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Capítulo 51 – Prevaricar

Capítulo 51 – Prevaricar

 

Theo seguiu o conselho de Virginia e assim que chegou no apartamento levou Stefan para seu quarto e o fez sentar-se na cama, queria conversar a sós com seu advogado sobre os boatos da traição de Sam.

– Você sabia desses boatos sobre a namorada da Samantha?

– Sim, Virginia viu hoje cedo e me mostrou.

– De onde surgiram?

– Não encontramos a fonte.

– Foi a rede WCK, do pai de Janet?

– Não, está em lugares, digamos, menos nobres.

– Sam mencionou algo para você? – Theo o sabatinava.

– Não, não comentou nada.

Theo andava com impaciência pelo quarto com sua muleta. Parou à sua frente e o indagou séria.

– Você acha que é verdade?

Stefan pensou por um tempo antes de responder.

– Você quer minha opinião pessoal?

– Sim.

– Eu acho que é mentira. Está me parecendo alguém querendo se promover ou ganhar dinheiro com o seu nome. Esse escândalo dos vídeos colocou seu nome em voga novamente, acho que alguns espertalhões resolveram criar esse boato e acabou dando certo.

– Você acha que eu deveria ir até a imprensa desmentir?

– Não, deixe o boato morrer por si só.

– Eu preciso perguntar isso a ela.

– Acho que se fosse verdade ela já teria contado. – Stefan disse.

– E se estiver com medo? Ela pode estar com medo da minha reação. Você acha que eu deveria perguntar?

– Não, não pergunte. Eu vou perguntar sem você, quando estiver a sós com ela na próxima segunda-feira.

– Mas fale dos boatos.

– Sim, vou tocar nesse assunto falando dos boatos. – Stefan levantou-se. – Escute, aí fora está cheio de pessoas querendo seu mal, torcendo para que mais escândalos surjam, você precisa ser mais forte diante disso, se a cada boato você ficar nervosa desse jeito não irá sobreviver até o julgamento em abril.

– Eu estou bem, eu só… Fui pega de surpresa por aqueles caras.

Stefan pousou a mão em seu ombro e a encarou.

– Foco.

Um convulsão a pegou de surpresa assim que se preparava para dormir.

***

No dia seguinte Theo acordou com uma dormência no lado esquerdo, o mais afetado pelas sequelas. Aquilo se estendeu por todo o dia, deixando Meg preocupada.

– Esse estresse todo está acabando com sua saúde, Theo. – Meg lhe dizia a noitinha, enquanto a ajudava a fazer uma série de alongamentos no chão da suíte.

– Os problemas estão aí, como posso não me estressar? – Disse com semblante de dor com o movimento que Meg fez com sua perna, a empurrando contra o corpo.

– Você precisa encontrar distrações, não pode passar dia e noite debruçada sobre a defesa de Sam e os problemas.

– Vou procurar uma quadra para jogar basquete. Ai, a perna está dormente mas ainda dói, viu?

– Estou falando sério, procure algum hobbie, ou passe algum tempo conversando com o Dimitri todos os dias. Você tem se exercitado comigo, tem tomado os remédios certos nas horas certas, e mesmo assim está ruim.

– Eu melhorei em várias outras coisas depois que você chegou, Meg. Basicamente o que está me derrubando são as dores de cabeça e tonturas. No geral me sinto muito melhor, tenho mais energia e disposição.

– Seu equilíbrio e força nos membros inferiores estão ruins.

– Talvez seja o curso natural das coisas, você acha que eu esperava ter uma vida normal depois daquilo tudo? Minha cabeça remendada não vai funcionar bem nunca mais.

– Você tem se saído muito bem nesses meses de recuperação.

– Meg, você não faz ideia da bagunça que é aqui dentro. Às vezes não consigo sequer saber quem eu sou.

– Só não desanime, ok?

– Não, isso está fora de cogitação, é uma vida precária mas ainda é uma vida, só desanimarei quando apagar e não voltar mais.

– Deite, vou empurrar suas pernas juntas.

– Sabe o que me dei conta agora? – Theo disse deitando sobre o tapete do quarto.

– O que?

– Hoje é 13 de fevereiro.

– Algum dia especial?

– Faz um ano que atirei na minha cabeça.

– Hoje?

– É, bom, foi na virada do dia 12 para o dia 13.

– Quer um bolo com velinhas?

– Uma velinha apenas.

***

– Venha comigo. – Svetlana puxou Sam pela mão e a levou até um corredor deserto no final da tarde.

– O que foi?

Entraram pelos fundos da cozinha da prisão, uma área de fornos e tubulações de gás, estava vazia e apenas com a luz que vinha de longe.

– Foram essas duas nazis? – Svetlana perguntou para Sam.

Haviam duas garotas de cabeças raspadas amedrontadas e com os braços amarrados nas tubulações acima de suas cabeças. Irina e uma outra mulher também estavam ali.

– Você é a única testemunha ocular, preciso que confirme a identidade das vadias que bateram em vocês. – Irina disse rispidamente, estava de braços cruzados.

Sam corria seu olhar assustado de Irina para as duas garotas que se debatiam nos tubos.

– Não sabíamos que era uma de vocês! – Uma das garotas disse.

– Shhhh, se continuar gritando vou calar sua boca fazendo você comer seus próprios dentes. – Irina a ameaçou com dedo em riste.

– Foram essas, Sam? – Svet insistiu.

– Sim, foram essas duas.

– Eu sabia, essas vadias vão pagar caro por isso. – Svetlana disse com raiva e esmurrou o rosto de uma delas.

– Vá com calma, pequena. – Irina a advertiu.

– Me deixe acabar com a raça delas, por favor. – Svetlana deixava toda sua impulsividade aflorar, e esmurrou agora a outra garota, lhe arrancando sangue.

– Porra! Nós não sabíamos de nada! Essa garota aí só anda com as deformadas, achamos que era uma dessas sapatas podres que a gente bate até virar gente. – Rosie, a maior das duas garotas se manifestou.

– Se soubéssemos que era protegida sua nem teríamos passado perto, Irina, nós respeitamos o acordo, sempre respeitamos, não é Rosie? Nós nunca mexemos com nenhuma de vocês.

– Primeiro vocês batem e depois perguntam quem é? Eu vou surrar vocês e depois dizer que foi por engano!

– Svet, venha aqui um instante. – Irina disse, Sam não sabia o que fazer naquela situação e apenas suava as mãos.

As duas se afastaram alguns metros e conversaram baixinho.

– Essas nazis desgraçadas têm razão, não tem como todo mundo saber que essa garota é protegida nossa, ela nunca anda com a gente ou com você, nem senta no refeitório perto de nós. Tudo bem que ela não queira fazer parte da nossa gangue, mas você precisa colocar rédeas nela, onde está aquela fúria e imponência que você herdou do seu pai, Slavos? – Irina dizia com as mãos nos ombros da garota.

– Mas Sam me obedece, ela faz tudo que mando. Eu mando naquela cela, Irina, eu faço o que bem entendo com aquela garota, na hora que quero.

– Pois não é o que está parecendo para os outros. Ela passa o dia inteiro longe da cela e longe de você, com as deformadas e as gringas.

– Às vezes ela toma o café comigo.

Irina suspirou impaciente.

– Querida, coloque essa garota nos trilhos, ela não é sua namoradinha de infância, ela é sua escrava. Dê um jeito nela antes que eu tome alguma atitude, se eu não ver vocês circulando juntas por aqui eu mesma colocarei um cabresto nela, e não será nada agradável.

– Tudo bem, Irina.

– Não podemos surrar essas duas nazis, isso quebraria o acordo.

– Mas elas bateram numa nossa!

– Shhh. Sem saber quem era. Nós sabemos quem elas são, se quebrarmos essas vadias essa prisão vai virar uma guerra novamente.

– Então elas sairão impunes?

– Volte lá e dê mais um chute em cada, e pronto, leve sua garota para cela e tenha uma conversa séria com ela.

A jovem fez o ordenado, com uns tapas adicionais. Já na cela, impediu que Sam subisse para sua cama.

– Não, sente aqui na minha cama. – Svet ordenou.

– Está tudo resolvido, então?

– Sim, aquilo já está resolvido. Mas agora vamos nos resolver.

– Sobre o que? – Sam não fazia ideia do que acontecia.

– Eu te avisei várias vezes, você tem que andar comigo, você tem que colar na gente, sentar com o grupo no refeitório, eu te pedi quinhentas vezes, Samantha. – Svetlana dizia com agitação, de pé a sua frente.

– Mas eu tomo café com você.

– Olha só, a partir de hoje você não tem mais o direito de dizer não para mim, está entendendo? Se eu mandar você passar o dia lustrando minhas botas no refeitório você vai se abaixar e vai lustrar minhas botas, eu mando nessa merda aqui!

– Por que você está falando assim comigo?

– Porque sim, porque eu posso, você é minha escrava, e você anda esquecendo isso, cheia de não aqui, não ali.

– Você prefere ter uma relação legal comigo com algumas restrições, ou conseguir tudo que você quer na base da força e do grito?

Svetlana moveu a boca algumas vezes sem saber o que responder, confusa.

– Ah, Sam, não complique as coisas.

– Você quer que eu passe mais tempo com você lá fora? Tudo bem, eu ficarei mais com você, sua companhia é agradável, achei que isso não fazia muito diferença.

– Faz diferença, se você é minha garota tem que estar do meu lado. Se as coisas não mudarem Irina vai te entregar para as nazis, e você sabe que existe uma ordem do Coronel Phillips aqui para que não impeçam que te matem.

– Eu sei, problema resolvido.

– Não, espera, você me proíbe de uma monte de coisas, isso não está certo, como fica minha moral aqui dentro?

– Por exemplo o que?

– Você não deixa eu te comer, por que?

– Porque não quero, só isso.

– Mas tá errado!

– Eu nunca digo não quando você quer sexo, só digo não quando você tenta fazer algo em mim.

– Se você fosse uma vadia num puteiro ia dizer não para o cliente quando ele quisesse te comer? Você ia levar uma porrada.

Sam mudou para feições sérias.

– Não é o caso aqui. – Respondeu sisudamente.

– E se eu for legal com você? Fazer todas as preliminares, te deixar à vontade, te deixar cheia de tesão? Você permite?

– Svet, você entende que nunca teremos um relacionamento íntimo porque minha cabeça estará sempre pensando em outra pessoa?

– Então pensa nela!

Sam baixou a cabeça, ela sabia que estava no meio de uma negociação e que estava lidando não apenas aquela pequena garota cheia de libido, estava lidando com a máfia russa.

– A gente tenta, está bem? – Sam não queria soar como se fazendo um negócio, mas para ela aquilo tudo não passava de um jogo de sobrevivência, que deixava como efeito colateral uma tonelada de culpa e angústia.

Svet sorriu e estendeu a mão para ela.

– Venha, vamos jantar.

***

Ao chegar no corredor da prisão onde seguiam o mesmo ritual aos domingos, Stefan e Theo foram barrados pela guarda, que alegava já ter uma visita com Samantha, para revolta da jovem.

– Mike ressurgiu, talvez até mesmo Claire esteja lá dentro com ela. – Theo bufou sentada ao lado do advogado num banco metálico no corredor. Virginia estava num outro pavilhão os aguardando.

– Ele não seria tão burro em trazer Claire, ele quer reconquistar a ex-noiva.

– Esse homem é um castigo na minha vida. – Disse tirando as luvas. – Não a vejo há duas semanas, viajo 700 quilômetros para finalmente ficar um pouquinho com ela, e me aparece esse encosto para roubar metade do tempo.

Meia hora depois Theo continuava frustrada, de braços cruzados fitando o chão. Uma voz a sua frente a despertou.

– Oi, Theo, quanto tempo. – Lindsay disse timidamente.

– Era você com Sam?

– Sim, finalmente consegui uma folga para visitá-la.

Theo ergueu-se do banco, recebendo um abraço rápido da cunhada.

– Ela vive perguntando de vocês, que bom que você pode vir.

– Estou com dois empregos, e sabe como é, as crianças, meu pai, nunca sobra tempo para nada. Mas me diga, como está a defesa dela?

– Lindsay, se importa de aguardar aqui enquanto eu converso com sua irmã? Só tenho vinte minutos.

– Ok, estarei aqui fora.

Theo entrou afoitamente fazendo ruído com sua muleta, sentando-se na já costumeira cadeira em frente.

– Eu não sabia que ela vinha. – Sam explicou, tratando logo de tomar a mão de Theo.

– Eu sei, deixa pra lá, estou com tanta saudade de você, amor. Eu não aguento mais isso de ter somente alguns minutos seus por semana, e ainda por cima nos tirarem esse tempo. – Theo desabafava.

– Tudo vai se ajeitar, vai ficar tudo bem em breve.

– Você está bem? O que aconteceu?

– Podemos não falar sobre isso hoje? Só temos alguns minutos.

– Claro, mas você está bem? Fizeram algo?

– Eu estou bem, não fizeram nada, foi frio e desconfortável, talvez precise de um transplante de coluna, mas estou bem agora, não se preocupe comigo, ok?

Tá bom. – Theo mudou de assunto, como solicitado. – Sua irmãzinha veio te ver, matou um pouco da saudade? – Disse sorridente.

– Sim, de quebra matei a saudade de todos os problemas de Kent. – Riu.

– Estão todos bem?

– Sim, são os mesmos problemas de sempre.

– Podemos dar um pulo em Kent depois que você sair daqui. Assim, não logo que você sair, mas um tempo depois, sabe? Para você manter-se perto de suas raízes e família.

Sam a fitou com as sobrancelhas baixadas.

– O que foi? – Theo perguntou sem entender.

– A casa, a nossa casa.

– Não temos casa, querida.

– Não, eu me refiro a casa que eu e Mike estávamos construindo. Metade dela é minha, mas ela está em nome da minha mãe, porque éramos menor de idade na época.

– E por que você está falando sobre essa casa agora?

– Para vendê-la. – Stefan respondeu por ela.

– Mas metade é daquele safado.

– Não importa, está no nome da minha mãe, você precisa falar com ela, pedir uma procuração para que vocês possam vendê-la.

Theo lançou um olhar cheio de dúvidas para Stefan ao seu lado, esperando seu parecer.

– É possível. – Decretou.

– Eu vou ligar para ela amanhã. – Theo disse.

– Você tem a ID dela?

– Não, mas ligo do seu comunicador.

– Tem fuçado meu comunicador? – Sam perguntou bem humorada.

– Já mexi em tudo. Inclusive tem umas conversas lá que você vai ter que me explicar depois.

– Que conversas? – Sam perguntou intrigada.

Theo riu.

– Estou brincando, não fucei quase nada. Mas sua reação agora foi interessante, já sabe o que vou fazer quando chegar em casa, né?

– Fique à vontade, não tem nada comprometedor lá.

– E onde estão as coisas comprometedoras? Em algum aplicativo oculto?

– Sim, está tudo oculto aí no seu cérebro.

– Que grossa. – Theo disse se divertindo.

– Eu sei que você se apaixonou primeiramente pela minha grosseria, quero manter a chama acesa.

– Pois pode enfiar a chama…

– Hey, olhe os modos. – Stefan interrompeu.

A sirene final fez o riso das duas esmaecer, as trazendo de volta para a fria realidade.

– A gente continua essa conversa depois. – Sam disse, se despedindo.

– De preferência entre quatro paredes.

– Qualquer lugar que não tenha um Stef dentro. – Sam brincou.

Theo não comentou sobre sua piora de saúde, Sam não comentou sobre Svetlana.

Encontraram Lindsay sentada numa das cadeiras da recepção do presídio, falava com alguém no comunicador. Despediu-se e levantou ao ver Theo, Stefan e Virginia se aproximando.

– Você vai passar uns tempos por aqui? – Theo perguntou para a cunhada.

– Não posso, volto amanhã para casa, Gerard está com uma virose, meu pai tem consulta no médico terça.

– Como está seu pai?

– Está bem, tem melhorado dos problemas de saúde.

– Está fazendo bom proveito com o dinheiro da pousada de Sam então.

– Que pousada?

– Eu dei uma pousada quatro estrelas para Sam de aniversário, foi repassada ao seu pai automaticamente quando ela foi presa. Ninguém entrou em contato com vocês?

Lindsay corria os olhos pelo chão, com a testa franzida.

– Inclusive os lucros? – Ela perguntou.

– Sim, principalmente os lucros.

– Então foi por isso que ele comprou um novo carro. – Ela se dava conta. – E voltou a apostar nas corridas de cavalo.

– Realmente ele está fazendo um bom uso do dinheiro da filha. – Theo zombou, também surpresa. – E não atende nossas ligações.

– Eu não sabia disso, não sabia mesmo.

– Esse dinheiro não é dele, diga ao seu pai para dividir com vocês, senão Sam saberá o que ele tem feito com o dinheiro dela.

***

A visita com os advogados durava uma hora e acontecia numa sala individual. Sam permanecia o tempo todo numa cadeira com mãos e pés algemados.

Stefan revisou suas anotações e finalizou a conversa sobre sua defesa.

– Bom, agora que terminamos as pendências, tem uma coisa que preciso falar com você. – Stefan disse.

– Sobre o que?

– Que confusão foi esse que você se meteu? Essa que te colocou na solitária.

– Não foi culpa minha, eu estava conduzindo a garota cega até o banheiro, a levando pela mão, e duas nazistas acharam que éramos namoradas. Bateram em nós e os guardas me levaram para a solitária, liberando as outras. Deve ser alguma ordem do maldito Coronel Phillips para me enfiar naquela cela por qualquer motivo.

Stefan entreolhou Virginia.

– Então foi isso, acharam que você tinha uma namorada, e bateram em você?

– Sim, mas Nira não enxerga, eu apenas a ajudava a chegar ao banheiro.

– Isso explica muita coisa.

– Como assim?

– Essa semana surgiram boatos que foram largamente difundidos, não sabemos de onde veio esse boato.

– Que boato?

– De que você tem uma namorada aqui na prisão, uma garota da máfia russa. Mas então está explicado, foi essa confusão que levou ao boato equivocado, só não sabemos quem vazou o boato, talvez algum guarda que abordou vocês.

Sam apenas o fitava atônica e com os olhos já brilhantes.

– É um boato falso, certo? – Stefan perguntou.

Sam não respondeu, parecia cada vez mais em pânico.

– Sam? – Stefan se deu conta. – Ah não… Não me diga que…

– Eu fui obrigada, eu juro que fui obrigada, estou fazendo isso para salvar minha vida aqui dentro. – Sam dizia já as lágrimas.

– Você tem uma namorada na prisão? Namorada de verdade? – Virginia perguntou incrédula.

– Uma das garotas da gangue da máfia me escolheu como namorada, eu tentei evitar, eu não queria isso… Eu não quero, eu não quero nada disso, eu não quero ter uma namorada aqui, mas elas me bateram, e me bateram, e me bateram de novo, e me jogariam para as nazistas me matarem, eu… Vocês precisam acreditar em mim. – Sam terminou de falar cabisbaixa, enxugando o rosto.

– Então talvez os boatos se confirmem em breve. – Stefan disse.

– Eu vou contar a Theo na próxima visita, eu contarei tudo. – Sam disse em desespero.

Stefan estava prestas a falar algo, mas Virginia o impediu gentilmente, segurando firme em sua mão sobre a mesa.

– Sam, melhor não contar. – Virginia disse com calma.

– Ela precisa saber por mim, e não pela imprensa.

– Vamos desmentir os boatos. Você está numa prisão militar, dificilmente arranjarão provas cabais sobre esse relacionamento. Tente manter esse namoro o mais discreto possível, não é o momento para levar isso para Theo. – Stefan disse.

– Ela vai terminar comigo… – Sam chorava novamente.

– Conte quando sair daqui, vamos evitar levar mais problemas para Theo no momento.

– Por que? Aconteceu algo com ela?

– Não, não aconteceu não. – Stefan disse embaralhado. – Vocês duas me deixam maluco, sabia? Eu não sei onde estava com a cabeça quando resolvi ajudar vocês.

– Virginia, Theo está bem? – Sam perguntou.

– Está sim, só está cansada.

– Ela tem seguido as ordens de Meg?

– Ela sempre obedece Meg. – Virginia ia dizendo. – Meg tem sido seu anjo da guarda, além de ser uma pessoa de alto astral que está sempre a colocando para cima.

– Preciso engolir meu orgulho e assumir que Michelle fez algo bom por Theo, trazendo Meg e a mantendo aqui. – Sam resmungou.

– Baixe a guarda com Michelle, ela tem sido uma boa amiga.

– Só não vetem meu direito de sentir ciúmes, ok? Já é um tanto desesperador saber que talvez eu passe as próximas décadas trancada aqui, longe de Theo, impossibilitada de ter um relacionamento com ela.

– Existe também a possibilidade de pegar a pena mínima, o juiz do seu julgamento tem o histórico de condenar quase todos os réus que passam por ele, porém ele costuma não acatar a pena máxima.

– E qual seria a pena mínima?

Stefan olhou para o alto calculando mentalmente.

– 44 anos e 8 meses.

– Isso também não é nada animador. – Sam disse com tristeza.

– Caso ele te absolva do crime de guerra, os outros dois crimes tem a pena muito pequena, você sairia logo daqui. – Virginia tentava animar. – E é justamente na defesa desse crime do genocídio que estamos nos focando, se você se livrar deste, já será uma grande vitória.

– Ela tem razão, na pior das hipóteses você cumpriria apenas cinco anos aqui, na pena máxima.

– Você teria coragem de pedir para alguém te esperar por cinco anos? – Sam disse.

– Você não pediria? – Virginia indagou.

– Não, eu deixaria Theo livre para tocar sua vida, seria muito egoísmo da minha parte se eu pedisse.

– Ok, são apenas especulações, estamos montando defesa para todos os crimes, nosso único objetivo é sua total absolvição, vamos manter nossas mentes otimistas. – Stefan encerrou.

– Não posso ficar aqui dentro, por favor me ajudem, não me deixem aqui. Isso não é uma vida de verdade, eu quero ter minha rotina de volta, quero poder ir e vir para onde quiser, quero trabalhar, estudar, viajar, entrar no mar, casar, quero aumentar minha família, eu não posso passar anos e anos aqui, eu vou enlouquecer trancafiada nesse bloco de concreto, eu quero ser uma pessoa livre. – Sam dizia com angústia aumentada.

– Estamos dando nosso melhor, Samantha, todos nós.

– Semana que vem irei até a Zona Morta coletar informações sobre os casos semelhantes ao seu, onde o juiz deu parecer favorável aos réus, isso será o ponto alto da nossa defesa, vamos provar que crime de guerra só se estabelece quando existe a intenção, e você não prevaricou seus deveres.

 

Prevaricar: v.t.d.: faltar ao cumprimento do dever por interesse ou má-fé. Cometer abuso de poder, provocando injustiças ou causando prejuízo ao Estado ou a outrem.

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