Capítulo 33 – Ablepsia

Capítulo 33 – Ablepsia

 

Os quatro chegaram ao estacionamento, se aproximando da pick-up vermelha que Sam dirigia.

– Você dirige, serei seu carona hoje. Meus amigos irão no banco de trás, com duas armas apontadas para suas costas. – Elias disse e entrou no carro.

Sam entrou e pousou as mãos trêmulas no volante, estava apavorada demais para fazer ou falar alguma coisa.

– Vamos, ligue o carro. – Elias pediu.

– O que você vai fazer comigo? – Sam conseguiu falar, com um nó na garganta.

– Eu vou usar você, já que não fez o que pedi.

– Theo está lá em cima me esperando, ela acabou de fazer uma cirurgia para voltar a enxergar.

– Vai ser um tanto decepcionante quando ela tirar os curativos e não te encontrar, não é? – Elias riu. – Vamos lá, ligue o carro e saia do estacionamento, não chame a atenção, não gesticule, não tente nada.

Sam fez o ordenado, saiu com o carro pela guarita do hospital.

– Para onde agora?

– Para a Archer.

Sam o fitou assustada.

– Nós vamos para a Archer?

– Sim, vamos entrar pela guarita dos fundos do estacionamento do subsolo.

Dirigiu até lá, não era longe do hospital. Fez o ordenado, entrando pela portaria de carga e descarga, que era pouco utilizada. Estacionou num canto afastado, ao lado de algumas grandes caixas de madeira.

– Me dê seu comunicador, desbloqueado. – Elias pediu.

Sam hesitou um instante, mas acabou fazendo o solicitado. Prontamente Elias a algemou no volante.

– Não tem nada útil para você aí. – Sam disse.

Elias deslizou os dedos pela tela, a expandindo para o dobro do tamanho. Ajeitou-se no banco do carro e procurava algo correndo os dedos pela tela.

– Esse é o sistema da Archer, correto? – Ele mostrou o comunicador para Sam.

– É sim.

– Vamos acessá-lo, coloque seu polegar na tela.

Elias pegou um outro aparelho menor do seu bolso, e colou atrás do comunicador dela. Alguns módulos do sistema só eram acessíveis dentro do perímetro da empresa, por isso a escolha do local.

– Hum… Vamos desbravar o mundo secreto da Archer e seus contratos obscuros.

– Você não vai conseguir derrubar nenhum contrato através do sistema, eu tentei.

– Não quero derrubar, só quero todos os dados possíveis. Isso pode demorar um pouco, já vou avisando, então procure uma posição confortável, tire um cochilo enquanto eu trabalho.

– Eu só quero voltar ao hospital… – Sam murmurou com agonia em sua voz, quase em pranto.

– Eu li o prontuário, talvez a cirurgia dela não dê certo, não se iluda. – Elias disse, sem tirar os olhos da tela.

– Se não der certo ela vai precisar ainda mais de mim lá.

– Ela se vira bem sozinha.

– Que estupidez a minha, estou falando essas coisas para o desgraçado que a cegou.

– Ela pediu por isso. Confesso, que me arrependo de ter feito, ela desvalorizou uns 30%, perdi dinheiro.

– Você é o ser mais vil e nojento que já tive o desprazer de conhecer. – Sam resmungou, com raiva.

Elias tomou a arma que estava em seu cós e golpeou com o cabo na lateral da cabeça dela, lhe arrancando um grito de dor.

– Seu desgraçado… Seu…

– Fique quietinha, estou trabalhando, cuido de você depois.

***

– Tem algo errado. – Theo disse, estava inquieta em seu leito, fazia mais de três horas que Sam havia descido para almoçar e nada de retornar.

– Será que ela se perdeu no hospital? – Dani disse, todos estavam visivelmente preocupados.

– Eu já rodei esse hospital inteiro, nem sinal dela. – Maritza respondeu, andando pelo quarto.

– Perguntou por ela no restaurante?

– Sim, ninguém se lembra de tê-la visto.

– Olhou a capela?

– Sim, estive lá.

– Onde ela se meteu… – Theo já havia arrancado tudo de seus braços e mãos. – E por que ela deixaria o comunicador off-line? Até deu um jeito de bloquear o rastreador que eu tinha colocado.

A porta se abriu e Doutor Franco entrou, carregando uma pequena bandeja.

– Boa tarde, minha cara Theodora, pronta para o teste final? – Ele brincou, pousando a bandeja numa mesa.

– Já vamos tirar?

– Vamos sim, não está ansiosa por esse momento?

– Ãhn.. Estou, eu estou…

– Algum problema? Contrariou minhas ordens e tentou espiar?

– Não, não tentei. É que Sam sumiu.

O médico olhou ao redor, balançando a cabeça.

– Daqui a pouco ela deve aparecer, não é mesmo? Preciso que você fique sentadinha na cama, com as pernas para fora.

– Ok.

O médico de cabelos grisalhos desgrenhados colocou as luvas e pegou uma pequena tesoura da bandeja, dirigiu-se até o leito e posicionou-se entre as pernas balançantes de Theo, subiu a altura do leito.

– Por baixo da atadura tem curativos, não tente remover, deixe comigo, ok mocinha?

– Sim.

Cortou as faixas e removeu de sua cabeça, largou a tesoura e pegou algumas gazes na bandeja.

– Vou remover os curativos, não abra os olhos ainda.

– Tirou cuidadosamente os curativos, limpou toda a região com as gazes úmidas, largando tudo em seguida. Aproximou-se mais, a fitando de perto.

– Pode abrir os olhos.

Theo tentou abrir, mas foi como se a luz fraca do quarto golpeasse seus olhos severamente. Apertou com força e tentou novamente, abrindo com dificuldade, piscando várias vezes.

Lê, Dani, Maritza e agora também John, acompanhavam apreensivos de pé, em silêncio.

– Vê alguma forma? – O médico perguntou.

Theo corria os olhos apertados de um lado a outro, parecia tentar ainda se acostumar com a claridade.

Finalmente parou o olhar na face cheia de marcas de expressão do médico.

– Doutor Franco? – Theo perguntou.

– Estou aqui.

– Acho que o senhor tem o cabelo estranho.

– Me vê?

Theo apertou os olhos ainda mais forte, tentando focar.

– Acho que sim, está tudo embaçado. É o senhor? – Estendeu a mão, tentando tocá-lo.

– Sim, à sua frente. Enxerga meus contornos?

Não respondeu, continuava tentando focar, com uma expressão séria.

– Enxerga isso? – O médico movimentou a mão aberta a sua frente.

– Sim. – Movia os olhos acompanhando o movimento.

– Ok, me deixe examinar.

Acendeu um pequeno aparelho e apontou para seus olhos, colocando a mão em seu rosto e a examinando minuciosamente.

– Nada de errado na aparência, parece tudo muito bem.

– Acho que a água está indo embora.

– Que água?

– Parece que tem uma cortina de água na frente dos meus olhos, mas está diminuindo.

O médico deu um passo para trás e guardou o aparelho no bolso do jaleco.

– Acompanhe meu dedo.

Correu o dedo de um lado para outro, de cima para baixo, sendo devidamente acompanhado pelo olhar de Theo, que ainda parecia um tanto confusa e assustada.

– Quantos dedos tem aqui?

– Três.

– Quer cor é minha gravata?

– Verde.

– Consegue ler o que está no bolso do meu jaleco?

Theo forçou, mas não conseguiu ler.

– Não, não consigo.

– Tudo bem, provavelmente sua visão vai se acurando aos poucos, você está retreinando as células da retina, acordando seu novo nervo ótico, acredito que tudo tenha corrido conforme o esperado, a princípio.

Theo olhou para o lado, onde seus amigos continuavam silenciosos e tensos.

– Oi. – Theo disse e abriu um largo sorriso.

– Funcionou ou não funcionou? – Letícia perguntou.

– Eu estou enxergando!

– Isso é maravilhoso!

– Lê, quanto tempo não vejo essa sua cara de conquistadora barata!

A médica foi até ela, ostentando um sorriso, parando a sua frente.

– Você está me vendo? Direitinho?

– Estou, eu estou enxergando, Lê. – Mal podia se conter, entre algumas lágrimas.

– Deu certo! – Segurou seu rosto com ambas as mãos e a abraçou.

– Eu estou enxergando… Meu Deus… – Balbuciou, e desprenderam-se. – É tão bom ver vocês!

Olhou novamente para as pessoas ao lado, fazendo o reconhecimento.

– Daniela… – Apontou para a loira. – Maritza… – Apontou para a soldado. – E esse pirralho deve ser John.

– Sou muito mais bonito do que imaginava, não é? – John brincou.

– Uma fofura. – Riram. – Dani eu já conhecia, mas é engraçado ver vocês dois pela primeira vez, é muito legal ver vocês finalmente, eu estou vendo todos vocês! Eu estou enxergando, porra!

– Me vê direitinho? – Maritza perguntou.

Theo enxugou os olhos, e tentou focar seu olhar.

– Numa escala de 1 a 10 em nitidez, eu diria 8.

– E aí, diferente do imaginado?

– Sim, bem diferente da imagem que eu tinha formado. Ritz, você nem tem cara de salsicha.

– Claro que não, isso é coisa da sua namorada louca.

– E fugitiva. – Theo diminuiu o sorriso.

– Ela deve ter uma boa explicação para esse sumiço, talvez tenha saído para comprar algo e se perdeu na hora. – Letícia a acalmava.

Theo baixou a cabeça e enxergou sua mão mecânica. Olhou atentamente enquanto movia os dedos, girou a mão e viu a tatuagem no pulso, levou para mais próximo dos olhos.

– Que coisa malfeita. – Riu.

– Está em condições de ter alta? – O médico perguntou, dando mais uma examinada nela.

Theo o encarou indecisa por uns segundos.

– Sim, eu quero ir para casa, eu posso ir?

– Vou te passar as recomendações e depois você está liberada. Mas nada de sair correndo daqui, você vai usar apenas a cadeira de rodas hoje até a hora de dormir.

– Isso é definitivo, não é? Minha visão não vai sumir de repente, ou quando eu acordar amanhã, não vai voltar a ficar tudo escuro, vai?

– Os primeiros dias serão de avaliação, se a reconstrução dos nervos óticos foi total e permanente, e ainda tem nanobots trabalhando em você, só saberemos do sucesso com o tempo. Quero você de volta aqui dentro de sete dias, e faremos uma longa bateria de exames, então teremos respostas mais exatas.

Theo balançou a cabeça assimilando e concordando com as instruções do médico, e voltou a distrair-se olhando para suas mãos, braços, as pernas movendo pendentes da cama, os dedos abrindo e fechando, estava se percebendo, se reencontrando.

– Theo? –  O médico a chamou.

– Sim? – Respondeu sorrindo.

– Vou repassar as instruções, cuidados, alertas, pode prestar atenção?

– Posso.

– Sua visão estará confusa nos primeiros dias, ela pode pregar peças, você vai ver coisas onde não tem, coisas distorcidas, isso é normal, os nanobots continuam agindo em você. Evite se expor ao excesso de informações nestes dias, não faça passeios, não tente enxergar o que você não enxergou nesse quase um ano de escuridão, vá com calma, aos poucos.

– Irei.

– Não ande sozinha por aí, esteja sempre acompanhada, não ande em terrenos acidentados, ou com obstáculos. Nada de piscina, sacadas, lugares insalubres, fique quietinha em casa nessa primeira semana.

– Não tenho planos de fazer uma volta ao mundo essa semana. – Brincou.

– Já enviei para seu comunicador e o de Sam o restante das orientações e as receitas para os medicamentos, a ordem para hoje é descanso total, você passou por um procedimento delicado, seu lugar é na cama, e se medicando de forma rigorosa.

– Posso assistir a tela?

– Pouco, não abuse. Eu consultei seu prontuário antes de vir para o quarto, está tudo bem, tudo sob controle, seus sinais e índices estão bons, mas comporte-se.

– Então ganhei alta?

– Sim, não precisa sair voando, se quiser deitar e descansar mais um pouco antes de ir, seria uma boa ideia.

– Eu quero procurar a Sam.

– De jeito nenhum. – O médico a repreendeu. – Letícia, vou incumbir você de proibi-la de sair por aí procurando a Samantha, desse leito você vai direto para sua cama em casa.

– Nós vamos procurá-la, querida, deixe com a gente. – Dani disse.

– Juízo, Theo. Se precisar de mim, sabe como me achar. – O médico se despediu, saindo da sala.

– Você está enxergando, garota! – Letícia voltava a vibrar.

– Estou, eu estou. – Theo abriu um sorriso. – E isso é maravilhoso, voltou a olhar suas mãos se movendo a sua frente, de forma encantada.

– Cristo, estou tão aliviada que isso deu certo…

– Espero que seja permanente, tenho tanta coisa para ver…

– Vamos lá, deite-se um pouco. – Dani incentivou, ao lado da namorada.

– Não, eu quero minhas roupas, quero me trocar e ir embora.

– Você não vai procurar a Samantha, desista disso.

– Não vou, prometo que vou direto para casa, só quero me vestir e me mandar daqui.

– Ok, vou pegar suas roupas.

Theo olhava pelo quarto, reconhecendo as formas, os aparelhos, móveis, cores, se maravilhando com a recuperação desse sentido, ainda de olhos molhados.

A porta se abriu e uma mulher entrou, deu alguns passos para dentro do quarto e estancou, fitando Theo que estava sentada na beira do leito alto. Aquele olhar assustado foi correspondido, Theo a fitou de forma igualmente tensa. Um leve sorriso bobo e incrédulo surgia lentamente nos lábios de Theo.

– Sam. – Reconheceu.

Sam nada disse, apenas abriu o mesmo sorrisinho leve, e se aproximou devagar dela.

O mundo parou de girar naqueles segundos de reconhecimento, todo o restante sumiu do campo periférico de visão, os sons se extinguiram como numa paisagem congelada abruptamente.

Theo não precisou de mais do que poucos segundos, dois ou três, para que seu coração palpitasse com tamanha força que sentiu seu peito golpeado de dentro para fora. Uma vontade absurda de chorar subia em sua garganta, mal piscava, por medo se estar sendo traída por seus olhos.

– Você está me vendo?

Theo apenas balançou a cabeça, com os olhos cheios. Era fantástico unir a imagem dela ao som da voz.

– Então deu certo. – Sam disse, ainda com o mesmo sorriso bobo.

Novamente não houve resposta, Theo só conseguia mover a cabeça.

Sam ficou em frente às suas pernas, não fazia ideia do que se passava na cabeça de sua namorada, se ela estava decepcionada ou não, mas agora, naquele momento, só conseguia sentir felicidade plena.

– Samantha, prazer. – Brincou.

Theo estendeu as mãos a chamando para um abraço, braços que cruzaram afoitamente suas costas, um abraço forte, como o torpor em seu coração. E com o abraço vieram as lágrimas que agora caíam em profusão, Theo mal acreditava no que estava acontecendo, seu queixo tremia aos soluços.

– Que bom que você não fugiu com a enfermeira… – Sam falou baixinho em seu ouvido, afagando seus cabelos.

A cada constatação, cada prova de que aquela mulher dentro do seu abraço era a Sam que ela tanto amava, Theo desmoronava mais um pouquinho.

– Hey, olha para mim. – Sam disse e soltou-se dela.

Theo recompôs a postura, ainda sentada na cama, enxugou os olhos e fitou o rosto anguloso que a encarava com uma expressão extasiada.

– Está tudo bem?

– Já disseram que você tem heterocromia? – Foram as primeiras palavras de Theo, arrancando risadas de Sam.

– É, alguém me disse isso.

Theo estendeu a mão direita, correndo devagar seus dedos pelo rosto de Sam, como se casando as informações obtidas por suas mãos com as novas informações visuais.

– Eu estou te vendo… – Theo murmurou, ainda entre lágrimas.

– Foi um sucesso?

– Acho que sim. – Theo fechou os olhos com força, mal acreditando no que estava acontecendo. – Sam, eu estou te vendo, eu estou vendo você, eu estou vendo…

– E isso é incrível, meu amor. – Sam acariciou a mão dela em seu rosto, com um sorriso que não desvanecia.

Theo voltou a abraçá-la, pousando a boca em seu ombro, de olhos fechados. Instantes depois Sam voltou a falar, num tom carinhoso.

– Quer ir para casa?

Theo abriu os olhos, virou um pouco o rosto, enxergando uma cicatriz no pescoço de Sam. Afastou-se um pouco, para visualizar melhor, a visão de perto ainda estava um tanto confusa.

– O que foi? – Sam perguntou.

Theo deslizou dois dedos pelo alto relevo em sua pele, olhando atentamente.

– Sua cicatriz. – Parecia ter feito uma descoberta.

– Tenho outras, mas depois eu te mostro. – Sam riu.

– E aí, Theo, tem certeza que é com essa menina que você namora? – Letícia brincou.

– Eu tive certeza assim que ela entrou no quarto. – Theo respondeu sem entender direito o tom de brincadeira.

– Você me reconheceu rapidinho, não é? – Sam perguntou.

Theo apenas concordou, balançando a cabeça, com aquele ar juvenil das crianças no dia de Natal, enxugando mais algumas lágrimas.

– O que passou por sua mente?

– É a minha Sam. – Riu, e correu sua mão pelos botões brancos da camisa que sua namorada trajava. – Você está com a camisa vermelha que eu gosto.

– Queria aumentar as chances de você simpatizar comigo.

Theo baixou a cabeça, recostando abaixo do queixo de Sam.

– Eu não simpatizo com você, eu te amo. – Theo disse baixinho, de forma abafada.

Uma sensação calmante de alívio correu pelas veias da soldado, que respondeu no mesmo tom.

– E eu também.

Theo voltou a erguer a cabeça, lançando olhos nos olhos, Sam inclinou a cabeça para beijá-la, mas Theo desviou para seu pescoço.

– Está sentindo alguma coisa? Tontura? Dores? – Sam perguntou, com a mão atrás de sua nuca.

– Tudo isso, mas estou razoavelmente bem. – Soltou-se.

– Quer deitar?

– Podemos ir para casa? – Theo ajeitou-se na cama, ainda sentada.

– Você teve alta?

– Tive.

– Com várias ressalvas, depois te repasso. – Letícia disse.

– Vou pegar a cadeira para você.

– Quero me trocar. – Theo pousou a mão em cima da sua pilha de roupas, ao seu lado.

– Aqui ou quer que te leve ao banheiro?

– Banheiro.

Sam a colocou na cadeira e a conduziu até o banheiro. Tirou sua bata azul, a deixando apenas de calcinha, por reflexo Theo cruzou os braços em frente ao corpo, com timidez.

Sam aproximou-se com o sutiã, mas parou antes de colocar.

– Por que você ficou vermelha? – Sam perguntou rindo.

– Não sei… É um tanto estranho.

Sam colocou sua mão no queixo dela, erguendo com carinho sua cabeça.

– Olhe para mim.

Theo obedeceu, a fitando atenciosamente.

– Está na hora de você saber de uma coisa.

– Do que?

– Eu adoro ver você nua.

Theo desvirou o olhar com um sorrisinho sem jeito.

– Vista. – Sam colocou seu sutiã, tomando a calça em seguida.

Vestiu sua calça e a abotoou, sob a observação atenta de Theo, que fitava seu rosto. Vestiu uma camiseta branca e encontrou os olhos da namorada.

– Está se acostumando, não é? – Sam perguntou.

Theo desviou o olhar, sem graça.

– Meu Deus, é você mesmo… – Riu.

– Em carne e osso. E camisa vermelha, que ganhei de você.

– Você fica bem de vermelho, eu sempre soube disso.

– Quer colocar a blusa? – Sam lhe estendeu uma blusa leve de lã bege.

– Está frio lá fora?

– Fresquinho.

Estendeu os braços pedindo pela blusa.

– Sou friorenta.

– Eu bem sei. – Sam deu um beijo em sua testa. – Vamos embora, chega de hospital.

No caminho para casa, Sam dirigia sem pressa pelo trânsito, recebendo olhadelas discretas de Theo, que estava ao seu lado. Dois seguranças seguiam em silêncio no banco de trás, Sam costumava dispensar motorista, gostava de estar ao volante.

Sam a percebia, numa das olhadelas mais longas acabou sorrindo.

– Vai demorar para se acostumar, não é? – Sam perguntou.

– Um pouquinho. – Theo respondeu com um sorriso arteiro, estava exalando felicidade, pousou sua mão por cima da mão dela que estava sobre a coxa.

Sam estacionou em frente a mansão, desceu do carro e foi para o lado do passageiro, como de costume. Theo descia devagar, ajeitando as muletas.

– Não é melhor você usar a cadeira de rodas por enquanto?

– Não, me viro com as muletas.

– O médico não recomendou a cadeira?

– Não, ele não disse nada.

Assim que aprumou-se sobre as muletas, Sam tomou seu braço.

– Desculpe, é o hábito. – Sam disse, soltando seu braço.

– Eu gosto do contato, me conduza.

No pequeno percurso até a larga porta de entrada, Theo deu uma boa olhada ao redor, reconhecendo o jardim e a casa. Ao passar pela porta, fez o mesmo, olhando com satisfação e alegria pela sala, até avistar o piano.

– Eu vou pegar a cadeira no carro, em todo caso. – Sam saiu, voltando segundos depois, e parando de pé junto ao elevador.

Theo ainda olhava com nostalgia o piano de acrílico, as peças, engrenagens, circuitos, cordas, quase tudo no tom cobre ou amarelo. As teclas, o banco comprido de couro amarelo ocre, onde sentou tantas vezes ao lado da mãe. Inúmeras lembranças visuais e sonoras, que a inundavam sem parar nos últimos minutos. Continuou a contemplação silenciosa, ergueu a cabeça e olhou ao redor, a enorme sala com vidro de um lado e papel de parede em tons de vermelho escuro do outro. Mais ao canto um ambiente com sofás negros e macios, aparadores, vasos, obras de artes que custavam alguns milhões. Uma sequência de tapetes com temas geométricos, até chegar na escadaria larga de carvalho escuro. E ao lado o elevador de vidro e aço, com uma bela moça recostada ao lado.

Abriu um sorriso quando a avistou, o sorriso foi retribuído. Voltou a apoiar-se nas muletas e caminhou de forma mais lenta que o normal até ela. Sam queria mais do que nunca entrar em sua cabeça, saber o que Theo estava pensando sobre ela, se o sentimento havia mudado, ou a percepção, ou o encanto. Onde estaria a medida do encanto agora? No olhar sorridente ou no beijo não correspondido?

 

Ablepsia: Med.: Perda ou ausência de visão; Cegueira.

Facebook

comentários

Comments (4)

  1. mel

    hummmmm. tô meio desconfiada com essa Sam… e acho que a theo tá mais ainda… Que bom que a theo tá voltando a ver… foi lindo…

    Reply
  2. Ada melo

    Gente é a Sam mesmo? E elias so liberou a Sam numa boa? Ai cristo so falta essa Sam ser falsa, porque não duvido nada desse trastes.

    Reply
  3. Ana_Clara

    Uau, somente isso pra vc Cris, uau! Não aguento tanta emoção, tanta fofura. Eu realmente não esperava por este momento agora. Na verdade, como tudo sempre é tão complicado para a Theo eu somente pensei que talvez ela sofresse um pouco mais para voltar a enxergar. Foi simplesmente maravilhoso esse momento! E o que foi aquilo da Theo chorando no ombro da Sam, hein?! Eu confesso que me emocionei junto. Nem a angústia desse demônio do Elias estar no capítulo quebrou a magia desse momento único. Oh, meu heart não aguenta tanta emoção! ???

    Reply
  4. Jessica Correa

    Ai, meu deus! Eu não aguento essa coisa linda. Cris, voce quase me mata de susto! Isso nao se faz. Não se faz!!!!

    Tadinha da Sam, ansiosa pra saber o que ela acha dela. Hahahaha
    Ela poderia ter dito que ela é linda logo de uma vez. E por que não a beijou? Também não entendi…

    Reply

Deixe seu comentário