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Capítulo 65 – Sabatina

Capítulo 65 – Sabatina

 

Stefan percebeu rapidamente a reação estranha que Theo teve ao encarar o barrigudo General Turner, mas não tomou providências. O general estendeu a mão à jovem, de forma simpática, Theo hesitou, mas por fim levantou-se e aceitou o cumprimento, apertando sua mão.

Virginia o convidou a sentar-se, arrastando uma cadeira, mas ele preferiu manter-se de pé.

– Obrigada, minha cara. – Paul Turner respondeu sorridente, após encarar Theo por alguns segundos. – Mas não pretendo me demorar aqui, apenas vim desejar um bom julgamento.

– Assistiu algo? – Stefan perguntou.

– Não, cheguei agora. Tenho assuntos a tratar aqui, mas assistirei alguns minutos, é bom que o juiz Lancaster saiba que estou por aqui, ele sabe que estou apoiando vocês e a absolvição total de Samantha.

– E nós agradecemos imensamente por tudo, não é Theo? – Virginia disse, percebendo agora o semblante transtornado de sua cliente.

– É sim, obrigada por tudo. – Theo disse com um leve tom jocoso.

– Bom, vocês sabem como me encontrar, que tudo corra dentro do esperado e que a ré saia livre deste tribunal. Ela é uma boa interna na minha prisão, mas prefiro que justiça seja feita e que retome sua vida aqui fora.

Stefan antecipou-se e envolveu a mão do general lhe agradecendo de forma reiterada. Virginia também lhe agradeceu com fervor, enquanto Theo o fitava em silêncio. Antes que aquele senhor de cabelos grisalhos e ralos saísse, Theo saiu em disparada, passando por ele sem dizer nada.

A dupla de advogados se entreolhou com preocupação, mas por fim despediram-se cordialmente do militar, que deixou o recinto com a promessa de usar toda sua influência para obter um bom resultado.

– Que raios aconteceu com Theo? – A loira indagou Stefan.

– Eu não faço ideia, mas temos que encontrá-la, ela será a segunda a depor, não pode ter um chilique e sumir. – Stefan disse e vestiu seu paletó.

– Não, deixe comigo, continue revisando o roteiro.

Virginia saiu pelos corredores do tribunal chegando até a recepção.

– Você viu uma garota passando por aqui? Ela usa uma muleta.

– Vi sim, mas ela não saiu, ela foi na direção daquelas escadas interditadas.

Virginia avistou num outro salão uma escada circular larga de concreto e gesso branco, onde havia uma corrente impedindo o seu uso. Caminhou até lá, traspassou por baixo da corrente e ao subir uma dezena de degraus encontrou Theo sentada junto à parede, num dos degraus, abraçada a sua muleta.

Antes que Virginia dissesse algo, ela foi logo se explicando, de forma incomodada.

– Não precisava ter vindo me buscar, eu sei que tenho que depor daqui a pouco, só vim ficar um pouco só.

– O que aconteceu dentro daquela sala? Por que saiu daquele jeito? Teve algum surto? – Virginia falava com uma ponta de irritação.

– Não. Você pode me deixar sozinha por alguns minutos? Só alguns minutos, e eu prometo retornar, não estou tendo surto, apagão, lapso, convulsão, nada dessas coisas.

A advogada percebeu o tom ainda assustado na voz dela, aproximou-se, a observando atentamente.

– Foi a presença do General Turner que causou isso em você? – Disse se dando conta.

– Virginia, custa me deixar sozinha aqui? Eu só quero me acalmar um pouco antes de voltar ao tribunal.

O pedido não surtiu efeito, e Virginia sentou-se ao seu lado.

– Eu tive a impressão que você já o conhecia. Estou enganada? – Ela perguntou de forma mansa.

Theo não respondeu, continuava segurando firmemente sua muleta, fitando o chão.

– De onde você o conhece? – Virginia insistiu.

– Do Circus.

– Do Circus?? Meu Deus… – Virginia balançou a cabeça, compreendendo a dimensão daquela situação.

– Era um cliente recorrente.

– Seu?

– Geralmente sim.

– Eu nunca poderia imaginar que o benevolente General Turner fosse um desses monstros nojentos, nunca… Tão amável com a família, tão prestativo e justo conosco…

Após um longo silêncio, Theo falou com uma voz baixa, carregada de tristeza.

– Era dos piores. Era um daqueles que todas fugiam, o tipo de cliente mais temido.

– Quem são os mais temidos?

– Os que batem.

Virginia virou discretamente para o lado, a fitando por alguns instantes.

– Eu sinto muito. Eu não fazia ideia de quem ele era.

– Ninguém faz.

A advogada correu sua mão por suas costas, num afago, pousando por fim a mão em seu ombro oposto, tentando lhe dar um pouco de conforto.

– Saiba que não deixaremos este homem se aproximar de você novamente, eu e Stef manteremos você longe das mãos desse General.

– Obrigada. – Respondeu num sussurro.

– Quer ficar mais um pouquinho aqui?

– Quero.

– Ok, vou avisar Stefan. – Virginia sacou o comunicador do bolso do casaco e mandou uma mensagem para ele. Theo fechou os olhos dentro de um suspiro cansado.

Todos estavam cansados, todos os envolvidos estavam exaustos após quatro meses e meio de noites mal dormidas, frio, e o medo do amanhã. O caminhar já não pomposo de Stefan, as olheiras em Virginia, os ombros encolhidos de Sam, os suspiros longos e sôfregos de Theo.

Estas duas carregavam também marcas profundas em suas almas. Não havia ainda o discernimento do que ficaria e o que se apagaria com o tempo, mas algumas coisas nunca seriam esquecidas, outras sequer superadas. As cicatrizes se abrandariam com o passar dos anos, talvez alguns procedimentos estéticos resolvessem as mais profundas. Mas algumas dores perduram, alguns fantasmas retornam de tempos em tempos. Theo mais do que Sam sabia disso, ela estava somando fantasmas e traumas aos já existentes, e a única coisa que passava por sua cabeça agora era que seria um inferno sobreviver sem o esteio da pessoa que mais amava no mundo, sem seu abraço protetivo nas madrugadas em que acordasse apavorada em meio aos seus medos e temores.

– Eu preciso levar Sam para casa. – Theo pensou em voz alta, atraindo a atenção de Virginia.

– E você irá levar.

– Lembrei que não temos casa. – Sorriu de canto.

– Michelle ofereceu um quarto em sua casa, e tudo que precisarem.

– Eu sei, Sam vai odiar isso.

– É a melhor opção.

– Aquela teimosa vai preferir dormir num prédio abandonado. – Riu.

– Que nada, ela precisará engolir esse ciuminho besta, é para o conforto de ambas.

– Virginia… – Theo virou o rosto fitando a advogada. – O General sabia disso desde o início, ele nos ajudou porque sabia com quem estava lidando.

Ela não respondeu prontamente, levou alguns segundos processando.

– Ele sabia que estava lidando com você.

– Não tenho a menor dúvida disso. Ele fez tudo isso para abafar o caso, para não ser exposto.

– Faz sentido. – Virginia tamborilou os dedos sobre os joelhos. – Ele sabia que se fizéssemos alguma coisa que o prejudicasse, sobraria para Sam.

– Como poderíamos expor o condecorado General se ele estava salvando a pele de Sam toda semana? Ele foi muito esperto. – Theo disse.

– Ele jogou bem.

– O segredinho sujo dele está bem guardado comigo, e continuará assim.

– Você irá poupá-lo?

– É o mais sensato a fazer. E acho que ainda preciso dele.

– Por que?

– Essas visitas mensais à Zona Morta… Ele deve estar frequentando o novo Circus.

– Deve.

– Quando tudo isso passar eu irei arrancar a localização dessa segunda versão do inferno com ele.

***

O julgamento recomeçou, a última testemunha de acusação deu seu depoimento, e logo em seguida Theo foi chamada ao banco dos interrogados. Letícia havia dado um calmante para ela minutos antes.

Após sentar-se e acomodar a muleta ao seu lado, pode encarar demoradamente sua namorada, estava um tanto longe, mas frente a frente. Imaginou por um instante como seria terminar de uma vez com aquilo e poder tirá-la daquele banco dos réus, saindo pelos corredores em sua companhia com o coração finalmente aquietado. Logo a voz forte do juiz interrompeu seu devaneio, confirmando sua identidade.

– Theodora Bedford Archer, 23 anos, namorada da ré. Correto?

– Noiva.

– Ok. O advogado de defesa pode iniciar, se tiver alguma indagação a fazer.

Stefan levantou-se, ajeitando o bem cortado paletó grafite.

– Como você conheceu Samantha? – Stefan iniciou o roteiro de perguntas.

– Enquanto eu fugia de um prostíbulo, eu pedi ajuda e ela me acolheu.

– Quando?

– Na noite de réveillon de 2120 para 2121.

– Há um ano e quatro meses.

– E dezesseis dias.

– Durante esse tempo, como Samantha tratou você?

– Protesto, essa pergunta é imprecisa e cabe uma vasto discurso de defesa da ré.

– Negado, responda a pergunta do advogado.

Theo levou algum tempo fitando o juiz com semblante assustado, mas voltou a falar.

– Bom, ela salvou minha vida quando me encontrou, e salvou mais algumas vezes depois, então o que posso dizer? Durante todo esse tempo ela me protegeu como se protegesse a própria vida, mesmo antes de iniciarmos nosso relacionamento.

– Em algum momento você temeu que ela cometesse alguma atrocidade com você? Sentiu-se insegura ao seu lado?

– Não, de forma alguma, ela sempre foi meu porto seguro, eu confiava cegamente nela.

– Você viu ou ouviu, já que você passou um bom tempo sem enxergar, alguma atividade condenável da parte dela? Presenciou algum ato violento ou maldoso?

– Todas as vezes em que ela precisou usar a violência foi em legítima defesa, ou para me proteger. Ela nunca cometeu nenhum ato por maldade ou de forma mal intencionada. Ela nunca fez mal a ninguém, pelo contrário, já presenciei muitas atitudes benevolentes e altruístas, Sam tem o coração enorme.

Sam lançou um sorrisinho em meio àquela tensão angustiante, percebido por Theo.

– Ela contou para você sobre esse incidente na Zona Morta?

– Contou. Não era um assunto fácil, ela tocou nesse assunto poucas vezes.

– Em detalhes?

– Não, isso a incomodava muito, ela nunca se estendeu sobre o ocorrido, mas sempre ficou claro para mim que ela se sentia mal por terem a colocado nesta missão, por ter participado de algo que terminou na morte de civis. Ela me disse que gostaria de ter percebido com antecedência que havia algo errado, que pudesse abortar a missão antes, mas ela não suspeitou de nada, enfiaram Samantha num grande erro.

– Protesto! A testemunha está falando pela ré.

– Negado. – O juiz virou-se na direção de Theo. – Mas responda apenas o que você acha e sabe.

Stefan fez mais algumas perguntas e as respostas seguiram conforme o combinado, era a vez da promotoria interrogá-la. O jovem advogado, altivo e confiante, ajeitou seu bem arrumado cabelo negro, e começou a sabatina de forma debochada.

– Então você mantém um relacionamento íntimo e sexual com a ré?

– Sim.

– Não acha que isso invalida tudo que você falar perante o juiz?

– Claro que não, eu sou a pessoa mais próxima dela no momento, convivo diariamente com ela há um ano e quatro meses, tenho propriedade para falar sobre sua índole.

– Ela é uma cidadã europeia, correto?

– Sim.

– Vocês estão cientes que a homossexualidade não é aceita aqui?

– Que eu saiba esse julgamento não é sobre a vida sexual dela. E de qualquer forma ela agora mora na Nova Capital, recebeu cidadania americana.

As perguntas provocadoras continuaram, mas Theo manteve-se firme nas respostas, sem cair nas artimanhas do advogado astuto.

– Vou repetir a pergunta que seu advogado lhe fez: como a ré tratou você neste tempo em que estiveram juntas?

– Muito bem, ela sempre me protegeu de tudo, dedicou-se totalmente a minha recuperação enquanto eu precisava de cuidados médicos.

– Vocês são um casal, é normal que brigas e discussões aconteçam, vocês já brigaram?

– Discussões inofensivas, nunca passou disso.

– Ela nunca teve alguma atitude explosiva ou violenta com você?

– Sempre resolvemos tudo com diálogo, Sam é inofensiva.

– Ela nunca sequer intimidou você?

– Não, nunca extrapolamos nenhum limite razoável.

O advogado virou-se para um dos funcionários, o que cuidava do material multimídia, e lhe fez um pedido.

– Por gentileza, gostaria que a prova número 183 fosse exibida na tela.

Theo encarou Stefan com confusão, que fez um gesto dizendo que não sabia do que se tratava.

Um vídeo sem áudio, de uma câmera de vigilância do que parecia ser um estacionamento, começou a ser exibido. Ao longe, mas de forma razoavelmente nítida, era possível ver duas mulheres discutindo. Sam reconheceu o local em poucos segundos, correndo as mãos pelo rosto em desespero, mas Theo ainda não fazia ideia do que estava sendo exibido.

A imagem foi ampliada, e com o zoom ficou claro que as duas protagonistas eram Sam e Theo.

– Que vídeo é esse? – Stefan perguntou num cochicho para Sam.

– Estacionamento de um restaurante em Feira de Santana, janeiro de 2121. Eu contei a você sobre essa noite.

Theo se deu conta de qual ocorrido era aquele, assistiu Sam a debruçando sobre o capô do carro, lhe prendendo as mãos enquanto vociferava algo. Ela se debatia e tinha seu rosto atirado contra a lataria sempre que tentava desvencilhar-se dela.

Assistia tudo atenciosamente, boquiaberta. Já sua namorada preferia não mais assistir às imagens, apenas olhava de forma angustiada e culpada para Theo. A arma apontada para sua mão enfaixada, depois a mão sendo esmagada e o sangue escorrendo punho abaixo, aquelas cenas traziam uma recordação dolorosa para ambas, algo que há tempos se empenhavam em apagar de suas memórias.

O vídeo terminara com Theo sendo atirada para dentro da caminhonete, que sumiu em alta velocidade. O advogado de acusação voltou a se direcionar à interrogada, agora com um sorriso vitorioso.

– Você pode confirmar para todos que eram você e a ré neste vídeo recém exibido?

Theo fitou Sam com uma fisionomia pesarosa, a ex-soldado desviou o olhar para baixo.

– Confirmo. Mas eu não me recordava disso.

– Você pode confirmar que a ré agrediu fisicamente você nesta ocasião?

– Ela estava numa situação extrema de estresse, e havia recebido uma informação equivocada sobre mim, ela achava que eu estava a traindo, espionando, arquitetando sua morte.

– Ela agrediu fisicamente você nesta ocasião?

– Sim. Mas ela não teria feito isso se soubesse da verdade, ela agiu por…

– Ela machucou sua mão de propósito, que já estava machucada? – O advogado a interrompeu.

– Foi a forma que ela usou para arrancar a verdade de mim, são métodos que ela aprendeu no exército, ela estava sendo uma soldado.

– É impressão minha ou você perdeu essa mão?

– Não foi por causa disso, eu levei dois tiros na minha mão, em ocasiões diferentes.

– Perdeu essa mão?

– Perdi.

– E você continuou ao seu lado, mesmo após uma agressão selvagem como esta?

– Eu sabia a razão que havia a levado a cometer tal coisa. É lógico que fiquei extremamente magoada com ela, que não aceitei seus pedidos de desculpas por um bom tempo, mas foi uma explosão num momento crítico, ela estava prestes a morrer! Eu já sentia um amor imenso por ela nesta época, tudo que eu mais queria era ajudá-la a sobreviver, e eu faria qualquer coisa, eu atirei em minha cabeça para doar meu coração para ela, você acha que eu não perdoaria uma porcaria de uma agressão?? – Theo explodiu.

– Eu peço que a senhora mantenha a calma. – O juiz a advertiu. – Prossiga, advogado.

– Foi uma cena de violência gratuita e explícita, esta não deve ter sido a única agressão, mas é a única documentada que temos. – O advogado caminhava ao seu redor lentamente. – Você poderia nos citar outras ocasiões semelhantes? Outras explosões?

– Foi a única, você está especulando mentiras, você deveria ser mais ético. – Theo disse já se acalmando.

– Ela costuma perder a razão com qual frequência?

Não houve resposta, em silêncio Theo perscrutava com desorientação todo o ambiente.

– Apagão. – Virginia sussurrou para Stefan.

– Eu falei para não dar essa merda de remédio para ela.

– Senhora? Poderia responder a minha pergunta? – O advogado a chamou.

– Um tribunal? – Theo começava a recobrar a consciência, ainda confusa.

– Theo. – Stefan a chamou de seu lugar. – Estamos aqui contigo, estamos no tribunal e você está sendo interrogada, você precisa de ajuda?

– Precisa de atendimento médico, senhora? – O juiz a abordou.

– Não, eu estou bem, estou voltando, só preciso de alguns segundos. – Disse coçando as têmporas.

– Vejo que a senhora não tem condições de prestar seu testemunho. – O advogado de queixo alongado zombou.

– Tenho sim.

– Soube que a senhora tem problemas mentais.

– Tenho lapsos de curta duração, que não atrapalham meu raciocínio nem minha lucidez.

– Então podemos retornar?

– Vá em frente. – Theo ajeitou-se na cadeira, endireitou o corpo.

– Não guardou nenhuma mágoa dessa agressão?

– Absolutamente nada.

– Mas serviu para lhe alertar que a ré é capaz de usar a violência para conseguir o que deseja, não é mesmo?

– Não comigo, eu tenho plena certeza de que ela nunca faria mal a mim novamente.

– Ela seria capaz de matar para se proteger? Ou para proteger você?

– Você havia me pedido para não falar pela ré, lembra?

– Evidentemente. – O advogado inclinou-se para frente, pousando as mãos no batente que circundava a interrogada. – Me refresque a memória, há quanto tempo você a conhece?

– Um ano e quatro meses.

– Nós ouvimos hoje pela manhã o depoimento do noivo da ré, o senhor Michael…

– Ex-noivo.

– Certo. Ele conviveu de forma íntima com a ré por oito anos, e acredita que a ex-noiva é culpada de tal ato irresponsável na Zona Morta. Incidente este que vitimou 14 pessoas inocentes, adultos, crianças, pessoas que estavam em suas casas, algumas dormindo em suas camas, em seus…

– Eu ainda não entendi qual a pergunta. – Theo o interrompeu novamente.

– Não acha que o major Michael Phillips a conhece melhor do que você?

– Desculpe se pareço chata, mas é ex-major. E respondendo sua pergunta, por tudo que já ouvi falar e presenciei, posso dizer com toda propriedade que eu conheço  Samantha de forma muito mais profunda e íntima do que seu ex-noivo. – Theo respondeu fitando Mike no público, de forma provocativa.

Um burburinho formou-se naquela área, onde Mike estava com seu pai e Claire.

– Silêncio. – Bradou o juiz. – Prossiga.

– Em nenhum momento você a ouviu assumindo a responsabilidade naquela missão?

– Não, está claro para mim que não foi isso que aconteceu.

– Tem certeza que não se recorda? A senhora deu dois exemplos nesta tarde de que sua memória tem deixado a desejar.

– Tenho certeza. Doutor, convenhamos, no fundo até mesmo o senhor sabe que essas acusações são estapafúrdias, que esse circo foi armado como forma de perseguição, uma vingança desleal por parte de algumas pessoas mesquinhas, que não citarei os nomes, mas que querem prejudicar a mim e a Sam.

– Peço que se atenha às respostas estritas das minhas perguntas.

– Como desejar. Prossiga.

O jurista consultou seus papeis por longos dois minutos, e decidiu encerrar seu interrogatório.

Ainda zonza, Theo saiu devagar com sua muleta por uma porta lateral. Sam segurou no braço de Stefan, chamando sua atenção.

– Ela foi bem? O vídeo vai nos prejudicar?

– Ela foi bem, mas não acho que consiga reduzir o efeito que aquele vídeo teve, o vídeo foi catastrófico.

– Eu não fazia ideia que havia um vídeo daquilo, não fazia mesmo, Stef.

– Ninguém sabia, e eu cometi o erro de não checar melhor a listagem de evidências, deveria ter verificado a fundo cada item desta lista. – O advogado mostrou um papel eletrônico com a listagem das evidências, o título do item 183 era apenas “Registro – Estacionamento”.

– Esse vídeo foi propositalmente batizado dessa forma vaga para não chamar nossa atenção. – Sam constatava.

– Eu sei, mas eu deveria ter fuçado cada item.

– Agora já era.

– Já passou, eu vou pensar em ajustes no restante de nossa estratégia, foque no seu roteiro de respostas.

– Quem irá testemunhar agora?

– Maritza.

– Que Deus ilumine a cabecinha da cara de salsicha.

– De quem?

Maritza fora chamada, e seguiu respondendo dentro do combinado. O ex-soldado seguinte, também Borg, fez um relato profissional de Samantha, elogiando seus cinco anos de serviços prestados ao exército da Europa.

A última pessoa a passar pelo banco dos interrogados foi a própria ré. Primeiro Stefan, depois o jovem advogado. O jogo de palavras e provocações não abalava as respostas consistentes e firmes que Sam lhe entregava. Até o momento em que ele voltou ao assunto da agressão no estacionamento, balançando com o emocional dela.

– Eu ainda não consigo entender de onde surgiu tanta selvageria contra a pessoa que você deveria proteger e cuidar, eu não consigo! Por gentileza, Samantha, clareie meu raciocínio, em nenhum momento percebeu que estava machucando uma pessoa inocente? Uma pobre garota cega e indefesa?

– Naquele momento eu acreditava estar interrogando uma espiã assassina. – Sam respondeu nervosamente, apertando com força as mãos que estavam cruzadas em seu colo. – Eu havia acabado de ter evidências disso.

– Você aprendeu a usar violência em interrogatórios no quartel? Aprendeu a esmagar mãos no exército? Foi esse tipo de coisa que lhe ensinaram? Ensinaram a ser violenta com pessoas indefesas?

Sam não conseguia olhar para o público, muito menos para Theo que estava no meio dos espectadores. Inspirou demoradamente ar para seus pulmões, buscando paz para respondê-lo.

– No exército aprendi táticas de guerra, entre elas táticas de interrogatório em situações extremas, situações de vida ou morte. O que aprendi foi a usar os pontos fracos do inimigo, e naquele momento sim, Theo era minha inimiga, era minha algoz.

– Quando se deu conta de que estava sendo covarde e injusta com ela?

– Eu fui covarde, mas nem tão injusta assim. Ela confessou que estava mentindo para mim. – Sam agora sentia-se um lixo humano por ter que jogar parte da culpa em sua amada.

– Então ela realmente queria matar você? Não foi isso que percebi no depoimento dela.

– Ela não queria me matar, ela estava me ajudando, mas mantendo informações importantes em segredo. Eu errei, mas ela também errou, ela omitiu informações cruciais, o que acabou gerando aquele equívoco e aquela reação desesperada da minha parte.

– Você está chamando aquela crueldade que vimos de reação desesperada?

– Ela sabe que me arrependo do que fiz naquela noite, ela já entendeu que ambas tiveram culpa, e me perdoou, ela me perdoou de coração. Acho que isso abranda bastante aquelas imagens.

– Não acha que está sendo covarde novamente jogando a culpa na sua noiva?

– Só estou esclarecendo os fatos, estou explicando o contexto do vídeo.

– Também culpa os 14 civis da Zona Morta por sua violência contra eles? Eles estavam no lugar errado e na hora errada? – O advogado zombou entre gargalhadas.

– Não foi intencional, eu não tinha conhecimento das consequências de nossas manobras, houve problemas graves de comunicação, principalmente por parte de nosso comandante, que falhou miseravelmente.

– Ah, que interessante! Agora você culpa um militar morto. – Ele riu. – Suas explicações são bem convenientes para você, não é mesmo?

– Eu não tive culpa, eu era apenas um peão naquela missão.

O advogado, que gostava do tom dramático, abriu os braços e suspirou forte.

– Sua dissimulação me surpreendeu, conseguiu culpar sua própria noiva e um militar morto. Tenho pena de Theo, sua fiel companheira, que se submete a um relacionamento com alguém tão covarde.

Sam sentiu vontade de contestar aquelas palavras, mas seu peito pesava e doía com a culpa que sentia.

– Protesto! – Stefan manifestou-se. – Ele está fazendo as considerações finais por acaso??

– Mantido. Senhor, se não tiver mais perguntas, darei o interrogatório como encerrado.

– Me deixe verificar meus papéis.

Finalmente Sam criou coragem para olhar na direção de Theo, que a observava de forma vidrada. A ex-soldado sussurrou para que Theo pudesse ler seus lábios.

– Me desculpe.

Theo sorriu e apontou dois dedos na direção de seu próprio coração, depois apontou o indicador para Sam, lhe trazendo um sorriso aberto. Sam sabia o que significava aquele gesto, tantas vezes executado na UTI.

Sam retribuiu o gesto.

 

Sabatina: s.f.: 5. [Brasil]  Sessão de arguição em que alguém tem de responder a uma série de perguntas publicamente.

 

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