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Capítulo 77 – Alétheia

Capítulo 77 – Alétheia

As cinco em ponto Sam passou pela catraca de saída do seu local de trabalho. Já no estacionamento, entrou em seu carro e verificou através de seu sistema interno quais vias superiores estavam com menor tráfego àquela hora, para perfazer o caminho até a Archer.

Antes de acionar o motor do carro e as travas, levou um susto com a porta abrindo-se abruptamente, não teve tempo de ver de onde viera a descarga elétrica disparada em seu pescoço, apagou.

Acordou desnorteada algum tempo depois, com mãos e pés algemados, deitada no fundo de um grande carro em movimento. Tudo parecia girar ao seu redor, organizou os pensamentos até entender como chegara ali.

Conseguiu se erguer, estava agora sentada sobre um cobertor e com as mãos para trás, tentando se equilibrar.

– O que está acontecendo? – Falou com a voz ainda trêmula.

– Já estamos chegando, amor. – Mike virou-se para trás sorridente, a fitando, e voltou a dirigir.

– Mike?? O que você pensa que está fazendo? Pare esse carro agora!

– Vou parar dentro de alguns minutos.

Sam tentou pular para os bancos de trás, apesar da tontura.

– Pare o carro!

– Não quero te apagar de novo, comporte-se.

Sam o ignorou, quando finalmente pulou para o banco, recebeu nova descarga no pescoço.

***

– Aconteceu alguma coisa, Sam não some assim do nada. – Theo já soava nervosa, de pé na sala de Stefan.

– A localize. – O advogado disse apontando para sua nova mão.

Theo fez o sugerido, em poucos segundos conseguiu a localização do carro e do comunicador dela, ambos estavam parados no mesmo lugar.

– Está perto do quartel dela, deixa eu ver em tempo real. – Theo disse e ampliou a tela.

Os três presentes na sala puderam ver numa imagem de vista superior o carro estacionado numa rua deserta e sem saída. Aproximaram a imagem, o carro parecia vazio.

– Ela não está aí. – Stefan logo deduziu. – E não temos como saber onde ela realmente está.

– Espera. – Theo deu novos comandos na tela, abrindo um novo ponto de localização.

– O que você está rastreando? – Virginia perguntou.

– A nova perna dela tem emissor de localização.

– Que lugar é esse? Ela está em movimento. – Stefan arguiu.

– Algum lugar em Atibaia, ela está a setenta quilômetros daqui, aparentemente num carro em movimento.

– Tente alguma imagem mais próxima.

– Vou tentar. – Theo olhou de perto. – Parece que ela está nesse carro preto.

– Não tem como visualizar melhor? Ou de perto? – Virginia perguntou.

– Não, está andando rápido demais. – Theo jogou a imagem para o lado e se dirigiu ao seu amigo de gravata vermelha. – Mike a pegou, só pode ter sido ele.

– Talvez ela esteja ali a trabalho.

– E por quê o carro abandonado naquele lugar? Ela nunca fica depois do horário, quando se atrasa cinco minutos ela me liga avisando. Foi Mike, eu tenho certeza que foi aquele miserável!

– Stef, eu também acho que isso é obra dele. – Virginia disse. – Temos que segui-los, eu vou pedir um helicóptero.

– Peça com extrema urgência, Vi. – Theo disse afoitamente.

Os três partiram num helicóptero minutos depois, já sabendo a localização final do carro negro. Ele havia entrado num prédio alto e antigo, e estacionara em algum dos níveis. O sinal de Sam vinha agora do 28º andar daquele prédio decadente. Não havia nenhuma outra informação, mas a intuição de Theo já parecia certeza para todos, que seguravam o pânico por conta das possibilidades.

– O que aquele canalha está fazendo com ela? – Theo se perguntava nervosamente, esfregando o pulso esquerdo.

– Vamos interceptá-los logo, fique calma. – Virginia disse com a mão em sua perna.

O helicóptero pousou num prédio vizinho, os três desceram apressados, e tinham a companhia de dois seguranças.

– Merda de muleta! – Theo esbravejou, queria poder correr para o prédio vizinho, mas seu ritmo era lento.

– Deixe os seguranças entrarem na frente, ok? Não abra a porta quando chegarmos. – Stefan a advertia, já subindo o elevador do prédio certo.

– O que aquela peste está fazendo com Sam aqui? O que pode ter nesse prédio?

– Clínicas clandestinas. – Stefan respondeu.

O coração da jovem herdeira parou por alguns segundos, já não era mais possível segurar a tensão e suas pernas queriam a trair.

– Essa porta? – George, um dos seguranças, já com arma em punho, perguntou. Stefan confirmou com um movimento de cabeça.

A porta estava trancada, o segurança precisou de quatro chutes para finalmente abri-la. Viram apenas o que parecia uma sala de espera vazia com cadeiras velhas. Outra porta estourada a força, e finalmente encontraram o que procuravam.

– Vocês não podem entrar assim na minha clínica! – Um homem de meia-idade trajando um jaleco branco bradou para os invasores do recinto.

Um dos seguranças apontou a arma para ele.

– Não atire! – Ele disse apavorado

– Onde ela está? – Theo se antecipou e foi para cima do médico.

– Ela quem?

Stefan percebeu uma porta aberta e deduziu que ele saíra dali.

– Ali, ela deve estar lá trás.

Ele estava certo, Sam estava deitada dentro de um grande equipamento, numa cadeira articulada, Theo logo reconheceu aquela parafernália, era um reprogramador bioquímico clandestino.

– Desligue isso! – Theo bradou, o segurança segurava o médico pelos braços.

– Não posso desligar, é preciso que o procedimento finalize.

– Não, não é para finalizar! Desligue e tire ela daí!

– Onde eu desligo isso? – Stefan se aproximou do médico. – Responda senão ele vai meter uma bala em você.

– Ela pode ter danos cerebrais se o procedimento for interrompido, espere terminar, falta pouco.

Virginia foi até à máquina e pediu que o segurança arrastasse o médico até ali.

– Desligue agora. – Virginia vociferou.

– Eu desligo se me deixarem ir embora depois.

Se entreolharam rapidamente, Theo assentiu. O processo foi desligado e o leito-cadeira articulada moveu-se para fora, agora era possível ver Sam por completo, com inúmeros fios e conectores em sua cabeça e peito.

– Sam? Sam, acorde. – Theo mexia em seu ombro.

– Faça com que ela acorde. – Stefan ordenou ao médico.

– Ela vai acordar em alguns minutos, se não tiver nenhum dano. Agora me deixem ir embora.

– O que fizeram com ela?

– A janela! – Stefan percebeu uma janela aberta e com as persianas arrebentadas.

Ele e George correram para a janela e puderam ver Mike descendo pela escada de incêndio, já distante.

– Eu vou atrás dele. – George disse.

Quando passou uma perna e o corpo para o lado de fora, um tiro acertou seu braço. Stefan o puxou de volta para dentro.

– Estou bem, vou atrás dele pelo elevador. – George disse apertando o ferimento no braço.

– Está bem mesmo?

– Foi de raspão. – Disse e saiu correndo da sala.

– O que aquele desgraçado mandou você fazer com ela? – Theo interpelou o médico, apontando para Sam.

– O pacote.

– Que pacote? Que porra fizeram com ela?

– Reprogramação e supressão de memória.

– Vocês apagaram a memória dela?? Vocês fizeram isso?? – Theo desesperava-se.

– Apenas os últimos dois anos, mas você sabe como são essas coisas, ainda é algo experimental, pode apagar um pouco mais ou um pouco menos, não é nada exato.

– Desfaça.

– Não tenho como desfazer, nenhuma das duas coisas. – O médico debateu-se tentando se livrar dos braços do segurança. – Não quero ser preso, me deixem ir.

– Theo, acho melhor levar Sam para um hospital o mais rápido possível. – Virginia disse ao seu lado.

– Qual procedimento você fez primeiro? – Stefan perguntou.

– Os dois são feitos ao mesmo tempo, não tenho como saber o que acontece quando é interrompido antes da hora, mas a moça tem razão, ela precisa de um neurologista com urgência.

– Deixem esse filho da puta ir, vamos levar Sam. – Theo disse.

– Pode deixar comigo. – O segurança soltou o médico e tomou Sam nos braços.

Já descendo o elevador, Theo colocou os braços dela para cima do corpo, e beijou sua cabeça.

– Vai ficar tudo bem, você vai acordar daqui a pouco. – Sussurrou.

George entrou em contato enquanto subiam no elevador do prédio ao lado.

– Cheguei tarde demais, ele fugiu.

– Suba para o helicóptero, vamos para o hospital. – Stefan respondeu.

Pouco tempo depois o helicóptero pousara no Lincoln Memorial. Sam e George seguiram para enfermarias diferentes, deixando Theo, Virginia e Stefan num estado de consumição numa sala de espera.

Theo largou a muleta ao lado e mergulhou o rosto em suas mãos, o silêncio e o frio preenchiam aquela sala branca quase vazia. Baixou as mãos e espojou-se para trás na cadeira, suspirando profundamente.

– Deve ter sido aqui, nessa sala. – Theo olhava ao redor.

– O que? – Virginia estava sentada ao seu lado, Stefan ao lado da namorada.

– Que Sam ficou esperando a notícia, se eu havia morrido ou não. Se não foi aqui, foi em outra sala semelhante.

– Quando você atirou em você mesma?

– Sim. E depois trouxeram minha carta de despedida, ela disse que chorou quando leu. – Theo fitava uma cadeira vazia à frente, imaginando a cena.

– Eu li a carta no dia seguinte. – Stefan disse. – Também chorei.

– Até você, Stef?

– Eu achava que você ia morrer.

– Se tudo que fizeram deu certo… – Theo voltou a ostentar um semblante temeroso. – Se apagaram mesmo a memória dela, aquela noite também sumiu das lembranças para sempre.

– Acho que a prioridade agora é que Sam não tenha sofrido nenhum dano, que acorde bem e consciente. Se os procedimentos foram completados…

– Ela não sabe quem eu sou, e está apaixonada por aquele canalha. – Theo completou.

– Talvez. – Virginia disse tristemente. – Não significa que seja irreversível.

– Terei que roubá-la novamente de Mike? – Theo disse num sorriso fraco. – Meu Deus, aquilo deu tanto trabalho… E na época ela estava desprogramada, não o amava mais.

– Como você conseguiu? Quando percebeu que ela estava na sua? – Virginia tentava arejar a conversa.

– Não sei… – Theo respondeu pensativa.

– Não teve algum momento em que você percebeu que a coisa era séria?

– Eu tive certeza que ela estava a fim na noite em que fiz uma massagem em suas costas, ela estava sem camisa, e eu percebi o corpo inteiro dela respondendo com o toque das minhas mãos. Ali tive certeza que ela estava ferrada, e eu também. Bom, estamos ferradas de novo.

– Ela está nas mãos de bons médicos, ela vai lembrar dessa noite, e de todas as outras, fique tranquila. – Stefan disse.

George apareceu na sala com o braço enfaixado e uma tipoia, foi logo despachado para uns dias de repouso. Depois apareceu Letícia, fazendo companhia para o trio. E apenas muito tempo depois, apareceu um médico, trazendo notícias.

– Não houve danos. – Doutor Franco foi logo falando, para alívio de todos.

– Que notícia maravilhosa. – Virginia vibrava.

– Ela acordou? – Theo perguntou afoita.

– Ainda não, a sedamos para fazer os exames, então se tudo correr conforme o esperado, ela deve acordar dentro de algumas horas.

– Posso vê-la?

– Pode sim, mas sem bagunça.

– Temos como saber se os procedimentos tiveram efeito? – Stefan questionou.

– Não, se tivéssemos imagens das atividades cerebrais dela de antes, poderíamos comparar, mas não temos.

– Ela está bem? Vai passar por mais exames? – Theo perguntou.

– A princípio está tudo em ordem, mas só teremos certeza quando ela acordar. Se acordar bem, amanhã faremos mais uns exames e a liberamos.

– Viu? Está tudo bem. – Virginia disse a enlaçando pelo ombro.

– Me acompanhem.

O quarteto entrou no quarto onde Sam dormia profundamente, havia apenas dois monitores colados em seu peito e um tubo de oxigênio sob o nariz. Theo foi a primeira a chegar ao lado do leito, tomando sua mão instantaneamente.

– Sam? Me ouve?

– Acho difícil que ela te responda, a não ser que vocês duas desenvolveram telepatia. – Doutor Franco, que cuidara da cabeça de Theo desde o princípio, zombou.

– Achei que o senhor tivesse implantado esse chip no meu cérebro em uma das vinte cirurgias.

– Foram apenas oito.

– Não se atreva a abrir a cabeça dela.

– Samantha está ótima, mas aconselho que ela faça uma bateria de exames no local onde fizeram todas essas modificações ciborgues no corpo dela.

– Na Zona Morta. Quando estiver tudo ok a levarei lá.

– E você?

– O que tem?

– Está bem?

– Ótima, meus lapsos diminuíram.

– Vou marcar uma revisão para você.

– Fizemos uma revisão exaustiva não faz nem dois meses, examinaram coisas que nunca tinha examinado antes.

– Está na hora de fazer de novo. Não entendeu ainda que vou te revisar para sempre?

– Podemos mudar de assunto? Eu quero informações dela, não minhas.

– Ela vai dormir feito pedra agora, e você vai para casa dormir.

– Eu vou ficar.

– Apenas uma pessoa pode pernoitar aqui, e não será você.

– Eu posso ficar aqui, Theo. – Letícia se ofereceu.

– Obrigada, Lê, mas por que não posso ficar, doutor? Eu estou bem, não me trate como incapaz.

– Tá bom, tá bom, mas sem agitação, vou passar aqui mais tarde para ver se você está dormindo.

– Ela é a paciente. – Theo já perdia a calma.

– Assim eu vou te mandar para casa.

Theo apenas respirou com força, abriu o zíper de seu casaco vermelho e o retirou.

– Obrigada pela preocupação. – Theo diminuiu o tom, e sentou-se no pequeno sofá de dois lugares do quarto.

– Posso trazer uma muda de roupas para você. – Virginia se ofereceu.

– Talvez amanhã, depende de quando ela tiver alta.

– Eu inicio meu plantão aqui amanhã as oito, trago roupa e comida para você. – Letícia disse.

– Obrigada.

O médico se foi, os outros levaram ainda uma hora fazendo companhia. Dani visitou a paciente e levou Letícia embora. Maritza foi até a mansão e trouxe os remédios de Theo e o comunicador de Sam. O outro casal foi logo depois.

Depois que todos se foram e o silêncio retornou ao quarto hospitalar, Theo tomou alguns remédios e foi ao banheiro lavar o rosto e as mãos. Arrastou uma cadeira para perto do leito, sentou e debruçou-se sobre a cama, a fitando com carinho e preocupação.

– Chega de sustos por hoje, ok? Tive que esconder minhas mãos tremendo do pessoal. – Ajeitou-se, deitando a cabeça em sua coxa, corria a mão por sua perna num carinho lento.

Estava mais tranquila agora por estar a sós com Sam na penumbra do quarto, sentindo o calor da pele dela através do lençol que a cobria e ficando cada vez mais sonolenta, até adormecer.

Sam acordou no início da madrugada, bastante grogue e com os olhos pesados, parecia sentir a maior ressaca de sua vida. Viu Theo dormindo debruçada em suas pernas, deu uma olhada em volta um tanto confusa.

Sacudiu delicadamente Theo pelo ombro, que acordou no susto e logo abriu um sorriso ao vê-la acordada.

– Bom dia, dorminhoca. É bom te ver acordada. – Brincou com a paciente, que ainda parecia recuperar a consciência aos poucos.

– Bom dia… É noite ainda?

– Sim, madrugada. Como se sente? A cabeça dói?

– Dói… E gira.

– O médico já esperava isso, você vai sobreviver. Quer alguma coisa?

– Água.

Theo lhe serviu um copo com água e ergueu a cabeceira da cama.

– Você está bem, os exames não mostraram nada de errado, vai ter alta logo. – Theo contava com alegria.

– Que bom… Você trabalha aqui?

O sorriso sumiu devagar, Theo não sabia se era uma brincadeira dela.

– Sou eu. Theo.

– Eu deveria conhecer você? Trabalhamos no mesmo grupamento?

– Você está falando sério? – Theo perguntou já sem vestígios de sorriso em seu semblante, pelo contrário, a tensão a dominava.

– Eu… – Sam começava a se agitar por não conseguir organizar seus pensamentos nem compreender a situação. – O que aconteceu comigo? Por que estou aqui?

– Mike, ele te sequestrou, não lembra de nada?

– Mike? Ele está aqui?

– Claro que não, ele fugiu. – Theo se aproximou, tomando a mão dela entre as suas. – Amor, sou eu, não me reconhece?

Sam olhou para sua mão com confusão.

– O que fizeram comigo? Outra cirurgia Borg? – Disse e puxou sua mão de volta, sem jeito.

– Eles apagaram sua memória e fizeram reprogramação bioquímica, nós interrompemos o processo e eu achei que nada disso tivesse se completado, mas pelo visto funcionou…

– Eu não perdi a memória, me recordo de tudo, menos disso que você está falando.

– De tudo? Mas não sabe quem eu sou?

– Desculpe, mas não consigo lembrar de você.

– Samantha, que dia é hoje?

A soldado a encarou com aparência sofrível, como se executasse cálculos complexos.

– Acho que é algum dia de agosto.

– De que ano?

– 2120.

– Ah não, que merda! – Theo explodiu, balançando os braços. Estava sem a muleta, desequilibrou-se e caiu de joelhos.

– Você está bem?

– Não!

– Então… Apagaram minha memória? Quanto tempo?

– Dois anos. Quer dizer, estamos em julho de 2122, então você esqueceu um ano e onze meses da sua vida recente, você esqueceu toda a convivência que teve comigo, entende o que aquele desgraçado fez? Ele me tirou das suas memórias!

– Ele quem?

– Mike, aquele canalha!

Sam a olhava ainda assustada, continuava um pouco grogue. Recostou-se na cama num suspiro longo.

– Eu não sei quem é você, nem porque está falando assim do meu noivo. O que você está me dizendo não faz o menor sentido, eu preciso falar com alguém, algum superior, colega, médico… Você tem como contactar Mike?

– Veja a data de hoje com seu sistema Borg.

– 14 de julho de 2122. Alguém pode ter adulterado isso.

Theo tomou o comunicador de Sam que estava em cima de uma mesinha e entregou a ela.

– Veja a data.

– Ok, então estamos em 2122, o que aconteceu nesses dois anos? Eu hibernei?

– Você recomeçou sua vida depois de conseguir um coração novo.

Sam imediatamente levou a mão ao peito.

– Eu consegui um coração novo?

– Conseguiu, você lembra que estava com um artificial que ia desligar, certo?

– Lembro. Eu estava planejando desertar do quartel com Mike. Isso aconteceu?

Theo riu.

– Você desertou sozinha.

– Eu fui punida? Estou presa aqui? Esse é o hospital militar da nossa base?

– Você está livre e em San Paolo, não na Zona Morta.

– Por que?

– Porque você mora aqui. – A ficha estava caindo para Theo, se apoiava com ambos os braços na cama, sua voz já soava desolada.

– Eu nunca moraria nesse continente.

– Sam, olhe para mim. – Ela se aproximou e espalmou as mãos ao redor da cabeça da soldado, a segurando. – Não se recorda de absolutamente nada? Não faz ideia de quem eu seja? Olhe bem para mim, faça um esforço e tente se lembrar.

Após alguns segundos silenciosos, Sam respondeu.

– Quem é você?

– Eu sou sua esposa.

Sam rapidamente desvencilhou das mãos de Theo, incomodada.

– Não fale uma besteira dessas, eu sou uma mulher direita. – Vociferou.

– Você casou comigo, estamos juntas há um ano e meio, não se recorda de nada disso?

– Olha, moça… Eu ainda não sei o que está acontecendo aqui, se isso é alguma brincadeira dos meus colegas de quartel, se estão pregando uma peça e pediram para você vir aqui falar essas coisas, mas não tem graça, ok? Eu quero voltar para o alojamento, eu preciso sair daqui.

– Não saia da cama. – Theo a segurou pelo ombro. – Não é uma brincadeira, você realmente foi submetida aos procedimentos numa clínica clandestina, seus exames estão bons, mas você ainda está em observação, ainda está sendo sedada.

Sam a encarou com semblante assustado.

– Então estamos mesmo em 2122?

– Estamos, querida. Sua vida mudou muito nesses dois anos.

– Eu moro em San Paolo?

– Sim, estamos no hospital Lincoln Memorial, em San Paolo. Você não tem mais nada na Zona Morta, sua vida é aqui agora.

– E minha família?

– Continua em Kent, e sua mãe continua na França, todos estão bem, seus sobrinhos já dobraram de tamanho. – Theo riu. – Nós vamos visitá-los mês que vem, vamos passar seu aniversário lá.

– Você os conhece?

– Conheço toda sua família, e todos sabem como você vive hoje em dia, Lynn até me chama pelo nome agora. Seu pai é o único que ainda não nos aceita, mas sua relação com ele hoje em dia está até tranquila.

– Isso é um absurdo! Eu nunca faria isso com a minha família!

Sam voltou a negar a nova realidade, com um rompante fomentado por confusão e medo.

– Não se agite. – Theo pousou a mão no braço dela, que foi retirado prontamente.

– Não encoste em mim, não sei quem é você.

– Hey, tem uma aliança no seu dedo, olhe o nome dentro. – Theo lembrou.

Sam hesitou, removeu e verificou sua aliança.

– Theodora é você?

– Sim, e eu tenho seu nome aqui dentro da minha. – Ela disse mostrando a aliança na mão direita. – Foi você quem comprou.

– Não, não… Tem algo de muito errado acontecendo aqui, e eu quero falar com outra pessoa, algum superior, ou alguém que eu conheça.

Estava sendo um desafio e tanto para Theo manter-se calma e com o cérebro sob controle, tinha consciência que a situação era trágica, mas agora importava apenas diminuir a apreensão que ela via nos olhos da esposa.

– Talvez seja passageiro, talvez sua cabeça volte ao normal logo, e você recupere a memória. O outro procedimento também deve ter conserto, talvez com uma nova reprogramação, sei lá.

Sam queria um tempo para processar as informações, Theo dava sinais de angústia e cansaço, suas pernas já ardiam por estar tanto tempo de pé. Sentou na cadeira ao lado.

– Isto deve ser um pesadelo… – Sam lamuriou-se.

– Eu sei que é difícil de acreditar, sei que deve ser desesperador acordar numa realidade tão diferente, eu entendo sua aflição. – Theo ponderava, seu coração estava apertado. – Precisamos ter calma agora.

– Não, você não faz ideia. É fácil para você falar, sua vida continua a mesma.

– Minha vida não é a mesma sem você.

– Eu não posso fazer nada.

Uma enfermeira entrou no quarto, as cumprimentou educadamente e trocava o frasco com o líquido intravenoso.

– Senhora, que hospital é esse? – Sam perguntou a ela.

– O Lincoln.

– Onde fica?

– Morumbi.

– E isso fica onde?

– Em San Paolo.

– Que dia é hoje?

– 14 de julho.

– De 2122?

– Sim. Precisa de algo?

– Tem algum médico cuidando de mim?

– Doutor Franco, mas ele só retorna amanhã. – A enfermeira virou-se para Theo, que já a conhecia de sua longa estadia naquele hospital. – A confusão mental começou agora?

– Não é confusão, ela perdeu a memória.

– Lembra de mim, Sam?

– Não.

– Não se preocupe. – A enfermeira deu dois tapinhas no ombro de Theo. – Deve ser passageiro.

– Espero que sim.

– É estranho ver vocês assim invertidas. – Sorriu, Theo também.

– Invertidas? – Sam não entendeu.

– Theo cuidando de você.

– Eu não faço ideia do que você está falando. Escute, não me dê sedativos, ok? Eu não sei onde estou e quero estar bem acordada.

– É só um pouquinho para você relaxar. São quatro da madrugada, durma um pouco.

A enfermeira saiu, Sam continuava olhando para o acesso em seu braço, de forma intrigada.

– Ela tem razão, melhor você dormir, amanhã de manhã o médico vem te visitar.

– Eu não quero dormir, é difícil de entender? Eu quero ir embora. – Disse grosseiramente.

– Para onde? Hum? – Theo respondeu também de forma ríspida. – Para a Zona Morta?

– Onde eu moro agora?

– Comigo, e você gostando ou não, é sua única casa agora.

Sam retrocedeu o tom.

– Eu ainda não sei para onde vou, até amanhã eu decido. Se for o caso, fico na sua casa até arranjar um lugar para mim, amanhã eu devo conseguir falar com meu noivo e resolvo tudo.

Theo apavorou-se, ficou de pé.

– Não entre em contato com Mike, não faça isso de jeito nenhum.

– É claro que vou procurá-lo, ele está aqui na cidade, eu vou até onde ele está.

– Sam, Mike é perigoso, você não sabe o que aconteceu nesses dois anos, esse homem fez barbaridades com a gente, ele bateu em mim, tentou me matar, ele é um assassino sem escrúpulos.

– Assassino? Você ficou louca, ele é um major cheio de condecorações.

– Ele não é mais major, nem militar, ele foi expulso. Sam, eu estou falando sério, pelo amor de Deus me escute, não fale com ele.

– Você não pode me impedir.

– Ele é procurado pela justiça por assassinato, é um bandido foragido.

– Vou chamá-lo aqui, e nós três conversamos, o que acha?

Theo respirava com rapidez, nervosa.

– E eu chamarei a polícia para prendê-lo.

– Se você gosta de mim como diz, então deixe fazer o que eu quiser.

– Eu nunca te proibiria de nada, mas você precisa me ouvir, você está desatualizada, você corre sérios riscos nas mãos daquele homem. Ele não é mais seu noivo, não é a pessoa que você acha que é.

Sam a ouvia tentando disfarçar o assombro com as palavras dela.

– Eu não sei se posso acreditar em você. – Sam disse sonolenta.

– Tudo bem, mas a única coisa que peço a você é que não fale com Mike, só isso. Vamos dormir um pouco, amanhã você conversa com quem você quiser, confirma tudo que falei, chame Maritza aqui, ela mora perto.

– Maritza mora aqui??

– Mora, fale com ela amanhã, você confia nela, não confia?

– Sim.

– Descanse, você está com sono, eu também vou deitar.

– Não precisa ficar aqui.

– Eu vou ficar com você até a alta.

– Não quero, você pode ir.

Theo a fitou sem palavras.

– Vá para sua casa. – Confirmou.

– Eu só vou dormir ali no sofá, não vou perturbar você.

– Você pode me fazer o favor de ir embora?

Engoliu uma bola de angústia garganta abaixo, assentiu com a cabeça.

– Claro. Prefere ficar sozinha?

– Prefiro, eu preciso entender o que está acontecendo, também preciso orar um pouco.

Theo a fitou com sobrancelhas baixadas, com aparente confusão. Olhou ao redor, olhou para Sam de novo.

– Por que estamos aqui?

– Como assim?

Continuou a olhando tentando se recuperar do apagão.

– Esquece, lembrei.

– O que aconteceu?

– Eu esqueci onde estava e o que estava fazendo.

– Você é retardada?

– Eu estava indo embora. – Disse e foi até o armário arrastando a perna esquerda, vestiu o casaco xadrez e tomou a muleta.

– É, estava sim.

Caminhou de volta ao leito, profundamente entristecida por ter sido expulsa dali.

– Eu posso voltar amanhã de manhã? – Pediu.

– Não precisa.

– Posso te buscar quando tiver alta?

– Me passe seu endereço, eu vou para lá quando me liberarem.

– Promete que vai?

– Você disse que é a única casa que tenho.

– É o lar que você escolheu. Olhe, eu estou indo, mas quero que você saiba que eu nunca te obriguei ou te pressionei a nada, eu nunca te chantageei ou fiz algo do tipo, você escolheu ficar comigo, e você é muito amada.

– Eu não quero soar insensível, mas precisarei falar com outras pessoas para saber o que aconteceu comigo.

Theo balançou a cabeça, concordando.

– Tudo bem. Pode me ligar se precisar de algo.

As duas se entreolharam por alguns segundos tensos, Theo hesitava, não queria ir embora.

– Pode ir.

– Você vai ficar bem, não vai?

– Eu estou bem. – Sam respondeu com sono.

– Me ligue amanhã e eu mando um carro te buscar.

– Eu sei me virar. Aquilo não é seu? – Apontou para um saco plástico no sofá.

– Sim, são meus remédios.

Theo entendeu que Sam realmente a queria fora dali o quanto antes. Caminhou devagar até o sofá.

– O que houve com a sua perna? – Sam perguntou com curiosidade.

– Machuquei.

– Hoje?

– Não, faz tempo.

– Como?

Theo virou-se na direção da paciente.

– É uma longa história, outra hora eu conto. Fique bem.

Já estava quase na porta quando Sam a chamou.

– Espere, volte aqui.

Theo trotou como pode, cheia de esperanças, até a cama.

– Tome, isso não me pertence. – Sam lhe entregou a aliança. Theo a olhou incrédula.

– É sua. – Disse com dificuldade.

– Não posso usar isso, vai contra meus princípios. – Sam insistiu, irritada.

– Ok. – Theo estendeu a mão com os olhos brilhantes, quase transbordando. Tomou a aliança e colocou no dedo anelar da sua mão direita.

– Eu ainda não sei o que aconteceu, e não importa o que eu tenha feito, quero que fique claro que eu não sou como você.

Theo deu meio sorriso.

– Eu já ouvi isso antes. – Endireitou-se sobre a muleta e virou as costas.

– Não crie expectativas, você não significa nada para mim.

Estava doendo profundamente ver a mulher que amava agindo com tanto descaso, seu coração não compreendia que aquela não era a Sam de agora, mas entendia que aquela situação era complicada demais, conseguia prever que os dias seguintes não seriam mais fáceis que aquele.

– Bom descanso, oficial. – Disse com a voz embargada.

– Eu sinto muito.

Theo ouviu as palavras já fechando a porta, não olhou para trás, apenas seguiu para o elevador, o segurança juntou-se a ela.

Já longe da vista de Sam, se permitiu chorar. Enxugava os olhos com grande abatimento, seguiu no carro até sua casa sem conseguir conter o tormento em forma de lágrimas. Girava nervosamente a aliança na mão direita.

Encontrou o cachorro na sala, lhe fez um afago.

– Ela não voltou, Levon. Ainda não.

Subiu para o quarto desolada, seguiu diretamente até sua farmacinha particular, uma estrutura que Sam havia construído para ela no ambiente secundário de sua suíte. Entornou meia dúzia de pílulas num gole d’água.

Queria apenas que aquele dia acabasse de uma vez, ingeriu uma combinação que a derrubaria em minutos. Foi até a sacada inspirar um pouco do ar gélido da madrugada, ali também havia outra inovação recente. Para os dias em que Theo acordava sem forças para descer, ampliaram a área da sacada e colocaram ali uma mesa com duas cadeiras, para refeições no quarto. Tudo idealizado por Sam. Aquela mesma pessoa que agora a escorraçava de sua companhia.

Tirou os tênis e o casaco pelo caminho e desabou na cama.

***

– Bom dia, como estamos hoje? – Letícia entrou no quarto do hospital pouco após as oito da manhã, tirando Sam de um cochilo, estava de plantão. Carregava nas mãos duas peças de roupas, um copo com suco e um pacote pardo com sanduíche.

– Bom dia… – Sam respondeu sonolenta, se ajeitando na cama.

– Como se sente?

– Melhor, acho que já podem me dar alta.

– Que bom, querida. – Letícia largou tudo numa mesinha, olhou para os lados, inclinando a cabeça. – Onde está nossa amiga?

– Quem?

– Theo.

– Ah, aquela menina. Ela foi embora ontem.

Letícia precisou de meio segundo para que seus olhos se abrissem mais e com espanto. Cobriu seu crachá eletrônico em seu jaleco branco com a mão.

– Qual o meu nome?

– Como vou saber? Você cobriu o crachá, não olhei antes.

– Sam, por favor, me diga que sabe meu nome.

– Eu sinto muito. Você me atendeu ontem?

– Para onde Theo foi?

– Para casa, eu acho.

– Oh merda… Merda, merda. – Letícia exclamou com inquietação.

– Isso não foi educado, doutora.

– Que porra fizeram com você?

– Você é mesmo médica daqui? É que lá na Europa não é muito comum ver negros na medicina.

– Então a Samantha da idade média voltou? Isso não pode estar acontecendo…

– Pelo visto você fez parte do meu passado recente, só falta me dizer que também é casada comigo.

Letícia a fitou por alguns segundos, acalmando seus pensamentos.

– Eu vou pedir para Doutor Franco fazer uns exames em você, a equipe dele é ótima, eles vão encontrar formas de reverter isso, então nem pense em sair desse hospital hoje. – Respirou fundo. – Qual a última data que você se recorda?

– Algum dia de agosto de 2120, acho que antes do meu aniversário.

– Você foi grosseira com Theo ontem?

– Eu não sou grosseira com ninguém, e não tenho intimidade com você.

– Você deve ter sido um pedaço de cavalo com ela ontem, vou dar uma escapada para visitá-la. Se ela estiver mal, eu volto aqui e acerto minhas contas com você.

– Estou morrendo de medo de vocês duas.

– É, realmente você não sabe quem ela é… – Letícia disse e tomou tudo que havia trazido nas mãos.

– Isso é para mim?

– Não.

– Posso ficar com a comida? – Sam pediu.

Letícia bufou e largou novamente as coisas ao lado da paciente.

– Fique com tudo.

***

Quando Letícia adentrou o quarto de Theo encontrou também Michelle e Stefan ao seu lado, estranhando a cena.

– Vocês já sabem?

– Sim, infelizmente sim. – Stefan retrucou, estava numa das poltronas, enquanto a senadora estava sentada na cama, ao lado de Theo, que estava recostada na cabeceira, com aparente abatimento.

– Sabe como eles descobriram, Lê? Eles me rastreiam, eu nunca imaginei isso, que eles me rastreavam. Eles acordaram hoje e estranharam o fato de eu estar em casa, e não no hospital.

– Querida, todo o grupo te monitora. – Michelle explicou.

– Você também, Letícia?

– Ãhn… É, eu também. Nossa rede de proteção funciona assim, todo mundo rastreia você.

– Por que sempre sou a última a saber das coisas? – Theo reclamou.

– Justamente porque já sabemos que você reclamaria. – Letícia rebateu, com bom humor.

– Você foi ao quarto dela hoje? – Theo perguntou.

– Sim, e eu não sabia de nada, eu não esperava encontrá-la assim desmemoriada. Ela voltou a ser insuportável, não sei como você aguentou essa mulher.

– Bom, você sabe porquê, não quero soar piegas agora.

– Antes de sair eu deixei uma mensagem para Doutor Franco avisando do ocorrido, e pedindo que ele conversasse com a equipe para encontrar formas de reverter o quadro.

– São dois grandes problemas que precisam ser revertidos. – Stefan a lembrou. – A atração por Mike voltou, e isso pode ser muito perigoso para todos nós.

– Ela já deve estar em contato com ele. – Theo disse. – Devem estar conversando, a essa altura ele já deve ter planos para abordar Sam em breve.

– E ela deve estar com saudades dele, querendo um reencontro. – Michelle emendou. – Possivelmente acreditando em tudo que ele fala.

– Ótimo, e eu faço o quê? Sento e choro? Fiz isso ontem e não adiantou nada.

– Ela aceitou voltar para casa? – Letícia perguntou.

– Sim, disse que vem para cá quando tiver alta.

– Já é alguma coisa, com Samantha aqui fica mais fácil ter controle da situação.

– Mas não posso aprisioná-la aqui. Eu sei que com o tempo ela vai compreender a nova realidade, mas é bem provável que não aceite, ela abomina a nova vida.

– E pode ter certeza que ela está pensando em voltar para a Inglaterra. – Michelle disse.

– Você pode cortar os recursos financeiros. – Letícia sugeriu.

– Ela terá mais motivos ainda para se unir a Mike, ele será o príncipe no cavalo branco. – Theo rebateu. – E eu, a vilã, a aprisionando na torre do castelo.

– Só lhe resta uma saída. – Letícia indicou.

– Qual?

– Reconquistá-la.

Theo riu com ironia.

– O jogo mudou, Lê, e não está ao meu favor.

– Se deu certo uma vez, pode dar de novo.

– Eu não sou a mesma, não tenho saúde física nem mental para reviver aquilo tudo. E dessa vez Sam está programada em favor do noivo, antes ela estava desprogramada. Foi tudo tão difícil… – Suspirou com cansaço. – A situação é completamente diferente, eu não teria chances nem tempo para que ela me conhecesse melhor. Daquela vez ela se permitiu ter algo comigo porque achava que estava prestes a morrer. – Sua voz embargou. – Ela vai embora.

O quarto se calou, ninguém naquele momento encontrou uma palavra de conforto para contrapor.

– Mas lutarei até o fim. – Theo arrematou.

***

Assim que Letícia deixou o quarto hospitalar onde Sam se recuperava, o café da manhã surgiu trazido por uma funcionária. Enquanto degustava seu desjejum, tomou o comunicador em mãos.

Ligaria para sua irmã, mas resolveu dar uma olhada em suas fotos particulares. Procurava uma luz, pistas sobre sua vida, mas aquelas inúmeras imagens protagonizadas pela mulher desconhecida, que se dizia sua esposa, a deixaram ainda mais perturbada.

– Lynn? É você?

– Oi, Sam, eu soube o que aconteceu. – Sua irmã respondeu a ligação. – Você está bem? É verdade que você perdeu a memória?

– Não sei, é o que estão me dizendo, eu já não sei no que acreditar. Você não mentiria, para mim, mentiria?

– Claro que não, mas o que aconteceu? Eu não entendi, foi Mike que fez tudo isso?

– Querem me convencer que sim, mas eu não acredito neles, Mike nunca me faria mal, você sabe disso.

– Você ainda acha que ele é seu noivo?

– Disseram que não, que eu casei com uma mulher. Que absurdo! Lynn, acho que ela quer me humilhar, mas não entendo os motivos, não a conheço. Quem é ela?

– Theo? Não, a última pessoa na face da terra que desejaria seu mal seria Theo. Então você não lembra dela? Apagaram dois anos da sua memória, não foi?

– É o que parece, estamos mesmo em 2122?

– Estamos, mana. E sim, você casou com uma mulher, eu fui ao casamento. E desculpe dizer isso, mas você é louca por ela.

– Como você consegue falar isso com naturalidade? Você está me dizendo que deitei com uma mulher, como se ela fosse um homem? Isso é nojento! Eu vou queimar no fogo do inferno por causa disso!

Lindsay não era uma das pessoas mais pacientes, deu alguns suspiros antes de prosseguir.

– Eu já me acostumei com isso, você deveria fazer o mesmo. Pule toda essa parte de pecado, inferno e blablabla, vocês duas são insuportavelmente apaixonadas, essa é sua nova realidade, é a realidade para todos nós, e ninguém mais está preocupado com isso.

– Mike disse que estão mentindo para mim, você também faz parte desse complô?

– Não fale com esse psicopata, esse homem já deveria estar preso há muito tempo.

– Até você, Lindsay?

– Acorde, minha irmã. Dois anos se passaram, Mike fez um monte de merdas com vocês, fique longe dele.

– Você falou merda, você não fala palavrões.

– A vida é curta demais para não falar palavrões.

– Meu Deus todo poderoso, o que fizeram com você? O que fizeram comigo? É o apocalipse se aproximando? Você tem orado? Tem chamado por Deus?

– Você está no hospital ainda?

– Estou.

– Siga meu conselho: vá para sua casa e toque sua vida com Theo. Ah, e me dê sobrinhos logo, as crianças estão pedindo por primos.

– Eu não te reconheço, espero que você volte para o caminho da retidão e da luz em breve.

– Eu havia esquecido o quanto você era chata.

– Você que mudou!

– Você mudou muito mais que eu, Sam.

– Pois eu refuto essa nova realidade!

– Pare de gritar no meu ouvido, acalme-se e vá se acostumando aos poucos. Converse com Theo, ela tem toda paciência do mundo com você, aquela garota merece ser canonizada.

– Você acabou de falar uma blasfêmia.

– Depois rezo um Pai Nosso.

– Achei que você clarearia meus pensamentos, mas não adiantou nada.

– O que você quer que eu fale? Que diga para correr atrás de Mike? Eu me importo com você, não quero você perto daquele homem.

– Tudo bem, levarei sua opinião em consideração, mas continuo achando tudo isso um grande absurdo.

***

Estava próximo ao meio-dia daquele dia frio de julho e todos do grupo já sabiam o que estava acontecendo. Ninguém sabia como proceder. Theo fazia a única coisa que poderia fazer a distância, pesquisava no escritório da mansão sobre os procedimentos que Sam havia sofrido, conversaria à noite com Doutor Franco.

Maritza e John foram ao hospital visitar Sam, que estava impaciente com a negativa da equipe médica com relação à sua alta, não sairia tão cedo dali.

– Ritz! John! Até que enfim rostos conhecidos! – Sam alegrou-se ao ver seus amigos, e os abraçou efusivamente.

– Achei que você estivesse quase morrendo, mas você parece ótima, pronta para uma missão na floresta. – Maritza brincou.

– Não, nada de missões em floresta tão cedo. John, o que você está fazendo neste continente? Foi coincidência vocês se encontrarem aqui ao mesmo tempo?

– Eu moro aqui, Sam. Com Maritza.

– Mora?

– Eu fugi de casa, Theo me acolheu.

– Nós estamos namorando desde o ano passado. – Maritza contou, com um sorrisinho.

Sam ficou pasma com a notícia, os encarando boquiaberta.

– Por que o espanto? – John, que agora tinha um bigode, perguntou. – Ela não resistiu ao meu charme, ninguém resiste.

– Mas você tem dezoito anos.

– Tenho vinte agora. Você começou a namorar com meu irmão aos quinze.

– Eu sei, mas é diferente.

– Por que tenho quase dez anos a mais que ele? – Maritza perguntou.

– Sim, isso é meio bizarro, não acham?

– É, talvez você tenha razão. – Maritza ironizou, pousando a mão na perna do namorado. – Vamos esquecer esse último ano que passamos juntos e felizes e terminar tudo agora.

– Eu não quis ofender vocês, desculpe.

– Eu sei, já viemos preparados para encontrar a Samantha de 2120, fique tranquila. – Maritza minimizou.

Sam correu o olhar pensativo de um para outro, procurando respostas.

– Vocês dois fazem parte do grupo dela. – Se deu conta. – Eu vi os nomes de vocês em um grupo que faço parte.

– Sim, é como se fosse nossa família aqui em San Paolo, todo mundo cuida de todo mundo. – John disse.

– Ela injetou algo em vocês? Se recordam de alguma situação do tipo? Eu sei que existem uns boatos de controle da população através de vacinas, talvez ela esteja manipulando todos vocês, provavelmente eu também fui manipulada.

– E se eu te disser que esse boato é verdade? – Maritza disse. – Mas tudo foi descoberto e desmantelado. Graças à sua esposinha.

– Ela não é minha esposa, parem de falar isso.

– Eu também estaria numa confusão danada se estivesse passando por isso, mas ninguém vai te pressionar a nada, não precisa ficar na defensiva, Theo não vai te impor nada. – Maritza disse tranquilamente.

– E você não vai passar por isso sozinha, estamos com você, teremos paciência.

– Que grupo é esse?

– Além de nós quatro, tem outras três pessoas, Stefan, Virginia e Michelle.

– Eu vi os nomes, senadora Michelle Martin, é uma senadora de verdade?

– É sim.

– Que honra, uma senadora em nosso meio.

O casal riu.

– O que foi?

– A Sam de agora nunca falaria isso. – Maritza disse.

– Por que?

– Você tem ciúmes dela. – John disse.

– Não é só ciúmes, tem outras coisas. – Maritza o corrigiu.

– Ah sim, o lance lá do Circus, né?

– Isso.

– Que lance do circo? – Sam perguntou confusa.

– História complexa demais para o momento. – Maritza desconversou. – Vamos mudar de assunto. Sabia que você mora numa mansão super bacana? Deve ser uma das maiores casas da cidade, tem até um bosque.

– Eu pretendo voltar para a Inglaterra, minha deserção foi anistiada, vou recomeçar minha vida lá.

– Mas você mora aqui, trabalha aqui, para o exército da Europa numa força de paz. – John comunicou.

– Não posso morar com aquela garota, imagine ter que dividir o mesmo quarto, a mesma cama! Eu não sou preconceituosa, mas não confio nessas pessoas, ela é lésbica, vai me assediar quando eu estiver vulnerável, vai tentar fazer coisas. – Sam falava com semblante enojado.

– Theo sempre te respeitou, Sammy, não é justo você pensar isso dela.

– Vocês estão do lado dela? Minha melhor amiga e meu cunhado.

– Ex-cunhado. – John corrigiu. – Não existe lados, estamos todos querendo sua recuperação.

– Você está contra seu irmão?

– Eu quero distância dele, na verdade quero ele distante de todos nós, dentro de uma cadeia.

Uma enfermeira entrou no quarto, interrompendo a conversa. Trocava o frasco de medicamentos e soro, colocando o vazio sobre uma bandeja. Sam observava os movimentos, e tomou um susto quando leu o rótulo do frasco vazio.

– Samantha Cooper-Archer??

– Até que ficou sonoro, não acha? – Maritza brincou.

– Eu mudei meu nome?

– Você escolheu assumir o sobrenome de Theo quando casou.

– Eu devo ter me tornado algum tipo de zumbi… – Recostou-se na cama.

– Pelo menos era um zumbi de mente aberta. – A amiga riu.

– Como você veio parar aqui?

Maritza baixou a gola de sua blusa.

– Reconhece essa cicatriz?

– Você também é Borg??

– Sou. Fizeram no início do ano passado.

– Não está preocupada com esse coração artificial?

– Já troquei, estou com um humano, assim como você.

– Como conseguimos?

– O seu foi muito mais difícil, mas ambos foram através de Theo.

– Ela é traficante de órgãos?

– Não, não… – Maritza riu. – Mas custou a saúde dela.

– Como?

– É melhor que ela te conte isso.

– Tem a ver com a perna?

– Perna?

– Ela disse que machucou a perna.

– Ela tem mobilidade reduzida no lado esquerdo, é uma das sequelas.

– Do que?

– Pergunte para ela, é um assunto delicado.

– Ela sofreu algum acidente?

– Você sempre preferiu chamar de acidente, que você foi um acidente na vida dela.

– Eu falei isso?

– Falou.

– Então eu estraguei a vida dela? E ela ainda é casada comigo?

– Você não estragou a vida dela, ela é feliz com você. Vocês salvaram uma a outra e acabaram se apaixonando.

– Mas nada disso faz sentido, eu amo Mike, sempre o amei, como pude me desviar tanto? Será que ele vai me perdoar?

Maritza suspirou decepcionada. Um bip no comunicador de Sam atraiu a atenção de John, que acabou lendo a mensagem na tela. “Por que parou de me responder? Chegou alguém aí?” Era de Mike.

– Você está conversando com meu irmão? – John ergueu o aparelho.

– Sim, e ninguém tem nada com isso, a vida é minha. – Rebateu na defensiva e apanhou o comunicador da mão dele.

– Ele é perigoso, não deixe se aproximar de você.

– Só estamos conversando, ele está disposto a recomeçar a vida dele, estamos analisando as possibilidades.

– Sammy, ele está fugindo da polícia, tem um mandado de prisão por homicídio, não estamos inventando nada disso.

– Ele matou Meg e Claire, meu irmão perdeu o controle.

– Ele me alertou que vocês o acusariam de coisas que ele não fez.

– Ah Sam, você é muito cabeça dura… – Maritza se irritava.

– Estão todos contra ele, Mike está sozinho, não percebem? Ninguém ouve a versão dele, mas eu estou o ouvindo.

– Ninguém vai te impedir disso, mas não esqueça que quem tem te protegido é Theo, vocês já superaram vários obstáculos e ela continua firme ao seu lado, não seja injusta com quem tem cuidado de você, ela é seu porto seguro.

– Mike é meu porto seguro, sempre foi.

– Já te alertamos, uma, duas, três vezes, agora é com você. – Maritza disse se erguendo, John levantou também.

– Já vão?

– Voltaremos assim que for possível, ou então te visitaremos na mansão de vidro.

– Minha suposta casa?

– Sua casa.

– Obrigada pela visita, me sinto menos confusa agora que pude estar com quem eu conheço.

– Somos sua família, não esqueça disso.

– Tenha juízo, Sam. – John pediu. – E escute Theo.

Assim que o casal saiu, Sam tomou o comunicador e respondeu Mike, que já havia enviado outra mensagem, agora irritado com a demora para responder.

“Desculpe meu amor, Maritza e John vieram me visitar” – Enviou rapidamente

“Espero que não tenham feito lavagem cerebral em você, não esqueça que eles são os inimigos”

“Não acredito em ninguém daquele grupo”

“Só acredite em mim”

Trocaram mais algumas mensagens e o almoço chegou para a paciente. Questionou a enfermeira sobre sua alta, que desconversou e disse que ela faria alguns exames naquela tarde.

Ainda almoçando, tomou o comunicador e ligou para Theo.

– Olá, meu a… anjo! – Theo atendeu eufórica, girando na cadeira do escritório. – Você está bem?

– Oi, estou. Escute, liguei para pedir que você fale com alguém nesse hospital pedindo minha alta, eu não preciso ficar aqui, quero ir embora, e sei que você conhece os médicos desse lugar.

– Eu já falei com Doutor Franco hoje, ele disse que retorna ao hospital à tarde, você vai fazer mais alguns exames, ele vai olhar tudo e provavelmente vai dar alta depois.

– Eu não preciso de mais exames, estou bem.

– Mas eu não tenho como impedir que o médico te examine, eu não sou médica, nem serei mais.

– Você pode pelo menos ligar para o médico de novo?

– Está com pressa para voltar para casa? – Theo brincou.

– Não, só quero sair daqui, estou me sentindo presa nesse hospital.

– Quer companhia?

– Não a sua.

– Quer a companhia de Mike?

– Não te dei permissão para falar o nome dele.

– Está bem. – Theo finalmente cansou. – Tenha uma boa estadia.

– Espere.

– O que foi?

– Você vai ligar para o médico?

Theo fechou os olhos expirando o ar com força. Finalmente respondeu.

– Não.

– Ótimo, obrigada.

Silêncio. Theo aguardou que ela desligasse.

– Como nos conhecemos? – Sam perguntou.

– Você e Mike?

– Não, eu e você.

– Você estava viajando de carro pela Zona Morta depois de fugir do exército, e acabou me encontrando na rua.

– Quando?

– Início de 2121. Virada do ano.

– O que você estava fazendo? Pedindo carona?

– Eu estava fugindo de um lugar, você me ajudou, me levou com você.

– Tinha alguém te perseguindo?

– Sim, mas você deu um jeito.

– Eu era a mesma de agora, então?

– Não, você já havia passado por algumas coisas, já estava sobrevivendo na estrada há duas semanas. Você era mais esperta e menos arrogante que agora.

– Você me chamou de burra e arrogante?

– Não, chamei de ingênua e arrogante.

– E com o tempo deixei de ser ingênua e arrogante?

– Não totalmente. – Theo riu. – Você evoluiu muito, mas desde o início eu admirei você, sua fuga do exército, a busca por um coração novo… Tem que ter coragem. E você foi cada vez mais crescendo, amadurecendo, se tornando segura, mais confiante. Eu tenho muito orgulho de ser casada com você.

Não veio nenhuma réplica irritada do outro lado da ligação.

– Você é toda tatuada? Eu vi umas fotos.

Um sorrisinho surgiu no semblante de Theo.

– Não, apenas braços e peito. Por enquanto.

– Eu acho bonito, já pensei em fazer algum dia, mas acho que nunca farei.

– Você tem uma tatuagem, Sam.

– Tenho??

– Erga a roupa, olhe as costelas no lado direito.

Sam olhou com certo espanto aquela frase em sua pele.

– É, tenho mesmo. É um trecho da bíblia.

– Romanos 12, 12.

– Você viu?

Theo segurou o riso.

– Vi algumas vezes. Tem mais uma coisa em você que eu gosto.

– O que?

– Sua perna ciborgue.

– Não é a mesma de antes, trocaram?

– Sim, trocaram.

– Você não se importa com ela?

– Importar? Eu adoro sua perna diferente.

– Por que trocaram?

– Removeram sua prótese na prisão, a justiça ordenou que colocassem outra.

– Eu fui presa??

– Você passou os quatro primeiros meses desse ano numa penitenciária na Sibéria.

– O que eu fiz?

– Acusaram você de crime de guerra naquela missão em que você acabou matando civis.

– Mas eu não tive culpa, eu apenas segui o orientado, não sabia que tinha civis lá.

– Eu sei, fica tranquila, você foi absolvida.

Silêncio.

– Como você me convenceu a ficar com você? Por que eu e Mike terminamos?

Theo tinha náuseas ao ouvir esse nome saindo dos lábios dela.

– Pergunte a ele, eu sei que vocês estão conversando.

– Irei perguntar, mas eu quero ouvir a sua versão.

– Porque eu te fodo melhor que ele. Essa é minha versão, depois compare com a dele.

Theo desligou.

– Que grossa.

Sam foi levada a uma outra sala onde fez alguns exames de imagem, ao retornar encontrou uma mensagem de Maritza no comunicador, era um vídeo com o comentário “seu casamento”.

Hesitou em assistir, mas a curiosidade falou mais alto. Era apenas um trecho do momento de troca de alianças e votos. Sam usava uma farda militar de gala, casaco branco, calça e gravata azul marinho, havia detalhes em amarelo. Theo usava uma camisa branca de botões, as mangas estavam dobradas até os cotovelos, deixando parte das tatuagens visíveis. Usava também uma calça cinza escura, suspensórios cinza claro, e gravata borboleta azul marinho. Sam, a espectadora do vídeo, achou os trajes divertidos e inadequados.

“Desculpe se eu soar formal demais.” – Sam desculpou-se com a aliança em mãos.

“Você é uma pessoal formal, não se preocupe.” Theo brincou, arrancando um sorriso nervoso.

A soldado tomou a mão esquerda dela, e voltou a encará-la. A cerimônia acontecia no jardim da mansão de vidro.

“Com essa aliança entrego todo o meu amor e meu coração por inteiro. Não que eles já não sejam seus há muito tempo, mas agora estou reafirmando tudo que você já sabe e já sente. Assim como esse anel em seu dedo, eu quero caminhar com você para sempre, apesar do meu caminhar lento, você sempre teve paciência para me acompanhar e esperar, e agora estou mais perto de ser a mulher que sempre quis ser, embora eu não soubesse que poderia.”

“Você é uma mulher poderosa.” – Theo manifestou-se, já de olhos molhados.

“Obrigada por acreditar em mim, por me fazer sentir tão amada, você sempre encontrará abrigo dentro do meu abraço, eu quero ser a sua casa e sua cama, quero que você se sinta sempre segura e respeitada. Nunca ninguém me amou como você me ama, nunca ninguém me amou desse jeito, você foi corajosa ao me aceitar ao seu lado, e hoje eu assumo o compromisso de te fazer feliz e te amar para sempre.” – Sam deslizou a aliança pelo dedo, baixou a cabeça e beijou os dedos da esposa, que não conseguia diminuir o sorriso.

Os convidados vibraram e assoviaram, alguns deles também usavam gravatas borboletas azuis.

Theo tirou a aliança do bolso, encarou o anel por um instante.

“Eu passei o dia de ontem planejando o que falar, mas obviamente minha memória me traiu e não lembro de nada.”

“Da próxima vez anote em algum lugar” – Sam zombou.

“Me dê sua mãozinha, oficial.”

Sam estendeu a mão, Theo a tomou e levou até o rosto, sobre sua bochecha e sua boca, dando um beijo demorado em sua palma.

“Mesmo quando você achava que eu estava em outro mundo ou inconsciente, eu sentia sua mão afagando meu rosto, e sentia seu amor por mim. Também sentia você segurando a minha mão, e me sentia bem, ainda me sinto quando você faz isso, acho que até hoje isso me remete aos tempos em que você me guiava, aquela sensação que eu tinha de estar protegida, mesmo sabendo que nós duas estávamos muito ferradas.”

“A ironia é que quem estava guiando era você, eu estava perdida.” – Sam respondeu, havia desistido de enxugar as lágrimas.

“Tantas e tantas vezes que você me guiava segurando minha mão enquanto eu desejava segurar também outras partes suas.”

Sam riu alto.

“Agora conseguimos andar com nossas próprias pernas, apesar da minha perna deixar a desejar. Você sempre foi uma mulher incrível, mas agora você sabe que é. Nos libertamos de nossas amarras e nos tornamos uma só, nosso amor se tornou uma coisa maior que nós mesmas. Hoje eu peço a você que use essa aliança para que carregue um pouquinho do meu amor todos os dias, para onde você for. E para lembrar de voltar. Que o dia de hoje seja a confirmação do amor mais audacioso e bravo que já vi, um amor tão forte que nos faz também fortes e determinadas, eu sou mais forte porque tenho você, eu cresci porque você cresceu, e prometo continuar sendo sua maior fonte de amor verdadeiro, de companheirismo, de amizade e admiração. Te amo, oficial.”

Theo mal teve tempo de colocar a aliança no dedo dela, Sam a tomou nos braços num beijo salgado e intenso.

Para Sam, a espectadora, era o suficiente. Desligou a tela e largou o comunicador na cama. Ergueu a mão e olhou o dedo vazio sem a aliança. A confusão havia voltado com força total, ela não se reconhecia naquele vídeo, tinha a impressão que era apenas alguém fisicamente igual a ela. Notou os trejeitos mais suaves, o sorriso fácil, a fala mais calma, e não se reconhecia.

Sam cochilou em seu leito, Theo cochilou no sofá do escritório. Ambas tiveram pesadelos. Ambas acordaram no final da tarde. O alarme de remédios despertou a herdeira, os bipes contínuos no comunicador acordaram a soldado.

– Aonde você vai, criança? – Marcy a interpelou quando atravessava a sala vestindo um casaco.

– Ao hospital.

– Sam terá alta agora?

– Não, só amanhã. Eu vou dormir com ela.

No hospital, Sam assistia à tela em frente de forma apreensiva, não conseguia tirar os olhos da porta. Finalmente a porta se abriu e ela reconheceu aquele homem com trajes de enfermeiro.

– Mike! Até que enfim, você demorou tanto, o que aconteceu? – Disse se erguendo no leito.

– Foi mais difícil do que eu imaginava para invadir esse lugar, tinha pessoas vigiando você. – Ele largou a bandeja na cama e a abraçou longamente. – Que saudade de você… Que saudade, Sam…

Sam segurou seu rosto de barba recém feita e o beijou.

– Meu Deus, como é bom te ver! Me tire desse lugar, por favor. – Implorou lhe afagando o rosto com os polegares. Mike pousou suas mãos por cima.

– Eu vou tirar você desse inferno de uma vez por todas, eu sou seu protetor, lembra? Eu já cuidei de tudo, preciso que você saia desta cama e vista uma roupa, nós vamos viajar. – Deu um beijo rápido. – Vamos.

Sam saltou da cama, quase caiu com a tontura que sentiu, Mike a segurou pelo braço.

– Você está bem? Ainda precisa de algum remédio?

– Não, eu já deveria estar fora desse hospital.

– Ok, vista-se. Onde está sua roupa?

Sam o fitou confusa, tentando se lembrar.

– Não sei, não sei se está aqui.

– Como não sabe? Você deveria ter providenciado isso com antecedência, eu não posso pensar em tudo.

– Já sei, aquela médica trouxe uma muda de roupas, deve servir em mim.

Sam foi até o armário e encontrou a calça jeans e blusa branca de mangas longas que Letícia havia trazido para Theo.

– Isso serve. – Mike verificou. – Vá ao banheiro se trocar.

Mike tirou o uniforme que usava por cima das roupas, Sam saiu do banheiro já vestida, porém descalça.

– Você não pode andar assim pelo hospital. Espere aqui dentro. – Disse e saiu do quarto.

Voltou dois minutos depois acompanhado de uma enfermeira.

– Qual a emergência? Você não deveria estar na cama? – A senhora estranhou.

– Precisamos de seus tênis. – Mike pediu.

– O que? O que está acontecendo aqui?

– Moça, me desculpe, mas preciso muito deles para sair daqui. – Sam disse.

– Eu vou chamar a segurança, isso está…

Mike a golpeou no rosto com violência, a mulher caiu desacordada e com o nariz sangrando.

– O que você fez?? – Sam olhou assustada.

– Ela não quis nos ajudar, isso foi baixa de guerra. – Mike a arrastou até o banheiro, a descalçou e entregou o par de tênis para Sam.

– Calce logo.

O casal andou pelos corredores do hospital com normalidade, tomaram o elevador que levava até o telhado do prédio, onde os helicópteros ambulância pousavam. Ao saírem do elevador encontraram um segurança e um funcionário atrás de um balcão, que faziam o controle daquele acesso.

– Posso ajudá-los? Essa área é restrita. – O homem da recepção os abordou.

Mike olhou discretamente para o segurança atrás deles, que parecia alerta para abordá-los também.

– Precisamos acessar a cobertura, nosso helicóptero está chegando. – Mike disse.

– Eu sinto muito, apenas helicópteros autorizados pousam aqui, pacientes e visitantes utilizam o heliporto do prédio ao lado.

– Escute, a situação é diferente. – Mike disse num tom mais baixo e próximo do funcionário.

Quando este se aproximou para ouvir recebeu duas coronhadas na cabeça. Mike virou-se rapidamente e atirou no vigilante.

– Vamos para fora. – Mike disse friamente, guardando a arma na cintura.

Sam não se moveu, o fitava assustada.

– Vai ficar parada aí?? Vamos. – Mike insistiu, tomando sua mão.

Passaram por uma porta larga automática que dava acesso à cobertura, um espaço enorme com algumas casinhas de manutenção e fossos. Caminharam até o centro de uma das marcas de pouso.

– Nosso helicóptero já estar a caminho, não deve demorar. – Mike disse olhando a tela de seu comunicador.

– Você não era assim violento, o que aconteceu? – Sam balbuciou ainda afetada pelas cenas presenciadas.

– Sobrevivência, amor. Estão todos contra nós, estão me caçando e tive que aprender a me defender, senão já estaria morto ou trancafiado numa prisão. Isso aqui é muito pior que um conflito na Zona Morta.

O sol descia anunciando o fim de uma tarde fria, ventava um pouco lá em cima.

– Depois você me explica tudo que aconteceu nesses dois anos? – Sam pediu, abraçando o próprio corpo.

– Explicarei tudo que você quiser, teremos tempo, estaremos sossegados em nossa casinha. Está com frio? Venha cá.

Mike a abraçou pela cintura, Sam correspondeu, prendendo-se a ele.

– Para onde vamos?

– Vamos nesse helicóptero para um aeroporto clandestino em Mar del Plata na Argentina, de lá vamos num avião de carga para a Nigéria, em seguida pegaremos um avião comercial até Londres, meu pai vai mandar alguém nos buscar lá.

– Vamos para Kent? – Sua face se iluminou com a possibilidade.

– Vamos sim, meu amor. Sabia que nossa casa já está pronta? Ficou do jeito que você queria.

– Você tem morado lá?

– Não, estou vivendo nessa terra desgraçada. – Mike se afastou um pouco para olhar em seus olhos. – Tem sido tempos difíceis para mim, eu não aguento mais viver aqui, marginalizado, sozinho. Essa corja raptou você, lhe fizeram lavagem cerebral, que por falta de experiência e ingenuidade acabou caindo na lábia desses doentes sem Deus no coração.

– Você não tentou impedir isso? Eu não sei o que houve, mas imagino que tenham me seduzido com a promessa de um novo coração, eu estava desesperada para conseguir um, devem ter feito uma série de chantagens, com Maritza também deve ter sido a mesma coisa.

– Eles são ardilosos, Sam, eles sabem como mexer com a cabeça de pessoas como você, uma mulher de família que não enxerga maldade nos outros. Eu tentei, eu juro que tentei de todas as formas abrir seus olhos, tirar você do poder deles, mas eu estava sozinho aqui, e eles têm dinheiro, tem poder. Eu sei que deveria ter me sacrificado, ter feito algo radical para salvar você, mas saiba que nunca desisti de nosso amor e do nosso sonho de formar uma família, graças à minha perseverança em Deus estou aqui agora, finalmente levando você para casa, para ser minha mulher.

– Será que eu estava com aquela garota por estar pagando alguma dívida pelo coração novo?

– Não era você. Você teria nojo de você mesma se pudesse ver a vida que levou nesses últimos dois anos, mudaram sua cabeça, impediram você de professar sua fé, lhe afastaram de tudo que é virtuoso e cristão, você estava obedecendo ao chamado do diabo, estava se tornando uma aberração, como eles.

Sam estava impressionada com o discurso inflamado de Mike, era como se realmente estivesse descobrindo toda a verdade.

– Que bom que você não desistiu de mim, que finalmente esse pesadelo terá fim. Obrigada por ter coragem de lutar contra todos, por ter feito esses procedimentos em mim.

Mike apertou o abraço, beijando seu pescoço.

– Você vale cada segundo perdido.

– Estou com medo que nos descubram aqui.

Ele afastou-se e perscrutou os céus procurando algum sinal do helicóptero, consultou o comunicador.

– Deve estar chegando. Não tenha medo, te defenderei de todos.

– Mike… Eu consultei meu sistema, você está sendo procurado pela justiça por assassinato. Eu estava duvidando disso, mas você acabou de matar uma pessoa na minha frente, é verdade que você matou uma mulher?

– Não, é tudo mentira, colocaram essa morte nas minhas costas, é um complô.

– No processo dizia que você tinha um caso com a mulher que estão lhe acusando de matar. Você teve outras mulheres, então? – Sam perguntava decepcionada.

Mike a segurou pelos ombros.

– Pare de acreditar nessas coisas, Sam! Eu nunca tive outra mulher, eu estava totalmente focado em resolver nossas vidas, não tinha tempo para pensar em mais ninguém.

– Desculpe por ter casado com essa garota.

– Ela é a mais pervertida, é a pior daquele bando. Eu perdoo você, ok? Não se preocupe com isso.

– É verdade que você bateu nela?

– Ela mereceu, na verdade ela merece muito mais, merece um tiro no meio da testa.

– Theo não me pareceu má pessoa, é difícil acreditar que ela seja tão má assim.

– Mas ela é uma reencarnação do mal, ela corrompeu você, ela é capaz de qualquer coisa, já deveria ter batido as botas há muito tempo, quero dar fim nela pessoalmente.

– Eu sei, eu entendo que ela é a culpada de tudo isso, mas não acho que precisamos fazer algo, apenas deixe ela tocar a vida, não faça mal a ela.

– Ela conseguiu te contaminar em um dia de convivência? – Mike dizia irritado. – Você está caindo de novo, Sam!

– Não, eu não estou acreditando nela, eu nem deixei que ela ficasse no quarto comigo. Só estou pedindo que…

– Pare de defender aquela prostituta aleijada! – Mike ralhou.

– Ela é prostituta? – Sam perguntou perplexa.

– Aquela aberração era prostituta na Zona Morta, você consegue enxergar no que se meteu? Ela te obrigou a fazer coisas horríveis, coisas nojentas, você tem sorte de não ter pego nenhuma doença daquela vagabunda.

– Eu… Eu vi um vídeo. – Sam falava com medo. – Eu parecia feliz no vídeo.

– Não era você, e é bom que você pare de questionar o que estou afirmando, você vivia em pecado, as pessoas que insistem em viver em pecado ostentam sorrisos, mas estão apodrecendo por dentro.

– Eu sei…

Mike percebeu o acanhamento de Sam, e a abraçou carinhosamente.

– Deixe tudo isso para trás, querida. Deus te perdoará, sua família também irá te acolher de braços abertos, é isso que importa. – Corria as mãos pelas costas dela. – E eu não vejo a hora de ficar a sós com você em nosso quarto… Matar essa saudade.

O ex-major lhe tomou num beijo ardente e longo. Foram interrompidos pelo barulho do helicóptero pousando. Feliz e aliviado, Mike correu na direção do equipamento, aguardando que pousasse em definitivo, Sam ficou parada onde estava.

– Sam?

A voz de Theo a despertou, virou-se para trás e pode vê-la caminhando em sua direção, com a ajuda da muleta.

– O que você está fazendo aqui? – Theo perguntou, mas logo conseguiu enxergar a imagem de Mike ao lado do helicóptero, sentiu o mundo desabando em sua cabeça.

Sam também olhou para ele, que havia acabado de sacar a pistola na cintura. Ela o viu erguendo o braço no intento de mirar em Theo e agiu de imediato, correndo na direção dela. Num salto, ela pulou a derrubando no chão, acabaram trombando com porta de alumínio de um dos fossos de ar.

Theo bateu a cabeça e logo sentiu uma dor na parte de trás, mas não se preocupou com isso, ainda estava atordoada no chão.

– Fique aqui! – Sam ordenou, olhou ao redor e viu Mike caminhando na direção delas, com a arma em riste.

– Saia da frente, Sam! Me deixe terminar o serviço! – Mike trovejou.

– Não atire, guarde essa arma. – Sam pediu com os braços estendidos à frente.

– Saia!

Sam aproximou-se o suficiente para golpear a mão dele num giro, com o pé. A arma acabou caindo longe de todos.

– Que porra você acha que está fazendo?? – Mike gritou furioso.

– Você precisa se entregar à polícia, eu vou com você.

Theo assistia ao embate sentada no concreto escuro, era difícil se erguer sozinha.

– Você ficou louca? Vá agora para o helicóptero! Eu vou me resolver com essa vagabunda primeiro. – Mike disse e tomou o rumo de Theo, mas Sam o impediu parando em sua frente, o segurando pelos braços.

– Me largue!

Mike soltou-se com violência, Theo já havia se rastejado para trás de uma das torres de ar, Sam o empurrou com tremenda força, o derrubando no chão. De imediato, ela correu na direção da arma, Mike levantou-se e correu atrás dela.

Quando a soldado tomou a arma em mãos, Mike já havia a alcançado, a derrubou no chão caindo por cima dela a prendendo fortemente pela cintura. Despencaram no concreto, ela tentou se virar para cima, ainda com a pistola na mão, mas o grandalhão era mais forte e a manteve naquela posição, segurando com força a cabeça dela contra o concreto, escoriando sua testa e malar, e com a outra mão segurava a arma na mão dela.

– Solta essa arma, mulher louca! – Mike disse com ódio, a prendendo fortemente.

– Saia de cima de mim!

– Me dê isso! – Mike batia a mão dela contra o concreto, a forçando a soltar a arma.

Sam assustou-se com o baque que ouviu, Theo havia acertado Mike na cabeça com sua muleta, porém não com força o suficiente para deixá-lo inconsciente ou zonzo, apenas para derrubá-lo dali.

Ainda no chão, Mike chutou as pernas de Theo, lhe dando uma rasteira que a derrubou de costas, tomou impulso e voou para cima dela, a estrangulando. Theo segurava os punhos de Mike tentando tirar aquelas mãos grandes de seu pescoço, sentia também sufocada com o peso dele sobre seu corpo.

Sam, já com algum sangue no rosto, prendeu o pescoço de Mike com um mata leão. Com um esforço descomunal conseguiu puxá-lo para trás, o tirando de cima de Theo, que respirava com dificuldade.

Mike conseguiu tatear o chão e tomar a pistola, antes que ele apontasse para Theo, Sam o derrubou no chão, onde a luta pela arma recomeçou. Por um instante, Sam tirou sua atenção da pistola, lhe dando duas cotoveladas no rosto, fazendo seu nariz sangrar. Mike segurou seu pulso.

– Eu vou quebrar seu braço se você não parar com essa merda! Solte agora! – Mike ordenou.

As mãos dela já tremiam por exaustão naquela batalha pela posse da arma, seus dedos estavam ficando esbranquiçados e sentia uma dormência iminente. Num rompante que veio acompanhado de um rugido raivoso, Sam arrancou a arma da mão dele, e bateu com a coronha em seu rosto seguidamente.

Apesar das pancadas, Mike conseguiu empurrá-la dali, fazendo com que ela caísse para o lado. Ele ergueu-se e sem pestanejar correu na direção de Theo, que tentou fugir mas caiu no chão. O ex-militar a ergueu pelo pescoço, prendendo o corpo dela à sua frente e lhe sufocando com o braço.

Sam deu dois passos com a arma apontada para ele, estava ofegante e cansada.

– Pare aí, senão quebro o pescoço dela. – Mike ameaçou, Theo esperneava para se soltar do domínio dele.

Sam parou, mas continuava com a arma erguida na direção deles.

– Solte ela.

– Me entregue a arma, e eu a soltarei. – Mike bufava irritado. – Eu sou a vítima aqui, Sam!

– Nada feito, solte ela agora!

– Me dê logo essa arma, Sam! O helicóptero não vai nos esperar para sempre, vamos para casa! – Gesticulava furioso, esquivando-se das cotoveladas que Theo tentava dar para trás.

– Sam, vá embora! – Theo pediu em desespero. – Fuja!

– Acabou a palhaçada. – Mike disse e passou a apertar ainda mais o braço ao redor do pescoço dela, a deixando sem ar. – Já deveria ter feito isso há muito tempo.

Sam disparou sua arma, assustando ambos. O tiro acertara a mão esquerda de Mike, que uivando de dor soltou sua refém. Theo caiu de joelhos buscando ar.

– Olha o que você fez! Você vai me pagar por isso, Sam! Eu sou seu noivo!

Sam deu alguns passos lentos na direção dele, apontando a arma para sua cabeça.

– Solte a arma! – Gritou ao longe um dos seguranças de Theo, que vinha acompanhado de outro segurança.

Sam fitou os dois com surpresa e sem saber o que fazer.

– Ela não vai atirar. – Theo tentou dizer aos seguranças, mas a voz não saiu.

– Senhora, coloque a arma no chão e as mãos atrás da cabeça! – Gritou novamente o segurança, ambos apontando suas armas para Sam.

– Eu não vou atirar. – Sam defendeu-se, assustada.

Mike, ao se dar conta da situação, saiu correndo na direção do helicóptero, com sua mão já completamente ensanguentada.

– Ciro, deixe ela em paz! Peguem aquele desgraçado! – Theo pediu agora com a voz que se fez ouvir.

Sam e os dois seguranças correram atrás dele, os dois homens o derrubaram antes que alcançasse o helicóptero que levantava voo.

– Mike, se você tentar fugir de novo eu atiro! – Sam apontava a arma para ele, Ciro o algemou enquanto o outro lhe segurava contra o chão.

– Amor, porque você está fazendo isso comigo? – Grunhia se debatendo no chão.

– Seu lugar é na cadeia, você tem contas a acertar.

Os dois homens de camisa branca e gravata negra ergueram Mike e o conduziram pela cobertura segurando em seus braços, Sam acompanhava. Já era noite e o frio aumentara, havia apenas algumas luzes que vinham do chão.

Ao se aproximarem, Theo foi logo dizendo.

– Tem sempre policiais no térreo, entreguem esse bandido para eles, mas acompanhem tudo até terem certeza que ele está trancado dentro de uma viatura. – Ela orientou, os seguranças assentiram e os três homens seguiram direto para a porta de entrada.

Sam não os seguiu, ao invés disso caminhou na direção de Theo, que observava a aproximação dela com tensão.

– Até que enfim… – Sam disse com alívio e a abraçou, para estranhamento da abraçada.

Theo correspondeu com reservas, ainda sem saber direito o que se passava na cabeça da soldado.

– Você está bem? – Theo perguntou. – Se machucou?

Sam soltou o abraço e respondeu com serenidade.

– Só uns arranhões, e você?

– Sam, por que você fez isso? – Ela tinha pressa em entender no que estava metida.

– Porque está na hora de Mike pagar por tudo que fez.

– Então você acredita no que te falei ontem?

– Amor, sou eu. – Sam sorriu de mansinho. – Minha memória voltou.

Theo estava hesitante em acreditar, continuou a observando com curiosidade.

– Então você sabe quem eu sou?

– É claro.

– Como vou saber se isso não faz parte de algum plano seu e de Mike? Que vocês não combinaram fingir isso?

– Eu não estou fingindo, eu lembrei de tudo.

Theo olhou rapidamente para os lados, estavam sozinhas ali naquela cobertura. Se Sam estivesse mentindo, ela corria riscos.

– Eu não posso arriscar. – Theo disse reticente. – Acho melhor descermos.

Sam percebeu a desconfiança e receio dela.

– Hey, sou eu, estou falando a verdade.

– Como vou saber?

Sam a fitou por um instante.

– Vem cá. – Sam disse e a puxou para um beijo. Passado o susto inicial, Theo permitiu que o beijo se desenrolasse.

Terminou devagar, Sam manteve o rosto próximo ao dela, e sorrindo lhe provocou com a voz baixa.

– Não me mordeu?

Theo finalmente abriu um sorriso e a abraçou novamente, agora com força.

– Você voltou… – Theo murmurou com felicidade. – É você, é a minha Sam.

– Reconheceu o beijo? Posso provar de novo. – Brincou.

Tremendo de frio, Theo se certificava ao seu jeito, segurava o rosto dela tentando reconhecer a esposa ali.

– Lembra de tudo?

– Acho que sim, eu espero que sim.

– Quando sua memória voltou?

– Um pouco antes de você aparecer.

– Você teria embarcado no helicóptero?

– Sim. Depois que a memória voltou eu tentei não aparentar, para que Mike pensasse que eu ainda estava acreditando nas mentiras dele.

– E qual era seu plano?

– Em algum momento eu daria um jeito de chamar a polícia.

– Por que você está usando minhas roupas? – Theo perguntou se dando conta.

– Letícia trouxe para você, como não achei minhas roupas…

Theo novamente a observou de forma analítica.

– É você mesmo, não é?

– Sou sim, amor. Tudo voltou ao normal. – Sam a trouxe para um afago. – Já pode ficar tranquila.

– Se você estiver fingindo saiba que Mike é o maior mentiroso do mundo.

– Você bateu a cabeça? – Sam a soltou rapidamente, olhando seus dedos sujos de sangue, após afagar a cabeça da namorada.

– Acho que sim. Mas não foi nada.

– Venha, vamos descer, precisam ver sua cabeça.

– Não, estou bem, você que precisa de atendimento, tem um monte de sangue no seu rosto.

Os dois seguranças retornaram à cobertura, já haviam despachado Mike.

– Precisam de ajuda, meninas?

– Ela precisa de um médico. – Sam disse e juntou do chão a muleta que estava caída ali próximo.

– Senhora, a memória dela voltou mesmo? – Ciro cochichou no ouvido de Theo.

– Parece que sim.

– Um de vocês pode carregá-la? – Sam pediu.

– Eu consigo andar. – Theo disse estendendo a mão pedindo a muleta.

– Eles podem te levar.

– Sam, eu estou bem, as pernas estão trêmulas mas é da adrenalina ainda.

– Ok, então vamos. Se tivermos sorte Doutor Franco deve estar por aqui, melhor que ele te examine.

Já no interior do hospital, as duas foram separadas. Sam estava no ambulatório recebendo os cuidados com seu rosto. Theo estava num quarto fazendo alguns exames acompanhada de Doutor Franco, seu cirurgião. De lá seguiu para outra sala, limpavam o corte em sua cabeça.

Sam apareceu ali afoita, viu Theo deitada de bruços e um homem fechando o ferimento.

– Sam? – Theo não podia ver, estava com a cabeça virada para a parede, e agitou-se.

– Não mexa a cabeça, moça. – O enfermeiro pediu.

A oficial se aproximou da maca.

– Sou eu. – Sam disse e segurou sua mão com ambas as mãos. – Já examinaram você?

– Sim, e por incrível que pareça meu cérebro está no lugar. E você? Como está seu rosto?

– Moça, estou falando sério, não se mexa. – Ele pediu novamente.

– Desculpe.

– Fica paradinha, já vai terminar. – Sam disse se inclinando.

– Daí vamos para casa.

– Minha alta ainda não saiu, mas podemos fugir daqui.

– Você está muito fujona hoje. – Theo brincou e riu.

Theo ouviu o bufar furioso do enfermeiro.

– Desculpe.

Em poucos minutos o serviço se findava, Theo pode finalmente se erguer, sentando na maca.

– Aguarde aqui, vou solicitar sua alta. – O enfermeiro disse tirando as luvas.

– De quem? – Sam perguntou.

– A sua.

– Graças a Deus… – Sam comemorou. – Quero ir embora de uma vez daqui.

– De onde? – Theo perguntou curiosa, sentada na maca com as pernas suspensas.

Sam virou-se e a fitou com um sorriso.

– Do hospital, de onde mais poderia ser?

– Do país.

Ainda havia uma espessa camada de dúvida pairando na mente de Theo. Sam foi até ela, a abraçando.

– Eu entendo sua insegurança… – Sam dizia correndo as mãos por dentro da blusa dela, em suas costas. – Na verdade eu te devo mil desculpas.

– Não era exatamente você…

– Você me perdoa? Eu fui horrível com você, eu lembro de tudo, eu te tratei tão mal, me desculpe, amor.

– Fica tranquila, eu já lidei com isso uma vez, agora eu sei porquê você era daquele jeito.

– Eu era ignorante, no mais pleno sentido da palavra.

– Era sim.

– E infeliz. Eu pude reviver essa sensação agora, de me sentir pequena e com medo de tudo, é estranho relembrar agora, ao mesmo tempo recente e antigo. Eu não sabia que havia mudado tanto.

Theo a soltou, lhe deu um beijo.

– Bem-vinda ao presente, fique por aqui.

***

– Vai me testar por quanto tempo? – Sam resmungou na manhã seguinte, ambas estavam deitadas na cama, haviam acabado de acordar e Theo havia tentado pegá-la numa contradição, mas Sam não caiu.

– Sinto muito, vou testar você por alguns dias.

– Já não dei provar suficientes?

– Ainda não. – Theo subiu nela, com um tom desafiador. – Qual a cor do meu boné favorito?

– Qual deles?

– Você sabe qual é meu favorito.

– Aquele azul e branco?

– Sim, qual a cor… Não, deixa pra lá.

Sam riu e a puxou para um beijo.

– Você acha que meu beijo mudou? – A oficial perguntou, suas mãos corriam devagar pelos braços coloridos da esposa.

– Mudar, não mudou, mas é menos tímido agora. Assim como você.

Sam a observou um instante.

– Eu estava me apaixonando por você de novo, sabia? Nem uma lobotomia me separaria de você, esse amor é forte mesmo.

– Mas se você fugisse para a Europa eu não teria muito o que fazer.

– Você daria um jeito, você sempre dá um jeito.

– Chega de aventuras, estou velha demais para isso, quero uma vida tranquila com você.

– Paz então? – Sam perguntou.

– Que venham tempos de paz. Mas ainda temos um problema. – Theo se recordou.

– O que?

– Você fez a reprogramação bioquímica, você está… digamos, amando Mike?

– Não, não estou.

– Mas está sentindo algo por ele, não está?

– Não deu certo, não funcionou.

– Em momento algum?

– Acho que por vocês terem interrompido o processo, algo não deve ter finalizado, não funcionou nada.

– Então seu coração é todo meu?

– Todinho, há muito tempo.

– Sua memória voltou do nada? Ou aconteceu algo?

– Voltou durante um beijo.

Theo fez cara de nojo, e saiu de cima de Sam.

– Você beijou aquele canalha?

Foi a vez de Sam subir em Theo.

– Você sabe que eu estava sem memória, que achava que ele era meu noivo, eu não tive culpa.

– Mas você beijou aquele… Ahhhh! – Theo cobriu o rosto com o travesseiro.

– Pare com isso, deixe essas últimas horas pra lá. – Sam disse removendo o travesseiro.

– Não vou te beijar tão cedo. – Theo disse fazendo manha.

– Que pena, estava com segundas intenções para essa manhã.

– Você fez algo mais com ele?

– Não, foram dois beijos, nada mais.

– Dois? – Fez cara de nojo de novo.

– Dois beijos ruins, até você em coma beija melhor.

Theo acabou rindo, Sam segurou seu rosto e a beijou.

– Argh! Vou lavar minha boca! – Theo reclamou.

– Pode ir. – Sam saiu de cima dela.

Theo tomou a muleta e se encaminhou para o banheiro, parou na porta e virou-se.

– Sobre segundas intenções essa manhã… – Theo ia dizendo com malícia. – Vou encher a banheira, você vem?

– Sam riu e pulou da cama, direto para o banheiro.

***

Alguns dias após se tornar avó, Michelle se reelegeu como senadora com grande margem, mas seu companheiro de partido não teve a mesma sorte, o candidato à presidência não se elegeu. O novo presidente da Nova Capital era um representante da Resistência, pela primeira vez na história. Era o fim em definitivo dos tempos de Beta-E e dominação americana.

Mike fora julgado pelo assassinato de Claire e condenado a trinta anos de prisão. Sam achou justo, Theo achou pouco.

***

Numa prisão no interior de San Paolo, Mike se exercitava em sua cela sem janelas, que dividia com outros três detentos. Naquela tarde estava sozinho, sua regata branca completamente suada, a barba estava crescendo. Com as mãos penduradas numa tubulação metálica, erguia e descia seu corpo. Seu exercício foi interrompido pela entrada de dois guardas.

– Você tem visita. – Um deles disse sacando algemas. – Encoste na grade, mãos para trás do corpo.

– Vão me algemar na grade? Por que? – Mike relutou, mas seguiu o ordenado.

– Por que você vai receber visita aqui. Visita íntima. – Os dois guardas riram.

Os guardas saíram o deixando com as mãos presas atrás de uma das barras, segundos depois ouviu passos lentos pelo corredor, eram passos com um ruído a mais no piso.

Theo entrou na cela, não pode deixar de reparar o semblante surpreso dele.

– Agora entendo as algemas. – Mike resmungou.

– É assim que fazem com os animais selvagens, não é? – Theo parou de pé a sua frente, ostentava um sorriso debochado, em parte para camuflar a raiva que dominava seu corpo.

– Não precisa bancar a valentona, Sam não está aqui.

– Que bom, não gostaria que ela ouvisse essa conversa.

– A que devo a honra de sua visita? Uma pessoa tão ilustre como você deve ser ocupada, já aprendeu a se limpar ou ainda precisa de babás?

– Eu queria ver com meus próprios olhos você pagando por um crime.

– Que não cometi, diga-se de passagem.

– Não achou que trinta anos foi pouco? Eu achei.

– Não fui eu! Eu vou provar minha inocência, vou provar que não matei Claire, alguém vai ter que acreditar em mim.

– Eu acredito em você, eu sei que não foi você.

– Sabe?

– Sei sim. Porque fui eu. – Theo segurou o sorriso o quanto pode. Queria rir da expressão abismada de Mike.

– Até parece que uma aleijada como você conseguiria. – Duvidou rindo.

– A pistola militar que foi utilizada não foi a sua, foi a arma de Sam, mas estava sem identificação, igualzinha à sua. Esperei ela sair para o trabalho e fui visitar Claire na Archer, entrei pelo elevador privado, que ninguém nem lembra mais que existe, apenas meu pai usava.

– Você está blefando para me tirar do sério.

– Naquele dia que você bateu em mim eu percebi que você era canhoto, por isso bati com o taco de golfe com minha mão esquerda. E eu sabia que você costumava brincar com aqueles tacos, que suas impressões digitais estariam neles.

– Você não conseguiria fazer isso, você não bate nem num cachorro morto.

– Uma pena que eu tenha desligado as câmeras internas, senão mostraria para você.

Mike agitou-se tentando soltar suas mãos fazendo um ruído alto, dando um susto em Theo que recuou por instinto.

– Eu vou te enfiar na cadeia! – Mike bradou.

– Não acreditarão na sua palavra, assim como não acreditaram até agora. – Theo disse recuperando sua postura sarcástica.

– Eu vou contar isso ao meu advogado, você confessou!

– Você acha que estou sozinha nessa? Comprei algumas pessoas lá de cima, essas pessoas nunca darão ouvidos a um bandidinho medíocre como você.

– Não vou pagar por algo que você fez, sou inocente, a verdade aparecerá.

Se enchendo de coragem, Theo deu um passo à frente, encarando o ex-major nos olhos.

– Inocente? Não, nem um pouco. Você está pagando pelo assassinato de Meg, essa foi a forma que encontrei para fazer você pagar por isso. Por isso e por todas as coisas que você fez conosco. Trinta anos é pouco.

– Eu vou matar você! Vou matar com minhas próprias mãos! – Mike agitava-se novamente.

– Acabou, você perdeu. Em todos os sentidos.

– Eu não vou ficar preso aqui!

– Eu já fui aprisionada, Sam já foi aprisionada, agora é sua vez. Adeus, ex-major.

– Sua vagabunda!

– Só mais uma coisa.

Theo afastou-se e golpeou a cabeça de Mike com a muleta e arrancando um grunhido alto.

– Viu como eu consigo golpear com a esquerda? – Theo disse acalmando a respiração, e deixou a cela. Naquele recinto ficaram apenas os gritos furiosos de Mike e o barulho cada vez mais distante dos passos de Theo, acompanhado do ruído da muleta contra o piso.

***

18 de agosto de 2125

 

– Esse é o melhor lugar do mundo para comemorar meu aniversário. – Sam disse, ao lado de Theo, com a mão em sua cintura.

Estavam na sacada da pousada na Baía, que Theo havia recomprado para Sam. Era o meio da manhã de um dia ensolarado, contemplavam entre sorrisos e carinhos o mar azul esverdeado, quase cristalino, que dançava cadenciado mais adiante.

– É o melhor lugar do mundo para qualquer coisa, amor. – Theo brincou.

– Ano que vem poderíamos vir no nosso aniversário de casamento, só nós numa lua de mel.

– Eu adoraria, mas teremos companhia.

– Quem? Quer convidar Letícia e Dani?

– Não, outra companhia.

– Quem?

– Você realmente não é boa em sacar as coisas, não é?

– Não, de qual companhia você está falando?

– Sam, eu estou grávida.

– Você está brincando?

– Eu não brincaria com isso.

– Mas… Como? Você disse que o exame seria amanhã…

– Eu não aguentei de curiosidade e fiz o exame hoje cedo. Deu positivo. – Theo não conseguia conter o sorriso aberto.

– Tem certeza?

– Sim, e acredite, foi bem difícil manter isso em segredo até agora.

– Meu Deus… Você está grávida! – Sam a fitava boquiaberta, revezando seus olhares para o rosto e a barriga de Theo, que trajava uma regata branca.

– Estamos. – Riu. – Quer dar um oi para ele?

– É um menino??

– Sim, teremos um filho.

Sam se aproximou, colocando a mão sobre sua barriga, estava radiante e com os olhos já marejados.

– Daniel? – Sam perguntou, confirmando o nome previamente escolhido.

– Nosso Daniel.

– Meu Deus… Nosso filho… Teremos um filho… – Sam a abraçou.

– Você vai ser mamãe, oficial. – Theo disse chorando abraçada à sua esposa, recebendo a seguir um apaixonado beijo com gosto de lágrimas.

Lágrimas de felicidade, pela primeira vez.

FIM

 

 

Alétheia: grego: a verdade e a realidade, desvelamento.

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comentários

Comment (1)

  1. Quinha Rodrigues

    Não estou pronta pra esse fim.. Parabéns Cris, amei toda história e já estou me sentindo órfã..

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