Capítulo 34 – Nitidez

Capítulo 34 – Nitidez

 

Foi uma caminhada longa, o atravessar da sala sobre muletas sugou o resto de sua energia, parou em frente à bela moça que ainda reconhecia, explorava a inédita imagem, pouco a pouco.

– Boas lembranças? – Sam perguntou.

Theo balançou a cabeça positivamente.

– Várias, principalmente no piano. Mas ainda não consigo acreditar que essa menina de sorriso simpático à minha frente dividiu o banco do piano, e tocou comigo.

– Foi outra pessoa, uma dublê de pianista. – Sam entrou na brincadeira, apesar de estar uma pilha de nervos com níveis altíssimos de insegurança.

– Mas foi você, sempre foi você. – Theo precisaria de dias e dias para se dar conta de tudo.

– Inacreditável?

– Ainda inacreditável.

O sorriso de Theo era enigmático demais para qualquer percepção acertada.

– Vai se acostumar um dia? – Sam tentou.

– Talvez com mais onze meses.

Sam balançou a cabeça em aceitação. – Ok.

Esperou Theo falar mais alguma coisa, mas os olhos azuis apenas a fitavam com curiosidade.

– Quer dar uma volta pela casa? Matar a saudade dos outros ambientes? – Sam convidou.

– Minhas baterias estão no fim, depois faço uma tour completa, agora não dá.

– Então sobe comigo, coloco você na cama.

– Eu vou, mas preciso fazer algo antes de subir.

– Quer dar um oi para o pessoal na cozinha?

– Não, quero testar uma coisa.

Theo a trouxe pela nuca, a encarou com proximidade, desceu o olhar para seus lábios, e a beijou. Sam tivera finalmente seu primeiro beijo quase roubado, com surpresa no início, com todo amor em seu coração em seguida.

Irremediavelmente a verdade era única: para Theo o beijo foi diferente, sensações aditivas ao já grande torpor de tê-la docemente entregue em seus braços, foi mais do que diferente, foi nítido.

Quando o beijo morreu naturalmente em seus lábios, Theo abriu os olhos, e pela segunda vez naquele dia, se dava conta que enxergava. Enxergou de muito próximo o rosto pouco familiar da namorada, sorriu com aparente timidez, desviando o olhar.

– Em todo esse tempo ao seu lado, eu nunca vi você tão tímida. – Sam brincou, em voz baixa.

– É que você está me vendo.

– Achei que a novidade fosse justamente o inverso.

– Agora eu sei que você está me vendo.

– Como sempre te olhei, com um carinho imensurável. – Sam a prendeu pela cintura. – Posso perguntar uma coisa?

– Pode. – Theo voltou a encará-la.

– Tirando essa recém adquirida timidez, está tudo bem? Me refiro a… Sabe… Eu e você.

Theo sorriu timidamente de novo.

– Era mais fácil falar dessas coisas quando eu não enxergava.

– Que coisas?

Theo a abraçou, colando seu rosto em seu pescoço, ali mais um sentido ajudava a crer em seus olhos, sentia o cheiro dela.

– Você é tão… Você é linda, Sam. Eu não consigo acreditar no que meus olhos estão finalmente enxergando, eu queria poder ter visto você desde o primeiro dia.

– Tem certeza que sua visão está boa? – As palavras saíram com eloquente alegria.

A esta altura os olhos celestes já estavam molhados novamente, mantinha seus lábios próximos ao ouvido de Sam, como se fazendo grandes confissões.

– É possível se apaixonar duas vezes pela mesma pessoa?

Sam riu, corria devagar as mãos por suas costas, por baixo das blusas.

– Duas, três, quatro… Já me apaixonei por você dezenas de vezes. – Respondeu.

– Como? – Theo ergueu a cabeça, Sam enxugou seu rosto com seus polegares.

– Chorando de novo, manteiga derretida?

– Não roube o apelido. Me responda, como pode você se apaixonar por mim?

A autoestima de Theo ainda estava drasticamente dilacerada desde o Circus, jogada ao solo no decorrer dos dois anos de submissão.

– Como eu posso não me apaixonar por você, Theodora?

Theo apenas abriu um sorriso.

– Gostou de me ouvir falando seu nome, não foi? – Sam zombou.

– Gostei. Foi diferente, está tudo diferente, seu beijo também foi diferente.

– E como foi?

– Foi… Colorido.

Sam a beijou arteiramente.

– Cada beijo um arco-íris. – Sam murmurou.

– E um pouco de taquicardia.

– Você vai sobreviver.

– Quero passar meses olhando para você, eu agora já sei como foi sua carinha quando me roubou aquele beijo na igreja, eu vi agora. Eu quero unir minhas memórias com sua imagem, será divertido.

– E criando novas memórias.

– As melhores memórias possíveis. – O sorriso se evadiu do rosto de Theo. – Sam?

– O que foi? – Sam percebeu que algo não ia bem.

– Acabou a energia. – As muletas escorregaram no chão e caíram, Sam a segurou firme pela cintura.

– Segure no meu pescoço, vou te colocar na cadeira.

A prendia firme com um braço, puxou a cadeira para perto e a sentou.

– Vamos subir, agora você vai ficar quietinha na cama, chega de emoções por hoje. – Sam dizia enquanto a colocava no elevador.

– Beijo está classificado como forte emoção? – Theo resmungou baixinho.

– Por enquanto sim. Eu vou te… Theo?

Theo apagou, pendendo para frente, Sam a trouxe de volta para o encosto, segurou em seu ombro até chegarem na cama, onde a deitou, desfalecida. Tomou duas ventosas de dentro da gaveta ao lado, colando uma em cada lado do seu peito, por dentro das blusas. Tocou uma tela embutida na parede acima da cabeceira da cama, e inúmeras informações fisiológicas apareceram em tempo real. Afora os batimentos um tanto acelerados, tudo parecia bem com a eterna paciente.

Mais alguns toques e as orientações do médico e o receituário foram exibidos na tela, por sorte os novos remédios não eram novos, tinham em estoque ali. Introduziu um acesso em seu braço, por onde ministrou parte da medicação. Meses atrás quase entrou em pânico quando Theo pediu que ela lhe aplicasse 1ml de hidrometa no braço, agora introduzia um acesso intravenoso com desenvoltura.

As enfermeiras haviam sido dispensadas, apenas Meg continuava trabalhando na casa, porém apenas no horário comercial, quando geralmente Sam estava na Archer. O quarto UTI foi desaparelhado e quase tudo doado para hospitais. Outras coisas subiram para a suíte, enfeiando a decoração, como ela dizia.

Ao lado da cama um armário de aço reluzente, onde medicamentos e materiais eram guardados. Um pequeno refrigerador hospitalar guardava o restante dos remédios, e ao lado uma mesinha de preparo metálica. Atrás da cama, sobre a cabeceira, a parede tornara-se tela táctil, que entre outras coisas avisava o horário da medicação.

Os batimentos de Theo voltavam ao normal, os de Sam também. Que dia intenso, refletia agora a oficial, parada de pé ao lado da cama de edredons brancos. E não estava perto de terminar, a noite apenas começava a dar as caras pelas janelas largas e pela sacada. Escapara com vida das mãos do algoz da namorada, mas não sabia se daria sorte na próxima vez, a certeza de ter uma próxima vez trouxe um calafrio na base da coluna, ele prometera.

– Mas ela está enxergando. – Falou de forma quase inaudível, para si mesma, e essa informação acalmava todo o restante por agora. – E gostou de mim.

***

– Minha criança está enxergando mesmo? Tudinho? – Marcy perguntava eufórica para Sam, na cozinha, ambas preparavam a janta um par de horas depois.

– Tudinho, tudinho, Marcy.

– E ela está dormindo?

– Está, desmaiou antes de chegar na cama. Mas ela sempre acorda nas horas das refeições, acho que ela saiu do coma quando sentiu o cheiro de alguma comida. – Sam riu, sua alegria não cabia em si.

– Nossa Senhora ouviu minhas preces, eu não aguentava ver aquela menina sem enxergar.

– Também fiz uso várias vezes daquela capelinha lá fora.

– Ela vai voltar a quebrar tudo com a bola de basquete.

– Deus te ouça. – Sam enxugou as mãos na toalha e a largou. – Vou lá ver se acordou.

Pela penumbra Sam percebeu que ela ainda dormia, ficou tentada a acordá-la, queria ser vista tanto quanto Theo queria ver.

Deitou em suas costas, a abraçando tão devagar como um espreguiçamento. Encheu seu pescoço de beijos, por fim a acordando.

– Ainda está de jejum? – Sam perguntou.

– Uhum. – Respondeu sonolenta, sem abrir os olhos.

– Fizemos comidinhas, quer comidinhas?

– Todas, se possível. – Deu um longo bocejo, e abriu os olhos. – Como vim parar aqui?

– Você apagou no caminho, te coloquei na cama. Continua enxergando?

Theo virou-se e sentou, a olhando contente.

– Inclusive você. – Lhe roubou um beijo.

– Sente alguma coisa?

– Ainda cansaço, e tontura. E muita, muita felicidade.

Sam riu.

– Então vou trazer a janta aqui.

– Vou descer, quero ver o pessoal.

– Tem energia para isso hoje?

– Pouparei o máximo possível. – Olhou pelo quarto, procurando a cadeira. – Ali.

Já na cozinha, Marcy a abraçava emocionada, Theo idem. Jantou sem pressa, conversou um pouco com Marcy e os outros funcionários.

Subiram após o jantar, Sam a ajudou a tomar banho, mas na sua vez pediu que Theo saísse e fechasse a porta.

Theo saiu um tanto contrariada, de muletas, sentando na ponta da cama. A tela estava ligada à sua frente, mas ao invés de assistir, apenas fitava o chão pensativa, de sobrancelhas baixas.

Minutos depois Sam saiu já vestida do banheiro, lhe dando um beijo na testa e seguindo para a cômoda. Passava um hidratante pelas mãos quando Theo a indagou de súbito.

– Onde você se enfiou essa tarde?

Sam até então estava aliviada por Theo ter esquecido esse acontecimento, mas seus lapsos costumavam se resolver tempos depois.

– Eu fui para a capela do hospital fazer umas orações, e acabei me perdendo na hora, me desculpe o atraso. – Respondeu de bate pronto de costas, era sua resposta previamente inventada.

– Você não estava na capela, Sam.

Sam largou o hidratante sobre a cômoda alta e repousou as mãos sobre o tampo, pensando no que responder.

– Você saiu para almoçar dentro do hospital e voltou mais de três horas depois. – Theo insistiu. – Você não me deve satisfações, mas eu gostaria de ouvir o que de fato aconteceu, porque era um momento importante para mim.

Sam respirou fundo e virou-se para ela, ainda era estranho ter o olhar retribuído, e dessa vez era um olhar inquisidor.

– Elias me manteve com ele durante esse tempo, eu realmente sinto muito por ter me atrasado tanto, mas tenho sorte de estar viva.

A menção daquele nome mudava as feições de Theo de forma drástica.

– Tio Elias? Você estava com ele?

– Ele me levou do hospital para a Archer, num estacionamento pouco movimentado da Archer, ficamos por três longas horas lá, dentro do meu carro.

Theo não falou nada, apenas a encarava abismada.

– E é uma longa história. – Sam exasperou.

– Então faça um bom resumo, porque meu cérebro está com baixa capacidade de funcionamento agora, mas eu quero saber exatamente o que aconteceu.

– Deite, eu vou contar tudo, mas você não vai se agitar, vai ficar calminha me ouvindo.

– Impossível, se isso envolve aquele demônio, não existe Deus no céu que me faça ficar calma.

– Então não vou contar.

– Vai sim. Quer que eu deite? Ok, eu deitarei. – Foi até seu lado na cama e deitou-se recostada na cabeceira acolchoada. – Pronto, quero a versão resumida, mas sem omissões.

Sam sentou-se na poltrona colorida, próximo da cama.

– Há dois meses Elias me abordou na farmácia. Lembra que você pediu para comprar um coletor e voltei de mãos vazias?

– Lembro, você esqueceu de comprar.

– Não, eu fui à farmácia comprar, mas seu tio me abordou.

– Ele te abordou, pessoalmente, no meio de uma farmácia?

– Seu tio é um desgraçado ousado.

– E o que ele queria?

– Me contou que está conseguindo fabricar algo já semelhante ao Beta-E, que em breve fabricará em escala industrial, mas precisa que a Archer rompa os contratos com o governo.

– Romper? Como assim? Cancelar todos os contratos com o governo? São esses contratos que mantém a Archer viva, não tem como isso acontecer.

– Eu sei, eu passei dois meses estudando tudo que envolvia esses contratos.

– O que você pretendia fazer?

– Alguma forma de romper os contratos indiretamente.

Theo arregalou os olhos, uma raiva e indignação subia aos poucos em seu peito.

– Você estava fazendo tudo isso sozinha?

– Estava. – Respondeu envergonhada.

– Mas por que raios você não me contou isso, Samantha? – Theo já estava exaltada.

– Não é nada bom para você se agitar dessa forma, você está se recuperando de uma cirurgia, anda está…

– Eu perguntei por que raios você não me contou nada! – A interrompeu aos berros.

– Para te proteger!

– De quem, de você? Das suas burradas? Você tinha que ter dividido isso comigo!

– Eu não queria levar mais um problema para você, além do mais isso te colocaria em mais riscos.

Theo saiu da cama com suas muletas desajeitadas, andando impaciente pelo quarto.

– Volte para a cama…

– E o que aconteceu hoje à tarde?

– Elias me abordou na cafeteria do hospital, com mais dois homens, e fomos para a Archer, ficamos três horas no estacionamento, por causa do sistema, que só funciona dentro do perímetro da empresa.

– Sistema? Que sistema?

– O sistema da Archer, ele queria acessar com minha ID, ele baixou toneladas de dados, principalmente dos contratos com o governo.

– O que ele vai fazer com isso?

– Eu não faço ideia, mas com certeza vai continuar tentando tirar a Archer da concorrência.

– E ele te soltou, do nada? Te deixou ir embora? – Theo estava parada de pé a sua frente.

– Saímos do estacionamento e dirigi até a rua atrás do hospital, ele prendeu meus braços no volante novamente, e foram embora. Pedi socorro, e uma moça que estava passando cortou a amarra.

– Você não cumpriu a ordem dele, e saiu ilesa?

– Elias prometeu que voltaria a entrar em contato, em breve, ainda precisaria de outros favores, meus e seus, mas não deu nenhum outro prazo.

– Você sabe por que ele precisa de mim? Porque ele ainda não consegue produzir exatamente o Beta-E, a fórmula é dinâmica, mais cedo ou mais tarde ele vai precisar do meu corpo. E vai precisar de suas ajudinhas também, você continuará dando passeios com meu tio, até se tornar inútil e ir para o novo Circus.

– Nós vamos pensar em formas de evitar isso, não vou deixar que ele te pegue.

– Ah, agora você fala em ‘nós’? Antes você achava que o melhor a fazer era resolver tudo sozinha, tentar ser a heroína?

– Eu não quis envolver você, eu estava te poupando. – Sam respondeu com a voz comedida.

– Você não pode me poupar quando o assunto é Elias! Esse assunto é meu! Você nunca resolveria isso sozinha, tinha a obrigação de ter me contado, eu poderia ter tomado providências, você sabia que ele voltaria em dois meses, poderíamos ter armado um contra-ataque, uma armadilha, e agora ele estaria morto, ou eu estaria com meu pé enfiado na cara dele, mas perdemos a melhor oportunidade de nossas vidas! – Theo gesticulava nervosamente.

– Ele é esperto, não se deixaria ser capturado.

– Ele ia ter que aparecer, assim como apareceu de fato! O que você tem nessa cabeça de vento? Me deixou de fora, mas ignorou que vivo naquela merda de empresa desde que nasci, entendo das regras de negócio, eu entendo de Archer, e você? Você não sabe porra nenhuma de Archer, não sabe porra nenhuma de nada! Só sabe matar crianças na Zona Morta, e acha que pode quebrar uma empresa desse porte sozinha?

– Eu… Eu não queira quebrar a Archer. – Sam já parecia transtornada.

– Mas se conseguisse cancelar os contratos, o que acho que você nunca conseguiria, adeusinho Archer! Me contaria quando? Quando os papéis da falência chegassem em minhas mãos?

Silêncio. Theo foi para a porta da sacada, olhando para a piscina.

– Você não pensa, Samantha, você tem ideia do quanto foi irresponsável? É inacreditável!

Algumas lágrimas tímidas surgiram na oficial, que tentava esconder cabisbaixa.

– Vai conseguir consertar isso sozinha? Me diga, vai dar um jeito no pedido do meu tio e na perseguição dele? – Theo insistiu.

– Ainda não pensei nisso… – Enxugou rapidamente o rosto.

Theo bufava olhando para baixo, balançando a cabeça. Quando virou-se para dentro do quarto percebeu o que acontecia. Caminhou até a poltrona, a raiva de Theo era uma das coisas mais efêmeras do universo, diluía em segundos.

– Sam, levanta.

Ela atendeu segundos depois.

– Olha para mim.

Theo enxugou seu rosto com carinho, o semblante irascível tornara-se complacente. Descortinada a raiva, ficava a observação triste de uma mulher acuada e subjugada. Theo sentiu-se mal, sentiu-se opressora, sentiu-se… Mike.

– Sam?

– Me desculpe. – Sam disse com a voz falhosa, sem encará-la.

– Olha para mim.

E a encarou.

– Enxergar você chorando é infinitamente pior que apenas ouvir. Me desculpe por te fazer chorar e fazer você se sentir assim.

Sam apenas concordou movendo a cabeça.

– Esse assunto Elias acaba comigo, é meu ponto fraco.

– Eu sei.

– Vamos encontrar uma solução, juntas. Não chore, tá bom? – Afagou seu rosto com ambas as mãos, e inclinou-se para beijá-la, mas Sam desviou.

– Você vai me morder?

Theo segurou-se para não rir, Sam estava falando sério.

– Não vou morder você, amor. – Theo a beijou de leve, e a abraçou.

– Você não deveria estar perambulando pelo quarto, deveria estar na cama descansando. – Sam murmurou ainda presa no abraço.

– Daqui a pouco eu volto para a cama, ainda estou nervosa com isso tudo. – Separou o abraço. – Ele te machucou?

– Bateu na minha cabeça com a arma algumas vezes. – Disse apontando para a lateral da cabeça.

Theo olhou de perto, correndo seus dedos pelo local.

– Está inchado, você pode ter tido uma concussão, precisa ver isto.

– Acho que não, está tudo bem, só com um pouco de dor de cabeça e dor no local.

Theo beijou delicadamente aquele galo sob seu cabelo.

– Você realmente deu sorte, você estava vulnerável, ele poderia ter te matado com facilidade, ou feito algo com você. Ele fez? Além de bater em sua cabeça? Ele encostou em você?

– Não…

– Tome um analgésico e descanse, tem de todos os tipos e tamanhos naquele armário.

– Se eu tomar você deita comigo?

– Deito.

Sam a soltou e foi buscar o remédio e água, Theo foi para a sacada tomar um ar, ainda estava balançada com aquelas informações sobre seu tio, o mal-estar era avassalador sempre que Elias entrava em seu cotidiano, além de náusea sentia tonturas, a visão ficava turva de tempo em tempo.

Apoiou-se no batente metálico da sacada, contemplando seu enorme complexo de lazer a frente, a piscina em L com luzes amarelas no fundo, alguns quiosques de madeira, e à esquerda podia ver as quadras esportivas, as casas de visitas, alguns jardins floridos.

Sam recebeu uma mensagem de Letícia com todas as orientações que o médico havia repassado enquanto ela estava ausente, lia atentamente enquanto ingeria o remédio.

Theo deu dois passos para o lado na sacada, para contemplar aqueles jardins em frente às casas em formato de chalés marrons, matando a saudade de tudo que havia ao redor, dos anos sem enxergar nada da sua própria casa. Nessa lateral da sacada havia um portão, que dava passagem para a plataforma de saltos, a visão embaralhada a impediu de ver que o portão estava aberto.

As mãos passaram batidas pelo vão que se abriu na direção da estreita passarela de salto, as muletas caíram, fazendo estardalhaço de encontro ao piso cinco metros abaixo. Os braços procuraram desesperadamente algo para se apoiar ou segurar, mas nada encontraram, Theo caiu sobre a passarela, metade do seu corpo para fora, indo na direção do solo abaixo também.

Sam atirou-se em sua direção, a segurando pelas pernas, evitando que Theo despencasse de vez lá embaixo. A puxou para dentro da sacada, Theo apenas conseguia encarar seu rosto, com o coração disparado e um semblante aterrorizado. Sam, ajoelhada sobre ela, correspondia igualmente apavorada.

– Eu quase caí lá embaixo. – Theo murmurou aos gaguejos.

– Sim! O que você estava fazendo nessa sacada, Theodora? Você quase se espatifou lá embaixo!

– Só estava matando a saudade. – Disse, com a respiração rápida.

– Meu Deus, e se eu não tivesse te segurado? Você poderia ter morrido!

– Eu teria me esborrachado, mas não morreria.

– Não? Você acha que essa sua cabeça toda remendada aguentaria uma queda dessa altura? Não era nem para você estar andando de muletas, e nem na sacada!

– Não brigue comigo, eu quase morri.

Sam a encarou séria por alguns segundos, mas por fim riu.

– Você vai acabar me matando do coração, querida.

Theo estendeu os braços, a chamando, Sam a abraçou, no chão da sacada.

– Nada de sacadas por enquanto, ok?

– Desculpe. E desculpe as coisas que falei agora há pouco.

Sam apoiou-se nos braços, a encarando.

– Por que você falou aquilo sobre mim, sobre matar crianças na Zona Morta?

– Desculpe, eu estava zangada.

– Mas por que disse aquilo?

– Eu sei que você fez coisas que não se orgulha enquanto era soldado.

– Você falou com propriedade, o que você sabe sobre isso?

– Naquele dia no laboratório, antes de matar meu pai, ele mencionou isso, lembra? Ele te acusou disso. Eu resolvi pesquisar a respeito, descobri umas missões que você participou e que não terminaram bem, e uma em específico que foi uma barbárie.

Sam estava estarrecida com a confissão.

– Você preferiu pesquisar na surdina do que me perguntar?

– Achei que você não ficaria nada feliz em falar sobre essas coisas. Mas eu não estou te condenando, nunca condenei, sei que vocês apenas seguiam ordens.

– Então não deveria ter atirado isso em mim numa briga… – Sam disse com mágoa.

– Sam, eu conheço você, eu sei que você nunca mataria um inocente ou uma criança por vontade própria, ou sabendo o que estava fazendo. Só não quis trazer esse assunto.

– Eu nunca quis matar nenhum civil, foram acidentes.

– Eu sei disso, não foi sua culpa.

– Da próxima vez converse comigo.

– Pois o conselho é o mesmo para você, da próxima vez divida comigo.

– Vem para a cama, já tomei o remédio. – Sam a levantou do chão, e a ajudou a ir até a cama, já que as muletas estavam lá embaixo.

Aquele longo dia parecia finalmente chegar ao fim. Parecia.

 

Nitidez: s.f.: Estado do que é claro e limpo. Brilho, limpidez.

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comentários

Comments (5)

  1. Patricia

    Theo foi escrota com a Sam, mas seu pior castigo no momento foi se sentir como o Mike. Não imaginava que Sam iria sofrer Gaslighting da Theo, mas quando a mesma fala que ela não sabe de nada, não sabe fazer nada, só mata criancinha fiquei com mt raiva da Theo.. 😀

    Sam só quis proteger a Theo, ou tentar resolver tudo sozinha é errado?

    Bom, é isso ai mesmo. Um dia a gente ama o personagem no outro odeia.
    Mas amor verdadeiro só pela Samantha.

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  2. ADA M DE MELO

    acho que viajei é era a Sam mesmo! mas continuo aguardando o grande final do Elias…

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  3. Gio

    Adorei essas reações de Theo, essa aura de surrealidade que ela parece estar sentindo ao ver Sam com esse sentido a mais, porque ela a via de outras formas, tudo bem, mas achei muito bonito e fofinho isso.

    Na verdade estou gostando bastante dessa recuperação da visão de Theo, era algo muito esperado e está ultrapassando minhas expectativas em um sentido das reações serem diferentes das que imaginei =D

    Tenho uma dúvida.

    Sobre o Beta-E, os contratos da Archer com o governo são para o fornecimento de Beta-E? Estou muito perdida nessa parte, quem sabe eu precise reler algumas partes para me situar melhor.

    Se sim, Theo e Sam tem conhecimento do fato de o Beta-E alienar as pessoas correto? Ou é apenas uma parte das vacinas que provoca o sentimento de resignação e concordância?

    Se elas tem esse conhecimento, elas não pretendem fazer nada a respeito disso? Melhor, Theo não pretende fazer nada a respeito disso? Ou ela ainda não se deu conta em virtude de tudo pelo que tem passado há tanto tempo?

    Eu não entendo. A fortuna Archer é baseada em esquemas ilegais?
    A partir do momento que haja conhecimento disso, não seria conivência continuar com o fornecimento.

    Entendo a preocupação com Elias, achei interessante a reação de Theo com Sam por ter omitido os fatos, na verdade uma reação compreensível e uma atitude incompreensível de Sam em omitir né, sem comentários. Se Sam não der umas mancadas, não é Sam.

    Mas eu estou com dificuldade de assimilar esses contextos da empresa e de Elias. Concordo com Theo, uma cilada para matá-lo teria sido muito interessante.

    Quem sabe eu não esteja compreendendo o contexto de como o governo é, que as forças que governam são as alienadoras e que a Archer é só uma fornecedora e que nada mudaria se ela parasse de fornecer, mesmo assim não entendo a conivência, cada um deveria fazer sua parte, não?

    Quem sabe Theo precise cuidar primeiro de si mesma para depois pensar no resto do mundo e eu esteja esperando demais dela né?

    Mas essas questões ficam me rodeando quando leio e aparece qualquer menção ao Circus, Elias, Beta-E, Archer. =P

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    1. Anex

      Gioooooo,
      Voltemos as origens! !
      Também achei super fofo tb, adorando..ainda q esqueci de colocar aqui.
      Quais reações vc esperava???

      Eu acho que os contratos tb são pra fornecimento do Beta..

      Deve ter algo q ver c alienar, mas sobre o que es la pregunta minha cara Watson!!Hahahaha

      Acho q Theo n moveu o tabuleiro pq n sabia q a coisa tava feia..dps da korte do pai deve ter pensado q tinha tempo, n contava c a astúcia do pai e nem q Sam ia esconder mais uma coisa dela…Sam foi infeliz na sua escolha!!

      Huguezinha, ja viu empresa grande e poderosa fazer negociações legais? Kkkkk

      A reação de Theo foi interessante pq n imaginava q ela fosse se alterar assim, ainda q nos últimos capítulos ela tem mostrado sua grande personalidade e estresse.Elias é o câncer dela…

      se a empresa deixar de fornecer outra fará e a maioria dos negociados que sustentam a empresa vem daí e de mais esquemas c o gov.

      Gio, calma..logo vc entenderá. .essa n é a graça da história dela? Chria de intrigas! !

      Cadê nossa sagitariana.Apareça..ela e suas teorias fantásticas. ..
      Beijos

      Reply
      1. Anex

        Ops…astúcia de Eliasss!!

        Reply

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