lançando um olhar para Anna que Jennifer queria interpretar como corriqueiro, mas não conseguia.

“Prontinho. Querem pedir algo mais?”

Anna continuava folheando, e Jennifer a olhou, viu então um pequeno crachá metálico pendurado na alça do seu avental, onde pode ler o nome da moça.

“Sharon??”

“Pois não?”

“Sharon… Hum… Você teria… cup cakes?”

“Claro, alguma preferência?”

“Algum com morangos.”

“Temos morango com creme de avelãs ou com creme de baunilha.” Relanceava os olhos para Anna.

“Creme de avelãs.”

“Ok, anotado, e você?”

“Hum eu ain/da estou escolhendo.” Anna respondeu sem tirar os olhos do cardápio.

Jennifer apoiou o queixo na sua mão, de lado, fitando Anna com ares desconfiados.

“Você conhece essa moça?”

“Sim, só de vista.”

“Ele é híbrida, não é?”

“É sim. Acho que vou pegar uma fatia dessa torta aqui, o que acha? Morrerei de diabetes?” Sorriu, apontando para um item no cardápio.

“Talvez, acho que você já está com açúcar demais.”

O nome Sharon não era coincidência, Jennifer já estava convencida disso.

“Aqui, seu cupcake de morango com creme de baunilha.”

“Eu pedi creme de avelãs.”

Pouco depois, já terminadas suas refeições, Anna interrompeu a conversa e deu uma olhada através da vidraça da cafeteria, com um ar preocupado.

“O que foi, o que viu lá fora?”

“Isso está estranho… Tem já algumas semanas que tenho a impressão que me observam, e isso só acontece quando estou aqui no Centro.”

“Percebeu algo agora?”

“Sim, tenho quase certeza que tinha dois homens nos olhando, lá próximo da ponte.”

Jennifer passou a olhar para o mesmo ponto, procurando por alguma movimentação suspeita.

“Quem poderia ser?”

“Não faço ideia.”

“Você tem tantos desafetos assim?” Jennifer sorriu.

“Ou eu posso estar ficando paranoica.”

“Não tem dedo do meu avô nisso, já vou avisando.”

“Eu sei, deixa pra lá, não deve ser nada.”

“Mas é bom ficarmos mais atentas então.”

“Sempre. Olha só, você quer ficar aqui enquanto vou lá na loja do Max buscar seu presente?”

“Pode ser.

“Não vou de/morar.”

“Então meninas, vão querer mais alguma coisa?” A garçonete aproximou-se da mesa delas.

“Sharon, certo? Sharon, é a quarta vez que você nos pergunta isso. Não, não queremos mais nada no momento.”

Anna a olhou assustada, já se levantando, esperou Sharon sair e cochichou no ouvido de Jennifer.

“Desde quando você é grossa?”

“Meu presente, vá lá buscar.” Deu um tapinha na bunda dela e sorriu.

A loja de Max ficava na mesma rua, a dois quarteirões dali, Anna caminhava com passadas rápidas apenas imaginando a reação de Jennifer quando visse o presente.

Quando passava pela frente de um beco, foi violentamente puxada para dentro, quando percebeu a ação já estava no chão e era tarde demais, vários choques com a pistola taser foram dados, mesmo com os choques simultâneos ela tentou reagir, mas o corpo acabou se entregando, e ela apagou. Algemaram seus braços à sua frente e a jogaram no porta malas de um carro branco, grande de modelo antigo, e dirigiram por cerca de uma hora, primeiro por uma rodovia, depois por uma estrada de chão, foram longos quilômetros de sacolejo dentro do carro, até chegarem numa grande casa cinza, parecia uma pequena fortaleza no meio da floresta. Anna já suava parte de sua blusa vinho.

Ultrapassaram um portão automático que ergueu-se sobre eles, e estacionaram logo em frente. Quando abriram o porta malas Anna já estava acordada, os raios de sol quase cegaram sua visão, mas tentou fugir, até acertou um ou dois golpes, mas seus músculos ainda não reagiam conforme seus impulsos, foi logo dominada por três homens truculentos, ela já havia percebido que eram todos híbridos. Estava confusa, não fazia ideia de quem eram aqueles homens, ou do que queriam dela. Lhe aplicaram mais alguns choques, apenas para que ela parasse de lutar.

A arrastaram prédio adentro, era uma construção não muito antiga, havia sido construída de forma rústica, sem cuidado com o acabamento, tinha ares de prisão clandestina. Passou por um par de corredores e chegou até uma ala com celas, várias portas azuis de ferro, com uma pequena abertura no alto em cada. À frente das portas de ferro, um largo com duas mesas e cadeiras de escritório e um sofá, numa das mesas um homem, que parecia ser alguma espécie de carcereiro veio ao encontro deles.

“Essa é a encomenda que vocês levaram dois meses para encontrar?”

“Sim, finalmente pegamos. A chefinha vai ficar feliz, talvez até pague um rodada de cerveja para nós hoje!”

O carcereiro pegou uma chave num quadro de cortiça pendurado na parede do fundo da sala, e abriu a última cela do corredor, Anna foi logo arremessada para dentro, caindo de joelhos.

“Tiro as algemas?” Um dos homens questionou, ainda a olhando.

“Melhor não, ela é metida a valente.”

“Quero ver a valentia quando for para a sala da diversão.” Deram um risinho.

Anna se ergueu e ainda tentou ir na direção da porta, mas esta foi logo fechada. Colocou as mãos e a testa na porta, tentando entender o que estava acontecendo, virou-se, recostando-se, sentiu o metal gelado em suas costas. Viu sua cela, apenas um pequeno cômodo de paredes cinzas, de concreto nu, sem tinta, como todo aquele lugar. Tinha uma cama estreita feita de blocos, e um vaso sanitário no canto, que exalava um cheiro forte de cloro.

Sentou-se na cama, logo seus pensamentos se acalmaram como um mar que vai diminuindo a intensidade das ondas, começou a pensar com clareza.

“Preciso me recuperar desses choques, quando abrirem essa porta será minha chance.” Pensou.

Uma, duas, três horas se passaram. Já era início da tarde e tudo que acontecia eram ruídos de portas abrindo e fechando, vozes masculinas conversando e rindo ao longe. Ouviu passos no seu corredor, levantou-se da cama e passou a prestar ainda mais atenção ao som ao redor.

“Vai levar agora?”

“Ela está pedindo.”

“Ah a chefe j/á chegou? Não sabia. O maridinho dela pelo menos vinha nos cumprimentar quando chegava.”

“Pare de reclamar e abra logo a cela.”

Anna foi para o lado da porta, ficando a postos, estava ereta junto à parede, sentia uma tensão subindo em seu estômago.

A porta se abriu e Anna foi para cima de um dos híbridos, o derrubando e acertando um murro em seu rosto. Levantou-se rapidamente e arriscou um giro, dando uma meia voadeira, acertando com o pé no rosto do outro homem que vinha na sua direção.

“Meu nariz! Essa puta quebrou meu nariz!” Dizia com as duas mãos no rosto ensanguentado.

O primeiro deles voltou para cima dela, era um cara grande, mas lento, tentou um gancho mas Anna desviou-se, e acertou alguns socos em suas costelas, ele se curvou e ela aproveitou para dar uma joelhada em sua cabeça.

Mal teve tempo de terminar o golpe e sentiu a pistola de eletrochoque em suas costas, a derrubando. O carcereiro manteve a pistola nela, até que parasse de se mexer. Apenas alguns espasmos involuntários era o que restava à Anna, agora caída naquele piso em frente às portas azuis. Outros dois homens chegaram ao ouvirem a luta, e a ergueram de lá, arrastaram pelos braços pelos corredores até uma sala grande, com as paredes pintadas de preto, era provavelmente um dos lugares mais estranhos onde já estivera. No teto haviam ganchos metálicos, como ganchos de frigoríficos, e em alguns deles haviam correntes. Haviam algumas argolas presas ao chão, e também nas paredes.

Enquanto era conduzida pelo salão, Anna, ainda aturdida com os choques, corria os olhos pelos detalhes da sala, e procurava pelo que chamavam de ‘a chefe’, mas não viu ninguém. Apenas ao fundo percebeu dois grandes gaveteiros metálicos, e um armário com duas portas. Ergueram seus braços algemados e a prenderam num dos ganchos do teto, em seguida colocaram uma corrente em suas pernas e prenderam numa argola no chão. E a deixaram lá.

Minutos depois uma mulher de cabelos negros, compridos, entrou na sala, acompanhada de um forte segurança. Ela usava um terninho bege, bem cortado, seus cabelos soltos balançavam com suas passadas firmes. Tinha os lábios não muito grossos mas uma grande boca, uma pequena pinta acima do lábio e olhos levemente puxados, o que lhe dava um olhar embriagante.

Parou em frente Anna, que a olhava incrédula.

“Vivian.”

“Olá Anna. O/u devo dizer, olá cunhada?”

“Que palhaçada toda é essa?”

“Você acredita no poder da coincidência? Eu não acreditava até descobrir que a mulher que havia matado meu marido, era simplesmente minha querida cunhadinha, quer dizer, você não chegou a se tornar de fato minha cunhada, não é mesmo?”

“Marido? Que marido? Robert sabe disso? Ele também está aqui?”

Vivian sorriu.

“Não, isso é entre mim e você.”

“Então você deve ter cometido algum engano, porque não matei marido de ninguém, e se você armou isso tudo porque larguei o seu irmão, então acho que você precisa de tratamento.”

Vivian mudou de expressão, ficando mais séria.

“Ano passado, dezembro para ser mais específica, alguém pagou alguma ninharia à Max e você deu dois tiros no meu marido, Harry. Só para tentar refrescar sua memória…”

Anna de fato tentava se lembrar das missões que cumprira no final do ano passado, mas haviam sido dezenas, naquele mês Jennifer estava no Canadá e ela mergulhou de cabeça nos serviços noturnos.

“Você pegou a pessoa errada.”

“Ai Anna, você não mudou nada, continua essa pessoa pedante… Quem diria que você se tornaria uma mercenária…” – A olhou com desdém. “Uma mercenária desleixada, que não termina o serviço. Harry não morreu na hora, ele ainda conseguiu falar para um de nossos homens que havia sido uma mulher que havia atirado nele. Sem muito esforço cheguei até Max, depois coloquei alguns homens para procurar pela mulher que havia feito esse serviço para Max, e adivinhe só? Descobri que você é a única vadia que trabalha para ele.”

“Eu não queria matar seu marido…” Anna falou em voz baixa, havia se lembrado da missão.

“Ótimo, estamos evoluindo, já temos uma confissão. Continue.”

“Eu só deveria buscar uma valise com documentos dentro de uma empresa fechada, na saída apareceu este homem, ele me abordou, estava armado, eu me defendi, atirei primeiro.”

Vivian balançava a cabeça, um pouco transtornada com o que ouvia.

“Não era para ter ninguém naquele lugar.” Anna continuou.

“Harry gostava de fazer negócios noturnos…”

“Com uma milícia de Titans?”

“Era só o que faltava, você, uma bandidinha sem princípios, querendo julgar os negócios da nossa família.” Falou jogando seus cabelos para trás, com a mão.

“Eu sinto muito… E não fazia ideia que era seu marido.”

Vivian começou a dar alguns passos ao redor dela.

“Você largou meu irmão para isso? Para ter essa vida ordinária de roubar e sair atirando nos outros, por dinheiro? Rob te amava de verdade, aquele pateta…Queria te dar uma vida boa, ter uma família contigo, ele fazia tudo por você, mas você nunca lhe deu o valor que ele merecia, sempre tão fria, tão egoísta…”

“Nunca iria dar certo Vivian, acredite, foi o melhor para seu irmão eu não permitir que aquilo fosse adiante.”

“É… Você só traz o mal para quem cruza seu caminho.” – Vivian falou taxativa. “Talvez eu coloque um ponto final nisso hoje.”

Anna baixou a cabeça, sentiu um nó na garganta, começava a se dar conta que talvez não saísse daquela sala nunca mais, lembrou de Jennifer no café, quanto tempo teria ficado lá a esperando até perceber que ela não voltaria, lembrou do último sorriso que lhe deu antes de sair.

Vivian foi até seu segurança e falou algo em seu ouvido, prontamente ele saiu da sala, então ela voltou a se aproximar de Anna.

“Eu fiquei tão feliz em saber que era você a pessoa que eu estava caçando, quase não acreditei. Mandei dar uma arrumada nesta sala, já tinha algum tempo que eu não a usava. Sabia que ela é conhecida como sala da diversão? Essa tarde vamos ter um pouco de diversão.”

“Você é louca Vivian, você quer se vingar não quer? Resolva isso de uma forma decente.”

“Ah é a coisa que mais quero nesse momento… não via a hora de colocar minhas mãos em você, e fazer você sofrer pelo menos um pouco do que sofri. Mas adivinhe só? Eu encontrei um jeito de fazer tudo ser ainda mais divertido!” Falava com um constante sorriso sarcástico, quase lunático.

Anna apenas a encarava agora, temendo pelas torturas que ela estaria tramando para ela.

“Eu vou fazer você pagar um pouquinho pelos seus crimes hoje. Sim, vou te torturar, acho que você vai sofrer o bastante para eu lavar minha alma. Mas acredite, não vou encostar um dedo em você, prometo que você não terá um arranhão sequer.”

Neste momento a porta se abriu e dois homens entraram, arrastando alguém.

“Jennifer??”

 

 

        Capítulo 35 – Vermelho

 

Anna se agitava em suas algemas e correntes, tentando soltar-se. Ao ver Jennifer entrando algemada por aquela porta sentiu-se como o pesadelo tivesse tomado proporções catastróficas, um soco no estômago não teria causado sensação pior, uma sensação incômoda lhe queimando por dentro, era a dor da impotência diante da situação.

“Fique à vontade, tente se soltar, mas fique sabendo que essa sala foi construída para segurar Titans com o dobro do seu tamanho.” Vivian falou.

“Anna que porra é essa?” Jennifer perguntava, ainda estava com a roupa que usava pela manhã, uma camisa de botões azul clara e jeans, mas estava descalça.

“Não envolva ela nisso Vivian!” Anna bradava, furiosa.

“Meus meninos estão de parabéns, pegaram as duas garotas certas, me lembre de pagar uma rodada de cerveja para eles hoje.” Falou para um dos homens ao seu lado.

A prenderam também em um dos ganchos, de frente para Anna, um pouco mais para o lado, a uns três metros dela, olhava assustada ao redor, sem entender bulhufas do que acontecia.

“Vocês dois podem sair, e você Sith fique aqui, precisarei de sua ajuda.” Vivian postou-se a frente dela, dando-lhe uma boa olhada.

“Estava curiosa para te conhecer.”

Jennifer parou de olhar ao redor, Vivian tinha finalmente atraído sua atenção.

“Por quê?” Ela suava, desde sua cela vinha se debatendo e dando trabalho para os seguranças.

“Porque achei tão improvável que Anna estivesse envolvida com uma mulher, queria saber quem era essa garota.”

“Vocês se conhecem?” Jennifer olhou para Anna.

Anna respondeu apenas balançando a cabeça.

“Mudou de time Anna? Você conseguiu me surpreender, admito.”

“Deixe ela ir embora, ela não tem nada a ver com isso… Seu problema é comigo.”

Vivian caminhou até Anna.

“Hoje de manhã quando meus meninos me ligaram dizendo que estavam com você na mira, e que sua namoradinha estava junto, eles me perguntaram se era para levar ambas. E eu respondi ‘é óbvio que sim!’ Hoje é meu dia de sorte, fala a verdade? Foi então que tive a grande sacada de mudar as regras da brincadeira, adicionando um novo elemento.”

“O que você quer para libertá-la?”

“Agora é tarde demais para negociar minha querida.”

Novamente foi até Jennifer.

“Seu nome é Jennifer, certo? Como ela te chama? Jen? Jenny?”

“Ela me chama de Jennifer mesmo.”

“Nossa que falta de romantismo Anna…”

“Eu não acho.” Jennifer respondeu com um ar ingênuo.

“E quem te perguntou o que você acha?”

“Tá bom, não tá mais aqui quem falou…”

“Você quer saber por que está aqui?”

“Seria interessante.”

“Anna, ela sabe da vida suja que você leva a noite?”

“Sabe.” Anna respondeu com impaciência.

“Bom, imagino que você deva ser do nível de sua namorada também… Ela matou meu marido no ano passado, por dinheiro. Você acha que é um bom motivo para vocês estarem aqui penduradas, como dois pedaços de carne?”

Jennifer apenas olhou para Anna, como se pedindo a confirmação daquela informação, e Anna assentiu com a cabeça.

“Você é humana, agora que me dei conta!” – Vivian sorriu e olhou para Anna. “Que mudança radical hein cunhada? Você agora anda com humanos…”

“Cunhada?” Jennifer perguntou confusa.

“Ah desculpe, não me apresentei, eu sou irmã do ex-noivo dela, que ela abandonou na véspera do casamento.”

“Não foi na véspera, foi uma semana antes.” Jennifer prontamente a corrigiu.

“Você é bem petulante hein garotinha?”

“E você tomou as dores dele?”

“Não ouse falar de Robert, ele foi a melhor coisa que aconteceu na vida dessa infeliz, e ela o abandonou.”

“Há séculos atrás, ele já deve ter reconstruído a vida dele, vai ver nem guardou mágoa, apenas você.”

Vivian ergueu o braço e deu um tapa com as costas de sua mão no rosto de Jennifer, que a olhou assustada.

“Hey!” Anna bradou, se agitando.

“Robert se foi, ele não está aqui agora para te contar o inferno que a vida dele se tornou depois do término do noivado, ele nunca mais foi o mesmo.”

“Robert morreu??” Anna perguntou.

“Por sua causa.” – Vivian foi até Anna. “Menos de um ano depois eu o estava enterrando na nossa cidade natal, vencido pelas drogas, teve uma overdose de heroína com álcool.”

“É mais fácil me culpar, não é mesmo?” Anna falou com uma voz branda.

“Acho que vai ser difícil manter a promessa de não encostar em você hoje, mas tentarei honrar.” A fitou com raiva.

“Faça o que tiver que fazer à mim, não encoste nela.” Anna implorava.

“Chega de conversa, é hora da diversão.” Novamente lançou seu sorriso lunático, tirou o casaco com delicadeza, Vivian se movimentava devagar, como se calculando seus gestos. Usava uma camisa de seda branca com botões perolizados, e uma calça da mesma cor do terninho recém tirado.

“Anna, já ouviu falar em tortura psicológica? Nunca pratiquei, será minha estreia hoje.” Largou o terninho em cima do aparador e foi até o armário, abrindo ambas as portas. Olhava para dentro como se estivesse fazendo compras.

“Jennifer, me escute.” – Anna a chamava. “Mantenha a calma, ok? Nós vamos dar um jeito nisso, apenas mantenha a calma, e só fale o necessário.”

Jennifer começava a se dar conta que algo ruim viria pela frente em breve, muito breve, mas não imaginava o que aconteceria.

Lentamente, objeto a objeto, Vivian foi colocando tudo que havia pego de dentro do armário, em cima do aparador de madeira encostado na parede.

“Faz algum tempo que não uso essas coisas, acho que me empolguei um pouco, talvez não use todos eles, então não se assuste.” Falou terminando de colocar o último objeto.

“Espera aí, o que você… espera aí, você não está pensando em usar essas coisas em nós, está??” E Jennifer finalmente se deu conta.

“Não, de forma alguma. Usarei apenas em você.”

Jennifer lançou o olhar mais desesperado de todos para Anna, e voltou a olhar para Vivian.

“Você está louca?? Viu filmes demais ou o que?” Jennifer ainda estava boquiaberta, olhou novamente os itens expostos mais adiante.

“Confesso que meu prazer será ver a reação da minha cunhada enquanto torturo você, porque nem te conheço, mas imagino que você deva significar muito para ela.”

“Torturar??” – Voltou a olhar para Anna. “Anna, eu quero sair daqui. Eu não quero ficar aqui.” Tentava puxar suas mãos das algemas presas no gancho do teto, movimentava seus braços violentamente, tentando se desvencilhar.

“Vivian! Você estará cometendo uma injustiça sem tamanho se fizer isso. Ela não fez nada contra você!”

“Eu já expliquei… como você é repetitiva. Te ferir não teria tanta graça, azar o dela ter escolhido se aliar à uma pessoa egoísta como você.” – Virou-se para Jennifer. “E seu eu fosse você não faria isso, só vai machucar seus pulsos.”

“Eu não vou ficar aqui…” Era o que Jennifer dizia enquanto ainda tentava se soltar.

“Quanta teimosia, olhe seus pulsos já machucados.”

Vivian suspirou, foi até o aparador, então se aproximou dela e lhe aplicou um choque com a pistola taser na altura de sua cintura. Prontamente Jennifer paralisou-se, trancando sua mandíbula, sentindo a corrente elétrica passando por seu corpo.

“Quem sabe assim você para de se agitar. Essa pistola você já conheceu não é mesmo Anna?”

“Pare com isso…” Anna pediu.

“Nem comecei.” – Vivian falou olhando para os objetos à sua frente. “Você ainda trabalha forjando adagas? Como seu pai?”

Anna não respondeu, Vivian a olhou, esperando a resposta, mas ela não falou nada.

“Sith, um golpe.” Ela ordenou.

O segurança particular dela, um homem forte mas não muito alto, se aproximou de Jennifer e desferiu um soco em seu rosto, a pegando de surpresa, e abrindo um pequeno corte no seu lábio. Ela ainda se recuperava do choque, passou a língua por dentro da boca, olhando assustada para Anna.

“Sim! Sim, eu trabalho! Sua… louca.” Anna então respondeu, com revolta.

“Ótimo, então darei preferência para as lâminas hoje.”

Vivian ergueu um punhal com a lâmina larga, com alguns detalhes gravados, reluzente, media uns vinte centímetros, e tinha a empunhadura em bronze. O segurou em frente ao seu rosto, girando, observando o brilho prateado. Ficou frente a frente com Anna.

“Você fabrica desse modelo? Esse é um bizantino, tem três séculos de tradição, sinta-se lisonjeada por eu usar na sua pequena humana.”

“Espere, faz muito mais sentido usar em mim, sou eu quem fabrico, use suas lâminas em mim.” Anna ainda tentava.

Vivian apenas deu um risinho e caminhou até Jennifer, que só tinha olhos para a faca, não tentava mais se soltar das algemas, mas ainda se agitava um pouco, e tremia.

“Se você parar de se agitar vai ficar mais fácil para você, ouça meu conselho.” Vivian falou baixinho.

Ergueu a faca, e cortou o primeiro botão da camisa de Jennifer, foi cortando um a um, até abrir completamente sua blusa. Com alguns cortes rápidos nas mangas e na parte posterior, logo a camisa já estava no chão, e Jennifer estava com seu dorso nu exposto, usando apenas o sutiã marrom.

“E não é que esta adaga tem um ótimo fio de corte?” Vivian falou olhando para sua faca, Jennifer acompanhava tudo apreensiva, e Anna incomodada.

Vivian voltou a olhar para Jennifer, encostou a faca na base do seu pescoço, e começou a descer, devagar, apenas deslizando sem cortar, fazendo uma pressão angustiante em sua pele. Desceu pelo meio dos seus seios, e depois pela sua barriga. Parou o movimento com a faca e encostou seus dedos acima do seu seio direito.

“Você é até interessante, acho que entendo Anna. Tive meus anos de liberdade sexual na faculdade, se é que você me entende…” Riu.

“Anna, você é ciumenta?” – Falou descendo seus dedos pelo abdome dela, e seguindo para os quadris.

Anna apenas acompanhava tudo, com a respiração forte.

Jennifer achou que seria uma boa hora para negociar, e começou a falar.

“Olha só, por que não resolvemos isso de uma forma civilizada?”

Prontamente Vivian levantou os olhos e passou a prestar atenção no que ela dizia.

“Sei que não temos como mudar o passado, mas isso não vai resolver nada, você vai bater em mim, que legal e daí? Por que não sentamos numa mesa e conversamos, Anna te fala o quanto ela sente muito por tudo que ela fez, te pede desculpas, eu também peço desculpas em nome dela, e tenho certeza que as coisas ficariam mais leves, sem violência.”

“Você está dizendo que podemos resolver isso sentando e conversando?”

“Sim, eu, você, Anna, que quase foi da sua família, sentamos e conversamos.”

Vivian se aproximou, franziu a testa e falou.

“Você acha… que uma conversa vai fazer eu me sentir melhor com relação a morte do meu irmão??” Ao terminar a frase, cravou a adaga na perna direita de Jennifer, na altura da coxa, até metade da lâmina, e retirou.

Jennifer soltou um gemido de dor, com um semblante igualmente dolorido.

“Não!!” Anna gritou, e agitou-se tentando soltar-se.

“Você acha… que uma conversa vai fazer eu me sentir melhor com relação a morte do meu marido??” Cravou novamente a faca, desta vez na perna esquerda.

“Mas que merda, isso dói!!” Jennifer falou quase gritando, depois do segundo golpe. Olhava para as duas manchas escarlates em sua calça jeans, que aumentavam rapidamente.

“Então não me venha com esse papinho de novo, combinado?” Falou dando um suspiro forte no fim.

Anna já estava transtornada, seus pulsos estavam em carne viva de tanto se debater e começavam a sangrar. Ela sabia que era exatamente disto que Vivian estava se alimentando naquela fatídica tarde, de seu sofrimento, cada gota de angústia que Anna demonstrava. E na teoria seria simples, bastaria não demonstrar nenhuma comoção com as crueldades dela que logo ela se cansaria e findaria a tortura, mas como manter-se impassível diante daquilo tudo?

“Ah, esqueci de falar, esse punhal é bom para essa finalidade, cravar em pernas e braços. Mas você deve ter percebido isso, notou como deslizou fácil na sua carne? Adoro esse punhal.” Terminou de falar olhando para a faca ainda com vestígios de sangue.

Jennifer ouvia aquele discurso quase apaixonado de Vivian e se dava conta que estava lidando com algum tipo de psicopata, seus ferimentos na perna doíam mas o desespero de não saber o que vinha a seguir era pior, era sufocante. Sentia a sala gelada, refrigerada provavelmente por algum ar condicionado, seus poros arrepiavam, um ar gelado batia em suas costas quase nuas e ela tremia, mas sentia a cabeça quente e latejando.

Enquanto Vivian verificava sua coleção em cima do aparador, Jennifer olhou para Anna, à sua frente, um pouco ao lado. Mas ela estava com a cabeça baixa, olhando para o chão, como se pensando em algo, ou apenas sem coragem de encará-la.

“Conhece esse Anna?” Vivian mostrava uma pequena faca igualmente reluzente e prateada para ela.

“Não…”

“É uma adaga normal, mas por ter esta ponta afiada é também conhecida como escarificadora. Sabe o que é escarificar?”

“Sei. Não faça isso…”

“Calma, só vou deixar minha marca em sua namoradinha, talvez nem escreva todo meu nome.” Sorriu.

“Jennifer onde você gostaria de ter uma tatuagem?”

“Ãhn?” A fitou confusa.

“Onde você quer ter minha marca?”

“Eu…” Jennifer não conseguiu responder, seu pânico não permitiu que as palavras saíssem.

“Ok, eu escolho por você então.”

Vivian deu uma olhada ao redor dela, decidindo pelo melhor lugar, se aproximou de sua lateral, correu a mão por sua cintura, até a altura do sutiã, e por cima das costelas, do lado esquerdo.

“Aqui, nas costelas. E nem preciso pedir para você levantar os braços. Desculpe, a piada foi ruim.”

Aproximou-se mais um pouco, franziu a testa e segurou com a mão esquerda o local. Encostou a ponta da faca na pele, ela automaticamente contorceu-se, ao sentir a lâmina.

“Se você se mexer ao invés de um V terá um X na sua pele.”

Voltou a encostar a lâmina no seu corpo, pressionou até que entrasse na carne por volta de meio centímetro. Ainda com as sobrancelhas baixadas, começou a correr com a faca, para baixo e devagar, até que formasse a primeira reta da letra V, e um filete grosso de sangue vertia de todo o corte. Aquele processo levou uns cinco minutos, que pareceu uma eternidade.

Jennifer já não queria mais olhar, olhava para cima, olhava seu gancho metálico empoeirado, a tinta preta que começava a descolar do teto, queria abstrair aquilo, tentar ignorar a faca correndo por dentro da sua carne, e sem olhar a sensação era de uma brasa acesa passeando em sua pele, com a lentidão que só os sádicos tem.

“Terminei.” Falou Vivian, dando um passo para trás, olhando orgulhosa para um V vermelho de quinze centímetros de altura, que parecia ter sido feito com tinta fresca que escorria.

Postou-se ao lado de Anna, apontando para Jennifer.

“Sou ou não sou uma verdadeira artista? Sou um talento não reconhecido.” Falou jogando seu cabelo para trás, ainda com a lâmina em sua mão. Anna estava determinada a manter o controle, estava se esforçando ao máximo, na esperança que Vivian se entediasse com aquilo.

Mas logo ela seguiu até sua coleção de objetos, e selecionou um outro, um punhal bastante estreito e comprido, sua lâmina não deveria ter mais que um centímetro de espessura.

“Eu até me sinto constrangida em explicar o nome e a utilidade destas lâminas para você Anna, mas eu também sou admiradora dessa arte, então se me permite, vou te apresentar esta que é uma das minhas preferidas.”

Aproximou-se dela, a exibindo, segurando com as duas mãos.

“Se chama stiletto, tão fina… Sabe porque é neste formato? Fina e pontiaguda? Era utilizada durante as batalhas medievais para perfurar a malha metálica que os guerreiros usavam, ela atravessava entre os elos de aço.” – Girava em frente aos olhos. “Ou então um soldado com boa pontaria a penetrava num ponto fraco da armadura do seu inimigo… com sorte perfurava órgãos vitais.” Sorriu de forma maquiavélica.

Se aproximou de Jennifer, que tinha olhos apenas para o objeto em suas mãos.

Vivian olhou pensativa para seu tórax, então colocou sua mão esquerda abaixo do seu seio esquerdo, retirou e recolocou dedo a dedo.

“Um… dois… três… dedos. Três dedos abaixo do seio, dizem que o pulmão termina aqui. Será que seu pulmão realmente termina aqui? Se eu perfurar com essa lâmina, poderemos descobrir, você quer descobrir?”

“Não.” Jennifer respondeu e balançou a cabeça para os lados nervosamente.

“Temos cinquenta por cento de chances de acertar, torça para que seu pulmão termine antes.”

Ao terminar de falar encostou a ponta do punhal abaixo dos seus três dedos, Jennifer contraiu seu abdome. Lentamente Vivian foi penetrando a fina lâmina, enquanto Jennifer fechava seus olhos e mordia seu lábio inferior.

“Só uns dez centímetros, para não atingirmos nada a mais.”

Jennifer soltou um gemido abafado, sentia a lâmina gelada entrando em sua carne, abriu os olhos e viu o punhal ainda cravado nela.

“Pronto, já posso tirar.” Removeu e olhou para Anna, observando sua reação.

“Sabe como saberemos se atingi o pulmão? Se ela tossir sangue, então saberemos. Anna, você quer fazer uma aposta? Se ela tossir sangue nos próximos minutos, você me paga uma bebida, caso contrário, sou eu que te pago, fechado?”

“Você é doente…” Anna balbuciou, com o olhar baixo.

“Não, eu prefiro outra alcunha… que tal vingativa?”

Voltou a olhar para Jennifer, como se procurando outro lugar para torturá-la.

“Vamos tentar outro lugar agora.”

Anna resolveu arriscar uma negociação.

“Vivian, me escute. Venha cá.”

“Eu falei que era tarde demais para negociar.”

“Me escute. Eu tenho a herança do meu pai, tenho uma boa quantia em contas bancárias fora do país, tenho propriedades. Não faço ideia da sua situação financeira mas sei que sempre é bem-vindo mais dinheiro e mais posses.”

“Não quero seu dinheiro Anna.” Vivian falou já colocando novamente sua mão em Jennifer.

“Espera, me escute! Tudo, tudo que eu tenho, eu dou à você, se você deixá-la ir embora. Eu transfiro o dinheiro, os bens, ainda hoje, transfiro tudo para você, e você a deixa ir embora, ela não vai fazer nada contra você, ela nem sabe onde está… Você continua comigo, e com tudo que eu tenho, mas deixe que ela se vá…”

“Eu já falei… Isso não me interessa.” Falou incomodada e erguendo a mão.

“Deve ter algo que você queira, algo mais valioso que essa vingança estúpida. Por favor, me diga o que você quer.” Anna falava, com uma voz cansada.

“Você me interrompeu três vezes. Pare com isso, eu não quero nada seu, apenas fique quieta e observe.”

“Tire alguma vantagem disso, aceite minha proposta.”

“Sith, três golpes na garota, um para cada interrupção, assim Anna aprenderá a não me interromper mais.”

Anna fechou os olhos com um semblante dolorido, estava desesperada, não sabia mais o que fazer.

O segurança se aproximou e desferiu os três golpes em seu rosto, direita, esquerda, direita.

Jennifer cuspiu um misto de saliva e sangue, seu nariz sangrava abundantemente. Movimentava sua cabeça devagar correndo sua língua dentro da boca ferida, já perdia suas forças e energia.

Uma das pulseiras coloridas que Jennifer usava caiu no chão, a sua frente, Vivian juntou e deu uma olhada, era azul com detalhes vermelhos.

“Hum… Anna acho que ela está te traindo, tem o nome de uma mulher escrito aqui dentro.”

Jennifer parecia incomodada, a olhava séria.

“É sua outra namorada?” Vivian perguntou com ar debochado.

“Não…” Respondeu com raiva.

“Então, quem é Olivia?”

“Minha mãe.”

“Ah… entendi. Ela que deu essa pulseira à você?”

“Não, eu dei a ela, mas depois que… depois que ela morreu eu passei a usar.”

“Oh, sinto muito. Mas eu vou ficar com ela, ok? Será meu troféu.” Falou já guardando no bolso de sua calça.

“Jenny já ouviu falar em timo?”

Ela apenas balançou negativamente a cabeça.

“É um pequeno órgão, que fica aqui, bem no meio do seu tórax.” Falou colocando o dedo indicador entre seus seios.

“Fisiologicamente ele não tem lá muita utilidade, na infância até tem, mas agora, você já crescida, não é algo tão imprescindível assim.”

Desceu seu dedo até seu umbigo e voltou ao esterno.

“Então acho que você não se importaria se eu o perfurasse, não é mesmo?”

Jennifer jogou a cabeça para trás.

“Eu gosto do timo pela aura mística que o envolve, alguns dizem que ele está relacionado à felicidade e tristeza, amor e ódio… e que por estar na frente do coração é o coração que ganha os créditos, eu gosto destas vertentes espirituais envolvendo o timo sabe? É algo que me intriga.”

Aproximou a ponta do punhal entre os seios dela.

“Aqui, dois dedos abaixo da linha da clavícula, atrás do esterno, dizem que aqui que ele fica, e logo atrás dele fica o coração. Ou seja, se eu passar da conta, acabarei perfurando seu coração. Daí saberemos rapidamente, porque você terá uma parada cardíaca.”

Mirou a ponta do punhal e forçou contra seu tórax, com resistência acabou entrando em seu esterno.

“Devagar, para não ultrapassar… Não quero chegar até seu coração. Anna, você já deve ter feito isso, não é mesmo?” Riu.

Anna virou o rosto para o outro lado, não estava mais suportando ver o sofrimento estampado no rosto de sua namorada.

“Pronto, apenas seis centímetros, é o que dizem. Viu, vocês estão tendo uma aula de anatomia hoje.” Falou ao remover o punhal.

Jennifer não suportou a dor e angústia, e começou a chorar, soluçava.

Vivian guardou rapidamente o punhal no aparador e voltou a ficar em frente a ela.

“Não, não, não chore… Você estava indo tão bem.” Colocou a mão em seu rosto.

Mas Jennifer continuava chorando, virou seu rosto, chorava e soluçava como uma criança amedrontada.

“Você é mais valente que isso garotinha, pare de chorar.”

Anna a viu chorando, agora estava também com os olhos molhados.

“Vamos lá, pare de chorar. Me diga, quantos anos você tem?”

Jennifer deu uma fungada, puxando o choro, e respondeu.

“Vinte e dois… Quer dizer, vinte e três agora.”

“Agora?”

“É meu aniversário hoje…”

“Ah por que não me disse antes?”

“E ganhar um presentinho surpresa? Não, obrigada.” Fungou novamente.

Vivian sorriu.

“Está com sede?”

Jennifer balançou a cabeça.

“Sith, busque um copo de água para ela.”

Logo ele a entregou o copo, e ela a deu de beber. Jennifer deu alguns goles ávidos e tossiu, com um leve engasgo.

“Vejam só! Você está vendo Anna? Acho que temos sangue no copo. Acredito que ganhei a aposta e você me deve uma bebida.” – Animada, mostrou o copo para Anna. “É sangue! Ela tossiu sangue!”

“Você vai pagar por isso…” Anna murmurou, com raiva.

“Na sua posição eu pensaria duas vezes antes de falar essas asneiras.” Vivian respondeu de bate pronto, e foi até o aparador, procurando por outro objeto.

“Jennifer, olhe para mim.” Anna pediu.

Ela a encarou.

“Aguente firme, sei que você consegue.”

Jennifer baixou a cabeça.

“Hey, olhe para mim. Olhe para mim! Desculpe ter te colocado aqui, mas aguente, não desista, está me ouvindo? Não desista!”

Jennifer apenas sinalizou com a cabeça.

“Terminou? Sith, vamos mudar um pouco o jogo, vire nosso pedaço de carne para a parede, quero ela de costas para nós.”

Prontamente o segurança a tirou do gancho e a mudou de posição, rependurando e a deixando de costas para Anna.

“Acho que isso irá me atrapalhar.” Vivian pegou uma adaga e cortou o sutiã nas costas, depois cortou as duas alças, fazendo com que caísse no chão.

“Pronto, agora temos uma tela em branco. Nem tão em branco, você tem algumas pequenas sardas.” Falou deslizando sua mão pelas suas costas, até sua calça.

Colocou suas duas mãos nas laterais do corpo de Jennifer.

“Você é inglesa? Ou irlandesa?” Falou em seu ouvido.

“Meu pai é escocês.”

“Está explicado. Droga, sujei minha mão no meu V.”

Caminhou até Anna.

“Posso limpar minha mão em você?”

Passou sua mão suja de sangue pela blusa de Anna, a encarando.

Foi até o aparador e pegou uma espécie de chicote de couro com o cabo rígido, com algumas esporas metálicas na ponta.

“Vamos mudar um pouco, as lâminas estavam monótonas.”

Anna, ao ver o objeto em sua mão, arregalou os olhos, assustada.

“Pelo amor de Deus Vivian, isso já é psicopatia!”

“Isso é diversão!”

“Vivian!”

“Sith, não quero sujar minha camisa com sangue, pegue, você sabe como usar, fique a postos. Anna, vou te fazer algumas perguntas, darei notas à suas respostas, ok?”

Vivian entregou o artefato ao segurança, e Jennifer virou-se para ver o que era, desesperando-se ao ver.

“Anna, me responda com toda sinceridade, por que você terminou o noivado com meu irmão?”

“Eu… Eu… Vivian eu não amava mais Robert, não era justo com ele.”

“Hum… Ok, três golpes Sith.”

O homem empunhou o chicote negro, olhou para Vivian, olhou para as costas de Jennifer e desferiu sem muita segurança os três golpes nas costas nuas dela, que contraiu-se, seus dedos esticaram e um gemido alto ecoou naquela sala ampla.

“Por favor Vivian…” Anna suplicava, ao ver o resultado daqueles três golpes na pele alva de sua namorada, formando vergões profundos, de onde vertiam um sangue vermelho vívido.

“Anna… Meu irmão procurou você depois que você o dispensou?”

“Sim…”

“Quantas vezes?”

“Duas vezes.”

“Sith, dois golpes.”

Prontamente duas chicotadas foram dadas em suas costas, arrancando alguns respingos de sangue.

“Estamos indo bem cunhada. Estamos indo bem…” Vivian recostou-se no aparador.

“Vou ficar por aqui, não quero correr o risco de sujar minha roupa.”

Cruzou os braços, deu uma pausa, passou algum tempo pensativa.

“Você o amou?” Falou virando a cabeça na direção de Anna.

“Claro, eu não teria ficado tanto tempo com ele por nada.”

“Um golpe Sith.”

E um golpe foi dado.

“Ah… Por favor…” Jennifer estava quase jogando a toalha, aquela era a pior dor que sentira até então.

“Boa resposta… Quanto tempo vocês ficaram juntos?”

“Você sabe…”

“Me diga. Eu quero ouvir.”

“Quatro anos.”

“Sith, quatro golpes.”

Sem pressa, Sith desferiu os quatro golpes com o chicote com pontas de lâminas, que cravavam na carne, além do estrago que o couro fazia.

Jennifer baixava sua cabeça, e segurava com força suas próprias algemas, as puxando.

“Quem você mais amou, Robert ou essa garota?”

Anna lançou um olhar sofrido para Jennifer, temia pelo que respondesse, hesitou.

Virou seu rosto e respondeu.

“Jennifer…”

Vivian descruzou seus braços, os apoiando no aparador, com um semblante sério.

“Ok… Sith… Dez golpes.”

“Não… Não…” Era Jennifer quem implorava.

Sith aplicava um a um, lá pelo oitavo parou de golpear, e virou-se para Vivian com o chicote empunhado.

“Chefe?”

“Sim?”

“Acho que ela desmaiou. Devo continuar?”

“Que droga… Assim perde a graça.”

Jennifer estava com sua cabeça caída de lado, seus pés arrastando no chão, estava pendurada pelos braços, os joelhos levemente dobrados. Em suas costas uma coleção de cortes e perfurações que a banhavam em sangue, assim como boa parte de sua calça. Havia perdido a batalha contra a dor.

“Ok, por hoje chega. Mas sabe que isso me deu uma ideia? Não vou acabar com vocês hoje, eu gostei disso! Vou continuar amanhã. Vocês vão voltar para suas celas e amanhã pela manhã continuaremos a diversão.”

Aproximou-se do corpo desfalecido de Jennifer.

“E você, já sabe, nada de morrer essa noite, quero você viva amanhã, nesta sala.”

“Sith, leve ela de volta para a cela, diga para que não a deixem morrer essa noite. Depois peça reforço e levem essa aqui também de volta à cela.” Falou apontando para Anna.

Sith concordou com a cabeça e soltou Jennifer, a colocando sobre seu ombro, sem sinal de vida. Anna ainda conseguiu ver seu rosto ensanguentado antes que saísse da sala. Vivian se aproximou dela.

“Dói, não dói?” A provocou com um olhar cínico.

“Vivian, eu vou acabar com a sua raça, você é uma mulher morta, eu vou atrás de você e vou te matar nem que seja a última coisa que eu faça, nem que eu precise ir até o inferno atrás de você.” Anna falou com a voz calma, mas com um ódio descomunal no olhar.

Vivian riu, jogando a cabeça para trás, pegou seu terninho e vestiu calmamente.

“Querida, você já está no inferno.”

E saiu pela porta.

 

 

        Capítulo 36 – A capa amarela

 

Jennifer acordou com o barulho da pesada porta de ferro se abrindo e o ranger das dobradiças, sentiu a claridade entrando através dela. Acordou mas levou algum tempo até abrir os olhos, a cabeça doía e sentia-se tonta, enjoada. Algo foi atirado ao chão e a porta logo fechou-se, percebeu. Estava deitada de bruços, desajeitada, numa cama estreita de concreto, entre a cama e seu corpo apenas um fino colchonete florido.

Abriu os olhos, salivou, sentia um gosto ruim na boca, gosto amargo e de sangue. Deu uma relanceada no que havia sido atirado ao chão: parecia ser uma manta, daquelas pequenas mantas de cobrir sofás, tinha um tom amarelo queimado, ocre. Vestia apenas uma calça jeans e a cela era fria, a manta parecia um oásis no deserto àquela altura. Colocou ambas as mãos ao lado de sua cabeça, estava tomando coragem para se erguer da cama, ainda não processava direito onde estava nem o que havia acontecido, seu grande objetivo de vida naquele instante era pegar a manta.

Com ajuda dos braços ergueu seu tronco, virou e sentou-se, tocou o chão com os pés descalços, ereta. Emitiu um longo suspiro que iniciou-se com um gemido, sentia todo o corpo dolorido, alguns lugares pulsavam, como se tivessem pequenos corações batendo lá.

“Estou ferrada… estou muito ferrada…” Sussurrou encarando a manta.

Lentamente abaixou-se e inclinou-se a frente, alcançando o pedaço de pano. Abriu, deu uma olhada e se envolveu nele, passando ao redor do corpo. Contraiu-se quando o tecido encostou-se nos ferimentos em suas costas, fechou os olhos com uma expressão dolorida.

“Isso não vai sair fácil…” Temorizou.

Segurava as pontas da manta com as duas mãos, abaixo do queixo, junto ao pescoço, curvou-se, baixando a cabeça.

“Aquela louca…” Começava a organizar os pensamentos.

Olhou na direção da porta, havia uma pequena abertura na parte superior, estreita, por onde entrava a pouca luz que iluminava sua cela.

Então se deu conta que não se lembrava de como aquela tarde havia terminado, e entrou em pânico.

“Anna! Eu não… O que fizeram com ela? Ah droga eu apaguei…” Passou a mão pela testa, desceu até a boca, sentiu algo dolorido naquela região, colocou um dedo dentro da boca, mexeu, fez um pouco de força, soltou um grunhido e cuspiu um dente, com um pouco de sangue.

“Um problema a menos…” – Olhou para o dente no chão, e depois novamente para a abertura no alto da porta. “Será que Anna também está numa cela?” Jennifer estava com uma expressão preocupada.

Olhou ao redor, tentando se lembrar onde estava, qual cela era aquela, procurava alguma outra abertura, mas havia apenas paredes nuas de concreto.

“Porra o que será que aconteceu com ela… Será que… Não, não, eu sei que ela está aqui, viva, em algum lugar.” A angústia subiu, entalando em sua garganta.

Sentia um frio cortante, como se viesse de dentro, a sensação era que sua energia havia sido sugada, qualquer mínimo movimento era dolorido.

“Ela está viva… Eu preciso tirar a gente daqui.” Falou fitando a abertura na porta.

Colocou as duas mãos na borda da cama, estava decidida a ir até aquela minúscula janela. Com esforço conseguiu ficar de pé, deu uma passada, sentiu uma dor imensa nos dois cortes nas pernas e caiu de frente.

“Que merda…” Falou deitada de bruços no chão frio, brava consigo mesma.

“Hoje não é um bom dia para caminhar.” Se dava conta.

Ergueu a cabeça do piso, olhando novamente a porta, estava aterrorizada por não saber o que havia acontecido com Anna, sentiu um choro crescendo dentro do peito, tentava segurar.

“Eu preciso fazer algo, eu não vou morrer aqui, não vou deixar Anna morrer aqui.”

Novamente usou os braços para se erguer, com ajuda dos joelhos ficou de pé e com alguns passos sôfregos chegou até a porta, apoiando-se nela.

Correu logo os olhos para a abertura e conseguiu enxergar o ambiente do outro lado, aquela sala com duas mesas e um carcereiro com cara de mal humorado, que assistia uma pequena TV em cima da mesa. Um sofá marrom velho, um arquivo metálico, um quadro de cortiça com chaves numeradas e um bebedouro antigo. Sabia que havia mais celas ao seu redor, talvez umas cinco à sua direita, umas três à sua esquerda, até o final da sala.

As pernas fraquejaram e acabou ajoelhando-se, voltou engatinhando para a cama, subiu devagar e voltou a sentar-se, arqueada, ofegante. Ajeitou a manta sobre seus ombros. Apesar do frio suava, era a febre que chegava, lhe causando uma sensação ruim, tão ruim quanto o pior dos pressentimentos ruins, lhe deixando mais tonta do que já estava.

“Preciso pensar em algo… preciso pensar em algo…” Se embalava, balançando o corpo para frente e para trás.

Era mais do que uma sensação de mal estar, não conseguia se concentrar em nada, sentia-se como se tivesse passado a noite inteira bebendo chopes, embriagada.

“Ela deve estar em alguma destas celas… São talvez dez celas… Ou nove… Dez… Não, são nove.” Fechou os olhos, tentando pensar direito.

“Droga…” Sentiu-se zonza e acabou deitando-se novamente de bruços, devagar.

“Já deve ser noite… De madrugada? Quanto tempo fiquei apagada? Droga… Será que a machucaram? Tenho que sair… Dez celas… Cinco a direita.” Passou algum tempo tentando organizar os pensamentos.

Um barulho a despertou, uma bandeja entrou por baixo da porta, através de uma abertura comprida e rasa. Duas batidas foram ouvidas na porta.

“Janta!” Uma voz masculina bradou em seguida.

Virou a cabeça, viu na bandeja um prato cinza com algo que parecia uma sopa e ao lado um pão. Voltou a recostar o rosto no colchão, fechando os olhos.

Então pode ouvir mais ao longe duas batidas numa porta e alguém falando ‘janta!’ novamente.

“Anna!” Jennifer ergueu a cabeça arregalada.

“Tem que ser a cela dela.”

Fez um esforço dolorido e levantou-se, sentando novamente, agora atiçada pela possibilidade da localização de sua namorada.

“É aqui perto, a esquerda, sim foi a minha esquerda.” Balançava-se agora com empolgação, como se aquilo a mantivesse com energia.

“Pense… pense… pense… Não dizem que os Vulpis são espertos? Seja esperta, pense em algo. Ela deve estar na última cela, ou penúltima…” Murmurava com um quase desespero, seu queixo teimava em tremer, por mais que tentasse manter seus maxilares unidos.

Ergueu a cabeça com uma feição animada, acabara de ter uma ideia, fixou novamente o olhar na abertura da porta.

“Hoje terá que ser um bom dia para caminhar…”

Passou a mão pela testa e pelo rosto, limpando o suor. Puxou as duas pontas da manta, e deu um nó abaixo da garganta.

“Qual super-herói usa capa amarela? Deixa pra lá…”

Segurou com força a borda do colchonete e ergueu-se. Reuniu o restante de sua energia e conseguiu chegar até a porta, respirando forte. Empurrou com o pé a bandeja para o lado e certificou que nada mudara desde o momento anterior, o mesmo vigilante ainda assistia TV com cara de poucos amigos.

Abaixou-se, pegou o pão, deu uma boa olhada, e rapidamente o atirou por baixo da porta, para a direita. Levantou-se e viu o carcereiro indo na direção do início do corredor, onde o pão ainda rolava, agradeceu por ser um pão endurecido, o que acabou fazendo barulho suficiente para atrair a atenção dele.

Assim que ele passou pela frente de sua cela, concentrou-se no mural marrom na parede dos fundos, fitou a primeira chave do quadro, franziu as sobrancelhas e a chave com um pequeno chaveiro branco saiu voando, na direção da última porta, parando em frente.

“Droga!”

Olhou novamente para a chave, e a fez correr para dentro daquela cela, pela abertura que havia próximo ao chão. Estava preparada para fazer o mesmo procedimento com a penúltima cela, quando percebeu o carcereiro já voltando para seu posto.

Deu um longo suspiro e ajoelhou-se, quase sem forças, deslizando os braços e mãos pela porta. Tentou levantar mas acabou fraquejando e voltando a ficar de joelhos, voltou assim para a cama, subiu devagar e deitou-se de bruços, ardia em febre.

“É a nossa chance… Ela tem que estar na última cela, ela estará… Agora é com o destino, dei uma forcinha para o destino…”

Fechou os olhos, se esvaia em suor e tentava se manter acordada.

“Como isso tudo dói… se eu pego aquela vadia… eu… eu vou pendurá-la nas macieiras do meu avô… e vou brincar de tiro ao alvo… mas com flechas envenenadas… isso… flechas envenenadas… timo… eu vou mostrar onde fica o timo dela…”

Os minutos passavam, o silêncio era desanimador, nada acontecia, Jennifer começava a acreditar que havia errado de cela, ou que Anna não estava naquelas celas, ou ainda que simplesmente não estivesse mais naquele lugar.

“Não deu certo… preciso fazer outra coisa… vou levantar. Que merda…”

Sentia as gotas de suor descendo pela sua testa, as costas pareciam em chamas, as pernas com orifícios que latejavam, o peito doía.

“Acho que não estou tão mal… consigo levantar.” Falava tentando se convencer, mas sequer se movia.

“Cunhada… quem tem uma cunhada assim? Que desgraçada… Será que vai me matar ao amanhecer? Ou vai continuar com isso amanhã? Ela está ficando sem opções… vai furar o que agora? Meus braços?”

A noite corria e Jennifer ia perdendo a consciência, nenhum sussurro, nenhum ruído, apenas a espera pelo dia seguinte era o que lhe restava.

“Meus ombros… por que doem tanto? Que… ah, talvez por ter passado uma tarde pendurada pelos braços… claro… meus ombros… Meus Deus, Anna pode estar morta e eu aqui reclamando de dor nos ombros… Que merda…”

“Espero que aquela Hannibal Lecter devolva meu corpo para meu avô… ele vai ficar muito chateado… meu vô… desculpe vô… as macieiras… eu vou levantar… daqui a pouco…”

A porta da cela se abriu de supetão, acordando Jennifer, que apenas moveu a cabeça para ver o que acontecia.

“Meu Deus…” Anna falou com um semblante sofrido e correu até ela, a ajudando a se erguer.

“Anna…” Jennifer balbuciou, sorrindo.

Anna a abraçou por cima de seus ombros, com euforia, a apertando contra seu peito, tinha uma pistola na mão esquerda, e com a mão direita afagava seus cabelos.

“Desculpe… desculpe… desculpe…” Anna repetia baixinho, com os olhos marejados, Jennifer começou a correr suas mãos pelas costas dela, lhe comunicando silenciosamente que estava tudo bem.

“Você está machucada?” Jennifer afastou a cabeça, e fitando.

“Não, mas precisamos sair daqui.” – Anna deslizou a mão pelo seu rosto, e limpou o sangue abaixo do nariz. “Eu vou cuidar de você, eu vou cuidar de você, ok? Você vai ficar bem, eu prometo.”

Se aproximou e a beijou nos lábios, com cuidado.

“Foi você, que jogou a chave por baixo da porta?”

“Para alguma coisa tem que servir ser uma raposa.” Falava tentando evitar tremer o queixo.

“Veja, tenho uma capa amarela.” Continuou.

Anna riu.

“Consegue andar?”

“Bom, digamos que hoje não é um bom dia para caminhar, mas posso tentar.”

“Venha.”

Anna a ajudou a levantar, passou o braço dela ao redor do seu pescoço, dando suporte para Jennifer, e saíram da cela, olhando atentamente ao redor, o carcereiro estava caído em frente a última cela.

“Com certeza tem outros por aqui, vamos em silêncio, vamos tentar chegar até a guarita.”

Andaram até o final daquele corredor e Anna espiou o corredor seguinte, a esquerda, havia um sentinela dormindo despojado numa cadeira, junto a parede.

“Vai atirar nele?”

“Um tiro irá chamar a atenção, vou tentar outra abordagem. Fique aqui.”

Jennifer recostou-se na parede, e ficou espiando Anna andando a passos planejados pelo corredor. Não deu a menor chance para o sujeito, aplicou-lhe uma gravata até deixá-lo inconsciente.

Anna sinalizou com a mão, chamando Jennifer, esta apenas sussurrou.

“Me busca?”

Foi até ela, lhe oferecendo os ombros como apoio novamente.

“Essa capa não me deu poderes de voar.” Falou baixinho.

“Vamos, por esse lado agora.”

Chegaram até um ambiente amplo, como um grande saguão de entrada, a saída era do outro lado, mas haviam vários corredores desembocando naquele ambiente.

Anna ajeitou Jennifer, a segurando e passando seu braço direito por baixo do braço direito dela, e segurando sua mão do outro lado, sobre seu ombro esquerdo, com a mesma mão que empunhava a arma.

“Pronta?”

Jennifer deu o ok com a cabeça.

Se aproximaram da primeira porta que dava para aquela sala, Anna lentamente colocou sua cabeça a frente, espiando. Estava escuro e o corredor era longo, mas parecia estar vazio. Quando voltou sua cabeça para trás sentiu uma mão pegando em sua arma, tentando roubá-la. Um dos seguranças havia se aproximado por trás e as atacado, Anna lutava para manter a arma em seu poder e Jennifer foi derrubada no chão, caindo de costas, bradando algum palavrão.

O forte híbrido segurava a mão de Anna para cima, com suas duas mãos, enquanto Anna se debatia, tentando soltar-se, ambos olhavam para a pistola, como se fosse o grande prêmio. Até que Anna o fitou com uma ira visceral, deu um grunhido com raiva e arrancou a arma das mãos dele, sem pestanejar a segurou com as duas mãos à sua frente e deu dois tiros certeiros na sua cabeça.

Jennifer acompanhava a ação sentada no chão, boquiaberta e apavorada, suava mais do que nunca, estava pálida.

“Venha, temos que sair daqui o mais rápido.” Anna se aproximou e a levantou do chão, a deixando de pé, e logo sem seguida virou-se de costas para ela.

“Suba?”

“Onde?”

“Nas minhas costas. Passe seus braços aqui.”

Jennifer prontamente cruzou seus braços em frente ao pescoço de Anna, deu um impulso e passou as pernas ao redor de sua cintura.

“Segure firme, aperte suas pernas ao redor de mim.”

“Tá.”

Anna correu através de toda aquela grande sala chegando até a porta de saída, uma porta de aço que estava trancada.

“E agora?” Jennifer perguntou assustada, aquela adrenalina havia lhe dado uma dose extra de energia.

Anna se afastou um pouco e atirou na fechadura, depois chutou com força a porta, que abriu-se. Chegaram até o pátio, que um dia deveria ter sido um jardim gramado, e agora tinha alguma pouca grama seca amarelada, e areia. De um lado havia quatro carros estacionados e a frente, uma guarita, do lado de um grande portão de aço. Anna empurrou Jennifer para cima, a ajeitando com a mão livre, quando começou a caminhar na direção da guarita teve que se desviar de um tiro que veio daquela direção.

“Droga…” Anna saiu correndo para trás dos carros, com Jennifer grudada em suas costas, numa carona perigosa.

“A guarita está atirando!” Jennifer disse alto, em seu ouvido.

“Eu sei!”

Anna observou por alguns segundos, esperando mais algum movimento do outro lado, mas nada aconteceu.

“Segure firme.”

Anna correu com agilidade por trás dos carros, e com uma determinação e rapidez que Jennifer nunca vira antes, chegou até a guarita, derrubando a porta com os pés, e dando três tiros no segurança que estava em seu interior.

“Uau.” Foi o que Jennifer conseguiu exclamar, com o coração disparado.

Anna olhava afoita pelas paredes e em cima da mesa, até ver um pequeno quadro com chaves de carros penduradas. Pegou uma das chaves e apertou um grande botão à sua frente, fazendo o portão ao lado abrir deslizando para cima. Seguiu novamente para o pátio, aproximou-se dos carros e apertava o alarme procurando pelo carro que apitasse. Um carro vermelho mais ao canto era o escolhido, Anna caminhou rapidamente até a porta do passageiro, virou de costas e deu dois tapinhas na mão de Jennifer.

“Pode descer.”

Jennifer soltou-se, e acabou caindo de bunda no chão. Anna a ergueu pelo braço, a encostou na lataria do carro, e abriu a porta.

“Não, eu dirijo.” Jennifer recusou-se a entrar.

“Você não tem condições de dirigir.” Anna respondeu taxativa.

“E você não dirige.”

“Eu dirijo em emergências, você mesma disse isso à Andrew.”

“Não, eu dirijo, me dê as chaves.” Falou tentando pegar a chave da mão dela.

Anna deu dois passos para trás.

“Venha buscar.”

“Isso é golpe baixo.” Jennifer resmungou e acabou entrando no carro.

Anna correu para o outro lado, e logo sentou-se no banco do motorista, enfiando a chave na ignição e colocando ambas as mãos no volante.

Jennifer não conseguiu recostar-se no banco, curvou-se para frente, e apoiou-se com as mãos sobre o painel à sua frente, olhou para o lado e viu Anna paralisada com as mãos no volante.

“Você sabe ligar, não sabe?” Jennifer perguntou.

“Só preciso de um minuto.” Anna respondeu com a respiração pesada.

“Ok.” Jennifer continuava a fitando, aguardando.

Pousou sua mão sobre a perna de Anna, lhe fazendo um carinho.

“Você consegue, conseguiu da outra vez.” Falou com uma voz branda.

Anna sentiu o calor da mão de Jennifer sobre sua coxa, por cima do seu jeans escuro, aquele toque tenro acabou desmanchando a sensação aterrorizante que estava sentindo. Colocou sua mão sobre a mão dela, e correspondeu ao seu olhar.

Logo já estava girando a chave e dando ré no carro, manobrou pelo pátio e saiu pelo grande portão, não sem antes dar ré em cima de outro carro, batendo a traseira.

“Você está indo bem… está indo bem…” Jennifer falava tentando esconder a apreensão.

Saíram no meio da noite daquela fortaleza dos horrores, por uma pequena estrada de terra, cercada de uma densa vegetação. Jennifer ainda deu uma olhadela pelo retrovisor, viu a casa ficando para trás, apoiou a cabeça sobre os braços cruzados à sua frente e fechou os olhos. Estava extremamente aliviada em estar saindo dali, carregava consigo as marcas e as dores adquiridas, mas estava indo embora, e estava com Anna ao seu lado, viva.

“Não faço ideia de onde estamos.” Anna murmurou, estava apreensiva olhando para frente com as sobrancelhas baixadas.

“Acender os faróis ajuda.”

“Ah…”

Jennifer sorriu, voltou a fechar os olhos, a adrenalina estava passando, a cabeça voltava a pesar.

“O jeito é seguir por esse caminho e ver em qual rodovia vai dar.” Anna olhava pela janela, tentando se localizar.

“Uhum.”

“Me trouxeram num porta malas, não faço ideia que cidade seja essa.”

“Nem eu…”

Anna a olhou, colocou a mão em seu rosto.

“Você está com febre. Seus ferimentos devem estar infeccionando.”

Jennifer deu um sorriso torto, sem abrir os olhos.

“Sempre a infecção, como no dia que nos conhecemos…”

Anna lançou um olhar culpado, e passou os dedos pelos seus cabelos que pendiam, colocando para trás da orelha.

“E como no dia que nos conhecemos, eu vou cuidar da sua infecção.”

Já dirigiam há alguns minutos, Anna queria mantê-la acordada.

“Onde conseguiu sua capa amarela?”

“Ãhn?”

“Essa capa sem superpoderes, onde conseguiu?”

“Me deram.”

Anna olhou o sangue que havia ultrapassado boa parte da manta, imaginou  como estariam suas costas, teve um arrepio ruim, sentia-se mal em vê-la naquele estado.

“Você sabe que se eu pudesse tiraria todos seus ferimentos e colocaria em mim, não sabe?”

“Deixe onde estão…” Falou sorrindo, mantinha a testa recostada sobre os braços e os olhos fechados, seguindo o sacolejo do carro.

“Eu… eu sinto muito que tudo isso tenha lhe acontecido por minha culpa… você pagou por coisas que eu fiz…”

“Não, por favor, sem esse papo de culpa ok? A única culpada aqui é aquela Mengele de saias. Você não tem culpa de nada.”

Anna apenas balançou a cabeça.

“E se for pedir desculpas, que seja por ainda não ter me dado o presente de aniversário.” Jennifer emendou.

“Ficou muito tempo na cafeteria me esperando?”

“Digamos que tomei mais dois cafés.”

Chegaram finalmente numa rodovia, e Anna conseguiu se localizar, estavam numa cidade próxima, dirigiram por silêncio por alguns instantes.

“Você ficou com a garçonete.” Jennifer interrompeu o silêncio, já estava sonolenta.

“O quê?”

“Sharon, a que nos atendeu hoje cedo, você ficou com ela naquela época que estávamos dando um tempo.”

“Do que você está falando?”

“Tudo bem, eu também fiquei com a Laura naquela época, não estou brigando com você.”

Anna lhe deu um olhada, intrigada.

“Como você soube sobre a Sharon?”

“Laura me contou.”

“Ah claro… Laura e sua grande boca.”

Jennifer ficou em silêncio por um instante.

“Sharon é híbrida… Se você namorasse uma híbrida teria uma namorada que sabe se defender.”

“Não quero namorar uma híbrida.”

“Uma Titan talvez?”

“Não.”

“Um híbrido?”

“Jennifer, com todo respeito, cale a boca.”

“Ok.”

Anna deu uma olhada pelas janelas.

“Chegaremos logo em casa.”

“Vamos para sua casa?”

“É o único lugar que tenho segurança em te levar nesse momento.”

“Ok, vamos para casa…”

“Eu vou chamar meu médico particular, você estará em boas mãos.”

Jennifer dava alguns suspiros longos, as vezes franzia a testa, apertava os olhos, tentava lidar com as diversas dores que sentia.

Já entravam na rodovia que dava acesso à casa de Anna, chegariam em poucos minutos, passava da meia noite, a estrada estava quase deserta.

“Jennifer?”

“Me ouve?” Anna insistia.

“Hum.”

“Está acordada?”

“Hum.”

“Fale comigo.”

“Hum.”

“Ok, não durma mais do que isso.”

Finalmente estacionou o carro em frente à sua casa, desligou o motor e deu um longo suspiro, ainda com as mãos no volante. Estava de volta à sua zona de conforto.

Saiu do carro e foi até o lado de Jennifer, abrindo sua porta.

“Chegamos, vou te ajudar a sair.” Falou baixinho para ela.

“Hum?”

A tirou do banco e colocou com cuidado sobre seu ombro esquerdo.

“Não posso te levar no colo, machucaria ainda mais suas costas, ok?”

Caminhou até a porta e parou em frente.

“Batatas…” Jennifer murmurou.

“O quê?”

“Um saco…”

“Ah sim… É, estou carregando você igual um saco de batatas.” – Anna sorriu. “E não temos a chave de casa.”

Deu um passo para trás, e com alguns chutes abriu sua porta.

Subiu as escadas devagar e repousou o corpo de Jennifer com cuidado na cama, que rapidamente se virou quando suas costas tocaram no colchão. Anna sentou ao seu lado pensativa.

“Como vamos tirar essa manta?” A olhava de lado.

Teve uma ideia, foi até o banheiro e abriu as torneiras da banheira. Enquanto enchia foi até seu casaco pendurado do lado de fora e pegou seu celular.

“Ainda bem que deixei aqui…” Pensou.

“Dr. Sullivan, é Anna, desculpe ligar para o senhor essa hora.”

“Olá Anna, aconteceu algo com você?”

“Não, dessa vez não é comigo. Mas preciso dos seus serviços com urgência.”

“Qual o tipo do ferimento?”

“Lacerações e perfurações. Tem como vir aqui na minha casa agora?”

“Sim, estarei aí em meia hora.”

Desligou as torneiras da banheira, colocou a mão dentro da água, sentindo a temperatura e foi até Jennifer.

“Achei um jeito de tirar essa manta grudada de você.” Sussurrou, já desabotoando a calça dela e o zíper, a tirando na sequência.

“Que bom…” Respondeu baixinho.

A colocou sobre o ombro novamente e levou até o banheiro, devagar a mergulhou dentro da água, fazendo com que ela despertasse, sem saber o que estava acontecendo.

“O que é isso?” Falou tentando se levantar, agitada.

“Calma, é água, é apenas água quente, é água…” Anna a apaziguou, segurando seu rosto com as duas mãos.

Jennifer a fitava confusa, com um semblante dolorido.

“Por que?”

“É a melhor forma de limpar todo esse sangue em você, e tirar a manta de suas costas.”

“Capa.”

“Desculpe, capa.”

“Isso arde…” Falou se deitando devagar na banheira.

“Eu sei… recoste a cabeça na borda da banheira, vou pegar uma toalha para limpar seu rosto.”

“Não dá…” Falou se erguendo.

Anna voltou rapidamente, agachando-se ao lado.

“Tudo bem, volte para frente, venha cá.” Anna a abraçou, trazendo sua cabeça com a mão para perto do seu rosto, e aproveitando para dar uma boa olhada em suas costas.

Jennifer permaneceu assim, sentada dentro da banheira, inclinada para frente abraçando suas pernas, com os olhos baixos, sonolentos.

“Está soltando, vou molhar para soltar o resto ok?”

Jogou alguma água em suas costas e finalmente conseguiu remover o pano.

“Pronto, já vou te tirar daqui. Olhe para mim.”

Molhou a toalha na banheira e limpou o sangue no rosto dela, com cuidado, passou na sua bochecha e Jennifer virou o rosto, incomodada com a dor.

“Está inchado deste lado.” Anna constatava.

Jennifer apenas confirmou balançando a cabeça.

Anna logo terminou e a levou de volta para a cama, a vestindo apenas com uma calça de flanela azul escuro. Em minutos Dr. Sullivan já estava no quarto, um senhor que aparentava seus setenta anos, alguns poucos fios brancos restavam no alto da cabeça, parecia bastante solícito, a cumprimentou e largou uma grande bolsa preta em cima do criado mudo.

“O nome dela é Jennifer.” Anna falou quando ele se aproximou da cama, sentando-se ao seu lado.

“Olá Jennifer, está acordada?”

Apenas abriu um pouco um olho, tentando identificar quem era.

“Eu sou o Dr. Sullivan, se preferir pode me chamar de Raymond. Pelo visto andou se metendo em uma encrenca das grossas hein?” Falou com a voz calma, já colocando delicadamente as mãos em suas costas, a examinando de perto.

“Se algo que eu fizer doer, me avise.”

“Tá bom…” Murmurou.

“Ela está com febre.” Anna falou.

“É, está sim, mas vamos limpar bem isso, alguns pontos, alguns remédios, e ela vai ficar bem.” Respondeu otimista.

Pegou dezenas de coisas da sua maleta, deixou outras preparadas, aplicou algumas anestesias locais, e pouco a pouco ia cuidando de suas costas. Anna acompanhava tudo de pé, recostada numa cômoda, atenciosamente, com os braços cruzados.

“Está acabando?” Jennifer praticamente implorava.

“Sim, estou terminando o último.”

“Tem outras coisas na frente também.” Anna o advertiu.

“Ok, então me ajude a virá-la, a segure de lado.”

O médico tentou virar seu corpo para a esquerda e ela rapidamente reclamou.

“Não, não…”

“Tem uns cortes desse lado.” Anna o impediu, então a viraram para o lado direito.

“Um V?” Ele olhou curioso.

“Nem me pergunte…”

Alguns longos minutos, muitas gazes ensanguentadas no lixo e curativos devidamente feitos depois, ele havia enfim terminado seu serviço, e tirava alguns comprimidos de sua bolsa.

Anna olhou os frascos em cima do criado mudo e o chamou para a sacada.

“São analgésicos e remédios para dormir, não são?” Anna o questionou.

“Sim, entre outras coisas.”

“Não vão adiantar.”

“Por quê?”

“Ela está acostumada a coisa muito mais forte que isso.”

“Bom, eu também tenho coisas bem mais fortes dentro da minha bolsa, vou dar estes então.”

“Ãhn… espera, não sei se é uma boa ideia. Ela teve problemas com isso recentemente.”

“Problemas…”

“É, esses problemas…”

“Mas ela precisa de analgésicos.”

“Eu sei… Tudo bem, dê o que o Sr. tiver de mais forte, chega de dor por hoje, se possível faça com que ela apague.”

“Farei isto.”

Após tomar um coquetel de remédios de tarjas de todas as cores, Jennifer finalmente desligou. Dr. Sullivan ainda deixou as últimas instruções e o receituário.

“Troque todos os curativos três vezes por dia, inclusive os das costas, use e abuse da pomada para que nada grude nos cortes. Ela teve sorte, não teve perfuração no pulmão.”

“Não? Mas ela tossiu sangue.”

“Pelo que examinei não há líquido no pulmão, ela deve ter tossido sangue que já estava na boca.”

“Menos mal…”

Dr. Sullivan terminou de guardar suas coisas, e se dirigia a porta, acompanhado de Anna.

“Já faz algum tempo que você não me procura. Não, não estou reclamando.” – Sorriu. “É um bom sinal, você costumava precisar dos meus serviços quase todos os meses, e já tem um bom tempo que não me chama, se não me falha a memória, a última vez que atendi você foi no final do ano passado.”

“Eu não tinha me dado conta disso.” Anna respondeu com um sorriso meio torto.

“Bom sinal, significa que você não tem se ferido. Não tem mais feito aquelas missões?”

“Tenho sim, mas arranjei um anjo da guarda.”

“Que bom… Ah… entendi, ela?” Apontou com a cabeça para Jennifer.

“Sim.”

“Melhoras para seu anjo então, se amanhã a febre não passar me ligue novamente.”

E agora eram apenas as duas no quarto, Anna se aproximou da cama, ficou algum tempo a observando, pensativa. Tomou um banho, vestiu-se, e sentou-se ao lado dela na cama. Deslizava a mão por seu ombro, seguiu pelas costas até o outro ombro, e sentia a pele quente sob seus dedos. Subiu sua mão pela nuca e afagou seus cabelos, enquanto a via dormir, agora com um semblante pacífico, aliviado.

“Já volto.” Sussurrou em seu ouvido, e deu um longo beijo no canto da sua testa.

Vestiu sua jaqueta preta e desceu as escadas com o celular na mão. Entrou na oficina e fez uma ligação.

“Max? Desculpe te perturbar esta hora.”

“Aconteceu alguma coisa?”

“É, aconteceram algumas coisas, mas agora já está tudo sob controle.”

“Eu esperei você hoje de manhã na loja.”

“Aconteceram coisas… eu prometo que conto tudo para você depois, preciso de um favor seu.”

“Mande.”

“Preciso que você se livre de um carro para mim.”

“Onde ele está?”

“Está aqui em casa, um carro vermelho, preciso que dê um jeito nele. E preciso de um endereço também.”

“Onde você pretende ir à essa hora?”

Fez uma pausa antes de responder.

“Ao inferno.”

 

 

        Capítulo 37 – Um tiro de misericórdia

 

“Max… Preciso que você me prometa uma coisa. Se eu não te ligar dentro de três horas quero que você venha até minha casa e leve Jennifer com você, leve para bem longe, e tome conta dela. Você me promete isso?”

“Em que você está se metendo Anna?”

“Eu não posso te explicar agora, preciso agir rápido.”

“Ok, sei que não vai adiantar tentar te persuadir do contrário… Prometo sim, mas não faça nenhuma besteira por impulso.”

Anna desligou o telefone e pegou uma mochila de couro dentro de um armário no alto. Guardou nela algumas coisas e fechou o zíper. Tirou o casaco, vestiu seu coldre e colocou uma arma de cada lado, uma com silenciador e outra sem. Voltou a vestir a jaqueta, colocou a mochila nas costas, pegou o capacete e levou a moto para o lado de fora da casa. Fazia tudo com um semblante compenetrado, parecia um ritual.

Saiu com sua moto em alta velocidade, minutos depois já estava na cidade vizinha, num bairro nobre, repleto de grandes casas e algumas mansões. Andava agora devagar por uma das ruas, olhando ao redor, procurando por uma casa em especial, até encontrar o que queria.

A vizinhança estava em silêncio, apenas algum latido distante era ouvido. A casa branca tinha um muro não muito alto, com um portão pesado, pomposo. Anna adentrou pelos fundos, e logo já estava dentro da casa de Vivian, olhando atentamente ao redor, numa sala de estar grande rodeada de vidraças altas. Seguiu para uma sala menor, igualmente clara, com móveis e decoração na cor branca, bem diferente daquela sala negra onde elas haviam sido torturadas. Ao encontrar a larga escada, encontrou também um segurança distraído que caminhava pelo corredor, escondeu-se rapidamente atrás de um pilar, o aguardando. Sacou uma de suas adagas e a empunhou junto a sua perna, ouvia atentamente seus passos lentos, até finalmente abordá-lo na surdina, tapando sua boca com a mão direita e cravando a adaga em seu peito com a esquerda.

Retirou rapidamente a lâmina, limpando o sangue na roupa do próprio capataz desfalecido no chão. Não queria perder tempo, subiu logo as escadas, com passos apressados, chegando num corredor com poucas portas, que desembocava numa grande janela que ocupava toda a parede. Abriu a primeira porta e viu um homem dormindo numa grande poltrona, com a cabeça caída para trás, o reconheceu. Guardou a adaga, sacou uma pistola com silenciador de seu coldre de dentro da jaqueta, entrou devagar, pé após pé, o fitando. Aquela não era uma missão comum, a raiva em seus olhos, e a frieza em seus movimentos faziam toda a diferença. Naquela noite Anna era, como disse uma vez Jennifer, uma máquina de matar.

Assim que ficou em frente àquele homem, ele acabou acordando, mas num gesto rápido Anna cobriu sua boca e encostou o cano do silenciador na testa dele, lançando um olhar fulminante. Novamente estava decidida a não perder tempo, o encarou dentro dos seus olhos e murmurou.

“Sith, um golpe.”

Ele teve tempo apenas para arregalar os olhos, e ela efetuou o disparo, matando o carrasco de sua namorada.

Voltou ao corredor, e abriu delicadamente a segunda porta, a claridade entrava pelas janelas e iluminava Vivian dormindo numa grande cama, de lado, com lençóis brancos até a altura do peito.

A observou por um instante, os cabelos negros e brilhosos caídos sobre o travesseiro, sem ideia da presença de Anna em seu quarto.

“Esse ar arrogante… Mesmo dormindo.” Anna constatava.

Se aproximou mais um pouco, e empunhou a arma.

“Acorde Vivian, não quero matá-la dormindo.” Falou com a voz firme de pé em frente a cama, apontando sua arma para ela, com as duas mãos.

Acordou assustada, puxando o lençol para cima.

“Não sou covarde como você.” Anna continuou.

“Mas… O que faz aqui??” Vivian perguntava incrédula.

“Você deveria ter ouvido a garota, deveria ter aceitado a proposta de sentar e conversar, quando teve oportunidade.” Anna falava calmamente, mas completamente dominada por uma ira pulsante dentro de si.

“Como fugiu da minha fortaleza?”

Anna deu um sorriso com o canto da boca.

“Ou talvez você devesse ter me ouvido quando pedi para deixá-la ir embora. Ela nos tirou de lá, você subestimou minha pequena humana, foi assim que você a chamou, não foi?”

“Tenho certeza que podemos resolver isso com essa arma abaixada Anna, abaixe isso.” Vivian falou estendendo a mão, já sentada, tinha um semblante nervoso.

“Eu não vou atirar em você, não se preocupe, mas vou manter a arma apontada apenas para que você não tente nenhuma gracinha.”

“Eu? Eu não faria isso. Vamos lá, deixe-me colocar uma roupa, podemos ir lá embaixo conversar, eu posso te dar garantias que não farei mais nada com vocês, as deixarei livres.”

“Você não vai a lugar algum, cunhada.” Falou o ‘cunhada’ com certo deboche.

Anna tirou a mochila das costas e colocou sobre a cama, tirou dos bolsos de trás da calça dois pares de algemas, enquanto isso Vivian fez um movimento rápido na direção do criado mudo ao seu lado. Anna correu e a impediu.

“Boa tentativa.” Anna falou apontando a arma para ela, e abrindo a primeira gaveta, avistando uma arma e um outro objeto que chamou sua atenção, prontamente pegou ambas as coisas e colocou no bolso de sua jaqueta.

“O que você vai fazer?” Ela perguntou assustada, olhando as algemas.

Anna apenas olhou ao redor, como se procurando algo específico, parou o olhar então na cabeceira da cama, de ferros grossos e retorcidos.

“Acho que vai servir.” Falou já prendendo o pulso esquerdo de Vivian à cabeceira, prendeu mais uma algema no mesmo pulso, em outra parte metálica.

“Duas, para garantir.” Deu um puxão com força, testando a resistência daquela estrutura metálica.

“Pare com essa besteira Anna, eu não fiz nada à você, me solte, já disse, resolvemos isto de outra forma.” Falou puxando seu pulso, sem sucesso.

Anna voltou à frente da cama, guardou a arma no coldre, abria a mochila sem pressa.

“Como pode essa humana ser mais importante que sua própria espécie! Como você ousa defendê-la desta forma??”

Anna interrompeu o que fazia, e a fitou com faíscas de raiva saltando de seus olhos.

“Chega Vivian.”

“É só uma porcaria de uma humana insignificante Anna, não enxerga isso?? Eu te poupei, e agora você veio me torturar a troco de quê?”

Anna se aproximou dela com passadas rápidas, e encostou a arma entre seus olhos.

“Vivian eu não vou te torturar, não vou encostar nenhum dedo em você, não te farei um arranhão sequer.” Falou num misto de ira e sarcasmo.

Voltou a mochila e tirou de dentro um galão com gasolina, deixando Vivian em pânico.

“Você ficou louca??”

Anna não respondeu, apenas começou a espalhar o combustível pelo quarto, compenetrada, com uma frieza que deixava Vivian cada vez mais desesperada, tentando novamente soltar-se das algemas, agora suava.

Postou-se ao lado da cama e despejou o restante do líquido pelos lençóis e pelo corpo dela, jogando o vasilhame vazio no chão por fim. Vivian acompanhava cada movimento com um olhar tenso, depois com seu braço livre tentou novamente puxar o pulso algemado.

“Anna temos que preservar nossa espécie, por isso não te fiz nada, eu nunca faria nada à você! Você praticamente fez parte de nossa família, não pode fazer isso comigo!” Vivian dizia agitada.

Foi novamente até a mochila e pegou uma caixa de fósforos.

“Se eu fosse você não faria isso, vai machucar seu pulso.” Anna disse.

“Me solte! O que você quer que eu faça?? Que eu peça desculpas? Me diga, o que você quer de mim?? Você já tirou tudo de mim! E eu não fiz nada à você!”

“Você mexeu com a pessoa errada.” Falou abrindo a caixa de fósforos.

“Não me deixe aqui!”

“Ah, claro, já ia esquecendo.” Anna guardou a caixa de fósforos, tirou uma arma de dentro de sua jaqueta, uma outra arma.

“Quando o fogo chegar até você, tenho certeza que você desejará a morte, por isso vou deixar esta arma com você.” Fez menção de jogar a arma para ela, mas parou o movimento.

“Mas se eu fosse você tomaria cuidado para não errar o tiro, tem apenas uma bala aqui dentro.”

Guardou a arma no cós da calça, tirou novamente a caixa de fósforos, riscou o palito e jogou no sofá ao lado da cama, que iluminou-se em chamas em segundos.

“Anna! Em nome dos velhos tempos! Me solte!” Vivian se debatia.

Anna a fitou mais uma vez, ainda dominada por uma raiva que lhe acelerava o coração.

“Vá a merda Vivian.”

Lançou a arma para ela, e saiu pela porta.

“Anna! Sua vadia! Volte aqui! Eu deveria ter matado vocês duas quando tive a oportunidade!”

Anna desceu calmamente as escadas e a voz de Vivian já não podia ser mais ouvida, passou pelas salas e saiu da casa, chegando até o quintal, na lateral. Observou por alguns minutos lá de baixo o fogo consumindo o quarto, as labaredas amarelas chegando até a janela, a fumaça aumentando de volume. Logo depois pode ouvir o estampido de um revólver. Virou as costas e seguiu para sua moto.

Estacionou a moto em frente à sua casa, o carro vermelho já não estava mais lá. Subiu rapidamente as escadas e foi até a cama, onde Jennifer dormia pacificamente e desajeitada. Tirou calmamente suas luvas de couro e passou sua mão pelos cabelos dela, agachada ao seu lado, agora aliviada. Sentiu em sua testa apenas um suor frio, a febre havia diminuído, ergueu-se após vê-la suspirando.

Se dirigiu até a varanda, jogou a jaqueta displicentemente em cima da cômoda e ligou para Max, o tranquilizando. Em seguida tomou um banho e colocou suas roupas de dormir, mas apesar do cansaço não conseguiria adormecer. O sol nascia tímido, ela fechou as persianas da varanda, e caminhou até o sofá de almofadas verdes em frente a cama. Permaneceu ali, apenas olhando sua namorada dormindo de bruços, esfregou as mãos no rosto, ainda assimilando a série de acontecimentos por qual havia passado.

Jennifer mexeu-se, mudando um pouco de posição, viu então duas manchas vermelhas nos lençóis, dos ferimentos em suas pernas. Anna balançou a cabeça incomodada, franziu a testa, era perturbador vê-la daquele jeito por sua causa, sentia-se mais revoltada com si própria do quem com Vivian.

Apoiou os cotovelos nos joelhos, colocou as mãos no rosto e chorou. Permitiu-se chorar naquele silêncio solitário, segurando os soluços para não acordar Jennifer, as lágrimas vinham com mais rapidez do que conseguia enxugar. Por alguns instantes deixou todo aquele terror que sentia se esvair, talvez não percebesse, mas alguma coisa havia mudado dentro dela depois daquilo tudo, porém naquele momento apenas havia baixado suas defesas.

“Você está chorando?” Jennifer perguntou num sussurro sonolento.

Anna ergueu a cabeça surpresa, enxugou o rosto com gestos rápidos.

“Não, não estou não.” Respondeu baixinho.

Jennifer mantinha os olhos abertos com dificuldade, tentava a fitar.

“Vem cá.”

Anna hesitou por um momento, mas levantou-se do sofá e sentou-se na cama, colocando a mão na testa de Jennifer.

“Como se sente?” Anna perguntou.

“Como um bife mal passado.”

Anna apenas sorriu de leve.

“Tudo bem se você quiser chorar. Todo mundo chora. Eu também chorei, não foi?” Mesmo de bruços Jennifer tentava olhar para Anna, sentada ao seu lado.

“Foi… Mas você foi bem valente.”

“Você pediu para ser valente. Por falar nisso, ela vai nos procurar quando o sol raiar.” Jennifer mudou para uma expressão preocupada.

“Não se preocupe com isso agora, descanse.”

“Temos que fazer algo. Você vai tomar alguma providência?”

“Vou sim, mas não se preocupe ok? Está tudo sob controle.”

Jennifer tentava se virar, com dificuldade.

“Deixa que eu te ajudo, quer ficar de lado?”

“Isso. Cansei de ficar de barriga para baixo.”

“Pronto. Não dói assim de lado?”

“É questão de costume.” Fez um semblante dolorido.

Anna se ajeitou na cama, e passou a correr seus dedos pelos cabelos de Jennifer.

“Você já dormiu?” Jennifer perguntou.

“Ainda não. Mas acho que você deveria voltar a dormir. Sente alguma dor?”

“Mais ou …” Jennifer interrompeu o que falava a franziu as sobrancelhas, olhando na direção da cômoda, onde estava a jaqueta de Anna.

“Minha pulseira. Minha pulseira está no bolso da sua jaqueta, a pulseira que Vivian levou com ela!” Olhou então assustada para Anna.

“Anna, como que… Onde você estava??” Tentou se levantar, ficando apoiada no cotovelo.

Anna ficou sem ação, e sem palavras, nem sabia por onde começar a explicar.

“Você saiu enquanto eu dormia?” Jennifer insistia.

“Eu precisava resolver isso antes que ela descobrisse a nossa fuga.”

“O que você fez?” Jennifer perguntava atônita.

“Eu fui até a casa de Vivian.” Anna respondeu cabisbaixa.

“Sozinha?”

“Eu e Paty.”

“Anna…”

“Eu precisava resolver isso.”

“Você a matou?”

Anna demorou a responder.

“Mais ou menos…”

“Como se mata uma pessoa mais ou menos Anna? Ela virou zumbi?”

“Ela está morta, estamos livres.” Anna tentava não se prolongar, ela sabia que aquilo tudo havia sido mais do que auto defesa, havia sido vingança.

Jennifer balançou a cabeça, assimilando, não sabia ao certo se estava de acordo com aquela atitude desavisada de sua namorada, mas de certa forma estava aliviada.

“A torturou?” Seu corpo ainda estava cansado, deitou-se novamente, de lado.

“Não.”

“Você se arriscou, não deveria ter ido sozinha, imagina se… imagina…” Não completou a frase.

“Mas deu tudo certo, agora estamos seguras, não pense mais nisso. Esqueça ela ok? Tente dormir.”

“Não se machucou?”

“Não, está tudo bem, sério.”

Jennifer ficou em silêncio, pensativa.

“Ninguém virá atrás de nós então?”

“Não, ela tocava os negócios sozinha. Preocupe-se apenas com você e sua recuperação agora, durma.” Falou levantando-se da cama.

“Onde você vai?”

“Tenho algumas coisas para ver.”

“Venha dormir…” Falou com a voz mansa.

“Ainda não, tenho que ver o que tenho de material para curativo, remédios, o que comprar daqui a pouco, essas coisas.” Falou já indo para o banheiro.

“Anna?”

“Sim?”

“Fica aqui, fica aqui pertinho de mim.”

Anna sorriu, e suspirou.

“Claro.”

Voltou para a cama e deitou debaixo da coberta, ao lado de Jennifer, de frente para ela.

“Posso ver tudo isso depois.” Colocou a mão em seu rosto, passou os dedos num corte em seu lábio, e num corte na maçã do rosto, onde estava avermelhado.

“Tem duas noites que você não dorme, eu estou bem, está na hora da guerreira descansar.” Jennifer sorriu.

“A guerreira que não impediu tudo isso…”

“Psss.” Jennifer colocou o dedo sobre os lábios dela.

“Eu gostaria de ter ido com você.” Continuou.

“Não, isso era entre eu e Vivian.” Anna falou séria.

“Vingança?”

“Era necessário… Mas de certa forma também foi vingança. Olha o estrago que ela fez em você, eu… eu não poderia deixar barato.”

“Estrago?” Jennifer tentou olhar suas costas por cima do ombro, com uma expressão preocupada.

“Foi modo de falar.”

“Tá muito feio?”

“Não… quer dizer… um pouquinho, mas vai cicatrizar, não se preocupe com isso agora.”

Jennifer baixou os olhos pensativa, e um pouco entristecida.

“Eu imagino que deve estar parecendo arte abstrata… estou parecendo um queijo suíço surrado.”

“Não, não está não.”

“Você vai continuar me olhando como antes?”

“Hey.” – Anna segurou seu rosto. “Não pense nessas besteiras, ok?”

Jennifer balançou a cabeça, Anna ergueu seu queixo com o dedo indicador, para que ela a olhasse.

“Quando você entrou na minha casa, entrou não, quando você invadiu a minha casa eu juro, a primeira coisa que eu pensei foi que estava vendo a garota mais linda que já havia visto em toda minha vida. E não imaginava que você poderia ficar ainda mais bonita com o passar do tempo, e hoje eu tenho a mulher mais linda e perfeita que eu jamais poderia imaginar em ter ao meu lado, aqui, bem na minha cama.”

Anna se inclinou na direção dela e beijou seus lábios, no início com cuidado, mas Jennifer logo passou sua mão por trás de sua nuca e a puxou para um beijo mais acalorado, que Anna correspondeu deixando as reservas caírem pelos lençóis.

 

As dez da manhã elas foram acordadas pelo toque do celular de Anna, que não reconheceu o número mas atendeu mesmo assim.

“Alô?”

“Onde você enfiou a minha neta?”

“Sr. Stuart?”

Jennifer esticou o braço, pedindo da cama o celular.

“Como ela passa o dia do aniversário inteiro sem atender o celular? E você também?”

“É que… O senhor quer falar com ela agora?”

“Por gentileza.”

Anna prontamente lhe entregou o aparelho.

“Vô? Eu…”

“Você sumiu!”

“Eu sei, eu tenho uma boa explicação.”

“Estou ouvindo.”

“Fomos… num parque de diversão, num local que não havia sinal, era um local distante…”

Anna balançou a cabeça em reprovação, franzindo a testa.

“O dia inteiro num parque?”

“É, daqueles super parques, que tem atrações noturnas inclusive.”

“Ouvi falar que ainda não reconstruíram os parques na América.”

“Ah é? Mas esse já reconstruíram, é novinho em folha.”

Anna colocou a mão na testa.

“Essa história está muito mal contada, mas tudo bem, estou mais tranquilo que finalmente consegui falar com você. A propósito, feliz aniversário Jenny, gostou do carro?”

“Que carro? Ah, claro! Adorei o carro! É lindo e enorme, deve ter custado uma fortuna, não precisava vô.”

“Posso trocar por um menor.”

“Não! Não troque! Adorei esse, obrigada mesmo.”

“Que bom que gostou. Bom, de qualquer forma o pessoal do clã vai na sua casa hoje ou amanhã te fazer uma visita, vão levar um presente ou algo assim.”

“Que dro… que legal! Tem como avisá-los que não estou em casa?”

“Onde você está?”

“Na casa de Anna.”

“Ah claro. Ok, os avisarei.”

“Mais uma vez obrigada vô, o carro é fo… o carro é incrível!”

Após desligar Jennifer jogou o celular no criado mudo e olhou assustada para Anna.

“Precisamos buscar o carro no Centro.”

“Como ele conseguiu meu número?”

“Que merda, aqueles engomadinhos vem me visitar, como vou recebê-los assim?”

“Meu celular agora está na lista telefônica por acaso?”

Pararam de falar e se entreolharam.

“Ok, vamos unificar nossas conversas.” Anna disse.

“É, é uma boa ideia. E antes de qualquer coisa, pelo amor de Deus, me dê analgésicos.”

“Já vou pegar.” – Se aproximou da cama e lhe entregou um beijo. “E depois vamos trocar os curativos.”

Alguns minutos depois Anna estava sentada ao seu lado, trocando os curativos de suas costas, já havia retirado todas as gazes e começava a limpar, quando ouviu a campainha tocando.

“Ah não… não podem ser os enviados do meu avô…” Jennifer resmungava, ouviram novamente a campainha tocando, agora com vigor.

“Melhor eu atender.”

Anna saiu em disparada para o andar de baixo.

“Becca?” Falou surpresa ao abrir a porta.

“Jenny está aqui?” Falou já entrando pela sala.

“Sim, está.”

“Ela sumiu ontem, sempre passamos o aniversário dela juntas, ela fugiu de mim de propósito?”

“Não, claro que não. Tivemos uns… probleminhas, passamos o dia fora da cidade, só isso.”

“Ela está lá em cima?”

Anna hesitou antes de responder.

“Ãhn… Está.”

Becca se dirigiu para as escadas, Anna a segurou pelo braço.

“Espere.”

“Por que? Não posso subir?”

“É que… Aconteceu um incidente…”

Becca então percebeu os dedos ensanguentados de Anna e arregalou os olhos.

“Meu Deus você matou Jennifer!!” E saiu correndo para a escada.

Anna novamente a segurou, agora pelos dois braços.

“Eu não matei ninguém! Só espere um momento!”

“O que você fez com ela?? Por que eu não posso subir?”

“Eu não vou impedi-la de subir, tenho certeza que ela vai gostar de te ver, mas me escute primeiro… aconteceram algumas coisas, ela se machucou, eu estava trocando os curativos quando você chegou, então talvez a visão não seja das melhores, mas não faça alarde ok? Ela vai ficar bem.”

E Becca saiu correndo escada acima.

“Becca? Estava querendo mesmo falar com você.” Jennifer falou tentando se virar na cama.

“Santo Cristo Jennifer! Onde você esteve? Num açougue?? No massacre da serra elétrica??” Becca circulava a cama, arregalada.

“Não se impressione, estou bem. Olha só, sobre aquele dia com Jim, no aniversário de Anna, tentei falar com você todos esses dias, desculpe, sei que pareceu outra coisa, mas…”

“Jenny, sério, cale a boca.”

“Mas que coisa, dá para vocês pararem de mandar eu calar a boca?” Desistiu de se inclinar para cima, afundando a cabeça no travesseiro.

Becca sentou-se na beirada da cama, ao seu lado, deu mais uma boa olhada em suas costas e passou a afagar seus cabelos, pondo para trás da orelha.

“Não está chateada comigo?” Jennifer desafundou o rosto, a olhando de lado.

“Claro que não. Mas quem fez isso com você baby? Que absurdo foi esse?”

“Uma esquizofrênica aí… mas não é tão ruim quanto parece, ela escolheu uma região delicada, só isso.”

“E você nada? Onde você estava? Não tentou impedir?” Becca perguntou olhando para Anna, que estava de pé ao lado da cama.

“Eu tentei, mas não pude fazer nada.” – Respondia incomodada com si própria. “Jennifer posso continuar?”

“Claro, cubra logo isso.”

Anna sentou-se do outro lado da cama e continuou com os curativos, enquanto Becca acompanhava.

“Quem fez isso?”

“Deixa pra lá, sério, eu vou ficar novinha em folha. Então, quando vamos beber para comemorar meu aniversário?”

“Você não pode beber.” Anna murmurou.

“Você permite que façam isso com ela e agora quer dizer o que ela pode ou não pode fazer?” Becca falava com energia.

“Hey relaxa.” – Jennifer tocou no braço de Becca. “No final de semana nós vamos ao pub e faremos um brinde com algo sem álcool ok?”

“É por causa dos remédios.” Anna olhava meio assustada, então voltou aos curativos.

“É que… do que adianta você namorar com uma híbrida, que supostamente é alguém que pode te defender desse tipo de coisa, que é mais forte que você, se quando você precisa ela não te ajuda?” Becca falava com irritação.

“Nós caímos numa armadilha, Anna não tem culpa de nada, e se eu estivesse sozinha não estaria aqui agora para te contar a história…au!” Jennifer interrompeu o que falava e deu um gemido.

“Desculpe, esse é o mais profundo.” – Anna respondeu. “Mas foi o último. Pode virar de lado se quiser.” Falou a cobrindo até os ombros com uma coberta leve.

Jennifer virou-se de lado, puxando a coberta até o pescoço.

“Sobre aquele lance, esqueça, Jim já me explicou tudo.” Becca disse.

“Então porque você não abriu a porta da sua casa para mim todos esses dias?”

“Eu estava viajando com Jim, ele me levou para conhecer a mãe dele na Escócia.”

“Sério? Que massa! Gostou da Escócia e aqueles caras usando saia?”

“Becca? Você pode tomar conta dela enquanto vou ao Centro comprar algumas coisas?” Anna interrompeu.

Algumas horas depois Anna retornou e Becca despediu-se de sua amiga em seu leito.

“Está tudo bem?” Jennifer a questionava, deitada de lado, com uma expressão leve.

“Sim, está na hora de alguns remédios.” Anna andava pelo quarto.

“Desculpe por Becca, pelas coisas que ela falou.”

Anna sentou-se ao seu lado, com um copo d’água e alguns comprimidos.

“Ela não falou nada demais. Tome.”

“Mas vamos comemorar meu aniversário, não vamos?”

“Claro, quando você estiver melhor vamos comemorar adequadamente, vamos sair, fazer algo.”

“Só não vamos naquele café nunca mais.”

“Por que, não gostou de lá?”

“Não gostei da garçonete.”

“E aquele seu discurso de ‘não sou ciumenta’?”

“Conhece aquele discurso ‘se aquela vadia chegar perto da minha namorada de novo eu parto a cara dela’? É meu novo discurso.”

“Nossa…”

“Ela estava praticamente comendo você com os olhos! E você, toda sonsa do meu lado.” Falou dando um soco de leve na perna de Anna.

“Hey!”

“Se fazendo de morta… ‘só conheço de vista’.” Imitou a voz de Anna.

“Eu achei que havia terminado.”

“Terminado o que mulher?”

“Nós, achei que eu estava solteira, só por isso fiquei com ela naquela época.”

“Aff.”

“E você estava falando sobre eu namorar híbridas, Titans…”

“Eu estava ardendo em febre, não conta.”

“Que pena, já estava considerando as possibilidades.” Anna deu um sorrisinho.

“Você tem algum antiácido aí? Essa conversa está me dando azia.”

“Então vamos mudar de assunto.” Anna tirou um embrulho de trás de suas costas.

“O que é?”

“Abra.”

Jennifer abriu avidamente e tirou uma câmera fotográfica semi profissional de dentro da caixa.

“Igual a de meu pai!” Falou com um sorriso imenso, feliz.

“Como você havia mencionado uma vez.”

“Caramba, que memória você tem!”

“Acertei o modelo?”

“Sim! É exatamente igual a câmera dele, e que eu usava, até quebrar.” Mexia na câmera, de uma lado para outro.

“Está prontinha para usar.”

Jennifer a encarou com um sorriso carinhoso, e a puxou pelo braço, para um beijo.

Preparou a câmera e tirou uma foto dela.

“Esqueci de avisar, não gosto de fotografias.”

“Que pena.” Jennifer sorriu com sarcasmo. E tirou outra foto.

Olhou no visor da câmera.

“Menina, e não é que você é fotogênica?”

Anna sorriu e balançou a cabeça.

“Me faz um favor?” Jennifer pediu.

“Sim.”

“Me arranja uma camisa ou algo do tipo?”

“Para?”

“Quero ir na sacada.”

“Para?”

“Tirar fotos do mar.”

Anna apenas a olhou.

“Você acha mesmo que vou passar o dia nessa cama?”

Ela sabia que não adiantaria argumentar com Jennifer, foi buscar uma grande camiseta, e a ajudou a vestir.

“Consegue andar?”

“Claro. Mas segure a câmera.”

Anna a ajudou a levantar da cama, e prontamente Jennifer despencou de frente no chão.

“Jennifer!”

“Ok, vamos tentar de novo.” Jennifer era ajudada por Anna a se erguer do chão, e se apoiando nela chegou até a sacada.

“Obrigada baby.”

“Se machucou?”

“Mais?” – Riu. “Veja só, esse oceano meio verde meio azul esperando para ser fotografado pelo queijo suíço aqui, eu não poderia perder isso.” Falou já com a câmera a postos.

Anna apenas a observava, de lado. Jennifer parecia ótima, ela estava impressionada com sua recuperação, estava aliviada com isso, mas algo a incomodava lá no fundo, lá dentro de si algo dizia que as coisas não estavam nada bem, sentia um misto de culpa e temor, mas não entendia direito o que acontecia.

A noite Jennifer havia acabado de adormecer e Anna a observava da sacada, recostada no parapeito, com um semblante apático. O bip do celular chamou sua atenção, leu a mensagem de Max e ficou alguns instantes pensativa, olhando a tela do aparelho.

“Missão para você na terça e na sexta da semana que vem, posso confirmar?”

Titubeou com o celular na mão, com os dedos nas teclas, relanceou os olhos para Jennifer, e digitou a resposta.

“Estou fora. Para sempre.”

 

 

        Capítulo 38 – Preocupação

 

Na tarde seguinte Anna perambulava por sua oficina, havia passado pouco mais de duas horas organizando o local, agora procurava por algo para se ocupar, olhava algumas adagas inacabadas sobre a bancada mas não sentia a menor vontade em tocá-las.

Desistiu de sua oficina, resolveu subir para ver Jennifer, subiu as escadas e não a encontrou na cama. Seguiu até o banheiro, colocou ambas as mãos nos batentes da porta, olhando para seu interior, mas também não a viu. Empurrou para o lado a porta de vidro da sacada, e nada de Jennifer por ali. Instantaneamente teve uma sensação ruim subindo em seu peito, desceu rapidamente as escadas e a procurou na cozinha, mesmo tendo passado por ali quando saiu da oficina, poderia ter a ignorado sem querer. Mas ela não estava lá também. Olhou quarto por quarto, cômodo por cômodo, afoita, batendo portas. Voltou à oficina, mas nem sinal dela pela casa, nenhum ruído, nada quebrado, nada alterado que percebesse.

Parou no meio da sua grande sala, com a respiração rápida, forte, olhando ao redor, não fazia ideia de onde mais a procurar, nem por onde começar a procurar fora dali. O dia estava abafado, ela suava e sua regata branca já tinha marcas de suor na região acima dos seios e nas costas. Aquilo que começara como sensação ruim virara um terror sufocante agora.

Pensou no óbvio, que talvez Vivian tivesse forjado sua morte, ou alguém ligado à ela tivesse tramado alguma represália, resolveu ir até a casa dela. Praticamente correu até a oficina e abriu a porta de deslizar para tirar sua moto. Quando fazia isso percebeu algo que lhe chamou a atenção, parou de empurrar a porta e passou a observar algo no mar.

Então reconheceu aquele ponto quase loiro caminhando dentro do mar. Era Jennifer. Andou até a beirada do paredão de pedras e passou a observá-la com a testa franzida, apreensiva. Jennifer andava mar a dentro, já com a água na altura da cintura, com uma camiseta branca, e continuava. Anna pensou em chamá-la, mas estava paralisada, apenas esperando, tentando entender que raios ela estava fazendo.

Quando a água passou a cobrir suas costas, Jennifer abriu os braços, e continuou andando, até a água chegar em seus ombros. Então parou por ali, ficou um tempo ainda com os braços esticados, e depois começou a nadar, bater os braços de um lado para outro, algumas tentativas de boiar, nadar de costas, como uma criança se divertido num dia quente de praia.

Em certo momento Jennifer ficou de frente para a praia e viu Anna, de pé a observando, e gesticulou animadamente para ela, com a mão. Anna riu e balançou a cabeça, com as mãos na cintura.

Anna foi até o banheiro do andar de baixo e buscou uma toalha, e ficou a aguardando. Alguns minutos depois Jennifer finalmente resolveu sair da água, caminhava de volta para casa com um sorriso satisfeito e nem um pouco culpado. Anna a encarou e a agasalhou com a toalha branca.

“Por que você fez isso?” Anna a perguntou, num tom brando.

“Porque estava com calor.”

“Você não faz ideia do susto que me deu.”

Jennifer se aproximou lhe dando um beijo.

“Desculpe, eu deveria ter avisado. Mas tenho certeza que você me proibiria.”

“Proibiria.” – Suspirou assumindo. “Vamos subir.”

“Você não está zangada, está?”

“Eu nunca vou ficar zangada com você.” Anna respondeu já subindo as escadas acompanhando Jennifer.

“Que bom.” Sorriu.

“Você está andando bem hoje.” Anna constatou.

“Eu sou um X-Men aquático, fui buscar minha fonte de energia no fundo do mar.”

Jennifer entrou no banheiro e pediu por roupas limpas.

“Consegue tomar banho sozinha?”

“Consigo qualquer coisa agora baby.”

Logo já estava deitada na cama sendo paramentada com curativos por Anna.

“Esses dois das pernas estão um pouco infeccionados.” Anna disse enquanto os limpava.

“A água do mar vai consertar isso. Esses dois aqui de cima estão bem, olhe esse.” Falou apontando para um corte entre os seios.

“Esse não foi tão profundo.”

“Eu nem sabia que tinha uma coisa chamada timo…” Resmungou, mexendo no corte.

“Não mexa, vai soltar os pontos. Me deixe cuidar desses de cima agora.”

“Vivian era psicopata, não era? Ou era só sádica? Por que ela não fez nada com você?”

“Você quer mesmo saber?” Anna levantou os olhos, a encarando.

“Saber o quê?”

“No dia do meu noivado com Robert ela tentou me beijar.”

“Ah fala sério!” Jennifer exclamou.

Anna apenas confirmou com a cabeça.

“Quem diria… Vivian era apaixonada por você então.”

“Não sei… Mas ela tentou algo naquela época.”

“Bom, uma a menos…”

“Ok, terminei os da frente, pode ficar de bruços.”

Alguns curativos depois Jennifer reclamava.

“Esses das costas são os mais chatos.”

“É eu sei…”

Anna ficou em silêncio, aqueles cortes nas costas ainda sangravam, terminou os curativos e trouxe um camisão azul claro de botões para Jennifer, que o vestiu e deitou-se de lado. Anna deitou-se ao se lado, a encarando, a fitou por uns instantes, mexia em seus cabelos molhados.

“Eu vou encontrar o melhor cirurgião plástico do planeta, não importa o quanto ele cobrar, e ele vai fazer o melhor serviço possível nas suas costas, eu prometo.”

Jennifer lhe deu um sorriso de lado.

“Já estou me acostumando com elas, nem consigo ver direito na verdade.”

“Mas eu vou cuidar disso. E dessa que você tem aí do lado também.”

“Não, essa eu estou pensando em outra coisa.”

“O quê?”

“Acho que vou fazer uma tatuagem por cima.”

“Mesmo? Dizem que dói.”

“Sério?” Jennifer falou com ironia.

Anna continuava a olhando, com o olhar perdido, com um turbilhão de pensamentos passando em sua mente.

“No que está pensando?” Jennifer percebeu seu olhar angustiado.

“Coisas.”

“Me fale…”

Anna hesitou.

“Em como quase perdi você… e como achei que talvez tivesse perdido hoje novamente… e… posso perder amanhã.”

“Mas isso não vai acontecer.” – Jennifer colocou a mão em seu rosto. “E se acontecer, vai ser por obra do destino, e não por culpa sua.”

“Pode acontecer, e por incrível que pareça só agora estou me dando conta.”

Anna desviou o olhar, e continuou falando:

“Eu só tinha a mim antes, era apenas eu, e se algo acontecesse comigo pouco importaria, eu não tinha nada perder. Se alguém quisesse me fazer mal, ela colocaria uma arma entre meus olhos ou uma faca em meu pescoço e resolveria. Agora se alguém quiser me fazer mal ela vai colocar uma arma apontada para sua cabeça, na minha frente, e apertar o gatilho.”

Jennifer a fitava com as sobrancelhas apertadas, ela não imaginava que aquilo tudo estava trancafiado dentro de Anna, estava surpresa com o desabafo.

“É uma visão míope das coisas.” Jennifer ponderou. “Você está focando num problema isolado que tivemos, como se fosse o padrão.”

“Jennifer, agora eu sou vulnerável.”

“Bom, então em outras palavras, você está dizendo eu sou o seu ponto fraco.”

“Não, eu não disse isso.”

“É… disse… se for levar por esse lado você também é meu ponto fraco, estamos quites, podemos mudar de assunto?”

Anna se virou incomodada para cima, com uma mão embaixo da cabeça.

“Talvez Vivian tenha razão, quando disse que eu só trago o mal para quem cruza o meu caminho.”

“Você se deu conta que está dando razão para uma louca que achou engraçado quando perfurou meu pulmão?”

“Eu causei a morte de Robert, do marido de Vivian, causei isso tudo em você. E por fim para nos salvar precisei matar Vivian e mais uma porção de híbridos, pessoas da minha espécie. Entende o rastro de destruição que deixei? Que eu deixo…”

“Ação e reação, você não causou nada disso por vontade própria, nem por sua iniciativa.” Jennifer a fitava, virada de lado.

“Isso não vai parar…”

Mas Jennifer iria parar com aquilo. Virou-se e subiu em Anna, a encarando.

“Sobre Robert… eu entendo o que aconteceu, quando te perdi eu também quase morri. É difícil perder você.”

Anna subiu sua mão e deslizou em seu rosto, a fitando.

“Ahmm…” Jennifer resmungou.

“O que aconteceu com sua boca?”

Jennifer pegou o dedo indicador de Anna e colocou dentro de sua boca, no lugar onde deveria haver um dente.

“Você perdeu um dente?” Anna a olhou assustada.

“Não que esteja fazendo falta… mas ainda dói.”

“Ok, dentista, acrescente na lista de lugares que preciso te levar…”

Jennifer se inclinou e a beijou, depois de um beijo carinhoso desceu os lábios para seu pescoço.

“Eu estou suada…” Anna murmurou.

Mas Jennifer ignorou, e continuou por ali, e então falou em seu ouvido.

“Você quer se livrar do seu calcanhar de Aquiles? Só tem um jeito, e você sabe qual é.” Ela se ergueu e a fitou, esperando a resposta.

Anna hesitou, agora passava delicadamente os dedos na bochecha ainda um pouco inchada.

“Se eu perder meu calcanhar de Aquiles eu caio. Eu não posso viver sem ele.” Por fim respondeu, e a trouxe para seus lábios.

 

Jennifer seguia para o banheiro, e falou da porta. Era sábado de manhã.

“Vou para casa hoje.”

Anna, que acabava de entrar no quarto, foi pega de surpresa.

“Por que?”

“Já estou bem, você fez um excelente trabalho doutora Anna.”

“Você pode ficar aqui o tempo que quiser.” Anna falou já próxima de Jennifer.

“Obrigada pela hospitalidade, mas é hora de partir…”

Anna parecia desapontada, passando seus dedos pelo ombro dela.

“Tem certeza?”

“Não se encheu de mim?”

“Não gosto da ideia de você sozinha, lá no seu apartamento.”

“Anna… eu passei esse tempo todo lá sozinha e nunca nada me aconteceu, então não tem motivo para isso agora.”

Jennifer a cada dia percebia que algumas coisas haviam mudado para Anna, e começava a se preocupar com isso.

Anna balançou a cabeça, concordando.

“Vou tomar banho, me arranja roupas? Minhas, de preferência.” Jennifer falou já entrando no banheiro.

Um minuto depois Anna adentrou o banheiro e deixou algumas peças de roupas em cima da tampa do vaso.

“Estão aqui em cima.”

“Em cima onde?” Jennifer abriu o box.

“Aqui.”

Era só uma desculpa, Jennifer puxou Anna pelo pulso para dentro do box.

“Eu estou vestida!” Anna falou já debaixo do chuveiro.

Jennifer ignorou a manifestação e a beijou, trazendo-a para junto de si pela cintura.

“Eu posso te machucar.” Anna tentava falar.

“Se você falar mais alguma coisa eu juro, eu te expulso do seu próprio banheiro.” Jennifer a fitou séria.

Anna respondeu apenas tirando sua camisa, que já estava molhada. Jennifer sorriu com malícia e a ajudou a tirar o sutiã.

Aquele era o presente de aniversário que Jennifer aguardava, apenas aquilo, a chance de ter um pouco da sua droga preferida, ter Anna. E a beijou sem pressa mas com desejo, como se combinando na medida certa as duas coisas, os últimos dias haviam sido pesados, arrastados, e agora ela queria apenas senti-la, sem limitações ou ressalvas.

Aquele beijo prolongado e intenso provocava cada vez mais uma sensação entorpecente nela, Jennifer desceu sua mão de forma suave, como se brincando com o corpo de Anna, o conhecendo, novamente. Espalmou sua mão abaixo da coxa dela e ergueu sua perna, fazendo com que ela apoiasse seu pé na borda da banheira. Anna a obedecia, não queria correr o risco de ser expulsa dali, muito menos agora, em que já estava com a respiração forte.

Jennifer provocou um gemido nela, quando enfim a encontrou, duplamente molhada, e fez aquilo que fazia de melhor com suas mãos. Anna a abraçou, envolvendo seus braços ao redor do seu pescoço, tendo cuidado com suas costas, que Jennifer sequer lembrava daquilo tudo.

Ela percebeu que Anna estava cada vez mais entregue, a sentiu fraquejando curvando de leve os joelhos.

“Segure em mim…” Jennifer sussurrou.

E deslizando seus dedos para dentro de uma Anna quase entregue, não demorou para finalizar, trazendo em seguida seu rosto e a beijando, um beijo quase estático. Era assim que Jennifer queria vê-la – ou tê-la – nua de preocupações, nua de culpa, Anna em seu estado mais básico e instintivo, por quem se apaixonara.

Ela queria aproveitar daquele momento, e assim ficaram por algum tempo, trocando beijos e correndo suas mãos pelos caminhos alheios, até Anna interromper desprendendo calmamente seus lábios de Jennifer, lhe lançando um olhar que avisava o que vinha a seguir, ou pelo menos tentava avisar.

Anna foi descendo seus beijos, descendo seus lábios do ombro para seu peito, devagar, chegando até o abdome, Jennifer se desequilibrou e se recostou na parede atrás de si, Anna subiu rapidamente.

“Machucou?”

“Shhhh.” – Jennifer colocou o dedo em seus lábios. “Continue.”

Anna ainda lançou um olhar hesitante, mas voltou a percorrer o caminho que maliciosamente descia. Agora que Jennifer sabia suas pretensões, ergueu uma perna e apoiou na banheira, Anna chegou até o final daquele caminho e passou sua mão por trás dela, a segurando com a mão espalmada.

Jennifer fechou seus olhos, colocou sua mão nos cabelos molhados de Anna, não havia mais cicatrizes, nem ameaças, nem mundo ao seu redor, tudo desaparecera com toda aquela sensação intensa que a levaram aos sobressaltos finais, e enfim à um aguardado momento de prazer pleno.

Anna logo surgiu, a beijando como se estivessem apenas começando aquilo tudo, ela também estava permitindo que alguns demônios escoassem juntamente com a água que caia do chuveiro.

O beijo findou, e Jennifer segurou seu rosto, lançando o mais tenro dos olhares.

“Eu quero você, eu quero você como nunca desejei nada em minha vida… eu quero você comigo, eu quero você em mim, e ao alcance das minhas mãos…”

Foi a vez de Anna colocar seu dedo selando os lábios de Jennifer.

“Eu te amo.” Anna falou, com certo receio.

Jennifer retribuiu com um sorriso bobo.

“Que coincidência, é exatamente isto que eu estava tentando te falar.” Ela respondeu.

 

Próximo ao meio-dia Anna havia terminado de juntar e arrumar todos os remédios e aparatos que Jennifer levaria para sua casa, que aguardava na sacada, tirando fotos. Anna largou a bolsa na cama e foi até ela.

“O céu foi arado.” Jennifer falou apontando para o horizonte, onde as nuvens pareciam frisadas.

“Um belo dia para fotos artísticas.” Anna falou se recostando também no parapeito da sacada.

“Todo dia é um bom dia para alguma coisa, mesmo os dias nublados são perfeitos para alguns tipos de fotos.”

“Isso acontece quando se gosta do que faz.”

“Eu sei. E sabe que hoje é um bom dia para outra coisa?”

“O que?”

“Retratos. Fique aí, olhe para frente.” Falou já apontando a câmera para Anna.

“Não… o trato era eu te dar a câmera e você não tirar fotos minhas.”

“Quem fez esse trato? Eu não estava lá.”

Jennifer baixou a câmera e a beijou.

Ainda com os lábios próximos, Anna mordia seu lábio inferior, como se preparando-se para falar algo.

“Jennifer…”

“Fale minha modelo tímida.”

“Eu quero que você seja minha mulher.”

Aquilo a pegou de surpresa.

“Mas eu já sou. Bom, pelo menos acho que sou a titular, não sou?” Jennifer brincou.

“Eu quero que você more aqui.”

Jennifer desfez o sorriso, e a encarou com as sobrancelhas baixadas.

“Mas eu tenho minha casa.”

“Você não precisa se desfazer dela.”

Jennifer a encarou e colocou as duas mãos em seus ombros, tinha um semblante de certa forma pesaroso.

“Anna, eu não abro mão de ter a minha casa, o meu canto, minha bagunça… Eu não posso morar aqui, eu sinto muito.”

“Ok, eu entendo…” Anna balançou a cabeça, aceitando.

“Já nos frequentamos tanto, moramos próximas, não precisamos morar juntas.”

Jennifer estava ficando arrasada com o jeito que Anna assimilava aquilo, passou seus braços ao redor do seu pescoço.

“Não significa que isso nunca vá acontecer, quem sabe um dia eu te peça em casamento.” Jennifer falou sorrindo.

“Ah, você é dessas que só vai morar junto quando casar?” Anna resolveu entrar no clima.

“Claro, e por isso estou me guardando para o casamento, sabe aqueles programas cristãos, ‘eu escolhi esperar’? Faço parte.”

“Será que é tarde para entrar nesse programa?”

“Bom, aquilo que fizemos hoje no banheiro conta.”

Anna a olhou por um instante.

“Você já foi para a cama com algum homem?” Anna a indagou, curiosa.

“Não, minha religião não permite esse tipo de coisa.”

“Nunca?” Anna a olhou surpresa.

“Você está me olhando de forma estranha.” Jennifer falou cobrindo os olhos de Anna.

Anna sorriu, se desvencilhando de suas mãos.

“Não estou não, só… achei bonitinho.”

“Lá vem você me sacaneando…”

“Não estou sacaneando, às vezes eu esqueço nossa diferença de idade, diferença real de idade.”

“Não acho que isso tenha a ver com idade.” Jennifer contestou.

“Opção sexual.”

“Não existe opção sexual, só a falta dela. É agora que você diz ‘mas como sabe que não gosta se nunca provou’?”

“Não, eu nunca falaria uma besteira dessas, principalmente para você, não consigo te imaginar com esse tipo de dúvida existencial.”

Jennifer se inclinou e a beijou novamente.

“Vou pra casa, ok?”

“Quer que eu te leve?”

“Não, vou dirigindo meu brinquedinho novo.”

“Nos vemos a noite?”

“Hoje?”

“É sábado.”

“Hum… vamos ao pub então, vamos comemorar um pouco.”

“Tem certeza? Tem condições para isso?”

“Baby, no dia que eu não tiver condições de ir à um pub, me coloque num asilo.”

“Ok, passo na sua casa as nove então.”

 

Passava das nove da noite naquele sábado e Jennifer cochilava no sofá com a TV ligada, trajada apenas com uma regata, calcinha e meias, havia marcado de ir ao pub com Anna mas havia adormecido. As batidas na porta a despertaram com um susto.

“Droga! Peguei no sono!” Resmungava para si mesma, enquanto ia até a porta, já se preparando para a bronca por não estar pronta.

Abriu a porta e arregalou os olhos.

“Vô William!”

Ele retribuiu o olhar assustado.

“Precisei atravessar um oceano para saber como você está!”

“Por quê?” Falou um pouco constrangida.

“Jeremiah me disse que você estava escondendo alguma coisa, que havia acontecido algo. E se você não falou para eles duvido que falaria para mim por telefone.”

“Estou bem vô, não aconteceu nada.”

“Ahan, vejo que sim, a começar por esses cortes em suas pernas e no seu rosto.”

“Ah, isso… são… foram cortes, quando me depilei.”

“Claro.” – Falou com deboche. “Venha cá, me dê um abraço.”

Jennifer abraçou seu avô sem pressa, com carinho, desprendeu-se e o convidou para entrar, quando já fechava a porta viu seu primo Adam subindo com uma mala pesada.

“Opa, espere por mim!” Pediu Adam.

Logo atrás de Adam foi possível ver Hugh também carregando uma mala e sorrindo.

“Oi prima!” Caroline suava e arrastava uma mala enorme vermelha.

“Só um minuto, vou vestir algo.” Jennifer falou assustada e saiu correndo para seu quarto.

“Eu estou sonhando ou toda a família Stuart está na minha sala?” Falava para si incrédula enquanto vestia uma calça.

Voltou para a sala, onde já se acomodavam, tentava bolar alguma outra boa desculpa para os ferimentos mas nada vinha à mente.

“Gostou da surpresa, prima?” Hugh, recostado na janela, perguntou.

“Digamos que ainda estou em choque, mas estou começando a achar divertido ver todos vocês aqui no meu muquifo.”

“Não ficaremos todos aqui, irei ficar no hotel, e na verdade convidei todos para ficarem por lá também, mas Hugh e Caroline preferiram ficar aqui, tudo bem se eles ficarem no seu apartamento?” William falou, ele estava de pé próximo ao sofá.

“Claro… podem ficar, como viram não posso oferecer o conforto que vocês tem na Escócia, mas são todos mais que bem-vindos aqui.”

“Esse sofá está ótimo para mim.” Hugh falou, sentado no sofá ao qual se referia.

“Eu durmo em qualquer lugar, não se preocupe comigo.” Caroline falou.

“Ãhn… acho que teremos que dividir meu quarto.” Jennifer respondeu, e ouviu batidas na porta.

“Desculpe o atraso…” Anna falou e lhe deu um beijo.

Jennifer não continuou com o beijo, e sorriu um pouco sem jeito, abrindo mais a porta.

“Temos visitas.”

E Anna pode ver os quatro visitantes, todos as fitando, inclusive um Adam boquiaberto.

“Boa noite, minha cara.” William se aproximou e a cumprimentou.

“Boa noite Sr. Stuart, fez boa viagem?” Anna ainda estava surpresa.

“A viagem é longa demais para ser boa, mas eu precisava ver se você estava cumprindo com o que me prometeu.”

“Estou me esforçando.” Falou encabulada, e cumprimentou o restante da casa.

Uma hora de conversa depois, Willian se despedia para o hotel, juntamente de Adam.

“Hoje estou completamente destruído da viagem, mas gostaria que você fosse ao meu hotel amanhã de manhã, vá tomar café comigo, vamos conversar um pouco.” Se dirigia à Jennifer.

Não demorou muito para que Anna também fosse embora, e Jennifer aprontasse os lugares para seus dois primos dormirem. Caroline dormiria com ela.

 

No dia seguinte Jennifer acordou mais cedo para ir ao hotel, conforme prometido ao seu avô, se vestia silenciosamente em seu quarto para não acordar sua prima.

“Jesus Cristo!” Caroline exclamou, dando um bom susto em Jennifer, que virou-se para ela assustada.

“O que foi??”

“Suas costas!”

“Shhhhh!” Jennifer vestiu rapidamente a camisa e foi até a cama, se aproximando dela.

“O que aconteceu? Não estava assim no baile na Escócia, eu lembro, você estava com um vestido que deixava as costas à vista.”

“É recente.”

“Bem recente pelo visto.”

“Segunda-feira.”

“No dia do seu aniversário?”

“É, uma infeliz coincidência.”

“Mas que raios aconteceu?”

“Foi um… acidente de carro, mas estou bem.” Falou já sentada na cama.

“Que acidente estranho foi esse? Esses cortes no seu rosto, também foi do acidente?

“Sim, estilhaços de vidro, sabe como é. Mas não comente nada com vô Willian, sobre minhas costas, ok?”

“Ele não pode saber do acidente?”

“Ele viu os cortes na minha perna, vou ter que contar do acidente, mas se ele ver minhas costas vai ficar preocupado, não quero preocupá-lo… já está tudo bem.”

“Você deveria ter contado para ele, a semana inteira ficamos ouvindo ele falar que havia acontecido alguma coisa com você, mas não sabia o que era, por que você acha que está aqui? Estava imaginando todos os tipos de coisas ruins.”

“Vou conversar com ele agora.” Jennifer respondeu cabisbaixa.

“Ele se importa pra valer com você, talvez você devesse atender seu pedido de ir morar conosco na Escócia.”

“Eu sei que ele se importa Carol, eu vou ser mais responsável com ele. Tenho que ir agora ok?”

 

Jennifer foi até a casa de Anna naquela tarde de domingo, havia conseguido uma folga dos seus parentes. Subiu para o quarto e encontrou Anna na sacada, se aproximou e a envolveu por trás, pousando seus lábios em seu pescoço e a puxando gentilmente com suas mãos para perto de si.

“Minha.” Falou.

“Sua.” Anna respondeu no mesmo tom.

“Finalmente consegui fugir.”

“Colocou todos para dormir?”

“Foram passear, deixei os três no shopping, e meu avô está no hotel.”

“Vai leva-los ao pub a noite?”

“Não, tenho que arrumar minhas coisas, na verdade vim me despedir de você.”

Anna se virou, ficando de frente para ela, sem entender.

“Despedir?”

“Tive uma longa conversa com meu avô hoje de manhã, e bota longa nisso…”

“Para onde você vai?”

“Vamos amanhã cedo para Nova Iorque, a cúpula Vulpi fica lá, vamos conhecer algumas pessoas, meu vô tem reuniões durante a semana, algumas eu irei participar. E de lá, na semana que vem, partimos para Montreal, vamos passar uma semana visitando minha avó.”

“E depois?”

“Depois? Depois eu volto ué.”

“Você vai passar duas semanas sozinha?”

Jennifer riu.

“Sozinha? Eu estarei com meu vô e meus primos o tempo inteiro, sozinha é a última coisa que ficarei.”

Anna parecia incomodada, olhando para os lados.

“São apenas duas semanas, eu vou te ligar todos os dias, prometo.” Jennifer apaziguava.

“Você estará sem segurança alguma, e se algo acontecer eu não estarei por perto…”

“Anna, não vai acontecer nada, é uma viagem em família, pare com esses grilos.”

“Por que seu avô não fica pela cidade?”

“Escute, sinceramente eu não quero passar as duas horinhas que tenho para ficar com você tendo esse tipo de conversa, sério.”

Anna a fitou, dando um suspiro lento.

“Ok, vem aqui.” E a abraçou, a encaixando em seu peito, mas mantinha um olhar preocupado.

 

A semana em Nova Iorque transcorrera movimentada porém pacífica, Jennifer conhecera vários figurões e dirigentes Vulpis, além do complexo arquitetônico onde funcionavam vários escritórios, ela não fazia ideia que havia tamanha organização e política dentro da sua espécie.

 

“Vó! Olha quanta gente eu trouxe para te visitar!” Jennifer saudava sua vó, adentrando a sala da sua casa em Montreal.

“Willian, como é bom te rever!” Meredith o cumprimentou, emocionada.

“Finalmente consegui reunir as famílias! Espero não estar atrapalhando.”

“É a melhor visita que eu poderia receber, minha neta e vocês. Ethan, ligue para seu irmão, diga para virem até aqui.”

 

Era sábado à noite e a casa estava cheia, e em festa; ambas as famílias estavam reunidas e Jennifer estava tendo alguns bons momentos de tranquilidade e diversão com seus familiares, era como uma recompensa pelos dias dolorosos que tivera duas semanas atrás.

Se afastou um momento do restante do pessoal e foi até o quarto de visitas ligar para Anna.

“Meu vô está ensinando vó Meredith a assar um leitão à moda escocesa e é claro que tirei várias fotos, preciso te mostrar.” Jennifer falava animada.

“Agora fiquei morrendo de inveja, jantei um mero sanduíche.”

“Se sobrar levo um pedaço para você, ou se quiser mando pelos correios.”

“Obrigada pela consideração. Como foi a viagem até Montreal?”

“Não foi tão cansativa porque Hugh dirigiu a maior parte do tempo, até tirei um cochilo, entre um telefonema e outro que Caroline dava para suas amigas.”

“Suas outras primas também estão aí?”

“Estão sim, a família inteira está reunida aqui hoje. E você, não vai sair?”

“Não pretendo.”

“Vá ao pub do Oscar com o pessoal, não fique trancafiada em casa comendo sanduíches em pleno sábado à noite. Até deixo você ir no pub do Joel se quiser, desde que se comportando.”

“Hoje não.”

“E como tem se saído nas missões sem minha imprescindível presença?”

“Não tenho ido.”

“Nenhuma?”

“É… estou dando um tempo.”

Jennifer deu um suspiro incomodado, passando a mão pelo rosto.

“Você adora as missões.”

“Vamos deixar esse assunto para depois, pode ser?” Anna se esquivou.

“Claro. Ah, meu vô sugeriu um jantar na sua casa no sábado que vem, nós chegamos de viagem à tarde, que acha?”

“Eu adoraria receber vocês na minha casa, mas nunca dei nenhum jantar desse tipo.”

“Não precisa ser nada muito elaborado, se quiser depois te passo o contato de uma pessoa que pode cuidar disso para você, para você ter o mínimo de trabalho.”

“Sim, por favor.”

“Estão me chamando aqui.”

“Ok, vá se divertir um pouco.”

“Anna?”

“Diga.”

“Você está bem?”

“Como sempre.”

“As respostas prontas são exclusividade minha.”

“Eu estou bem, não se preocupe comigo, é verdade. Aproveite essa oportunidade de estar com toda sua família, e tome cuidado por aí.”

“Sinto sua falta…” Jennifer disse.

“Essa cidade não é a mesma sem você.”

“Sei… fica bem.”

Jennifer desligou o aparelho desfazendo o sorriso, mas continuou alguns segundos ainda sentada na cama, pensativa. Cada dia que passava, a cada contato com Anna, ela percebia que as coisas não estavam bem, aquela coisa errada que nem mesmo Anna entendia que havia dentro dela, preocupava de fato Jennifer.

 

Na quarta-feira Jennifer acordou mais cedo e resolveu ir ao hotel onde seus primos estavam para chama-los para um piquenique no parque, o simbólico parque de sua infância. Andava pelo corredor do hotel com uma bolsa cheia de sanduíches e outros alimentos, a porta do quarto deles estava entreaberta e ela foi logo entrando, não os viu assim que entrou, mas logo percebeu que Hugh e Caroline conversavam na sacada.

Largou a bolsa em cima da cama e se aproximava da sacada quando ouviu o teor da conversa e paralisou, eles não haviam notado sua presença, ela apenas continuou ouvindo a conversa.

“Eu não concordo com a decisão dele, nem entendo.” Caroline falava, parecia contrariada com algo.

“Ele deve ter seus motivos para não querer que Jennifer saiba.” Hugh respondeu, sério.

“Não é justo com ela, ela também é neta.”

“Talvez seja alguma forma de proteção.”

“Proteção do que?”

“Para o futuro.”

“Eu já disse, eu não entendo, mas irei respeitar a decisão do vô, eu nunca contarei nada para ela.” Caroline falava enfática.

“Eu também não vou falar, nem Adam.”

“O que vocês não irão me contar?” Jennifer abriu a porta da sacada e perguntou, com a testa franzida.

Os dois jovens foram pegos de surpresa, e pálidos, não sabiam o que falar.

“Do que você está falando?” Hugh tentava desconversar.

“Eu ouvi a conversa de vocês. O que nosso vô não quer que eu saiba?”

Eles se entreolharam, hesitantes.

“Você ouviu errado, falávamos que ele não quer você morando nos Estados Unidos.”

“Caroline, eu ouvi a conversa, você escutou isso? Parem de me enrolar, eu quero saber o que estão escondendo de mim, eu tenho direito de saber.”

“Ela tem direito.” Caroline cutucava Hugh.

Hugh a fitou mais um instante, antes de falar.

“Você tem que prometer manter isso em segredo, se nosso vô não queria que você soubesse, ele deve ter seus motivos.”

“Se você não falar eu arremesso vocês lá embaixo, são apenas três andares, vocês não morrerão, mas a queda é feia.”

“Vô Willian está doente, está com câncer.” Ele finalmente falou.

 

 

        Capítulo 39 – Precisamos conversar

 

Foi como se o chão de repente sumisse sob seus pés. Jennifer levou alguns segundos assimilando aquelas palavras impactantes, seu avô estava doente.

“Mas ele pode buscar um tratamento, e ficar bom, não pode?” Ela perguntou ainda em choque.

“Ele não nos contou muita coisa, não quis entrar em detalhes…” Hugh falava cabisbaixo.

“Mas?”

“Mas ele disse que descobriu tarde demais.”

“Ele não pode simplesmente desistir assim, temos que falar com ele, temos que convencê-lo a procurar outros tratamentos.” Jennifer estava em negação, afoita, contrastando com a desolação calma de seus primos.

“Já falamos tudo isso para ele, Jenny…” Hugh falou.

“Várias vezes.” Caroline completou.

“Pelo visto não há o que fazer mesmo, ele não desistiu sem lutar.”

“E eu não saberia nunca…” Jennifer se apoiava com as mãos na porta da sacada.

“Ele estava te poupando.”

“Preciso falar com ele.”

“Não, você prometeu.”

“Eu digo que ouvi uma conversa de vocês, que não sabem que eu sei.”

“Não sei se é uma boa ideia…”

“Ele é meu avô também, eu quero fazer parte disso.”

 

Na noite daquele mesmo dia Jennifer foi até o hotel onde seu avô estava, após ficar de rodeios inicialmente, ela finalmente entrou no assunto, e ouviu exatamente o que seus primos já haviam falado.

“Eu poderia passar o tempo que me resta me submetendo a todo tipo de tratamento agressivo, mas isso me daria apenas um suspiro a mais no final, nada além disso. Eu escolhi simplesmente tocar o barco, da melhor forma possível.” Willian se explicava serenamente.

“Por que o senhor não iria me contar?”

Ele se aproximou de Jennifer que estava sentada na beirada da cama, e enxugou seu rosto.

“Você já tem um bom peso nos ombros, queria te poupar deste. Além do mais, seus primos ainda tem seus pais os reconfortando, você não os tem mais.”

Jennifer desviou o olhar e tentou enxugar os olhos. Willian continuou.

“Se seu pai estivesse aqui ele estaria falando as mesmas coisas que você, tenho certeza.” Willian sorriu, sentava ao seu lado.

“Meu pai estaria andando com as mãos para trás, dizendo que levaria o senhor para consultar outros médicos, para ter segundas e terceiras opiniões.” Jennifer também sorriu ao falar, mesmo ainda chorando.

“Ou até mesmo já teria me enfiado dentro do carro à essa altura.”

Jennifer balançou a cabeça devagar, concordando.

“Ainda bem que você sabe de onde vem sua teimosia.” Ele virou-se para sua neta, e continuou falando.

“Ainda ficarei um tempo razoável por aqui, não precisa ter medo de nada. E quando eu não estiver mais por perto, ainda terá seus tios e primos, eles sabem que devem tomar conta de você… permita que eles façam parte de sua vida, e faça parte da deles, unam-se, eles sempre estarão lá por você.”

“Eu sei…”

“Posso pedir algo a você? Não deixe isso influenciar em nada na sua vida, essa informação. Quero que você faça como eu, toque o barco e ignore o que você sabe agora, sei que você ainda está assimilando isso, mas pode tentar?” Ele falou passando seu braço ao redor dela.

Jennifer balançou a cabeça, concordando.

“Mas antes de colocarmos uma pedra nesse assunto, preciso te contar algo.”

“O que?” Jennifer se virou para ele.

“Você terá Hugh ao seu lado, futuramente.”

Ela apenas apertou a testa, sem entender.

“Hugh foi treinado para ser o protetor do novo líder, que no caso seria sua tia Melanie, a mãe dele. Mas como você reapareceu, você será a líder, e Hugh será sua sombra, quando o momento pedir.”

“A revolução Vulpi.”

“Sim. Ele aprendeu artes marciais, aprendeu a manusear armas, e acima de tudo, ele será alguém em quem você poderá confiar cegamente.”

“Eu não vou conseguir sem o senhor.”

“Eu não tenho a menor dúvida que você será uma excelente líder, será alguém que todos respeitarão devido à sua coragem, ao seu instinto de sobrevivência, sua determinação. Apenas seja quem você sempre foi, eu já falei e volto a repetir, tem uma guerreira destemida aí dentro, acredite mais em você.”

Willian levantou-se, ficando a sua frente.

“Vamos jantar? Você conhece melhor esta cidade, me leve à algum lugar que você gosta.”

“O senhor gosta de cachorro-quente?” Jennifer falou sorrindo.

 

 

Hugh dirigia o carro negro de Jennifer, de volta à Bridgeport naquele final de manhã de sábado. O restante dos passageiros apenas seguia em silêncio, Jennifer no banco de trás ouvia música de forma sonolenta, com seus fones, apreciando a paisagem árida, as casas recém construídas contrastando com aquelas destruídas, plantações que agora eram apenas pastos improdutivos.

Evitava pensar sobre a doença de seu avô, conforme ele havia lhe pedido, tentava abstrair tudo que aconteceria futuramente, e estava tendo sucesso. Seus pensamentos durante aquele percurso estavam numa certa mansão cinza à beira da praia, e em sua habitante, Anna.

Praticamente duas semanas haviam se passado desde aquela despedida não muito tranquila, onde ela percebeu a preocupação exacerbada dela com sua segurança. Mas não era nisso que ela estava pensando agora, estava apenas com saudades, ansiando por um abraço, um beijo, duas semanas longe dela haviam sido o suficiente para se dar conta da falta absurda que sentira de Anna ao seu lado. Agora com a cabeça recostada na janela do carro, apenas vislumbrava como seria o jantar em sua casa naquela noite, e em como encontraria um jeito de ficarem a sós por um instante, para que ela matasse um pouquinho aquela vontade de estar com ela, sentir a proximidade de seus corpos, seu cheiro, passar seus braços ao redor de seu pescoço, como adorava fazer.

Agora ouvia Norah Jones, e uma canção a fez dar um sorriso torto, quase bobo.

            Come away with me and we’ll kiss (Venha comigo e nós iremos nos beijar)

            On a mountain top (No topo de uma montanha)

            Come away with me and I’ll (Venha comigo e eu)

            Never stop loving you (Nunca deixarei de amar você)

 

“E então, todos prontos?” Jennifer falou para seus primos, já em seu apartamento.

“O jantar não é as oito?”

“Sim, mas não tem problema chegarmos um pouco mais cedo.” Era sete da noite.

“Eu sei o motivo da sua pressa…” Hugh deu um sorriso para Jennifer.

Todos foram no carro de Jennifer até a casa de Anna, Jennifer olhou para o mar assim que saiu do automóvel, olhou um pouco confusa naquela direção, mas acabou entrando na casa, juntamente de seu avô.

“Boa noite minha cara Anna.” Willian a saudou. Anna foi pega de surpresa ainda arrumando algumas coisa na mesa.

“Desculpem por ainda não estar tudo pronto, mas já estou finalizando.” Anna se explicou, um pouco constrangida por ainda estar aprontando o jantar.

“Relaxa Anna, chegamos mais cedo do que o combinado.” Hugh falou.

“Acho que Jenny está faminta, nos apressou para vir para cá antes da hora.” Adam falou, ingenuamente.

Jennifer apenas a lançou um sorriso, correspondido assim que Anna o encontrou. Ela não iria fazer nada comprometedor na frente de sua família, mas resolveu quebrar o protocolo indo até sua namorada, e lhe dando um abraço.

“Você está linda…” Jennifer sussurrou em seu ouvido, ainda com seus braços atrelados à ela, lhe arrancando um sorriso tímido.

“É bom te ter de volta.” Anna respondeu assim que se separaram.

Depois de um pouco de conversa naquela sala enorme, tiveram seu jantar. Apesar da visível preocupação de Anna, tudo correu perfeitamente bem.

Todos já abandonavam a mesa, quando Jennifer viu Anna indo até a cozinha, e a seguiu. Chegando lá praticamente pulou em seu colo, transpassando suas pernas e braços ao seu redor, a pegando de surpresa; sem perder tempo a beijou, matando um pouquinho da saudade.

Com um sorriso aberto, ainda dependurada em sua namorada, a fitou.

“Sentiu minha falta?”

“Cada minuto.”

“Viu como correu tudo bem? Não tinha motivo para aquela preocupação.”

“Não aprontou nada então?”

“Nada que eu possa te contar.” Jennifer sorriu com malícia.

Anna balançou a cabeça entrando na brincadeira, e a beijou, em seguida Jennifer desceu dela.

“Anna o que é aquilo no mar?” Jennifer perguntou intrigada.

“Um píer, ainda não está finalizado.”

Apenas a fitou, boquiaberta.

“Um píer? Você está construindo um píer? Mas você não tem barco, e não gosta de pescar.”

“Depois conversamos sobre isso, ok?”

“Ok marinheira.”

“Temos que voltar para a sala.”

 

“Em Nova Iorque foi legal e cansativo, algumas reuniões meio chatas, um pessoal burocrático demais, escritórios e salas de reuniões demais… mas a cidade está muito mais reerguida que a nossa.” Jennifer dava suas impressões sobre a cidade, com todos já acomodados nos sofás, conversando.

“Está sim, já reconstruíram boa parte dos prédios.” Anna concordou.

“Ficamos hospedados num prédio gigante, achei que era um tipo de hotel mas depois soube que pertencia às raposas.”

“Eu acordava todas as noites com os pesadelos dela, uma noite ela deve ter acordado o andar inteiro com os gritos. Você precisa tomar uns calmantes para dormir prima, eu já te falei isso.” Caroline falou.

“E você é exagerada, só tenho o sono agitado.” Jennifer rebateu.

“Você me bateu duas vezes enquanto dormíamos, na sua casa.”

“Então, foi o que falei, sono agitado.”

“Eu escutei um grito numa noite em Nova Iorque, então foi você Jenny?” Adam falou.

“Gente, pesadelos, todo mundo tem, parem de pegar no meu pé.”

Um pouco mais de conversa e já começaram a se despedir.

“Hugh, você deixa vô Willian e Adam no hotel? E você e Caroline conseguem sobreviver a uma noite sozinhos em meu apartamento?” Jennifer falou, já quando se despediam de Anna.

“Sim, mas por que?”

“Vou ficar por aqui essa noite.” Deu um quase sorriso.

“Claro, não se preocupe conosco, sobreviveremos esta noite.”

“Hugh, nada de encher meu carro com garotas, ok?” Jennifer se despedia deles da porta, o carro já com o motor ligado.

Ele apenas levantou o polegar, sorrindo.

“Enfim sós?” Fechou a porta e virou-se para trás, onde Anna estava.

“Finalmente…” Ela se aproximou e deu um beijo sem pressa.

“Eu deveria ter te levado na bagagem.” Jennifer falou ao se separar.

“É bom passar um tempo com a família. Chegaram hoje à tarde?”

“Sim, e estou morta.”

“Anda, sobe comigo.”

Já no quarto, Anna seguia para o banheiro.

“Quer tomar um banho? Tem um monte de roupas suas aqui.”

“Agora não.” Deu duas passadas maiores e puxou Anna para um beijo com desejo, que terminou na cama.

Depois de um pouco de ação e um banho tomado, Jennifer finalmente descansou na grande cama, alguns minutos depois Anna surgiu, também depois de um banho.

“Não suma mais…” Anna sussurrou enquanto beijava o pescoço de Jennifer, que estava deitada para o lado de fora, já quase adormecida.

“Tentarei.” Ela tinha todos aqueles problemas familiares na cabeça, inclusive a possibilidade de ir morar na Escócia, mas achou que não era hora de falar sobre isso, até porque sentir aqueles lábios por ali, e o calor de sua namorada, compensavam qualquer coisa naquele momento.

“Acho que correu tudo bem no jantar, não?” Anna perguntou, ainda atrás de Jennifer.

“Perfeitamente bem.”

“Inclusive o pulo em mim, ninguém viu.”

Jennifer sacudiu a cabeça, sorrindo.

“A saudade falou mais alto, acontece…”

“E as conversas foram tranquilas, achei que seu avô ia me dar algum sermão, mas ele estava bem humorado.”

“Estava… por falar em conversas, agora você já pode me contar o motivo de estar construindo um píer.”

Anna ficou em silêncio por um instante, e se afastou um pouco das costas de Jennifer.

“É seu novo cantinho da reflexão.”

“Novo?” Jennifer virou-se com a testa franzida, fitando Anna.

Anna já estava sentada recostada em alguns travesseiros.

“O porto não é um lugar bom para você frequentar.”

“Mas eu trabalho lá.”

“Não quero que você volte a frequentar o porto.”

Jennifer também sentou-se na cama, seu estado de espírito se resumia em surpresa e incredulidade.

“Eu continuarei a frequentar o porto porque trabalho lá, eu não vou ao porto apenas por causa de um píer torto.”

“Você não precisa desse trabalho, tem a mesada do seu avô, eu posso te ajudar financeiramente também. E agora você terá um píer aqui, na minha casa, para visitar a hora que quiser, em segurança.”

Jennifer respirou fundo, e respirou fundo de novo, talvez precisasse repetir isso algumas vezes antes de falar algo.

“Anna eu não vou me aposentar aos vinte e três anos.” Falou contendo a irritação.

“Não precisa se aposentar, faça outra coisa, volte aos estudos, ache alguma atividade.”

“Percebe que você está tomando decisões por mim, sem me consultar?”

“Não, estou apenas tentando facilitar as coisas.”

“Ok, eu realmente entendo a benevolência por trás das suas atitudes, e estou me achando um monstro por estar aqui reclamando disso, sendo que você está fazendo todas essas coisas pensando no meu bem estar, mas você está ultrapassando alguns limites, entende?”

“Eu não faria nada para cercear você, estou apenas preocupada com sua segurança.”

Jennifer inclinou-se para frente, esfregando a mão pela testa, procurava uma forma de lidar com aquela recém adquirida paranoia de Anna de uma forma que não a magoasse.

“Eu entendo sua preocupação… depois daquelas coisas surreais que Vivian aprontou… talvez eu também surtasse em outras épocas, há alguns anos atrás talvez eu cogitasse a ideia de ir morar numa ilha remota no Pacífico, por medo generalizado da crueldade humana, mas sejamos sensatas, quais as chances de outra maluca como ela aparecer para me sacanear gratuitamente?”

“Eu só estou fazendo o que está ao meu alcance para que nada parecido volte a te acontecer, eu sei que se não tomar providências você não tomará, continuará achando que todo mundo é bonzinho, que nada pode te fazer mal.”

“Eu sobrevivi esse tempo todo, não sobrevivi? Com ou sem você, eu consigo me manter viva, eu tenho um mínimo de instinto de sobrevivência.”

“Isso não basta, nos dias atuais ter um mínimo de instinto de sobrevivência pode não bastar, pode te custar a vida com uma distração.” Anna já respondia com certa irritação.

“E você pretende resolver isso parando nossas vidas? Limitando os lugares onde posso frequentar? E você, Max me ligou, ele disse que você largou de vez as missões, está preocupado, pediu que conversasse contigo. Congelar nossas vidas vai nos manter a salvo?”

“Você não entende a gravidade das coisas… mesmo depois de tudo que aconteceu, você continua inconsequente, e teimosa, achando que é invencível, estou tentando me afastar das coisas que nos colocam em perigo, e te afastar de algumas coisas também. E continuarei fazendo isso.” Anna falou enfática.

“Não sem minha permissão.”

“Apenas deixe as coisas comigo.”

“Não, você não está enxergando o quão exagerada tem se comportado ultimamente, e… eu não sei como fazer você enxergar, você está prejudicando sua vida, prejudicando nós… por favor, pense nisso.” Jennifer gesticulava.

“Sou eu quem te pede, pense melhor nas coisas inconsequentes que tem feito, eu tenho pensado por nós duas.”

“Olha, por hoje chega ok? Estou exausta, e isso não vai a lugar algum. Boa noite.”

Jennifer deitou-se de forma afoita, novamente deitada de lado virada para a parede. Anna ficou alguns segundos ainda a observando, e então deitou-se virada para o outro lado, contrariada com a conversa.

Talvez aquela tenha sido a primeira noite em que dormiram de costas uma para outra, e isso passou pela cabeça de Jennifer antes dela adormecer.

 

“Ela está construindo um píer, em frente à sua casa.”

“Um píer?” Becca falou com a testa enrugada.

Era domingo à noite, Jennifer assistia TV no apartamento de sua amiga.

“É, um pequeno píer, no mar.”

“Para quê? Ela vai comprar um barco?”

“Não, ela não vai comprar barco algum, ela não gosta de barcos.” Jennifer largou sua caneca de café no braço do sofá.

“E pra que esse píer?”

“Para que eu não precise mais ir ao porto, ela não quer que eu vá lá, então ela está construindo esse píer para quando eu tiver vontade de ir no cantinho da reflexão. É tipo o cantinho da reflexão da casa dela, porque lá é mais seguro.”

“Então ela não quer que você trabalhe mais no porto também?”

“Exatamente, não pise mais lá, não trabalhe, não vá ao cantinho da reflexão…”

Becca a fitou incrédula.

“Hey, o que você está fazendo?”

Becca estava puxando o cós da calça de Jennifer, tentando olhar dentro.

“Estou vendo se Anna também colocou fraldas em você.”

“Isso é sério, eu estou preocupada com essas coisas, ela já não estava muito bem com tudo aquilo que me aconteceu, estava se sentindo culpada, e com essas duas semanas que passei fora tudo piorou.”

“Ela passou duas semanas pensando besteiras, arquitetando teorias conspiratórias…”

“É, eu não tinha ideia que a deixando sozinha esse tempo ela continuasse com a paranoia, piorasse na verdade. Anna não está legal, só fala em minha segurança, parou de trabalhar, não faz mais as missões noturnas, não fabrica mais adagas.”

“E está vivendo do quê?”

“Ela tem grana, não precisa trabalhar.”

“Sério? Ela parece tão mão de vaca.”

“Esses que sabem ficar ricos. Olha pra nós duas, torramos nossa grana com futilidades e cerveja, por isso estamos milionárias, não é?”

Becca fitou a TV, pensativa.

“Isso não vai dar certo… as duas parando de trabalhar, parando de fazer suas coisas…”

“Parando de viver, você quer dizer, não é?”

“Jenny ela está completamente dependente de você, de você e sua segurança, ela criou essa espécie de obsessão, e só vai piorar.”

Jennifer olhava incomodada para Becca, ela tinha razão.

“Eu não sei o que fazer… e eu tenho dois primos lá na minha sala me esperando, um avô com uma doença terminal, uma família inteira querendo que eu vá morar na Escócia, e uma namorada adorável mas com a cabeça ferrada.”

“Não vá para a Escócia.”

“Eu não vou. Pelo menos não pretendo ir num futuro próximo, ah sei lá… não faço ideia do que vai acontecer.”

Becca deu um longo gole em seu copo, e sentenciou.

“A solução mais simples que enxergo é você terminar com Anna. Não que você tenha que fazer isso, mas resolveria.”

“Resolveria, de fato. Agora diga isso para meu coração completamente louco por ela. Só de ouvir você falando isso já tive um mini infarto.”

“Então você vai ter que ter pulso firme, não ceda às maluquices que ela inventar, aos limites que ela impor. Converse, converse o máximo que você puder.”

“Céus…” Jennifer passou as mãos pelo rosto.

“Quando eles voltam para a Escócia?”

“Terça.”

“Tire quarta-feira para ter uma boa conversa com Anna, tente a convencer a voltar ao trabalho, assim ela ocupa a mente, é um bom começo.”

“É… você tem razão… farei isto.”

 

“Mês que vem, prometo que estarei na Escócia no aniversário de Caroline, no meio de julho.” Jennifer falava para seu avô, já no aeroporto, era terça-feira.

“Você sabe… nós estaremos a disposição para qualquer coisa, qualquer mesmo, somos sua família, nunca esqueça disso.” Ele respondia segurando as mãos de uma Jennifer já emocionada.

“Prometo ligar várias vezes por semana, e não esconderei nada, não deixarei mais vocês preocupados, darei boletins periódicos.”

“Se alguém mexer com você, se precisar de ajuda, você sabe, são apenas doze horas de voo, eu venho te ajudar no mesmo instante.” Hugh falava ao seu lado.

“Tipo um irmão mais velho, só que mais novo?”

“Exatamente.”

“Ficarei bem, não se preocupem, Anna é uma boa guarda-costas.”

 

 

“Desculpe não ter ido ao aeroporto me despedir.” Anna falava andando por sua sala, naquela quarta-feira à noite.

“Sem problemas, você se despediu na segunda, no almoço.” Jennifer estava sentada em frente à lareira apagada, esperando seu copo.

“Você disse que tinha algo para me contar sobre seu avô?” Anna também se sentava no sofá ao seu lado, após entregar um copo, ficando com outro.

“Você precisa de uma TV aqui.”

“Não gosto de TVs.”

“Mas você precisa de uma TV aqui na sala, definitivamente. Sim, uma coisa que fiquei sabendo quando estava em Montreal.”

“O que?”

“Vô Willian tem pouco tempo de vida, tem uma doença na fase final.”

Anna baixou a cabeça, pensativa.

“Eu sinto muito…” Então falou, largando seu copo.

“Ele pediu que ninguém fizesse drama com isso, que não pensássemos nisso. Mas fica meio difícil com aquela bendita revolução tão iminente.”

“Até lá muita coisa pode acontecer, e talvez essa revolução nunca saia do papel.”

“Enfim… rolou uma pressão para que eu fosse para a Escócia. Mas eu não quero ir, meu lugar é aqui.”

“Realmente é uma situação delicada.”

“E você está deixando ainda mais delicada, mesmo que você ache que está tudo ótimo entre nós, não está.”

“Por que? Porque quero te proteger, como todo mundo que ama faz?”

Era complicado para Jennifer ter esse embate com Anna, porque no fundo era apenas preocupação, mesmo que quase paranoica. Jennifer virou-se na direção de Anna, no outro sofá.

“Meu amor, você sabe que é muito mais que isso, você está indo além.” Jennifer falou calmamente.

“Não acho. Mas então me diga, o que você quer que eu faça.” Já era visível certa apreensão por parte de Anna.

“Para começar, que volte para suas missões, você adora isso, e o trabalho na forja, você sempre me disse que eram as coisas que você mais gostava de fazer. Você mentiu?”

“Não, mas no momento eu enxergo de outra forma.”

“Que forma? Você sempre fez isso e está aí viva para contar cada história.”

“Antes eu não tinha você.”

“E então voltamos à mesma história que eu sou o elo fraco nesta corrente, seu ponto fraco.”

“Não, pelo contrário, eu sou o ponto fraco na sua vida.”

“Ah Anna, isso é um absurdo sem tamanho… você coloca um ninja oriental no chinelo, é a pessoa mais forte que já conheci, e não falo apenas de força física, você é uma guerreira Jedi, eu sou apenas seu contrapeso sarcástico e desastrado.”

Anna deu um sorriso nervoso, de negação.

“Você não enxerga… seu avô já enxerga, logo outras pessoas também enxergarão. E logo também não conseguirei mais te acompanhar.”

“Que besteira é essa que você está falando?”

“Como não percebi isso antes? O quanto subestimei você, é sempre você que nos salva. Você foi torturada e mesmo assim nos salvou das mãos de Vivian. Você nos livrou daquele cara grudento de camisa azul na Inglaterra. Você nos salvou daqueles irmãos vikings na Escócia. Você me salvou quando aquele louco do Alejandro me sequestrou. Você que é a verdadeira guerreira aqui!”

“Foi trabalho em equipe, ok, tirando o Alejandro que você estava dopada, o restante foi trabalho em equipe, eu e você juntas, nos ajudando, nós formamos uma boa dupla, só isso.”

“Veja seu futuro, você tem uma revolução nas mãos! Você nasceu para algo maior, não tem espaço na sua vida para alguém como eu.”

“Mas é exatamente você que eu quero do meu lado! Quero você hoje e quero você no meu futuro, sem você eu sou apenas uma pirralha bebedora de cerveja.”

“Eu serei sempre esse peso morto que você vai arrastar na sua vida? Um peso morto que te coloca em perigo?”

“Não, para, não vou continuar essa conversa se você insistir em tomar esse rumo.”

Anna apenas balançou a cabeça incomodada, coçou os olhos.

“Olhe, você não está legal, e eu estou com o coração apertado te vendo desse jeito…” Jennifer retomou, num tom mais calmo.

“Nunca estive mais lúcida do que agora.” Anna respondeu, também num tom mais brando, mas ainda insistia em suas ponderações.

Jennifer a fitou, com uma dor incômoda no peito, percebia que conversas não adiantariam, e aquilo a deixou desolada.

Saiu do seu sofá, e sentou-se ao lado de Anna. A beijou no rosto, depois passou seus braços ao redor do seu pescoço, Anna não falou mais nada, apenas correspondeu ao abraço.

Jennifer suspirou devagar, e passou a mão por seus cabelos, enquanto internamente se desesperava ainda mais com aquela situação que parecia irremediável, mas mantinha-se pacífica, apenas a sentindo, e a envolvendo. Ela precisaria pensar em algo mais radical.

“Vem, vamos para o quarto, lá pelo menos tem TV.” Jennifer falou no seu ouvido, sorrindo.

 

Deitada de forma despojada no sofá maior de sua sala, Jennifer tentava se concentrar no livro que mal iniciara naquela tarde de sábado, mas sua mente insistia em correr para longe dali, estava prestes a tomar uma decisão difícil e uma sensação de insegurança lhe incomodava dentro do peito, a inquietando.

O celular tocou no sofá ao lado e prontamente atendeu.

“Te acordei?” Anna perguntava com uma voz tranquila do outro lado.

“Não. Estava lendo um pouco.”

“Aquele livro que eu te dei?”

“Não, outro.”

Anna esperou que falasse o nome do livro, mas ela parou por ali mesmo.

“Então, onde quer ir hoje à noite?”

“Na verdade… não quero sair.”

“Por causa do dia chuvoso, não é? Você está ficando gripada, falei para não pegar chuva ontem. Quer que eu vá aí então?”

“Acho que prefiro ir aí. E não estou ficando gripada.”

“Te busco?”

“Não, vou com meu carro. Anna… eu preciso conversar com você.”

A ligação ficou muda por alguns longos segundos.

“Ok. Aconteceu algo?”

Esta era a típica pergunta retórica, que se faz quando você acaba de ouvir da sua namorada um ‘precisamos conversar’.

“Só quero conversar uma coisa com você.”

E vem seguida de uma sensação de perda de chão e náuseas.

“Certo, vou te esperar aqui então.” Quase completou com um ‘venha agora’, mas conseguiu segurar a ansiedade.

Algumas horas depois Jennifer já chegava com sua costumeira freada brusca em frente à casa de Anna, correu do carro até a casa, para fugir da chuva.

Entrou no quarto dela ainda mexendo no cabelo, que havia tomado alguns respingos, encontrou Anna de pé na sacada, com ambas as mãos espalmadas sobre o parapeito, virou-se quando a viu entrar, e sorriu, tentando esconder uma certa aflição.

Jennifer foi até ela, lhe correspondeu ao sorriso e a beijou rapidamente.

“Você fez bem em não querer sair, da última vez que fomos no pub do Oscar com chuva eu vi uma goteira bem em cima do bar.” Anna iniciou a conversa.

“Os drinks provavelmente estavam saindo mais diluídos naquela noite então…” Sorriram.

Jennifer sentou na cadeira que ficava recostada na parede lateral da sacada, Anna continuou de pé no parapeito, um pouco de lado. Ambas estavam visivelmente apreensivas, Jennifer resolveu ir logo ao assunto.

“Anna… essa semana eu tive que lidar com alguns sentimentos bem conflitantes, sabe, algumas coisas aqui dentro que estão me incomodando. Coisas não resolvidas que vieram me assombrar, e eu sinceramente não sabia como lidar com isso, nem consegui dividir com você.”

Anna era o retrato fiel de um semblante tenso e um coração disparado, prestando atenção àquelas palavras.

“Eu passei os últimos dias pensando tanto nisso… e resolvi que quero colocar um ponto final nessa história. Acho que vai ser uma coisa boa para mim, vai me fazer bem, e acho que vai ser bom para você também, pelo menos espero que sim.”

Provavelmente Anna não estava mais respirando, mas ainda não havia se dado conta.

“Você…” Anna limpou a garganta. “Você está dizendo…”

“Eu quero contratar seus serviços.”

Anna enrugou a testa, sem entender.

“Mas você sempre me teve de graça.” Tentou brincar.

Jennifer sorriu de leve e baixou a cabeça. Então voltou a fitá-la.

“Eu tenho uma missão para você.”

“Jennifer…” Anna balançou a cabeça contrariada.

“Eu fui ao porto essa semana, duas vezes, as coisas estão lentas mas estou tentando pegar o ritmo novamente. Na quarta-feira quando estava indo embora eu vi um navio com uma bandeira em particular, que me chamou a atenção. Era a bandeira da República Dominicana, e eu reconheci o navio, esse navio aporta lá uma vez por ano, e toda vez que esse navio aporta eu… eu nem consigo dormir.” Deu um sorriso nervoso rápido. “Aqueles caras, aqueles dois caras que nos… eu e Helen… você sabe, eles trabalham nesse navio.”

Anna finalmente entendeu.

“E eu quero que você acabe com eles.” Jennifer finalizou.

 

 

 

        Capítulo 40 – Depois da febre

 

“Você está me colocando numa situação difícil.”

Foi o que Jennifer ouviu em resposta ao seu pedido. Quando ela entrou naquela sacada estava preparada para algumas possíveis reações de Anna, inclusive para uma negativa. Ou pelo menos achava que estava.

“Já imaginou o quão difícil isso é para mim também? Não foram três anos fáceis, acredite.” Jennifer retrucou.

Anna estava visivelmente incomodada, sentia-se colocada contra a parede, ao mesmo tempo em que tentava entender o que aquilo significava para Jennifer.

“Eu acredito, você precisou de três anos para ter a coragem de querer isso, o problema é que eu não faço mais esse tipo de coisa.” Falava cabisbaixa, recostada na mureta da sacada, com os cotovelos apoiados no parapeito.

Jennifer inclinou-se para frente em sua cadeira, a fitando.

“Então sua resposta é não?”

Anna passou a retribuir o olhar, o seu era angustiado, enquanto o de Jennifer era desolado.

“Eu sinto muito… Não posso fazer isso, eu posso te ajudar de qualquer outra maneira, mas não desta, não posso matar esses caras.”

Jennifer sentiu um nó surgindo em sua garganta, desviou o olhar, para o mar.

“Talvez você devesse repensar essa decisão Jennifer… não remexa no passado.” Anna continuou.

Provavelmente a não muito longa paciência de Jennifer estivesse sendo testada. Ela levantou-se da cadeira, ficando à frente de Anna.

“Uma das coisas que aprendi na colônia de férias de Vivian foi a conhecer meus limites, e eu sei que essa história chegou ao meu limite. Eu não quero mais isso me atormentando, quero tentar ter uma noite em que não acorde tremendo com um pesadelo, quem sabe parar de espancar as pessoas que dormem ao meu lado, eu quero ter a certeza que eu revidei, que não vou paralisar de medo quando ver aquela bandeira de novo.”

“Mas nada disso vai trazer Helen de volta.” Anna respondeu com a voz baixa.

Jennifer a fitava duramente agora.

“Ok, eu já entendi que você não vai aceitar, mas eu vou manter minha decisão. Eu gostaria que fosse você que fizesse isso, porque eu confio em você, e eu não tenho a pretensão de tentar resolver isso sozinha com minhas próprias mãos. Eu vou encontrar alguém que faça, falarei com Max, vou pedir que me indique alguém para esse serviço, ele tem outros funcionários como você, não tem? Vou contratar alguém da confiança de Max. Mas isso será feito, ah não tenha dúvida disso, e infelizmente sem você.”

E saiu a passadas largas.

“Onde você vai?” Anna perguntou com certo pânico, tirando os cotovelos da soleira.

“Para o carro.” Respondeu sem olhar para trás.

Anna agora também a seguia.

“Você vai embora?”

“Não, vou buscar a TV.” Jennifer já descia os últimos degraus.

“Que TV?”

Jennifer parou na porta frontal da casa, já aberta.

“A TV que comprei para colocar na sua sala.” Falou ainda de costas para ela.

“Quem disse que eu quero uma TV na sala?”

Jennifer virou-se.

“E quem disse que eu quero deixar de trabalhar no porto?” Saiu na direção do carro.

Logo voltou carregando com dificuldade uma grande caixa.

“Deixe que eu te ajudo com isso.” Anna tomou de suas mãos assim que ela começou a arrastar a caixa pela sala.

“Acho que vou deixar você escolher o lugar.” Jennifer falou irônica, já abrindo a caixa.

Anna não respondeu, apenas acompanhava o trabalho dela.

“Mas acho que vou precisar de ajuda, não sei onde se encaixam essas coisas, e ler o manual vai contra meus princípios.” Jennifer falou olhando uma peça metálica em suas mãos.

“Ok, vou na oficina buscar algumas chaves.” Anna finalmente se manifestou.

“Talvez não precisemos de tudo que veio na caixa, algumas coisas podem ter sido colocadas aqui só para nos confundir.” Jennifer falava.

“Ali, à direita da lareira, tem um espaço onde um dia já teve uma TV, já tem a fiação pronta.” Anna começava a montar as peças da base da TV.

Quase uma hora depois finalmente o televisor já está devidamente fixado e funcionando, Jennifer observava do sofá Anna fazendo uns últimos ajustes.

“Não trouxe a nota fiscal para você prestar contas porque não comprei com dinheiro da mesada.”

“Acrescentarei o valor na sua mesada.”

“Não, claro que não, é presente. Ok, já está ótima, não tem mais o que mexer aí, sente-se, venha assistir comigo.”

Anna sentou-se ao seu lado no grande sofá, e ficaram por alguns instantes em silêncio. Ela deu uma olhadela de relance para Jennifer, que falou num tom intimista.

“Gostou?”

“Presente do dia dos namorados.” Anna respondeu balançando a cabeça positivamente.

“Em junho?”

“Junho é o mês dos namorados no Brasil.”

“Sério?”

“Uhum.”

“Perfeito, presente do dia dos namorados na terra natal do seu pai então.”

Jennifer também deu uma olhada em Anna, instintivamente ela queria se aproximar dela, mas ainda estava decepcionada demais para conseguir. E Anna sabia como ela estava se sentindo, por isso não tentou nada também. Era como se houvesse uma densa parede invisível entre elas.

“Vou subir para dormir, você vem?” Anna a chamou, um pouco depois.

“Vou ver mais um pouco de TV, depois eu vou.” Jennifer falou sem tirar os olhos da tela.

Anna a fitou hesitante, e então balançou a cabeça, concordando.

“Ok… boa noite.” Falou e levantou-se, subindo sem pressa as escadas.

Assim que ouviu a porta do quarto de fechando Jennifer deixou aquela sensação péssima que sentia tomar vida. Ainda olhava para a TV, mas não assistia, e não demorou muito para que algumas lágrimas surgissem, enquanto franzia a testa e enxugava os olhos.

Sentia pesos de todos os tipos e tamanhos pressionando seus ombros, via tudo ao seu redor piorar de situação, o cerco se fechando, dúvidas e decisões – as piores inimigas possíveis – caminhando juntas.

Além dos ombros ficticiamente pesando, sua cabeça agora também doía e pesava, sentia um mal estar generalizado. Deitou-se no sofá, desligou a TV, e adormeceu, propositalmente no sofá.

 

No meio da madrugada Anna acordou e não a encontrou em sua cama, desceu as escadas e viu que Jennifer dormia no sofá da sala. Se aproximou com receio, mas logo percebeu que algo não estava bem, colocou a mão em sua testa, e em seu rosto avermelhado, se agachando ao seu lado.

“Jennifer?”

“Ãhn?”

“Você está bem?”

“Não, acho que estou ficando gripada.” Respondeu abrindo os olhos com dificuldade.

“Você está com febre.”

“Que ótimo…”

“Vá para a cama, vou procurar um antitérmico.”

Jennifer levantou-se e sentou devagar, com um semblante sofrido.

“Consegue ir para a cama?” Anna insistiu.

“Parece que joguei vôlei por uma semana…” Reclamava, e tossia.

Anna a fitava de cima.

“Você tinha razão, eu não deveria ter saído para correr na chuva ontem.” Jennifer continuou.

“Eu te alertei, você acabou de sair de um monte de infecções, ainda está com a imunidade baixa, isso era meio previsível que acontecesse. Mas tudo que eu falo agora é superproteção não é?”

Jennifer inclinou a cabeça, olhando para cima, a fitando.

“Juro que não vou achar que é superproteção se você quiser me carregar para o quarto.” Jennifer falou e sorriu.

“Como um saco de batatas?”

“Não, não, por favor, do outro jeito.”

Anna por fim sorriu também, inclinou-se e a tomou em seus braços. Jennifer entrelaçou em seu pescoço e subiram as escadas.

A colocou na cama e a beijou na testa.

“Assim você também vai ficar doente.” Jennifer falou com Anna já indo na direção do banheiro.

“Minha imunidade é maior que a sua.”

“Mas híbridos também ficam gripados.” Jennifer retrucou quando Anna reapareceu com um comprimido e um copinho, sentando ao seu lado.

“Tome ambos.”

“O que é?”

“Um remédio para febre e um para tosse.”

“Você sempre foi prevenida ou é por que agora cuida de uma criança?” Jennifer falou entre fungadas, e voltou a deitar.

Anna deu um sorriso de canto.

“Digamos que de uns tempos para cá reforcei meu estoque.”

Jennifer pousou sua mão sobre a de Anna, que estava sobre a cama, e a encarou. Anna retribuiu o olhar por um instante, e fez menção de levantar, sair da cama, mas Jennifer segurou sua mão, o que a fez voltar a fitá-la, era como se ela precisasse falar algo importante. Anna aguardou. Jennifer demorou-se.

“Seu sofá é muito desconfortável para dormir.” Enfim ela falou algo, de forma séria.

Anna balançou a cabeça. Ela havia entendido a mensagem subliminar.

Jennifer soltou sua mão, e virou-se para dormir.

 

Jennifer puxou uma das cadeiras brancas da cozinha, fazendo grande barulho naquela manhã silenciosa, chamando atenção de Anna, que preparava algo no balcão da cozinha.

“Quer torradas?”

“Sim, com bastante xarope de tosse, por gentileza.” Falou após assoar o nariz num dos guardanapos de tecido de cima da mesa.

Anna colocou uma cesta com torradas próximo à ela e pegou o guardanapo usado com a ponta dos dedos, jogando no lixo.

“Tome, use isso” Anna falou lhe entregando um rolo de papel toalha.

“Vai trabalhar no píer hoje?” Jennifer puxava assunto, enquanto comia.

“Não, tenho coisas para fazer na forja.”

“Sério? Que coisas?”

“Coisas.”

“Hum. A…”

“Não espirre nas torradas!” Anna falou tirando a cesta da frente dela.

“Ok.” Jennifer acabou interrompendo o espirro, pegando outro guardanapo de tecido de cima da mesa.

“Você gripada é um terror.” Anna tirou o lenço da mão dela, voltando a entregar o rolo de papel toalha.

“E você já foi mais benevolente.” Jennifer respondeu ranzinza, tossindo.

“Quer café?”

“Tem xarope dentro?”

“Ok, você venceu, vou lá em cima buscar o xarope.”

 

“Posso levar o xarope para casa?” Jennifer questionou, após emborcar o pequeno copo.

“Você vai para casa agora?”

“Daqui a pouco, ainda vou assistir o Bob Esponja.”

“Leve. Mas quero falar com você antes de ir.” Anna inverteu o jogo.

“Tá bom.” Jennifer respondeu erguendo apenas uma sobrancelha.

 

O desenho animado já estava no final, Jennifer estava com um semblante doente assistindo compenetrada, deitada no sofá não confortável da sala agigantada. Anna se aproximou com passos brandos, cuidadosos, e sentou-se no mesmo sofá, sob os pés enfiados em meias listradas de Jennifer, que a olhou rapidamente.

Aquela informação de que Anna queria dizer algo não a intrigara como faria em outra ocasião; Jennifer agora aguardava alguma nova medida protetiva, alguma resolução que a tiraria do sério provavelmente, e era para isso que ela estava preparando seu espírito enquanto assistia seu programa favorito.

“Esse gordo rosa é o Patrick, não é?” Anna quebrou o silêncio.

“Como sabe?”

“Eu assisti dia desses, você fala tanto nesse desenho.”

Jennifer sorriu, agarrada à uma caixa de lenços descartáveis.

“Que evolução, para quem nunca ouviu falar de Pokemon.”

“Eu também vi esse rato amarelo.”

“Você ainda consegue me surpreender.” Jennifer falou irônica.

Anna olhou longamente para Jennifer, agora de forma séria, antes de voltar a falar.

“Vou precisar que você descreva aqueles dois caras.”

Jennifer desfez o restante do sorriso, e correspondeu seu olhar.

“Caras?”

“Do navio. Mas não precisa ser agora.” Anna passou a olhar a TV.

Jennifer sentou-se então, a olhando de sobrancelhas baixadas.

“Por que?”

“Para que eu possa encontra-los.”

“Você vai fazer o que eu pedi?”

“Sim. Desculpe não ter aceitado no momento em que você falou, eu sei que era comigo que você contava e deve ter sido uma grande decepção quando te falei não. Eu farei isso, se trouxer um pouco de paz de espírito para você, então é o que deve ser feito.”

Jennifer que acompanhava a observando agora olhou para baixo, assimilando.

“Mesmo indo contra seus novos princípios?”

“Ok, ignorando o tom irônico da sua pergunta, sim, eu farei.”

Jennifer a fitava segurando um sorriso, com um semblante de quem vai aprontar algo.

“O que foi?” Anna perguntou.

“Eu vou fazer algo feio agora.”

“O que?”

“Te passar gripe.” Mal terminou de falar e praticamente pulou em Anna, em seguida a derrubou no sofá, a deitando e ficando por cima dela.

“Essa é a minha garota.”

 

“Melhor?”

“Hum?” Jennifer acordava, ou semi acordava naquela metade de manhã de segunda-feira.

“Quer alguma coisa?” Anna perguntava abaixada ao lado da cama, colocando a mão em sua testa.

“Onde você vai?”

“Em Max, mas volto até o meio-dia.”

“Posso ir junto?”

“Não. Só vou lá conversar um pouco com ele. Deixei o xarope aqui do lado, termômetro, antitérmico, celular, água e o controle da TV também.”

Jennifer olhou rapidamente para o criado mudo ao lado.

“Não esqueceu nada, bom trabalho enfermeira.” Falou com sarcasmo.

“Qualquer coisa você me liga, estarei com o celular.”

“Ok.”

“Fique bem.” Deu um beijo em seus lábios e levantou-se.

“Anna?”

“Sim?” Respondeu solícita.

Jennifer sorriu antes de falar.

“Você achou que eu ia terminar com você, no sábado, não achou?”

Anna deu um pequeno sorriso também.

“Achei sim.”

“Você me mima demais, eu nunca terminaria com você.” Jennifer respondeu rindo.

Anna balançou a cabeça a também deu risada.

“Pequena…” E saiu.

 

Passavam alguns minutos das dez da manhã daquele sábado e Anna batia na porta do apartamento de Jennifer já pela terceira vez.

“Imaginei que estivesse dormindo ainda.” Anna falou ao ver a cara amassada de Jennifer ao abrir a porta, deu um cheiro em seu pescoço e um bom dia.

“Por que tão cedo num sábado? Achei que você me amasse.”

Anna foi logo para a cozinha preparar café, que trazia num pacote de casa.

“Não reclame, eu vou te fazer café.”

Jennifer atirou-se no sofá, deitando e fechando os olhos.

“Te liguei ontem à noite várias vezes, você não atendeu, sexta é a noite da amante? Precisamos definir um cronograma.” Jennifer falou resmungando.

“Estava no porto, de vigília. Te falei que estava indo todos os dias essa semana para lá estudar a movimentação deles.”

“Ah sim, esqueci que isso incluía as noites… E então, está dando certo?”

“Sim, isso que vim te contar, vai ser hoje à noite.” Anna falou e deu uma olhada de relance para Jennifer, que abriu os olhos neste momento.

“Sério? Hoje?”

“Será a ocasião ideal. A não ser que você não queira.”

“É que você me pegou de surpresa.”

Anna deixou o café na pia e sentou-se ao lado dela, que agora também sentava.

“Pode ser?”

“Manda ver.” Jennifer respondeu sem expressão.

“Preciso saber uma coisa.”

“Diga.”

“Você quer ir?”

Jennifer olhou para o chão, pensativa.

“Não.”

“Ok, eu precisava te dar essa opção, é um direito seu, e mesmo assim você apenas acompanharia a distância.”

“Entendo… mas não quero ir.”

“Na verdade eu te convidei porque sei que você daria conta deles com uma mão nas costas e facilitaria meu trabalho.” Anna deu um sorriso tímido.

Jennifer deu uma risada fungada, virou-se para ela e a puxou pela nuca, para um beijo.

“Eu sei que é mentira mas obrigada.” Jennifer falou.

“Juro! Ok, vou lá terminar de fazer o café.”

Jennifer reconquistava a fé que as coisas voltariam ao normal, pelo menos ela via indícios nas atitudes recentes de Anna, e se apegava à isso.

 

Naquele mesmo sábado, a noite já caíra há algum tempo e Anna terminava de forjar uma adaga em sua oficina, ouviu as famosas freadas bruscas em frente à sua casa, e aguardou a visita.

“Que faca diferente.” Jennifer comentou, após dar um beijo em Anna.

“É um estilo diferente das que fabrico.”

“Por que?”

“Porque pretendo deixar por lá.”

“Não entendi.”

“Depois eu explico. Cuidado com as faíscas.” Anna falou esticando o braço.

Jennifer circulava pela oficina, mexendo e cutucando nas ferramentas e objetos nas bancadas.

“Que horas você vai para o porto?”

“Mais tarde, depois da meia-noite. Eu não sabia que você vinha, já jantei, mas posso colocar a mesa para você de novo.”

“Não, não… já comi alguma coisa em casa. Ops.” Jennifer falou derrubando algo no chão.

“Cuidado.”

“Os caras, você tem certeza que são os que eu descrevi?”

“Sim, e confirmei os nomes na lista dos embarcados.”

“Sei…” Jennifer novamente derruba algo de uma prateleira.

Anna desliga sua máquina, tira seu óculos protetores e a encara.

“Diga o que você quer falar Jennifer.”

“Eu vou com você.”

“Ao porto?”

“É.”

“Tem certeza?”

“Tenho sim.”

“E o que a fez mudar de ideia?”

Jennifer caminhou devagar para perto dela.

“Acho que presenciar vai ser mais convincente para essa minha mente confusa.”

“Mas você não participará, você sabe disso, não sabe?”

“Sei sim.”

“Em todo caso irei te armar, caso fuja do meu controle.”

“Então me arme. Adoro quando você arma.” Jennifer falou passando seus braços pela cintura de Anna, que usava um avental de um grosso tecido negro, e jeans.

“Você parece tão pacífica com esse assunto.” Anna respondeu, já com seu rosto próximo ao dela, colocando o que restava do cabelo preso de Jennifer para trás da orelha.

“Estou feliz que isso vai ter um ponto final. Estou feliz que você tenha aceito.”

“Eu não posso garantir que tudo corra conforme o previsto hoje, eles não estarão sozinhos, o porto é um lugar lotado de marinheiros aportados à noite, é muito fácil que algo dê errado.”

“Encare como mais uma missão, ok?” – Deu um beijo rápido e saiu. “Continue seu trabalho, não quero te atrasar.”

 

“Branca de Neve? É hora de acordar.” Anna chamava, Jennifer adormecera no sofá da sala assistindo TV.

“Você já foi?” Jennifer sentou-se rapidamente e coçou os olhos.

“Claro que não, mas já estou pronta. Venha na oficina comigo pegar algumas armas.”

Jennifer levantou-se e viu Anna já arrumada para a missão, com seu casaco negro quase até os joelhos e gola levantada, um lenço acinzentado ao redor do pescoço, botas, e tinha uma adaga presa em cada lado da perna. Sorriu com encanto.

“O que foi?” Anna perguntou.

“Nada.”

Anna então estendeu a mão, lhe entregando algo.

“Lembra dele? Você deixou aqui uma vez.”

Era o lenço negro com caveirinhas que Jennifer usara na missão do Big Head, quando Anna fora atacada por cachorros.

“Claro que lembro, você me deu uma bronca porque não era discreto.”

“Quer usar hoje?”

“Claro.”

Anna se aproximou e prendeu a echarpe nela.

Após pegarem algumas armas na oficina partiram para o porto depois da uma da madrugada. O primeiro alvo estaria dormindo sozinho num pequeno quarto no seu navio de origem, segundo as observações que Anna fizera durante a semana.

 

“Se você continuar pisando no meu pé teremos uma noite infernal.” Anna falou se virando para Jennifer, já no porto, atrás de alguns contêineres.

“Relaxa, eu estou retomando o ritmo, tenha paciência.” Jennifer sussurrou de volta.

“É esse, não é?” Falou apontando para um grande navio cargueiro com a bandeira da República Dominicana.

Jennifer balançou devagar a cabeça em silêncio, agora com uma expressão séria.

“Ok, hora da invasão.” Anna continuou.

Minutos depois já estavam circulando pelos corredores internos do cargueiro, onde não se via movimento algum, desceram até o nível dos dormitórios, Anna sabia qual o número de cabine abordar.

“Escute, as portas não ficam trancadas, então nos posicionaremos em frente à porta cento e trinta, abrirei, entrarei, executarei o serviço. Após eu sair você terá dez segundos para decidir se quer entrar para visualizar ou não. Se entrar, não se prolongue, e sairemos exatamente por onde viemos. Claramente compreendido?” Anna sussurrou numa curva anterior ao corredor de portas, empunhando uma pistola prata com as duas mãos.

“Eu ficarei de sentinela em frente à porta, certo?”

“Isso, fique de olho no corredor. E não faça barulho.”

“Eu nunca faço barulho. Ok, eu entendi.”

“Me siga, não me ultrapasse. E deixe meus pés em paz.”

Caminhavam lentamente pelos corredores metálicos, Jennifer lutava para não ficar tão próxima de Anna e dos seus pés, olhava atentamente para os lados quando uma porta abriu em suas costas, saindo um homem moreno baixinho de dentro do quarto.

“Quién es…”

Jennifer se adiantou e tapou sua boca com a mão, segurando sua nuca com a outra mão.

“Shhh hombre!” Sussurrou para ele.

Em meio segundo Anna o agarrou por trás, aplicando uma chave de braço em seu pescoço, apagando-o e o largando desmaiado dentro do seu quarto.

Anna saiu de lá, fechando a porta.

“Quase hein.” Jennifer falou.

“Continue atenta. E não tente dialogar com os próximos, muito menos em espanhol.”

Continuaram pelo corredor, até que prostraram-se diante do quarto cento e trinta, Anna colocou a mão na fechadura, e olhou para Jennifer, como se pedindo sua autorização para entrar.

“Vai fundo.” Jennifer murmurou.

Toda a ação levou não mais que um minuto. Um estampido baixo pode ser ouvido por Jennifer, segundos depois Anna saiu, gesticulando com a cabeça para que ela entrasse, se quisesse.

Ela a fitou, e entrou. Também voltou em um minuto. Saíram correndo do navio, tinham urgência em deixar aquilo tudo para trás, Jennifer sequer olhou para trás.

Agora caminhavam lado a lado pelas ruas molhadas e sombrias do porto, onde outros transeuntes as faziam companhia como sombras. Haviam bares naquela área e era um bar em específico que buscavam. E um frequentador, com tatuagens horrorosas, era o alvo.

“Ali, Wax Bar, é ali que ele está enchendo a cara.” Anna falou, apontando para um bar decadente com uma placa de madeira pendurada.

Passava das três da madrugada, e segundo as anotações de Anna, ele sairia dali por volta das quatro.

“Esperamos ele sair?” Jennifer indagou.

“Sim, temos uma boa visão nesse beco em frente.”

“Ok.”

Ficaram ali, de pé, por longos minutos. Anna de olho no bar de vitrine larga. Jennifer com o olhar perdido nos ladrilhos cinzas.

“Você está bem?” Anna perguntou, olhando de forma tenra, porém preocupada para ela.

“Uhum.” Jennifer mantinha as mãos no bolso de seu casaco grafite.

Começou a passar seus dedos pelos cabelos de Jennifer, por cima da cabeça.

“Você está quieta, isso é tão raro.” Anna deu um leve sorriso.

“O que você fez… com a adaga e o bilhete… é um aviso para a polícia?”

“E para todos que o conheciam, para saberem quem ele realmente era. Você preferia que não tivesse feito?”

“Não, tudo bem, achei uma boa ideia. Eu cravei ainda mais a faca.”

“Faço com o outro também?”

“Fique à vontade.”

“Ok…”

Anna voltou a vigília ao bar.

“Esse… no barco, era qual?”

“O de Helen.”

Anna apenas assimilou, balançando a cabeça. Sabia que o próximo então era o de Jennifer.

“Já sabe, eu o arrasto para o beco, você vigia em frente, vou tentar ser rápida.”

“Sim…”

Passando vinte minutos das quatro um homem corpulento e com os braços cobertos de tatuagens estranhas saiu do bar, com um cigarro na boca.

“É o nosso cara.” Anna indagou.

Jennifer não respondeu, apenas saiu caminhando na direção dele com passadas rápidas e firmes, e um semblante colérico.

 

 

        Capítulo 41 – Legado

 

Metallica – “Enter Sandman” – http://www.youtube.com/watch?v=CD-E-LDc384

“Calma mocinha, deixe comigo.” Anna se apressou e a segurou pelo ombro.

Colocou ambas as mãos em seus ombros, a fitando séria.

“Você me pediu para fazer isso, então eu irei fazer, combinado?” Anna disse, com ênfase no ‘eu’.

Jennifer aceitou, balançando a cabeça.

O seguiram por três quarteirões até passarem por um beco estreito e longo, Anna o golpeou na cabeça pelo lado, acertando na têmpora com o cabo da arma, o derrubando já para dentro do local escuro. Ela o arrastou para o interior, até o final do beco, por uns trinta metros. Jennifer não seguiu as orientações e foi atrás.

“Que prostitutas agressivas!” Ele bradou, zonzo, ainda sentado no chão.

“Vá para fora vigiar.” Anna falou de forma ríspida para Jennifer.

Mas Jennifer fincou seus pés ali diante daquele grande homem com uma camisa bege aberta, rosto e pescoços largos e barba por fazer, o encarando com olhos duros de raiva.

“Tem certeza que quer ficar aqui?” Anna a interpelou.

Jennifer se inclinou e falou num sussurro próximo ao ouvido dela.

“Anna, eu quero que ele sofra antes, não seja rápida, faça o sofrer. Pode ser?”

Anna a olhou um pouco assustada, mas aceitou.

“Ok, se afaste então.”

“Eu estou sangrando!” O homem olhava para os dedos após passa-los pela lateral da cabeça.

“Fale baixo.” Anna falou.

“Vá a merda, sua vadia.” Ele falou tentando levantar-se do chão molhado.

Com um semblante de impaciência, Anna o chutou no rosto.

“Você não vai a lugar algum.”

“Hey! Quem vocês pensam que são? Batman e Robin versão piranhas? Eu tenho mais o que fazer!” E tentou levantar-se mais uma vez.

E novamente levou um chute certeiro na mandíbula, o derrubando por completo.

“Agora a porra ficou séria!” Ele levantou-se rapidamente do chão, e foi para cima de Anna, Jennifer afastou-se, acompanhava tudo atentamente, com os olhos arregalados e brilhantes.

Seu soco passou no ar, Anna inclinou-se para trás se defendendo. Ela aproveitou a deixa para lhe apresentar seus punhos, já que ele já conhecia seus pés. Uma mão de cada vez, dois murros em sua face, o deixando cambaleante.

“Você bate bem forte para uma mulher, hein? Mas só sabe esses truques?” Ele falou com a mão cobrindo a bochecha, com desdém.

“Podemos ficar a noite inteira aqui.” Anna respondeu, deslizando a mão para dentro do bolso do casaco, discretamente.

O grande homem investiu para cima de Anna novamente, que desferiu um golpe em seu rosto com um soco inglês, arrancando vários espirros de sangue do rosto dele.

“Sua puta louca! Olha o que você fez com meu nariz!”

Anna deu uma olhada rápida para Jennifer, e sinalizou com a cabeça, pedindo autorização para finalizar. Mas Jennifer negou seu pedido, balançou a cabeça negativamente, tinha um olhar sádico. Ela queria mais.

Ele sangrava abundantemente e sua camisa já começava a mudar de cor, Anna foi em sua direção, chutando entre suas pernas, aproveitou que se curvara para chutar seu rosto, arrancando mais um pouco de sangue.

Anna se preparava para outro chute quando ele reagiu, dando um gancho por baixo, lhe atingindo no queixo. Apenas a deixou um pouco tonta, ele tentou outros golpes, todos defendidos habilmente por ela, que dava passos para trás à medida que ele investia em golpes.

Se aproximaram do local onde Jennifer observava, ele parou ofegante, limpou o sangue que escorria do nariz e dos cortes no rosto, e fitou Jennifer.

“Espera… eu estou me lembrando de você…”

O semblante de Jennifer mudou, ela parecia assustada agora.

“Claro que eu lembro de você… você e sua amiguinha. E pelo visto você gostou do papai aqui, me procurou para mais uma vez? Posso te comer agora ou sua amiga nervosa vai querer dar primeiro?” Ele disse.

Novamente o semblante de Jennifer mudou, ela agora lançou um sorriso sarcástico.

“Desculpe ter demorado tanto tempo, é, eu trouxe uma amiguinha hoje, híbrida também. Mas sinto muito, a história vai ter um final diferente, seu porco gordo asqueroso, hoje você vai comer suas próprias bolas e vai se arrepender amargamente de ter me conhecido.” Jennifer falava com raiva.

Ele foi para cima dela, mas Anna impediu, o jogando contra a parede de tijolos maciços escuros.

“Naquele dia você escapou, mas hoje você não escapa, sua putinha!” Ele bradava, tentando soltar-se das mãos de Anna.

Anna tentava segurá-lo contra a parede e armou um soco com a mão direita, apesar de ser canhota. Ele desviou-se, e ela acertou em cheio a parede, fazendo uma feição de dor.

“Merda!” Ela exclamou, sacudindo a mão.

Apesar da dor, ela conseguiu esmurra-lo com a outra mão, mas o grandalhão a empurrava e defendia-se como podia, e também acertava um ou outro golpe, uma batalha de mãos e socos estava sendo travada, enquanto Jennifer assistia próxima, preocupada.

“Hey, esse beco é nosso!” Falou uma voz surgindo na escuridão.

Aquela catarse foi interrompida com a chegada de mais três elementos inesperados ao beco. Jennifer sacou sua arma quando viu se aproximando dois homens medianos arrastando uma jovem garota de cabelos claros, cobrindo sua boca, ela esperneava e se debatia, e ninguém entendia o que acontecia ali.

Anna e o grandalhão cessaram os golpes e todo aquele digladiamento para ver o que acontecia também, os dois caras permaneceram por alguns segundos olhando de forma confusa para os três que já estavam no beco, e continuavam segurando a garota de forma violenta, que já tinha alguns ferimentos visíveis.

“Ãhn… tudo bem, nós vamos procurar outro lugar.” Um dos caras falou.

Jennifer olhou atônita para Anna, que mantinha a mão direita erguida, estava ferida, e a esquerda segurava o colarinho do seu oponente. Aquele olhar era uma convocação para que Anna fizesse algo, ou aquela garota teria o mesmo fim que Jennifer teve há três anos atrás, ou talvez o fim que Helen teve.

“Ah não vão não.” Anna respondeu.

Ela largou seu então rival e praticamente pulou nos três que visitavam o beco. O já ensanguentado grandão também entrou na luta, ele queria vingar-se de Anna, e tentava acerta-la por trás, enquanto Anna tentava acertar os dois novos caras, e libertar a garota loira.

Jennifer continuava observando, andando ao redor.

Anna acertou em cheio o rosto de um dos caras, o derrubando, mas o outro ainda segurava a garota, e ela tinha dificuldades em acertar seus golpes por causa dos murros na nuca que o grandalhão lhe desferia. Ela também levou alguns golpes no rosto e no abdome, sentiu um chute nas costelas, se arqueando para puxar ar. A situação estava ficando crítica com três homens ao seu redor num pandemônio de golpes e sangue, além de sua mão direita quase inútil.

Era hora de reagir de forma mais grave. Sacou suas duas adagas das bainhas nas laterais de cada perna, mesmo com a mão dolorida, e num golpe ágil para trás, cravou ambas no grandão que estava às suas costas, e que esmurrava sua cabeça. Tirou as lâminas da barriga dele rapidamente e sem pestanejar as girou e penetrou no abdome de um dos caras à sua frente, que soltou um ganido de dor e caiu de joelhos com as mãos sobre os ferimentos. O outro cara sacou uma pistola e estava prestes a disparar em Anna, mas ela o desarmou chutando sua mão, a pistola caiu aos pés do grandalhão duro na queda, que permanecia de pé, mesmo esfaqueado.

Ela sabia do paradeiro da arma, o Titan a juntou do chão e antes que fizesse mira, Anna girou e deu uma voadeira, arrancando a pistola das mãos dele, caindo perto de Jennifer. O outro cara aproveitou o momento de vulnerabilidade para chutar suas mãos, derrubando suas duas adagas ensanguentadas, caindo próximas de Jennifer também.

Jennifer fez menção de juntá-las, mas desistiu. Apenas as moveu mentalmente para próximo de Anna, bem como a pistola. Ela queria provar algo à Anna aquela noite.

Anna juntou a pistola e atirou no peito do grande Titan, fazendo com que ele caísse de costas, finalmente a hora dele havia chegado. Mas ele não morreu, e tentava se levantar. Ela atirou nos outros dois caras, um tiro acertou a cabeça de um deles, o fuzilando na hora. O outro, que aparentava ser um híbrido, levou um tiro no braço, e saiu correndo do beco, levando a garota com ele.

Jennifer e Anna se entreolharam. Anna guardou suas adagas nas pernas e saiu correndo também, Jennifer foi logo atrás. Anna, por ser hibrida, corria muito mais rápido que Jennifer, avistou os dois próximos à um píer, junto ao mar. Estava com a arma em punho, mas evitou fazer disparos, a garota estava sob o poder dele. Os alcançou, os derrubando, desferiu três ou quatro socos no rosto dele, que reagiu a chutando com ambas as pernas, fazendo a perder a arma. Jennifer finalmente alcançou e passou a assistir a briga, Anna conseguiu pegar a adaga da sua perna e enfiou na lateral da barriga do seu oponente no chão.

Mas ele a chutou novamente, conseguindo se desvencilhar de Anna, que deu alguns passos trôpegos para trás, ele aproveitou o momento de liberdade para atirar a garota loira no mar e fugir. Jennifer novamente moveu a pistola para perto de Anna, que juntou e disparou cinco vezes contra o incansável homem, o matando.

“Anna, a garota!” Jennifer gritou, apontando para o mar.

Anna olhou para Jennifer, estava ofegante e com alguns veios de sangue descendo pelo rosto, e olhou para o mar, viu a garota se afogando nas águas marrom esverdeadas geladas. O dia começava a nascer.

Ela correu até a beira do píer e mergulhou de cabeça, nadou até onde a jovem se debatia e transpassou seu braço por baixo de seus braços agitados, a trazendo de volta à terra firme. A deitou sobre o piso de madeira e certificou-se que estava bem.

À essa altura alguns transeuntes do porto já se aproximavam e tomavam providências com a garota.

Anna afastou-se e colocou as mãos sobre os joelhos, curvando-se, com a respiração curta e totalmente ensopada.

“Você tá bem?” Jennifer se aproximou, colocando a mão em suas costas.

Anna grunhiu alguma coisa indecifrável.

“O que?”

“Puta que o pariu.”

Jennifer riu.

“Eu nunca ouvi você falando esse palavrão.”

Anna tentou recompor seu fôlego, e então ergueu-se, como se lembrando de algo.

“Espera! Não acabou, vem comigo.” Anna falou já puxando Jennifer pela mão apressada.

Seguiram de volta para o beco, chegando lá avistaram o corpo do cara com o tiro na cabeça, e mais ao fundo o maldito estuprador, ainda com vida, tentando se arrastar.

“Viemos finalizar o serviço.” Anna falou de forma irônica, colocando sua bota sobre o peito dele.

O maldito as fitava assustado, cuspia sangue e tateava o chão. Alguns raios de sol entravam naquele final de beco.

Anna tirou de dentro do casaco e desdobrou um papel agora um pouco molhado, que tinha uma palavra grafada à mão, não estava borrado. Do outro lado do casaco tirou uma adaga fina e pontiaguda, aquela diferente das que costumava fabricar. Jennifer olhava curiosa.

“Quer fazer?” Anna ofereceu os dois objetos à Jennifer.

“Com todo prazer.”

Ela tomou o papel das mãos de Anna e a enfiou na lâmina da adaga, correndo até o fim. Se aproximou devagar do seu algoz do passado, inclinou-se sobre ele, olhou de perto o rosto largo daquele homem, os olhos negros que um dia ela havia encarado por outro ângulo. Agora ele não tinha mais deboche e devassidão em seu semblante, havia apenas medo e sangue.

“Po-por favor… me deixe viver…” Ele balbuciou.

“Por que eu deveria ser generosa com meu estuprador?”

“Porque eu deixei você viver.”

“Não, eu fugi. E naquele dia você matou uma parte de mim.”

Jennifer ergueu a adaga e cravou em seu peito, deslizando até o final da lâmina com força e raiva. Ele deu um gemido abafado, mas continuava vivo, agitando suas mãos.

Anna ergueu sua arma e efetuou um disparo no meio da sua testa, acabando com aquilo de uma vez por todas.

Jennifer ergueu-se, contemplou em silêncio e com semblante fechado por alguns minutos aquele corpo cheio de tatuagens bizarras, a camisa ensanguentada, o nariz torto e quebrado, uma feição repugnante, e um papel cravado no peito que dizia ‘Estuprador’.

 

Caminhavam em silêncio lado a lado pelo porto já com o sol fraco as fazendo companhia. Chegaram até a moto, antes de colocar o capacete Anna olhou por um momento sua mão direita, que àquela altura já estava arroxeada e inchada, Jennifer também olhava.

“Se importa de dirigir? Não vou conseguir acelerar com a mão assim.” Anna pedia.

Jennifer apenas assentiu com a cabeça, continuava silenciosamente perturbada. Anna se aproximou dela, ainda com o capacete em mãos.

“Hey, acabou. Vamos para casa.” Anna colocou a mão em seu rosto.

“Não, não acabou ainda.” Jennifer respondeu o olhar.

Jennifer colocou seu capacete e subiu na moto, Anna fez o mesmo. Ela não guiou até a casa de Anna, nem até sua casa, seu destino foi outro.

 

Moby – “The perfect life” – http://www.youtube.com/watch?v=t3ZDqe5j4q8

Estacionaram, Jennifer deixou seu capacete e começou a caminhar, Anna tirou seu capacete mas permaneceu ao lado da moto. Jennifer parou e voltou, pegando Anna pela mão, e agora caminhavam juntas, atravessando os grandes portões de ferro do cemitério municipal.

Andavam juntas pelo terreno gramado de leves subidas e descidas, repleto de lápides e algumas árvores frondosas, um caminho que Jennifer conhecia bem. Ouvia-se apenas o barulho matinal de alguns pássaros e das passadas na grama, seus dedos ainda estavam entrelaçados.

Chegaram à pequena lápide de mármore branca, onde o nome de Helen estava gravado, Jennifer sentou-se à frente, sobre a grama, Anna permaneceu de pé atrás.

Jennifer deu uma olhada para o alto, sorriu percorrendo o céu, franzindo a testa por causa do sol que batia em seus olhos. Voltou a encarar a lápide. E começou um diálogo solitário, baixinho.

“É, eu sei, eu nunca trouxe ninguém aqui antes… É a Anna. Ela fez justiça por nós essa noite; ela acabou com aqueles caras, você tinha que ter visto, parecia uma ninja cheia de braços…” Sorriu torto.

Ela olhava agora para os pedaços de grama que arrancava à sua frente.

“Talvez agora você possa ter paz, onde você estiver. E eu também, talvez eu também tenha um pouquinho de paz. Eles não ficaram impunes, e eles não podem mais ferir ninguém.”

Ela voltou a olhar o mármore envelhecido, agora com os olhos molhados.

“Isso não é uma despedida, mas talvez eu tenha deixado algumas coisas para trás hoje. O seu legado vai ficar, você deixou tantas coisas boas para mim… Você deixou seu amor, e se agora eu tenho esse amor imenso por essa pessoa molhada de pé aqui atrás de mim, é porque você me ensinou como amar.” Terminou de falar com a voz embargada, agora já chorava, passou as costas da mão no rosto.

Anna colocou sua mão sobre o ombro de Jennifer, a acariciando.

“Eu amo Anna com todo meu coração, mas também vou te amar para sempre, meu anjo.”

Um leve sorriso surgiu nas feições de Anna, que continuava com sua mão em seu ombro. Para ela o nome Helen não era mais algo incômodo, já compreendia que aquilo fazia parte de quem Jennifer era.

Jennifer levantou e virou-se, abraçando Anna, que prontamente correspondeu, afagando sua cabeça, enquanto ela chorava e a abraçava mais forte.

“Obrigada.” Foi o que Jennifer murmurou.

Anna deu um beijo demorado em sua testa.

“Vamos embora, você tá me molhando.” Jennifer falou, arrancando um sorriso de Anna.

 

One Republic  – “Counting Stars” – http://www.youtube.com/watch?v=hT_nvWreIhg

“Vem cá,” Jennifer puxou Anna para o banheiro, já na mansão, e começou a despi-la.

“Você está uma bagunça completa, vou cuidar disso.” Jennifer olhava os ferimentos de Anna.

“Mas uma bagunça que cumpriu seu dever.” Anna falava com um orgulho contido.

“Cumpriu até o que não era seu dever.” Jennifer falou, também orgulhosa.

“A mão não, deixe comigo.” Anna falou erguendo a mão direita, com dor.

“Sinto muito, mas sua mão está quebrada, você vai ter que ir engessar.”

“Eu coloco uma tala depois.”

Jennifer pegou a mão dela e olhou séria.

“Não, nada de tala, olha o estado disso? Quer virar o capitão gancho? Vamos ao hospital engessar, depois que eu limpar essa bagunça.”

“Pensarei no assunto enquanto tomo banho.”

 

“Você tem sorte que seus cortes cicatrizam mais rápido.” Jennifer comentava enquanto cuidava dos ferimentos no rosto de Anna, já depois do banho, sentada na cama. Tinha uns cortes na maçã do rosto, supercílio e lábio.

“Minha mão também.”

“Cicatriza errado mais rápido, você quer dizer. Vamos, vista qualquer coisa, eu levo você de carro ao hospital, prometo que não saio do seu lado nem por um segundo. Prometo ficar com você até mesmo na hora do raio-x, e tomo uma dose de raios prejudiciais à saúde só para ter fazer companhia.”

“Ah… como você é insistente. Tá bom.”

Jennifer sorriu e a beijou, a segurando pelas bochechas com as duas mãos.

 

Duas horas depois voltaram para casa, Anna com gesso na mão e até metade do antebraço, e com mau humor.

“Odeio isso… odeio gesso…” Ela resmungava, olhando para a mão, subindo as escadas.

Jennifer andava pela sala devagar, cansada e pensativa. Era metade da manhã e agora sozinha ela sentia como se finalmente demônios estivessem sendo extirpados.

Estava em silêncio absoluto, como se mergulhando em si própria, sentiu um baque de sensações diferentes, mas fortes, algo arrebatador dentro do seu peito. Era a raiva e o pesar querendo deixar sua alma.

Parou no meio da sala e fechou os olhos com força, sentiu uma onda a invadindo, ela sabia que tinha controle sobre aquilo, mas não entendia o que era. Abriu as mãos de forma espalmada, depois os braços, abriu os olhos e, trincando os dentes, ela viu janela por janela explodindo ao seu redor, os vidros voando em pequenos cacos, bem como os espelhos dependurados nas paredes se tornando estilhaços pelos ares. Se protegeu colocando os braços ao redor da cabeça.

Anna surgiu no topo da escada, apavorada, olhando aquela cena aterrorizante, havia cacos de vidro e espelho por toda a sala, e no centro, uma Jennifer igualmente assustada e boquiaberta.

“O que aconteceu aqui??” Anna perguntou.

Jennifer olhou para as próprias mãos, depois correu os olhos arregalados ao redor, pelos grandes janelões agora sem vidraças.

“Pode descontar da minha mesada.”

“Foi você??” Anna falou descendo as escadas.

“Aparentemente sim.”

“Como você fez isso? Se machucou?” Anna se aproximou devagar, pisando nos cacos.

“Telecinese?”

“Ok, isso já foi um pouco demais, Vulpis movem objetos, derrubam coisas, não fazem isso que você acabou de fazer.”

Jennifer voltava a olhar suas mãos, tentando entender o que tinha acontecido.

“Eu falei, eu te falei aquele dia, eu sou um Pokemon evoluído!” Jennifer falava assustada.

“Você precisa conversar com seu avô, talvez ele tenha uma explicação.”

“Caramba, eu coloquei a Carrie no chinelo hein?”

“Eu sabia que você tinha algo diferente, meu pai nos contava o que presenciava ou ouvia falar dos Vulpis, eram coisas simples, mover coisas leves de um lado para outro. Naquele dia na Escócia, você parou várias estrelas ninjas no ar ao mesmo tempo, depois as devolveu na mesma velocidade!”

“O que mais que eu consigo fazer? Será que eu sou um X-Men?” Jennifer falou esticando o braço a frente dos olhos.

“Você não é um X-Men Jennifer, você é uma Vulpi que ainda não sabe a intensidade do seu poder.”

“É, eu preciso conversar com meu vô…”

“Vá visita-lo.”

“Ele deve ter uma explicação, não é?”

“Sim, mas não precisa ir agora, se programe, viaje com calma. Isso tem alguma boa explicação.” Anna ainda olhava assustada ao redor.

“Eu posso dar um jeito nisso.” Jennifer também olhava em volta.

“Não, deixe para lá, vamos dormir, depois eu cuido disso.” Anna falou já se virando na direção das escadas.

“Dormir essa hora é tão estranho, e ainda estou agitada.”

“Saia dos meios dos cacos, tome um banho, e venha deitar comigo.” Anna estava parada no primeiro degrau da escada, apoiada no corrimão.

Jennifer olhou com a testa franzida para um vaso cerâmico próximo a porta da cozinha, apontou a mão espalmada para ele, e segundos depois o vaso explodiu.

Virou-se para Anna e lançou um sorriso aberto. Anna apenas deu um longo suspiro, caminhou até ela, pegou sua mão e subiram as escadas.

 

Carly Rae Jepsen – “Worldly Matters” – http://www.youtube.com/watch?v=57ZyKiio3bY

Na segunda-feira de manhã, Jennifer balançava as pernas sobre o mar, no novo cantinho da reflexão, em frente à casa de Anna. Inclinava-se de um lado para o outro com a câmera fotográfica, tirando retratos do mar a sua frente e dos rochedos que haviam à sua direita.

Escutou o som de botas dando passos na madeira do píer, olhou para trás e viu Anna chegando até ela, que sentou-se às suas costas, cruzando à sua frente seus braços, o direito engessado.

“Bom dia…” Anna sussurrou, depois de um longo beijo em seu pescoço.

Jennifer sorriu e soltou a câmera, dependurada em seu pescoço, colocando sua mão por cima da mão esquerda dela.

“Sabe, nunca vou me acostumar com isso.” Ela disse.

“O que?”

“Acordar na sua cama e não te encontrar.”

“É porque acordo mais cedo que você.” Anna respondia pacificamente, ainda com os lábios em seu pescoço.

“Você saiu cedo hoje, onde foi?”

“Vidraçaria e Max. Eu trouxe uma coisa para você.”

“A conta da vidraçaria?”

“Não, essa eu mandei para seu avô.”

Jennifer olhou séria para trás.

“Estou brincando. Tome.” Anna lhe entregou uma pequena caixa.

“Olha, um celular novo! Como sabia que eu precisava?” Jennifer falou com ironia.

“Se Vivian estivesse viva, eu faria ela te pagar um novo.”

“Esse é bem melhor que o anterior, obrigada.” Jennifer beijou o gesso da mão de Anna.

O céu estava parcialmente encoberto e um brisa moderada agitava os cabelos de ambas.

“Como está nosso velho amigo Max?”

“Bem.” – Anna tomou em sua mão a câmera ainda presa no pescoço de Jennifer, e olhava as fotos já tiradas no visor, uma por uma. “E tenho um compromisso para quinta à noite.”

Jennifer abria um grande sorriso, lentamente.

“Um compromisso.”

“É, um dos leves.” Anna sorria contidamente, sem tirar os olhos do visor.

“Os leves são os melhores.”

“Quando você tirou essas?” Anna mostrava a câmera para Jennifer, ela riu quando viu.

“Já faz algum tempo.”

“Eu estava dormindo, isso não é justo, eu não gosto que você tire fotos minhas quando estou acordada, quanto mais dormindo.”

“Ficaram lindas, pare de reclamar, são fotos artísticas. Você diz que gosta de me ver dormindo, é justo.”

“Tem uma diferença bem grande entre ver e tirar fotos, eu não produzo provas.” Anna disse.

Jennifer ergueu e mexeu a mão, com os dedos batendo no polegar.

“O que significa isso?” Anna perguntou confusa.

“Fale com a minha mão.”

“Sério? Como se faz?”

“Adoro ensinar essas coisas para você.” Jennifer se divertia, mexendo a mão.

“Você é um poço de cultura inútil, sabia?”

“Eu fico tão lisonjeada quando você fala essas coisas.”

Anna apenas sorriu, largou a câmera e voltou a beijar sua nuca e costas. Jennifer estava com uma blusa de tricô cinza, com a gola larga, era visível parte de suas cicatrizes próximas ao pescoço e ombros. Anna se deteve numa mais profunda, olhou incomodada, passando de leve seus dedos por cima, Jennifer percebeu.

“Elas te incomodam, não é?” Jennifer perguntou.

“Não te incomodam?”

Jennifer balançou a cabeça de forma negativa.

“Não são as marcas que me incomodam, de forma alguma.” Anna continuou.

Jennifer pegou a mão esquerda de Anna, passou seus dedos por cima da cicatriz de um corte que havia na parte de cima.

“Lembra como você conseguiu essa aqui?” Ela perguntou.

“Lembro.”

“Você se cortou no dia que terminamos, esmurrando uma porta de vidro.”

“Sim…”

“E agora estamos juntas, mais fortes.”

Anna balançou a cabeça, concordando.

“Anna, cicatrizes servem para isso, nos lembrar que agora somos mais fortes do que antes.”

Ela apenas a ouvia, com o nariz e a boca recostados no ombro de Jennifer.

“E também que não devemos abusar da sorte.” Continuou.

Anna levantou uma sobrancelha, franzindo a outra.

“Sabe, o porto não é um bom lugar para garotinhas como eu. Decidi que não vou mais trabalhar lá.”

Anna passou a correr seu polegar pela mão de Jennifer, seu único dedo de fora do gesso na mão direita.

“Acho que tenho lugares mais interessantes para frequentar, como uma escola. Consigo me manter com a mesada do meu avô; eu vou terminar o colegial, eu estava no último ano quando mandaram a escola pelos ares.”

“Isso é bom, isso é muito bom.” Anna se manifestou, contente.

“Acho que tem escolas mais rápidas, não?”

“Escolas para adultos, você pode cursar um ano em poucos meses.”

“Essas.”

“Não quer estudar com adolescentes de dezessete anos? Acho que você se daria muito bem com eles.” Anna falou sorrindo.

“Me daria bem mesmo, e você teria uma crise alérgica se convivesse com adolescentes, não é?”

“Você está vendo me coçar agora?”

Jennifer virou-se para trás, lançando um olhar fulminante.

“Posso escrever no seu gesso?” Jennifer falou pegando sua mão direita.

“Não.”

“Posso desenhar então?”

“Não.”

“E colar adesivos?”

“Deixe do jeito que está.”

“Que sem graça…”

 

Jennifer andava despretensiosamente pela oficina de Anna naquela tarde de agosto. Pouco mais de um mês havia se passado desde aquela missão no porto, nesse tempo visitara seu avô na Escócia, obtivera algumas respostas sobre seu poder mais avançado.

“Então, seu avô acha que você tem um poder de concentração maior, só isso?” Anna perguntava, enquanto lidava com a fornalha.

“É… diz que talvez eu consiga reunir com mais facilidade as ondas eletromagnéticas, e falou outras coisas que não entendi direito. Mas não engoli muito essa história não. Ainda acho que sou tipo o Harry Potter, um escolhido.”

“Quem?”

“Ah Anna, assim vou ter que pedir o divórcio, você não conhece ninguém.”

“Sinto muito se não passo dia e noite assistindo desenho animado.”

Jennifer a fitou com o cenho franzido, com um olhar revoltado.

“Vou fazer de conta que não ouvi isso.” Falou e continuou andando, mexendo nas ferramentas e objetos.

“Não vá se machucar nessas coisas.” Anna a advertiu.

“Me dê algo para fazer, para te ajudar.”

“Por que não vai estudar? Você não disse que tem prova de matemática hoje à noite?”

Jennifer assoprou para cima, entediada, se apoiando numa bancada.

“Estava até agora mergulhada naquele monte de equações e números que não batiam com a resposta no final do livro, cansei.”

“Se não bateram continue estudando as explicações, você ainda não pegou o espírito da coisa.”

“Você disse que ia me ajudar com matemática, que era boa nisso.”

Anna largou uma forma com aço derretido em cima de uma pedra.

“Não senhorita, eu falei que te ajudaria com matemática, não falei que era boa.”

“Você tem cara de CDF, tem duas faculdades, tem trocentos anos, deve ser mega foda em matemática.”

“O que é CDF?”

“Anna, me dê alguma coisa para fazer, vai, qualquer coisa, estou entediada, não quero estudar matemática.”

Anna ergueu os óculos protetores, respirou fundo, a olhando pensativa.

“Ok, vá lá fora cortar lenha para a fornalha, o machado está em cima das toras.”

“Ótimo!” Jennifer foi saindo animada.

“Hey, você sabe cortar lenha, não sabe?”

“Já vi você cortando.”

Anna passou a mão pelo rosto.

“Tá bom, só tente não se mutilar.”

Jennifer errava mais do que acertava os pedaços de madeira em cima do cepo de tronco, soltando palavrões, fazendo uma lenha irregular. Com o machado no ar, avistou uma mulher entrando pelos portões da casa de Anna. Caminhava sem pressa, olhando ao redor. Jennifer largou o machado no chão, a observando se aproximar.

A mulher tinha um porte altivo, era alta e vestia-se de forma elegante, longos cabelos castanhos escuros, aparentava quarenta e cinco anos e tinha uma aura misteriosa, deixando Jennifer intrigada.

“Posso ajudar você?” Jennifer falou de forma simpática, enxugando o suor na testa, sua camisa xadrez branca e azul também já estava parcialmente suada.

A mulher ainda deu mais uma olhada ao redor e na casa, antes de olhar para Jennifer e falar.

“Você mora aqui?”

“Não. Procura alguém?”

Ela balançou a cabeça devagar, voltou a olhar para a casa.

“Procuro o morador desta casa, Alan Fin.” Falou quase rispidamente.

“Ah… sinto muito, ele já faleceu.”

“É, eu imaginei que isto poderia ter acontecido. Você o conheceu?”

“Não.”

Ela parecia desapontada, mas ainda com um porte sério e frio.

“Sinto muito.” Jennifer completou.

“Acho que minha viagem foi em vão.”

“Bom, a filha dele ainda mora aqui.”

“Anna?” Perguntou surpresa.

“Sim.”

“Ela está?”

Jennifer hesitou um instante, não sabia das intenções daquela mulher.

“Está sim, quer falar com ela?”

“Por gentileza.”

“Tá, vou chama-la, só um instante.”

Jennifer entrou na oficina e se aproximou de Anna, desligando a ferramenta que ela usava.

“Tem uma mulher aí fora querendo falar com você. Achei ela meio estranha, leve uma faca, só para garantir.”

“Que mulher?”

“Não sei, estava procurando por seu pai.”

“Você disse que eu estava?”

Jennifer a encarou.

“Ok, leve duas facas. Se quiser posso dizer que você está no banho e vai demorar.”

“Eu vou lá.” Anna falou colocando uma adaga no cós de trás de sua calça.

Jennifer saiu pela porta da oficina e Anna saiu logo atrás, assim que avistou a mulher seu semblante transtornou-se, parecia assustada e estava com a testa completamente franzida.

A mulher sorriu ao avistá-la. Jennifer ainda não entendia nada.

Até que Anna finalmente falou algo.

“Mãe?”

 

 

        Capítulo 42 – O retorno

 

“Mãe?” Jennifer repetiu incrédula, ao ouvir Anna proferindo a palavra ‘mãe’. “Eu tenho sogra?” Falou baixinho, confusa.

“Mas… Você morreu, naquele acidente de carro.” Anna dava alguns passos inseguros na direção da mulher.

“Não, foi tudo forjado por seu avô. Meu Deus, como é bom te ver!” Ela foi até ela, a abraçando.

Jennifer ainda tentava entender o que acontecia à sua frente, enquanto Anna desmoronava nos ombros de sua mãe.

“Mãe… esse tempo todo então…” Anna falava, com a mão nos olhos, como se chorar fosse algo proibido. Jennifer, ali perto, não tinha o menor receio em se emocionar livremente por ela.

Se separaram, Anna enxugando de forma afoita suas lágrimas, sua mãe sem pressa. Se olharam, mediram, acostumaram-se com a presença uma da outra novamente.

“Dezessete anos, dezessete anos achando que aquele acidente na ponte havia te levado, onde você estava?”

“É uma longa história… Mas estou de volta, consegui voltar, tinha esperanças de encontrar seu pai e explicar tudo, mas a menina me falou que ele faleceu.”

“Ele teve um revés grande no primeiro ano da guerra, o coração não suportou.”

“Você mora sozinha aqui?”

“Moro. Vem, vamos entrar, você tem uma longa história para contar.”

Jennifer olhou para o machado e acabou as seguindo para o interior da casa.

Marianne caminhava lentamente pela grande sala, com seus passos firmes, olhando ao redor, com um sorriso nostálgico.

“Você não mudou quase nada por aqui, as mesmas adagas e espadas na parede.” Disse.

Anna se aproximou dela, Jennifer permanecia atrás dos sofás.

“Eu não acredito que você esteja aqui, novamente andando por essa sala.” Anna falava com um sorriso aberto no rosto.

“É bom estar de volta.” – Ela respondeu o olhar e ao sorriso. “Mas você trocou as janelas? Estão diferentes.”

Anna deu uma olhada de relance em Jennifer, antes de responder.

“Uma janela se quebrou, acabei trocando tudo.”

Marianne sentou-se num sofá, Anna sentou-se em outro, Jennifer apoiou os braços no encosto do sofá onde Anna sentará, de pé por trás.

“Anna, você está ótima, o tempo lhe fez bem.”

“E você parece que saiu daqui ontem.” Anna respondeu.

Jennifer acompanhava e achava curioso como um reencontro daqueles podia ser tão polido, devido à personalidade contida de ambas à sua frente. Imaginou como seria se reencontrasse sua mãe, e em como pularia em seu colo a derrubando e choraria por horas a fio, fazendo a maior cena.

Marianne a fitou por um instante, suspirou suavemente.

“Filha, desculpe por todo esse tempo longe de você. Foi contra a minha vontade.”

Anna baixou a cabeça, fez um semblante sofrido.

“Senti sua falta…” Falou baixinho.

“E eu senti a sua, eu pensei em vocês cada dia nesses dezessete anos, e tinha certeza que um dia voltaria à América. Por falar nisso, onde está seu irmão?”

“Andrew está na Inglaterra, ele se mandou assim que nosso pai morreu.”

“Inglaterra?”

“É uma longa história também.”

“Eles tem uma filhinha com seu nome!” Jennifer se manifestou.

“Sim! É verdade, é a criança mais esperta e encantadora que já conheci, a pequena Marianne.” Anna falou empolgada.

Marianne voltou a se emocionar, seus olhos brilhavam quase molhados.

“Eu tenho uma neta então?” Falava sorrindo.

“Andrew casou com uma inglesa, Eileen, tiveram uma filhinha, tem quatro anos agora, a conheci esse ano, ela lembra muito você.”

“Quanta coisa eu perdi…” Marianne passava os dedos pela borda do sofá.

“Onde você estava?”

“Na Tailândia, seu avô me levou para lá contra minha vontade, ele queria me afastar do seu pai e de vocês, você sabe, ele sempre foi contra nosso casamento, ele não admitia que eu me casasse com um humano.”

“Aquele acidente na ponte, quando você estava indo visita-lo, foi uma encenação?”

“Sim, eu não estava naquele carro, eles me abordaram assim que saí daqui, me colocaram em outro veículo, e armaram aquele acidente na ponte. No dia seguinte nós três viajamos para a Ásia, e nunca mais voltamos.”

“Três?”

“Eu, meu pai, e meu irmão Victor, que também compactuava desse ódio pelos humanos. Eu fui raptada, não podia mais decidir nada por mim, você não imagina o quão desesperador era saber que vocês estavam aqui, que minha família inteira estava do outro lado do mundo, achando que eu estava morta, e eu não podia voltar, não podia fazer nada, estava presa lá.”

“Você tentou?”

Marianne inclinou-se para frente.

“Anna, eles me chantageavam, ameaçavam vocês, dizendo que se eu tentasse algo, fugir, me comunicar, qualquer coisa, fariam mal à vocês, eles ainda tinham contatos aqui que poderiam chegar até vocês rapidamente. Mas arquitetei fugas várias vezes, eu estava sob forte vigilância, só tentaria quando tivesse certeza que conseguiria, mas nunca deu certo.”

“Você conseguiu vir agora porque seu pai morreu, não foi?” Jennifer perguntou, deixando Anna surpresa.

“Sim, ele morreu há algumas semanas, e consegui convencer Victor a me deixar vir, só agora conquistei minha liberdade.”

“Jennifer, espera aí, você sabia da morte do meu avô?”

“Sabia… meu avô me contou…” – Jennifer respondeu sem jeito. “E eu vou lá na cozinha buscar algo para vocês beberem.” Saiu a passos rápidos para a cozinha.

“Depois que meu pai morreu eu vi surgir a possibilidade de voltar para cá, Victor me parecia inclinado a aceitar finalmente que eu procurasse minha família, de quem haviam me separado. Depois de muita negociação eu consegui viajar para cá.”

Jennifer voltou trazendo dois copos de água com gelo, entregando para cada uma delas.

“Mãe, essa é a Jennifer, desculpe não ter apresentado antes.”

“Estou toda suada, estava cortando lenha, ou tentando…” Jennifer limpou as mãos na calça, estendeu a mão e a cumprimentou.

“Muito prazer, Jennifer.” Marianne correspondeu educadamente.

Anna olhou de forma hesitante para Jennifer.

“Eu vou para casa tomar um banho, tenho aula daqui a pouco, vou deixar vocês a sós, aí matando a saudade.”

“Ãhn… ok, boa prova de matemática.”

“Prazer em conhece-la.” Jennifer despediu-se.

A acompanharam sair pela porta.

“Essa garota trabalha aqui?”

“Não. É uma amiga.”

“Que bom que você tem amigos, você não tinha muitas amizades.”

“As coisas não mudaram muito.”

“Você não casou?”

“Não, ainda não.”

“Nunca mais falou com Robert?”

Anna deu um longo suspiro.

“Não, ele já faleceu, inclusive.”

“Mesmo? Coitado, eu gostava dele, era de uma boa família.”

“Excelente família…” Anna balançava a cabeça devagar.

“Mas você tem namorado, não tem? Você nunca foi de ficar muito tempo solteira.”

Anna pegou no pingente de lince que usava no pescoço, passando seu polegar por ele, hesitante.

“Não, não tenho namorado.”

“Eu me casei novamente.” Marianne disparou.

Anna largou seu copo no chão, e a olhou com surpresa.

“Constituiu uma nova família lá?”

“Sim, não que eu tenha substituído vocês, eu me encaminhava para a depressão, talvez até enlouquecimento, naquela quase clausura, e acabei conhecendo um filho de um amigo do meu pai, um empresário escocês, nos casamos meses depois.”

“Escocês?” Anna questionou com um sorriso de lado.

“Sim, por que?”

“Nada, deixa pra lá…”

“Ficamos casados por seis anos, então ele morreu, numa viagem de negócios. Nós tivemos uma filha.”

Anna não falou nada, apenas a fitou, estática, com o mais abismado dos semblantes.

“Você tem uma irmã mais nova.” Marianne completou.

“Uou…” Anna esfregava as mãos no rosto, assimilando tudo.

“Ela não pode vir, por causa dos estudos, está no colegial, mas virá também.”

“Quantos anos?”

“Quinze.”

Anna agora sorria.

“Angie se parece muito com você.”

“Angie…” Anna assimilava o nome da irmã.

“Fisicamente, não na personalidade. Angie fala pelos cotovelos… ”

Por horas elas continuaram conversando, Anna preparou um jantar, ainda se acostumava com a presença de sua mãe por ali, depois de tanto tempo imaginando que ela estivesse morta. Era chocante aquela imagem.

Apesar dos olhos azuis herdados do seu pai, todo o restante do seu físico e porte fora herdado de sua mãe, uma Titan de cabelos escuros e um olhar baixo, misterioso. Tinha seus movimentos controlados, a fala calma, séria.

 

Jennifer acabara de chegar da aula quando ouviu batidas na porta do seu apartamento, era Anna.

Abriu a porta e deu um olhada além dela.

“Cadê minha sogrinha?”

“Foi para o hotel.” Anna foi entrando.

“Caramba, isso é muito louco, sua mãe ressurgindo assim, quinhentos anos depois!”

“Eu sei, é quase inacreditável, não é?” Anna falava num misto de surpresa e felicidade.

“Por que ela foi para um hotel?” Jennifer falou sentando ao seu lado no sofá.

“Ela não queria incomodar, já estava acomodada lá no hotel, amanhã vou arrumar um dos quartos de baixo para ela.”

“Seu quarto era o quarto dos seus pais, não?”

“Era. Ela não quer de volta.”

“Quer uma cerveja?”

“Ela casou de novo e teve uma filha, sabia?”

“Sério, você tem uma irmã mais nova?” Jennifer ria.

“Tenho, mas ela ficou lá, por causa dos estudos. Está no colegial, assim como você. Ela disse que virá em breve.”

“Você deve estar zonza de tanta informação nova.”

“Você não faz ideia, por isso vim aqui, desculpe te importunar essa hora.”

“Imagina, nunca te perdoarei por isso.” – Jennifer respondeu irônica, já se virando no sofá, se recostando numa almofada. “Deite aqui.”

Anna atendeu seu pedido, deitando de costas em seu colo.

“Você é uma felizarda por ter sua mãe de volta, o restante você vai assimilando com o tempo.” Jennifer falou, já afagando sua cabeça.

“Como foi na prova?”

“Fiz metade das questões, fiquei com preguiça de fazer o resto, Steve me passou a cola.”

“Preguiça de fazer as questões não é desculpa, nada de cola na próxima, ok?”

“Eu estou sofrendo bullying.” Jennifer falou com revolta.

“O que?”

“Na escola.”

“Por que?”

“Entre outras coisas, por causa do meu carro, dizem que é carro de bacana.”

“Ignore.”

“Eu tentei, juro. Hoje eu mergulhei a cabeça da Nancy na privada.”

“Você vai ser expulsa desse jeito.”

“Eles são mais cruéis que milicianos Titans.”

“Quer eu passe a levar você de moto?”

“Sua moto é mais cara que meu carro. Ah como eu queria ter um gárgula de estimação…”

“Por que não vai com o Ignatious, você ainda o tem, não?”

“Anna, você é um gênio! Como não pensei nisso?”

“Se ele ainda funcionar…”

Jennifer percebeu Anna pensativa.

“Sua mãe, veio para ficar? Ou seu tio Victor quer ela de volta?”

“Ela disse que veio para ficar, que meu tio permitiu que ela voltasse. Ela quer reconstruir sua vida aqui, logo minha irmã também estará aqui.”

“Não é engraçado? Sua irmã. Irmãzinha caçula. Quantos anos ela tem?”

“Quinze.”

Jennifer deu um riso abafado.

“Você cercada de pirralhas, quem diria.”

“Isso tudo é inacreditável… É como se um pedaço de mim voltasse a viver.”

Jennifer beijou sua cabeça, por cima.

“Você não é mais a híbrida solitária que eu conheci quase um ano atrás.”

“Não, não mais.”

“E agora eu tenho sogra!”

“Não a chame assim na frente dela.”

“Por que? Ah…” Jennifer fez um semblante como se dando conta de algo. “Você não contou sobre nós, não é?”

“Não, não contei. Jennifer… ela acabou de chegar, não quero choca-la assim de cara, não achei que seria uma boa hora.”

“Hey, não estou te cobrando nada. Só é bom saber, para não dar algum fora na frente dela.”

“Como se isso impedisse você de dar foras…” Anna sorriu.

“Me comportei muito bem na frente do seu irmão quase homofóbico.”

“Talvez ela pense como meu irmão, eu não lembro de ter conversado sobre essas coisas com ela, até porque eu nunca tinha me envolvido com mulheres antes, então não faço ideia do que ela pensa sobre esse assunto, espero que seja tranquilo.”

“Está com medo da reação dela?”

“Você não estaria? Sempre queremos a aprovação dos nossos pais.”

“Não se pressione, eu não estou te pressionando, você não precisa contar. Ou deixe para mais tarde, quem sabe quando sua irmã já estiver aqui.”

“É, depois eu penso nisso…”

“Isso, depois. E sobre o agora, vai dormir aqui comigo, não é?” Cruzou os braços pela frente de Anna, curvou-se beijando seu pescoço.

“Se você deixar eu partir cedo, sim.”

“Isso é negociável…”

 

“Olá moças, querem sair para almoçar?” Jennifer apareceu no dia seguinte na casa de Anna, no comecinho da tarde, onde elas conversavam debruçadas na sacada.

“Ãhn… quer ir, mãe?”

“Você é a menina que estava aqui ontem, não é?”

Jennifer recostou-se na porta de vidro, e respondeu sorridente.

“Eu de novo!”

Marianne ficou alguns segundos a medindo, em silêncio.

“Ãhn… Mas posso deixar vocês à vontade também.” Jennifer completou, meio sem jeito, desencostando da porta.

“Não, vamos almoçar, acho que Anna não vai querer ir para a cozinha, não é mesmo?”

“Anna cozinha bem.” Jennifer retrucou.

Marianne deu uma olhada em Anna, surpresa.

“Você odiava cozinhar.”

“Tive que aprender a me virar, já frequento mais a cozinha agora.” Anna explicava.

“Cozinha para os amigos?”

“É, mais ou menos.”

“Mas de longe, a melhor coisa que ela faz na cozinha é o café, tudo bem que sou meio café-maníaca, mas o dela é de outro mundo.” Jennifer contava, animada.

“Outro país.” Anna completou.

“Continuou com a mania do seu pai de importar café do Brasil?” Marianne perguntou.

“Tem coisas que acabam passando de uma geração para outra.”

“Ok, depois você mostra seus dotes com café então.” Marianne falou já se dirigindo para a porta.

 

“Nossa, que restaurante legal! Olha essa vista!” Jennifer seguia na frente, já na direção do balcão externo de um grande restaurante com vista para o mar, com paredes de vidro.

“Podemos ficar numa mesa aqui dentro?” Marianne pedia em voz baixa para Anna.

Anna olhou hesitante para sua mãe, depois para Jennifer, que já abria a porta para a área externa. Suspirou fundo e foi na direção de Jennifer.

“Se importa se escolhermos uma mesa aqui dentro, mas com vista para o balcão?” Perguntou.

“Ãhn… pode ser.” Jennifer fechou a porta.

 

“Jennifer, o seu nome, certo?” Marianne a perguntava, com o queixo pousado nos dedos, apoiando o braço na mesa, após terminar a refeição.

“Jenny para os íntimos, exceto Anna.” Jennifer respondeu sorrindo.

“Você não tem um emprego?”

“Eu tinha, mas larguei, para me dedicar apenas aos estudos. Por isso que estou sempre visitando Anna.”

“Estuda à noite?”

“Isso. Inclusive quem me incentivou voltar aos estudos foi ela.”

“Houve esse forte apoio aos estudos em nossa família, Anna sempre foi muito dedicada, ela absorveu bem nossos ensinamentos e valores.”

“Ah, não tenho dúvidas disso.”

Anna apenas acompanhava a conversa, mexendo nos talheres, estava sentada de frente para Jennifer.

“Você não é casada, é?”

“Não, ainda estou à espera do príncipe encantado.” Jennifer sorria sem muita segurança.

“E tem namorado?”

“Tenho, tenho sim.” Deu uma olhada de canto para Anna.

“Que bom. Vocês são amigas há muito tempo?” Marianne disse, antes de chamar o garçom.

“Quase um ano.” Anna respondeu.

“É mesmo? Achei que se conheciam há anos, vocês parecem tão próximas.”

“É que eu vou para a casa dela pentelhar com frequência.” Jennifer respondeu.

O garçom se aproximou e Marianne falou num tom sério com ele.

“O peixe estava salgado demais, e acredito que tenha passado do ponto.”

“Gostariam que eu trouxesse algum outro prato?”

“Apenas avise o chef.”

“Sério? Eu achei o peixe bom para ca… Muito bom.” Jennifer falou, quando o garçom saiu.

Marianne sorriu educadamente.

“Acho que ainda não tem idade para discernir o que é bom para você.”

“Mas eu sei quando um peixe está bom.”

“Eu tenho uma filha adolescente, nessa idade vocês ainda não formaram os principais parâmetros, ainda agem por instinto.”

“Eu tenho vinte e três!”

“Ãhn, vamos pedir a conta?” Anna convidava.

 

“Já vou, ainda vou passar em casa para trocar de roupa e carro.” Jennifer se despedia de Anna, do lado de fora da casa, à tardinha.

“Vai seguir meu conselho de ir para a aula com o Ignatious então?”

“Sim, você e suas boas ideias.” Jennifer se aproximou e a puxou pela cintura.

“Vem aqui amanhã?”

“Pensei em amanhã levar sua mãe para conhecer os maravilhosos pontos turísticos da cidade, o que acha?”

“Talvez, uma pena a cidade não ter maravilhosos pontos turísticos.” Anna passou seus braços por trás do pescoço de Jennifer.

“Ou se preferir passeiem com meu carro, sua mãe dirige, não?”

“Dirige. Depois eu pergunto o que ela quer fazer amanhã, ela mencionou algo sobre ver documentação, não sei exatamente o que é, mas talvez ela queira fazer algumas coisas burocráticas.”

“Então vou deixar o carro aqui, você me leva agora de moto em casa e pego o Ignatius, não me importo de ficar andando com minha querida lata velha.”

“Não sei…”

“Sério, fique com o carro aí a disposição da sua mãe, para ela resolver as coisas dela, passear também, até porque se eu ficar vindo aqui o tempo todo ela vai suspeitar de nós.”

Anna a fitou hesitante.

“Tome.” Jennifer entregou as chaves do carro, e foi na direção da moto.

“Ok, eu te levo em casa.” Anna foi atrás dela.

 

“Onde vocês estão?” Jennifer perguntava ao telefone, na tarde do dia seguinte.

“Ela estava resolvendo algumas coisas no Centro, vai passar aqui para me pegar, vamos dar uma volta na cidade vizinha. Quer vir aqui hoje depois da aula?”

“E sua mãe? Vai achar no mínimo estranho.”

“Até você chegar aqui já serão quase onze da noite, ela já estará dormindo.”

“Tá bom, não esqueça de jogar suas tranças pela sacada, para que eu suba ao seu quarto.”

“Você tem a chave da porta da frente, Rapunzel.”

 

“Cara, isso é muito adolescente, até para meus padrões.” Jennifer falava sorrindo, ao entrar no quarto de Anna naquela noite, após subir as escadas silenciosamente.

“Em breve eu contarei sobre nós à ela, tenha paciência e banque a namoradinha adolescente só mais um pouco.” Anna saía da sacada.

Jennifer se aproximou, a abraçando.

“Não está conseguindo contar, não é?”

“Não.”

“Relaxa, daqui a pouco aparece a ocasião.”

“Como foi a aula?” Anna falou após um beijo.

“Física é um saco, é tudo que tenho a dizer.”

“Prefiro química.”

“Ok, vou tomar um banho e depois vou fazer valer minha alcunha de namoradinha adolescente.” Jennifer falou com um sorriso malicioso, já a soltando.

 

Jennifer contemplava o conteúdo da geladeira naquela madrugada, se apoiando na porta, trajando apenas uma regata branca de Anna e calcinha, se decidia entre água, leite ou suco de laranja.

“Leite!”

“Oh, desculpe.” Marianne falou, virando o rosto, ao entrar na cozinha.

Jennifer virou-se rapidamente na direção dela, arregalando os olhos.

“Sogra, quer dizer…. droga, droga… Marianne, eu que peço desculpas, esqueci completamente que não estamos mais sozinhas.” Jennifer fazia um semblante sofrível, de quem foi pego no flagra.

“Não, fique à vontade, só vim beber água, volto depois.”

“Por favor, a casa é sua, sou só uma visita, venha cá, eu pego água para você.” Falava sem jeito, já pegando uma jarra na geladeira.

Ela lançou um olhar de dúvida, quase recriminatório, e andou em sua direção. Jennifer lhe entregou um copo d’água.

Marianne tomou o copo em mãos, a olhou de cima abaixo, parecia analisar até a quinta geração de Jennifer, e por fim bebeu a água.

“Você não é humana, é? Você é Vulpi?”

Jennifer voltou a arregalar os olhos, ainda sentia-se embaraçada por seus trajes e por ter se entregue.

“Sou.” Balançou a cabeça rapidamente.

Marianne continuava lhe lançando um olhar analisador, Jennifer sentia-se mais nua do que nunca.

“Meu marido gostava muito dos Vulpis.” – Não falava novidade alguma para Jennifer. “Mas para mim são apenas humanos que movem coisas.”

Jennifer sentiu-se tentada a explodir o copo que Marianne segurava, mas respirou fundo, e desistiu da ideia. ‘Anna se chatearia’, pensou ela.

“Anna também gosta dos Vulpis. Mas isso você deve saber, não é?” Marianne continuava falando.

Jennifer começava a suar.

“Eu… Eu gosto dos híbridos.” Jennifer arriscou.

“É, imagino que sim.”

“Eu… vou… voltar para a cama.” Jennifer despediu-se, nervosamente sorridente.

“Depois conversaremos mais, combinado?” Marianne falou calmamente.

“Claro, com certeza.” – Jennifer respondeu já saindo da cozinha. “Boa noite so… Marianne.”

Jennifer subiu rapidamente as escadas, enfiando-se sob a coberta, abraçando as costas de Anna, a acordando.

“Onde estava?” Anna perguntou, sonolenta.

“Digamos que sua mãe agora sabe sobre nós.”

Anna virou-se bruscamente, sentando-se e a fitando.

“O que?”

“Por que você não colocou um frigobar no quarto dela?”

“Você desceu e deu de cara com ela?”

“Foi, na cozinha. Desculpe, esqueci de vestir uma calça. E a chamei de sogra sem querer.”

Anna ainda a fitou por mais uns segundos, antes de esfregar a mão pela testa. Suspirou pesadamente e falou.

“Tudo bem, eu converso com ela amanhã.”

“Não está brava comigo?”

“Isso ia acontecer, você só antecipou as coisas.” Anna falou voltando a deitar-se.

“Desculpe…” Jennifer deitou-se também.

Anna virou-se, puxando Jennifer para próximo de si, pousando o queixo em sua testa.

“Não, eu já deveria ter contado à ela.”

“Se quiser posso tentar convence-la que sou apenas sua amiga.”

“Tenho certeza que surtiria o efeito contrário…”

“Minha sogra já me odeia.”

“É impossível odiar você, Jennifer. Ela só deve estar chocada.”

“Ela deduziu que eu era Vulpi.”

“Deduziu?”

“Eu tenho cara de Vulpi?”

“Não existe isso. Ela deve ter percebido que você é especial.”

“Isso é uma coisa boa?”

Anna riu.

“Ela sabe que gosto dos Vulpis, sempre os achei especiais.” Anna disse.

“Ela não acha, disse que são apenas humanos que movem coisas.”

“É a visão dela. Ela acabou criando uma certa birra com os Vulpis, meu pai tinha uma amiga Vulpi que frequentava nossa casa, e digamos que minha mãe seja um pouco ciumenta.”

“Ah é daí que vem o seu ciúme então!”

“Eu não sou ciumenta.” Anna respondeu.

“Assim como eu não sou teimosa.”

“Enfim, não se sinta intimidada por minha mãe, ela tem esse ar sério e severo mas é só o jeito dela.”

“Estou acostumada a lidar com certa pessoa com um ar sério também, e acho que me saí bem. Pelo menos consegui levar para a cama.” Jennifer riu.

Anna subiu a coberta, cobrindo a cabeça de Jennifer.

“Vá dormir, que eu vou tentar dormir mesmo sabendo que minha mãe está no andar de baixo tirando mil conclusões sobre a minha vida afetiva.”

Jennifer grunhiu algo. Anna descobriu sua cabeça.

“O que?”

“Porra, eu sou claustrofóbica!”

“Pronto, agora estamos quites por você ter acidentalmente me tirado do armário para minha mãe.”

“De nada.” Jennifer respondeu com ironia, cobrindo a cabeça de Anna com a coberta, e pulando em cima dela.

 

“Estou com vergonha de descer e encontrar sua mãe por lá.” Jennifer falava, saindo do banheiro, na manhã seguinte.

“Ela não deve estar lá.”

“Tem como sair pela sua sacada?”

“Já aprendeu a voar? Vamos, não precisa ter medo da minha mãe, eu desço com você.”

 

“Viu, ela deve estar no quarto.” Anna falava enquanto descia as escadas com Jennifer.

“Anna?” Marianne chamou e surgiu, quando elas passavam na frente da porta da cozinha.

“Bom dia, Marianne!” Jennifer a cumprimentou sorridente.

“Bom dia, mãe.”

Marianne lançou um olhar sisudo na direção de Jennifer, e respondeu da mesma forma.

“Bom dia. Anna, não estou achando nada nessa cozinha, você mudou tudo de lugar.”

“Eu vou… levar Jennifer no carro e já venho te ajudar.” Anna respondeu.

 

“Podemos conversar juntas, se você se sentir mais segura.” Jennifer falou já com a porta do carro aberta.

“Deixe comigo, eu conversarei com ela mais tarde.”

“Podemos ficar alguns dias afastadas, se isso tornar as coisas mais fáceis.”

“De modo algum, minha mãe te aceitando ou não, isso não muda nada entre nós, entendeu? E se quiser vir para cá hoje, não hesite.”

“Hoje é sábado, podemos leva-la ao pub do Oscar.”

“Mais devagar, ok?”

Jennifer a beijou e partiu no seu Ignatious.

 

Heather Small – Proud – http://www.youtube.com/watch?v=OygsHbM1UCw

“O café fica nesse compartimento, para que não entre nenhum raio de luz e umidade.” Anna falava ao adentrar a cozinha, mostrando um pequeno armário rústico.

“Eu nunca encontraria.” Marianne murmurou.

“Pode deixar que eu faço o café, sente-se.”

Marianne colocou algumas coisas sobre a mesa e sentou-se.

“Vai sair agora de manhã?” Anna perguntou, ao terminar de fazer o café.

“Eu ia ao consulado.”

“Ia?”

“Acho que nós duas precisamos ter uma conversa.”

Anna largou o bule, e encarou aqueles itens pendurados à sua frente. Retomou o café e levou até a mesa.

“Conversar sobre o que?” Anna falou num tom cuidadoso, servindo a si e a sua mãe, já sentada à mesa.

“Você tem algo para me contar, não tem?”

“Podemos tomar o café primeiro?”

“Não. Quando você ia me contar que está dormindo com uma mulher?”

“Desculpe você ter descoberto dessa forma, mas eu estava planejando te contar.”

“Até quando você ia me fazer de boba?”

“Eu só não estava encontrando a ocasião certa para te contar, só isso.” Anna mexia seu café, incomodada.

“Sabe por que não encontrou a ocasião certa? Porque não existe, não tem um momento certo para você me falar sobre esse disparate. O que você deveria ter feito é ter evitado o contato com essa garota, ter evitado praticar esse tipo de coisa.”

“Mãe, eu não estou simplesmente dormindo com ela, nós estamos namorando.”

“Pior ainda, como você deixou chegar nesse ponto? É para suprir alguma necessidade? Você deveria ter casado com Robert, ou qualquer outro namorado que teve.”

“Já basta os sermões que ouvi de Andrew, vocês me tratam como se eu fosse uma adolescente confusa, que me deixei influenciar e acabei tomando um caminho errado. Tentem enxergar como apenas mais uma relação que estou tendo, como as outras que tive, não há nada de errado com isso.”

“Não, não mesmo, isso que você está tendo agora não é como uma relação que você teve no passado, isso sequer pode ser considerado uma relação, é uma abominação.”

“Talvez você tenha razão, não é uma relação como tive no passado, eu não me recordo de ter amado alguma outra pessoa como eu amo Jennifer.”

“Eu não acredito que estou ouvindo essas coisas… Não parece você, não parece a Anna que eu criei e ensinei os valores de família.”

“Você está estranhando porque eu falei sobre amor, não é? Eu sei que você nos deu a melhor educação possível, que estava sempre presente e à disposição, mas você também me ensinou que era errado falar sobre sentimentos, e o que aprendi com você foi a guardar tudo que eu sinto só para mim, como você fazia.”

“Eu dei todo amor possível para vocês, você está me acusando de que?”

“Não estou negando o amor que você deu para nós, você nunca negligenciou nada, mas o que você acabou passando para mim, com suas atitudes, seus conselhos contidos, foi a não falar ou demonstrar sentimentos, porque isso era sinônimo de fraqueza.”

Anna levantou-se da mesa, colocando as mãos no encosto da cadeira à sua frente.

“E eu acreditava piamente nisso, sempre fui aquela rocha que você estava esperando encontrar quando me reencontrasse, mas agora aprendi que falar sobre amor não é fraqueza, demonstrar o que eu sinto não me torna vulnerável, pelo contrário, me torna mais forte.” Anna continuou.

“Já que você quer falar sobre sentimentos, você nem deve saber ao certo o que sente por essa garota, está se deixando levar. Volte a ter contato com homens, você vai se dar conta que estava vivendo uma ilusão, uma coisa pela metade.” Marianne disse, com um semblante fechado, fitando Anna.

Anna baixou a cabeça, correndo os polegares pela madeira da cadeira à sua frente, instaurando um silêncio incômodo.

“Mãe, eu não conseguiria medir em palavras o quanto estou feliz em saber que você está viva e está de volta, é muito bom tê-la aqui novamente. E eu espero poder ter uma convivência harmoniosa com você, eu realmente quero isso… Mas você precisa saber que Jennifer vai continuar frequentando essa casa, eu não mudarei nada na minha relação pelo fato de você não aceitar.”

Marianne continuou a encarando, e então voltou a tomar seu café.

“Eu não voltei para dizer como você deve viver, o que pode ou o que não pode fazer. Eu não irei interferir em nada, eu sei que não tenho esse direito. Mas quero que saiba que não concordo com esse seu novo estilo de vida.”

“Eu respeitarei sua opinião, assim como quero que você respeite o que tenho com Jennifer.”

“Não se preocupe quanto a isso. E sente-se, termine seu café.”

 

Anna descia as escadas terminando de vestir seu casaco, já passava das dez da noite naquele sábado.

“Onde vai?” Marianne perguntou, do sofá da sala.

“Vou sair.” Anna respondeu.

“Com aquela garota?”

Anna deu uma olhada para o lado, e um breve suspiro.

“O carro está aí fora, se precisar. As chaves estão na cozinha.”

“Esse carro é dela?”

“Faça de conta que não é. Estou saindo.”

“Anna?”

Anna já estava na porta, e voltou-se novamente para sua mãe.

“Cuidado na rua, os tempos são outros, não se meta em confusão.”

“Já sou bem grandinha, mãe. Mas ok, tomarei cuidado.”

 

Pharrell Williams – Happy – http://www.youtube.com/watch?v=y6Sxv-sUYtM

“E então, como foi a conversa com minha sogra?” Jennifer perguntava, presa às costas de Anna, enquanto ela pagava as entradas na recepção do pub.

“Continue evitando chama-la de sogra na sua presença.”

“Não foi boa, não é?”

Anna virou-se, lançando um olhar decepcionado.

“Não. Vamos entrar, lá dentro conto como foi.”

“Olá galera da chope, Bob Esponja está de volta!” Jennifer cumprimentava Becca, Jim e Bob, que já estavam numa mesa.

“Que bom, você sóbria é um saco.” Becca respondeu, a abraçando.

“E então, qual é a sensação de ganhar uma sogra inesperada?” Bob perguntou.

“Eu achei o máximo, é uma pena que ela não goste de mim, eu poderia ser uma nora bem dedicada.” Jennifer falava já sentando.

“Ela vai se acostumar com a ideia, dê um tempo.” Anna comentou.

“Então, ela acha que sou uma enviada lésbica de satã que levou você para o mau caminho, acertei?”

“Acho que não chega à isso, mas ela deixou claro que não aceita meu novo estilo de vida.”

Jennifer começou a rir.

“Estilo de vida foi ótimo, é como se você tivesse começado a praticar tênis ou se tornasse vegetariana.”

“Eu levei um bom tempo me aceitando, eu acho que algum dia ela vai entender que não é uma fase, nem que estou influenciada, mas é difícil para uma mente de alguém com essa idade.”

“Idade?”

“A idade biológica dela é noventa e dois.”

“Nossa, minha sogra tá com tudo em cima para uma pessoa quase centenária.”

“Ela aparenta metade. E seu comentário foi estranho.”

“Por que? Ela é bonitona, se não fosse sua mãe, e não me odiasse…”

“Ok, ok, entendi.”

“O que eu quero dizer é que agora sei de onde veio essa sua beleza com ar misterioso.” Jennifer falou com um sorriso sarcástico.

“Continua estranho.”

“Hey bobona, foi um elogio.” Jennifer pegou a mão de Anna e passou por cima do seus ombros.

“Então, na sua família todo mundo é meio homofóbico?” Jennifer perguntava à Anna, já depois de buscar chopes para elas.

“Parece que sim, mas não é muito diferente do restante da população…”

“Também porque vocês são mais velhos, eu compreendo, idosos, tem uma mente menos aberta ao mundo.”

“Seus pais sabiam de você?” Anna perguntou.

“Bom, quando eles morreram eu tinha quatorze, nem eu sabia de mim direito. Mas eles sabiam que eu já tinha beijado uns meninos e umas meninas, nunca me recriminaram. Acho que, hipoteticamente, se eu chegasse em casa nos dias atuais te apresentando como minha namorada, seria tranquilo.”

“Por que acha isso?”

“Eu ouvia eles falando o quanto era errado ter preconceito e tal, e os Vulpis são menos preconceituosos por natureza, é o que meu vô fala.”

“Acho que sim.”

“E minha mãe sempre se deu bem com meu tio Ethan, muito melhor que com meu tio Christian.”

“O que tem seu tio Ethan?”

“Ele é gay.”

“Sério?”

“Sério que você não sabia?” Jennifer riu.

“Acho que não sou boa em descobrir quem é e quem não é…”

“Sempre falavam sobre isso com tanta naturalidade em casa, sobre os namorados do meu tio, acho que não teria diferença se ele fosse ou não gay.”

“Sinto muito por minha mãe pensar desta forma, mas eu acredito que a opinião dela mudará quando ela perceber que o que temos é genuíno, que não é uma fase…”

“Que eu amo você de verdade.” Jennifer completou.

Anna sorriu e balançou a cabeça.

 

Passava das duas da manhã quando a dupla adentrou a casa, passando pela cozinha.

“Acho que você bebeu mais do que eu, essa noite.” Jennifer disse.

“Ah é? Não percebi. Talvez sim.”

“Ou eu bebi menos que o normal, ou você bebeu mais.”

“Talvez eu tenha bebido mais.”

“Algum motivo?”

“Talvez eu esteja feliz.” Anna terminou com um sorriso contido.

Jennifer se aproximou e passou seus braços por trás do pescoço dela, ainda segurando o capacete.

“Eu gosto de te ver assim. Eu quero te ver assim sempre.” Jennifer falou.

“Para sempre?” Anna perguntou.

Jennifer sorriu.

“Para sempre.” Respondeu, antes de beija-la.

Se soltaram e Jennifer deixou seu capacete na mesa.

“Não largue na mesa, bagunceira, pendure no seu prego.”

“Meu querido prego.” Jennifer pendurava seu capacete na parede, rindo.

“Você saberá que não te amo mais no dia que tirar esse prego da parede.” Anna ria também.

Entraram na sala e encontraram Marianne ainda acordada, assistindo TV.

“Boa noite, meninas.” Ela falou ao avista-las, com um tom de voz controlado.

“Ãhn… Boa noite Marianne.” Jennifer respondeu, hesitante.

“Sem sono?” Anna perguntou.

“Já cochilei um pouco aqui no sofá, que a propósito, não é um bom lugar para dormir.”

“Viu? Eu te falei.” Jennifer cutucava Anna.

“Vamos subir?” – Anna se dirigiu à Jennifer. “Mãe, boa noite, boa TV, ou bom cochilo…”

Já subiam os primeiros degraus quando um barulho foi ouvido.

“Vocês ouviram isso?” Marianne falou com um semblante assustado.

“Eu ouvi, foi algo na rua?” Anna falou.

“Bom, eu não ouvi nada, mas minha audição já não é mais a mesma, então…” Jennifer completou.

Anna foi até a porta frontal e abriu, havia um flecha fincada na madeira no alto da porta.

“Índios?” Jennifer olhava confusa para a flecha.

“Fiquem aí dentro.” Anna saiu em busca de quem havia disparado aquela flecha, percorreu todo o terreno em frente à casa, o caminho que dava no seu portão, a praia, mas não viu nada.

“É a primeira vez que isso acontece?” Marianne perguntou, assim que Anna retornou.

“É, não costumamos receber flechadas noturnas.” Jennifer respondeu.

Anna retirou a flecha da porta, a verificando minuciosamente.

“Tem um papel aqui.” Ela desenrolou um pequeno bilhete.

Você tem vinte e quatro horas para voltar para sua casa.”

Marianne mudou seu semblante para algo quase aterrorizado, apavorada.

“Victor.” Falou enfática.

“Meu tio Victor? Mas ele não permitiu que você voltasse para cá?” Anna falou surpresa.

Marianne olhou para os lados, hesitante.

“Eu não contei toda a verdade à você… eu fugi da Tailândia.”

 

 

        Capítulo 43 –  Jogo de gato e rato

 

“Fugiu? Como assim?” Anna falou, assustada.

Marianne entrou, e foi andando na direção do centro da sala, Anna foi atrás. Jennifer fechou a porta e sentou-se no braço do sofá.

“Desculpe ter mentido sobre isso, eu não queria te preocupar, mas eu precisava sair de lá, ao preço que fosse.”

“Ele veio atrás de você, quer que volte, e agora?” Anna continuava atônita.

“Eu não posso voltar para lá… não posso. Eu quero minha vida de volta, cansei de ser refém.”

“E Angie?”

“Está em segurança, escondida numa outra província. Eu não consegui a documentação necessária para trazê-la comigo, estou tentando agilizar isso aqui, para que ela possa finalmente vir.”

Anna ficou um instante pensativa, com as mãos na cintura.

“Ele pode querer te levar à força?”

“Acho que não… não sei, mas Victor pode ser violento, não sei o que esperar dele.”

“Então nós temos que encontra-lo, antes que ele tente algo mais incisivo.”

“Ele pode ser perigoso, eu tenho que pensar melhor.”

“Mãe…” Anna se aproximou, colocando a mão em seu braço, carinhosamente. “Me ajude a acha-lo, e eu resolvo isto.”

“Resolver como?”

“Eu o convencerei a voltar para a Tailândia, deixando você em paz. Eu tenho meus métodos.”

“Não é simples assim…”

“Apenas vamos fazer um levantamento dos possíveis lugares onde ele poderia ser encontrado, ok? Eu vou acha-lo.”

“Talvez na mansão da nossa família em Westport, tenho que pensar em mais lugares.” Marianne disse.

“É tarde, ele não tentará nada agora. Amanhã conversaremos, você vai me repassar todos os lugares onde eu deveria procurar por ele. Eu montarei vigilância 24 horas em cima de você, para que ele não tente nada.”

“Isso é um pesadelo sem fim…”

Anna se aproximou, abraçando sua mãe, que ficou um tanto surpresa.

“Nós vamos encerrar esse pesadelo, de uma vez por todas, seu lugar é aqui. E logo Angie também estará com a gente.”

Despediram-se de Marianne e subiram para o quarto, Anna sentou-se na cama, esfregando a mão na testa.

“Minha sogra é cheia de segredos.” Jennifer falou, parando à sua frente.

“Não é hora para brincadeira, Jennifer…”

“Desculpe.” Falou já afagando sua cabeça.

“As coisas estavam fáceis demais para ser verdade… Eu deveria ter desconfiado.”

“Não, a história da sua mãe foi convincente, não dava para prever esse porém.”

“Eu irei resolver este porém.”

“Conte comigo.” Jennifer falou, antes de colocar ambas as mãos ao redor do rosto de Anna, o erguendo.

“Vamos tomar um banho e dormir?” Continuou.

 

Na manhã seguinte, Anna passou algumas horas conversando com sua mãe, traçando um plano de busca à Victor.

“Tem alguma possibilidade dele não estar aqui? De ter mandado alguém dar este recado?” Anna questionou sua mãe.

“Victor é apaixonado por arco e flecha, foi ele.”

“E ele não deve estar sozinho.”

“Não, ele é covarde demais para fazer algo sem alguns capangas.” Marianne respondeu.

“Ok… Eu ainda não tenho ideia do tamanho da ameaça, mas em todo caso já conversei com Max e daqui a pouco um de seus homens de segurança estará aqui tomando conta da casa. Eu vou na mansão que era dos seus pais, fazer uma busca.”

“Você vai levar alguns homens com você também?”

“Não, mas Jennifer vai comigo.”

“Jennifer? Ela vai atrapalhar mais do que qualquer coisa.”

Anna sorriu torto.

“Você tem muito o que conhecer dela… Mas terá bastante tempo para isso. Acho que seu segurança chegou.” Anna falou levantando do sofá, ao ouvir o barulho de um carro.

 

Anna foi até a cozinha, onde Jennifer tomava seu segundo café da manhã, e a intimou.

“Vamos, o segurança chegou, hora de começar a caçada.”

“Posso terminar a rosquinha?”

“Pode. Quando terminar, venha na oficina se armar.” Anna falou, já indo para a oficina.

Minutos depois Anna e Jennifer seguiram na grande moto negra em direção a cidade vizinha, Westport, onde ficava a casa da família Fin.

A casa ficava num local afastado, o acesso era através de uma estrada de chão batido, havia poucas casas naquele local. Entre uma casa e outra haviam pastos e vegetação.

Estacionaram a moto e entraram sem dificuldade, o portão estava caído. Logo na entrada era visível que aquela casa estava abandonada, não via habitantes há muito tempo. Era uma grande construção imponente, agora cinza por causa das infiltrações e o tempo. A maior parte das janelas estavam quebradas, o jardim central na frente era apenas um punhado de ervas daninhas.

“Não deve ter ninguém aqui, nem o Gasparzinho.” Jennifer constatava, enquanto se aproximavam da porta frontal.

“Não se engane pela aparência, fique atrás de mim, com a arma destravada em punho.”

Anna empurrou devagar a porta pesada de madeira, que abriu fazendo um som metálico das dobradiças. O cenário era de uma casa no pós guerra, alguns poucos móveis quebrados, cacos de vidro, entulho, poeira, e ninguém.

Passaram pelo grande salão central, observando atentamente em todas as direções. Nada, nem um ruído saia daquela mansão sombria.

“Tem algum quarto secreto? Calabouço? Masmorra?” Jennifer questionava.

“Minha mãe falou que tem um quarto secreto nos fundos, um quarto do pânico.”

“Deve ser a única possibilidade de encontrarmos vida inteligente.”

“É para lá que estamos indo, então continue prestando atenção, não me ultrapasse.”

“Não sei porque você insiste nisso, eu já te ultrapassei alguma vez? Você é bem maior que eu, prefiro que vá na frente, melhor escudo humano impossível.” Jennifer riu.

“Shh, é aqui. Fique alerta.”

Anna posicionou-se em frente à porta, ergueu sua arma, e chutou a porta metálica, que abriu-se sem dificuldade. Deu uma olhada preliminar rapidamente, e chamou Jennifer.

Ambas caminhavam com passos calculados pelo quarto cheio de prateleiras de aço, e embalagens vazias no chão. Um barulho no fundo do quarto despertou a atenção delas, Anna colocou seu braço para trás, para evitar que Jennifer saísse dali, e apontou sua arma. Olhou mais de perto, e viu um rato cinza andando pelas embalagens plásticas.

“Alarme falso, é só o Mickey passeando.” Jennifer constatou.

Deram ainda mais uma olhada pelo quarto, mas nada relevante foi encontrado.

“Vamos para o andar de cima.” Anna ordenou.

O cenário no outro andar era semelhante ao térreo, lixo e poeira, nada vivo além de ratos, cômodo após cômodo.

“Vamos examinar a área externa, e então vamos embora. Ele não está aqui.” Anna falava, desapontada.

Depois de uma busca pelas garagens e jardins, perceberam que ninguém habitara aquele lugar por muito tempo, Victor deveria estar na cidade, mais perto do que gostariam.

 

“Ainda não acredito que você não deixou eu ficar com o gatinho, ele deveria estar com fome.”

“Jennifer, ele estava sobrevivendo ali até hoje, pode continuar sobrevivendo sem você.” Elas conversavam no carro, voltando para casa.

“Eu ia batiza-lo de Tom…” Jennifer resmungou, enquanto guiava.

“Você não cuida direito nem de você mesma, vai cuidar de um gato?”

“Eu queria ter um gato…”

“Depois conversamos sobre isso, pode ser?”

Chegaram em casa no meio da tarde, o prazo venceria na madrugada. O próximo passo seria checar os hotéis da cidade, Anna pegaria uma lista com Max e o buscaria em todos.

Essa busca terminou perto das dez da noite daquele domingo, Jennifer a acompanhou, de hotel em hotel, mas o resultado foi negativo.

A madrugada chegou, e nenhum sinal de Victor surgiu. A estratégia do dia seguinte seria tentar contato com conhecidos dele na Tailândia e na cidade.

Logo no início da tarde Anna e Jennifer voltaram de mais uma empreitada, sem sucesso.

“Nada?” Marianne perguntou.

Anna balançou a cabeça, desolada.

“Bom, eu só consegui a confirmação que Victor viajou para a América, ele realmente está aqui.” Marianne continuou.

“Mas deve ter se enfiado na…” Jennifer interrompeu o que falava, ao ver o olhar recriminador de Anna.

“Mãe… não tenho nenhuma pista, o que você sugere que façamos?” Anna falou, sentando ao lado da sua mãe.

“Vamos tentar os parentes, eu me recordo onde eles moravam, não são muitos.”

“Que seja então, essa tarde faremos essa varredura.” Anna falou, levantando, indo para a cozinha almoçar com Jennifer.

 

“Você parece cansada, sente-se aí que eu faço algo para almoçarmos.” Jennifer falou, a sentando numa das cadeiras.

“Ok, mas não precisa ser nada elaborado, pode ser um sanduíche.”

“Deixe comigo.” Jennifer já começava a preparar algo. “Esse cara, é mestre do ilusionismo hein? O Houdini sabe mesmo se esconder.”

“Temos que encontrar Victor antes que ele dê outro passo.” Anna apoiava a cabeças na mãos.

“Titio deve ter entrado no buraco do coelho. Ou vai ver alugou algum imóvel.”

“Jennifer, você tem razão, ele pode ter alugado uma casa!” Anna falou, erguendo a cabeça repentinamente.

“É uma possibilidade, mas como acharíamos?”

“Procurando casas com placa de aluga-se, não sei, tem alguma ideia melhor?” Anna falava com interesse.

“Bom, Becca trabalha numa imobiliária, posso falar com ela, a garota tem uma boa rede de conhecidos nesse ramo.”

Anna levantou-se, foi até Jennifer e passou seus braços ao redor da sua cintura, com um sorriso leve.

“Eu já te pedi em casamento hoje?” Anna falou.

“Não, mas é a primeira vez que te vejo sorrindo nos últimos dois dias, isso é melhor que um pedido de casamento.”

Após almoçarem, Anna teve uma breve conversa com sua mãe, no quarto dela, e iniciaria a busca pelas imobiliárias, com a ajuda de Becca. Ao se aproximarem da moto, estacionada em frente à casa, logo Anna percebeu uma flecha encravada no tanque. Ela correu até lá, arrancando a flecha, vertendo o combustível do furo.

“Desgraçado!” Anna bradou, olhando ao redor.

“Tem bilhete?” Jennifer perguntou.

Anna tirou o papel enrolado, e leu em voz alta.

Não me faça tomar uma atitude radical, você pegará o avião amanhã, estou te monitorando.” Era o que dizia.

“Porra Tio Victor, cresça né? Recadinho na flecha é muito conto de fadas.” Jennifer resmungou.

“Esse infeliz não vai desistir tão fácil, ele deve ter colocado pessoas vigiando a casa.”

“Sobrou até para a Paty, olha a merda que ele fez com ela…” Jennifer falava olhando para a moto, que ainda vazava.

O segurança amigo de Max surgiu na porta da casa.

“Rick, você não viu nada? Onde você estava?” Anna o interpelou.

“Estava lá dentro, sua mãe me chamou para ficar de vigília dentro de casa, por causa do sol forte. Eu não percebi nada aqui fora.”

Anna girava em seus pés, incomodada, olhando ao redor.

“Tá bom, entrem comigo.” Anna se dirigiu a entrada da casa, falaria com Marianne.

Entrou no quarto de sua mãe como um furacão, mostrando a flecha. Era um quarto amplo, com móveis antigos, e papel de parede florido.

“Mais uma, veja, mais uma ameaça infantil do seu irmão!”

O grande segurança e Jennifer também entraram, ficando atrás.

“Acertou alguém?”

“Paty.” Jennifer respondeu.

“Quem é Paty?”

“Minha moto, encontrei afincada no seu tanque.”

“O que diz o bilhete?”

“Leia você mesma, afinal é para você.” Anna lhe entregou o bilhete.

Marianne leu rapidamente, ficando ainda mais transtornada.

“Monitorando como? Estão aqui?” Ela perguntou.

“Não sei onde estão, devem estar por perto, mas não na nossa propriedade, e não deve ser ele pessoalmente, deve ter contratado pessoas para ficar de olho na movimentação da casa.”

“Temos que procurar, eu vou ajudar nas buscas.” Marianne falou, enfática.

“Não, você não coloca o pé fora desta casa, entendeu? Rick vai fazer sua segurança pessoal, vou pedir reforços para Max, para a segurança externa, e para a busca aqui ao nosso redor. Eu e Jennifer vamos seguir com nossos planos, procurar nas imobiliárias, é isso que será feito.”

“Isso está se tornando um jogo de gato e rato…” Marianne disse.

“Desde que você saiu de lá. Mas vamos até o fim com isso, você não volta para aquele país de forma alguma.” Anna estava incisiva.

“Cuidado aí fora, qualquer novidade eu ligo para você.”

“Não se preocupe, você é o alvo. Vamos Jennifer.” Anna a conduziu pelo ombro para fora.

“Vamos de carro, os dois estão aí fora.” Jennifer falou.

 

Estacionaram o carro no largo próximo à ponte, no Centro.

“O trabalho dela é aqui perto, não é?” Anna perguntava.

“Na rua de trás da rua de Max, quatro quadras a esquerda.”

“Ok, eu vou falar com Max e você vai falar com Becca, eu te encontro lá no trabalho dela.”

 

“Oi baby!” Jennifer chegou cheia de sorrisos no local onde Becca trabalhava, uma sala comercial com uma mesa comprida de ponta à ponta lateralmente, e atrás dela três funcionários, Becca no meio.

“Olha quem apareceu!” Becca levantou-se.

“Olá Henry! Olá Mary! Hum, cortou o cabelo? Ficou legal.” Jennifer cumprimentou os outros dois.

“Você também está ótima, Jenny.” Mary, uma garota de cabelos loiros curtos,  respondeu sorridente.

“Conseguiu uma folga na caçada ao tio terrorista?” Becca falou, depois de abraçar Jennifer.

“Não, estou em pleno exercício dela, e você também faz parte desta caçada agora. Podemos conversar lá atrás?”

“Claro, com sorte acharemos café fresco.”

“Opa, ainda está fumegante.” Jennifer já foi logo se servindo, já nos fundos.

“Que história é essa que faço parte disso? Hey, deixe um pouco para mim!”

Jennifer procurava o açúcar, enquanto Becca se servia.

“O tio do mal pode ter alugado uma casa, ou algum outro imóvel, é aí que você entra.”

“Você quer que eu procure nos aluguéis recentes?”

“Até que você pega rápido as coisas. Tome o açúcar.”

“Aqui não tem nem meia colher de açúcar!”

“E a culpa é minha por acaso? Vocês precisam repor isso.” Jennifer já bebia seu café.

“Ele pode ter usado dados falsos.” Becca falava enquanto abria um saco de açúcar, derrubando na pia. “Merda!”

“Depois diz que eu sou desastrada…” Jennifer comentou, já sentada num banquinho plástico.

“Vai ficar aí olhando?”

“Lógico, estou tomando café, não está vendo?”

Becca lançou um olhar fulminante, e voltou a limpar a pia.

“Mas respondendo sua pergunta, sim, existe a possibilidade dele usar outro nome, mas minha sogra conseguiu os dados da identidade falsa que ele costuma usar quando viaja, deve ter lançado algum feitiço pelo telefone para conseguir isso…” Jennifer sorriu com cinismo.

“Ela continua não te aceitando?” Becca bebia seu café recostada na porta.

“É… digamos que agora ela está ocupada com o irmão psicopata, e me deixou em paz.”

“Talvez eu possa te ajudar, posso pesquisar no sistema por esses nomes, e também pelo perfil dele, sabe a idade?”

“Sei tudo, tenho um papel aqui cheio de informações, se esbalde.” Jennifer tirou um papel do bolso, a entregando.

“Aqui tem outros nomes.”

“Possíveis nomes falsos, é bom pesquisar também. Se não encontrarmos nada aqui, vou fazer uma via sacra nas outras imobiliárias, você me ajuda?”

“Nas outras? Como?”

“Ah Becca, você tem seus contatos, já trabalhou em outras três.”

“Duas. Tá, vamos terminar o café e te passo os contatos das outras imobiliárias.”

“Boa menina.” Jennifer sorriu.

“E então, o novo cantinho da reflexão, ficou pronto?”

“Ficou, e é lindo, eu amei! Você precisa ir lá conhecer.”

“No início você não gostou da ideia.” Becca falou.

“Eu sei, mas agora eu adoro aquele píer, já é nosso cantinho especial.”

“Sua namorada e guardiã legal, onde está?”

“Serve essa atrás de você?” Jennifer falou com um sorriso irônico.

Becca virou no susto, Anna havia chegado.

“Guardiã legal?” Anna perguntou confusa.

“Sim, você roubou Jenny de mim, quase não a vejo mais.”

“Como assim roubei de você?”

“Baby, é modo de falar.” Jennifer ria. “Vamos para fora, terminei meu café.”

Becca pesquisava em seu computador, Anna aguardava sentada na cadeira em frente à mesa, e Jennifer mexia numa maquete de um condomínio residencial.

“Jenny, eu ainda me recordo do que aconteceu da última vez que você mexeu numa maquete.” Mary a alertava.

“Eu fiquei duas horas juntando coisinhas do chão.” Henry falou.

“Eu só estou tentando tirar o mini carro prata, relaxem.” Jennifer respondeu, debruçada na grande maquete.

Anna começou a esfregar as têmporas.

“Está enfincado na maquete por algum motivo, largue isso.” Becca falou.

“Jenny, eu não quero juntar coisas hoje.” Henry completou.

Um barulho de algo quebrando pode ser ouvido. Anna suspirou fundo.

“O que foi isso?” Becca perguntou.

“Foi só uma árvore que partiu, já coloquei no lugar, depois vocês colam.”

Anna se virou lentamente na cadeira, e olhou séria para Jennifer, que percebeu.

“Tá bom, já larguei, já larguei.” Falou e então sentou-se na cadeira ao lado de Anna.

“Meninas, eu sinto muito, mas não encontrei nada, já fiz a busca duas vezes.” Becca falou, com pesar.

“Tudo bem, deve ter umas dez imobiliárias na cidade.” Anna falou.

“Façamos o seguinte, eu vou com vocês nas imobiliárias, eles me conhecem, vai facilitar para vocês.”

“Becca, eu te amo, sabia?”

Anna a olhou.

“Eu também te amo, Anna, não fique com ciúmes.”

“Vou pegar minhas coisas, e já vamos.” Becca falou já saindo.

“Henry, posso ficar com esse carrinho? É igual ao meu Ignatious.” Jennifer falou abrindo a mão e mostrando o mini carro recém arrancado.

“Hoje você não derrubou nada, fica como brinde.” Henry respondeu, bem humorado.

A via crúcis terminou no fim da tarde, e absolutamente nada foi encontrado, nem uma pista sequer.

 

“Você tem aula hoje, não tem?” Anna perguntou para Jennifer, ao entrar em casa.

“Tenho, mas posso faltar.”

“Não, nada de faltar aula, não vamos fazer nada importante agora a noite, pegue seu material e vá.”

Jennifer fez uma expressão de reprovação, e por fim falou.

“Tá bom, mas se algo acontecer, você vai me chamar, não vai?”

“Vou.”

“Promete?”

“Mantenha o celular ligado.” Anna falou.

“Cuidado com seu tio infernal, ok? Você não sabe do que ele é capaz, não sabemos com o que estamos lidando, ele pode fazer mal a você para atingir a irmã.”

“Vá despreocupada, a casa está bem protegida, temos três vigilantes. E eu sei me cuidar, ou você não confia mais no meu potencial?” Anna terminou a frase abrindo um sorriso, e a puxando suavemente pela mão.

“Eu confio em todos os seus potenciais.” Ela entrou no clima.

“Obrigada pela ajuda, e por ficar do meu lado nesse momento complicado. Desculpe não estar te dando atenção.” Anna falou, após beija-la.

“Estamos no meio de uma missão, essa é um pouco mais longa que as outras, mas estamos juntas nessa, até o fim.”

“Vá, senão vai perder a primeira aula. Se quiser ir para seu apartamento depois da aula, para sair um pouco do clima tenso daqui de casa, tudo bem, ele não deve fazer mais nada hoje.”

“Pode ser, vou para minha casa então, mas amanhã de manhã estarei aqui.”

“De manhã, tipo uma da tarde?” Anna sorriu com ironia.

Jennifer ergueu o dedo médio e seguiu para seu Ignatious.

 

Na manhã seguinte, uma terça-feira chuvosa, Jennifer apareceu na mansão por volta das nove da manhã.

“Viu, nove horas é cedo.” Jennifer falou, ao encontrar Anna de pé na sala, Marianne e um segurança estavam sentados nos sofás.

Anna a chamou, gesticulando com a mão.

“Aconteceu alguma coisa? Vocês parecem mais preocupados que o normal.” Jennifer constatou.

“Rick recebeu um flechada nas costas hoje cedo.” Anna falou, num tom baixo de voz.

“Coitado do Rick! Como ele está?”

“No hospital, por sorte não atingiu nada importante, está bem.”

“Me desculpe os termos Marianne, mas seu irmãozinho é um babaca covarde.”

“Ele perdeu o controle, não está medindo as consequências.” Marianne respondeu, abatida.

“É um lunático. Ele sempre foi sádico assim?”

Anna pegou a sua mão e seguiram para a cozinha, antes que Marianne respondesse alguma coisa.

“Não adianta falar essas coisas, ela sabe que o irmão é um desgraçado, só vai fazê-la se sentir pior.” Anna falou de forma carinhosa.

“Desculpe, estava extravasando, fiquei indignada com o que aconteceu com Rick.”

“Todos nós ficamos. Venha para a mesa, fiz café e torradas para você.”

Anna acompanhava Jennifer tomando seu café da manhã, pensativa, recostada na pia.

“Essa é a pior missão de todas, porque não faço ideia do que fazer, não sei mais onde procura-lo, e não sei qual seu próximo passo.” Anna desabafou.

“Estamos ficando sem opções…” Jennifer comentou, enquanto bebia seu café.

“Nem sinal do monitoramento nós encontramos, nada, ele é muito bom nisso.”

“Acho que poderíamos ir nos locais onde ele e o pai dele tinham negócio aqui na cidade, mesmo que não sejam mais deles, podemos conseguir alguma pista.” Jennifer sugeriu.

“Hum.. é uma boa pedida para hoje. Eles tinham várias lojas aqui, talvez até mantenham algumas.”

“Vai que uma loja está servindo de QG para ele?”

“É, tem chances. Vou lá em cima ligar para Max pedindo um substituto para o Rick, e depois vou ligar para o hospital, para ter notícias dele. Depois nós saímos para mais um caçada, combinado?”

“Vá lá, vou ficar aqui terminando meu café.”

Anna sorriu, apontando o dedo para Jennifer.

“Você é a garota.”

“Eu sei, agora se manda.”

 

Um minuto depois e Marianne adentrou a cozinha, Jennifer engasgou com seu café, ficar a sós com sua sogra ainda a deixava em pânico.

“Café?” Jennifer ofereceu, gentilmente.

“Sim, estou precisando.”

“Está nesse bule branco.”

“Eu sei.” Marianne respondeu.

Jennifer ficou acompanhando atentamente todos os gestos de sua sogra. Quando terminou de se servir, virou-se e começou a beber encostada num balcão.

“Por que não senta? Me faça companhia.” Jennifer falou.

Marianne deu um gole, e então resolveu atender o pedido, sentando-se de frente para Jennifer.

“Me desculpe pela forma como falei com você sobre seu irmão, eu estava meio exaltada, por solidariedade à Rick.” Jennifer falava.

“Não se preocupe com isso.” Marianne continuava bebendo seu café, com seus gestos controlados, sem olhar para Jennifer.

Jennifer disfarçava, e dava umas olhadelas nela.

“O café dela é ótimo, não acha?” Perguntou.

“É sim.”

“Sabe, não é só pelo fato de ser um café importado e tal, ela sabe fazer mesmo, tem todo o processo, e ela coloca amor nisso tudo.”

Marianne finalmente encarou Jennifer.

“Anna costuma se dedicar ao que gosta.”

“É sim, por isso ela está se dedicando tanto em manter você por perto, ela não vai medir esforços para conseguir isso.” Jennifer falou.

“É uma situação delicada…” Marianne desviou o olhar.

“Bem delicada….” Jennifer tentaria mudar de assunto. “E Angie? Como ela é? Se parece com a irmã mais velha?”

“Muito, fisicamente elas são muito parecidas, quando Anna tinha essa idade era exatamente como Angie.” Marianne falava agora de forma relaxada, encarando Jennifer.

Jennifer sorriu.

“Vai ser engraçado juntar essas duas, não? Você tem foto dela?”

“Tenho, está lá no quarto, depois eu mostro à você. E vou perguntar para Anna se ela guarda os álbuns de família, para comparar com as fotos de Anna adolescente.”

“Eu iria amar ver essas fotos, sério.” Jennifer falou com excitação.

“Anna nunca te mostrou?”

“Você sabe a filha que tem, né? Eu já perguntei se ela tinha fotos, ela mudou de assunto rapidinho.”

“Anna nunca joga nada fora, com certeza ela tem esses álbuns. Ela é reservada, sempre foi assim.”

“E não é? Difícil arrancar alguma coisa dessa menina. Vai ser bom ter Angie por perto, acho que elas vão se dar bem.”

Então Marianne sorriu, surpreendendo Jennifer.

“Acho que Angie vai se dar melhor com você.”

Jennifer riu, balançou a cabeça concordando.

“Desconfio que sim.”

Anna entrou na cozinha, olhando ambas com estranheza.

“Você tem fotos da sua infância!” Jennifer falou para ela.

“Quem disse?”

“Sua mãe disse, e ela falou que você não joga nada fora. Eu quero ver esses álbuns. Tá, não precisa ser hoje, mas futuramente eu vou ver esses álbuns, entendeu?”

Anna olhou com espanto para sua mãe.

“Eu quero comparar suas fotos da adolescência com as fotos de Angie, você guardou os álbuns?”

Anna suspirou antes de responder.

“Guardei.”

“Rá!” Jennifer falou.

“Mãe, falei com Max, ele mandou outro segurança para cá. E Rick vai ter alta amanhã. Preciso de uma listagem dos estabelecimentos comerciais que sua família tem ou tinham na cidade. Mas vamos lá na sala fazer isto.” Anna falou, séria.

“É uma boa ideia, procurar nestes lugares. Vamos.” Marianne falou, antes de se levantar.

“E você, vá lá fora e mande aquele segurança mais alto, esqueci o nome, mande ele vir fazer a segurança da minha mãe aqui dentro.” Anna falou para Jennifer.

“Ted, o nome dele.”

“Chame Ted, então.”

 

Olly Murs – Hand on Heart – https://www.youtube.com/watch?v=W3vijeR0ZRs

 

Foi um dia de busca sem resultados, como os anteriores. De loja em loja, empresa em empresa, apenas informações vagas. Nada mais pertencia à família de Victor, ninguém ouvira falar dele nos últimos anos.

“Esse era o último da lista.” Jennifer conferiu no papel que levava consigo, passava das quatro da tarde.

“Nada, absolutamente nada…” Anna resmungava, desanimada, enquanto caminhavam na direção do carro estacionado próximo à uma praia.

“Continuaremos procurando, vamos revirar essa cidade, e as vizinhas, se for preciso.”

Anna passou direto pelo carro, indo na direção de um banco em frente ao mar. Havia algumas crianças brincando na areia, com seus pais sentados, por perto.

“Amanhã podemos revirar o porto, que acha?” Jennifer sugeria, sentando ao seu lado no banco de madeira.

“Pode ser.”

Jennifer passou a observar o mar, assim como Anna.

“Era aqui, era essa praia, agora reconheci. Era aqui que eu vinha com meus pais quando era criança, por causa do mar calmo.” Jennifer falou, sorridente.

“Você deveria dar um bastante trabalho aos seus pais.”

“Teimosia não é sinônimo de desobediência.”

Anna deu um riso fungado.

“Eu imagino eles tentando te acordar cedo, para ir para a escola.” Anna falou.

“Eu resmungava um pouco, mas raramente me atrasava.”

“Por falar nisso, você tem aula hoje.”

“Tenho. Você não me libera mesmo, hein?”

“Não tem necessidade de faltar, está tudo sob controle hoje, o bilhete da manhã nos dava mais 24 horas.”

“Eu prefiro ficar lá, caso algo aconteça.”

“Não vai acontecer nada, fique tranquila.” Elas continuavam olhando para frente.

“Você é um alvo, sabia? Seu tio te odeia, ele pode tentar algo contra você para forçar sua mãe a tomar uma atitude.”

“Eu prometo que me cuido, tá bom?”

“Ainda assim eu ficaria mais tranquila ao seu lado. Fazendo sua segurança.”

“Quando voltar da aula você vai para minha casa então, e faz seu serviço de segurança.” Anna respondeu.

“Mas é sério, eu fico preocupada, ontem durante todas as aulas eu só pensava nisso, não prestava atenção em professor algum. Ficava imaginando que alguém tentaria invadir sua casa, e poderia te fazer mal, te ferir…”

Anna sorriu, passou seu braço por cima dos ombros de Jennifer e a trouxe para perto.

“Não vai acontecer nada comigo, fique tranquila.”

Jennifer se aconchegou em sua namorada, recostando a cabeça em seu pescoço.

“Eu não sei o que faria da minha vida sem você…” Jennifer murmurou.

Anna deslizava a mão pelo braço de Jennifer, carinhosamente.

“Eu não vou a lugar algum.”

“Sabe, quando eu deixo você, é como se eu deixasse um pedacinho meu para trás, minha melhor parte. E eu só tenho paz quando consigo estar do teu lado de novo.” Jennifer falava com certa melancolia na voz, ainda apoiada em Anna.

“O que tira sua paz?”

“A incerteza de te ver de novo.”

“Eu estarei sempre do seu lado, e nos momentos em que não estiver, eu farei de tudo para estar novamente, o mais breve possível. Porque minha vida sem você é só escuridão, era assim que eu vivia antes de te conhecer, antes de me apaixonar por você.” Anna respondeu, calmamente.

Jennifer ergueu-se, fitando Anna, e deslizou seus dedos em seu rosto, enquanto a encarava com um olhar gentil.

“Toda vez que você sorri, eu me apaixono por você de novo. Algo me diz que eu vou te amar para sempre.” Ela falou.

Anna sorriu, e a beijou, com a sensação que nada além daquilo importava naquele momento.

 

Mas elas tiveram que voltar à realidade, logo já estavam em casa naquele fim de tarde, com Marianne andando pela sala, fazendo um trilho de preocupação.

“Alguma novidade?” Anna perguntou.

“Não, e vocês?”

“Apenas coisas vagas, alguns apenas lembravam de quando vocês eram os donos daquelas lojas, nada demais.” Anna respondeu.

“Victor não vai ter paciência por muito tempo, ele deve estar tramando algo, eu sinto.”

“Você quer que eu aumente a segurança na casa?”

“Não, acho que os três são suficientes, e Ted está o tempo todo no meu pé. Mas temos que nos preparar para algum ataque surpresa.”

“Já estamos preparados, mas eu vou providenciar mais armas.”

“Eu posso ficar aqui hoje também.” Jennifer falou baixinho para Anna.

“Não precisa. Vem, vamos subir, tomar um banho e ficar um pouquinho juntas, até a hora da sua aula.”

 

“Seu quarto parece uma loja de armas…” Jennifer falou, já na cama deitada em Anna, depois do banho.

“Tenho que me prevenir.”

“Eu estou andando com duas adagas.” Jennifer falou.

“Quer pegar uma arma lá na oficina?”

“Já peguei, está no carro.”

“Carregou?” Anna perguntou.

“Sabia que havia esquecido alguma coisa…” Jennifer sorriu. “Preciso ir.”

“Tá bom, vá assistir sua aula, depois venha para cá.”

“Você estará aqui, sã e salva, quando eu voltar, não vai?”

“Pare de bobagem, claro que estarei. Deixe o celular ligado.”

“Tem que ficar no silencioso, mas vou olhar o tempo todo se houve ligação sua.”

“Ok, vai lá.” Anna lhe beijou, e Jennifer levantou da cama.

Foi até o sofá, pegou seu casaco e mochila, mas acabou voltando, abraçando Anna com força.

“Se cuida.” Falou baixinho, depois lhe deu um beijo demorado, a segurando com ambas as mãos.

 

“Que ótimo, a bateria do celular acabou.” Jennifer constatava, enquanto dirigia de volta à casa de Anna, após a aula.

Assim que largou o celular no banco do passageiro percebeu que o carro diminuía de velocidade, mesmo ainda acelerando.

“Ah não Ignatious, sério que você vai pifar justamente hoje, aqui no meio do nada?” Falava sozinha, com irritação.

Conduziu devagar até o acostamento da rodovia, com apenas pastos e plantações de ambos os lados, procurava algum sinal de vida, mas tudo que havia era a estrada e o silêncio da noite, por vezes quebrado com o som dos poucos carros que passavam.

Com o carro ligado, tentava acelerar, mas Ignatious não se movia. Desceu do carro e abriu o capô, liberando uma boa quantidade de fumaça cinza.

“Que porra aconteceu com você?” Ela falava, entre uma tossida e outra.

Contemplava o motor sem entender nada de mecânica, como se estivesse olhando para um enigma matemático cabuloso.

“Algo deve ter soltado.”

Tentou mexer em alguns cabos, e acabou queimando o dedo numa superfície quente.

“Puta que o pariu, vou vender essa geringonça!”

Ergueu-se, olhando ao redor, continuava sem ver nada nem ninguém, decidia-se sobre o que fazer para sair daquela situação.

“Celular sem bateria, carro quebrado, vegetação de um lado, vegetação do outro, perfeito.”

Resolveu ir para a beira da estrada pedir por ajuda aos carros que passavam, sinalizava, mas ninguém parava.

Quase vinte minutos depois, um carro branco parou em frente ao seu carro, alguns metros além, deixando os faróis acesos, e dele desceu um homem bem vestido, de cabelos negros perfeitamente penteados para trás, com um sorriso amigável.

“Pifou?” Ele perguntou, ao se aproximar, já dando uma olhada na direção do motor.

“Não quer andar.” Jennifer respondeu.

“Posso dar uma olhada? Meu pai tem oficina.”

“Claro, estava começando a me desesperar aqui, estou sem celular e ninguém parava para mim.”

Ele tinha um belo sorriso, e Jennifer estava aliviada por enfim alguém simpático  ajuda-la. Emparelhou ao seu lado, enquanto ele olhava e mexia no motor, ela acompanhava tudo que ele fazia.

“Pode ter rompido algo do acelerador, você costuma leva-lo para a revisão?” Ele perguntou.

“Me disseram que estava revisado, quando comprei, há cinco meses atrás.”

“Acho que você deve cogitar a possibilidade de comprar um carro mais novo, o estado deste aqui não é dos melhores. Olha ali, aquela peça cinza com vermelho, está vendo? Está partida, pode se romper a qualquer minuto.” Ele explicava, com paciência.

“É, talvez depois de hoje eu o aposente.”

“Ok, mexi em algumas coisas aqui, vá lá dentro e acelere.”

Jennifer foi até o interior do carro, virou a chave e acelerou várias vezes, mas nada do carro se mover. Saiu, voltando a ficar ao lado do homem prestativo.

“Nada.”

“Acho que você vai ter que chamar ajuda, talvez um guincho.”

“Você teria um celular para me emprestar? Eu prometo que te pago a ligação.” Jennifer falou.

Ele tateou os bolsos, e respondeu.

“Tenho, deve estar no carro, vou buscar.”

“Muito obrigada, moço, você salvou minha noite.”

“De nada. E Jennifer, pode ir lá desligar o motor.” Ele falou, limpando as mãos.

“Ah ok, vou lá desligar. Espera aí, como você sabe meu nome?”

 

 

        Capítulo 44 – Angústia

 

Ted entrou correndo na mansão, esbaforido, trazia uma flecha nas mãos. Era onze da noite daquela terça-feira.

“Outra!” Ele falou ao entrega-la para Anna, que descia as escadas.

Anna rapidamente tirou o papel enrolado na flecha e leu em voz alta.

Eu avisei.” Era o que dizia.

Marianne veio correndo do seu quarto, e ouviu quando Anna fez a leitura do novo bilhete.

“Céus, ele irá fazer algo hoje!” Marianne exasperou.

“Ted, avise os outros dois que fiquem alertas, que talvez sejamos atacados hoje. E depois venha para dentro.” Anna ordenou.

“Mas o que será que ele irá aprontar?” Marianne perguntou.

“Você que sabe do que ele é capaz, estamos armados e prontos para revidar.”

“Ted, onde você achou esta flecha?” Anna perguntou, assim que Ted retornou.

“Na porta da oficina, eu fui fazer uma ronda nos fundos, quando voltei já estava lá, mas não deve ter mais que vinte minutos.”

“Ok, atenção redobrada, tudo indica que ele vai tentar algo ainda essa noite.”

“Anna, não tente nada arriscado, se ele realmente vier com seus homens eu irei com ele, não quero te colocar em risco.”

“Lutaremos até o fim, fique tranquila, confie em mim. Ele não ousará invadir nossa casa e sair ileso disto.”

Marianne foi até o sofá, sentou-se com as mãos no rosto, desesperada.

“Acho que vou pedir reforço para…” Anna parou o que ia falando, arregalando os olhos. “Jennifer. Já era para estar aqui.”

“Ela deve ter ficado conversando com os coleguinhas na escola. Ou então foi direto para casa dela.”

“Não, ela viria direto para cá, foi o combinado.”

“Daqui a pouco ela estará aqui, vamos nos concentrar nesse ataque eminente.”

“Mãe, ela já deveria estar aqui, alguma coisa aconteceu. Eu vou busca-la”

“Vai me deixar sozinha nesse momento crítico?”

“Você não está sozinha, e eu não demoro, apenas irei busca-la, talvez ela esteja a caminho.”

“Ok, mas não demore.”

“Não irei.” Anna foi até sua mãe, lhe dando um beijo na testa.

Correu na direção da cozinha, mas no caminho lembrou que sua moto estava no conserto.

“Ah não… vou ter que dirigir.”

Pegou a chave do carro novo de Jennifer na cozinha e foi para a rua, pulando para dentro do carro.

“Ok, nada de travar agora, é só um carro, ele irá fazer o que eu mandar, é só um carro…” Repetia para si mesma, com ambas as mãos suadas no volante.

Suspirou fundo e ligou o carro, manobrou batendo de leve no carro de um dos seguranças, e saiu pela rodovia, no caminho que dava para a escola.

Dirigia olhando atentamente para todos os lados, procurando pelo carro de Jennifer vindo em sua direção, alguns minutos depois avistou um carro com o capô aberto estacionado no acostamento. Era o Ignatious.

Freou bruscamente, parando o carro em frente ao carro prata de Jennifer, com os faróis ligados, e saiu afoita na direção dele.

Olhou pela janela do passageiro, e não viu ninguém. Olhou ao redor, não via sinal de vida vindo de nenhuma direção. Procurou ao redor do carro, desceu o pequeno barranco que havia ao lado do acostamento, mas Jennifer não estava lá.

“Jennifer! Jennifer!” Passou a chama-la, aos berros. Mas ninguém respondeu.

Andou impaciente de um lado para outro, tentando entender o que havia acontecido, voltou a bradar o nome de Jennifer, o desespero tomava conta dela, seu coração parecia querer pular do seu peito.

Voltou ao carro, olhou agora pela janela do motorista, e viu a chave na ignição. Deu mais uma olhada e avistou o celular dela, em cima do banco do passageiro. Pegou de lá e conferiu, estava sem bateria.

Quando estava tirando a cabeça de dentro do carro, avistou uma flecha fincada no estofado do banco de trás. Abriu a porta, entrou rapidamente no carro e arrancou a flecha de lá. Tirou o pequeno papel enrolado e leu a mensagem.

Eu avisei.

“Não… não… Jennifer não…” Anna desesperou-se, quebrando a flecha ao meio.

Anna saiu do carro, e começou a chutar sua lataria, amassando a lateral. Desistiu, foi para a frente do carro com passos trôpegos, ajoelhou-se no asfalto em meio àquele desespero.

“Seu desgraçado! Por que não me levou? Não! Você não poderia ter levado Jennifer! Não!” Gritava entre um pranto que começava a surgir, de joelhos.

Olhou para baixo e viu o mini carro prata que Jennifer havia tirado da maquete, juntou e o observou.

“Não… Isso não pode estar acontecendo… Eu vou te encontrar, eu prometo, eu vou achar você e aquele desgraçado.” Falava com a voz embargada.

Levantou-se, guardou o carrinho no bolso, voltou até o carro tirando a chave da ignição, o travando. Deu mais uma olhada ao redor do carro, procurando pistas, mas nada foi encontrado.

 

“Ele a levou!” Anna falou com a voz elevada, batendo a porta ao entrar na sala da sua casa, atraindo a atenção de Marianne e Ted, nos sofás.

“Jennifer?” Marianne perguntou.

“Ele não vai atacar nossa casa, ele levou Jennifer!” Anna atirava no sofá ao lado de Marianne os dois pedaços da flecha, com o bilhete.

“Não tínhamos como prever isso…” Marianne balançava a cabeça desolada.

“Aquele desgraçado… Ele não sabe com quem está lidando, eu vou acabar com a raça dele.”

“Calma Anna, talvez ele use Jennifer como moeda de troca, vamos esperar o contato dele.”

“Ela não é moeda de troca!” Anna vociferava, em frente Marianne.

“É seu jogo, não conhecemos as regras, o próximo passo será dele.”

“E sabe o que é pior?” Anna agora andava pela sala. “Eu já o procurei em todos os lugares possíveis, não sei mais onde procura-lo!”

“Espere, ele irá fazer algum contato, não se desespere.”

“E se não fizer? E se ele já a tiver matado?”

“Não pense no pior, pense que ele não tentará nada contra nós hoje, ele irá negociar amanhã.”

“Como mantem essa frieza? Mãe, você ainda não entendeu que ela é a mulher que eu amo? Se ela morrer, levará minha vida com ela.”

“Acalme-se Anna, não vai acontecer nada com ela, não adianta se desesperar agora.”

Anna andava com a mão na testa, com a respiração curta. Acabou sentando no outro sofá, esfregando as mãos nas pernas.

“Por que ele está fazendo isso? Por que ele não deixa você seguir sua vida, e ele segue a dele?” Anna perguntou, com uma expressão sofrível.

“Não é só por mim que ele está fazendo isso, ele quer Angie também. Victor não se casou, sempre se dedicou apenas aos negócios, e Angie era como uma filha para ele.”

“Ele quer viver a sua vida.”

“Eu e Angie somos a única família dele.”

“Você não está defendendo esse miserável, está?”

“Não, claro que não, só quero que você entenda o que está por trás destas ações.”

Anna espojou-se para trás no sofá, cobrindo os olhos com as mãos.

“Ela vai voltar, sã e salva, não perca a fé.” Marianne falava com uma voz branda.

“O que eu faço agora?” Anna falava com visível sofrimento na voz.

“Espere, Victor deve se manifestar em breve.”

“Esperar…”

“Foi o que eu fiz por dezessete anos.”

Anna voltou a colocar as mãos na pernas, não disfarçava seu desespero.

“E eu perdi dois maridos, então sei a dor de se perder quem se ama.” Continuou.

“Não posso perder Jennifer.” Levantou-se bruscamente do sofá. “Isso não está acontecendo… é algum pesadelo, eu quero acordar disso, eu quero Jennifer de volta, ao meu lado. Ela passou o dia todo ao meu lado, parecia estar pressentindo algo. Não consigo acreditar que ele a levou… isso é inadmissível.”

“Você precisa raciocinar com a cabeça fria, não pode se desesperar.” Marianne disse.

Anna olhou de forma dura para sua mãe por algum tempo, antes de falar.

“Eu vou subir, boa noite.”

Mas Anna não dormiu naquela noite, vagou pelo seu quarto, desceu algumas vezes durante a madrugada, viu o sol surgindo vagarosamente da sua sacada.

No início da manhã encontrou sua mãe na cozinha.

“Você está péssima, não dormiu?” Marianne perguntou, sentando à mesa.

Anna não respondeu, continuava fazendo o café.

“Estive pensando, acho que você poderia visitar alguns galpões abandonados hoje, ou até mesmo casas abandonadas.”

“Pode ser.” Anna respondeu, sem ânimo.

Anna carregou o celular de Jennifer e viu as últimas ligações, havia uma feita para Becca as dez da noite, resolveu ligar para Becca.

 

“Não, eu queria poder falar que está tudo bem, mas não está.” Anna respondeu ao cumprimento de Becca.

“O que aconteceu? O que Jenny aprontou?”

“Meu tio levou Jennifer, ontem à noite.”

“Levou? Que porra é essa?”

“Depois da aula. Becca, ela ligou para você as dez, ela te falou algo importante? Pediu socorro, descreveu alguma coisa, falou algo que possa me dar alguma dica?”

“Onde ela está?”

“Eu não tenho ideia, Becca. Por isso estou te ligando, preciso de pistas.”

“Ãhn… não sei, não, não falou nada relevante, deixa eu lembrar. Ela só comentou que a aula havia sido chata, que estava preocupada com você, porque o tio dos infernos poderia invadir a sua casa, que ainda não tinha pistas dele, foi só, ela estava saindo da escola quando me ligou.”

“Ok, entendi… o rapto aconteceu no caminho para minha casa, foi depois de falar com você então.”

“O que você vai fazer? Anna, você precisa encontra-la, antes que aquele louco faça algo com ela!”

“Eu sei, Becca. Eu vou continuar as buscas, é bem provável que ele a use para troca.”

“Quer que eu vá aí?”

“Não, não precisa, eu vou sair daqui a pouco para continuar as buscas.”

“Você vai me manter informada, ok? Vai me repassar qualquer novidade que descobrir, senão eu vou ter que bater em você.”

“Prometo te manter informada.”

Aquele foi o mais longo dos dias para Anna, uma quarta-feira chuvosa e cinza. Fez andanças por toda a cidade, e não conseguiu sequer uma pista.

Já a noite, desceu após o banho e sentou-se ao lado de sua mãe, em frente à TV ligada na sala.

“Eu não faço ideia do que fazer amanhã, ele já deveria ter feito contato para a troca.” Anna falou.

“Temos que contar com a possibilidade dele não querer fazer uma troca.”

“Como assim?”

Marianne hesitou antes de continuar.

“Talvez ele tenha pego a garota para se vingar.”

“E não está pensando em devolver?”

“Isso, talvez ele tenha apenas feito uma baixa, para nos intimidar.”

“Uma baixa??” Anna a olhou assustada.

“Anna, temos que levar em conta a possibilidade dela não voltar.”

Anna balançava a cabeça incomodada.

“Você tem ideia do que está falando? Eu não vivo sem ela, você parece não ter ainda entendido isso.”

“Filha… é uma possibilidade, e não seria o fim do mundo. Quem sabe você volte a se envolver com homens, arranje…”

“Não, não continue, não termine a frase, não ouse terminar a frase.” Anna falou com irritação.

“Desculpe, não quis ser pessimista, mas temos que pensar no que Victor pode estar tramando.”

“Eu vou para o meu quarto, ok? Me chame se tiver notícias.” Anna falou, saindo da sala.

Uma hora depois Marianne entrou no quarto de Anna, que estava sentada no sofá em frente a cama, segurando a cabeça com as mãos.

“Acho que temos notícias…” Marianne falou, com uma voz contida.

“Qual?” Anna levantou-se rapidamente.

“Uma flecha, acabamos de encontrar, na lenha cortada em frente à casa.”

“Com bilhete?”

‘Sim.”

“E o que dizia o bilhete?”

“Volte para a casa antes que eu tenha que agir de novo.”

“Só? E Jennifer?”

“Não mencionou nada.”

Anna apenas encarava sua mãe, sem reação.

“Talvez ele a use mais tarde, não perca as esperanças.” Marianne continuou.

“Não perderei.” Anna falou de forma concisa.

“Quer voltar a ver TV lá embaixo? Para espairecer.” Marianne a convidou.

“Não, me deixe sozinha um pouco.”

Alguns minutos depois Anna desceu até a sala, onde sua mãe via TV no sofá.

“O que ele é capaz de fazer?” Anna perguntou, com os pés fixos à frente de sua mãe.

“Acho que ele não faria mal à própria família, ele sempre foi apegado aos familiares.”

“Ok, você conviveu com ele nos últimos anos, você o conhece bem, então quero que seja sincera, quero o cenário realista, baseado no que você sabe do que ele é capaz de fazer, e do que já fez.” Anna sentou-se na poltrona, mantendo-se inclinada para frente, na direção da sua mãe.

“Eu não sei…”

“Mãe, me escute. Eu não conheço meu tio Victor, só lembro das poucas vezes que você o citava, sobre como ele fora contra seu casamento, não sei quase nada sobre ele. Mas você sabe, me fale algo mais substancial, por favor.”

“Apesar dele ser um pouco violento, eu acho que ele não faria mal à nós.”

“À você com certeza não, mas e Jennifer, que é uma estranha para ele, apenas uma isca para conseguir algo maior, ele seria capaz de fazer algo com alguém que ele não tem nenhum vínculo?”

“Talvez… não posso afirmar nada, quem sabe ele apenas queira chamar atenção, com esse sequestro.”

“Talvez? Então você já o viu sendo violento com alguém?”

“Sim, quer dizer… eu nunca presenciei nada, mas eu sei de coisas que ele fez, ou mandava fazer.”

“Que tipo de coisas?”

Marianne não falou nada, apenas a encarou receosa.

“Que tipo de coisas, mãe?” Anna insistiu.

“Ele estava envolvido com o tráfico, se metia com coisas pesadas, eu sei que algumas vezes para conseguir o que ele queria ele torturava, matava… Mas só em casos extremos.”

Anna levantou-se bruscamente da poltrona, voltou a andar pela sala.

“Merda! Merda!”

“Você nunca foi de falar palavrões, Anna.”

“Que se fodam os palavrões!” Anna chutou uma mesa de centro de madeira, a partindo ao meio.

“Ele não vai fazer nada com a garota, se acalme.”

“Mãe… Eu juro, se esse cara encostar nela, se ele fizer qualquer coisa com ela, eu mato meu querido tio Victor, eu acabo com a raça dele, não importa se é seu irmão, ele vai pagar caro se machucar Jennifer.”

“Seja otimista, precisamos ser otimistas, ninguém vai se machucar.”

Anna apenas a olhou, tentando conter sua explosão, achou melhor subir para seu quarto.

 

Bush – Glycerine – http://www.youtube.com/watch?v=pU6KhFWvKPM

Algum tempo depois, já sozinha em seu quarto novamente, e tentando ordenar seus pensamentos, Anna resolveu envolver a polícia.

“Laura? Sou eu, Anna.”

“Que agradável surpresa! Como está? E Jenny?”

“É sobre ela que quero falar com você.”

“Hum, manda.”

“Jennifer foi sequestrada ontem à noite pelo meu tio, um psicopata que quer que minha mãe volte a morar com ele em outro país.”

“Que horror! Já prestou queixa?”

“Não, com todo respeito, não acredito na polícia, e acho que eles não moveriam um dedo para busca-la. Mas acredito no seu trabalho, preciso da sua ajuda.”

“Que coisa maluca isso, Anna. Levou e não fez nenhum contato, não pediu um resgate?”
“Nada, apenas quer que minha mãe volte para lá, eu não faço ideia do que aconteceu com Jennifer, já não sei onde procurar, revirei tudo que pude.”

“Eu vou inclui-la nas minhas rondas, vou procurar esse cara para você, mas preciso de mais detalhes.”

“Te repasso todos que quiser.”

 

Aquela foi outra noite passada em branco para Anna, de madrugada desceu e ficou andando pela sala como um fantasma insone. Já com o sol surgindo, acabou adormecendo no sofá, com a TV ligada, sentada. Sua mãe a acordou, tocando em seu ombro.

“Filha, vá dormir na sua cama.” Sussurrou.

Anna acordou sem entender o que estava acontecendo, olhou ao redor assustada.

“Não, preciso sair, vou continuar as buscas.” Falou coçando os olhos vermelhos.

“O quanto você dormiu nas duas últimas noites?”

“O suficiente. Só preciso de um café forte.” Ela saiu, na direção da cozinha.

 

Estava terminando o café quando recebeu duas visitas na cozinha, Bob e Becca.

“Alguma notícia de Jenny?” Becca perguntou.

“Ainda não…”

“Desde quando ela está sumida?” Bob questionou, sentando numa das cadeiras, ao lado de Becca.

“Anteontem, terça.”

“Dois dias sem sinal algum?”

Anna balançou a cabeça negativamente, cabisbaixa, estava recostada na pia, de braços cruzados.

“E o que pretende fazer agora?”

“Mais buscas. Vou revirar o porto hoje.”

Becca ficou um instante pensativa, antes de falar.

“Ela deve estar apavorada, você precisa encontra-la logo, coloque outras pessoas nas buscas também.”

“Já tem outras pessoas ajudando, pedi ajuda à uma amiga policial que está a procurando, Max colocou alguns homens para procurar também, são profissionais.”

“Esse cara deve estar no buraco do coelho.” Becca resmungou.

“Foi o que Jennifer falou.” Anna disse, com um leve sorriso de lado.

“Não sei como, mas se precisar de nossa ajuda, não hesite em pedir.” Bob se ofereceu.

“Eu farei.”

“Bom, não queremos atrasar suas buscas, lembre-se do que falei, nos mantenha informados.” Becca falou, se levantando.

 

Anna saiu para buscas no porto ainda no início da manhã, conversou com marinheiros e funcionários, verificou dezenas de contêineres, mas nada foi encontrado. Voltou para casa a noitinha, guiando o carro negro de Jennifer, o trauma de dirigir quase nem era mais lembrado, ela estava focada em outra coisa.

Cansada e faminta, dirigia pela rodovia planejando o dia seguinte, qual seria a estratégia de busca. Quando reduziu a velocidade para entrar no caminho que levava até sua casa, foi pega de surpresa por uma saraivada de tiros em sua direção. Um carro havia se emparelhado ao dela, e efetuou dezenas de disparos em sua lateral e janelas, todo o ataque durou pouco mais de um minuto, e o carro arrancou em velocidade, sumindo na rodovia e na escuridão.

Com o ataque repentino, o carro de Anna acabou saindo lentamente da pista, parando no acostamento, quase tombando no barranco ao lado da rodovia. Dentro dele, Anna estava curvada na direção do banco do passageiro, com as mãos protegendo a cabeça, imóvel.

Ergueu-se devagar, ainda recompondo o fôlego, tentando voltar a respirar normalmente. Baixou os braços, e olhou para o lado. Foi então que entendeu o que havia acontecido, e porque não estava morta. O carro era blindado.

“Vô William, te devo essa…” Murmurou, ainda tremendo.

Levou algum tempo para se acalmar, e pensar de forma racional. Deu ré e entrou na estrada para sua casa, com o veículo repleto de marcas de tiros na lataria e vidros, nenhum havia ultrapassado a blindagem, apenas feito um bom estrago.

Entrou em casa, e encontrou sua mãe saindo da cozinha, que levou um susto com o estado dela.

“Anna? O que aconteceu? Você está branca como um papel!”

Anna apenas a fitou, com um semblante transtornado, e se aproximou de sua mãe.

“Venha aqui fora ver uma coisa.” A convidou, com a voz tremida.

Conduziu Marianne até a lateral do carro, apontando para as marcas.

“Foi isso que aconteceu, tentaram me matar.” Ela explicou.

“Meu Deus, você está bem? Algum tiro atingiu você?”

“Como pode perceber, o carro é blindado. Mas sabe o que foi pior? Eu não sabia disso.”

“Vamos entrar, é perigoso ficar aqui fora.” Marianne falou, olhando para os lados.

Anna entrou devagar na sala, o susto ainda não havia passado, estava em choque.

“Seu irmão me quer morta, e quase conseguiu. Acho que ele não me considera da família…” Anna ironizou.

“Agora eu vejo que ele é capaz de qualquer coisa…” Marianne falava desanimada, esfregando a mão no pescoço.

“Chega por hoje, vou subir.”

 

Na manhã seguinte, enquanto tomava o café com sua mãe, Marianne voltou a tocar no assunto do atentado.

“Você não conseguiu ver nada? O carro, alguma informação que possa ser útil…”

Anna ergueu a cabeça, pousando sua xícara.

“Eu só percebi a ação quando já estava sendo alvejada. E depois fugiram, eu ainda me protegia.”

“Foi rápido, não foi?”

“Acho que sim, perdi a noção de tempo na hora.”

Continuaram em silêncio, Anna pensativa.

“Eu me lembro de uma coisa, o carro era branco.”

“Branco? Victor tinha um carro branco. Talvez não seja o mesmo, mas será que aquela sua amiga policial não pode nos ajudar?” Marianne falava, com esperança.

“Você lembra o modelo, marca, algo do tipo?”

“Era um Ford Taurus, mas não sei o ano.”

“Eu vou ligar para ela.”

 

“Eu posso ir lá averiguar, dar uma batida.” Laura respondeu, após localizar um endereço no sistema, baseado nos dados que Anna havia lhe repassado.

“Onde fica? É uma empresa?”

“É um endereço num bairro comercial na periferia, de galpões, está em nome de pessoa física, mas talvez o local seja uma empresa sim.”

“Eu vou com você.” Anna animava-se.

“Tem certeza? Pode ser perigoso.”

“Laura, meu carro levou cinquenta tiros ontem, medo já não faz mais parte do meu vocabulário, já não temo mais pela minha vida. Me deixe ir com você.” Insistia.

“Ok, vamos te buscar em uma hora.”

 

Próximo do meio-dia a viatura com Laura, devidamente fardada, com o cabelo negro preso numa trança e seus óculos de aro grosso, e um outro jovem policial, parou em frente à casa de Anna, a buscando. Minutos depois já andavam pela rua do endereço anotado, procurando pelo galpão certo. Alguns pareciam abandonados, parcialmente destruídos, outros, recém construídos.

Estacionaram o carro em frente à um galpão de médio porte, metálico, parecia em más condições, mas não abandonado.

“Eu vou com vocês.” Anna falou já tirando sua arma do coldre, fechando a porta do carro.

“Mas deixe a abordagem conosco. Você segue atrás de nós, atrás, ok?”

“Fique tranquila.” Anna agora entendia o que Jennifer sentia quando ouvia isso dela.

Os policiais e Anna seguiram até os fundos, onde havia uma pesada porta de aço, destrancada. Arrastaram e adentraram com cautela, Anna seguia atrás, olhando em todas as direções, apreensiva.

Estava escuro naquele ambiente, apesar da luminosidade que vinha das emendas entre as paredes e o telhado, também metálico. Só era possível enxergar caixas de madeira e alguns pedaços de tecido pelo chão, e cheirava a mofo.

Passaram por todo aquele ambiente e entraram num corredor, ninguém fora visto até então, tudo estava em silêncio, mas o local parecia ocupado, não havia muita poeira nem objetos e móveis quebrados, as caixas de madeira pareciam colocadas ali há pouco tempo.

Na lateral do corredor havia uma porta de divisória, que Laura resolveu abrir. Ela entrou na frente, com a arma em riste, deu dois passos lentos, permitindo que os outros também entrassem e visualizassem o local. Era uma grande sala, abafada, ocupava a maior parte do galpão. Haviam dezenas de máquinas de costura dispostas em fileiras, vários pedaços de roupas em cima delas, eram máquinas semi industriais, algumas de corte.

Dividiram-se pela sala, olhando atenciosamente em todos os cantos, embaixo das máquinas, reviraram todos os lugares possíveis, mas nada nem ninguém foi encontrado.

Com um barulho no andar de cima, os três ergueram suas cabeças ao mesmo tempo, assustados.

“Passos, eu ouvi passos.” Anna sussurrou.

“Passos apressados.” Laura concordou.

“Vamos subir.” O policial completou, e Anna seguiu na frente, correndo.

Saíram daquele corredor e encontraram a escada estreita de aço, que fazia grande barulho com as pisadas fortes deles. Lá em cima, havia uma espécie de mezanino, e duas portas, que parecia ser o escritório daquele local.

O policial apontou com o indicador a porta da esquerda, que foi de onde ouviram o som dos passos. Laura ergueu a mão, não permitindo que Anna tomasse a frente.

“Deixe comigo.” Falou em seu ouvido, voltando a erguer sua arma.

Laura abriu a porta devagar e no mesmo instante uma gritaria pode ser ouvida, vozes que pareciam pedir clemência. Laura adentrou a sala e Anna a seguiu, tentando entender o que acontecia ali.

“Esperem! Não iremos fazer mal à vocês!” Laura gritava, tentando acalmar aquela pequena multidão de pessoas acuadas num canto da sala, na maioria mulheres.

As vozes não diminuíam, continuavam ecoando, com gemidos amedrontados e gritos.

“Não estou entendendo nada do que estão falando, vocês me entendem? Acalmem-se!” Laura falava gesticulando as mãos, pedindo calma.

“Alguém aqui fala a minha língua?” Ela perguntou, bradando.

“Laura, deixe comigo, eu falo espanhol.” Anna se adiantou, tomando a frente e se aproximando do grupo.

Após alguns minutos de uma conversa não muito organizada, mas que foi acalmando o grupo, os deixando quietos, Anna entendeu o que acontecia ali.

“Vamos embora.” Anna falou, cabisbaixa, para Laura.

“O que eles falaram?”

“São funcionários clandestinos nessa confecção, imigrantes ilegais de Porto Rico, não tem visto de permanência e se apavoraram quando viram a viatura aqui, acharam que seriam presos e deportados.”

“E o carro?”

“Está lá fora, do outro lado, disseram que usam para o transporte das roupas.”

“Vamos lá ver.”

Foram até o carro, que realmente estava estacionado do outro lado do galpão, um Taurus branco em péssimo estado, com a lataria avariada e com ferrugem. Dentro várias caixas de papelão com roupas amarradas em fardos.

“Impossível ser esse carro.” Laura se certificava.

“Não é mesmo.” Anna falou após um longo suspiro.

Voltaram para a viatura, o policial entrou e Laura foi até Anna, colocando a mão em seu ombro.

“Sinto muito não ter dado em nada, mas não perca as esperanças, nós vamos encontrar Jenny.” Ela falava, tentando animar Anna, que parecia abatida.

“Eu nunca vou perder as esperanças.” Anna retribuiu o olhar.

“Seu tio tem que estar aqui por perto, porque ele continua com as ameaças e flechas, e se ele está por aqui, nós vamos descobrir onde, eu vou continuar as buscas.”

“Obrigada, Laura. Pode ter certeza que Jennifer vai agradecer você pessoalmente por todos os seus esforços.” Sorriu de leve.

“Se você encontrá-la antes de mim, diga que ela me deve um chope.” Laura sorriu também, e entrou na viatura.

 

Anna chegou em casa passando das duas da tarde, comeu qualquer coisa na cozinha e já se preparava para sair de novo.

“Alarme falso no galpão?” Marianne perguntou.

“Infelizmente sim, era uma empresa clandestina, só isso.”

“Vai onde agora?”

“Fazer buscas em Westport.”

“Com o carro desse jeito?”

“Consigo dirigir assim, não se preocupe.”

“Não volte à noite, você pode sofrer novo atentado.” Marianne se aproximou, falando com preocupação.

“Mãe, tanto faz… Ele vai tentar me matar em qualquer hora do dia, eu estarei preparada para ele. Se eu for pega de surpresa, paciência, ele vencerá.”

“Não fale assim…”

Anna lançou um olhar cansado para sua mãe.

“Até mais tarde.” Pegou as chaves e saiu.

 

Retornou a noitinha, ao passar pelos portões da mansão percebeu os três seguranças reunidos do lado de fora, dois curvados e o outro agachado, olhavam algo no chão.

Anna estacionou rapidamente o carro e foi ver o que estava acontecendo, ao se aproximar conseguiu identificar o que eles olhavam assustados, no chão.

Era um coelho branco, morto e ensanguentado, com uma flecha cravada em seu dorso.

“Eles são muito rápidos, num minuto de distração e isso já estava aqui.” Ted falava, se erguendo, olhando para Anna.

Ela se abaixou, olhou a cena por alguns segundos, e arrancou a flecha, tirando o bilhete enrolado.

Não estou no buraco do coelho. Seja mais criativa, estou lhe esperando.”

“Que ótimo, agora está zombando de nós, era o que me faltava…” Anna murmurou.

“Esse cara é algum doente? Com o que estamos lidando?” Um dos seguranças perguntou.

“Eu também gostaria de saber. Mas por precaução, vamos lidar com o pior tipo possível. Mantenham a vigília alerta, se quiserem trocar de turno agora, Max manda outros para cá.”

“Estamos nos revezando, a princípio hoje ninguém troca aqui.” Ele respondeu.

“Ok, vou entrar, qualquer movimentação, me chamem.”

 

Dido – Here with Me – http://www.youtube.com/watch?v=PSu5nAQ7uZw

Anna entrou e entregou o bilhete à sua mãe, sem falar uma palavra sequer, e subiu para seu quarto. Fez algumas ligações, tomou um banho e desceu para jantar. Na saída da cozinha, sua mãe a chamou, da sala.

“Nada hoje à tarde?”

Anna balançou a cabeça, negativamente, devagar.

Marianne percebia a angústia, e todo o esgotamento físico e emocional que sua filha estava passando.

“Quer conversar?” Falou com uma voz suave.

“Não, não quero.”

“Então durma um pouco, para recarregar as baterias.”

“Vou tentar.”

“Quer ficar aqui um pouco?”

“Vou para cima me planejar para amanhã. Boa noite.”

Algumas horas depois Anna acabou adormecendo em sua cama, dormia profundamente quando seu celular tocou, era Laura.

“Alô, Anna? Tenho notícias.”

Anna sentou-se rapidamente na cama, despertando assustada.

“A encontrou?”

“Ãhn… talvez.”

“O que você achou?”

Laura fez silêncio por um instante.

“Encontramos um corpo no acostamento de uma rodovia aqui em Westport, as características físicas batem com as de Jennifer.”

Anna emudeceu, sentiu-se fortemente golpeada no peito, como se tivesse levado um tiro.

“Mas não consegui fazer o reconhecimento, porque o corpo está bastante danificado, principalmente o rosto, eu não posso afirmar que é ela. Está me ouvindo?”

“Anna? Está aí?” Laura insistia.

“Estou.” Respondeu, sentindo a cabeça girar, enjoada.

“Acho que você vai ter que vir aqui reconhecer o corpo, tudo bem? Talvez se você conseguir com o dentista dela algum raio-x, também ajuda.”

“Eu irei. Onde está?”

“No necrotério municipal de Westport. Mas quem sabe você possa me ajudar, Jennifer tem alguma mancha de nascença, alguma tatuagem?”

“Não, ainda não, ela queria fazer uma tatuagem, mas não fez.”

“Ok, então vou realmente precisar de você aqui.”

Anna coçou os olhos, incomodada.

“Estou indo.”

“Estarei aqui te esperando, peça para me chamarem na recepção.”

“Laura, você está próxima do corpo?”

“Estou na sala ao lado, por que?”

“Você pode verificar uma coisa?”

“Posso, estou indo para lá, só um instante.”

Alguns segundos depois, e após Anna ouvir o barulho de uma gaveta metálica sendo aberta, Laura respondeu.

“Sim, pode falar agora.”

“Você pode vira-la de costas?”

“Ãhn, posso, vou pedir ajuda para o funcionário aqui, espere.”

Alguns segundos e ruídos abafados depois, Laura retorna.

“Pronto, o que devo procurar?”

“Você consegue ver cicatrizes, nas costas dela?”

“Cicatrizes? Tipo, várias, de todos os tamanhos?” Laura indagou.

“Isso.”

Novamente Laura permanece alguns segundos em silêncio, fazendo um teste de nervos brutal com Anna.

“As costas dela tem tantas cicatrizes quando as minhas, ou seja, nada.”

Anna soltou um suspiro forte, quase um sopro, fechando os olhos.

“Não é ela, Jennifer tem várias cicatrizes nas costas. Não é ela, não é ela, Laura.”

“Que bom! Fico aliviada, vamos continuar buscando nossa garota então. E coitada desta aqui, agora não fazemos ideia da identidade dela.”

“Obrigada, mesmo você tendo quase me matado do coração agora, mas eu agradeço todo seu empenho.”

“Desculpe o susto, mas tínhamos fortes indícios que poderia ser ela.”

“Eu sei, eu sei. Obrigada por ter ligado.”

“Bom, vou retomar aqui meu turno, qualquer novidade eu te ligo.”

Anna desligou o telefone e jogou sobre a cama, saiu correndo para o banheiro. Mal teve tempo de abrir a tampa da privada, e vomitou. Foi até a pia, jogando água abundantemente em seu rosto, molhando parte de sua blusa cinza. Enxugou-se devagar, se encarando no espelho, ofegante.

Mesmo com a luz do banheiro apagada, a claridade que vinha da sacada iluminava seu rosto no espelho, enxergava os sinais de exaustão, os olhos vermelhos e abatidos. Se deu conta que aquela tarde de tortura com Vivian não havia sido sua maior prova de resistência psicológica, estava experimentando uma mais extenuante agora. E ela não podia ver o que estava acontecendo com Jennifer, por piores que fossem as cenas assistidas anteriormente, naquela ocasião ela tinha total conhecimento do que se passava com sua namorada, era um mínimo de controle da situação, que ela não tinha agora.

Fechou a torneira e desceu para a sala, onde sua mãe via TV.

Sem falar nada, deitou-se sobre as pernas de Marianne, a abraçando com força, passando seus braços ao redor da sua cintura, e desabou num choro.

“O que aconteceu?” Marianne a fitava assustada.

Anna não conseguia responder, seu choro vinha em soluços.

“Vai ficar tudo bem… vai ficar tudo bem…” Marianne afagava seus cabelos, e falava baixinho, tentando acalma-la.

Ela continuava chorando sem sequer conseguir controlar seu queixo, que tremia. Marianne continuava num carinho silencioso, a observando, consternada.

“Filha, você não pode cair em desespero… Mas se isso aliviar um pouco sua angústia, então coloque para fora.” Marianne falava, próximo ao seu ouvido.

“Você não entende…” Anna falou, após um soluço.

“Eu entendo, claro que eu entendo, eu já consigo ter uma visão melhor das coisas…” Ela hesitou antes de continuar. “Eu sei o quanto você gosta dela.”

Ficaram em silêncio novamente.

“Novamente… por culpa minha.” Anna falou baixinho.

“Não é culpa sua, é minha, eu trouxe essa situação.”

“Mãe… quando isso vai acabar?” Anna levantou seu rosto, que estava recostado no colo de sua mãe. A olhou, com a face ainda molhada e uma expressão sofrível.

“Eu estive pensando… talvez tudo se resolva se eu voltar para a Tailândia.”

“Não, não há garantias que ele devolva Jennifer se você for, e então eu perderei vocês duas.”

“Eu não sei até onde ele vai…”

“E eu não sei até onde ele foi.” Anna falava com temor na voz.

“Jennifer está viva, e logo você vai encontrá-la.”

Anna baixou novamente seu rosto, e continuou com um olhar vazio, ainda recebendo os dedos de sua mãe passeando por seus cabelos, acalmara-se aos poucos.

“Deixe aí, neste desenho.” Anna deu um sorriso entorpecido, e virou-se, para ver a TV.

“Você gosta desse desenho? Bob Esponja?”

“É o preferido de Jennifer.”

“Angie também gosta. Quando essas duas se encontrarem, terão um bocado de assuntos em comum.”

Anna apenas sacudiu a cabeça, concordando.

“Não tinha TV na sala.” Marianne constatou.

“Foi Jennifer que colocou.”

“Ela mora aqui?”

“Não. Mas não é por falta de convite.”

“Curioso isso, você nunca morou com ninguém, além da própria família. Sempre foi tão reservada e privilegiou a sua individualidade, você mudou.”

Anna fez menção de falar algo.

“Não, não estou te criticando.” Marianne continuou. “Só estou tentando entender o que aconteceu. Eu temia que todos esses anos te deixassem ainda mais reclusa, e eu não queria que você ficasse só, eu sempre incluía em minhas orações que encontrasse alguém para viver com você, que pudesse ter uma vida a dois, porque a solidão é algo avassalador, e fica pior à medida que os anos passam.”

“Eu encontrei essa pessoa, finalmente.” Anna respondeu, firme.

“Quando percebeu que era ela?”

Anna apontou a porta da sala.

“Quando ela entrou por aquela porta, pedindo ajuda, quase um ano atrás. Pela primeira vez, eu tive uma manhã ensolarada.”

Marianne suspirou devagar, e voltou a afagar seus cabelos.

“Ela vai voltar para você…”

Anna acabou adormecendo ali, sob os cuidados de sua mãe. A caçada entrava em seu quinto dia.

 

 

        Capítulo 45 – Fim de jogo

 

Um sol fraco e o quase silêncio em frente ao mar faziam companhia para Marianne no início da manhã daquele sábado. Sentada no banco de ferro encurvado e escuro, e segurando uma caneca com chá, apenas observava a distância a desolação de sua filha, que sentava na borda do píer, com as pernas sobre a água calma.

“Pelo visto não temos novidades.” Becca disse ao sentar ao lado de Marianne, somando-se a plateia solitária.

“Apenas um alarme falso ontem à noite, e mais nada.” Marianne respondeu.

“Será que eles não voltaram para a Ásia?”

“Victor está por perto, mais perto do que podemos imaginar. E Jennifer está com ele.”

“Se ele não tentou fazer a troca, o que ele quer afinal?”

“Eu não sei… Achei que o conhecia bem, mas já não consigo entender o objetivo dele. No início parecia apenas que queria que eu voltasse, agora ele dá a entender que quer Anna, quer atingi-la.”

Becca voltou a olhar na direção do píer.

“Ela está sofrendo.” Becca apontou com a cabeça na direção de Anna.

“Muito mais do que está externalizando, e confesso que não sei direito como lidar com isso, queria poder aliviar um pouco a angústia dela.”

“Apenas esteja ao seu lado, mesmo quando ela quiser ficar em silêncio, para que ela veja que não está só.” Becca respondia, com calma.

“Estou com o coração despedaçado a vendo desse jeito.”

“Só nos resta torcer para que tudo se resolva, manter a esperança acesa, a dela também.”

Marianne a observou em silêncio por um instante, e largou a caneca ao lado do banco.

“Eu vou lá conversar com ela.”

“Não, não vá, não agora. Ela está no cantinho da reflexão.” Becca a impediu.

“Onde?”

“É um lugar especial para elas, Anna construiu isso para Jenny, é o jeito dela se aproximar de Jenny, entende?”

Marianne acenou que sim, com a cabeça.

“Eu sei que você não entende o que elas tem, que é difícil enxergar sua filha amando uma mulher, mas isso é genuíno, eu sei que é, e é a relação mais forte que eu já vi até hoje.”

“Ainda estou processando tudo isso, mas eu já me dei conta da importância de Jennifer para ela.”

“Sabe, no início eu era contra esse namoro, dizia para Jenny que era um erro sem tamanho se envolver com alguém tão diferente. Honestamente eu não ia muito com a cara de Anna, a achava fechada demais. Mas felizmente eu estava errada, essas duas nasceram uma para a outra, não vou dizer que elas se completam porque eu não acredito nisso, para mim almas gêmeas são almas que se aceitam, e elas são assim, elas são apaixonadas pelas diferenças que tem.”

“Essa menina precisa voltar… Mas eu temo que ela não esteja mais viva.”

“Está, eu sei que está, Jenny é osso duro de roer.” Becca sorriu.

 

Anna intercalava um olhar perdido nas rochas no mar à direta da sua casa, com um olhar triste para o pequeno carrinho reluzente que estava em suas mãos. Girava as rodinhas, com a cabeça caída de lado, pensativa.

“Onde você está… Me dê algum sinal, me dê algo, eu estou no escuro.” Anna murmurou, correndo os olhos pelo horizonte.

 

Becca e Marianne entraram na casa, Anna acabou entrando alguns minutos depois, as encontrando na sala.

“O que Jenny acharia de entrar aqui e não encontrar seu famoso café?” Becca perguntou de forma descontraída.

“Eu ainda não fiz, vou lá dentro fazer.”

“Não, não precisa, estou brincando. Só vim dar um oi e pegar as novidades.”

“Queria ter novidades, mas ainda estamos na estaca zero.”

“Eu sei…” Becca fez uma expressão triste.

Anna sentou-se no sofá em frente.

“Ontem vô William me ligou, a procurando.” Becca disse, se inclinando para frente.

“O que você falou?”

“Que provavelmente Jenny estava sem bateria, que tentaria falar com ela para ligar o celular.”

“Eu estou com o celular dela, mas deve ter acabado a bateria e não percebi.”

“Ele vai acabar me ligando de novo, não sei o que falar para ele.”

“Ontem ele me ligou também, mas não atendi.” Anna falou.

“Por que não contamos a verdade para ele? Quem sabe ele ajude.”

“Não quero preocupa-lo, ele está doente, e além do mais já temos profissionais fazendo as buscas, ele provavelmente mandaria alguns conhecidos seus daqui para ajudar, não adiantaria muito, estou preferindo poupa-lo.”

“Entendi… E acho que Jenny iria preferir assim também.”

“Acho que sim. Se ele te ligar novamente, diga que Jennifer perdeu o celular, mas que está tudo bem.”

“Me sinto péssima mentindo para velhinhos adoentados, mas paciência…”

“Se eu não encontrá-la nos próximos dias, contarei a verdade para ele, combinado?”

“Ok. O que você vai fazer hoje?”

“Agora de manhã vou na mansão onde ele morava, em Westport.”

“De novo?” Marianne disse.” Você já esteve lá três vezes.”

“Então irei pela quarta vez.”

 

Por volta das nove da manhã, Anna partiu no grande carro preto com marcas de tiros na direção de Westport, chegando na mansão abandonada meia hora depois.

Talvez não houvesse mais nenhum palmo naquela propriedade que Anna não tivesse averiguado, já sabia inclusive onde os ratos habitavam, mas ficou por lá até próximo do meio dia, quando resolveu checar a vizinhança.

Como em todos os dias de busca, carregava armas e suas lâminas, não queria ser pega de surpresa, mas agora observando aquele arsenal obsoleto, sentia-se como preparada para uma guerra que nunca viria.

 

Metallica – Turn The Page – https://www.youtube.com/watch?v=dOibtqWo6z4

Seguiu com o carro na estrada de terra batida, levantando poeira em meio àquele cenário marrom e verde, iria até a próxima casa, o vizinho mais próximo, tentar colher informações. Dirigiu por cerca de 500 metros e parou em frente à uma grande casa de dois andares antiga, em más condições. Na frente havia uma placa de madeira, indicando tratar-se de um ferro velho.

O portão de ferro alto estava aberto, e ela foi entrando, após avistar um senhor de cabelos e barbas brancas, camisa amarela florida, sentado num banco na varanda, parecia montar alguma parte de motor de carro.

“Olá mocinha, em que posso ajudar?” Ele falou, ainda sentado, com uma chave estrela em suas mãos sujas de graxa.

“Estou procurando informações sobre seu vizinho, ex-vizinho, para ser mais exata.” Anna já estava ao seu lado, na varanda.

“Meus vizinhos são esses carros velhos, precisa de alguma peça?”

“Não, se bem que meu carro precisa de vidros novos, mas realmente estou procurando algo sobre Victor Spencer, que morava num casarão a 500 metros daqui. Você o conheceu?”

“Victor? É o filho do velho Alexander Spencer, não é?”

“Isso, eles moraram naquela casa, até duas décadas atrás.”

Ele ficou pensativo, largou a peça ao lado no banco, e limpou as mãos numa estopa.

“Eu lembro disso, eles foram morar em outro país, acho que a justiça estava procurando por eles, algo assim. Alexander era um grande amigo, fizemos negócios várias vezes.”

“E nunca mais voltaram, nem fizeram contato?”

“Nunca mais ouvi falar deles.”

“Você saberia de alguma empresa ou negócio que talvez eles tenham mantido aqui na América? Algum contato… Eu realmente preciso falar com o filho dele, é importante.”

O velho homem coçou a barba, a encarando, e ergueu-se do banco.

“Eu continuei fazendo negócios com um sócio deles, em Norwalk, talvez a sociedade tenha continuado, e lá você consiga contato com ele.”

“Em qual lugar de Norwalk?”

“Eu sei que ele tinha uns galpões no bairro industrial, não é longe daqui, uns dez quilômetros.”

“Você tem o endereço?”

O velho coçou a barba novamente, pensativo.

“Talvez eu tenha um cartão da empresa dele lá no escritório, mas não posso afirmar com certeza, minha finada esposa fez uma desarrumação lá há algum tempo atrás, eu falo desarrumação porque ela ficava uma fera… Quando ela dizia que faria uma faxina já sabia que vinha encrenca.” Ele riu.

“Tudo bem, podemos procurar? Eu posso ajudar.” Anna falou com ansiedade.

“Entre comigo, vamos revirar algumas caixas velhas juntos.” Ele disse já andando na direção da porta frontal.

Anna o seguiu e atravessou uma sala de estar com móveis antigos escuros, havia mantas desgastadas cobrindo os sofás e uma pequena TV ligada.

“Espero que você não sofra de nenhuma alergia, a quantidade de pó neste escritório é impressionante.” Ele disse, entrando numa pequena sala que parecia ter sido transformada no escritório do ferro velho.

Havia calendários sujos de graxa pendurados pelas paredes, uma escrivaninha escura com papéis espalhados por cima, e um gaveteiro também de madeira escura ao lado, tomado pelo pó.

Ele foi para trás da mesa e começou a mexer nos papéis que haviam em cima.

“Não deve estar aqui por cima, vou aqui atrás pegar algumas caixas com cartões e papéis, só um instante.”

Anna estava inquieta, aquela poderia ser a melhor pista desde que Victor surgira, a localização de galpões onde um sócio dele possivelmente ainda estaria em atividade, seria o lugar ideal para se esconder, e esconder uma refém.

Ela o aguardava olhando ao redor, reparando na bagunça e sujeira do local, recostou-se no gaveteiro ao seu lado, balançando o polegar sobre a superfície, com ansiedade.

Olhou para o local onde sua mão estava, e pode ler duas letras na poeira, parecia escrito com os dedos.

“P C.” Franziu a testa. – “Pequeno Castor!” Murmurou baixinho, atônita.

Ele surgiu com uma caixa de papelão clara, transbordando de papéis, e largou em cima da mesa a sua frente.

“Onde ela está?” Anna apontava sua pistola na direção da cabeça do velho homem, que levou um susto ao perceber a afronta.

“Ela quem, minha jovem?” Ele ergueu as mãos devagar.

“Onde está a garota!” Anna elevou a voz.

“Eu não sei do que você está falando, se é sobre o filho de Alexander, estou fazendo o possível para te ajudar.”

“Ela está aqui, ela esteve nessa sala! E você vai me dizer onde ela está, senão vou começar estourando seus joelhos e só vou parar quando não sobrar articulações.” Anna falava com raiva.

“Você deve estar me confundindo com alguém, não tem nenhuma moça aqui, eu moro só nesse fim de mundo.”

Antes que ele terminasse de falar, Anna sentiu dois homens a prendendo por trás, tirando a arma de sua mão e lhe aplicando uma gravata.

“Seus filhos da mãe, me soltem!” Ela tentava tirar o braço do seu pescoço, e viu o senhor pegando a arma no chão, lhe apontando.

“Levem para ele.” Ele ordenou aos homens.

Não, não hoje.

Anna soltou um brado raivoso e soltou-se das mãos dos dois elementos, pulando para cima do velhote de camisa florida. Arrancou a arma da sua mão, caiu de costas sobre a escrivaninha, e disparou dois tiros na direção dele, um atingiu-o no peito, o derrubando. Os outros dois vieram novamente para cima dela, conseguiu atirar em um deles, no braço, mas novamente teve sua mão imobilizada pelo outro homem.

Entraram numa luta corporal disputando a arma sobre a mesa, enquanto o outro, ferido, saiu da saleta. Anna recebia joelhadas nas mãos, que prendiam a arma sobre o tampo da mesa. Com uma cotovelada bem colocada no rosto, ela conseguiu tirá-lo de cima dela, o suficiente para atirar na sua direção, o acertando em cheio.

Pulou por cima do corpo, saindo do escritório, e foi recebida na sala de estar por tiros, que vinham de dois homens, o que estava com o braço ferido, e um outro, bem maior que os outros e com um semblante colérico.

Um dos tiros atingiu de raspão seu abdome, rasgando sua blusa negra e sua pele. Anna correu abaixada até atrás do sofá, mas não teve tempo sequer de formar mira neles, assim que olhou para cima o grandalhão surgira, arrancando a arma da sua mão, a erguendo pelo pulso.

Ele a jogou no chão com violência, e começou a chuta-la seguidamente, estava encurralada pela parede, ele chutava seu rosto, que já sangrava, e suas costelas e estômago.

“O patrão quer ela viva, seu idiota.” O homem que segurava seu braço sangrando o alertou.

“Estou avariando um pouco antes de levar.”

Num gesto rápido, Anna tirou uma das suas adagas do coldre em sua perna, e enfiou na panturrilha do grandalhão. Aproveitou que ele parou com os chutes para se erguer, de forma afoita, tateando a parede, mas foi novamente agarrada por ele, que desferiu um forte soco nela.

Mesmo tonta, revidou, também o esmurrou algumas vezes, passou a chuta-lo. Começava a equiparar a luta, quando o outro, que observava agarrado a seu próprio braço, interferiu, tentando esmurrá-la.

O grande homem arrancou a adaga de sua perna, e tentava acertar Anna, o outro já voltava a assistir o embate.

“Rasga esse rostinho bonito!” Ele atiçava.

Anna tirou mais uma adaga, do seu outro coldre, e fez posição de guarda, enquanto o homem tentava acertar com a lâmina, investindo em sua direção. Numa das investidas ele conseguiu, cortando a pele dela, próximo ao local onde já havia levado o tiro de raspão.

Ela curvou-se e deu dois passos para trás, colocou a mão em cima do ferimento, e ver aquele sangue abundante despertou ainda mais ira, correu na direção dele, cravando a faca em seu abdome. Ela retirou e cravou mais quatro vezes, fazendo com que ele caísse sentado.

Golpeou rapidamente para o lado, esfaqueando o outro homem no pescoço, que apenas soltou um gemido, antes de morrer.

Olhou ao redor, ofegante e com a adaga empunhada, tentava se recompor dos ferimentos enquanto procurava uma direção para seguir. Ouviu uma porta batendo no andar de cima e imediatamente olhou na direção das escadas largas, ninguém surgiu naquele patamar de madeira que havia após a escada, uma espécie de mezanino que dava acesso aos quartos.

Subiu a escada, e quando terminava os últimos degraus viu surgir um outro homem grande, este ainda mais alto que o outro, com uma arma na mão, foi logo atirando na direção dela, que abaixou-se, mas não sem antes atirar sua adaga na direção dele, o atingindo no ombro.

“Merda!” Ele gritou, tirando a faca encravada.

Anna terminou de subir a escada e foi na direção dele, o derrubando no chão, e fazendo a arma também cair e deslizar, mas ele ainda segurava seu punhal.

Digladiaram-se na horizontal, um entrave de mãos lutando pela posse da adaga, ele conseguiu fazer um corte na lateral do seu pescoço, tingindo um dos poucos lugares que ainda não estavam vermelhos em Anna. Com a mão direita ela conseguiu imobilizar a mão que segurava a adaga, e passou a desferir socos violentos contra o rosto dele, que foi perdendo as forças, e por fim a consciência, Anna havia praticamente destruído o rosto dele com suas próprias mãos.

Levantou e seguia na direção do corredor que levava aos quartos, quando percebeu uma movimentação do lado de fora da casa. Pelas grandes vidraças ela viu um homem de cabelos negros correndo no pátio do ferro velho, na direção do penhasco que havia no final do terreno, onde o mar batia mais abaixo. Na beira do desfiladeiro havia uma pequena construção simples de pedras, com três portas. Observou com as mãos nos vidros, sujando de sangue, quando foi pega de surpresa por outro elemento, um homem magro desarmado, que a segurou por trás.

Engalfinhados, deram alguns passos bêbados, até próximo de uma espécie de cerca de madeira, que limitava o mezanino. O homem a derrubou de lá, quebrando o cercado, fazendo com que Anna caísse de costas no andar de baixo, em cima de uma mesa de centro de madeira e vidro.

Ela pode vê-lo lá em cima a fitando com um sorriso irônico. Anna tentava respirar, mas não conseguia puxar o ar, a queda provavelmente havia lhe quebrado algumas costelas. Ela permaneceu alguns segundos naquela posição, tentando desesperadamente trazer algum ar para seus pulmões, e sentindo uma dor descomunal quando o fazia, parecia ter agulhas no pulmão.

Ouviu passos na escada, vindo em sua direção, olhou para os lados, viu uma das pistolas ali perto, se arrastou até ela, e assim que o homem magro surgiu, ela disparou quatro vezes, segurando a arma com ambas as mãos, de forma trêmula.

Sentou-se devagar, com uma expressão de dor, agora conseguia respirar, mesmo que de forma curta. Levantou-se, olhou ao redor com a mão sobre seus ferimentos no abdome, estava temerosa, tudo estava em silêncio. Guardou a arma no cós e foi na direção da porta, pegando o rumo do pátio.

Correu entre as sucatas e ferros retorcidos que lotavam aquele pátio, que dava para o desfiladeiro. A parte o sangue que a esta altura escorria de várias partes de seu corpo, era como se seu corpo estivesse blindado para a dor, agora não sentia nada, apenas escutava o barulho do vento passando por ela, pensava apenas na possibilidade de encontrar Victor e Jennifer naquela construção rústica próximo ao precipício.

 

Oasis – Stop crying your heart out – https://www.youtube.com/watch?v=dhZUsNJ-LQU

Ao contornar a última pilha de sucatas, deparou-se com Victor, sentado displicentemente num banco de ferro enferrujado em frente a pequena casa de pedras, e ao seu lado lá estava Jennifer, sua Jennifer, de pé, do lado direito do seu tio maquiavélico, com as mãos atadas à frente por cordas de nylon brancas encardidas.

“Anna!” Jennifer gritou, com alívio e preocupação.

“Pode parar aí mocinha, nem mais um passo!” Ele ordenou para Anna, que prontamente parou, há uns dez metros deles.

Ver finalmente Jennifer, e ouvi-la dizendo seu nome, lhe causou uma sensação forte e contraditória, como se seu nome varasse de lado a lado em seu peito.

Jennifer não aparentava estar ferida, apenas suas roupas estavam sujas, sua camiseta regata branca já não tinha muitos pedaços da cor natural, e era visível dali alguns arranhões em seu rosto e braços, havia um corte na maçã do rosto.

Mas sua feição, era a personificação perfeita de alguém terrivelmente assustado, olhava para Anna com um semblante de pânico e desespero que precisava conter. Aquele foi o golpe mais doloroso que Anna sofrera naquela tarde, vê-la em poder de uma pessoa que ela já sabia não ter o mínimo de escrúpulos, e que seria capaz de qualquer coisa para atingi-la, e atingir sua mãe.

“Você está bem?” Anna perguntou.

“Sim, mas você está uma bagunça!” Jennifer respondeu.

“Desculpe ter demorado tanto.”

“Chega de conversinha.” Victor se intrometeu.

E foi como se Anna saísse de um transe, apontou a arma para ele e ordenou que deixasse Jennifer ir embora.

Victor segurava uma pistola prata pousada em cima de sua perna esquerda, e segurava Jennifer pelo braço. Ele tinha os cabelos negros e volumosos, jogados para trás, parcialmente molhados por suor e sendo desgrenhado pelas correntes de vento que vinham do mar, a barba cerrada e levemente grisalha. Usava uma camisa preta com botões brancos, que também tremulava com o vento. Tinha uma incômoda semelhança física com sua mãe, ela podia reconhecer inclusive alguns traços de si própria nele.

Apenas se olharam por alguns instantes, como num duelo de faroeste entre inimigos mortais, e para Anna, se a vida de Jennifer corria risco, então seu tio era seu inimigo mortal naquele momento.

“Vamos resolver isso em família, ela não tem nada a ver com isso.” Anna falava tentando não alterar o tom da voz.

Prontamente ele também ergueu a arma e encostou brutalmente a ponta do cano nas costas de Jennifer, a fazendo se contorcer.

“Por que eu soltaria seu animalzinho de estimação? Vai ser muito mais divertido acertarmos as contas todos juntos. E seja uma boa menina, jogue este revólver aqui nos meus pés, senão a conversa já vai começar com uma baixa.”

“Não ouse fazer isto.”

“Então me entregue sua arma que eu tiro ela da minha mira.”

Mas Anna manteve a arma apontada para seu tio.

“Anda, vamos conversar minha cara sobrinha, quem sabe eu seja bonzinho e poupe a vida desta sua humana insignificante. Aliás, você herdou o péssimo gosto da sua mãe, de se envolver com essa corja, essa escória.”

Anna hesitou por um momento, baixou a arma, hesitou novamente, olhando para Jennifer, que sinalizou de forma afirmativa com a cabeça. Finalmente ela jogou a arma, Jennifer tentou desviar o curso da arma, mas não foi o suficiente, a arma caiu na metade do trajeto.

“Eu falei nos meus pés, sobrinha.” Victor juntou rapidamente a arma do chão, voltando para o banco, colocando no cós da sua calça. – “Eu não sei como essa garota faz essas coisas, mas ela bagunçou a casa movendo e quebrando coisas, em qual circo você encontrou essa aberração? Tive mantê-la presa aqui na casa de pedra.”

Anna ergueu as duas mãos espalmadas, até a altura de sua cabeça, sinalizando que agora estava desarmada.

“Pronto, você que conversar não é? Estou de mãos limpas, deixe ela ir embora e vamos resolver ao seu modo.”

“Você acabou de chegar e está com pressa? Esperei você todos esses dias, estava ansioso para conhecê-la. Aliás, como tem cuidado do meu informante em sua casa? Espero que o esteja tratando bem, ele disse que seu café é muito bom.”

“Quem?”

“Ted, ele é um dos meus homens, e tem feito um trabalho excelente.”

“Desgraçado…” Anna sentia uma raiva subindo por seu abdome, queimando por dentro, se Jennifer não estivesse ali já teria investido algum ataque contra Victor, mesmo desarmada.

“Me diverti com suas buscas nos lugares errados, eu já estava quase mandando Ted contar onde eu estava.”

“Eu estou disposta a fazer o que você quiser, assim como minha mãe, apenas me diga quais são seus termos e vamos resolver isso sem que ninguém se machuque.”

Victor riu, com deboche.

“Sabe, eu já imaginava você assim, pretensiosa, com esse ar de durona, se achando tão forte e poderosa quanto um Titan, quando não passa de uma pobre híbrida com a fraqueza dos humanos.”

Anna permanecia olhando ambos, com atenção, escolhendo as palavras, sabia que se escolhesse as palavras erradas, poderia custar a vida de uma delas.

“Para que tudo isso, para ficar se glorificando que no final você venceu? Que a vontade do seu pai venceu? Por que essa obsessão com o que minha mãe faz ou deixa de fazer? Essa obsessão doentia por nossa família?” Anna argumentou.

“Não existe sua família, só existe minha irmã e Angie, que voltarão a morar comigo na Tailândia. Do outro lado existe você, uma pobre coitada solitária, e seu irmão covarde que se escondeu no velho mundo.”

O vento continuava soprando com certa força, dali era somente possível ouvir o barulho das ondas quebrando nas pedras logo abaixo. Ao lado deles havia a imensidão verde do oceano. Anna enxugou com as costas da mão um viés de sangue que escorria de seu supercílio. Não sabia mais o que falar ou fazer para convencê-lo a soltar sua namorada.

“Se seu objetivo é levar minha mãe de volta, por que não fez isso? Por que me trouxe até aqui?”

“Queria conhecer você, sobrinha, ouvi tanto sua mãe falar de você e seu irmão, tinha curiosidade em conhecê-la, não que eu tenha algum tipo de afeto fraternal por você, se dependesse de mim você já teria sumido há muito tempo… Todas as vezes que meu pai cogitou eliminar vocês, eu apoiei e incentivei, mas ele preferiu apenas manter Marianne longe dessa corja de sanguessugas. Eu deveria ter incentivado mais, agora eu não estaria aqui, perdendo meu tempo com vocês.” Ele mantinha um sorriso sarcástico em seus lábios durante todo o tempo.

“Então vamos voltar ao cenário anterior, minha mãe volta para a Tailândia, e eu continuo morta para você, como sempre estive. Ou tem mais alguma exigência?”

“Anna, não acredite nele!” Jennifer disse.

Victor voltou a bater com a arma nas costas de Jennifer.

“Não se meta, aberração.” Victor a censurou.

A cada minuto que passava Anna ficava ainda mais aflita, não tinha ideia dos planos de seu tio, não sabia quais suas reais intenções armando toda essa situação, desde as flechas, o sequestro de Jennifer, e agora esse resgate já esperado, ele poderia ser capaz de tudo, até mesmo simplesmente libertá-las, pois pelo que sua mãe havia contado, Victor era apenas uma sombra de seu pai, uma pessoa com pouca personalidade e bastante egocentrismo.

“Também quero que seu irmão continue se fazendo de morto lá na Europa, não quero nenhum contato de vocês com minha irmã.” Victor continuou.

“Assim será. Agora por favor, solte a garota, apenas a solte, me deixe levá-la embora.” Anna suplicava, estava sentindo uma angústia sem tamanho vendo Jennifer em poder do seu tio.

Jennifer continuava lá, de pé, com as mãos presas e o cano da arma enfiado em suas costas, olhando atentamente. Ela só queria poder correr de encontro a Anna, naquele momento não sentia a exaustão do cárcere de cinco dias, apenas sentia medo.

“Quero Marianne aqui, ainda hoje, não tenho mais tempo a perder nessa cidade de merda.”

“Falarei com ela assim que sair daqui.”

“Se você faz tanta questão assim dessa humana, então tome, é toda sua, e sumam de uma vez por todas de nossas vidas.”

Victor passou a arma para a mão esquerda e empurrou Jennifer, espalmando sua mão nas costas dela, Jennifer deu um passo sôfrego para frente, desequilibrada pelo empurrão.

Anna aguardava tensa o retorno de Jennifer até seus braços, aqueles poucos metros que pareciam quilômetros, e então o estampido de um tiro pode ser ouvido. Jennifer parou imediatamente, a fitou com os olhos arregalados e caiu de joelhos, ainda com os braços unidos à sua frente pela corda.

Anna correu até ela, que caiu no chão lentamente, já em seus braços. Victor havia atirado em Jennifer. Pelas costas.

O tiro, quase à queima-roupa, a atravessara, saindo no meio do seu tórax. Rapidamente sua camiseta se tingia de vermelho. Anna a deitou no chão, terrificada com aquela cena. Colocou suas mãos uma sobre a outra, em cima do ferimento, numa tentativa desesperada de mantê-la viva e estancar o sangramento. Jennifer tentou falar algo, mas suas palavras não saíram, apenas sangue. Só conseguia olhar para Anna com olhos que imploravam que não a deixasse morrer.

“Vai ficar tudo bem, vou tirar você daqui ok? Vai ficar tudo bem.” Anna falava repetidamente.

Ouviu uma risada seca, forçada, e sentiu um braço a puxando para trás, aplicando-lhe uma gravata.

“Agora é sua vez, sua bastarda!”

Victor era um Titan não tão corpulento quanto os que ela estava acostumada a enfrentar em suas noites de aventura, mas ainda assim era forte. Lutava contra seu braço, que a prendia pelo pescoço.

“Você achou mesmo que eu ia deixar vocês saírem com vida daqui? Eu vim para os Estados Unidos para me certificar que Marianne não teria mais motivos para retornar para cá. Eu estava esperando você aparecer, para te matar com minhas próprias mãos.”

Anna deu uma cabeçada para trás, acertando-o no nariz, conseguiu se soltar do seu braço. Investiu um golpe com seu punho esquerdo fechado contra ele, mas foi logo surpreendida por um soco certeiro no seu rosto. Na sequência ele aplicou mais um golpe, a derrubando no chão, caiu de lado, de joelhos.

Levantou-se, olhou para o lado e pode ver Jennifer agonizando. Foi então que reuniu todas as forças que tinha e as que não sabia que tinha e partiu novamente para cima de seu tio.

Conseguiu encaixar um soco no rosto dele, mas em contrapartida levou quase meia dúzia de diretos e ganchos, porém não caiu desta vez, se esforçou para se manter de pé. Limpou o sangue que caía em seus olhos, e pode visualizar ele sacando a arma e apontando para ela. Mas com toda a ira que a movia naquele momento, num rompante e com a velocidade de um lince pulou para cima dele, o derrubando. Caíram no chão engalfinhados, a arma havia voado para longe.

Agora era Anna que encaixava uma sequência de pancadas no abdome e no rosto asqueroso do seu algoz. Ele conseguiu a empurrar, tirando de cima dele, a jogando para o lado. Anna se recompôs, ficou de pé e viu ele se levantando, rindo sarcasticamente.

“Um duelo de mãos limpas, o que acha? Será que minha sobrinha me vence?” Ele riu, com os braços abertos, a chamando para a luta.

Foi então que ela lembrou do que carregava às costas, sua espada. Anna desembainhou sua lâmina extremamente afiada. E soltando um grito de raiva correu para cima de Victor, o atravessou no abdome. Seu riso agora se transformara num semblante de surpresa e aflição.

“Isso é pelo meu pai, seu filho da puta!” Anna ainda segurava a espada atravessada nele, o fitou nos olhos com raiva e a girou, por fim a retirou, a lâmina agora não estava mais prata, e sim rubra com seu sangue.

Anna o empurrou com um chute, fazendo com que ele despencasse no mar abaixo do despenhadeiro, sequer foi ver o corpo lá embaixo, correu para junto de Jennifer, ajoelhando-se ao seu lado e largando a espada.

“Meu amor, fale comigo!” Anna suplicava desesperada, pegando no rosto de Jennifer com sua mão suja de sangue, a sujando também.

Mas o corpo inerte de Jennifer não respondia mais. Não sentiu seu pulso, aproximou-se de sua boca, não podia sentir sua respiração. Anna desesperou-se mais ainda.

“Jennifer! Não, não faça isso, Jennifer!”

Jennifer havia morrido.

 

 

        Capítulo 46 – O campo onde eu morri

 

Evanescence – My Immortal   – https://www.youtube.com/watch?v=5anLPw0Efmo

“Jenny, venha para o raso!” Ouviu seu pai gritando.

“Água no umbigo sinal de perigo, lembra? Venha brincar mais próximo de nós!” Sua mãe completou.

Jennifer olhou ao redor e viu todo o mar azul acinzentado ao seu redor, a água batia na altura da sua cintura. As ondas e o repuxo a faziam se desequilibrar, mantinha os pés afastados buscando permanecer onde estava. Sentia seu corpo inteiramente dormente, ou talvez não o sentisse por inteiro, mas sentia a água ao seu redor, a água gelada em contato com sua pele. Sentia o cheiro salgado do maresia, o sol forte que parecia secar rapidamente as gotas de águas que escorriam de seu corpo.

De lá podia ver sua mãe, com uma camiseta branca, e seu pai, sem camisa e usando um boné do Blue Fish, um time local, sentados na areia, numa toalha colorida e grande. Viu sua mãe abrindo uma bolsa térmica cinza, quadrada, e tirando sanduíches embalados em papel alumínio, colocou o primeiro sobre a toalha, colocou delicadamente o segundo.

“Jenny, venha comer seu sanduíche!” Ela gritou de lá, agitando o terceiro sanduíche com uma mão.

“Já vou mãe!”

Resolveu atender o pedido dela, e começou a sair da água, caminhando na direção dos seus pais. A caminhada ficou pesada, deu um passo à frente, mas logo o repuxo a fez recuar duas passadas. Firmou-se no fundo, sentiu a areia fina se moldando aos seus pés, e tomou impulso para caminhar, mas novamente as ondas à impediram, a fazendo recuar mais. O mar parecia um tanto quanto mais agitado, as ondas mais fortes, e a água já batia na altura do seu peito. Se irritou por não conseguir avançar na água.

Viu seu pai tentando abrir uma garrafa de refrigerante com o garfo.

“Ele sempre esquece o abridor…” Pensou.

Sentiu uma corrente forte em suas pernas, a forçando a dar passadas para trás, mesmo lutando para não ir, se inclinando para frente. O mar já cobria seu queixo, erguia a cabeça com esforço.

Olhou para a praia, já não enxergava direito seus pais sentados, mas conseguiu ver seu pai acenando com a mão, a chamando.

“Já vou pai!” Tentou gritar, mas acabou engolindo a água salgada.

Não tocava mais o fundo do mar com seus pés, tentava flutuar, sem sucesso. Tentou nadar, deu braçadas afoitas mas as ondas vinham e a cobriam. Lutava para manter seu rosto fora da água, mas sentia-se já sem forças. Submergiu, tentava respirar, mas no desespero só conseguia sentir a água entrando por sua boca e nariz. Abriu os olhos, e só enxergou a turbidez da água, como se olhasse para o céu num dia de tempestade. Não lutou mais, e fechou os olhos.

 

“Por favor meu amor, não vá… Não vá…” Anna chorava copiosamente, debruçada sobre o corpo de Jennifer.

Tentava pela vigésima vez uma sequência de massagem cardíaca em seu peito, tentando reanimá-la, fazia a contagem de forma afoita, com as mãos entrelaçadas sobre seu tórax em meio a todo aquele sangue, mas não havia reação alguma.

“Eu não quero viver sem você… Eu não consigo… Acorde, meu amor, vamos, fale comigo.” Passava sua mão trêmula pelo rosto e pelos cabelos de Jennifer, deslizando da sua testa para trás.

“Não me deixe, não faça isso comigo.”

Anna já não conseguia falar nada, apenas soluçava, as lágrimas se misturavam com o sague em seu rosto. Baixou sua cabeça, pousando na camiseta molhada de sangue e com o rasgo da bala. Não havia mais o que fazer, seu coração doía como se estivesse esfacelado, ou arrancado de dentro de seu peito, mal conseguia respirar.

“Eu te amo tanto…”

Então levantou-se de supetão, olhou de forma séria para Jennifer, a encarou pensativa, agachada ao seu lado. Formaram-se dois vincos em sua testa, próximo às sobrancelhas.

“Meu Deus… Mas eu não posso fazer isso…” Balbuciou, com um semblante sofrido.

“Eu não devo…” Anna estava analisando a possibilidade de derramar seu sangue em sua amada, numa tentativa de reanimá-la. Ela carregou esse estigma no seu sangue por toda a vida, mas nunca imaginou que um dia cogitaria usar em alguém. E numa Vulpi.

Não tinha a menor ideia do que aconteceria, se surtiria algum efeito em alguém que não fosse humana, o que aconteceria com uma Vulpi, além do que, provavelmente era tarde demais. Sem contar que isso também era algo terminantemente proibido entre os híbridos.

Mas era seu único fio de esperança. E ela se agarrou à ele.

Colocou os dedos no rasgo que havia na blusa de Jennifer, aumentando o buraco, e expondo o ferimento à bala em seu peito.

Pegou a espada caída ao seu lado e fechou sua mão direita ao redor da lâmina, dedo após dedo. Olhou para Jennifer, olhou para sua mão fechada, deixou todas as incertezas para trás e deslizou a lâmina para baixo, lhe cortando.

Apertou a mão sobre a ferida de Jennifer, um fio grosso e escuro de sangue caiu, em seguida se tornou um gotejamento. Soltou a espada e ficou observando com um semblante tenso, à espera de alguma reação, foram segundos longos de uma expectativa cruel, que acabou não provendo resultado algum.

Anna continuava encarando o rosto desfalecido e sujo de sangue de Jennifer, estava com a cabeça levemente inclinada para o lado, a boca entreaberta. Lembrou da vida pulsante que Jennifer costumava mostrar em sua expressão, em como sempre havia vida em seus olhos, o quanto seu sorriso acendia algo bom dentro de si, em contraste com seu semblante pacífico e inerte de agora.

O desespero voltou a consumi-la, bem como as lágrimas que retornaram com a desolação de assistir aquela cena.

“Foi tarde demais… Eu falhei.” Balbuciou, antes de voltar a chorar soluçando.

“Eu deveria ter mantido minha decisão de me afastar de você, depois daquela noite. E agora você se foi.” Voltou a colocar sua testa sobre o peito de Jennifer.

E então o improvável aconteceu, sentiu o peito de Jennifer vibrando, ela estava tossindo, tentando respirar. Anna ergueu-se de imediato, incrédula, não acreditava no que via, Jennifer havia voltado.

Anna a virou de lado, segurando seu rosto para baixo.

“Cuspa, cuspa todo o sangue.” Ela falava, enquanto Jennifer tossia e cuspia uma boa quantidade de sangue.

Voltou a deitá-la, cuidadosamente, ainda com a mão segurando sua nuca, Jennifer abrira os olhos, a encarava assustada.

“Consegue respirar?” Anna perguntou.

Jennifer acenou com a cabeça, sua respiração estava forte e rápida. Anna sentiu uma onda arrepiante passando por toda sua espinha, uma felicidade absurda que nunca sentira antes.

“Calma, respire devagar, devagar…” Anna falava, debruçada sobre ela.

Jennifer ainda estava desnorteada, respirando rápido.

“Isso, devagar, está tudo bem.” Um sorriso se abria enquanto falava com Jennifer, a acalmando.

“Você voltou, você voltou, meu amor.” E a abraçou, a trazendo para perto de si, passou seus braços ao redor do corpo dela com um quase desespero.

“Voltei de onde?” Jennifer balbuciou, ainda ofegante

Separaram o abraço, mas Anna continuava a segurando, próxima de si, a olhava sem conseguir acreditar no que via, e sem conseguir tirar o sorriso do rosto.

“Achei que tinha perdido você.” Anna falou.

“Seu tio!” Jennifer lembrou-se então de tudo, com uma expressão tensa.

“Não vai mais nos fazer nada, está resolvido.”

“Não?”

“Acabou, acabou tudo, vai ficar tudo bem agora.”

“Onde ele está?”

“Nas pedras, lá embaixo.”

“Eu quero ver.”

“Consegue se levantar?”

“Acho que sim.”

“Vou cortar essa corda, não se mexa.” Pegou a espada e cortou as amarras nos pulsos de Jennifer.

Anna a ergueu devagar, e caminharam até a beira do precipício, a carregando com cuidado.

“Foi uma queda feia.” Jennifer constatou, olhando para baixo, abraçada e apoiada em Anna.

“Teve o que merecia, o que sempre mereceu.”

Continuaram apenas contemplando as ondas revoltas batendo nas pedras abaixo, o vento balançando seus cabelos e roupas e fazendo um barulho triste, era o meio da tarde de um dia nublado. O mar ali era verde e espumante, e numa das pedras, jazia o corpo de Victor, alcançado pelas águas de tempos em tempos.

“Sua mãe vai ficar uma fera, você matou o irmão dela por minha causa.” Jennifer falou antes de colocar a mão no peito e fraquejar os joelhos.

“Venha, vou te levar para o hospital.” Anna a pegou nos braços, a carregando no colo.

“Você também precisa de hospital.”

“Segure firme, passe seus braços ao redor do meu pescoço.”

“Você está de moto?” Jennifer perguntou enquanto era carregada pelo ferro-velho.

“Não, vim com seu carro.”

“Está dirigindo?”

“Sim. Está orgulhosa de mim?”

“Sempre.”

 

Jennifer acordou lentamente, estava deitada de lado, e abria os olhos com dificuldade, tentando focar aquelas paredes brancas estranhas. Levou cerca de um minuto para se dar conta de onde estava e o que havia acontecido. Ao seu lado havia alguém sentado numa cadeira, sua visão ainda estava embaralhada, apertou os olhos tentando focalizar.

“Anna?” Falou baixinho.

“Não, Angelina.”

“Angelina?” Jennifer repetiu o nome, ainda tentando descobrir quem era aquela garota de cabelos escuros e olhos castanhos, com um celular nas mãos.

“Você está bem? Precisa de algo?” A garota falou num tom solícito.

“Eu conheço você?” Jennifer a olhava confusa.

“Ainda não, mas você conhece minha irmã.”

“Quem?” Jennifer a olhava processando as informações.

“Anna. Eu sou a irmã dela.”

Jennifer deu um sorriso tímido, e tentou enxergá-la melhor.

“Claro… Angie, a irmãzinha caçula… Vocês se parecem.” Jennifer falava devagar, com a voz baixa, ainda sonolenta.

“Minha mãe sempre me falava isso, e agora eu entendo porque.”

“Onde elas estão?”

“Foram cuidar do funeral do meu tio.”

Jennifer desfez o frágil sorriso.

“Sinto muito por ele… Não deveria ter terminado daquela forma…”

“Tudo bem, eu sei o que aconteceu, vocês não tiveram culpa. E ele era um babaca.”

Jennifer se virou com dificuldade na cama, ficando de barriga para cima.

“Você não pode se levantar, ok? Eu não posso deixar você sair da cama, senão elas me matam.”

“Te deixaram instruções então?”

“Algumas.”

“Relaxa, não vou fugir daqui. Não agora, Angie.” Jennifer sorriu para ela.

“Anna disse que você pode me chamar de cunhada se quiser, porque nunca chamou ninguém assim.”

“Ela disse isso?”

“Sim, depois de eu perguntar se podia te chamar de cunhada. Sabe, eu acho muito irado que minha irmã namore com uma garota, é tão moderno, eu adorei.”

“Ela ainda fica tímida com esses assuntos, temos que pegar leve com ela.”

“Eu percebi.”

Jennifer se ajeitou no leito, tentando erguer-se um pouco.

“Mini Anna, me consegue um copo d’água?”

Angie riu.

“Ela me alertou que você faria alguma piada com o fato de sermos parecidas.” Levantou e começou a servir um copo com agua.”

“Sua irmã me conhece bem…”

Bebeu a água e deu uma olhada em seu peito, onde havia uma grande bandagem.

“Você tem ideia do que aconteceu comigo?” Jennifer perguntou.

“Parece que você levou um tiro que fez um baita estrago, daí operaram você noite passada.” Angie sentou-se numa cadeira giratória ao lado da cama, se movendo.

“Noite passada? Que dia é hoje?”

“Domingo à noite.”

“Eu estou dormindo desde ontem?” Jennifer perguntou assustada.

“Acho que sim, eu cheguei hoje à tarde.”

“É uma viagem longa, não é? Da Tailândia para cá.”

“Nossa, um saco, quase vinte horas… Achei que andar de avião fosse mais divertido, mas todo mundo só quer dormir, um monte de gente chata.”

“É um saco mesmo, ficam mandando você falar mais baixo, nem te deixam cantar.” Jennifer concordou.

“Não vejo a hora de sair e conhecer essa cidade, outras cidades, quero conhecer Nova Iorque, é aqui perto, não é?”

“Pertinho, cem quilômetros.”

“Depois quero conhecer a Escócia, meu pai era escocês.”

“Jura? O meu também! Minha família ainda mora lá, eu visito de vez em quando, você pode ir comigo na próxima vez.”

“Sério? Que massa! Eu quero ir sim, ele falava tanto de lá, já até imagino como é, eu vi umas fotos na internet.”

“Que cidade?”

“Irvine.”

“É pertinho de Glasgow, serei sua guia, soube que tem uns pubs legais lá. Quer dizer, não, nada de pub, esqueci que você tem quinze anos.”

“Ah que quero ir, minha mãe me deixa beber cerveja as vezes.”

Jennifer sorriu.

“Ok, te levo num pub, mas durante o dia.”

“Fechado!”

“Mas eu sei de um outro lugar que você vai gostar de conhecer também, uma fazenda no interior da Inglaterra.” Jennifer falava tentando tirar o tubinho transparente que levava oxigênio abaixo do seu nariz.

“O que tem de tão legal lá? Hey, não tire isso, vai que dá algum rolo?”

“Isso é chato. Mas tá bom, não quero queimar teu filme. Sobre o que tem nesta fazenda? Tem seu irmão e sua sobrinha.”

“Nossa, estou doida para conhecer eles também! Poderíamos fazer uma tour completa, Escócia e Inglaterra.”

“Claro, estou te vendendo o pacote turístico completo.”

“Você conheceu eles?”

“Sim, e sua sobrinha é absurdamente fofa e adorável, a garotinha é mais esperta que eu e Anna juntas.”

Angie sorriu, animada.

“Eu estou adorando ganhar esse monte de família, assim, de uma hora para outra, nós vivíamos tão isoladas lá, agora estamos livres, e não estamos mais sozinhas.” Angie olhou para baixo, pensativa. – “Minha mãe sofria bastante por estar longe da família, ela falava tanto de Anna…”

“Anna também sentia falta da mãe, ela passou os últimos anos sozinha, e agora tem vocês duas por perto, vai ser incrível para ela.”

“Andrew também é assim sério, como Anna?”

“Não, ele é menos sério, menos fechado, mas muito menos legal que a irmã, e bem mais chato que ela também.”

Angie apenas sorriu, prestando atenção no que Jennifer dizia.

“Não se deixe enganar, Anna só tem esse jeito reservado, ela é especial, é sensível, atenciosa, você vai conhecê-la melhor e vai entender o que estou falando.” Jennifer falava com um sorriso bobo.

Uma enfermeira entrou, para alguns procedimentos de rotina.

“Não me coloque para dormir, ok?” Jennifer pediu a ela, ao vê-la injetando algumas coisas em seu acesso no braço.

“Esses são analgésicos, os que derrubam só mais tarde.”

“Odeio ficar grogue… cara, que legal a capinha do teu celular!”

“Você gosta do Bob Esponja?”

“Adoro, deixa eu ver.”

Angie lhe entregou seu celular, que Jennifer ficou mexendo.

“Deixa eu mostrar uma coisa.” Angie falou.

“Ah fala sério, você tirou foto minha assim apagada?” Jennifer olhava no visor do aparelho, Angie ia passando as fotos.

“Minhas amigas estavam pedindo foto da minha cunhada, daí mandei para elas.”

“Sacanagem, não sou fotogênica dormindo, você tem que tirar outra, agora que estou acordada.”

“Legal!”

“Vem, vamos tirar uma foto nossa.” Jennifer a chamou para ficar ao seu lado.

Anna entrou no quarto, viu as duas garotas fazendo pose para uma foto com o celular, com os dedos erguidos num V.

“Vejo que já foram apresentadas.” Anna falou sorrindo, pegando Jennifer de surpresa, lhe arrancando um grande sorriso também.

“Oi mana!”

“Oi Angie.”

Anna se aproximou e deu um beijo rápido nos lábios de Jennifer.

“É bom te ver acordada.” Sussurrou para ela.

“É bom te ver.” Jennifer respondeu.

Jennifer pegou a mão de Anna com suas duas mãos, e a beijou. Anna já estava de roupas limpas e com seus ferimentos cuidados, a mão direita estava enfaixada, tinha um curativo no pescoço e outros dois pequenos no rosto, além de alguns cortes e arranhões.

“Como você está?” Jennifer perguntou.

Anna sentou-se na beirada da cama, de frente para Jennifer, que ainda segurava sua mão.

“Melhor do que nunca, e você? Angie cuidou conforme as orientações?” Olhou para Angie, que agora estava sentada no sofá do outro lado.

“Cuidei sim.” Ela respondeu.

“Como se sente?” Anna voltou a perguntar para Jennifer.

“Furada, de novo, isso está se tornando uma constante na minha vida.”

“Acho que gostam de furar você.”

“Me sinto um boneco de vodu em tamanho real.”

Angie riu, Anna olhou para ela.

“Daqui a pouco nossa mãe vem te buscar.” Anna disse.

“Posso dormir aqui, se precisarem.”

“Não, eu vou passar a noite aqui, vá para casa descansar.”

“Posso ir para casa hoje também?” Jennifer perguntou, com um risinho.

“Não, mas para você eu tenho boas notícias, fiquei sabendo que você vai ter alta amanhã.”

“Menos mal… Angie disse que me operaram, por que?”

“Você estava com uma hemorragia forte, tiveram que operar a noite, mas correu tudo bem.”

“Eu ouvi o médico dizendo que você está viva por um milagre, que ninguém sobrevive à um tiro no coração, acho que você é um X-Men.” Angie disse.

“Viu? Viu? Ela me entende!” Jennifer falava apontando para Angie.

“E seu coração parou! Isso é muito louco.”

“Sério? É a segunda vez esse ano, acho que sou um gato.” Jennifer falou, olhando para Anna.

“É verdade, você teve uma parada.” Anna falou, com certo incômodo.

“E é como dizem? Você viu um longo túnel, uma luz forte?” Angie perguntou.

“Não, não tem nada disso. Eu vi unicórnios, vários. E vi minha tia-avó Emma fazendo tricô.” Jennifer falou rindo.

“Quanto tempo será que seu coração ficou parado?” Angie perguntou.

“Não deve ter sido muito, os médicos vão logo dando aqueles choques no peito das pessoas, não tem quem não volte com aquilo.” Jennifer respondeu.

“Mas não foi aqui, foi lá no ferro velho, não foi, Anna? Ou ouvi errado?”

Anna lançou um olhar sério para a irmã.

“Foi lá?” Jennifer perguntou, com estranheza.

“Sim, foi, eu reanimei você.” Anna respondeu, ainda sentada na beirada da cama.

Jennifer sorriu.

“Mais um motivo para te chamar de minha heroína.” – Jennifer falou. “Ela é a mulher maravilha, sabia Angie?”

“Ah é? Tem outros atos heroicos então?”

“Vários, outra hora te conto tudo que sua irmã já aprontou.”

Marianne chegou no quarto, Jennifer ficou tensa ao vê-la, como sempre.

“Olá meninas, olá Bela Adormecida.”

Jennifer se surpreendeu com a brincadeira da sogra.

“Me doparam, eu não costumo dormir isso tudo. Quer dizer, as vezes…”

Jennifer se ajeitou na cama, Anna apertou um botão para subir um pouco o encosto, para que Jennifer ficasse mais inclinada.

“Ah, bem melhor.” Jennifer disse.

“Que bom que está acordada, Anna estava o tempo todo me perguntando ‘será que ela já acordou?’, despachei ela para cá, ‘ok, vá ver se ela acordou.’” Marianne falou com um leve sorriso, de pé do outro lado da cama, mas mantendo seu jeito sério.

Jennifer lançou um sorriso para Anna, e pegou sua mão, mas logo desfez o sorriso.

“Eu sinto muito por seu irmão.” Jennifer disse, se dirigindo a Marianne.

Marianne suspirou antes de falar.

“Victor estava fora de si, eu gostaria que as coisas tivessem sido resolvidas de outra forma, mas eu não consigo enxergar agora como poderia ter sido de forma pacífica, ele não nos deu essa opção, ele fez a escolha dele.” Ela respondeu serenamente.

“Ele não tinha intenção de deixar eu e Anna sairmos vivas, ele me falava isso todas as noites, que estava esperando Anna chegar para acabar com nós duas.”

“Era ele ou nós.” Anna falou.

“É, eu sei… isso só me deixa ainda mais entristecida com a despedida dele, sua vida ter terminado desta forma.” Marianne disse, e se aproximou de Jennifer, segurando sua mão.

“Mas eu quero que saiba que estou feliz e aliviada em vê-la aqui, com vida e bem. Você não imagina o quanto essa garota aqui sofreu com sua ausência, sem saber seu paradeiro.” Marianne disse apontando para Anna, com a cabeça.

Anna ficava ainda mais encabulada com o que sua mãe falava sobre ela.

“Eu também estou aliviada por estar viva…” Jennifer falou, com uma pitada de sarcasmo.

“Sobrevivemos, estamos nós quatro aqui, juntas, em segurança, é o que importa agora.” Anna disse.

“Bom, vou levar essa outra garotinha para casa, mas me liguem se precisarem de algo, ou se acontecer alguma coisa.” Marianne despediu-se.

“Amanhã a gente vem te buscar, viu?” – Angie também se despediu. “E não tire essa coisinha do nariz.”

“Não tirarei, prometo.”

Anna as acompanhou até a porta, retornando com passos lentos.

“Eu gostei da mini Anna.” Jennifer falou.

“Mini Anna?”

“Ela é a sua cara. O que trouxe naquela sacola?”

“Uma muda de roupas para você, trouxe o moletom do Lanterna Verde.” Anna debruçou-se na grade nos pés da cama.

“Obrigada. Vem cá.” Jennifer sussurrou.

Anna se aproximou pelo lado, Jennifer pegou sua mão e foi trazendo-a para mais perto, até ficar com o rosto próximo ao dela.

“Me empresta um beijo? Prometo que devolvo.” Jennifer falou, com um sorriso bobo.

Anna sorriu, debruçou-se sobre ela, e a beijou, trocaram um beijo sem pressa.

“Nossa, eu desejei tanto um desses enquanto estava presa naquela masmorra…” Jennifer falou baixinho, ainda com a mão no rosto de Anna.

“Mais do que qualquer coisa, eu desejava te ver de novo.” Anna disse, ajeitando o tubinho no rosto de Jennifer.

“Que pesadelo…” Jennifer jogou a cabeça para trás, com um longo suspiro.

“Victor ia na sua cela todas as noites?” Anna indagou.

“Sim, era quando eu ganhava comida e água. E algumas palavras de desmotivação.”

Anna balançou a cabeça, assimilando.

“Não, não aconteceu nada, ele era psicótico mas nem tanto.” Jennifer a tranquilizou.

“Alguém machucou você?”

“Só quando cheguei, mas nada demais. Isso aqui foi por tentar fugir quando me tiraram do carro.” Jennifer mostrava o corte na maçã do rosto.

“Depois ficou isolada naquela cela ao lado do penhasco?”

“Todos os longos dias. E noites. Esse tipo de coisa pode enlouquecer pessoas, agora eu acredito nisso.”

“Não perdeu a esperança?”

Jennifer a fitou pensativa por um instante.

“Eu sabia que o mar estava batendo ali, bem do meu lado, eu ouvia o barulho. E foi isso que me impediu de perder as esperanças, era meu alento. Eu sabia que esse mesmo mar que estava batendo nas rochas, era o que estava batendo no seu quintal. O barulho me acalmava, eu prestava atenção, e tinha uma sensação reconfortante, lembrava das vezes que ouvia o barulho do mar na sua sacada, na sua cama, com você.”

“Você é uma garota forte.”

“Olha quem fala, você se machucou pra valer e está aí, firme e forte.”

“Ferimentos leves.” Anna respondeu.

“O que foi isso no seu pescoço?”

“Um corte.”

“Tem mais?”

Anna levantou a blusa, mostrando dois curativos.”

“Dois cortes?”

“Um corte e um tiro.”

“E o que aconteceu com sua mão?” Apontou para a mão enfaixada dela.

Anna olhou para sua mão hesitante.

“Outro corte, nada demais.”

“Vem cá, deixe eu cuidar um pouco de você, deite aqui.” Jennifer disse, chegando para o lado.

“Não é permitido deitar com os pacientes.”

“Eu deixo. Vem, só até te expulsarem.”

Anna viu que não tinha saída, tirou as botas e deitou ao lado de Jennifer, que virou-se e a abraçou, numa confusão de tubos e fios, aninhando-se nela.

“Cuidado para não soltar nada.”

“Estou agarrando você, todo o resto pode soltar.”

Paz, finalmente era o que Anna sentia invadindo sua alma naquele momento, um alívio quente, ouvindo e sentindo a respiração de Jennifer de perto. Deslizava sua mão devagar pelas costas dela, tendo a certeza física que sua namorada estava em seus braços.

Ficaram algum tempo assim, alguns minutos silenciosos e necessários. Jennifer virou-se devagar, deitando novamente de costas, com um semblante dolorido.

“Tá tudo bem?” Anna perguntou.

“Sim, sim, só dói quando mexe. Estou com sono, e nem me deram ainda os que apagam…”

Anna ergueu-se um pouco, a olhando com a cabeça apoiada na mão e o cotovelo no travesseiro. Então tirou algo do bolso.

“Eu trouxe isso para você.” Mostrava o mini carro da maquete.

“Você achou o mini Ignatious!”

“Achei no asfalto.”

“Foi você que encontrou meu carro no acostamento?”

“O carro e a flecha.”

“Ele pifou.”

“Eu não deveria ter sugerido que você fosse para a aula com ele.”

“Shhh, nem vem.”

“Seus carros vão precisar de uma reforma.” Anna comunicou.

“Acho que vou aposentar o Ignatious, colocar para decorar seu quintal, plantar umas flores, não precisa reformar, basta estacionar lá.”

“De qualquer forma, vai precisar reformar.”

“Por que?”

“Digamos que o Ignatious tenha se amassado em contato com o meu pé.”

“Você chutou ele? Tadinho.”

“Seu carro novo também vai precisar de conserto, você não percebeu nada quando vinha para cá?”

“Quando você me trouxe eu estava semiconsciente, então não reparei nada além do buraco no meu peito. Para variar você deve ter dado ré em alguma coisa.”

“É, também, no carro de um dos seguranças. Mas sofri um atentado, atiraram no carro, várias vezes.”

“Sério? Nossa, ainda bem que ele é blindado.”

“Exatamente, e eu não sabia disso.”

“Putz, achou que levaria os tiros?”

“Achei que tudo acabaria ali, não entendi porque ainda estava viva.”

“Que susto deve ter sido, seu coração é forte hein?”

“Se tem uma coisa que eu tenho certeza, é que não morrerei do coração, tenho passado por bons testes.”

“Seu coração é tão forte quanto você, passou no teste do carro blindado, passa por qualquer coisa.”

“Tive coisa pior, bem pior.”

“Que coisa?”

“Laura me ligou uma noite, dizendo que havia encontrado seu corpo, ou pelo menos um que parecia o seu, mas ela não podia reconhecer.”

“Laura?” Jennifer a olhou com a testa franzida.

“Eu a inclui nas buscas.”

“Ah. E ela não reconheceu o corpo? Que estranho, ela conheceu meu corpo. Tô brincando! Tô brincando!” Jennifer riu.

Anna a olhou séria rapidamente, e voltou a falar.

“Não, estava muito avariado, não dava para reconhecer.”

“E você foi lá?”

“Não precisou, eu pedi para que procurasse por cicatrizes nas costas, e não tinha nenhuma. Acho até que tive um pequeno infarto naquela noite, mas sobrevivi.”

“Que horrível…”

“Inclusive ela esteve aqui ontem te visitando, mas você estava na cirurgia. E você deve um chope para ela.”

“Devo? Fez promessas em meu nome?”

“Fiz, apelei para tudo. Jennifer, você não imagina o quanto procurei você, e todas as noites voltava para a casa sem nada, sem notícias, sem uma pista sequer, era desolador.”

Jennifer começou a passar seus dedos pelo rosto dela, pelos cortes e curativos, Anna fechou os olhos.

“Obrigada por não desistir.” Jennifer falou baixinho.

“Eu procuraria até o fim dos dias.” Anna falou, abrindo os olhos.

“Victor dos infernos… Deve estar lá agora.”

“Pior é saber que temos o mesmo sangue.” Anna murmurou.

“Qual o sobrenome da sua mãe?”

“Spencer.”

“Você também tem no nome?”

“Tenho.”

“Qual teu nome completo?”

Anna a encarou por um instante.

“Anna Elizabeth Spencer Fin.”

“Elizabeth?” Jennifer riu.

“Sim.”

“Posso te chamar de Beth? Ou Liz?”

“Não.”

“Por que?”

“Porque meu nome é Anna.”

“Isso daria um nome de filme, ‘porque meu nome é Anna’, achei forte. Fala de novo?”

“Você não estava com sono?”

 

Jennifer e Angie assistiam Anna trabalhando na oficina, três dias depois de deixar o hospital, estavam recostadas numa bancada.

“Para que serve isso?” Angie perguntou para Jennifer.

“Nunca entendi direito, mas acho que você prende uma coisa aqui e faz alguma coisa. Espera, vou prender essa lâmina aqui e te mostro.”

“Isso é uma morsa, e vocês poderiam fazer o favor de não mexer?” Anna falou, erguendo a cabeça.

“Ok, já larguei.” Jennifer falou e voltou a se recostar na bancada.

“Obrigada.”

“Vou para casa hoje.” Jennifer comunicou.

Anna a olhou.

“Tem certeza? Está bem o suficiente para ficar sozinha?”

“Por que você não mora aqui?” Angie perguntou.

“Porque tenho minha casa, você pode me visitar inclusive, lá tem cerv…” Olhou sem jeito para Anna.

“Tem o que? Já vou!” – Angie ouviu sua mãe a chamando da sala. “Não vá embora sem se despedir de mim.” Ela falou para Jennifer, antes de sair correndo da oficina.

Jennifer riu, e voltou a acompanhar Anna trabalhando numa máquina de polimento.

“Tão parecida e tão diferente de você.” Jennifer comentou.

“Parece que é sua irmã.” Anna respondeu, sem tirar os olhos da lâmina que trabalhava.

“Só temos algumas coisinhas em comum.”

“Não dê cerveja à ela.”

“Eu não faria isso. Mas podemos levá-la ao pub sábado?”

“Nós vamos ao pub sábado?”

“Claro, por que não? E eu consegui colocar minha prima de dezesseis anos lá dentro, duas vezes, ela vai poder entrar também.”

“Vou pensar no assunto. E acho que minha mãe não vai deixá-la ir.”

Jennifer começou a andar lentamente pela oficina, fazendo o que Anna mais detestava, mexendo em tudo. Se aproximou de Anna e ficou girando uma roldana de uma máquina desligada.

“Anna, tem uma coisa que quero conversar com você, desde domingo que estou pensando nisso.”

“Diga.”

“O que aconteceu no ferro-velho?” Jennifer virou-se para Anna, se apoiando na bancada com o cotovelo.

“Eu já contei o que aconteceu lá, qual é a dúvida?”

“Você me contou tudo?”

“Sim, quer que eu conte novamente?”

“Quero.”

“Ok, de onde eu começo? Eu entrei naquela casa, vi seu P.C. rabiscado na poeira, enfrentei uns seis homens, apanhei um bocado, vi Victor correndo pelo pátio de sucatas, fui atrás, o encontrei sentado num banco e você ao lado. Conversamos, ele atirou em você pelas costas, mas não tive tempo para fazer nada, porque ele logo me puxou pelo pescoço, tivemos uma luta, eu vi você agonizando, cravei a espada nele, fui te socorrer, assim que cheguei você teve uma parada, eu fiz o procedimento de reanimação, seu coração voltou, e te levei para o hospital. Foi um bom resumo?”

“Não. Diminua a velocidade num determinado ponto. Eu tive a parada assim que você me socorreu?”

Anna parou o trabalho que fazia, mas ainda ficou um instante olhando para baixo, hesitante. Então desligou a máquina, virou-se, e olhou para Jennifer.

“O que você quer saber?”

Foi a vez de Jennifer hesitar.

“Quando eu falei para Angie que eu vi unicórnios e minha tia-avó Emma tricotando, eu estava mentindo.”

“Obviamente.”

“Eu vi meus pais. Aconteceu alguma coisa lá, e não foi sonho, nem alucinação, foi real, bem real. Estávamos na praia, eles estavam sentados na areia, eu estava no mar, e me recordo de tudo, inclusive das sensações, eu lembro da temperatura do mar, do sol nos meus olhos, da voz deles me chamando. Então eu resolvi atender o pedido da minha mãe, e comecei a caminhar na direção deles, mas depois de algumas passadas não consegui mais avançar, o mar começou a me puxar de volta, eu lutava para ir, mas o repuxo me trazia e comecei a me afogar, e então me afoguei.”

De forma atenta, Anna apenas a ouvia.

“O que aconteceu naquele campo?” Jennifer perguntou novamente.

Anna a olhou de forma séria, e respondeu.

“Você morreu.”

“Oi?”

“Quando fui te socorrer, você já estava morta.”

Jennifer deu um sorriso confuso.

“Ok, eu morri, você também morreu, e sua oficina é o paraíso?”

“Não, eu trouxe você de volta. E é verdade, eu fiz massagem cardíaca em você várias vezes, por isso que você trincou três costelas, eu tentei como pude te reanimar, mas não adiantava, era tarde demais.”

“Então você sacou um desfibrilador do bolso e me deu choques até eu voltar?”

Anna olhava para o lado, procurando as palavras.

“Eu coloquei meu sangue em você.”

Jennifer arregalou os olhos.

“Seu sangue?? Claro, o sangue de ouro!”

“Você já havia ido, era a única coisa que me restava fazer, eu tive que tentar.”

“Então funciona em Vulpis…” Jennifer ainda se recuperava do choque da informação.

“E muito bem, foi como uma descarga de adrenalina.”

“Será que ainda tenho seu sangue correndo em mim?” Jennifer a encarava com um semblante assustado.

“Não sei, talvez não tenha mais a esta altura, mas sinceramente não sei.”

“Os híbridos não podem saber disso, de jeito nenhum.”

“Eu seria severamente punida se eles soubessem, isso será um segredo nosso.” Anna falou.

Jennifer balançou a cabeça devagar, concordando e pensando.

“O mar era você.” Jennifer deu um sorriso de lado.

“É… acho que sim.”

“Deve ter sido uma péssima visão, não? Eu… assim… morta.”

“Péssima é um bom eufemismo. Estou tentando apagar essa imagem da minha mente.”

Jennifer se aproximou mais, a abraçando.

“Que loucura, isso é tão surreal… Obrigada por pensar rápido e me afogar. O corte na sua mão, foi para isso?” Jennifer desgrudou sua cabeça do peito de Anna, a encarando.

“Foi sim.”

“Será que eu fiquei forte como você?”

Jennifer a largou, e foi na direção de um pesado torno.

“Deixa eu testar.” Falou tentando erguê-lo.

Mas tudo que ela conseguiu foi derrubar a máquina, a bancada, e ela própria.

“Jennifer!” Anna correu para socorrê-la.

“Acho que não fiquei mais forte.” Ela falava sorrindo, ainda no chão.

 

“Deem as boas-vindas para a mais nova integrante do clube de frequentadores dessa espelunca.” Jennifer falou com as mãos nos ombros de Angie, no pub de Oscar, era sábado à noite. Mesmo com apenas quinze anos, Angie era mais alta que Jennifer.

“Ela tem idade para estar aqui?” Becca perguntou.

“Tem quinze, mas para o Oscar ela tem dezesseis, ok?”

“Que trabalheira você deu, hein? Não suma mais, Anna quase surtou.” Laura falou, após abraçar Jennifer.

As três se acomodaram na mesa onde já estavam Becca, Jim, Bob, Lindsay e Laura.

“Soube que te devo um chope.” Jennifer falou para Laura.

“É sim, por isso vim aqui hoje, para buscar.”

Jennifer ergueu a mão, e fez o pedido.

“Chope por minha conta para toda a mesa!” – Falou, recebendo um olhar sério de Anna, que apontou com a cabeça na direção de Angie. “E um refrigerante para a mocinha aqui.”

“Achei que a mãe dela não ia deixá-la vir.” Bob comentou com Jennifer.

“Você não sabe a briga que comprei para trazê-la, mas usei bons argumentos, prometi entregá-la sã e salva até uma da manhã, e não permitir que consumisse álcool ou drogas.”

“E Anna, participou da negociação?”

“Anna é a Suíça, mais diplomática impossível, mas ela acabou me ajudando.”

“O que rola aqui? Tem alguma banda tocando?” Angie abordou Jennifer.

“Às vezes tem, hoje eu não faço ideia.”

“Hoje tem a melhor banda da cidade.” Laura entrou na conversa.

“Sério, e qual seria? Ah… entendi. Vocês vão tocar hoje?”

“Yeah baby, hoje tem um show imperdível do The Oranges.”

“Ela toca baixo.” Jennifer contava para Angie.

“Caramba, que irado, me ensina?”

“Claro, mas peça permissão para sua mãe, e sua irmã com cara de brava.” Laura falou olhando para Anna, mexendo com ela.

Anna riu.

“É só cara, Anna é um doce.” Jennifer disse, abraçando sua namorada.

Depois de alguns minutos, Jennifer, Becca, e Angie fora para a pista, Laura sentou-se ao lado de Anna, virada de lado.

“Você deu sorte, a maioria dos sequestros não termina bem, o refém é morto dentro das primeiras 48 horas, antes inclusive de pedirem resgate.” Laura disse, entregando um chope para Anna.

“A diferença é que o objetivo desse sequestro era outro, era pessoal. Mas concordo, tivemos sorte sim, só acho que poderia ter durado menos. E obrigada pela força, e pelas buscas.” Anna lançou um sorriso.

“Anna, sei que eu tive aquele lance com Jennifer, mas independente disso, eu admiro a relação de vocês, é visível o quanto vocês se amam, e isso é tão raro nos dias de hoje. Eu realmente torço para que vocês fiquem juntas para sempre.”

“Obrigada.” Anna sorriu sem jeito.

“E enquanto eu falava isso, Jennifer deu o fora numa garota, lá na pista.”

“Sério?” Anna se virou para trás, olhando.

“Ahan, acho que ela ia gostar se você fosse lá.”

Anna levantou-se e foi para a pista, abraçando Jennifer por trás.

“Olha quem veio para a pista!” Jennifer disse, com um sorriso aberto, se virando em seguida.

“Qual foi a garota que te abordou?”

“Como você viu? Você estava de costas.”

“Eu sou um X-Men.”

 

Muse – Starlight – https://www.youtube.com/watch?v=Pgum6OT_VH8

Onze dias depois.

Era dez da manhã de uma quarta-feira nublada de setembro, o frio do outono já estava querendo dar as caras.

Anna entrou no apartamento de Jennifer, e como já esperava, estava dormindo. Entrou no quarto e enfiou-se debaixo da coberta, silenciosamente. Aproximou-se e deu um beijo no seu pescoço.

Jennifer levou um susto e defendeu-se do sabe se lá o que com os braços, acertando Anna no nariz.

“Au! Ai!” Anna grunhiu, com a mão no nariz.

“É você??” Jennifer se deu conta.

“Quem mais poderia ser?”

“Deixa eu ver seu nariz, te machuquei?” Jennifer sentou-se, tirando a mão dela de cima do nariz.

“Precisaria de dez Jennifers para conseguir me machucar.” Anna disse, com sarcasmo.

“Ah é?” – Jennifer montou na cintura dela. “Acha que é a mulher de aço? Eu derrubo você com uma mão nas costas, sabia?”

“Essa eu pagaria para ver.”

“Tire as calças e fique de pé.” Jennifer desafiou.

Anna riu, pegando Jennifer pelos pulsos e trazendo para perto dela.

“Não, assim não vale.”

Jennifer lançou um olhar malicioso, e a beijou, foi o suficiente para incendiar o quarto, e o clima. Em segundos Anna já havia girado e estava por cima, levantando a camiseta de Jennifer e descendo seu corpo com beijos lentos.

“Você precisa fazer mais visitas matinas.” Jennifer falou.

Anna apenas ergueu o braço e cobriu a boca de Jennifer, e continuou descendo, por fim tirando a calcinha dela.

 

“Algo me diz que você não veio aqui apenas para sexo matinal.” Jennifer falou, saindo do banheiro, com seu roupão marrom.

“Não, vim te buscar para uma missão. Uma missão pacífica.”

“Que missão?”

“Já te conto, mas antes quero te fazer um convite. Vem aqui.” Anna disse, vestindo sua blusa, na cama.

“Sou toda ouvidos.” Jennifer sentou-se de frente para ela.

“Você ainda quer fazer uma tatuagem?”

“Claro, não só aquela em cima do V, mas estou pensando em outras também.”

“Quero te levar no estúdio onde fiz a minha, o que acha?”

“Perfeito, a sua é linda.” Jennifer se animou.

“Ok, me dê alguns dias para organizar tudo então.”

“Organizar? Esse estúdio não é aqui na cidade, não é?”

“Não, é um pouquinho longe. É no Brasil.”

“E você quer me levar para o Brasil?” Jennifer assustou-se.

“É a intenção, topa?”

“Que pergunta besta! Quando vamos?”

“Acho que consigo ajeitar tudo em dez dias.”

“Porra, que massa! Vamos para o Brasil!”

“Tem outro lugar lá que quero te levar.”

“Uma bela praia, eu imagino.”

“Também, mas é outro lugar. Depois de algumas indicações, eu entrei em contato com um cirurgião plástico no Rio, e dizem que é um dos melhores na área, acho que ele vai poder fazer um bom trabalho em você.”

“Um cirurgião plástico…” Jennifer a encarava, hesitante,

“A não ser que você não queira ir.”

“Bom, eu já te falei que as cicatrizes não me incomodam, mas se te perturbam, até porque quem tem que olhar para elas é você, então tudo bem, eu vou. E também não irei mais correr o risco de assustar criancinhas na praia.”

Anna sorriu, contente, e se inclinou para um beijo.

“E qual é a missão pacífica?”

“Bem lembrado, vista alguma coisa, vou te alimentar e depois vamos para Hartland.”

“Onde fica isso?”

“Fica a 105 quilômetros a nordeste.”

“E o que temos que fazer em Hartland, cidade que sequer ouvir falar?”

“Você já esteve lá.”

“Estive?” Jennifer a fitou com a testa enrugada.

“Você não sabe mesmo que dia é hoje, não é?”

“Ãhn… quarta?”

“Onze de setembro.”

“E?”

“Hoje faz um ano que nos conhecemos.”

“Jura? Um ano que aconteceu aquela papagaiada toda?”

“Alguém no casal tem que lembrar das datas importantes, não é?”

“Que fofo.” Jennifer lhe deu um beijo na testa.

“A viagem é longa, você escolhe se quer ir de moto ou carro.”

“Isso tudo é muito meigo, mas porque temos que ir lá? Não podemos comemorar aqui?”

“Eu sei que você estava com febre, mas você se recorda do que falei quando eu te contei que havia pegado emprestado a fita adesiva e a garrafinha de uísque do armazém?”

Jennifer lembrou-se, dando risadas.

“Você vai devolver? Não acredito!”

“Claro, eu prometi devolver, hoje é o dia ideal para cumprir a promessa.”

“Cara, você não existe… Ok, vamos de carro, mas você vai ter que me orientar, não faço ideia de como chegar lá, quer dizer, sei chegar de trem de carga.”

 

Um pouco depois das três da tarde estacionaram o carro ao lado da pequena estação ferroviária amarela, foi preciso passar por uma estrada rural para chegar lá. Jennifer com uma camisa xadrez vermelha e preto, Anna com uma blusa preta, jeans e bota.

“É aqui.” Anna falou, já saindo do carro.

“Caramba… até me deu uma… olha aqui meu braço!” – Jennifer mostrava o braço com os pelos arrepiados para Anna. “É esse armazém?”

“É sim. Entra comigo?”

“Claro. Da outra vez você não quis me levar, preferiu Becca.” Falou com sarcasmo.

 

“Boa tarde, eu estive aqui um ano atrás, era você que estava atendendo, certo?”

“É bem provável que sim, eu sou a dona e já faz tempo que cuido disso aqui sozinha.” Uma senhora de cabelos claros e óculos de lentes grossas respondeu, estava sentada numa banqueta atrás do caixa.

“É, eu lembro de você, eu estive aqui com uma outra garota, e bom… Sei que vai parecer estranho, mas na ocasião estávamos numa situação desfavorável, eu estava com um pequeno grupo, incluindo ela, e viemos ao seu armazém.”

Anna abriu um saco de papel pardo, e tirou uma pequena garrafa de uísque e um rolo de fita adesiva, colocando sobre o balcão.

“Minha colega comprou algumas coisas com você, mas eu peguei dois produtos emprestados, e vim hoje devolver, eram exatamente iguais à estes. Desculpe ter agido desta forma, mas essa garota aqui estava com um ferimento feio no ombro, que estava infeccionando, e graças à estes dois itens eu pude limpar e evitar que algo pior acontecesse.”

“Nossa, não sei o que falar… Mas fico contente que mesmo sem ter ideia do que aconteceu, pude ajudar.”

“Ajudou sim. Quero que fique com isto, é um agradecimento simbólico.” Anna correu sobre o balcão um envelope recheado de notas.

A mulher pegou o envelope e olhou rapidamente para o interior.

“Não precisa, você explicou que foi uma necessidade.”

“Por favor, fique, considere um presente. E mais uma vez, desculpe o pequeno furto.”

 

Despediram-se e seguiam para o carro, quando Anna a abordou.

“O que acha de procurarmos a casa?” Ela sugeriu.

Jennifer sorriu animada.

“Seria ótimo, se ainda estiver de pé.”

“Vem, vamos arriscar, temos que passar pela estação e descer do outro lado.”

 

“Eu sentei aqui, junto à essa parede, enquanto você furtava o armazém.” Jennifer apontava para a parede ao lado da estação, já depois de descerem no descampado onde fizeram a caminhada até as casas.

“Se eu tivesse levado você, com a jaqueta suja de sangue, a moça simpática teria percebido algo.”

“Mas eu teria te ajudado no furto.”

“Anda, vamos procurar a casa, são uns 500 metros até lá.”

Caminhavam lado a lado, organizando as lembranças daquele dia.

“Eu olhei para você, e você estava super séria, eu pensei ‘ela deve ter se arrependido amargamente de ter nos ajudado’.” Jennifer disse.

“Não, eu estava preocupada com seu ombro. Eu também dei uma olhada em você, e você estava pálida e suando.”

“Eu já estava ruim. Enquanto eu andava, às vezes minha visão escurecia.”

“Mas foi procurar lenha depois.”

“Eu queria ajudar. A rua começa aqui, acho que é na quadra seguinte, não é?”

“Sim, logo ali na frente, a esquerda.”

Chegaram na rua fantasma com casas abandonadas ou destruídas, e reconheceram em seguida a casa, ainda estava de pé.

Entraram na casa, aquela mesma sala que as abrigou agora estava com mais lixo e poeira, e haviam removido a madeira das janelas. Deram alguns passos pelo ambiente, dando uma olhada ao redor.

“A lareira tá intacta.” Anna falou, e virou-se para trás, Jennifer estava olhando para o canto onde elas passaram a noite, foi até ela.

“Foi aqui que dormimos.” Anna disse, ao lado de Jennifer.

“Foi.” Jennifer falou com um pequeno sorriso nostálgico.

Anna se aproximou mais, e entrelaçou seus dedos na mão de Jennifer.

“Tinha que acontecer.” Jennifer se deu conta.

“O que?”

“Nós. Eu senti uma ligação, era confuso no meio daquela situação surreal, nem eu compreendia o tamanho do que estava acontecendo, mas hoje eu entendo que eu acordei naquela manhã apaixonada por você.”

Anna soltou sua mão, e ficou de frente para Jennifer, com as mãos no bolso da calça.

“Se arrepende de algo?” Anna perguntou.

Jennifer colocou suas mãos nos ombros dela, e a encarou pensativa.

“Sim. Aquela briga idiota que tivemos, e que me custou um mês de você.”

Anna passou seus braços na cintura dela, a trazendo para perto.

“Talvez aquilo tenha nos fortalecido.”

“Passo.”

“Mudou alguma coisa? De um ano para cá?”

“Eu tenho mais amor por você agora. E eu tenho tanto de você no meu coração. Mas você sabe disso, não sabe?”

“Sei.” Anna respondeu quase num sussurro, balançando a cabeça com um sorriso leve.

“Mas tem uma coisa que você não sabe.” Jennifer disse.

“O que?”

“Naquela noite, ali nesse canto, teve um momento de madrugada que eu acordei. Mas fiz de conta que estava dormindo, para que você não parasse de mexer no meu cabelo.”

Anna riu, e a beijou.

“Também tenho algo a confessar.”

“O que?”

“Eu sabia que você estava acordada.”

“Sério?”

Anna balançou a cabeça, confirmando.

“Vamos?” Anna convidou, a soltando.

“Sim. Mas vou gravar nosso nome na parede, me dê sua adaga.”

“Como sabe que eu trouxe uma?”

“Você sempre anda com uma.” Jennifer falou, pegando a adaga dela.

Levou algum tempo gravando os nomes na parede, queria escrever algo legível.

“Vamos Jen, não quero você dirigindo à noite.”

“Já vou. Pronto, terminei. Espera aí, do que você me chamou?”

 

FIM

19 Comentários

  • Preguicella

    Uau!!! Adorei! Saindo livro serei uma das candidatas a comprar! Como já disse num e-mail de contato, sua história não deixa nada a dever a nenhuma dessas trilogias internacionais publicadas! E acredito e espero que você esteja já bolando a continuação dessa história com pelo menos mais 2 livros. Até porque a Jennifer vai assumir o comando do G6 né. E quero saber como isso tudo vai acontecer!
    Bjão e já vou partir para a outra história.

    • Schwinden

      Que bom que curtiu!
      Poxa, agradeço imensamente a bondade de comparar com as trilogias internacionais… rs.
      Sim, já tenho boa parte da trama da continuação desenvolvida, mas ainda dentro da minha mente, espero colocar no ‘papel’ esse ano. Vem aí a revolução Vulpi!
      Brigada mesmo, grande beijo!

  • Zo Guizzardi

    Caraca! Cheguei a dormir em frente ao computador pra não para de ler, rsrs. Muito bom mesmo, cheio de surpresas. Adorei, parabéns! Já vi que vc vai continuar a trama, que bom!

    • Schwinden

      Que guerreira você! São quase mil páginas, agradeço a dedicação!
      Sim, algum dia (talvez este ano ainda) eu comece a escrever a segunda parte, mas 2121 tb terá duas partes, então… Lince 2 terá que esperar.
      Muito obrigada por me ler, e por tirar um tempinho para vir aqui dar um feedback.
      Beijos!

  • Patricia Kelly

    Caramba, quando vi que você disponibilizou o livro todo corri para ler, devorei em 3 dias. Foi 3 dias maravilhosos acompanhando a saga da Jeny e Anna. Serio, estava quase esquecendo da minha vida.. kkkk quando isso acontece é pq é bom demais! Você merece todo nosso carinho e admiração por criar uma obra assim. Tá certo que fiquei brava quando vc matou a Jeny! Sabia que vc ia resolver, mas precisava assustar assim? Falando nisso, coitada da nossa menina apanhou mais que saco de boxe. Porem só mostrava o quanto ela é forte. Adoro aquele jeito brincalhão dela, jeito criança doce ainda, apesar de tudo que passou nas SUAS mãos. =]

    E Anna é minha preferida. Naquele sonho da Jeny com a Laura, quase não consegui ler direito, kkkk caramba, sou ciumenta. A Anna é da Jeny e ninguém mais. Esse livro merece um filme, com certeza! Parabéns, entrou para os meus top’s.

    Obs: Só um detalhe, achei que o “Thor” iria aparecer novamente!

  • Paula

    Não há palavras para descrever o quanto estou amando suas histórias. O único problema é que me sinto órfã ao final delas, aguardando sempre por uma continuação ou outra que me faça esquecer a anterior rssrsrsrs.
    Não sei se me entende, mas resumindo: Parabéns vc é uma escritora maravilhosa.
    Já estou aguardando minha próxima paixão rsrsrs
    Bjos

  • Luna Sofia

    Nossa! Foi demais. Me envolvi bastante com os personagens.. Senti fortes emoçoes.. senti até o ciume de Anna por Jennifer kkk. Que tristeza qdo acabaram :(… O humor de Jenny eh demais, mas minha preferida eh Anna.

  • Mara

    Boa noite Cristiane Schwinden,

    Acabei de ler “A Lince e a raposa” história, e foi incrível, não conseguia parar de ler (tinha que me controlar até no trabalho rsrs). Foi um mix de sensações, boas por sinal, raridade algo parecido acontecer de me prender assim em uma história.
    Agradeço a oportunidade de apreciar a sua obra… e pode ter certeza de que você conseguiu uma nova leitora, e voraz rsrs. Adorei o casal, lindas diga-se de passagem. E admirei muito a forma como descreve os momentos íntimos entre elas, com muita delicadeza e respeito ao sexo feminino. Agradeço novamente por ter disponibilizado as história, já estou partindo para a próxima aventura literária :).
    Abraço!

  • ly

    Incrível!!! Essa historia me encantou de uma forma indescritível, não parei de ler,só quando estava no trabalho(Aff!),ansiava pelo desfecho final. É a primeira vez que leio uma ficção desse gênero, fiquei com um pé atrás no começo mas não me arrependi, você não prendeu a atenção com cenas de sexo mas com um enredo super bem elaborado.Parabéns e obrigada por nos permitir essa leitura tão emocionante. Vlw. E Cris, se for ter continuação, por favor dá um toque ta bem, nao quero perder 🙂 Bjs

  • Jessica

    Olá, Cris!

    Eu precisava comentar algo depois de ler essa história!
    Eu gosto bastante de histórias com temas baseados em outras espécies, híbridos, poderes, mulheres que lutam, etc..
    E realmente tenho que concordar com a amiga ali acima: Não perde em absolutamente nada para livros ja publicados. E eu penso isso desde o primeiro capitulo. Sua história é absurda. Sua escrita é impecável. Sua imaginação e criatividade são fora de série. Sua sensibilidade é incrível. Apesar da ficção, você abordou temas reais e delicados com muito tato! E além de toda essa história que ganha facilmente adeptos no mundo inteiro, tem a temática lésbica. O bom e velho romance! Não tenho como não devorar esse conto! E o li sem parar. Levei 24h. E eu realmente deixei de dormir para ler. Eu não sei se ja tem essa possibilidade, não li você falando em nenhum outro lugar antes.. mas essa história tem tudo pra ser um livro mesmo. Uma trilogia. E muito famosa! De verdade, viraria um bestseller. Publique, por favor..
    A internet é, com certeza, uma boa forma de expandir seus horizontes, mas o seu talento pode ser reconhecido – e prestigiado – de forma profissional também. Você é muito boa!
    Tanto que escreveu um ‘livro’ inteiro já deixando abertura para um segundo livro inteirinho, já que tem muito temas para serem abordados ainda. Sagaz! Haha

    E eu estou muito ansiosa para a continuação. Tomara que não demore muito!

    Precisamos saber quem é o “Thor”. Precisamos saber mais sobre os poderes da Jenny. Precisamos saber como a revolução impactará o mundo. E algo me diz que Angie e Adam poderiam ser um bom par. Hahaha

    Ah, e já não era sem tempo, ein! Espero pela parte em que a Anna “doaria” o sangue dela para a Jenny desde a primeira vez que ela se machucou feio. E olha que desde então não foram poucas! Haha

    Parabéns pela sua história! Sério. Magnífica!

    Eu amei cada pedaço. Menos o menage… ja estava ficando com raiva! Hahahaha
    Ainda bem que foi um sonho!

    (Eu só fiquei meio perdida em relação ao tempo em que se passa a história. Voltei várias vezes pra tentar entender e não consegui. Pode me ajudar com isso? Rs)

    Adorei a personalidade da Jenny. Inclusive, parecidissima com a da Alice, de Amigos de aluguel. Imagino que elas sejam baseadas em você… já que, você parece ter uma aura bem juvenil e alegre. Ainda com a imaginação bem viva!
    Sorte a nossa!

    Muito obrigada, Cris!

    E obrigada pelo que está fazendo também pelo novo “ABCles”.

    Abraços e aplausos!

    (Ficou bem grande. Wow!)

  • Eulália Dantas

    Simplesmente fantástico!!! Fiquei encantada com essa história, a maneira como escreve a comédia, o drama, a ação… Você é de uma criatividade incrível. Estou sem palavras para descrever o que sentir durante o tempo que li essa história. Sou fanática por livros, mas esse me encantou de tal forma que não consegui sair da frente do note nem para estudar para uma prova da faculdade, acho que me dei mal com o professor, mas tinha que terminar de ler, fiquei hipnotizada
    Obrigada pelas histórias cheias de ações e amor, tudo que sempre quis ler e não conseguia ver nas livrarias!!!
    Um abraço e continue sempre assim, porque existem pessoas que como eu, vivem sozinhas e a única alegria são suas histórias ricas em novidades e criatividades!!!

  • Alexandra(Leoa da Estrela)

    Adorei o seu conto 🙂
    Esta espectacular, você escreve tão bem.
    Já o 2121 fiquei estupefacta, é incrível a maneira como a gente entra na historia, como a gente imagina as personagens, como imaginamos por exemplo a casa da nossa Anna com o pier na praia. é incrível como imaginamos cenários, Missões, ferimentos e cicatrizes. A maneira como você escreve dá para irmos imaginado tudo até ao mais minucioso pormenor.
    Adorei o Final e aguardo ansiosa pela segunda parte.
    Espero um dia que os seus livros cheguem a portugal, acho que teria muita gente a compra-los e a ansiar sempre por mais.
    Boa escrita e bom trabalho 🙂

    p.s: Assim como a Theo, acho que você também tem um carinho especial por a Jenny 😀

  • Bibiana Beurmann

    Quero mais!! Completamente apaixonada, Cris! Os meus últimos dias com Jen e Anna foram incríveis. Impossível parar de ler, impossível não me emocionar. Vou te falar…. ri, chorei, quase morri! rsrs Perfeito! Parabéns!! Não pare nunca de criar histórias… você é uma contadora e tanto!

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