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Capítulo 57 – Vogelfrei

Capítulo 57 – Vogelfrei

 

– Eu descobri que meu pai usava esse apartamento de vez em quando, nunca sozinho. Quando soube que alguém estava aqui tive a curiosidade de saber quem era. – Theo disse.

– E saiu da Sibéria por conta de uma simples curiosidade? – Claire rebateu.

– Eu estou em San Paolo, temporariamente. Confesso que esperava outra pessoa aqui.

– Quem?

– Não vem ao caso. – Theo olhou ao redor, a sala era espaçosa e tinha alguns quadros raros pelas paredes.

– Achei que você fosse mais esperta, mesmo depois de tudo que aconteceu recentemente você não sabia que eu era a mulher do seu pai?

– A mulher do meu pai sempre foi minha mãe, pelo visto você era apenas uma das amantes dele.

– Vê o que sua arrogância faz com você? Ela te cega. Sua mãe era apenas um enfeite na vida dele, um sobrenome para conseguir vantagens políticas. Eu fui a mulher de Benjamin por sete anos.

Theo tentava fingir não estar surpresa, mas estava.

– Grande merda, ser amante daquele babaca que tratava as mulheres como lixo.

– Não me admira que ele tenha atendido meu pedido de se livrar de você, uma filha mal agradecida e traidora não merecia continuar viva usando o nome Archer. – Claire disse com tranquilidade enquanto soltava seu coque desgrenhado.

– O que você tem a ver com isso? – Theo falava com certo transtorno.

– Eu levei alguns meses o convencendo que a melhor forma de acabar com esse motim familiar era acabar com a raça de vocês duas. Fui eu que convidei Imogen a ir até o escritório, e soltei a trava da janela, para que Ben não tivesse que fazer muito além de encurralá-la contra a janela quebrada.

– Você não tinha esse direito, ela nunca fez nada contra você. – Theo respirava rápido, tentando controlar seu peito que subia e descia rapidamente.

– Ela estava levando informações da Archer para a célula azul, alimentando aquele bando de resistentes. E você foi pelo mesmo caminho, não é? Seguindo os passos da mãe, era questão de tempo até você entrar para a resistência com carteirinha e tudo.

– Então foi ideia sua me mandar para a Zona Morta?

– Minha sugestão era que Elias desse jeito em você ainda em San Paolo, mas seu pai atendeu o pedido do irmão, de matar e se livrar do corpo na Zona Morta. Foi assim que você acabou se tornando prostituta, mas não é culpa minha, foi traição de Elias.

Theo esfregou a testa e os olhos, já acalmando a respiração e o início de tremor nas mãos.

– Por que esse ódio de nós? Seu objetivo não era de ser a amante dele?

– Meu objetivo sempre foi de ter parte da Archer para mim, essa foi a promessa dele desde o início, que ele compensaria aquele… Tudo que passei. Ele prometeu que aos poucos eu receberia cotas de ações e me tornaria a segunda maior acionista. Benjamin também me disse que havia alterado o testamento depois da sua morte, e que eu herdaria tudo, um dia a Archer seria minha, ele prometeu. – Claire falava num misto de soberba e raiva.

– Você se tornou acionista, ganhou um por cento do grupo. Já com relação ao testamento, ele não mudou.

– Um por cento? Um por cento? Isso é o mesmo que o incompetente do Stefan conseguiu, um por cento é nada, eu merecia muito mais!

– Por abrir as pernas para meu pai? Outras também faziam isso.

– Você pode zombar, mas saiba que por sete anos Benjamin tomou centenas de decisões por minha influência, eu sabia como ninguém persuadi-lo a fazer as coisas do meu jeito, a fazer o que eu achava mais conveniente. E você? Ele nunca ligou para você, um poço de decepção para qualquer pai.

– Provavelmente você o convenceu que eu era um poço de decepção, não é? Por ciúmes.

– Ele criou você para que seguisse seus passos, se interessasse pelo grupo Archer, cursasse uma boa faculdade de administração. Você foi uma decepção completa, nunca se destacou num esporte nobre, não quis continuar os estudos de piano, não arranjou um namorado de bom sobrenome, e ainda por cima entrou para a resistência.

Theo nunca havia se dado conta destes sonhos de seu pai, mas que agora faziam sentido, tudo aquilo que Claire estava falando resumia muito bem as cobranças do pai durante toda sua vida.

– Eu tinha meus sonhos e minhas vontades, ele deveria ter respeitado isso.

– Agora é tarde para lamentações, não acha? – Claire esticou-se no sofá, bebeu o restante da taça e foi buscar mais.

Theo tinha dificuldade em ligar as informações, tentava unir o que descobrira agora com os acontecimentos previamente conhecidos.

– Então… Esse golpe foi uma vingança por eu não ter morrido?

– Não foi um golpe, eu só lutei para conseguir o que era meu por direito, a Archer era minha por direito. – Claire falava como quem acredita piamente no que diz.

– Deixa eu ver se entendi, na sua cabeça você estava sendo injustiçada, eu havia reaparecido e roubado a Archer de suas mãos. A culpa era toda minha por não ter permanecido morta, e não do meu pai que mentiu e iludiu você. É isso?

– Não se superestime, você foi apenas um empecilho na minha vida, um pequeno cisco que precisei remover para assumir a minha empresa.

– Daí você destruiu minha vida e a da Sam.

– Eu só tomei de você o que você nunca mereceu, os bens do seu pai. E a Samantha, bom, aquilo foi minha vingança pessoal com você, por me tratar como uma serviçal por todos esses anos.

– Como você consegue mascarar tanta maldade?  – Theo falava incrédula, incomodada. – Você pode ter condenado uma mulher inocente a passar quase cem anos na cadeia. Por capricho? Vingança pessoal?

– E o que você fez semana passada foi o que? Colocou seu rostinho na mídia para destruir a empresa que seu pai tanto estimava, que te deu sustento e luxo por toda sua vida. Foi por humildade? Senso de justiça? Ou foi para me derrubar? Não se finja de santa, na primeira oportunidade você devolveu na mesma moeda.

– Não me coloque no mesmo patamar que você, Claire. – Theo levantou-se do sofá a encarando raivosamente. – Eu nunca, nunca fiz nada contra você. Mas você iniciou a guerra, agora eu vou lutar até o fim, então prepare suas armas, porque eu não vou deixar barato o sofrimento que está nos causando.

Claire riu, largou a taça ao lado do sofá calmamente.

– Melhor comparar nossas armas antes de prosseguir, você pode ter prejudicado a Archer, mas ainda detenho alguns milhões que podem comprar mais desgraça para sua vida e para a vida da sua noivinha, você está facilitando as coisas para Mike.

– Você não tem muito o que destruir, porém eu tenho bastante estrago para fazer, minhas armas são outras.

– É mesmo? Essas muletas? – Claire debochou quando Theo tomou as muletas do sofá.

– Na verdade eu poderia acabar com sua raça agora. – Theo disse erguendo a blusa, mostrando a arma. – Mas quero ver sua cara no tribunal quando Sam for solta.

– Se eu fosse você ia tratando de arranjar outra namorada, quem sabe a senadora, sei que você é uma pessoa que gosta de companhias convenientes.

– Você vai engolir todas essas merdas, você e o parasita do Mike, vocês irão pagar por tudo isso, vou fazer você se arrepender de ter nascido.

– Não, Theodora, você que vai pagar por ter traído a Archer e colocado o nome da empresa no meio desse escândalo, levarei anos reconstruindo o que sua atitude inconsequente destruiu, mas terei muito prazer de assistir você cada vez na pior, e farei isso do alto da cadeira que um dia foi de seu pai, e que agora é minha. – Claire levantou-se. – Nunca pensei que seria tão divertido ver você pedindo esmolas para sobreviver, e ainda por cima privada da companhia daquela estúpida da Samantha.

Theo sentiu um ímpeto de tomar a arma em sua cintura e acabar de vez com a vida de Claire, mas seria assinar uma confissão de homicídio, dezenas de câmeras haviam registrado sua entrada ali, além do porteiro e alguns moradores.

– Não será hoje, mas um dia irei tirar esse sorriso do seu rosto para sempre. – Theo prometeu lançando as palavras com um ódio visceral.

Tomou a mochila do chão, colocou nas costas e abriu a porta. Antes de sair Claire apareceu e emparelhou-se.

– O que você fez com a empresa não ficará impune. – Claire rosnou. – Você acha que tirei tudo de você, ainda não, ainda posso tirar mais.

– Qual a sensação de ter sido iludida pelo Archer pai e agora estar sendo destruída pela Archer filha? – Theo deu um sorrisinho cínico e saiu pelo corredor, na direção do elevador. A porta bateu com força.

Desceu o elevador com as mãos apoiadas nos joelhos, estava uma pilha de nervos e a mente estava confusa, embaralhando tudo. Saiu do prédio e não fazia ideia de onde estava. Passava das duas da madrugada e a rua estava silenciosa, avistou apenas um homem andando rapidamente na calçada contrária, ela não sabia sequer para qual lado caminhar.

Tomou o comunicador e ligou para Stefan, que atendeu de prontidão.

– Stef?

– Onde você está? Michelle me disse que você viajou, estamos ligando para você há horas!

– Eu não vi, acho que silenciei. Stef, onde eu estou?

– Rio, você foi em algum apartamento em Copacabana, onde você está agora? No apartamento? Quem está aí?

– Copacabana. – Theo tirou o comunicador do ouvido e olhou ao redor, confusa.

– Theo? Theo?

– Estou na rua agora. – Voltou a falar. – Tem um pássaro me olhando.

– Está na rua sozinha, essa hora da madrugada? Que pássaro?

– Acho que vou dormir aqui, não será seguro viajar de volta para San Paolo agora.

– Dormir onde?

– Ãhn… – Olhava com atenção para todos os lados. – Algum hotel barato, tenho pouco dinheiro.

– Espere. Você vai fazer o que vou falar, está me escutando?

– Estou.

– Encontre algum estabelecimento nesta rua, um restaurante, uma loja 24 horas, qualquer coisa em que você possa entrar e ficar e…

– Ali, tem uma loja de conveniência ali na frente.

– Ótimo, entre lá.

Caminhou com suas muletas até a loja, e voltou a falar no comunicador.

– E o que eu faço agora?

– Vou pesquisar algum hotel nas suas cercanias que não seja caro, quando achar eu te ligo e você vai para lá.

– Aqui tem comida, acabei de me dar conta que além de estar morrendo de sono estou morrendo de fome também.

– Então coma algo aí.

– Vou pegar um biscoito.

– Ligo dentro de três minutos.

Theo foi até uma prateleira com biscoitos e tomou um em mãos, aproximou dos olhos os semicerrando. Levou o pacote até o caixa.

– Moça, quanto custa? Não enxergo as coisas miúdas.

– 7,98.

– Tudo isso? Ok, obrigada.

Foi até a prateleira e pegou três pacotes, levando ao caixa.

– Qual é o mais barato?

– Esse, 4,68.

– Vou levar esse.

Já comia os biscoitos quando Stefan ligou.

– Achei um albergue nesta rua, siga uns cem metros a sua direita e atravesse a rua.

– Estou indo.

Já no quarto individual, porém com banheiro coletivo, Theo deitou-se e recebeu a ligação do amigo.

– Comeu?

– Estou acabando o pacote agora. Stef, os biscoitos estão tão caros, não acha?

– O que você foi fazer no Rio?

– Virginia. – Theo se deu conta. – Virginia está aqui no Rio.

– Na verdade hoje ela está no interior do Rio, foi visitar a família. Você foi para o Rio para encontrá-la?

– Mais ou menos. – Theo largou o pacote vazio de biscoito na mesinha ao lado. – Eu vim até um dos apartamentos do meu pai, achei que encontraria Virginia lá, estava desconfiada que ela era amante do meu pai, mas encontrei Claire.

– Você encontrou Claire? Sozinha? Você ficou louca?

– Ela foi amante do meu pai por sete anos, Stefan. Ela foi o braço direito dele por todo esse tempo, foi tudo vingança, ela é uma desgraçada que destruiu nossas vidas, e a de minha mãe, ela tem culpa na morte dela.

– Ela poderia ter dado fim em você hoje.

– Para ser honesta não tenho esse medo já há algum tempo, mas estou com medo que eles façam algo com Sam.

– Sam está se cuidando, não se preocupe, ela continua com a proteção das mafiosas mesmo depois… Ela tem a proteção da máfia russa, isso é bom. – Stefan quase entregou Samantha.

– Mesmo depois do que?

– Mesmo depois de ter se metido em confusão com elas, logo que chegou na prisão. Agora elas a protegem.

– Ela nunca mencionou isso, por que a máfia a protege?

– Sei lá, ela deve ter feito amizade com elas, o importante é que a Bratva tem um grupo grande lá dentro. E saiba que Virginia ficará chateada por você ter desconfiado dela, se ela tivesse sido amante do Benjamin eu saberia, e ela teria contado.

– Então não conta para ela, ok? Diga que eu não fazia ideia de quem estaria nesse apartamento.

– Não contarei. Quando você volta? Sam está com saudades.

– Você ficou um cara mais humano depois que começou a namorar com Virginia, sabia?

– Theo, eu agora entendi quando você disse que havia um pássaro, tinha um drone do governo na rua quando você saiu do prédio?

– Tinha, e quando entrei aqui no albergue eram dois drones me observando.

– Você não deveria estar andando sozinha por aí. Você lançou uma bomba no governo Hover, e ele está prestes a perder o mandato, ele deve ter colocado toda a polícia vigilante alerta para encontrar você.

– Para fazer o que? Se ele me matar agora vai ficar óbvio que foi a mando dele.

– Ele pode querer tirar você de cena, para abafar o caso.

– O que devo fazer então?

– Volte logo para a Sibéria, pare de andar por aí.

– Voltarei essa semana.

– Tem gente demais te odiando no momento, não se descuide, nem perca seu foco.

– Está tudo bem, Stef, prometo chegar viva aí. Eu vou lá fora no banheiro e depois vou dormir.

– Banheiro coletivo?

– Sim, tenho anos de experiência com isso, não se preocupe.

Para chegar ao banheiro do albergue Theo precisava atravessar uma área aberta acimentada, rodeada de paredes verdes. Viu um drone no alto, parado no céu, o observou e tropeçou nas próprias muletas, caindo em cima de alguém.

– Nossa! Desculpe! – Theo tentava se reerguer, uma garota de cabelos verdes a ajudava.

– Tudo bem. Você se machucou?

– Ãhn… Não. – Apalpou-se rapidamente.

– Eu conheço você. – A menina com uma regata branca rasgada a fitou com as sobrancelhas baixadas.

– Acho que não, você deve estar me confundindo com alguém famoso. Você está na fila do banheiro?

– Sim, tem um casal trancado aí dentro há séculos.

– Isso está pior que balada… – Theo bufou, ainda se equilibrando nas muletas.

– Tábata, prazer. – Esticou a mão.

– Prazer, Theo.

– Ah eu sabia, Theo Archer, claro que é você!

– Que mancada… – Theo se dava conta do vacilo. – Não espalhe isso, ok?

– Estou indo para uma festa numa prainha aqui perto, vamos?

– Agora?

– Sim, te dou carona, minha moto está aqui atrás, vai rolar coquetéis de graça, a noite está só começando. – A garota de cabelo verde dizia com empolgação e cheia de energia.

– Obrigada, mas não posso.

– Eu ajudo você com as muletas.

Por mais improvável que fosse a situação, Theo ficou balançada com o convite. Fazia tanto tempo que não se divertia como as pessoas da sua idade, tanto tempo que não topava um convite de última hora, uma festa, uma balada, um bar, pessoas festejando e socializando sem reservas. Lazer e vida normal eram palavras se apagando em sua memória.

– Eu realmente não posso, preciso voltar para San Paolo amanhã cedo.

– Que pena… Ficamos na areia até o sol nascer, é maravilhoso, você curtiria com a gente.

– Quem sabe um dia eu retorne ao Rio para me divertir.

– Bom, eu ia dizer que te procuraria nas redes sociais, mas acho que você não está por lá, né? Depois dessa exposição toda que você tem passado…

– Estou longe das redes há muito tempo. Na verdade longe das pessoas, de forma geral. – Sorriu de lado.

– Como você faz novas amizades?

– No momento só estou preocupada em me manter afastada das inimizades.

A porta se abriu e o casal saiu afoitamente, ajeitando suas roupas.

– Pode ir primeiro. – Tábata disse, dando passagem para Theo.

Quando Theo saiu do banheiro, foi abordada pela colega de albergue, que a empurrou para dentro do banheiro de volta, e trancou a porta.

– O que foi?? – Theo perguntou assustada.

– Tem dois caras aqui fora, eu vi que eles tem armas por baixo da camisa, e falaram seu nome. – Tábata sussurrou.

– Quem são?

– Como vou saber? Pareciam uns cães de aluguel.

– Estou ferrada, estão atrás de mim. – Theo falava com pânico.

– Você precisa sair do albergue.

– Não tenho para onde ir.

– Venha comigo.

– Minhas coisas estão no meu quarto.

– Se você voltar para seu quarto agora será por sua conta e risco, você que sabe.

E se fosse tudo mentira? Seria prudente não acreditar em nada disso e voltar ao quarto? Theo a fitava com a testa suada e tensa.

– Como vamos sair daqui? – Theo perguntou.

– Pelos fundos do banheiro, venha comigo, consegue andar sem as muletas?

– Posso ficar com pelo menos uma?

Pularam por uma janela de meia altura caindo num canteiro de grama amarelada. Transpassaram uma cerca viva e depois um muro, encontrando uma moto velha azul e vermelha na calçada.

– Suba, segure firme em mim. – Tábata ordenou entregando um capacete.

Vinte minutos depois a moto entrou numa trilha de areia cercada de vegetação, algumas centenas de metros depois destamparam numa praia, com pedras de ambos os lados. Havia um fogueira iluminando a noite e por volta de trinta pessoas com roupas coloridas bebendo todo tipo de líquido alcóolico. Um carro vermelho com o porta malas aberto emitia uma música dançante que misturava eletrônico com tropical.

Theo tirou o capacete e desceu da moto, sua colega saudava festivamente seus colegas, acenando para eles.

– Tábata, você inventou tudo isso para me trazer nesta festa?

– Você anda assistindo novela demais. Venha vou te apresentar ao pessoal. – A tomou pela mão, andando pela areia da praia. O mar ali era calmo e algumas nuvens cobriam a lua minguante.

Após conhecer boa parte dos jovens presentes, Theo sentou ao lado da nova colega, em cima de uma manta colorida.

– Bebe o que?

– Não posso beber.

– Nem um coquetel bem fraco?

Theo hesitou, olhou ao redor e todas as pessoas se divertindo de forma tão leve.

– Eu aceito um coquetel bem fraco. – Respondeu com um sorrisinho tímido.

Sentia-se um tanto culpada por estar numa festa à beira da praia naquela madrugada agradável no Rio, mas também sentia uma liberdade morna e bem-vinda.

– Acho que vou chamar um táxi para voltar ao albergue. – Theo disse para sua colega, horas depois. – Quem for que esteja me procurando, já deve ter ido embora.

– Eu levo você daqui a pouco.

– Tábata, eu nem deveria estar aqui.

– Por que? Seus pais não te deixam sair?

– Meus pais estão mortos, mas eu tenho um bocado de coisas para fazer, não posso me dar ao luxo de passar a noite bebendo num luau.

– Assim que o sol nascer eu te levo para o albergue, eu estou hospedada lá também, lembra?

– Onde você mora?

– Eu sou do mundo. – A garota abriu um grande sorriso. – Mas amo o Rio. Já conhecia?

– Sim, na verdade a última vez que estive no Rio não me traz boas lembranças…

Os primeiros raios de sol surgiam no horizonte, animando o pessoal que estava sentado conversando entre si com a música num volume baixo. Aquela luz pareceu ter dado um novo gás aos jovens, que levantavam e seguiam para o mar.

– Vamos entrar?

– No mar? Não, não vou. – Theo recusou o convite de Tábata, que já estava de pé.

– Eu te ajudo, venha, vai ser uma delícia!

 

Vogelfrei: adj. [alemão]: livre como um pássaro.

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