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Capítulo 72 – Incólume

Capítulo 72 – Incólume

 

– Não precisa.

– Ou você pode dormir no meu quarto, a cama é maior. – Michelle insistiu no convite.

Theo fechou os olhos e suspirou, a mente bagunçada não permitia que ela discernisse se aquilo era preocupação ou segundas intenções.

– Acho melhor não.

– Por que?

– Eu posso ficar sozinha, estou bem.

– Eu iria apenas tomar conta de você, já que você bateu a cabeça e se recusou a fazer mais exames.

– Eu realmente estou bem. E Sam não iria gostar de saber que você dormiu comigo.

– Sam te traiu.

– Eu sei, por isso estamos passando por uma crise e não quero bagunçar ainda mais as coisas.

– Ela não tem o direito de achar ruim que eu durma com você, ela está longe, você teve uma convulsão.

Theo tomou a mão dela com carinho.

– Senadora, eu entendo sua preocupação, e acho isso incrível da sua parte, serei eternamente grata por tudo que você está fazendo por mim e por se preocupar com meu bem-estar, mas eu gostaria que você respeitasse minhas vontades.

– Claro. – Respondeu polidamente. – Estarei de prontidão no meu quarto, se precisar de ajuda.

– Não quis parecer rude, mas eu realmente estou bem, tenho ciência que consigo ficar sozinha e me cuidar.

– E eu compreendo. Quer que eu peça que Rita providencie um lanche para você?

– Não, obrigada. Eu jantei antes de ter a convulsão, e tenho algumas coisinhas aqui no quarto, caso eu sinta fome.

– Ok, vou deixar você descansar então.

– Não se preocupe, não estou falando tudo em direitinho? Sem lapsos nem enrolando a língua, está tudo sob controle, senadora.

Michelle despediu-se com um beijo em sua testa, a deixando na penumbra do quarto. Theo estava ainda zonza e grogue da crise sofrida horas antes, mas, contrariando as expectativas, seu cérebro estava funcionando de forma ordenada.

A verdade é que estava morrendo de saudades de Sam e com vontade de ligar para saber como ela estava, mas estava também um tanto chateada, a mágoa não dava sinais de que iria embora tão cedo.

***

– Onde está seu capacete, Cooper? – O Major Thompson, superior imediato de Sam, a repreendia dentro da traseira do caminhão militar, estavam a caminho de uma missão noturna, onde procurariam rebeldes num vilarejo remoto.

– Capacete? Está aqui. – Sam tomou o capacete que estava no chão, atrás de suas pernas, e o colocou imediatamente. – Me desculpe, senhor.

O grosso uniforme camuflado com tons de verde e marrom não era suficiente para aplacar o frio que sentia naquele veículo, que sacolejava numa estrada pouco movimentada. Havia pedido informalmente para não participar desta missão, andava desatenta nestes dias, mas foi em vão.

Duas horas após a chegada, o grupo de doze soldados continuava andando em pequenos grupos pelas ruas e becos do local. Além da neblina, a pouca iluminação artificial dificultava a missão visual, nada havia sido encontrado.

O soldado que seguia a frente do grupo que Sam fazia parte acenou os orientando, pedia que entrassem numa ruela a direta. Sam entrou por último, e assim que adentrou a rua, foi arremessada ao chão por alguém, caindo ao lado de algumas caixas de madeira. Tiros foram ouvidos ao longe, e o barulho das balas ricocheteando nas paredes de concreto parecia dentro de seus ouvidos. Sam finalmente percebeu que havia sido o Major Thompson que havia a derrubado para fora da rua, e que a troca de tiros havia cessado.

– Mas que raios você pensa que está fazendo, Cooper??

– Eu… Eu segui as ordens, entrei na rua. – Sam disse ainda sentada no chão, seu superior estava de pé, ereto atrás de uma parede, se protegendo do ataque surpresa.

– Levante-se e volte imediatamente para o posto inicial da missão! – As feições do homem inglês de grande estatura mostravam enorme irritação.

– Eu tenho condições de continuar, senhor. Desculpe a distração, senhor. – Sam disse já de pé, recomposta e de fuzil em punho.

O major recebia informações na escuta implantada em seu ouvido, franziu a testa escutando o que seu imediato falava mais adiante.

– Fugindo para onde? Ok. E qual a direção? Ok, ok, estamos indo. Câmbio, desligo.

– Isso não se repetirá, senhor. – Sam tentava. – Me permita seguir com a perseguição.

– Volte agora para o posto seguro ou terei que adverti-la junto à corregedoria.

– Sim, senhor. – Respondeu cabisbaixa e marchou de volta ao caminhão, de onde escutou mais tiros.

Depois de algum tempo sentindo-se mal pelo que recém ocorrera, somado ao mal-estar em tempo integral que sentia pela situação com Theo, finalmente os soldados retornaram, trazendo sacolas com armas apreendidas.

Na noite seguinte, a oficial bebia com seus colegas num bar próximo ao quartel, numa mesa com outros dez soldados, era a noite de folga deles. Seu superior trouxe dois canecos de cerveja e sentou ao seu lado, lhe entregando um.

– Está acontecendo alguma coisa com você? Você parece em outro mundo nos últimos dias, nunca a vi tão distraída. – O major indagou, a pegando de surpresa.

– Eu peço desculpas, prometo me dedicar com mais afinco e me distrair menos.

– Você quase levou uma rajada de balas ontem.

– Foi erro tático meu, não fiz as verificações básicas.

– Mas algum bicho te mordeu? Você está assim por causa das piadas que o pessoal anda fazendo sobre o seu ex-noivo?

– Não, não tem nada a ver. Inclusive acho que as piadas com Mike estão leves demais… – Riu. – Na verdade estou com um problema pessoal, não sei como resolver e isso acaba dispersando minha atenção. Mas prometo tentar o máximo que puder deixar isso de fora do meu horário de trabalho.

– Não, não vai funcionar, sei como as coisas são. – O major colocou a mão em seu ombro e disse num tom paterno. – Se for problema de saúde na família, converse com o setor médico e peça uma licença de alguns dias.

– Não, não é caso de saúde. – Sam deu um gole em seu caneco, com desânimo. – Problema no meu relacionamento, sabe como é…

– Então resolva, e resolva logo, Cooper.

Seu sistema interno avisou da ligação de Maritza, saiu dali e foi para um canto menos barulhento para falar com a amiga.

– Ritz! Sinto sua falta aqui. – Disse com o ombro recostado numa pilastra.

– Que algazarra é essa? Onde você está?

– Num bar, extravasando meus demônios com cerveja. – Disse de posse de seu quarto caneco.

– Como nos velhos tempos.

– Mais ou menos, eu até saia com vocês, mas raramente bebia, achava feio mulher bebendo em público. – Riu.

– É verdade, eu bebia muito mais que você.

– Você sempre foi mais descolada do que eu.

– É que você ferrou sua juventude namorando aquele calhorda preconceituoso.

– Mas já me redimi do meu erro, agora eu namoro a garota mais descolada e mais incrível do mundo.

– Quantas você já bebeu, Sammy?

– Uma só. Ou quatro.

– Você não está legal, né? Eu soube da sua quase morte de ontem, Thompson precisou pular em você, não foi?

Sam balançou a cabeça chateada, ainda recostada numa pilastra próxima ao banheiro.

– Quase levei uns tiros dos malditos falanges, dei bobeira.

– Vocês precisam fazer as pazes, vocês duas estão mal.

– Theo não está bem? Aconteceu algo?

– Ela está ferrada como você. Vivendo pela metade. Nem me refiro à convulsão de ontem, ela está quieta demais, faltando as terapias, essas coisas.

– Que convulsão? – Sam perguntou com preocupação.

– Ontem à noite, Letícia não falou nada?

– Não, não falou. Ela está bem?

– Está sim, relaxa, nem precisou costurar a cabeça.

– Que? Ela se machucou?

– Bateu a cabeça, mas não foi nada, foi ao hospital apenas para fazer uns exames, nem ficou internada.

– Ela está bem mesmo ou você não quer me preocupar? Ritz, se eu não puder contar com você…

– Estou sendo sincera, está tudo bem, ela foi trabalhar hoje e tudo.

– Quem a socorreu?

– Michelle, acho que a encontrou caída no quarto.

– Por que ela foi ao quarto?

– E eu que sei?

Maritza escutou Sam bufando do outro lado, e continuou.

– Tenente, eu não quero jogar mais lenha na fogueira, mas se eu tivesse uma senadora dessas na minha vida, sei lá, acho que já teria mandado pastar. Ela parece aqueles urubus, voando em círculos, esperando uma chance de dar o bote, nem sei se urubus dão o bote, mas você entendeu, né? Eu não gosto nem um pouco da ideia dessa mulher sozinha com Theo.

– Obrigada por aumentar minha insegurança, Maritza.

– Desculpe, só fui sincera.

– Eu estou de mãos atadas, e isso é angustiante. – Sam desabafava. – Não estou dormindo nem comendo direito, estou distraída no serviço administrativo e no prático, não consigo nem dar um oi para Theo porque ela me bloqueou em tudo, na verdade nem sei se ainda tenho uma namorada! E ainda tenho mais sete dias aqui nessa zona de merda sem poder fazer nada.

– Não tem nada que você possa fazer aí na Zona Morta?

– Esperar. – Suspirou olhando para a cerveja quente em seu caneco.

– Talvez ela esteja esperando alguma atitude sua.

Sam fitou seus pés com angústia, detestava sentir-se impotente, mas talvez Maritza tivesse razão, talvez fosse justamente isso que Theo esperava da parte dela, que agisse com atitude.

Surpreenda-me.

Sam lembrou do dia que ouviu isso saindo dos lábios dela.

– Ritz, eu tive uma ideia. Na verdade duas ideias! – Dizia com empolgação.

– O que?

– Estão surgindo aqui na minha cabeça umas ideias e eu preciso organizar isso, eu te ligo depois e explico tudo, preciso ir.

– Pelo amor de Deus, não apronte nada.

– Vou para o tudo ou nada, cara de salsicha.

***

Na manhã seguinte, já com um plano mirabolante totalmente planejado, Samantha foi até o hangar do seu grupamento, não poderia perder tempo para executar tudo que desejava.

– Tem algum voo daqui para a Sibéria? – Interpelou o responsável pelo setor, o pegando de surpresa ainda com uma caneca de café na boca.

– Sibéria?

– Tem?

– Hoje não, tem um voo semanal apenas.

– Que dia?

– Quinta-feira às oito da noite.

– Tem algum voo de volta?

– Domingo pela manhã, se não me engano sai as seis de lá, tenho que confirmar.

– Preciso que você me coloque no próximo voo, e no de volta no domingo também.

O funcionário repousou a caneca em sua escrivaninha e endireitou na cadeira, acionando a tela virtual em frente.

– Bom, primeiro temos que ver se ainda tem lugares para soldados, e mesmo que tenha, você precisa de uma autorização de deslocamento, assinada por seu superior.

– Verifique a disponibilidade, o documento eu arranjo depois.

Em alguns segundos a resposta positiva enchia a primeira-tenente de felicidade, abrindo um sorriso contido. Ainda naquela manhã conseguiu a autorização para ir para a Sibéria, o desafio estava apenas começando.

Viajou ao lado das cargas no avião militar, com outras três pessoas. Quando chegou na base de Krasnoyarsk reviveu aquela sensação aterrorizante do início do ano, quando pousara ali recém detida pelos mesmos que agora a chamavam de oficial e lhe prestavam continência. Seguiu num carro confortável para o alojamento militar, onde passou um restante de noite repleto de ansiedade pelo dia seguinte.

Na manhã seguinte, entrou pelo portão principal da prisão onde passara mais de quatro meses. Naquele dia de final de maio não fazia tanto frio, o uniforme militar de passeio, bem cortado e emoldurando uma gravata amarela, a deixava mais confiante para enfrentar o General Turner.

– Tem hora marcada com ele? – O recepcionista da antessala do general a perguntou, Sam respondeu com firmeza e mantendo seu porte altivo.

– Não, mas é um assunto de suma importância para nós dois.

– Só um instante.

Em menos de cinco minutos Sam já estava sentada frente à grande mesa do General barrigudo, que forçava um sorriso simpático.

– Fico feliz em vê-la novamente, e numa posição infinitamente melhor, como uma colega de corporação. – Ele ia dizendo, Sam estava nervosa e esfregava os polegares unidos sobre o colo.

– É bom poder voltar aqui em liberdade.

– Aceita um chá? Café? Posso pedir para alguém acompanhar você numa ronda pelo presídio.

– Não, obrigada, na verdade vim resolver dois assuntos com o senhor.

– Pois não.

Sam respirou fundo unindo sua coragem com a determinação de fazer a coisa certa, enfrentando aquele homem que lhe dava nojo.

– Eu estou há mais de um mês tentando uma transferência da Zona Morta para San Paolo, ou minha exoneração, mas sempre me negam. Eu preciso voltar a morar em San Paolo, minha vida está lá, e preciso que o senhor interceda por mim.

O General entregou outro meio sorriso.

– Creio que não posso ajudá-la, você precisa negociar isso com seus superiores no seu batalhão.

– Eu sei o quanto o senhor tem influência nesse meio, tem contatos importantes, sei inclusive que é próximo do ministro da guerra e até mesmo do premier. Eu só preciso que minha transferência seja autorizada, já protocolei quatro pedidos.

– Desculpe pela viagem perdida, não posso interceder em algo que não seja essa prisão, é tudo que administro no momento.

– General Turner, a essa altura o senhor deve saber que Theo me contou sobre seus compromissos na Zona Morta, acredito que seja um assunto que o senhor não gostaria de discutir comigo, muito menos de ver vazando para a imprensa e manchando sua imaculada honra militar, afinal são quase cinquenta anos de vida militar incólume.

O militar fechou o semblante e empertigou-se.

– Oficial, isso foi uma chantagem? – Disse rispidamente.

– De forma alguma, é só uma lembrança de quem o senhor realmente é.

– Um blefe, que pode ter consequências graves para você.

– Blefe? O testemunho de uma prestadora de serviço regular do Circus não é um blefe.

– Essa é sua honra militar? Irá prejudicar um superior que lhe ajudou inúmeras vezes quanto você era uma reles presidiária? Eu protegi você do Coronel Phillips, já esqueceu de tudo que fiz?

– Quem é o senhor para falar em honra? Frequenta um prostíbulo há anos, mesmo sabendo que as garotas lá são escravizadas, o senhor alimenta esse tipo de horror e depois banca de bom pai e bom militar.

– Você não sabe o que está fazendo.

– Sei sim, sei muito bem. – Sam subiu o tom. – O senhor acha que estou contente por estar nesta sala conversando com um desgraçado que violentava minha namorada?? Eu queria distância desse lugar e do senhor! Não há moral alguma da sua parte em julgar o que estou fazendo, estou pedindo um favor simples, uma mera mensagem para algum burocrático de farda para que assine minha transferência, é o mínimo que o exército da Europa pode fazer por mim depois de me trancafiar aqui nesse inferno gelado por meses a fio e quase me matar várias vezes.

– Devo admitir que você tem culhões.

– Não, prefiro dizer que tenho peito mesmo.

O General riu e foi desfazendo-se aos poucos, voltando a falar de forma séria.

– Se algo sobre esse assunto sair para a mídia ou se for compartilhado com qualquer outra pessoa, civil ou militar, arruinarei pessoalmente a sua vida e a de sua família, não pouparei nem o honrado Coronel Cooper, seu pai.

– Essa é a ideia, manter sua sujeira acobertada. Em troca preciso de dois pequenos favores.

– Qual é o outro?

– O endereço do novo Circus, eu tenho certeza que o senhor continua frequentando e abusando de garotas traficadas.

– Não faço ideia, depois que o anterior foi incendiado não tive mais contato com essa casa.

– As viagens mensais para a Zona Morta cessaram por dois meses, justamente na época do fechamento do Circus, e voltaram a ocorrer na mesma frequência em seguida.

O General apenas lançou um olhar gelado na direção de Sam.

– Das vantagens de trabalhar no setor administrativo do quartel. – Sam disse num quase deboche.

O opulento militar de pouco cabelo levantou de sua cadeira de couro, ficando ao lado de Sam de pé com as mãos para trás, deixando a primeira-tenente um tanto assustada.

– Rua Austin, Winnipeg, não sei o número.

– O Circus?

– Devo chamar um segurança para lhe acompanhar?

Sam prontamente levantou de sua cadeira, ficando frente a frente com o General.

– Não é necessário, sei o caminho da saída.

– Ótimo. – Ele deu um pequeno passo à frente, a intimidando ainda mais. – Não quero ver sua cara nesta prisão nunca mais, muito menos nesta sala. A partir de agora você é persona non grata em Krasnoyarsk. Se me procurar novamente, seja pessoalmente ou por meio virtual, peço para expedir uma ordem de prisão. Estamos entendidos? – Estendeu a mão para um cumprimento.

– Com todo respeito, eu faço questão de nunca mais ter contato algum com o senhor. – Sam disse e aceitou o cumprimento.

– Perfeito.

– Ah, apenas mais uma coisinha. – Sam disse já próximo da porta. – Eu gostaria de visitar algumas ex-colegas, mas como vou embora domingo pela manhã, não posso ficar até o horário de visitas. Por isso acredito que seja possível reunir algumas delas no salão de visitação amanhã, sábado, já que o salão estará vazio.

– Não posso lhe prometer nada.

– Irei deixar a lista com os nomes com seu assistente aqui fora.

Sam bateu continência e deixou a sala. Respirou com força ao fechar a porta atrás de si, com as mãos nos joelhos.

– A senhora está passando mal? – O solícito assistente do General foi em seu auxílio.

– Não, um pouco de falta de ar, estou bem. – Sam disse se recompondo, erguendo-se e respirando fundo de olhos fechados.

– Precisa de ajuda?

– Sim, mas com outra coisa. Vou deixar com você uma lista de internas, por gentileza repasse ao General, ele sabe do que se trata.

***

No dia seguinte, no início da tarde, Sam reencontrava algumas de suas colegas de confinamento, incluindo Svetlana.

– Theo soube de nós. – Sam contava para sua ex-companheira de cela. – Não reagiu nada bem.

– Mas agora está tudo bem?

– Não, ainda estamos brigadas, mas eu vou tentar mudar isso quando voltar para casa.

– Você explicou para ela que foi contra sua vontade?

– Sim, mas ela está mais brava por eu ter escondido isso dela por todo esse tempo.

– Que merda… O que você vai fazer?

– Vou surpreendê-la. – Sam respondeu com um sorriso arteiro.

***

Após o final de semana, Sam almoçava no refeitório do seu quartel quando sentiu uma mão em seu ombro.

– Não sei qual milagre você conseguiu, mas sua transferência saiu. – Major Thompson lhe dava a notícia.

Sam largou os talheres na mesa e virou-se o fitando contente.

– Saiu?

– Chegou para mim hoje pela manhã, só falta assinar.

– O senhor vai assinar, certo?

Seu amigo de longa data, e agora superior, lhe entregou um pequeno sorriso.

– Vou sim, mas com grande dor no coração, não gostaria de perder um de meus melhores soldados.

– Thompson, eu adoro trabalhar com estes colegas e com você, gosto de estar aqui no quartel, mas minha vida agora é no Brasil. Eu sinto muito, mas preciso dessa transferência.

– Eu sei, já conversamos sobre isso, fico feliz que você poderá voltar para casa em definitivo.

– Até quando fico por aqui?

– Até o dia de sua folga, fica até quinta-feira. Não se preocupe, manterei você no trabalho interno nestes dias.

– Obrigada, obrigada por tudo. – Sam não podia conter sua felicidade.

Faltava agora a última parte do plano.

Na quarta-feira pela manhã seu superior a liberou de suas tarefas.

– Posso ir hoje, então? – Sam perguntava surpresa e feliz da vida.

– Pode sim, não precisa ficar até amanhã, já assinei tudo que precisava, você já está liberada. Assume seu posto de trabalho num corpo de paz em San Paolo daqui uma semana, ok?

– Ficarei em San Paolo mesmo, não é?

– Sim, você receberá maiores informações depois.

– Posso ir mesmo? Agora? – Sam indagava ainda incrédula.

– Arrume suas coisas e pegue o voo de meio-dia.

Sam quebrou o protocolo e abraçou seu colega, em seguida saiu correndo para seu quarto, o voo sairia em meia hora. Ligou para Letícia no caminho, e acertou os últimos detalhes para sua empreitada.

***

As cinco horas da tarde daquele mesmo dia, Theo deixava seu trabalho na faculdade de medicina, caminhando devagar com sua muleta, levava sua mochila azul e marrom nas costas e usava um moletom negro. Passara o dia ansiosa, derrubando objetos, sabia que Sam chegaria de folga no dia seguinte, e que não teria como evitar uma longa conversa com ela.

Caminhava pelo hall de entrada da faculdade quando percebeu a presença de Sam parada logo à frente, estava sentada numa mureta e levantou-se rapidamente quando a viu. Theo parou o passo com a surpresa, estava um tanto assombrada, mas voltou a caminhar até encontrá-la.

– Oi. – Sam lhe cumprimentou timidamente, mas com um sorrisinho contido.

Theo lhe observou dos pés à cabeça, Sam estava vestida com a farda militar de passeio, um casaco marinho com listra amarela nas mangas, gravata de seda amarela, calça também marinho com uma listra amarela, e algumas insígnias no peito, além de seu nome: S. Cooper.

– Hoje é um bom dia para você me chamar de oficial. – Sam tentou brincar, mas Theo não entrou no espírito.

– Oi. – Finalmente respondeu ao cumprimento, ainda confusa. – Veio antes?

– Sim, consegui vir um dia antes. Você tem um minuto para mim?

– Tenho sim.

Sam limpou a garganta antes de falar.

– Theo, eu tenho três coisas para lhe falar.

 

Incólume: adj.: que permanece igual, sem alteração; bem conservado, inalterado.

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