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Capítulo 69 – Déjà vu

Capítulo 69 – Déjà vu

 

Era a primeira vez naquele ano que Sam adormecia com plena sensação de segurança, nos braços de Theo e se sentindo amada. Nada de dúvidas. Com o dia cheio de compromissos e a noite agitada, adormeceram sem se vestir, acordaram no susto com batidas na porta.

– Pode entrar! – Theo bradou e subiu as cobertas para ambas.

– Hoje eu bati antes de entrar. – Stefan disse ao enfiar a cabeça por uma pequena abertura de porta.

– E você quer o que? Aplausos? – Theo resmungou, esfregando os olhos.

– Apenas avisar que Lindsay já está aqui há uns vinte minutos, está aguardando a irmãzinha dorminhoca que prometeu sair para tomar um café.

Sam, também sonolenta, conferiu as horas pelo seu sistema Borg e viu que já passava das nove.

– Stef, peça desculpas a ela, já estou indo. – Sam disse.

– Como queira. – O advogado disse já fechando a porta.

– Já? – Theo disse manhosamente, se entrelaçando a ela.

– Infelizmente sim. – Sam respondeu a acolhendo. – Eu prometi a Lynn.

– Eu ainda não consegui matar a saudade de você.

– Temos todo tempo do mundo. – Sam respondeu desenhando lemniscatas nas costas e ombro de Theo.

– Não diga isso, a última vez que falamos essa frase você foi arrastada para a prisão horas depois.

– Foi?

– Sim, lembra dos morangos derrubados?

– Lembro.

– Foi doloroso encontrar os morangos pelo chão no dia seguinte, sozinha, pobre e arrasada.

Sam ponderou um instante antes de falar.

– Você acha que um dia voltaremos para casa?

– Se não for a mansão de vidro, teremos outra casa, mas te prometo que teremos um lar em breve.

– Eu não me importo de morar com você numa quitinete na periferia.

– Eu também não, mas não consigo ficar tranquila sabendo que Claire e Mike estão por aí, querendo vingança por conta da quebra do grupo Archer. – Theo respondeu. – E pode apostar que o ex-major está possesso por você estar comigo novamente.

– Pelo menos o coisa ruim já se foi.

– Qual?

– Elias, você conseguiu se livrar daquele verme para sempre.

– Sim. – Theo respondeu de forma quase inaudível, esse assunto a atormentava.

– E eu vou procurar a localização do novo Circus.

Theo fechou os olhos num suspiro triste.

– Que grande dejavu…

***

No final da tarde Theo tomava café com Dimitri em seu antigo local de trabalho. Um sorriso reluzente surgiu quando viu Sam entrando no recinto, ainda se ajeitando com as muletas.

– Olá, posso me juntar a vocês? – Sam perguntou de pé ao lado da mesa, que dividia os dois bancos acolchoados.

– Mas eu não conheço você. – O jovem de bochechas vermelhas respondeu olhando fixamente para a perna ausente.

– Dima, essa é a Sam, minha namorada. Senta, amor.

Já acomodada e tendo recebido um beijo de boas-vindas, a soldado tentava equilibrar as muletas ao lado.

– Você é a que estava presa?

Theo riu.

– Sim, só tenho essa namorada, querido.

– Sou sim, aquela da prisão, as outras eu desconheço. – Sam respondeu com bom humor também.

– Você é uma moça bonita, mas o que aconteceu com sua perna?

– Pisei numa mina terrestre.

– Que azar. Uma vez eu pisei num prego, atravessou meu pé.

– Ainda está quente, quer? – Theo ofereceu seu café a Sam.

– Quero. – Bebeu um longo gole e fez uma careta. – Esqueci que você toma café sem açúcar.

– Seu pé sobreviveu ao prego? – Theo disse e chamou a atendente, pedindo outro café.

– Ficou a marquinha.

– Lindsay voltou para o hotel? – Theo perguntou.

– Uhum.

Dimitri bebeu seu café com canudo até fazer o barulho de sugar o restinho.

– Eu conheci seu ex-noivo, ele é um babaca, fez Theo chorar. – Dimitri disse após fitar Sam por um tempo.

– Ele conheceu Mike? – Sam sussurrou para Theo.

– Sim, Dima teve esse desprazer, no dia que aquele verme me mostrou os vídeos.

– Você nunca percebeu? – Dimitri perguntou.

– O que?

– Que era noiva de um babaca?

– Acredita que nunca percebi? Só me dei conta depois que conheci Theo.

– Ele esteve com a namorada aqui ontem.

– Mike e Claire? E você estava aqui?

– Não, eu estava sentado naquela mesa no canto. Ela pediu café gelado.

– Achei que eles já haviam ido embora. – Theo resmungou.

– Quando vocês duas irão?

– Hoje à noite. – Theo respondeu. – Sentirei falta dos nossos cafés.

– Eu perguntei ao meu irmão se poderíamos ir visitar vocês na Nova Capital, ele disse que sim, quando ganharmos na loteria. Mas acho muito difícil ganhar na loteria, não conheço ninguém que tenha ganho. – Dimitri disse com tristeza.

– Eu gostaria de poder prometer uma visita em breve, mas nossa situação também é complicada.

– Se um dia Theo reaver tudo que roubaram dela. – Sam ia falando. – Podemos bancar férias para você e a família do seu irmão em San Paolo.

– É verdade, mas por enquanto é um sonho distante. – Theo disse.

– Enquanto isso eu vou começar a jogar na loteria. – Dimitri rebateu.

– Sam… – Theo sacudiu a coxa dela. – Veja.

– Ah não…

Mike entrava no café, tirando suas luvas e olhando ao redor, até encontrar os olhares preocupados de Theo e Sam mais ao fundo.

– Que bom te ver livre, Sam. – O ex-militar disse sorridente prostrado de pé na base da mesa.

– O que você quer? – Sam disse enquanto segurava firmemente a mão de Theo por baixo da mesa.

– Não tive a oportunidade de te parabenizar no tribunal, queria te ver e dar um abraço.

– Não vai rolar. – Theo respondeu por Sam.

– Que eu saiba não falei com você.

– Elas não gostam de você, por que não vai embora?

Dimitri levantou e o encarou de perto, Mike o empurrou para o lado.

– Cai fora, retardado.

Sam levantou rapidamente, interferindo.

– Diga logo o que você quer e saia daqui. – Sam o afastou dali.

– Antes de qualquer coisa quero te dar um abraço, estou com saudades. – Mike era um belo exemplo de dissimulação, num momento falava de forma raivosa com Theo e Dimitri, segundos depois sorria e tentava soar amoroso.

Sam desvencilhou do abraço, estava cada vez mais furiosa.

– Pelo amor de Deus, Mike, me deixa em paz!

– Tudo bem, você prefere dessa forma. – Disse ofendido. – Só queria que soubesse que eu depus como acusação porque meu pai e Claire me obrigaram, eu não queria ter feito isso, tudo que eu mais queria era entrar naquele tribunal e te defender de todas aquelas acusações horríveis.

– Que se dane, eu fui absolvida, mesmo com todas as merdas que você falou.

Theo observava a cena ao longe, Dimitri a fazia companhia e ambos estavam nervosos.

– Eu vou lá enfiar a mão na cara dele, vou acabar com isso. – Theo disse entredentes.

– Ela não consegue resolver a situação sozinha?

Theo virou na direção do seu amigo, refletiu por um instante o que ele havia falado.

– Acho que sim.

– Você tem medo que ela volte para ele?

Theo baixou a cabeça para seu café, e disse em tom confessional.

– Tenho.

– Não deveria.

– Eu sei. – Esfregava a testa. – Mas toda vez que eu vejo ou fico sabendo que eles conversaram, eu fico esperando o pior.

Mike passou por eles e saiu da cafeteria, Sam veio em seguida, e voltou a sentar ao lado de Theo.

– Era só saudade de você? – Theo perguntou.

– Claire quer que retiremos o processo.

– Que processo?

– Para reaver os bens. Esse foi o recado que Mike trouxe, ela quer que Stefan anule o processo.

– Se ela está fazendo isso é porque sabe que irá perder o processo, isso é bom sinal. – Theo se animava.

– Não, ela quer reconstruir a Archer e esse processo está dificultando as coisas, as ações não sobem nem os investidores estão querendo dar um voto de confiança para o grupo por causa dessa ação.

– Isso é ridículo, eu não vou tirar o processo.

– Ele disse que estão deixando de fechar grandes negócios e parcerias por conta disso, até mesmo não conseguem empréstimos.

– Sam, eu já entendi. Mas não vou retroceder.

– Eles não irão nos deixar em paz. – Sam murmurou, desolada.

– Mike disse isso?

– E precisava?

– Que merda! – Theo disse esmurrando a mesa.

– Vamos conversar com Stefan e Virginia, não fique assim, você pode ter alguma coisa.

Theo virou-se, e tocou seu rosto.

– Eu estou bem, não fique preocupada, ok? – Disse agora num tom tranquilo, e a beijou.

***

– Como você foi para a Sibéria, num avião militar? – Theo se ajeitava no ombro da namorada no avião, viajavam de volta e sono já aplacava ambas.

– Sim, no compartimento de cargas, com alguns soldados que se recusavam a dirigir a palavra a mim.

– Agora você é meu travesseiro. – Já não estava apenas em seu ombro, estava praticamente debruçada sobre sua companhia.

– Estou tão feliz e aliviada em poder voltar para casa sendo seu travesseiro. – Sam disse acariciando suas costas, por dentro da blusa.

– Na noite em que você foi levada eu prometi te trazer de volta. Não sabia que levaria tanto tempo para conseguir.

– Obrigada por não ter desistido de mim. Mais uma vez.

– Você está ferrada, não vou te largar nunca. – Theo riu baixinho, com sonolência.

Naquela noite todos viajaram para suas casas. No avião, além das duas enamoradas, Stefan e Virginia também seguiam. Os outros já haviam voltado no dia anterior. Por conta da diferença de seis horas no fuso horário, chegaram à noite em San Paolo, onde um Sub, moderno helicóptero pertencente ao canal WCK que voava na altura das motos policiais, os aguardava.

O quarteto seguiu para um dos estúdios do canal, onde passaram algumas horas gravando participações. No dia seguinte teriam mais uma coletiva de imprensa, além de outros compromissos. O mau humor de Theo nos estúdios alternou para Sam, no caminho para a casa de Michelle.

– Era aqui que você dormia quando vinha para San Paolo? – Sam perguntou ao largar a mala em frente à cama com roupas de cama brancas, assim como o mobiliário.

– Que? – Theo já estava no banheiro, tirando a roupa para tomar banho.

– Era aqui que você dormia? Ou dormia no quarto de Michelle? – Sam perguntou já dentro do banheiro, lavando o rosto.

– Dormi lá uma noite apenas.

– Sério?

– Sim. Entra comigo? – Disse já dentro do box.

– Não, tomo banho depois. – Respondeu e seguiu com suas muletas de volta ao quarto.

Minutos depois, Sam já havia separado roupas para ambas dormirem, empilhou em cima da cama, onde também estava uma bandeja que haviam trazido para jantar.

– Pode ir para seu banho, soldado tímida. – Theo saiu do banheiro num roupão, abriu um sorriso ao ver a comida. – Estou faminta, essa bandeja será só minha.

– Fique à vontade, durmo com fome.

– Hey. – Theo se aproximou dela, que estava sentada na cama. – Não precisa fazer isso.

– O que?

– Ficar na defensiva. – Afagou sua cabeça. – Estamos de volta, amor.

– Desculpe, deve ser o cansaço.

– Tome seu banho e venha comer comigo. Depois coloco você para dormir, do jeito que você preferir.

– Não tenho energia para fazer sexo hoje.

– Tudo bem, posso fazer um cafuné ou colocar você deitada em meu peito.

– Babando?

– Babando, é claro.

***

Dois dias depois Sam partiu para seu antigo quartel, na Zona Morta, já sabendo de antemão que não lhe concederiam o desligamento ou exoneração, aquele seria de fato seu novo emprego por tempo indeterminado.

O tratamento recebido de seus ex-colegas foi caloroso, os superiores pareciam cheios de dedos ao lidar com ela. Seu caso teve repercussão internacional e o comando daquele batalhão havia tomado um puxão de orelha, acataram tudo que solicitou, exceto uma coisa: nada de desligamento.

Logo no primeiro dia de trabalho passou por exames para a cirurgia de implante da nova perna mecânica. Não seria algo simples, iriam fazer um upgrade e manutenção de todo seu sistema Borg. Haviam concordado com seu pedido de trabalhar apenas em algum setor burocrático. Sam não desejava voltar ao front ou às missões externas nunca mais, aquela região na Zona Morta estava repleta de novos conflitos devido à crise política da Nova Capital, sabia que seria arriscado demais fazer qualquer coisa fora dos muros do quartel.

Passou os dias seguintes tentando de todas as formas pedir uma transferência para o Brasil, em algum posto de trabalho do exército europeu naquele país, ela sabia da existência de alguns, mas descobriu que conseguir uma transferência para San Paolo era quase impossível, devido à alta demanda e à escassez de vagas.

Um dia antes da cirurgia fez um acordo de escala de trabalho com seu superior, trabalharia dez dias e folgaria três, para poder visitar Theo de tempos em tempos. Aquela primeira separação pós julgamento estava doendo forte em seu peito, a saudade aumentava exponencialmente.

– Eu queria tanto estar aí com você, te acompanhando nessa cirurgia. – Theo falava mansinho no comunicador, estava deitada já, conversavam todas as noites.

– Eu também… Mas não precisa ficar preocupada, tá bom? Será uma cirurgia demorada, mas com poucos riscos, estarei nas mãos dos melhores médicos.

– Está ansiosa?

Suspirou enquanto pensava na resposta, Sam havia recebido a regalia de ter um quarto individual, era simples, mas tinha privacidade em sua não muito confortável cama de solteiro.

– Estou ansiosa para voltar para você, quero que os próximos quatro dias passem correndo.

– Está sendo mais difícil do que imaginei… Sinto sua falta o tempo todo, uma vontade imensa de sair daqui correndo e te encontrar aí no quartel.

– Negaram mais um pedido de transferência hoje, aquele que Stefan me ajudou a redigir. Eu vou enlouquecer se tiver que viver assim longe de você.

– Se as coisas continuarem desse jeito eu vou começar a investir pra valer naquela ideia de morar aí na Zona Morta.

– Não adiantaria muito, eu não posso dormir fora, e você não pode dormir aqui dentro, continuaríamos a nos ver muito pouco. Sem falar no desconforto que essa situação traria para você, morar sozinha nesse lugar inóspito, cheio de conflitos e crimes.

– Por falar em crime, saiu hoje a data do julgamento do nosso processo, contra Claire. Será daqui um mês.

– Estou vendo Stefan e você trabalhando nisso com tanto afinco, que é impossível não ficar confiante também. Estou otimista, nós vamos conseguir, amor. – Sam disse com ternura.

– Isso virou uma questão de honra para mim, não me importo de perder tudo, mas não aceito que aquela dupla demoníaca fique com o que é meu, eu quero vê-los no fundo do poço, quero ver Claire rastejando por aí com aquela cabeleira loira, sem nada.

– Ou coisa pior. Queria mandar aquela mulher para o inferno. – Sam despejou.

– Todos nós queremos…

***

A cirurgia da primeira-tenente começou antes do meio-dia e atravessou a tarde, além de uma perna novinha e ultramoderna, seu sistema seria atualizado, boa parte das funções Borg voltariam a funcionar. Com rápidos comandos ou gestos, teria dados estratégicos e de localização em seu campo de visão, além de recuperar sua força e ganho de energia.

Já tarde da noite, Sam finalmente começava a acordar, estava em um quarto bem equipado e cheio de bipes. Ao abrir lentamente os olhos e se dar conta de onde estava, enxergou a imagem de Theo sentada numa poltrona ao seu lado, mexendo em seu comunicador.

Fechou os olhos e tentou se livrar daquela alucinação, seus sentidos ainda estavam sendo recobrados, tudo parecia em câmera lenta. Ao abrir os olhos viu novamente a mesma imagem. Mesmo sem raciocinar direito, imaginou estar tendo alguma complicação da cirurgia, ou seu sistema estava falhando.

Mas resolveu arriscar.

– Theo?

– Oi, amor. – Theo ergueu rapidamente a cabeça, lhe entregando um largo sorriso.

– Você é uma falha?

Theo saiu da poltrona e foi até o leito, tomando sua mão.

– Dizem que sim. – Respondeu e riu. – Você está bem? Está com alguma dor?

– Ou eu morri?

– Não, a cirurgia correu super bem, você está viva.

– E por que estou te vendo?

– Hum… Talvez porque sua visão esteja funcionando. – Theo beijou a palma de sua mão. – Sou eu, querida, eu dei um jeito de vir.

Sam se animou e sorriu.

– Você realmente está aqui?

– E pretendo ficar até você se recuperar. Ou até me expulsarem.

– Não acredito que você veio… Eu desejei tanto acordar e ter você do meu lado.

Theo debruçou-se devagar sobre sua namorada, lhe entregando um demorado beijo em sua testa e um rápido beijo em seus lábios, lhe ajeitando o tubinho abaixo do nariz.

– Precisei vender parte do meu fígado para custear as despesas, mas eu realmente queria vir.

– Que? – Sam disse assustada, e sentiu uma pontada de dor.

– Estou brincando! Foi minha vó que mandou dinheiro. Você está bem? Está sentindo algo?

– Dor de cabeça, dor em vários lugares, mas deve ser normal.

Theo apertou o botão chamando auxílio, uma enfermeira apareceu, fazendo uma verificação completa na paciente.

– Dei uma dose a mais de analgésico agora, você vai ficar bem. – Ela disse terminando de verificar o acesso em sua mão. – Mas descanse, não faça movimentos bruscos e evite erguer a cabeça.

Assim que ela saiu, Sam foi logo perguntando para Theo.

– Você tem autorização para estar aqui?

– Tenho sim, eu falei com antecedência com um chefe seu, não seu qual deles, me parecem todos iguais com o mesmo corte de cabelo e a mesma barriguinha.

– Você é incrível.

– Ainda não viu nada. Chegue para lá, vou deitar com você.

– Vai?

– Se você permitir e achar boa ideia.

– Eu vou achar maravilhoso, venha.

Theo subiu devagar ao leito, tomando todo cuidado com seus fios, tubos e sondas. Enfiou-se debaixo do cobertor e foi envolvida pelo braço direito de Sam, que lhe beijava a testa languidamente.

– Você está quentinha de novo. – Theo constatava. – Sua temperatura voltou a ser mais elevada.

– Um pouco. Você gosta?

– Gosto, me lembra das noites frias na estrada, dormindo agarradinha a você, tirando umas casquinhas, sendo aquecida pela minha soldado ranzinza de 38 graus.

– Eu fui abençoada por ter encontrado você… – Sam dizia baixinho. – Eu te amo tanto, meu anjo.

Theo lançou um sorriso de ar juvenil, ergueu-se um pouco e buscou os lábios dela. A beijou devagar, com medo de lhe faltar ar ou causar algo, mas carregou na paixão e na entrega.

Após alguns beijinhos que pareciam se despedir do beijo maior, Theo voltou a se acomodar no corpo quente de sua oficial.

– Já é tarde, você dormiu?

– Não, estava ansiosa para ver você acordando, disseram que talvez você tivesse se tornado um robô por completo.

– Disseram isso? – Sam perguntou com medo.

– Claro que não, mas estou aliviada que sua detecção de sarcasmo continua ruinzinha.

– É que você fala com tanta convicção que eu acredito.

– Eu adoro brincar com você, às vezes você é tão ingênua.

– Isso é ruim?

– Não, eu adoro seu jeitinho inocente, de quem ainda não deixou o coração endurecer, que não enxerga as maldades do mundo.

– Uma bobona, para resumir.

– É a minha bobona. – Theo aninhou-se e as cobriu. – Minha linda bobona.

– Está confortável? – Perguntou com a voz baixa e rouca.

– Completamente.

– Não vou permitir que tirem você daqui, durma tranquila.

– Além de bobona, é valente. – Theo respondeu já permitindo que o sono a derrubasse.

– E sortuda.

Sam ficou em silêncio afagando seu ombro e braço, até perceber que sua namorada caíra no sono. Apesar das dores que sentia, não pode evitar um sorriso arqueando de leve seus lábios. Estava exultante com a visita surpresa, aliviada e segura.

Deu-se conta que abarcava em seus braços seu bem mais precioso e o único de real valor. Deu-se conta também que seu amor por ela havia escalado novos patamares, seu coração vibrava ao sentir o coração dela batendo num ritmo cadenciado pelo sono. Nunca imaginou ser digna de tamanha devoção e empenho, Theo lutava com todas as forças que parecia não ter para estar sempre por perto ou ao lado. E Sam se dava conta agora.

– Meu amor… E minha vida. – Sam disse para si, com os olhos molhados e o coração aquecido.

 

Déjà vu: s.m.: Forte sensação de já ter presenciado ou vivido algo.

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