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Capítulo 74 – Reenceto

Capítulo 74 – Reenceto

 

Aquela noite de final de maio apenas iniciava, trazendo uma tempestade em San Paolo.

– As reclamações de alagamentos já começaram. – Fibi estava monitorando as redes e mensagens recebidas pela senadora, sentada no sofá com uma tela virtual à sua frente.

Michelle havia acabado de sair do banheiro, abriu um grande sorriso e sentou-sobre sua larga mesa metálica.

– Pois a senadora acabou de sair de cena, só retorna amanhã. – Michelle brincou. – Tenho um jantar me aguardando.

Fibi desligou a tela, fitando a senadora.

– Me deixe adivinhar o motivo dessa felicidade: um jantar com Theo?

– Um jantar a sós com Theo.

– Vão sair?

– Não, será lá em casa, eu a convidei hoje cedo e ela topou. Tudo bem que costumamos nos fazer companhia durante o jantar, mas hoje é um jantar especial, eu irei cozinhar, vamos tomar um bom vinho…

– Tem que aproveitar a situação.

– Exatamente. É a última noite antes de Sam voltar, as chances estão ao meu favor. – Michelle falava radiante.

– Vou ficar aqui na torcida para que esse jantar termine no seu quarto.

– Seria perfeito.

– Bom, mas antes de ir, por gentileza me responda as duas mensagens que te mandei agora pouco, sobre sua agenda essa semana.

– Fibi, a senadora não está mais aqui. Só estou esperando meu helicóptero pousar para ir embora.

– Está chovendo, ele vai demorar. Vamos lá, responda as mensagens.

– Ok, ok, você venceu. – Michelle sentou-se na cadeira e ampliou a tela do comunicador.

Fibi percebeu o semblante dela mudando drasticamente, e perguntou preocupada.

– Aconteceu alguma coisa?

– Isso não pode ser verdade. – Respondeu em negação, ainda fitando a tela transtornada.

– O que foi? – A assessora disse já se aproximando.

– Theo casou.

– Casou? Deve ser alguma brincadeira dela. Casou com quem?

– Com a digníssima noiva.

– Mas Samantha não está na Zona Morta?

– Pelo visto não.

– Elas não estavam brigadas?

– Fibi, elas casaram! – A senadora ergueu a tela, lhe mostrando a foto na cama que Sam havia enviado para o grupo.

A funcionária tomou o comunicador da mão dela, olhando a foto de perto.

– De alianças e tudo. – Comentou abismada. – Essa é a tatuagem que você pagou?

Michelle ergueu-se da cadeira, dando passos furiosos pela sala.

– O que ela viu naquela soldado? Isso não faz o menor sentido! Aquela garota não tem nada a oferecer para Theo!

– Essas coisas do coração não costumam fazer sentido mesmo.

– Coração? Me poupe, Fibi. – Michelle abandonava sua habitual compostura. – Theo deve estar com algum problema mental, só pode ser isso. Casou-se com aquela desqualificada, aquela soldado ignorante!

– Você acha que Theo está com ela por gratidão? Talvez elas realmente se amem.

– Eu sei que é por gratidão, no fundo Sam também sabe, ela própria se entregou.

– Como assim?

– Ela me disse que se eu tivesse resgatado Theo do Circus, Theo estaria comigo, e não com ela. No fundo Sam sabe que Theo ficaria com qualquer uma que a ajudasse a fugir. E Sam não é tão burra, faz de tudo para manter a relação por causa da fortuna herdada, mesmo agora ela prefere manter na esperança que ganhem o processo contra Claire.

– Estão talvez o casamento não dure muito.

– Percebe que Sam fez a jogada perfeita? Estava prestes a perder a namorada por causa de uma segunda traição, e voltou oferecendo estabilidade, é o que Theo tanto deseja depois de tudo o que passou.

– Às vezes Sam acerta.

Michelle apoiou as mãos sobre a mesa, ainda com sinais de tremenda irritação.

– Isso é um pesadelo… Só pode ser um pesadelo… Estava tudo se encaminhando ao meu favor, eu estava quase lá.

– O jogo ainda não está perdido, mesmo casada com Sam, sabemos que Theo sente algo por você.

A senadora balançou a cabeça em negação, estava inconsolável.

– Não posso perdê-la… – Esmurrou a mesa. – E eu sei qual será o próximo passo de Samantha.

***

– E temos dinheiro suficiente para isso? – Theo perguntou, ainda nua na cama do modesto hotel, com Sam ao seu lado.

– Eu já fiz as contas, temos como pagar o aluguel de um apartamento simples. – Sam inclinou-se na sua direção. – Amor, temos que sair da casa de Michelle, eu não gosto de lá, precisamos ter o nosso cantinho.

– Mas e as outras contas? Não é só o aluguel, tem as despesas fixas, e tem nossa alimentação também. Aprendi do pior jeito o quanto é duro morar por conta própria com pouca grana nesses meses na Sibéria.

– Theo, você não quer sair da casa da senadora? Achei que você também quisesse recomeçar num lugar somente nosso.

– Eu quero, mas não dependendo da boa vontade dos outros de novo.

Sam ergueu-se e tomou o comunicador ao lado, abriu uma planilha e projetou a imagem sobre elas.

– Veja, o meu salário junto com o seu está aqui. – Ela mostrava um valor na tela. – E aqui estão as despesas estimadas, Letícia me ajudou a calcular esses valores, porque eu nunca morei só, não tenho essa experiência. Olhe aqui, temos como pagar tudo.

– Você reservou apenas isto para o aluguel? Encontraremos algo habitável por esse valor?

– Sim, nos bairros menos nobres.

– E se me demitirem? Eu sei que meu salário é irrisório, eu costumava gastar mais num almoço do que eu ganho de salário atualmente, mas fará falta. Eu não sei se continuarei lá, eu ando fazendo coisas erradas demais no serviço, inclusive queimei uma autoclave hoje.

– Eu posso pegar um segundo emprego, fazer uns bicos, qualquer coisa para complementar nossa renda.

Theo sentou-se recostada na cabeceira, Sam estava sentada à sua frente, aguardando sua resposta apreensivamente.

– Você não vai voltar para a Zona Morta nunca mais, não é? Você promete que vai ficar aqui comigo? – Theo perguntou.

– Eu prometo, eu prometo dormir e acordar com você todos os dias. E nós vamos alugar alguma coisa perto do meu trabalho, caso aconteça algo com você eu poderei chegar em casa rapidinho.

Theo hesitou, olhou para a aliança em sua mão. Sam percebeu, aproximou-se tomando e beijando sua mão.

– Eu prometo tentar ser a melhor esposa do mundo para você. – Sam ia dizendo. – Apesar das dificuldades, não vou te deixar faltar nada, ok? Teremos uma vida modesta, mas será a nossa vida, nós duas juntas, sem interferência de ninguém.

– E isso é tudo que precisamos. – Theo lhe sorriu. – Isso e um apartamento que não tenha ratos nem chova dentro. O resto a gente dá um jeito.

Sam, que ainda segurava sua mão, a colocou em seu peito.

– Finalmente sós.

– No nosso ninho de amor.

– Apenas nós duas e algumas baratas. Porque você mencionou ratos, mas não disse nada a respeito de baratas. – Sam zombou.

– Nada de baratas, por favor.

– Eu mato para você, querida.

– Sam, nada de baratas.

– Tudo bem. Podemos começar a procurar o ninho de amor amanhã?

– Você não começa no trabalho novo amanhã?

– Não, só na semana que vem, vamos aproveitar esses meus dias de folga para isso, que tal?

– Fechado.

– Ótimo. Podemos voltar para nossa lua de mel? – Sam disse entrando debaixo das cobertas, deitando a cabeça entre as pernas dela.

– Se você se refere a continuar fazendo sexo, só depois que eu tomar um banho e comer algo.

– Providenciarei as duas coisas para você, esposinha. – Sam disse e lhe beijou o monte púbico.

Theo riu.

– Esposinha não é nada sexy.

– Também posso te chamar de gostosa. A fruta mais gostosa de todas, que eu tenho vontade de morder o tempo todo. – Sam brincou lhe mordendo onde a beijava.

– Só morder?

– Morder e comer. – Sam lançou um sorrisinho sacana.

– Então vem tomar banho comigo. – Theo traspassou suas pernas ao redor dela. – Depois que conseguir se livrar do meu golpe ninja.

***

Dormiram até tarde na manhã seguinte, não sobrando muito tempo para procurar imóveis, Sam passou a tarde no hotel fazendo buscas virtuais e anotações.

À noite fizeram questão de dividir o momento feliz com seus amigos, num jantar no apartamento de Stefan e Virginia, apenas Michelle faltou, alegou motivos profissionais.

A turbulência dos últimos dias fez com que as duas esquecessem do resultado do processo contra Claire, que sairia naquele dia. Stefan deu a notícia: haviam vencido em primeira instância, prontamente o batalhão de advogados da Archer recorreu, e o processo agora seguiria para segunda instância, Claire pleiteava a nulidade da primeira decisão. Nada mudaria, continuavam sem ter onde cair mortas, e só restava a todos aguardar a nova data.

No dia seguinte o casal visitou alguns apartamentos e quitinetes, a busca não estava nada animadora, a pouca verba disponível dificultava.

– O aquecimento não está funcionando, mas este inverno não está muito rigoroso, vocês não sentirão muita falta. – A corretora explicava, o trio estava dentro de um quarto e sala com manchas de infiltração pelas paredes, haviam lençóis pendurados nas janelas e uma mesa quebrada ao canto.

– Esse é o maior que já vimos. – Sam se animava, olhando ao redor no meio da sala conjugada com uma pequena cozinha.

– Pelo menos não é quitinete, o quarto é separado. – Theo replicou. – Mas no anúncio dizia semimobiliado, e não mobiliado.

– Eu sei que vocês procuram algo mobiliado, mas este está quase completo. – A corretora disse.

– Me parece completo. – Sam disse olhando a cozinha. – Tem tudo que precisamos aqui, e tem um sofá.

– Venham comigo. – A corretora foi até o quarto, abriu a porta e mostrou o motivo do semi no semimobiliado.

– Não tem nada no quarto? – Theo constatava.

– Mas uma cama já basta. Inicialmente. – A corretora disse. – Eu posso conseguir umas caixas para vocês guardarem as roupas até conseguirem um armário ou cômoda.

Sam aproximou-se de Theo, entrelaçando os braços.

– Eu gostei desse.

– Vamos dormir no sofá? Você sente dores nas costas.

– Compraremos uma cama, temos uma margem para isso.

– Esse é perto do seu trabalho, isso é bom. Mas é longe do meu, talvez seja melhor eu procurar algo mais próximo.

– Eu estou pensando em financiar um carro usado, para te levar e te buscar do trabalho. – Sam contou. – Não acho seguro você andando de transporte público sozinha.

– Esse dinheiro vai ter que esticar pra caramba. – Theo riu.

***

Naquela noite de sexta-feira o casal teve que voltar para a casa de Michelle, as diárias no hotel haviam terminado. Decidiram alugar o último apartamento visto, mesmo sem móveis no quarto. Invadiram a cozinha e preparavam sanduíches quando receberam a visita da dona da casa.

– Finalmente encontraram o caminho de casa. – A senadora brincou e foi na direção de Theo, a abraçando. – Parabéns pelo casamento, querida.

Sam estava estática com o pão e a faca em mãos, observando a cena.

– Que pena que você não foi ao jantar ontem. – Theo disse após o abraço.

– Não tive tempo hábil para comparecer, mas tenho certeza que teremos outra oportunidade para comemorar.

– Hey, eu casei também. – Sam interrompeu a conversa.

– E comigo! – Theo replicou em tom de brincadeira.

A contragosto, Michelle deu um rápido abraço na soldado, a parabenizando também.

– Soube que estão procurando apartamento. Vocês sabem que não é necessário, podem ficar aqui o tempo que quiserem.

– Na verdade já encontramos, nos mudaremos na segunda-feira. – Sam rebateu.

– Já abusamos demais de sua boa vontade e hospitalidade, está na hora de termos nosso canto.

Michelle usou de sua sempre boa educação para disfarçar o misto de surpresa e irritação com a notícia.

– Mas você não pode ficar sozinha, Theo. Vocês deveriam repensar essa decisão, deveriam ficar mais um tempo aqui na minha casa, além de conforto e segurança, aqui tem sempre alguém que pode prestar socorro quando necessário.

– Só ficarei sozinha pela manhã, e eu estou melhor, graças aos tratamentos que você está bancando, estou bem melhor. – Theo aproximou-se da amiga, a envolvendo pelo ombro. – Obrigada por tudo, eu te devo gratidão eterna.

– Estaremos logo ali. – Sam completou.

– Ainda acho que vocês precisam repensar, aqui o gasto de vocês é nulo, ambas têm uma renda pequena, talvez passem por necessidades morando sozinhas.

– Está tudo bem calculado. – Theo disse. – Vamos conseguir pagar nossas contas.

– Você vai conseguir se alimentar direito?

– Não deixarei faltar nada para Theo. – Sam a tranquilizou.

– Senadora, eu passei dois anos recebendo apenas uma refeição por dia, não terei problemas em apertar o cinto.

– Você não precisa voltar aos tempos de Circus, aqui você tem tudo em abundância.

Theo correu o olhar para Sam, temerosa de sua resposta e de sua expressão de revolta.

– É uma forma de compensação, Michelle? – Sam provocou.

– O nome disso é zelo. – Respondeu. – O restante faz parte do passado.

– Não tem como comparar as coisas. – Theo dizia tranquilamente. – Aquilo lá era o inferno, e acordar com Samantha todos os dias é acordar no paraíso, não me importarei com um pão dormido no café da manhã. – Riu.

– Apenas me preocupo com seu bem-estar, conheço suas limitações.

– Eu também conheço. – Sam rebateu.

– E eu fico feliz com isso. Bom, minha casa estará sempre à disposição, espero que tudo dê certo. – Michelle ia dizendo. – Posso oferecer uma janta amanhã para celebrar as bodas de vocês?

– Claro, agradecemos a gentileza. – Sam respondeu.

– Fiquem à vontade. – Com um abraço carinhoso despediu-se de Theo e as deixou na cozinha.

Minutos depois, o casal retornara ao quarto de visitas, Sam sentou-se aos pés da cama para fazer uma manutenção na perna mecânica, Theo vestia o pijama.

– Você abraçou Michelle três vezes. – Sam resmungou.

– E? – Disse após a fitar um tanto incrédula por alguns segundos.

– Qual a necessidade?

– Os braços são meus, eu abraço quem eu quiser, não acha?

– Assim você a enche de esperanças.

– Não, ela se enche de esperanças quando eu e você brigamos.

– Não estamos brigando. – Sam disse baixando a perna da calça que estava erguida até o joelho.

– Hoje não.

– Depois que a gente sair dessa casa não brigaremos mais, esse lugar não nos faz bem.

– Já estamos de saída, mas sinceramente acho que a senadora não deveria ser motivo de conflito entre nós duas. – Theo disse de forma séria, a fitando de pé. – Eu nunca te dei motivos para você ficar assim.

Sam desviou o olhar, parecia chateada com si própria agora.

– Eu não sei lidar com isso… Michelle sempre me deixa insegura.

Theo aproximou-se, ficando à sua frente.

– E eu entendo seus motivos, mas não te faz bem.

– Desculpe, eu nem poderia reclamar essas coisas com você… Mas quando a vejo assim perto de você… Me dá um… Meu sangue ferve.

Theo sentou-se em seu colo, de frente.

– Você pode reclamar de qualquer coisa, mas lembre-se que foi com você que eu casei. – Theo disse num tom pacificador, com as mãos em seu rosto. – Quando eu falo que você é o amor da minha vida, não é da boca para fora, amor para a vida toda.

Sam subiu suas mãos por baixo da camisa dela, seu semblante já não demonstrava a prévia angústia. Theo a beijou suavemente.

– Então eu sou a escolhida?

– Escolhida a dedo. Ou dedos. – Riu alto.

– Não brinque com coisa séria. – Sam rebateu também rindo.

– Que foi? Eu não enxergava, oras. – Deslizava seus dedos pelo rosto dela. – Foi assim que conheci você.

Sam cobriu os olhos da namorada, com ambas as mãos.

– E foi assim que conheci você.

– Como?

– Com os olhos cobertos por uma venda.

– Eu nem lembrava desse detalhe.

– Você estava com fotofobia.

– Disso eu lembro bem. A propósito, obrigada por emprestar seus óculos escuros.

– Você nunca me devolveu.

– Devem ter ficado no carro.

– Que está guardado na casa que agora pertence a Claire, infelizmente. – Sam queixou-se.

– Ganhamos em primeira instância, daqui três semanas deve sair o resultado final, eu estou confiante, você não está?

– Muito. Mas não podemos contar com nada agora, por isso amanhã é dia de comprar cama.

– Sábado é dia de comprar cama?

– Para termos onde dormir na segunda-feira. Aquele sofá não cabe nós duas.

– Letícia disse que pode emprestar um colchão de solteiro. – Theo disse.

– Precisamos de uma cama grande.

Theo cruzou os braços ao redor do pescoço dela.

– Eu continuo espaçosa, amor?

– Espaçosa como um polvo.

***

Na segunda pela manhã arrumaram suas malas e levaram para seu novo lar, o pequeno apartamento num bairro da periferia, Sam ficou feliz em não ter que se despedir de Michelle, que já havia saído.

– Que horas chega a cama? – Theo perguntava após largar a mala na sala.

– Não tem hora, disseram que entregariam hoje. – Deu uma espiada pela janela, colocando o lençol de lado. – Que frio que faz aqui, temos que fazer um orçamento do conserto do aquecimento, senão você morre congelada.

– Conseguimos algumas cobertas, Leticia vai trazer à tarde.

Sam andava pela sala e cozinha, que ficava num único ambiente pequeno, prestando atenção aos detalhes. Theo sentou-se no sofá.

– Ligar tela. – Theo disse, e nada aconteceu.

– Não ligou?

– Não.

Sam foi até a parede e tentou encontrar o painel de comandos, encontrou mais ao canto. Mexeu por alguns instantes, mas nada funcionava.

– O sistema de mídia não funciona. – Sam constatou, com uma mão na cintura.

– E o gerenciamento dos eletrodomésticos da cozinha?

– Estão no automático.

– Nada de telas e sistema de som?

– E nada de sincronizar com nossas IDs. Pelo visto nada nessa casa funciona.

– Pelo menos é perto do seu trabalho.

– E temos um monte de coisinhas para comprar, nem talheres e pratos temos.

– O pessoal vai trazer algumas coisas para nós hoje. – Theo a tranquilizava.

– Temos que sair para comprar comida, temos que encontrar um mercado barato, vou ter que cortar algumas coisas da lista por causa da compra da cama.

Theo saiu do sofá e encontrou Sam mexendo nos eletrodomésticos, a abraçou por trás.

– Está tudo indo bem, oficial. Já pode abandonar essa tensão.

Sam empertigou-se para receber o abraço e um beijo no ombro, afagando as mãos cruzadas à sua frente.

– Talvez você devesse ter ficado na casa de Michelle até eu ajeitar tudo aqui.

– Não, meu lugar é do seu lado. Vamos nos ajeitando aos poucos, não precisa ficar nessa consumição, não vou congelar nem morrer de fome, fique tranquila.

Sam virou-se, mantendo-se dentro do abraço.

– Eu estou preocupada, são tantas contas e despesas, mas estou feliz da vida de finalmente estarmos num cantinho somente nosso. – A soldado disse trazendo um sorriso de Theo.

– Esse é o nosso novo palácio, daqui a pouco estará do nosso jeito.

– Dani disse que vai fazer um chá de panela aqui, você sabe o que é isso?

– Não faço ideia, mas não temos panela.

***

Vinte dias no novo lar se passaram, já havia talheres e comida na casa, até mesmo uma barata havia sido dramaticamente encontrada na sala, mas não havia dinheiro para os reparos. O aquecimento noturno ficava por conta de Theo se entrelaçando ao corpo da esposa debaixo dos cobertores.

Sam trabalhava numa instituição do governo europeu, um corpo de paz militar que prestava serviço social e ajudava a controlar os focos de violência decorrente da crise política e da proximidade das eleições. Alguns dias na semana trabalhava no ostensivo externo, fazendo rondas com motos aéreas.

Naquela semana Theo havia sido demitida, passava algumas horas por dia procurando um novo emprego. No início da tarde havia apagado no sofá da sala, dormia desconfortavelmente quando ouviu batidas na porta. O sistema de portaria eletrônica e comunicação não funcionava.

– Já vai!

Calçou seus tênis e abriu a porta. Para seu desgosto e surpresa, a visita era de seu segundo maior desafeto: Claire, acompanhada de um segurança.

 

Reenceto: s.m.: recomeço, reinício.

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