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Capítulo 61 – Eutanásia

Capítulo 61 – Eutanásia

 

O carro de Harry era velho e cheio de marcas de reparos, eles pararam um pouco antes do prédio de Theo e aguardavam uma posição dela.

– Pelos fundos, tem uma entrada pela lavanderia. – Ela lembrou-se, e o carro seguiu para a rua de trás.

Escorada em Dimitri, subiram o elevador e bateram na porta do apartamento, Theo torcia para que estivessem em casa, ela não tinha a chave e não queria voltar para a casa de seu amigo.

Quando escutou a voz de Stefan reclamando dos jornalistas insistentes que davam um jeito de driblar a segurança e entrar no prédio, sentiu um enorme alívio.

Stefan abriu a porta com cara de poucos amigos e Theo só conseguiu abrir um sorriso acolhedor para seu amigo advogado, que a olhava com espanto.

– Quem é, Stef? – Virginia apareceu logo atrás dele, e a reação foi parecida, boquiaberta com o que via, os inúmeros curativos assustavam.

– Voltei, posso entrar? – Theo disse, e Stefan a abraçou demoradamente.

– Graças a Deus… – Stefan murmurou.

– Não me esmague, Stef, estou meio avariada… – Theo brincou.

Ele a soltou e a olhou ainda assustado.

– Onde você estava? O que fizeram?

– É uma longa história, agora só quero um pouco da minha cama. – Theo deu dois passos amparada na direção da sala, e foi a vez de Virginia abraçá-la efusivamente.

– Você está bem, minha querida? – A loira perguntou preocupada.

– Já tive dias melhores. – Theo lhe deu um sorriso, Dimitri voltou a lhe amparar.

– Você é o cara da cafeteria, não é? – Stefan o reconheceu.

– Sim, Dimitri. – Estendeu a mão soltando Theo, que caiu de joelhos.

– Acharam minhas muletas? – Theo disse ao ser reerguida por Stefan.

– Sim, estavam na calçada aqui perto. – Virginia disse. – Mas acho que Stefan deveria te levar para a cama agora.

Já acomodada em sua cama, Theo apresentou Harry aos seus amigos.

– Harry é ex-enfermeiro, ele me salvou. – Ela ia dizendo. – Ele disse que eu estava praticamente morta quando me encontrou.

– Eu achei que você era um cadáver congelado, já estava pensando em como me livrar do corpo sem levantar suspeitas. – Harry brincou esfregando a barba acobreada.

– Vocês vão levá-la ao hospital, não vão? – Dimitri perguntou à eles.

– Sim, parece que foi atropelada por um trem, e eu vi essa mancha de sangue nas suas costas. – Stefan disse.

– Posso dormir um pouco antes?

– Não. – Virginia e Stefan responderam ao mesmo tempo.

– Me desculpe, mas preciso ir, tenho que abrir a loja. – Harry disse.

– Nós agradecemos imensamente por tudo que fizeram. – Stefan disse lhe estendendo a mão, e para Dimitri em seguida, que o abraçou.

– Dima, lhe darei vários cafés quando voltar ao trabalho, prometo. – Theo disse ao abraçá-lo.

Os irmãos deixaram o apartamento e foi a vez de Stefan e Virginia pedirem explicações do que acontecera nesses quase dois dias, sentando um de cada lado da cama.

– Foi Elias. – Theo disse de bate pronto. – Ele me sequestrou, com a ajuda de dois seguranças. Ia me levar para trabalhar no Circus de novo.

– Aquele seu tio desgraçado? – Virginia perguntou.

– Uhum.

– Foi ele que fez tudo isso com você? – Stefan disse apontando para o rosto dela.

– Entre outras coisas. – Theo suspirou com dor. – Mas acabou, eu escapei, estou viva.

– Ele não vai deixar isso barato.

– Eu o matei. – Theo falou com frieza. – E matei os seguranças.

Stefan e Virginia se entreolharam rapidamente, abismados com o que ouviam.

A advogada tomou carinhosamente a mão de Theo, e perguntou num tom acolhedor.

– Theo, talvez você esteja tendo algum lapso, ou delírio, por conta do trauma. Vamos te levar para o hospital e vamos pedir todos os exames possíveis, principalmente os neurológicos.

– Eu sei que isso está soando como a realização de um sonho impossível, mas é verdade, eu mandei Elias para o inferno, não sem antes sofrer um pouco.

– Tem certeza que suas memórias são reais? Você não está confusa? – Stefan perguntou.

– Por que você acha que estou nesse estado? Não foi fácil me livrar dele, aquele demônio quase me matou, ele me manteve dopada o tempo inteiro.

– Inconsciente?

– Não, acordada até demais, mas não tinha forças para reagir, mal conseguia mexer a cabeça e a mãos.

– E como conseguiu?

– Aproveitei o momento em que ele ia aplicar mais uma dose, fingi estar totalmente dopada.

– Isso tudo foi o que? Socos? – Stefan perguntou. – Mal podemos te ver por trás desses curativos todos.

– Acho que eram peças de barco, não sei… Eram coisas metálicas.

– Ele bateu sua cabeça contra isso?

– Foi.

– Era alguma oficina de barcos?

– Era um galpão no porto.

– Os corpos ainda estão lá?

– Eu me livrei deles, mas não tenho certeza se vão se manter ocultos para sempre…

Theo deixou a cabeça cair para trás, de olhos fechados. Não queria lembrar dos acontecimentos, não queria revivê-los, estava mentalmente exausta.

– Estão enterrados? – Stefan insistia.

– Stef, vamos deixar o restante das perguntas para depois. – Virginia pediu.

– Tudo bem, então vamos para o hospital, vou buscar a cadeira de rodas.

– O que houve nas suas costas? – Virginia perguntou.

– Elias me atirou em cima de alguma haste cortante.

– E a haste entrou em você?

– Sem pedir permissão. Foi uma dor e tanto. – Theo sorriu torto.

– Ok, vamos lá.

Minutos depois, já no hospital, Theo fora examinada superficialmente e encaminhada para um quarto.

– Estamos em pleno 2122 e as batas hospitalares continuam deixando minha bunda à mostra. – Theo resmungava enquanto se ajeitava no leito.

– Vão trocar seus curativos? – Virginia questionava, ainda de pé ao lado da cama.

– Sei lá, mandaram ficar aqui esperando.

Stefan resolveu sentar numa cadeira plástica transparente, tomou o comunicador do bolso.

– Esquecemos de Michelle. – Virginia se deu conta, sentando ao lado dele.

– Na verdade não apenas Michelle. – Theo disse. – Vocês precisam avisar os outros que voltei.

– Vou avisar agora, Theo. Mas Michelle deve estar chegando agora aqui, ela vai para nosso apartamento e não encontrará ninguém.

– Ela vem? Mas ela tem mil coisas para resolver na Nova Capital por conta desse caos político.

– Michelle acabou de chegar. – Stefan dizia enquanto verificava as mensagens. – Perguntou onde nos enfiamos. Na verdade a mensagem tem meia hora, e tem umas ligações perdidas também.

– Diga que estamos aqui, que venha para cá sem falar com a imprensa. – Virginia orientou.

– Por falar nisso… – Theo voltou a falar após uns gemidos doloridos. – Temos que combinar uma versão. Não posso contar que matei três homens.

– De forma alguma, você vai dizer que não faz ideia de quem te sequestrou. – Stefan dizia concisamente. – E que fugiu num momento de distração do sentinela, mas que não viu o rosto de ninguém porque usavam máscaras.

– Perguntarão onde eu estava, se eu falar que estava no porto podem encontrar o galpão cheio de sangue por todos os lados e acharem os corpos que estão no fundo do rio.

– Você os jogou no rio? Irão boiar.

– Dentro de tambores metálicos, com contrapeso dentro.

– Fez tudo isso sozinha?

– Stef, se tem uma coisa que eu sou é teimosa, eu não deixaria Elias me matar de jeito nenhum, nem me levar para o Circus.

– E você colocou três corpos dentro de tambores? Nesse estado aí que você está?

– Vocês vão me achar um monstro se eu falar que precisei esquartejar os corpos?

Stefan e Virginia apenas a encaram mudos e arregalados.

– Não me olhem assim, não estou feliz por ter feito isso. – Theo continuou.

– Esquartejou como?

– Com uma motosserra, mas cortei apenas as pernas deles.

Novamente os dois apenas a olharam incrédulos.

– Eu não deveria ter contado isso…

– Ainda bem que somos amigos dela. – Virginia cutucou Stefan, em tom de brincadeira.

– Eu quero morrer amigo de Theo. – Stefan respondeu.

– Meu Deus, eu estou tão cansada… – Theo relaxou o corpo e a cabeça. – E dolorida.

– Quem sabe te coloquem para dormir. – Stefan disse.

– Vocês ficaram com pena de Elias por eu ter esquartejado o maldito?

– Claro que não, você merece uma medalha. – Stefan retrucou.

Theo ficou alguns segundos em modo reflexivo.

– Meu finado avô não deve estar nada contente comigo, matei seus dois filhos. – Theo dizia.

– Dois? Como assim? – Virginia perguntou confusa. – Seu pai??

– Esqueci que você não sabia disso… – Theo lamentou. – Depois Stefan te conta.

Um médico entrou no quarto, e após um rápido cumprimento informou o que aconteceria.

– Eu irei cuidar dessa perfuração nas costas, e logo em seguida, aproveitando a anestesia, o Doutor Shevchenko irá cuidar do seu rosto. Não se preocupe com o resultado estético, ele é um cirurgião plástico muito bom, irá minimizar as cicatrizes ao suturar.

– Vão costurar meu rosto?

– Você está precisando, não acha?

– Não tive tempo de me olhar no espelho ainda, mas acredito no seu diagnóstico.

O médico riu e passou algumas orientações e informações. Assim que Theo entrou no centro cirúrgico, Michelle adentrou no quarto onde o eminente casal aguardava o retorno de sua protegida.

– Onde ela está? – A senadora chegou um tanto esbaforida, com Fibi a tiracolo.

– Na mesa de cirurgia.

– Meu Deus, cirurgia? O que aconteceu com ela?

– Vem aqui. – Virginia foi até ela e a conduziu à sua cadeira. – Está tudo bem, sente aqui, acalme-se.

– Qual o estado dela?

– É bom, não aconteceu nada grave. – Stefan respondeu. – Só estão lhe costurando algumas coisas, ela vai sair andando daqui.

– A polícia a encontrou?

– Não, ela fugiu. Ainda não contamos para a polícia nem para a imprensa, vamos ensaiar a nossa versão e depois entramos em contato com eles. – Virginia explicou.

– Versão?

– Não podemos contar para eles que Theo matou o tio.

– Elias?? – Virginia falou pasmada. – Theo matou Elias??

– Até que enfim, não acha? – Stefan debochou.

– Aquele desgraçado estava com Theo?

– Agora você o chama de desgraçado? Que eu saiba você foi cliente do negócio dele por muito tempo.

– Eu nunca fiz mal algum à Theo, ela sabe disso e é isso que importa para mim.

– Ok, pessoal, essa conversa não vai levar a lugar algum. – Virginia intercedeu, estava sentada no leito.

– E onde está o corpo dele? – Michelle perguntou, Fibi estava de pé ao seu lado.

– Theo ocultou no rio, junto com os dois seguranças. – Virginia respondeu.

Michelle apenas a encarou assimilando as informações.

– Se Theo esperasse que alguém fizesse algo por ela, a essa altura estaria morta ou trabalhando no Circus, a polícia não estava nem perto de encontrá-la. Ela deu um jeito. – Stefan concluiu.

A senadora balançou a cabeça devagar, ainda espantada.

– Nem uma bomba atômica derruba essa menina. – Acabou brincando.

– Nem um meteoro.

Quase três horas depois, Theo voltou para o quarto desacordada. Michelle havia liberado Fibi e arranjado uma terceira cadeira.

– Ela já não deveria ter acordado? – Michelle perguntou vinte minutos depois.

– Calma, deixa ela dormir um pouco. – Virginia respondeu.

– Por que tantos curativos no rosto? O que aconteceu?

– Ela não entrou em detalhes, mas mencionou algo sobre Elias bater o rosto dela em algum lugar. – Stefan disse.

– Peças de barco. – Theo respondeu baixinho, com a voz arroucada e grogue, ambos os olhos estavam cobertos por uma atadura.

– É bom te ver acordada. – Michelle disse já colada em sua cama, segurando sua mão.

Theo estendeu o outro braço, convidando para um abraço, que foi atendido.

– Não precisava ter vindo, senadora, você está cheia de coisas cabulosas para resolver no outro continente.

– Você é uma coisa cabulosa importante para mim. – Michelle zombou, sentada na beira do leito.

– Os curativos te assustaram? O médico disse que ficarei com poucas cicatrizes, não se assuste.

– Não me assustei. Mas se ficar ruim podemos resolver com uma máscara ou saco de papel.

Theo apenas lhe deu um sorriso cansado. Stefan levantou de sua cadeira e ficou ao seu lado também, segurando sua mão.

– Já sabem que você voltou, Theo.

– Quem?

– Todos, imprensa, polícia… O chefe de polícia chegará daqui a pouco.

– Nossa versão é boa, não é? Não quero ser presa, Stef.

– É uma versão forte, não se preocupe, você não será colega de cela de Sam.

– E minha alta?

– Se você se comportar poderá sair amanhã.

***

Na manhã seguinte Theo e seus amigos conseguiram sair pelos fundos do hospital, mas ao quebrar a esquina alguns fotógrafos surgiram, registrando o carro em movimento.

Antes das 13h naquela quinta-feira, Sam estava de pé em frente a tela da sala de recreação, não havia almoçado, o estômago estava apertado demais para receber algum alimento.

– Malditos desenhos, por que não pulam isso? – Resmungou esfregando as mãos.

– Assista aos desenhos sentada. – Svetlana a levou até uma das cadeiras da frente.

– Ela foi sequestrada na segunda-feira, já é quinta, onde a enfiaram esse tempo todo? Que polícia incompetente é essa?

– Sabe o que eu acho? – A pequena mafiosa ia dizendo. – Que ela foi levada para a Nova Capital, estão escondendo ela por lá, porque lá o presidente tem cobertura para fazer o que bem entender. Talvez ela esteja num belo apartamento comendo hambúrgueres, trancafiada até a poeira baixar naquele continente.

– Ela gosta de hambúrgueres. – Sam entrava na onda dela. – Mas e se não foi o presidente? Tem outras pessoas que gostariam de vê-la morta, como Mike e Elias, o tio dela.

– Mike não é seu ex-noivo? Aquele grandão que te visitou?

– O próprio.

– E por que ele…

– Psii! Começou o noticiário! – Sam levantou.

As manchetes foram chamadas e por último a repórter mencionou o caso.

…Chega ao fim o sequestro de Theodora Archer, herdeira do grupo Archer que balançou o cenário político da Nova Capital.

– Chega ao fim? – Sam estava uma pilha. – O que ela quer dizer com chega ao fim?

– Acharam a garota. – Svetlana deduziu.

– Acharam? Não ficou claro o que aconteceu.

– Então espere a matéria, vão explicar. E senta aí, porra.

– Posso continuar de pé? Obrigada.

– Pode não! Senta aí, novata! – Uma interna berrou do fundo.

– Viu? – Svetlana debochou.

Contrariada, Sam sentou e aguardou até a matéria ser exibida. Durante a exibição, que teve curta duração, apareceu apenas um carro já em velocidade considerável passando por repórteres. Sam conseguiu reconhecer Michelle e Stefan dentro do carro, não identificou as outras pessoas.

Assim que finalizou, Sam levou as mãos até a boca, colocando seu alívio para fora.

– Viu? Ela está viva, ela fugiu. – Sophia, que chegara durante o noticiário, corria sua mão pelas costas de Sam.

– Eu te falei! – Svetlana comemorava.

Sam ajoelhou-se devagar, subiu as mãos cobrindo todo o rosto, balbuciando com emoção.

– Ela está viva… Ela está viva… – Disse chorando.

– Você precisa dar mais crédito para sua namorada. – Svet brincou. – Agora levanta daí.

– Será que ela vem me visitar domingo? – Sam disse já de pé, tentando engolir o choro. – Ela saiu do hospital hoje, então deve ter acontecido algo com ela.

– No noticiário falaram em ferimentos leves, ela está bem. – Sophia disse.

***

Domingo à tarde e Sam esperava com grande nervosismo que os guardas a chamassem para a sala de visitas, sentada em sua cama, na cela.

– Minha vó não vem hoje, bem que poderiam me dar esses cinquenta minutos para passear lá fora, né? – Svetlana brincava, sentada na cama abaixo.

– Acho que também ficarei por aqui hoje, te fazendo companhia a tarde inteira.

– Talvez tenham te colocado nos últimos horários.

– Cooper, Samantha! – O guarda gritou na porta da cela.

– Corre lá!

Sam seguiu o protocolo, permanecendo ao lado da porta com os pés afastados e as mãos juntas erguidas em frente ao corpo, para receber as algemas.

– Você sabe quem está aí, Sirkis? – Sam perguntou.

– Aquela gostosinha que você chama de namorada. – Ele dizia enquanto a algemava. – Não sei o que ela viu em você, se eu pego de jeito deixo em coma.

– Respeite ela. – Sam respondeu com raiva.

O guarda a empurrou contra a parede de concreto, pelos ombros.

– Quer ficar aqui na cela enquanto eu vou lá conversar com ela? Quer? – Sirkis bradava furioso, a segurando.

– Não. – Sam resmungou entredentes.

– Muito bem. Vamos.

Assim que entrou no salão de visitas, Sam procurou afoitamente a sua mesa, avistou Theo de costas, ao lado de Stefan, e quase correu até lá.

– Theo… – O que aconteceu com você?? – Disse com espanto, Theo ainda tinha curativos, hematomas e escoriações no rosto.

– Não é tão ruim quanto parece. – Ela brincou em resposta. – Eu ainda estou aqui.

– O que te fizeram, amor? – Sam disse já sentada, tomando a mão dela com vigor, com ambas as mãos.

– São ferimentos superficiais, Samantha. – Stefan explicou.

– Quem fez isso?

Theo olhou com cautela para os lados, e falou em voz baixa, inclinada para frente.

– Elias, foi Elias que me sequestrou. Mas ninguém sabe, e ninguém pode saber disso, ok? Não conte a ninguém.

– A polícia o prendeu?

– Qual parte de ninguém sabe disso você não entendeu? – Stefan perguntou.

– Então ele está a solta por aí?

– Não. – Theo abaixou ainda mais a voz. – Ele morreu.

– Tem certeza?

Theo apenas gesticulou apontando para si mesma, e depois passando o dedo pela garganta.

– Você??

– Shhhh. Sim.

– Como?

– Ele ia me levar para trabalhar no Circus, eu precisava fazer algo radical.

– Meu Deus… Você conseguiu?

– Como você pode ver. – Dizia apontando a mão para o rosto. – Deu trabalho.

– Você está bem?

– Estou sim, tive um ferimento nas costas também, mas já cuidei disso. E meu rosto não ficará tão ruim, o médico prometeu.

– Que bom… Eu não queria acreditar que você já estava morta… Já estava planejando uma fuga… – Começou a chorar, olhando para a mesa. – Acho que subestimei você. – Sam tentou sorrir ao final da frase.

– Você não acredita no meu potencial, não é? – Theo riu. – Desde o início foi assim, você duvidando de mim.

– É diferente, antes eu não acreditava, agora eu acredito, mas tenho medo que sua força não seja suficiente.

– Tem mais dois que eu gostaria que tivessem uma conversa privativa com o diabo. Mas é sonhar alto demais.

– Mike e Claire?

– As paredes podem ter ouvido, Sam.

– Não sei como você pode dormir tranquila… – Stefan resmungou. – Com tanta gente querendo seu mal.

– Eu não durmo bem desde 2119, Stef. – Theo fitou Sam, com um sorrisinho. – Mas dormir com você ao meu lado ajuda bastante.

– Ou debaixo das suas pernas. – Sam riu.

– Eu sei que você adora.

– Nunca imaginei que sentiria tanta saudade de você me jogando para fora da cama.

– Do meu ronco também?

– Era música para meus ouvidos.

Theo a encarou por alguns segundos com um olhar carinhoso, nostálgico.

– Volta logo para a minha cama, por favor. – Por fim falou, com a voz embargada.

– No mês que vem, se Deus quiser. E eu vou te compensar por todo esse tempo afastada, grudarei em você dia e noite, vou fazer de tudo para te lembrar que estou ao seu lado e o quanto te amo. – Sam disse.

Theo acabou derramando algumas lágrimas, Sam ajudou a enxugá-las.

– Eu sinto tanto a sua falta… – Theo falou segurando a mão dela aberta em seu rosto.

– Eu também, meu amor. Aguente firme, essas três semanas passarão rápido, você vai ver.

***

Os dias teimavam em não passar rapidamente. Na primeira semana Theo voltou a trabalhar no café, agora era escoltada na ida e na volta pelo bravo guerreiro Stefan e sua gravata de seda. Foi até a relojoaria de Harry e Dimitri e devolveu as roupas de Ekaterina, tomando suas blusas com um belo rasgo nas costas de volta.

O presidente Hover fora deposto de seu cargo, e era agora considerado foragido da justiça, havia sumido do mapa. Uma junta provisória de senadores assumira o governo e conduziria o poder até as eleições de julho. Isso fez com que os ânimos se acalmassem, a população deixou de ir às ruas e o foco agora era a corrida eleitoral.

Theo achou isso proveitoso, a imprensa continuava ávida pelas notícias sensacionalistas, e a proximidade do julgamento de Sam estava sempre nas pautas dos jornais. Sempre que podia, a jovem ex-herdeira falava com a imprensa, atendia jornalistas, dava entrevistas, posava para fotos, tudo em nome da exposição do caso de sua namorada.

Mas havia algo cada vez mais errado com sua saúde. Sentia dores de cabeça terríveis, e com frequência. Na semana seguinte Stefan a encontrou caída no piso da cozinha pela manhã. A cena se repetiu dias depois, com Virginia a encontrando caída no banheiro, ao lado do vaso sanitário.

Na terceira vez que Theo fora encontrada desacordada, vieram os sermões.

– Não é convulsão, você mesma falou isso ontem. – Virginia dizia, sentada no sofá ao lado de Stefan. Theo estava na poltrona, assistindo a tela.

– Talvez seja, sei lá. – Ela continuava com os olhos na tela.

– Foram as pancadas que você tomou na cabeça, você sabe disso. – Stefan dizia. – Esses problemas começaram depois do sequestro.

– Examinaram minha cabeça naquele dia.

– Uma tomografia rápida, porque estavam mais preocupados em costurar você. Theo, você precisa ir ao hospital, fazer uma bateria de exames.

– E descobrir que alguma coisa aqui dentro piorou? Não, depois do julgamento eu vejo isso.

– Pode ser apenas alguma desequilíbrio, talvez fazendo um ajuste da medicação as coisas melhorem, você reclamou que sente como se tudo dentro de você estivesse funcionando mal, talvez sejam seus medicamentos. – Virginia disse.

– Eu estou me virando assim, se piorar eu vou ao médico, ok? Eu prometo.

E ela piorou. Mais uma semana se passou e sentia dificuldade em executar as tarefas da cafeteria. Entre as dores de cabeça; os lapsos. Entre os desmaios; confusão mental.

Resistiu mais alguns dias, mas no domingo, durante a visita a Sam, Stefan a dedurou para a namorada, que lhe deu um sermão de vinte minutos.

A bronca funcionou, Theo trabalhou na segunda-feira e pediu folga na terça, passando o dia inteiro no hospital, fazendo toda sorte de exames. Quando foi chamada no consultório do médico que estava a acompanhando, mal podia disfarçar a tensão, temia um prognóstico sombrio, ou talvez irreversível.

Sentada com as mãos cruzadas sobre o colo em frente, esperava ansiosamente que o jovem médico terminasse de ler os laudos numa tela ao seu lado. Por fim ele desligou a tela e encarou a paciente.

– E então, um ajuste na medicação resolve? Ou só a eutanásia? – Theo brincou, com seu humor negro.

– Na verdade trago boas notícias. – O médico realmente parecia otimista.

– Era isso que eu queria ouvir. – Theo disse aliviada.

– Todo esse descompasso recente na sua saúde tem um motivo. – O médico abriu um sorriso. – Você está grávida.

 

Eutanásia: s.f.: ato de proporcionar morte sem sofrimento a um doente atingido por afecção incurável que produz dores intoleráveis.

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